<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	>

<channel>
	<title>Blog dos Perrusi</title>
	<atom:link href="http://www.blogdosperrusi.com/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://www.blogdosperrusi.com</link>
	<description>Crônica, política, doidice, o escambau!</description>
	<pubDate>Mon, 21 Jul 2008 20:07:17 +0000</pubDate>
	<generator>http://wordpress.org/?v=2.5.1</generator>
	<language>en</language>
			<item>
		<title>150 anos da Teoria da Evolução</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/07/17/150-anos-da-teoria-da-evolucao/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2008/07/17/150-anos-da-teoria-da-evolucao/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 17 Jul 2008 11:06:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>perrusi</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=347</guid>
		<description><![CDATA[
O que é a Teoria da Evolução?
Por Perrusi Pai


Em 1º de Julho de 1858, Charles Darwin e Alfred Russel Wallace, de comum acordo, leram duas comunicações, praticamente idênticas, na Sociedade Lineana de Londres. Ambos os naturalistas chegaram à conclusão de que a vida na terra evoluíra, do simples para o complexo, através do mecanismo da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/07/macaco.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-348" title="macaco" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/07/macaco-300x237.jpg" alt="" width="300" height="237" /></a><br />
<span style="font-size: xx-small;">O que é a Teoria da Evolução?</span></p>
<p><strong>Por Perrusi Pai</strong></p>
<div></div>
<p><span style="font-size: small; font-family: arial,helvetica,sans-serif;"></p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">Em 1º de Julho de 1858, Charles Darwin e Alfred Russel Wallace, de comum acordo, leram duas comunicações, praticamente idênticas, na Sociedade Lineana de Londres. Ambos os naturalistas chegaram à conclusão de que a vida na terra evoluíra, do simples para o complexo, através do mecanismo da “seleção natural”. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"> </p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">Na verdade, a idéia de evolução já permeava quase todo o pensamento científico do século XIX. Faltava precisar o conceito e definir os mecanismos naturais que a permitiam. É justamente sobre tais assuntos que os dois naturalistas, já famosos no Velho Mundo, escreveram. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"> </p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">É ainda controverso quem primeiro formulou a teoria da Evolução, se Darwin ou se Wallace. Este último preocupava-se mais com viagens exploratórias, enquanto Darwin, depois de sua célebre viagem ao redor do mundo, a bordo do Beagle, juntava fatos, experimentava com pombos e consultava uma ampla bibliografia.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"> </p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">Contudo, é a publicação (1859) do célebre livro de<span style="mso-spacerun: yes">  </span>Charles Darwin “A Origem das Espécies”, fruto de mais de dez anos de pesquisas, que marca o ponto revolucionário no estudo da natureza vivente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"> </p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">Daí em diante, embora incompleta, a Evolução derrubou, de uma só vez, quase todos os mitos </span><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">criacionistas, explicando com uma simples idéia, que pode ser testada (como de fato vem se fazendo em todos os laboratórios do mundo, inclusive no Brasil), como a vida teria surgido de um ancestral comum. Não se precisava mais da intervenção sobrenatural divina para saber como a enorme variedade de animais e vegetais e, principalmente, a espécie humana teriam surgido no planeta.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"> </p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">Idéia simples, porém altamente perigosa para a ortodoxia religiosa, a Evolução, pouco a pouco, foi conquistando as academias e a mente das pessoas cultivadas, embora muitas vezes não chegasse a destruir a crença em divindades intervencionistas. De fato, a Evolução não explica como a vida surgiu. Nem tenta! Ela simplesmente procura explicar como a vida, já formada, evoluiu de formas simples para formas complexas ao longo de milhões de anos. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"> </p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">O mecanismo descoberto por Darwin e Wallace, em síntese, pode ser descrito como uma adaptação dos mais aptos e, não, necessariamente dos mais fortes (como às vezes se pensa), aos nichos ambientais em que viviam e que variavam ao longo do tempo. Isso quer dizer simplesmente que as espécies que, por acaso ou por necessidade, se adaptavam melhor ao meio ambiente seriam mais capazes de se reproduzir em detrimento daquelas que, incapazes de adaptação, extinguiam-se com mais facilidade.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"> </p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">A poderosa idéia de Darwin, como a denominou Dennet, tornou claro o que estava envolto num manto obscuro de mitos, especialmente, os bíblicos com a célebre estória de Adão e Eva. Se pensarmos um pouco mais, chegaremos a ver que a Teoria da Evolução derruba, igualmente, o mito do “pecado original”, sob o qual se ergue, a partir de Saulo de Tarso e, principalmente, de Santo Agostinho, a própria idéia da salvação cristã.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"> </p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">Por outro lado, tornando legítima, cientificamente, o conceito de Evolução, o darwinismo penetrou em outras ciências, como a Paleontologia, a Paleoantropologia, a Cosmologia e, em conseqüência, a Física e a Química, a Psicologia, a História, entre outras e, especialmente, a Biologia que se completa depois da descoberta dos genes por Mendel. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"> </p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">Sem a Evolução, praticamente a Biologia não subsiste como ciência experimental aceitável, por exemplo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"> </p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">Mas, o caminho da Evolução foi lento e controverso até a década de 1950, quando Ernst Mayr realizou a “grande síntese” das diversas e díspares correntes evolucionistas. Depois disso, com muitas modificações, a Teoria da Evolução passou a ser aceita entre a esmagadora maioria dos pesquisadores, salvo, é claro pelos fundamentalistas criacionistas, hoje aformozados com o seu “design inteligente” que se pretende passar como ciência tanto quanto o evolucionismo biológico.</span></p>
<p><font face="arial,helvetica,sans-serif" size="3"></p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto">Na verdade, a Teoria da Evolução suportou a crítica ferrenha da ortodoxia religiosa durante os últimos 150 anos e, contudo, até hoje, continua gozando de excelente saúde.</p>
<p></font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto"> </p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2008/07/17/150-anos-da-teoria-da-evolucao/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>O medo primordial</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/07/05/o-medo-primordial/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2008/07/05/o-medo-primordial/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 05 Jul 2008 15:02:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>perrusi</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=297</guid>
		<description><![CDATA[
Quando pequeno, era um assassino de lagartixas. Confesso minha crueldade, pois, além de matá-las, antes divertia-me fazendo vivissecções com as coitadas. Procurava sinais de dor de forma compulsiva. As lagartixas não gritam, e tal fato deixava-me maluco. Queria bater no peito e dizer:

_saibam que torturei uma lagartixa, e ela gritava de dor! 

Um belo dia, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="alignnone size-full wp-image-346" title="furias" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/07/furias.jpg" alt="" width="355" height="341" /></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">Quando pequeno, era um assassino de lagartixas. Confesso minha crueldade, pois, além de matá-las, antes divertia-me fazendo vivissecções com as coitadas. Procurava sinais de dor de forma compulsiva. As lagartixas não gritam, e tal fato deixava-me maluco. Queria bater no peito e dizer:</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">_saibam que torturei uma lagartixa, e ela gritava de dor! </span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">Um belo dia, inventei de assá-las lentamente. Foi, nesse momento, que fui pego por minha mãe quando mordiscava uma lagartixa. Ela olhava hipnotizada o rabo do bicho pendente na minha boca. Acho que o rabo ainda mexia, o que era muito engraçado. Ela quase que desmaia quando lhe ofereci, em forma de torresmo, as patas traseiras do bicho (_ali, quase virava infanticida &#8212; confessou, muito tempo depois). Minha família ficou escandalizada, seja com minha crueldade, seja com meu gosto culinário. </span><span style="font-family: Arial;">Meu pai, preocupado com o meu destino, levou-me a um psicanalista. Depois de várias sessões, o vatícinio do seguidor de Freud foi a repetição da acusação tradicional:</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">_o problema é a Mãe!</span></span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">Bem&#8230; er&#8230; talvez, esse especialista da alma tenha razão.</span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">Eu me lembro da paixão por minha mãe. Nessa época, tinha entre três e cinco anos de idade e estava, segundo Sigmund, na fase fálica de meu desenvolvimento libidinoso. Em virtude desse sentimento devastador, cujo movimento levava-me à deriva pelos caminhos dos arquétipos primevos, queria cometer o parricídio para livrar-me de meu pai, ser horrendo e rival eterno que barrava-me o caminho à realização de meu desejo incestuoso.</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">Eu queria minha mãe e a queria falicamente, isto é, meu pênis, antes apenas um objeto assexuado, era agora um objeto fálico. Nessa época, investia no meu pênis-falo um formidável valor narcíseo: tal apêndice era o eixo de minha atividade sexual, o fulcro de meu orgulho egocêntrico e de minha afirmação de onipotência e completitude.</span></span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">A paixão por minha mãe deixava-me completamente exausto, pois mobilizava todo um elenco de sentimentos horripilantes, oriundos das camadas mais arcaicas do psiquê humano: ciúme, inveja, ódio parricida, culpa, tremor e temor, etc. </span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">Além disso, tal situação confundia-me muito, pois sempre acreditara, até então, que <em style="mso-bidi-font-style: normal">só</em><em style="mso-bidi-font-style: normal"> existia </em><em style="mso-bidi-font-style: normal">um</em><em style="mso-bidi-font-style: normal"> </em><em style="mso-bidi-font-style: normal">sexo</em><em style="mso-bidi-font-style: normal">, o </em><em style="mso-bidi-font-style: normal">masculino</em><em style="mso-bidi-font-style: normal">. </em>Para mim, todos os humanos eram portadores de um pênis-falo, mas comecei a notar, no processo passional materno, que minha mãe e as meninas não tinham pênis-falo. Como era incapaz de distinguir a diferença sexual entre um homem e uma mulher, simplesmente permaneci fiel à minha teoria de que todos os humanos tinham pênis-falo, mas que alguns, por infelicidade, e para a minha extrema perplexidade, <em style="mso-bidi-font-style: normal">tinham-no perdido</em>.</span></span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">A angústia &#8212; esse estado arcaico, cósmico, que tanto Heidegger valorizou &#8212; tomou conta de mim, tirando-me o sono, uma vez que estava possuído dos mais escabrosos pesadelos, todos com apenas uma temática: a perda do pênis-falo. Eu tinha medo de perdê-lo, pois tinha descoberto que o poderia perder. T</span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">al descoberta foi crucial e passou a ser o fundamento da minha vida. Eu vivia na perspectiva aterrorizante de ser castrado, visto ter notado que meu pai não tinha perdido o seu pênis-falo, inclusive, muito maior que o meu, e que, provavelmente, ao saber da minha paixão, infligir-me-ia retaliações terríveis, como a castração.</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">Depois de tudo isso, eu desisti, é claro, do meu furor passional por minha mãe. Meu pai tinha ganho, mas eu, pelo menos, tinha conseguido preservar intacto o meu pênis-falo. Contudo, toda desistência passional tem o seu preço e o meu foi adquirir um medo do feminino.</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">Lembro-me bem como era um patinho indefeso, protegido nas asas da pata-mãe. Sentia-me particularmente frágil naqueles dias nos quais ia comprar, por algum motivo materno insondável, roupas novas e era arrastado, dando gritos bestiais, ao cadafalso. Não existe coisa mais terrível, para um menino, do que comprar roupas com a mãe. Ela chega na loja e fica fuxicando com a atendente, olhando pra gente e dando risotas de escárnio, veste-nos mil vezes e nos deixa,<em style="mso-bidi-font-style: normal"> horribile dictu</em>, de cueca na frente de todas as mulheres da loja</span></span><span style="font-size: small; font-family: Arial;">. E quando ensaiava alguma autonomia, mamãe-ganso prontamente assumia o controle, bloqueando-me toda iniciativa semântica e moral.</span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: arial,helvetica,sans-serif;">(Inclusive, passei a usar regularmente cuecas depois de uma dessas idas às compras. A cena é traumática: ao tirar as calças, descobri estarrecido que esquecera as malditas. As mulheres olharam-me com ironia, provavelmente para o meu diminuto pênis-falo, e tive, pela primeira vez, aquela vontade de desaparecer desse mundo velho e enfadado)</span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">Com um passado desses nas costas, imaginem a situação de pânico diante da aproximação sedutora de uma fêmea voraz!</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">Não causa surpresa, pois, que até os 17 anos desconhecesse os rudimentos básicos de comunicação com leoas famintas. Uma vez, por exemplo, na época do científico, uma menina cobiçadíssima, como que por um milagre, escolheu-me como vítima. Não sabia o que fazer, estava nervoso, pensava humildemente só nuns &#8220;amassos&#8221; e pronto, retornando glorioso com a minha conquista. Qual o quê! Ela queria muito mais do que uns simples esfregões no canto do muro. Seu desejo transcendia, e muito, as minhas necessidades ingênuas. Ela queria algo que faria Torquemada condená-la à fogueira</span></span><span style="font-size: small; font-family: Arial;">.</span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">De fato, o demônio ficava me olhando com aquele sorriso voluptuoso de entrega total, bem como na sua testa aparecia, piscando em neon, a palavra &#8220;sexo&#8221;. Eu ria - no fundo de pavor - com um sorriso, digamos assim, não muito inteligente. Sempre, de alguma forma, escapulia. Insuflava-me, então, de coragem e dizia para mim mesmo, de forma retumbante: &#8220;da próxima vez, sim, claro, da próxima vez, quem sabe!&#8221;.</span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">Nunca encostei uma unha nela.</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">Hoje em dia, a coisa melhorou um pouco, mas continua: tenho medo principalmente das psicanalistas. Tais criaturas pensam o óbvio quando reconhecem os desejos animais como o <em style="mso-bidi-font-style: normal">leitmotiv</em><em style="mso-bidi-font-style: normal"> </em>humano<em style="mso-bidi-font-style: normal">.</em> Racionalizam e se apropriam teoricamente dessas pulsões e não param mais de fornicar. Nem sequer aceitam a possibilidade de, nesta ou naquela noite, não terem vontade de copular. Comumente, gabam-se em público de terem experimentado tudo em termos de sexo: &#8220;Já fiz de tudo. Nada do que é genital me é estranho&#8221; - dizem. Sem dúvida, são de causar arrepios&#8230;</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">Diante disso e como não acredito muito na psicanálise, procurei um método mais eficaz e, talvez, bem mais selvagem: busquei a ajuda do Reverendo Tsé-Tsé. </span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">Tive uma conversa interessante&#8230;</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">_Reverendo, o senhor acredita que meu medo tem causas psicológicas?<br />
_Que nada, menino, o medo do feminino é um troço de fundo antropológico. Você apenas retoma, de forma pessoal, esse pavor primevo.<br />
_E mulher mete medo mesmo?!<br />
_</span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">Sem dúvida, a Mulher mete medo, sim; afinal, é um bicho esquisito, todo mês sangra e, além do mais, possui um catálogo de odores e secreções, líquido amniótico que, convenhamos, deixa qualquer um confuso. Aliás, o Papa, quando era chefe do Santo Ofício, perguntava ao seu guarda-costa grego: &#8220;<em>n</em></span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;"><em>ão é do seu arsenal de perfumes lascivos que se utiliza a serpente da corrupção</em>&#8220;?<br />
_Não sei&#8230; Por que a corrupção? Ele falava de decomposição? E a ligação do feminino com a vida, com a fertilidade?<br />
_O Papa é sabido. Uma vez, ele explicou ao seu guarda-costa marroquino que, a</span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">pesar de anunciar no seu ventre a luminosidade da vida, ao mesmo tempo a mulher prenuncia, no preço pago à maternidade, a escuridão da morte. Não é à toa que ela é o símbolo da fertilidade, mas também símbolo do fim da existência. O que é a deusa Hela, da mitologia nórdica, rainha do reino dos mortos? O que são os diversos monstros femininos existentes nas crenças antigas, como mães ogras, como Medéia? Se ela representa a terra-mãe, não esqueçamos, contudo, que essa mesma terra é o solo onde enterramos os nossos mortos.<br />
_ A morte é feminina? Exagero!<br />
_Não, não, o negócio é mesmo confuso. </span></span><span style="font-size: small; font-family: Arial;">O próprio Sigmund reconhecia, quando fumava o seu charuto-falo, que na sexualidade feminina &#8220;<em>tudo é obscuro</em> (&#8230;) <em>e bastante difícil de estudar de maneira analítica</em>&#8220;. Um dia, ele desabafou e confessou que não sabia, afinal, o que as elas queriam. Nunca soube, aliás. A própria Simone de Beauvoir admitia que &#8220;<em>o sexo feminino é misterioso para a própria mulher&#8230;</em>&#8220;.</span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">O Reverendo parou de falar, respirou fundo, procurando alento nalgum lugar da alma, e citou Duby (&#8221;A história do medo&#8221;):</span></p>
<blockquote><p><span style="font-size: 10pt; font-family: 'Courier 10cpi';"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;"><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">Tal</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">enigma</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">, </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">para</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> os </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">homens</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">, aparece de </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">forma</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">um</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">tanto</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">ambígua</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">. </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">Nós</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> a veneramos e, ao </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">mesmo</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">tempo</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">, morremos de </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">medo</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">. Karen Horney, </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">por</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">exemplo</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">, sugere </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">como</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> a </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">fonte</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> do </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">nosso</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">terror</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> o </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">fenômeno</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> da </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">Maternidade</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">. </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">Talvez</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">isso</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> seja </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">verdade</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">, </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">visto</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">que</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> a </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">maternidade</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> remete à </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">Natureza</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> e os </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">seus</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">mistérios</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">. A </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">maternidade</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">, </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">assim</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">, seria a </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">fonte</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> de </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">tantos</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">tabus</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">, </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">que</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> ligaria a </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">Mulher</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> ao </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">mundo</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">natural</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> e a informaria dos </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">seus</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">segredos</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">mais</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">recônditos</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">. </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">Tal</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">ligação</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> faria o </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">elemento</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">feminino</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> representante da </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">Natureza</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">, ao </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">contrário</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> do </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">masculino</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">, representante da </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">Cultura</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">. Somos, </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">então</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">, &#8220;</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">apolíneo</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> e </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">racional</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">por</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">oposição</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> à </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">Mulher</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">dionisíaca</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> e </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">instintiva</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">&#8220;, </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">mais</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> penetrada </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">pela</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">obscuridade</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">, </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">pelo</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">inconsciente</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> e </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">pelo</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;"> </span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">sonho</span><span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-family: Arial;">.</span></span></span></span></p></blockquote>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">_Veja, meu caro, o medo masculino da Mulher não pode ser reduzido, como queria Sigmund, ao temor da castração, pois vai além dele. Pra você ver, estudos antropológicos descobriram mais de trezentas versões do mito da <em style="mso-bidi-font-style: normal">vagina</em><em style="mso-bidi-font-style: normal"> dentata </em>entre os índios da América do Norte. Tudo bem, pode-se dizer que isso é estória de índio; no entanto, na Índia, encontrou-se o mesmo mito, só que numa versão um pouco diferente: a vagina não tem dentes, mas sim pavorosas serpentes.<br />
</span><span style="font-size: small; font-family: Arial;">_Cacetada! &#8212; exclamei. </span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">Vaginas dentadas, pensei, não posso sonhar com isso, não posso sonhar com isso, fiquei repetindo para mim mesmo&#8230;</span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">_Dá medo mesmo, né?! Depois que conheci Marocas, fiquei com medo é da </span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">libido feminina. Confesso a você que tenho pesadelos com a terrível deusa hindu, Kali, mãe do mundo, destruidora e criadora num só tempo, sorvendo minhas energias seminíferas e sacrificando todos os anos litros e litros de minha seiva vital. Já sonhei com uma Amazonas devoradora de carne humana; uma &#8220;Parca&#8221; cortando o fio da vida; uma &#8220;Erínea&#8221; assustadora, louca e vingadora, tão terrível que os gregos antigos &#8220;<em>não ousavam pronunciar seu nome</em>&#8220;.<br />
_Não, não posso sonhar com isso! Tô lascado!<br />
_Sonhou, lascou, meu filho. Seria no sonho que você é pego. Uma vez, quase que morro de tanto sonho erótico. No início, foi bom, depois virou uma maldição. Não aguentava mais. Vivia morto de cansado, acabado, deprimido&#8230; Além do mais, Marocas </span></span><span style="font-size: small; font-family: Arial;">é espantosamente insaciável, &#8220;<em>comparável a um fogo que é preciso alimentar incessantemente, devoradora como o louva-deus</em>&#8220;. Vou te dizer um segredo: acho que ela foi a inventora do sexo. Não sou ingênuo, pois sei muito bem que &#8220;<em>o homem jamais é vencedor no duelo sexual</em>&#8220;. Elas são, isto sim, os juizes de nossa sexualidade, impedindo de nós sermos nós mesmos e de encontrarmos a nossa salvação. Resisto bravamente, pois a Mulher é a carcereira do homem. Sou Ulysses, resistindo às seduções, pois sucumbir &#8220;<em>ao fascínio de Circe é perder a identidade</em>&#8220;.<br />
_Ulysses?!<br />
_Sim, Ulysses. Fiz minha genealogia e descobri que descendo de Penélope!<br />
_É cada uma!<br />
_Pois acredite. Só isso explica minha resistência e minha capacidade em dar conta de Marocas. Mas não tenho ilusão alguma sobre quem manda realmente na cama.</span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">O Reverendo parou, novamente. Pigarreou, baixou a cabeça, puxou-me um pouco para baixo, como se quissesse contar um segredo.</span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">_Uma vez, Zeus e Hera estavam discutindo sobre quem, o homem ou a mulher, tinha mais prazer no coito. Chamaram Tirésias (aquele cujo erro foi flagrar Atena no banho, ficando assim cego), que sabia o segredo de uma Ninfa, e lhe pediram uma resposta. Tirésias prontamente colocou que o prazer tinha dez partes, nove estavam com a mulher e apenas uma respondia pelo homem. Hera ficou fula e quis punir Tirésias, porque isso era o segredo dos segredos, do tipo que os videntes devem menos falar do que custodiar.</span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">Arregalei os olhos. A conversa estava ficando muito estranha.</span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">_Não acredita em mim? A verdade dói? Ora, vamos então comprovar essas teses com a ajuda dos clássicos, fonte de toda a sabedoria! Vejamos o que Ovídio, poeta romano, tinha a dizer sobre esse bicho bizarro, já em 20/10 a.C:</span></span></p>
<blockquote><p><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">O amor furtivo agrada tanto aos homens como às mulheres; o homem dissimula mal, a mulher esconde o que deseja. Se ficasse combinado que nós não tomássemos a iniciativa, a mulher vencida assumiria aquele papel. Nos verdejantes prados, é a fêmea que relincha chamando o cavalo. Entre nós, o desejo não é tão furioso: o ardor dos homens respeita os limites da lei. (&#8230;) Em verdade, será mais fácil os pássaros deixarem de cantar na primavera e as cigarras no verão, será mais fácil o Cão da Menália voltar as costas à lebre, do que a mulher resistir às delicadas insinuações de um jovem.</span></span></p></blockquote>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">_Meu Deus, o Cão da Menália &#8212; disse, desconsolado&#8230;<br />
_Presta atenção. Ovídio é ingênuo ao pensar que a Mulher é passiva, ao ponto de esperar a nosso abiscoitamento para, então, tomar a iniciativa. Na verdade, a Mulher dissimula e finge passividade, pois como disse o nosso poeta, ela <em style="mso-bidi-font-style: normal">esconde o </em><em style="mso-bidi-font-style: normal">que</em><em style="mso-bidi-font-style: normal"> </em><em style="mso-bidi-font-style: normal">deseja</em>. Assim, Bernard Shaw via a passividade feminina na da aranha, que ocupa toda a rota do mosquito com a teia e espera que o mesmo caia e &#8220;insinue&#8221; que possa devorá-lo.<br />
_Rapaz&#8230;<br />
_Pois é&#8230; </span><span style="font-size: small; font-family: Arial;">Creio, assim, que o teu medo do feminino é bem fundamentado.<br />
_Realmente, é pra ter medo mesmo&#8230;</span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">O Reverendo fechou os olhos. Abriu a boca lentamente. Queria dizer algo? Pegou na garganta, como se quissesse puxar as palavras de dentro. Fitou-me bem sério e sussurou, olhando os lados:</span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">_Eu nunca entendi</span><span style="font-size: small; font-family: Arial;"> a necessidade da sexualidade. É muito estranho. A nossa reprodução é feita por um órgão que só existe pela metade, fazendo-nos gastar muita energia e tempo à procura da outra metade. </span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">Por que é necessário juntar dois para gerar um terceiro e não apenas um gerando dois? </span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">Pergunta primordial.</span></span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">Balançou a cabeça e eu, sem querer, balancei a minha mais ainda. Aumentou o tom da voz:</span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">_Pense bem, a sexualidade não é uma condição necessária à vida. Existem numerosos organismos que não tem sexo e que, contudo, parecem bastante felizes. Reproduzem-se por cissiparidade ou gemulação. E por que não sucede o mesmo conosco? E por que dois sexos e não três? Imagine um mundo onde houvesse a necessidade de três indivíduos para a produção de um ser humano. Imagine as conseqüências de tal situação nos roteiros de cinema, na clínica psiquiátrica e para os juristas! Mas, talvez fosse demasiado; talvez não agüentássemos tantas delícias e tormentos.</span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">Comecei a rir. Os psiquiatras ficariam ricos!</span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">_Não ria. Isso é sério. Estive estudando alguns mitos e descobri que alguns consideravam a dualidade sexual como um fenômeno secundário. O que foi criado era um; somente depois se tornou dois. Mas quem quebrou então a unidade original? </span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">Para os Upanishads é o Deus que, querendo fugir à sua solidão, transforma-se em duas metades, dando origem à Humanidade. </span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;">Em Zaratustra, Yima, o ser criado pelo demiurgo, representa uma espécie de monstro bissexual, que é cindido em dois. </span></span><span style="font-size: small; font-family: Arial;">Aristófanes, no <em style="mso-bidi-font-style: normal">Banquete</em> de Platão, descreve uma humanidade ainda no estado de androginia. Ah, era um tempo que só existia putaria entre os deuses e as deusas no Olimpo - profundos conhecedores do sexo! Nós éramos organismos esféricos e tínhamos uma cabeça de duas caras, quatro pés, quatro mãos, quatro orelhas e uma dose dupla de &#8220;partes vergonhosas&#8221;. Zeus, diante de tão descabidos seres, resolveu cortá-los em dois &#8212; &#8220;<em>como se corta um ovo com uma crina</em>&#8220;, precisaria, depois, Platão. Apolo foi encarregado da cirurgia estética, deixando-nos mais modestos, mas não menos apresentáveis.</span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">Os olhos do Reverendo estavam rútilos. Já esbravejava. Ficou em pé. Apontou o dedo na minha direção e disse:</span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">_Leia, seu ateuzinho, seu ímpio, o </span><span style="font-size: small; font-family: Arial;">Velho Testamento. Tá tudo lá! O</span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Arial;"> culpado da perdição de Adão, que era feliz apenas como um, mas infelizmente se tornou dois, foi a Serpente, que através de sua persuasão feminina, induziu Deus, esse pobre eunuco, a retirar Eva do nosso valoroso antepassado. </span></span><span style="font-size: small; font-family: Arial;">O que é a vileza rastejante senão a personificação profana e terrestre da Mulher? </span><span style="font-size: small; font-family: Arial;">A Serpente, que há muito tempo dominava Deus, queria dominar o Homem, criatura ainda indomável à maldade; assim, transmudou-se em Mulher e, desde então, o homem é apenas um reles animal servil. A Mulher e a Serpente são a expressão de uma mesma natureza e seu poder advém do sexo.</span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">Houve um momento de silêncio. As palavras do Reverendo causavam tempestades na minha alma. Não quero sonhar, não quero sonhar, repetia, repetia&#8230; Quando parecia que o Reverendo retomaria o fôlego e, para o bem ou para o mal, a conversa, não mais do que de repente, Marocas entra na sala. Pensei que o pior aconteceria naquele momento. Tudo indicava que o Reverendo jogaria o Velho Testamento na cabeça de Marocas e a chamaria de Serpente vil e rastejante; mas, qual o quê, para minha surpresa, o Reverendo deu um sorriso quase celestial, seu rosto iluminou-se e disse meio encabulado, meio reverente:</span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">_Môzinho, você chegou! Que bom! Tava com saudade! Você quer que eu faça um cafezinho, quer?!</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: small; font-family: Arial;">(&#8230;)</span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">Já de noite, escovava os dentes e olhava o espelho do banheiro. Pensava muito, o que é contraproducente quando se escova os dentes. Não queria dormir. Não queria sonhar com vaginas dentadas.</span></p>
<p><span style="font-size: small; font-family: Arial;">_Os homens são covardes&#8230;</span></p>
<p class="MsoFootnoteText" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><span style="font-size: small; font-family: Arial;">Foi meu último pensamento inteligível, antes de ser devorado por gigantescas vulvas de caninos afiados.</span></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2008/07/05/o-medo-primordial/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>1958</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/30/1958/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/30/1958/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 30 Jun 2008 23:19:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>perrusi</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=344</guid>
		<description><![CDATA[Artigo muito legal de Alberto Helena Jr. sobre os jogadores campeões do mundo de 1958. Aliás, querendo assistir ao vídeo completo do jogo, cliquem aqui. Digo logo que vi o jogo inteiro. No início, até que a Suécia resistiu, mas depois...  Curiosamente, o jogador que mais me impresionou não foi Pelé, nem  mesmo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/1958brasil.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-345" title="2000091330030" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/1958brasil-300x216.jpg" alt="" width="300" height="216" /></a>Artigo muito legal de<strong> <a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/esportes/opiniao/alberto_helena_jr/" target="_blank">Alberto Helena Jr</a></strong>. sobre os jogadores campeões do mundo de 1958. Aliás, querendo assistir ao vídeo completo do jogo, cliquem<strong> <a href="http://www.svt.se/content/1/c8/01/18/18/27/080628SVEBRAVM58.asx" target="_blank">aqui</a></strong>. Digo logo que vi o jogo inteiro. No início, até que a Suécia resistiu, mas depois&#8230;  Curiosamente, o jogador que mais me impresionou não foi Pelé, nem  mesmo Garrincha, mas sim&#8230; Didi! Que classe, que altivez! Incrível sua capacidade em dar um passe sempre bonito e certeiro. Outro que me surpreendeu foi Vavá. Não esperava que fosse habilidoso, achando que era um centroavante mais rompedor, qualquer coisa do gênero &#8212; ele voltava, inclusive, muito ao meio-campo para recuperar a bola.</p>
<p>Lá vai o texto:</p>
<p><span style="color: #ff0000;"><strong>1958: HERÓI POR HERÓI</strong></span></p>
<p><strong><span style="color: #008000;"> Convido o jovem amigo, que não teve a felicidade de ver em ação os craques do Esquadrão de Ouro, aquele que nos deu a primeira Copa do Mundo, em 58, a uma breve e superficial incursão á história e ao estilo de cada um dos heróis inesquecíveis que entraram em campo na Suécia.</span></strong></p>
<p><span style="color: #808000;"><strong><span></span><span style="color: #008000;">Gilmar dos Santos Neves, de talhe esbelto, tipo Van der Saar, embora mais baixo - alto, porém, para a média de sua geração (a turma cresceu, meu amigo, neste meio século passado) - era uma pluma flutuando diante do arco. Reflexos apuradíssimos, elástico, elegante em seus vôos de um canto ao outro de sua meta, era dono de forte personalidade e líder nato.</span></strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>Surgiu no Jabaquara de Santos, no início dos 50, e transferiu-se para o Corinthians, como contrapeso, dizia-se, de Ciciá, volante de toque refinado que não deu certo no Parque. Gilmar disputava posição com Cabeção, egresso do Maria Zélia, glorioso time de várzea paulistano, e sofreu seu primeiro grande revés naquele célebre 7 a 3 da Portuguesa de Julinho, Renato, Nininho, Pinga e Simão. Afastado do time, perdeu para Cabeção a chance de ir à Copa da Suiça, em 54, mas se recuperou numa excursão vitoriosa do Corinthians pela Turquia e cercanias.</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>Outra excursão, desta vez á Europa, consolidou sua posição, em 1956, na Seleção Brasileira. Apesar das tragédias de San Siro e Wembley, quando o Brasil caiu fragorosamente diante de Itália e Inglaterra, Gilmar pegou dois pênaltis cobrados pelos ingleses.</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>Pra mim, o melhor da posição em todos os tempos. Em 59, transferiu-se para o Santos e formou na maior equipe de futebol de todos os tempos e quadrantes. Foi bicampeão mundial em 62, pela Seleção, e, no ano seguinte, pelo Santos.</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>De Sordi, que jogou todas as partidas da Suécia, até Djalma Santos substituí-lo na final, veio do XV de Piracicaba para o São Paulo, em 1952, e logo recebeu o apelido de Tourinho: baixinho, taludo, era um lateral-direito quase intransponível, que atacava pouco, mas bem. Canhoto, no entanto, capaz de trabalhar com a destra sem maiores problemas, tinha grande impulsão para o cabeceio e era aquele pau pra toda obra.</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>Já Djalma Santos era um monstro sagrado, desde a Copa de 54, quando foi eleito o melhor lateral-direito daquele campeonato pela imprensa mundial. Negrão forte, veloz, marcador implacável, gostava de atacar muito, e era exato nos cruzamentos. Foi titular em 62 e chegou até a disputar a Copa do Mundo de 66, já veteraníssimo,</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>Bellini, que mais tarde veio para o São Paulo, fez nome no Vasco, formando com Orlando, duro, mas mais técnico, a parelha de zaga do Brasil na Suécia. Bellini, alto, forte, era o que hoje se chama de Deus da Raça. Perfeito pelo alto. Já Orlando, mais atarracado, tocava melhor a bola e tinha um senso de colocação invejável. Jogou também na Itália e no Boca Juniors, onde até hoje é lembrado.</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>Na lateral-esquerda, Nilton Santos, a Enciclopédia, e isso resume tudo. Embora destro, dominou aquele espaço na esquerda durante quase vinte anos, com uma elegância de gestos sem par, uma inteligência luminosa e um domínio de bola diabólico, senão angelical. Foi Botafogo a vida toda e outras mais.</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>Dino Sani, que começou como titular, era um meia-armador que foi recuado para a posição de volante, o que lhe permitia, vindo de trás, explorar suas melhores qualidades: fôlego, centro de gravidade incrível (derrubar Dino era tarefa para mestre Bimba, rei da capoeira), visão de jogo, passe correto e chute de longa e média distâncias primoroso. Dino jogou no Comercial da Capital, no Palmeiras, no São Paulo, no Milan, no Boca e no Corinthians, que eu me lembre.</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>Zito, que entrou em seu lugar no jogo contra a União Soviética, foi do Taubaté para o Santos onde entregou sua vida, por quase vinte anos. Eclético, podia jogar, como jogou, de meia, volante, quarto-zagueiro e até de lateral, esquerdo ou direito. Veloz, hábil (driblava fácil na corrida, marcador firme, quando não maldoso, e incansável, era ali como médio apoiador, o volante atual, que ele se sentia mais à vontade. Líder por excelência, Zito foi fundamental não apenas na conquista de 58 como também em 62, quando encerrou sua participação com um gol de cabeça na decisão com a Checoslováquia.</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>Ao lado de Zito, na armação, Didi. Mestre Didi. Um dos maiores jogadores de futebol que já vi. Fala-se muito nos dribles de Garrincha, na genialidade de Pelé, nos gols de Vavá, na solidariedade de Zagallo, mas o grande arquiteto do título foi Didi, eleito o melhor jogador da Copa de 58.</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>Foi do Madureira para o Fluminense, e acabou sendo execrado na Copa de 54. Diziam que era um cai-cai. Frio, calculista, Didi, porém, jamais deixou de suar a camisa. No início, era um meia que esbanjava habilidade, driblador, sem nunca perder a pose: tronco reto, fronte erguida, olhar agudo para descobrir espaços onde só havia congestionamento.</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>Com o tempo, Didi, já no Botafogo, reduziu a velocidade em campo e conteve seus dribles ao essencial, afiando o passe, o lançamento mágico e o posicionamento em campo, que lhe permitia ser um extraordinário ladrão de bola a partir de sua própria intermediária.</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>Joel, ponta-direita veloz e cumpridor, embora não fosse brilhante, era de uma utilidade sem par, inclusive na volta para combater o lateral-esquerdo que avançasse (já avançavam, sim, naquele tempo, ao contrário do que muitos supõem hoje em dia). Trocou o Botafogo pelo Flamengo, numa transação tumultuada, e na Gávea construiu sua legenda.</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>Garrincha, ora, Garrincha. Garrincha era o gênio intuitivo. Pernas tortas (os dois joelhos confluíam para a esquerda), cabeça de passarinho, conseguia o prodígio de praticar, ano após ano, o mesmo drible pela direita, e ninguém o alcançava naquele arranque curto e fatal. Cruzava com maestria e batia bem na bola tanto com a direita como com a sinistra. Foi Botafogo até começar a definhar no Corinthians, no Flamengo&#8230;</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>Vavá, pernambucano de boa cepa, começou como meia-esquerda, ponta-de-lança, o que lhe conferia nível suficiente de habilidade. Mas, era, basicamente, o Peito de Aço, o artilheiro por natureza e vocação, rompedor, destemido, rápido na conclusão da jogada de área e bom de cabeça. Jogou no Vasco, foi para a Itália, e voltou ao Brasil para encerrar seu ciclo superior na Academia do Palmeiras dos anos 60.</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>Já Mazzola, cujo apelido foi herdado do grande meia italiano dos anos 30/40, era um tipo encorpado, loiro, rosto quadrado, parecia um tanto desajeitado quando começou a dar seus rushes num Palmeiras em baixa, nos meados dos anos 50. Ainda menino, chegou ao Parque Antártica em meados dos anos 50, e logo ganhou fama com suas arrancadas a partir do meio-de-campo e gols em penca. Tanto podia ser meia ponta-de-lança como centroavante. Transferiu-se naquele mesmo ano, depois da Copa para a Itália, onde até hoje é reverenciado como o Grande Altafini.</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>Dida explodiu como artilheiro daquele Flamengo tricampeão carioca, sob o comando de Fleitas Solich. Rápido na conclusão das jogadas, era um meia ofensivo, pela esquerda, que muito se aproveitou da genialidade do outro meia, Rubens, o Dr. Rúbis, que lhe enfiava bolas mágicas, jogo após jogo. Depois, Dida veio para a Portuguesa, onde também fez sucesso ao lado de Henrique, o centroavante que o acompanhou em muitas jornadas anteriores do Fla.</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>Pelé, passo. Nada a acrescentar a todos os compêndios que tratam desse verdadeiro fenômeno do século XX e seculorum. Aos 17 anos de idade, dado como impossibilitado de disputar a Copa pela grave lesão sofrida no jogo de despedida do Brasil, contra o Corinthians, entrar em campo contra a União Soviética e, no jogo seguinte, com o País de Gales, meter aquele gol salvador com dois chapéus sobre os beques dentro da área, o silêncio é mais eloquente.</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>Por fim, Zagallo, um prodígio de sorte e competência. O preferido de Feola era Canhoteiro, o Garrincha da esquerda, que jogava pelo São Paulo. Mas, boêmio, Canhoteiro escapou de uma concentração e levou o cartão vermelho da comissão técnica. A vaga, pois, seria de Pepe, o Canhão da Vila, ponta-esquerda lépido e fulminante nos chutes a gol. Pepe, porém, às vésperas da Copa, ao sair do chuveiro, pisa mal no tamanco e torce o tornozelo. Deu Zagallo, o Formiguinha, que começou no América como um meia-esquerda driblador, para se transformar num ponta-esquerda solidário, tanto no Flamengo quanto no Botafogo. E, com direito, a gol na decisão da Copa de 58.</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000;"><strong>Com disse, amigo, uma breve e superficial incursão na história e nos estilos dos nossos heróis de 58. Mas, para seu governo, eles foram mais, muito mais.</strong></span></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/30/1958/feed/</wfw:commentRss>
<enclosure url="http://www.svt.se/content/1/c8/01/18/18/27/080628SVEBRAVM58.asx" length="225" type="video/x-ms-asf" />
		</item>
		<item>
		<title>A alegoria bíblica: uma interpretação.</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/29/a-alegoria-biblica-uma-interpretacao/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/29/a-alegoria-biblica-uma-interpretacao/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 29 Jun 2008 15:00:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>perrusi</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Antigo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=341</guid>
		<description><![CDATA[
Refrescando a cuca, escreverei baboseiras. Nada como abobrinhas para esquecer o Santinha. Rimou!

Um pouco sobre a alegoria bíblica...

Como se sabe, os quatro personagens (Jeová, a Serpente, Adão e Eva) do "pecado original" orbitam em torno de um mesmo objeto: a maçã. Afinal, o que é a maçã?

O paraíso, pensando bem, é o reino das necessidades [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/eva.bmp"><img class="alignnone size-full wp-image-342" title="eva" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/eva.bmp" alt="" /></a></p>
<p>Refrescando a cuca, escreverei baboseiras. Nada como abobrinhas para esquecer o Santinha. Rimou!</p>
<p>Um pouco sobre a alegoria bíblica&#8230;</p>
<p>Como se sabe, os quatro personagens (Jeová, a Serpente, Adão e Eva) do &#8220;pecado original&#8221; orbitam em torno de um mesmo objeto: a maçã. Afinal, o que é a maçã?</p>
<p>O paraíso, pensando bem, é o reino das necessidades objetivas absolutamente satisfeitas. É um mundo antiliberal, por natureza. Não há notícias de Friedmans no Paraíso. Lá, as carências são satisfeitas imediatamente, não havendo a necessidade de trabalhar. Todo almoço é grátis. Adão, rei da preguiça — paradigma perfeito do &#8220;perrusi&#8217;s way of life&#8221; —, é um ser objetivamente satisfeito, com todas as suas necessidades biofísicas atendidas. Ele diz o que digo sempre quando olho a praia de Intermares: _<em>O que eu quero mais na vida do que isto</em>? Ele sabe que o paraíso foi uma dádiva e não uma conquista, mas não sente culpa da sua sorte. Acha a mentalidade empreendedora uma imbecilidade.</p>
<p>_Acho uma besteira! — diz aos coelhinhos em volta.</p>
<p>Adão identifica-se profundamente com esse modo de vida, pois adora a estabilidade, a abundância e a calmaria, rejeitando, portanto, a preocupação e a instabilidade. Não existe liberdade em tal ambiente, porque ela, simplesmente, não é necessária; além do mais, Adão é, com toda razão, um grande acomodado. Liberdade é, sem dúvida, incompatível com qualquer paraíso, visto representar necessariamente incerteza, pluralidade, escolha, etc. e tal. Ele sabe do preço que pagaria por ser livre e não dá a mínima à autonomia,  à democracia e à igualdade.</p>
<p>_Pra quê? — sempre pergunta aos girassóis ao seu redor.</p>
<p>Tais coisas nunca interessaram Adão. Acaso existisse sufrágio, sempre votaria em Jeová, feito um castrista que vota sempre em Fidel, ao ponto de ser completamente contra eleição no paraíso. Nosso antecessor é um vigoroso adepto do totalitarismo. Ele é a favor da ditadura da unanimidade, que representa a consciência absoluta da única determinação fundamental no Éden: as leis do Senhor.</p>
<p>Porém, nem tudo é paraíso no paraíso, pois existe uma força cósmica, um tanto indefinida, que se alimenta do acaso e do caos, protagonizando a desordem — não, não é a entropia — e se intrometendo na Criação. Algo que tem as suas próprias leis e que quer submeter as coisas a seus ditames, inquietando Jeová, com a sua ação subversiva. Tal força diabólica seria representada pela Maçã — inclusive, não se sabe como ela surgiu no paraíso, mas podemos, usando a hermenêutica, ler nas entrelinhas do Gênese que seu surgimento cronológico coincide com o aparecimento de Eva.</p>
<p>Ao mesmo tempo, o veículo de tal força seria a Serpente: entidade que tem a sedução como sua qualidade mais evidente e usa a linguagem de forma inovadora, sem conectá-la a imperativos de verdade, como faz Jeová e Adão. Estes não sabem mentir, ao contrário da Serpente, a primeira a utilizar a palavra como forma de poder. Foi tal criatura que convenceu Jeová a criar a Mulher com um aparato genital superior em quantidade e qualidade ao do Homem. Assim, as necessidades sexuais de Eva nunca serão supridas por Adão, o qual, aliás, não se interessava tanto por isso, gerando uma coisa, até então, inédita no Éden: a insatisfação. Devido à sua superioridade biológico-sexual, Eva nunca se saciará com Adão, tornando-se frustrada sexualmente e, portanto, trazendo dentro de si uma base arcaica para uma insatisfação geral e difusa com tudo e com todos — não, não tem nada a ver com TPM. Insatisfeita, Eva desejará.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/adaoeva.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-343" title="adaoeva" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/adaoeva.jpg" alt="" width="330" height="300" /></a></p>
<p>Sim, Eva será possuída por essa força cósmica: o desejo.</p>
<p>Nesse sentido, a Maçã será a prova do desejo &#8212; pra que comê-la, se as nossas determinações vitais estão satisfeitas? Adão, por exemplo, nunca se preocupou com a Maçã, porque não tinha essa necessidade. Estava na sua, numa boa e não se inquietava com isso. Não existia nenhum motivo racional para comer o fruto proibido. Era preciso algo mais, algo transcendente para perverter uma vontade, como a de Adão, tão adequada às necessidades objetivamente saciadas. Assim, era necessária uma outra vontade — insaciável, insatisfeita, afirmando o que não existe ou o que não se tem — a vontade do desejo.</p>
<p>Além do mais, era proibido comer a Maçã. A ordem era evidente. Pra que desobedecer? O ato de comer a maçã, por estar ausente das determinações vitais de Adão, constituiria um ato de autonomia em relação a Jeová. Um ato que realizaria um desejo.</p>
<blockquote><p>&#8220;A autonomia do desejo, justamente por escapar ao controle das leis objetivas do Senhor, é caracterizada pela alegoria bíblica como uma falsa autonomia, pois não seria imanente à criatura, mas implantada por uma pretensa força cósmica a-racional. Assim, o desejo seria fonte de escravização humana a uma força do Mal. Enquanto a conformidade com as leis objetivas do Senhor, essa sim, seria a fonte de uma liberdade adquirida pela redução de todo o Bem ao reino das necessidades objetivas satisfeitas&#8221; (Nélson Levy: &#8220;Desejo&#8230; o lugar da liberdade&#8221;).</p></blockquote>
<p>Lembro que, na tradição greco-latina, desejo significa <em>desiderare</em>, que vem da palavra <em>sidus</em>, <em>sideris</em>, que quer dizer astro, estrela. Antigamente, os romanos recorriam, para perscrutar o seu futuro, aos adivinhos e aos arúspices, que liam as mensagens vindas dos astros, como fazem, inclusive, os nossos modernos astrólogos. Eles então consideravam — <em>considerare </em>—, isto é, levavam em consideração o que diziam os astros. Assim, <em>desiderare </em>significava desistir dos astros, representando uma situação na qual impera o pessimismo. Os romanos tinham, dessa forma, a certeza da ausência e da impossibilidade de realização do seu desejo; portanto, desistiam de olhar os astros e de especular sobre o futuro. O desejo foi, assim, considerado algo cuja determinação não possui nenhuma relação com os sistemas determinísticos usuais — sejam provenientes de uma razão divina ou de uma última instância qualquer. O desejo, na tradição cristã e no racionalismo, é uma não-determinação objetiva: &#8220;<em>o lugar de uma liberdade perversa e destrutiva, quando não libertina e até mesmo liberticida</em>&#8220;.</p>
<p>Adão caiu nessa, embora não mostre arrependimento. No mínimo, é ambíguo. Por isso, essa nova vida não o impede, desde a expulsão, de sentir saudade do Paraíso. Deseja muito Eva, é verdade, mas se pergunta, principalmente quando ela está dormindo, se tudo valeu a pena. Gosta de olhar Eva entregue ao sono. Lembra dos coelhinhos e dos girassóis do Paraíso. O motor do desejo parece um anjo — pensa. E, toda vez que a olha, reflete sobre um velho enigma que assola feito uma peste bubônica a sua mente.</p>
<p>Por que Eva fora tirada exatamente da sua costela, já que Deus podia ter usado um pedaço de madeira, uma pedra ou qualquer outra matéria? Aquela costela estava sobrando? Inclusive, ele vivia se apalpando procurando algum indício. Porém, se não estava sobrando costela alguma, por que então ele estaria sendo privado, por Deus, de parte essencial de seu corpo, dado não ser concebível que, desde o início, estivesse presente no corpo humano algo supérfluo. Ou ele tivera treze costelas de um lado e doze do outro? Fora uma espécie de monstro, como os homens que têm três mãos e três pés? (Robin Lane Fox: &#8220;A Bíblia, verdade e ficção&#8221;).</p>
<p>Toda noite pensa nisso, adormece com isso, mas nunca sonhou isso. Está cansado da sutileza das sensações inúteis e das paixões violentas por coisa nenhuma. Na próxima eleição, como sinal de protesto, Adão votará nulo&#8230;</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/29/a-alegoria-biblica-uma-interpretacao/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>Desabafo coprolálico</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/27/desabafo-coprolalico/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/27/desabafo-coprolalico/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 27 Jun 2008 15:00:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>perrusi</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Antigo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=340</guid>
		<description><![CDATA[:mrgreen: Acho que não estou muito bem. Meu humor está péssimo. Preciso desabafar. Não serei sutil. Não sei definir o que me atormenta, mas deve ser pesado. Para o bem ou para o mal, recorrerei ao blog. Ele não serve para expor publicamente as entranhas? Não é um diário? Um espaço de confissões? Bem,  [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> <img src='http://www.blogdosperrusi.com/wp-includes/images/smilies/icon_mrgreen.gif' alt=':mrgreen:' class='wp-smiley' /> Acho que não estou muito bem. Meu humor está péssimo. Preciso desabafar. Não serei sutil. Não sei definir o que me atormenta, mas deve ser pesado. Para o bem ou para o mal, recorrerei ao blog. Ele não serve para expor publicamente as entranhas? Não é um diário? Um espaço de confissões? Bem,  o problema é que as entranhas, convenhamos, são regressivas, infantis. Mesmo assim, decidi confessar um lado <em>caché </em>que só íntimos não desconhecem. Tornar público um <em>pathos</em>.</p>
<p>Bora lá: sou um grande entupidor de banheiros, o mestre da latrina entupida! Já perdi amizade por causa disso, o que acho injusto, pois não tenho culpa da minha natureza. A culpa é dos meus genes. A <em>Veja </em>já demonstrou que existe um gene <em>cagatorium</em>, localizado na décima hélice do nosso genoma. Tenho o que, tecnicamente, pode ser chamado de <em>pulsão de excremento</em>, que cheira bem mais do que a velha conhecida <em>pulsão de morte</em>, pelo menos imediatamente. Pode ser exibicionismo, mas é uma das poucas coisas que faço em abundância, com generosidade. Mas, paradoxalmente, nunca estive em harmonia com o ato de obrar; na verdade, sempre vivi nesse terreno movediço entre a constipação e a diarréia. Quando pequeno, tinha prisão de ventre; adulto, fluxo de ventre.  É uma dialética um tanto desagradável e nem um pouco hegeliana.</p>
<p>Lembro-me de uma vez, era a época do ginásio, quando veraneei na casa de um colega ricaço e passei uns três dias sem cagar. Coisa típica da minha infância, na qual a minha timidez corporificava-se numa consistente prisão de ventre. Apesar da minha ciência psiquiátrica, esse fenômeno jamais teve desvelado o seu sentido oculto, talvez perdido para sempre nas profundezas de meu intestino grosso. Quem sabe devesse fazer terapia, como uma amiga, que resolveu o seu problema cagando, behavoristicamente, toda manhã, embora de maneira um tanto compulsiva. Dez anos de divã e sua histeria, hoje, é bosta matinal. Impeça-a de obrar e sua neurose brotará do seu inconsciente como uma caganeira emocional. Mas ela se sustenta e vai vivendo a vida. No fundo, eu a admiro.</p>
<p>Bem, no terceiro dia, como minha pele dava sinais verdes de alerta, decidi soltar, enfim, com fanfarrice, toda aquela inteligência acumulada. Acredito que caguei o mundo inteiro e, mais um pouco, ia ser o sistema solar. Emudeci, emocionado. Obra de um gênio, certamente. Olhei toda aquela soberba boiando e fiquei preocupado. Dei a primeira descarga, e nada! A segunda, e o mondrongo nem se mexeu! Fiquei, realmente, preocupado.</p>
<p>O que  fazer? - como diria Lênin.</p>
<p>Estava na casa de membros do Ancien Régime recifense e não podia deixar como lembrança, justamente, um troço com um cheiro tão pouco aristocrático. Fiquei acocorado, algum tempo, junto à latrina, como a meditar sobre a minha desgraça, que fedia, aliás, horrores. Já fazia uma hora que estava trancado no banheiro. Tinha que dar alguma solução ao imbróglio fecal. Olhei ao redor e vi uma vassourinha, daquelas de limpar o vaso sanitário. Tive, então, a idéia fantástica de chocalhá-la na latrina, e ver se descia a merda. Meu raciocínio talvez fosse o seguinte: vassourinha + agitação = sumiço da titica. Pensei até mesmo em tirar, da minha lógica impecável, alguma lição moral ou fundar uma ontologia nunca dantes navegada. Porém, uma lógica impecável nem sempre tem uma relação necessária com a realidade. A bosta, contrariando Aristóteles, não desceu. E muito pior: a vassourinha ficou uma merda só.</p>
<p>Tinha agora não um, mas dois problemas: a latrina entupida e a vassourinha obrada.</p>
<p>Fiquei tão horrorizado com a situação, olhando a vassourinha emporcalhada na mão, que a deixei cair, de forma atrapalhada, na pia do banheiro. E, num ato reflexo, peguei a toalha de mão e tentei limpar a porcaria.</p>
<p>Tinha agora não dois, mas três problemas: a latrina entupida, a vassourinha obrada e a toalha de mão defecada.</p>
<p>Estava desesperado e já com lágrimas nos olhos. O cheiro estava de lascar. Ser sufocado pelo próprio excremento é um triste fim, pensei. Olhei, de novo, ao redor. O banheiro tinha uma janela que dava para os lados de um terreno baldio. Não vacilei: joguei a vassourinha e a toalha infecta no mato. E a latrina? Ela, eu forrei de papel higiênico pra disfarçar.</p>
<p>Saí com a cara mais lavada do mundo. A casa inteira ficou incensada de bosta; a família, em silêncio, diante do cagão hediondo. Mutismo de aristocrata, para manter as aparências. Senti-me estigmatizado. Preferia uma conduta compreensiva, quase terapêutica, do tipo: &#8220;Você entupiu o banheiro? Faz mal não, isso acontece, afinal, qual é o problema em ter um cheiro de merda na casa o dia inteiro?&#8221; Pelo contrário, recebi como solidariedade um silêncio constrangedor. Hoje, já adulto, talvez tentasse discutir com o pessoal, trabalhar o assunto, relativizá-lo, mostrando que a vida é muito melhor do que a gente pensa;  _vocês já andaram junto ao Canal da Agamenon? Pois é&#8230;</p>
<p>Dormi acalentado pelo tchec-tchec do desentupidor. Durou uma eternidade. Coitado do pai de meu amigo. Creio que meu sentimento antiburguês nasceu desse evento. Generoso, porém ressentido. Eu era culpado, mas projetava a culpa no tipo ideal do burguês. É um mecanismo ideológico curioso: culpar os outros pelas nossas merdas. Enfim, posso dizer que muita qualidade moral teve sua origem nos <em>bas-fonds </em>de um sanitário.</p>
<p>No outro dia, de manhãzinha, a empregada pergunta pela toalha de mão.</p>
<p>Aguardei, até o fim, que ela perguntasse pela vassourinha&#8230;</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/27/desabafo-coprolalico/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>Cinema é ilusão</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/25/cinema-e-ilusao/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/25/cinema-e-ilusao/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 25 Jun 2008 15:00:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>perrusi</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Antigo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=337</guid>
		<description><![CDATA[Confesso que sou viciado em filmes americanos, principalmente aqueles impecáveis na engenhosidade técnica e de agradável imbecilidade. E digo logo aos incautos que um filme desse tipo não é fácil de se fazer. É preciso competência para produzir prazeres simples e reproduzir voracidades. Sim, esses filmes são vorazes. É fácil de perceber. Talvez, traduzam uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/cinema.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-338" title="cinema" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/cinema-262x300.jpg" alt="" width="262" height="300" /></a>Confesso que sou viciado em filmes americanos, principalmente aqueles impecáveis na engenhosidade técnica e de agradável imbecilidade. E digo logo aos incautos que um filme desse tipo não é fácil de se fazer. É preciso competência para produzir prazeres simples e reproduzir voracidades. Sim, esses filmes são vorazes. É fácil de perceber. Talvez, traduzam uma sociedade glutona, ávida. Eu mesmo, meio sem querer, até por causa do meu vício, incorporo uma conduta um tanto quanto aditiva. Acho que é influência, sei lá. Toda vez, compro logo um balde de pipocas e muita coca-cola. O ato de comer pipoca durante um filme equivale a uma sessão de hipnose. Normalmente, saio empachado da sessão e, chegando em casa, tomo um luftal. E começo a peidar — talvez o filme, quem sabe. Será que é, por causa disso, que sempre me esqueço dos filmes?</p>
<p>Sempre fico encafifado quando penso na causa do meu vício por filmes americanos. Acho que tenho necessidade de aplacar apetites infantis. Sou uma criança freudiana! Daquelas educadas pelo liberalismo radical do construtivismo. Em suma: uma pequena peste vive dentro de mim! Fico pensando se o meu gosto estético por catástrofes provém desse infantilismo. Talvez, seja influência das pipocas. Há pesquisas mostrando a influência das pipocas na estética da violência.</p>
<p>Ora, o americano é o ser humano que mais come pipoca do planeta. Há aí alguma correlação positiva, certamente. Posso deduzir que, sendo o cinema ianque produzido para saciar a voracidade infantil americana, não causa surpresa que nove entre dez filmes nos States tenham como tema algum desastre, alguma violência, algum terror, etc. e tal. A demanda social por condutas regressivas é o apanágio de sociedades glutonas. Vejam os carros americanos de polícia: todos espalhafatosos, com luzes piscando por todos os lados. Nunca vi, em lugar nenhum do mundo, carros de polícia tão amostrados!</p>
<p>Tudo bem, os americanos são vorazes, mas têm uma vantagem em relação aos brasileiros: podem ainda sublimar seus apetites infantis na ficção cinematográfica, enquanto nós pervertemos nossa fome regressiva na própria realidade. Convenhamos, somos piores.</p>
<p>(fico pensando nos filmes de terror. O que causa muitas vezes o terror não seria o fato de se impedir que o elemento tempo passe por algum processo de transformação? Explico: tempo é rotina, costume e hábito; tempo processado não gera medo. Passar dos 20 anos aos 80 em 60 anos não nos causa medo, mas passar esse intervalo em segundos é apavorante. Realmente, ficaria em pânico, se me visse envelhecendo de forma ultra-rápida, principalmente defronte a um espelho. Em suma, transformação menos tempo é igual a pavor)</p>
<p>Blog é insight, mesmo que seja incognoscível&#8230;</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/25/cinema-e-ilusao/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>Momento filosófico</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/25/momento-filosofico/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/25/momento-filosofico/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 25 Jun 2008 10:00:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>perrusi</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=339</guid>
		<description><![CDATA[Comte-Sponville:
Ética = conhecimento do desejo. O topo do mundo é a sabedoria.
Moral = conhecimento do dever. O topo do ser é a santidade.
Ética = ame, e faça o que quiser.
 Moral = aja como se amasse, e faça o que se deve.

Ética + Moral: ame, ou faça o que se deve.  O topo da pessoa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">Comte-Sponville:</p>
<p style="text-align: center;">Ética = conhecimento do desejo. O topo do mundo é a sabedoria.</p>
<p style="text-align: center;">Moral = conhecimento do dever. O topo do ser é a santidade.</p>
<p style="text-align: center;">Ética = a<em>me, e faça o que quiser.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em></em> Moral = <em>aja como se amasse, e faça o que se deve.</em></p>
<p style="text-align: left;">
<p style="text-align: left;"><em></em>Ética + Moral: <em>ame, ou faça o que se deve</em>.  O topo da pessoa é a autonomia.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/25/momento-filosofico/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>Uma experiência incontestável</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/24/uma-experiencia-incontestavel/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/24/uma-experiencia-incontestavel/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 24 Jun 2008 11:14:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>perrusi</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Antigo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=332</guid>
		<description><![CDATA[
Confesso que faço experiências pedagógicas com meus alunos. Sou um cientista e vejo o mundo como um enorme laboratório. Não digo que eles apreciem; na verdade, esboçam até resistências. 

_Não somos hamster! -- dizem.
_Mas é em prol da ciência! -- retruco.

 

E, longe de mim, percebê-los como roedores, pois acredito piamente que são, de fato, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/ratolabirinto.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-333" title="ratolabirinto" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/ratolabirinto-300x204.jpg" alt="" width="300" height="204" /></a></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Confesso que faço experiências pedagógicas com meus alunos. Sou um cientista e vejo o mundo como um enorme laboratório. Não digo que eles apreciem; na verdade, esboçam até resistências. </span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">_Não somos hamster! &#8212; dizem.<br />
_Mas é em prol da ciência! &#8212; retruco.<em></em></span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;"><em></em> </span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">E, longe de mim, percebê-los como roedores, pois acredito piamente que são, de fato, mamíferos superiores. E é dentro desse paradigma que concebo a experimentação.</span> </span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Nalgumas experiências, utilizo uma variedade sortida de alunos: alunos criacionistas, alunos que negam a viagem do homem à Lua, alunos que crêem na Transubstanciação (preciosos, porque raríssimos), alunos que lêem a Veja; em suma, todos aqueles que projetam sua postura intencional em Deus e o Mundo. Todos são animistas, pois têm o impulso compulsivo em conferir agência às coisas e aos fatos, concebidos como agentes dotados de desejos e crenças. No fundo, tenho uma população enorme para escolher, porque todos os tementes a Deus, tecnicamente, são animistas, um pouco mais sofisticados, é verdade, do que os antigos animistas, embora não apresentem a beleza e a criatividade de antanho. </span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">(Ah, belos tempos aqueles do animismo, e idiotas também: o <em>desejo</em> do rio correr ao mar e a <em>intenção</em> benigna ou maléfica das nuvens de chuva eram tomados ao pé da letra e tão seriamente que podiam tornar-se uma questão de vida ou morte &#8212; que o digam as virgens astecas &#8212; chutei, não sei se eram virgens&#8230;).</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Inclusive, para ser franco, coloco até mesmo os agnósticos na amostragem, por pura pirraça contra sua covardia espiritual.</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Teve um dia que estava com sorte. Chegara uma leva de alunos de uma disciplina sobre pós-modernidade, e estavam todos embriagados de relativismo cultural e epistemológico. Alguns defendiam a magia e a dança da chuva. Diante do meu riso positivista, vociferavam: etnocentrismo!</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;">_Professor, você precisa se libertar do paradgima da ciência ocidental!</span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Ora, eles sabem que não consigo. Sou um cientificista inveterado. Tento explicar, mas não me escutam. Acho apenas que a tática de colocar intenção em tudo que é fenômeno do mundo pode levar a nada. Sinceramente, por mais que os nossos ancestrais adorassem prever o tempo, descobrindo o que <em>ele</em>, o tempo, <em>queria</em> e que crenças <em>ele teria</em> a seu respeito; bem&#8230; er.. a tática simplesmente não funcionou. Certo, muitas vezes <em>pareceu</em> funcionar; mas, convenhamos, as danças da chuva fracassaram de forma retumbante &#8212; não tanto, é verdade, como as teorias dos economistas, esses animistas do dinheiro, ou as previsões de certos ecologistas, neomalthusianos de esquerda, esses animistas das catástrofes.</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Chamei alguns para participarem da experimentação pedagógica. Era uma experiência para medir o efeito da postura intencional num esquema aleatório de reforço. Era proibido falar ou utilizar qualquer forma de comunicação. De vez em quando, não importando o que o aluno estivesse fazendo na sala de aula, aparecia uma recompensa sob a forma de notas altas. Bastava esperar um apito e a nota aparecia de forma casual. Logo, logo, os alunos, diante desse esquema randômico, estavam fazendo gestos e &#8220;danças&#8221; elaboradas, sacudindo, torcendo e dobrando o corpo. Depois, tentando saber o motivo dessas pantomimas, recebi a seguinte resposta de um aluno: </span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">_professor, na primeira vez que, sem motivo aparente, recebi a nota máxima, acabara de dar uma virada de perna e dobrado o pescoço. Pensei: vou tentar outra vez&#8230; (quem estava próximo, imitou-me). Mas não deu certo e não apareceu nota alguma. Achei que não girara o suficiente&#8230; Nada. Aí, sacudi meu corpo antes de girar e dobrar&#8230; Deu certo! Fiz de novo&#8230; Nada. Sacudi e dei três pulinhos, girei as pernas e dobrei o pescoço até doer. Nada. Aí pensei: e, agora, o que foi mesmo que acabei de fazer?&#8230;</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Achei curioso o procedimento de pensar que, de alguma forma, os gestos e as atitudes poderiam influenciar o aparecimento (aleatório, repito) das notas, talvez até mesmo seu valor. Se, sem linguagem, o aluno projetava sentido o quanto podia ao reforço aleatório, imaginem utilizando ao máximo a postura intencional, turbinada pela ação comunicativa mediada linguisticamente. Fiz, assim, outra experiência, permitindo a interação e o uso da linguagem, e o resultado foi o seguinte: criaram a hipótese de que havia um criador &#8212; alguma coisa <em>invisível</em> que <em>parece</em> com uma pessoa &#8212; responsável pelas notas. Inicialmente, acusaram-me de ser o patife que dava as notas; depois, vendo-me afastado da sala, deduziram que </span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">o criador das notas </span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">fosse um agente oculto </span></span><span style="font-size: small;"></span><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">&#8211; com cabeça, olhos, braços e pernas (um aluno disse que o ser tinha um capacete espacial, pois acreditava que os deuses egípcios eram extraterrestres). Deram-lhe até um nome: <em>Dieci</em>, o deus da nota.</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Bem, creio que descobri a fundação natural da postura intencional que gera a crença mística, esotérica ou religiosa. Sei que os crentes desse blog, principalmente o Reverendo Tsé-Tsé, julgarão minha conclusão um absurdo, mas a experiência prova que a religião é uma projeção ilusória da postura intencional, que teve alguma utilidade nos tempos das cavernas, mas agora só faz atrapalhar a transformação revolucionária da sociedade e produzir ilusionistas como Ratzinger. Lembro que a Revolução precisa de pessoas racionais e atéias. Logo, o papel dos professores será importante: nas suas salas de aula, precisam eliminar as ilusões de uma condição que necessita, justamente, de ilusões. Por isso, do ponto de vista científico, a projeção da postura intencional precisa ser historicamente determinada e direcionada, principalmente pelos cientistas sociais, aos verdadeiros inimigos da sociedade: </span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">os burgueses são </span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">os agentes responsáveis de todas as desgraças do mundo, principalmente os liberais, seus membros mais perigosos. </span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Ainda lembro que, no comunismo, não haverá a projeção ilusória da postura intencional, isto é, não haverá ópio (na versão marxista), nem neurose (na versão freudiana); em suma, não haverá religião. O dia comunista, libertado da religião e do trabalho alienado, será uma felicidade geral: de manhã, treparemos, à tarde, treparemos (provavelmente, sem camisinha, para júbilo dos católicos, afinal, é o comunismo, o fim da História) e, à noite, dormiremos profundamente, porque ninguém é de ferro. </span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Enfim, peço desculpas, não quero ofender ninguém, mas os crentes são, objetivamente, opiômanos e neuróticos. As provas podem cansar as crenças, mas fazem parte da realidade. Não posso mudar o que existe &#8212; só Deus.</span></span></p>
<p><span style="font-size: x-small;">(a crônica é uma paródia de trechos do livro de Daniel Dennett: &#8220;quebrando o encanto&#8221;)</span></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/24/uma-experiencia-incontestavel/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>A &#8220;judicialização&#8221; dos inocentes</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/22/a-judicializacao-dos-inocentes/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/22/a-judicializacao-dos-inocentes/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 22 Jun 2008 15:08:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>perrusi</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=330</guid>
		<description><![CDATA[Cacetada, hein?! Tempão ausente, hein?! Sem tempo para escrever. Resultado: os 2,8 leitores desse blog passaram a ser 1,7... Mas, mesmo assim, volto aos poucos. Não posso prometer nada. Condição estranha essa: a impossibilidade da promessa. Como controlar ou corrigir a imprevisibilidade, sem prometer? Sem a promessa, o futuro continuará incerto, certo?! Peço assim perdão, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal">Cacetada, hein?! Tempão ausente, hein?! Sem tempo para escrever. Resultado: os 2,8 leitores desse blog passaram a ser 1,7&#8230; Mas, mesmo assim, volto aos poucos. Não posso prometer nada. Condição estranha essa: a impossibilidade da promessa. Como controlar ou corrigir a imprevisibilidade, sem prometer? Sem a promessa, o futuro continuará incerto, certo?! Peço assim perdão, essa retificação da irreversibilidade — sem perdão, não há como mudar o passado, anulando as forças que pusemos em movimento. Sim, toda essa desculpa retumbante é apenas para dizer que continuarei um tanto ausente.</p>
<p class="MsoNormal">Porém, deixemos de delongas. Escrevo agora por um motivo premente. Escrevo para falar um pouco sobre a sacanagem que estão fazendo com Samarone, blogueiro e escritor do <strong><a href="http://www.estuario.com.br/" target="_blank">Estuário</a></strong>. Na verdade, escrevo apenas para dar a voz ao grande tricolor e fundador do <strong><a href="http://www.blogdosantinha.com/" target="_blank">Blog do Santinha</a></strong>. Nosso amigo está sendo processado por uma entidade lendária &#8212; sim, segundo as superstições que,  feito um vento frio, assombram o Arruda, a criatura sai da sepultura na calada da noite para sugar o sangue dos tricolores. É uma figura notável da política pernambucana. É poderoso. Utiliza, contra Samarone, essa nova forma de calar a crítica e a liberdade de expressão: a &#8220;judicialização&#8221; da discussão e do debate. Criticou, meu chapa, tome processo! Não ouse utilizar a verve da crítica contra minha pessoa pública, pois utilizarei a arma da Lei! Critique, e lhe mando direto ao Anibal Bruno! Ora, é muito fácil quem tem poder e dinheiro processar quem não os tem — seria preciso ser muito crente nas ilusões da toga para acreditar na <em>neutralidade</em> da justiça brasileira.</p>
<p class="MsoNormal">Ah, o Direito&#8230; <span>Jonathan Swift, nas <em>Viagens de Gulliver</em>,</span> já falava dessa arte da persuasão, que maliciosamente convence o incauto de que o branco é preto e o preto é branco. Os advogados transformaram a velha arte da retórica num discurso de poder e de manipulação. O velho Marx denunciava esse universalismo abstrato do Direito que, concretamente, apenas reproduz a dominação de classe. Sem falar de toda uma tradição política que aponta o dedo para o verdadeiro fundador do Direito: a violência! A Lei é lavada todo dia com Omo Total, mas os pingos de sangue continuam manchando a toga branca de toda a justiça desse mundo.</p>
<p class="MsoNormal">Claro, claro, não concordo muito com essa visão do Direito, mas quando olho o Brasil, quando vejo nossos advogados, nossos tribunais, nossas (in) justiças&#8230; Sei não!</p>
<p class="MsoNormal">Quando leio abaixo a crônica de Samarone&#8230;</p>
<p class="MsoNormal">
<p><span style="color: #0000ff;"><strong><span style="font-size: medium;">Anotações de um querelado</span></strong></span></p>
<p><img src="http://www.estuario.com.br/wp-content/themes/bridge/images/timeicon.gif" alt="" /> 20 de junho de 2008, às 0:42h por <img src="http://www.estuario.com.br/wp-content/themes/bridge/images/author.gif" alt="" /> Samarone Lima</p>
<div class="entry">
<p style="text-align: center;"><img style="width: 328px; height: 363px;" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2007/11/justica.jpg" alt="justica.jpg" width="328" height="363" /></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">Eu sabia, por meio de amigos do meio jurídico, que corria uma ação cível contra mim e meu amigo Inácio França, também jornalista, por “difamação”. Ou seja, desacreditei publicamente de alguém, em algum dos meus muitos escritos. Fiquei quieto, aguardando o desenrolar dos fatos.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">O “Mandado de Intimação” chegou na semana passada. A ação era bem mais grave: a de “calúnia”, na Oitava Vara Criminal da Capital. Neste caso, uma ação específica contra mim. Teria eu, em algum momento, jogado uma falsa imputação a alguém de fato definido como crime. Sou agora um “querelado” do Poder Judiciário.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">Meu “querelante” se chama José Cavalcanti Neves Filho, ex-vereador da Cidade do Recife por quatro mandatos consecutivos e ex-presidente do Santa Cruz Futebol Clube, meu clube de coração.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">Nesta quinta-feira, cheguei ao Fórum Desembargador Rodolfo Aureliano, que todo mundo conhece como o “Fórum da Joana Bezerra”. Usei pela quarta vez um terno bonito e calorentíssimo, comprado numa das pulgas de Paris, por três dólares. Rapidamente encontrei a Oitava Vara, que fica no final do corredor do primeiro andar. Sentei e fiquei à espera do meu advogado, o também tricolor Diego Galdino, amigo de comemorações cada vez mais raras nas arquibancadas do Arruda, nosso estádio. Então, inicio minhas anotações. As anotações de um querelado.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">Sento em uma das cadeiras. São 13h30. Os advogados passam, com seus ternos pretos, alguns com pastas 007. Ao meu lado, três mulheres negras, possivelmente duas irmãs e a mãe. Todas as varas deste corredor são criminais. Elas conversam, desanimadas. “Está demorando, né?”. Uma sai, a outra vai atrás. A que fica, liga para alguém. “Oi, amor, botasse crédito no meu celular?”. Silêncio. “Não acredito. Pois vou tomar o dinheiro todinho de cachaça”. Escuto em silêncio e tomo notas.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">Um advogado, bem moço, alto, limpíssimo, organizado, com um terno claro impecável, passa para a Oitava Vara. Tudo nele é polido. Ele volta, espera por algo, até sua paciência é polida. A rádio do corredor toca uma música norte-americana dos anos 80, uma daquelas românticas que dancei em alguma festa no Monte Castelo, em Fortaleza. Falava das coisas de sempre: “loving”, “hand”, “alone”, “anymore”. Faltou o “you”, mas deve ter sido distração minha. Toda canção de amor tem o “me and you”.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">Olho novamente o mandado de intimação. Percebo que o nome do meu querelante saiu errado. A palavra “Neves” está escrita duas vezes. “José Neve Neves Filho”. Algum escrivão, escutando essas músicas românticas, repetiu o nome do querelante, dando-lhe uma certa redundância. Olho meu nome: Samarone Lima. Faltou o “de Oliveira”, que é meu nome completo. Sinto que comecei com uma leve desvantagem de palavras. Meu querelante tem um nome a mais, e toda a minha linhagem paterna, os “Oliveiras” foi subitamente excluída. Tudo bem, é só o começo.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">As duas mulheres voltam. Falam de crédito do celular, alguma fatura para pagar do “Comprebem”. Passa uma moça excessivamente bonita, alta, com o nariz avermelhado. Está chorando, um choro contido, sem alarde, sem soluço, escondendo as lágrimas entre os dedos finos, para ocultar alguma dor. Será uma querelada? Ela entra na Nona Vara, mas deixemos a moça em paz.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">Aguardo olhando, escutando. Ao meu lado, os diálogos continuam. “Alô, Diz. Nada? Ôx, vamos sair daqui cinco horas da tarde? É de que horas isso? Ôx!”. Minhas amigas estão indignadas. “O Cabra disse que vai ser lá para três e meia”.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">Olho para o relógio. São 13h43.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">Olho para o mandado novamente.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">“Audiência de tentativa de reconciliação, nos termos do art. 520, do CPP”.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">Descubro que preciso de um Código de Processo Penal. Aceito doações.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">“… ficando ciente que o não comparecimento do querelante importará em extinção da punibilidade por perempção (art. 107, inc.IV, do CP e art 60. inc III, do CPP) e a ausência injustificada do querelado será interpretada como recusa em conciliar”.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">“Ele disse que era de meio dia. Vai levar um baile”, diz uma das mulheres, a dona do celular, a mais exaltada, interrompendo minha leitura jurídica.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">De repente, o fluxo da memória abre um clarão. Lembro de maio de 2004, quando fui acusado de “Resistência” (artigo 329 do CPB) por um sargento da Polícia Militar. Meu crime foi avisar ao chefe da guarnição policial, que os torcedores não deviam ser agredidos gratuitamente por policiais, ao final de um jogo no Arruda. Minutos depois, eu estava dentro de um camburão.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">Foram três audiências no Juizado Especial Criminal do Recife, mas o sargento nunca compareceu, e a ação foi extinta.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">Descubro que meu clube de coração tem me causado problemas, mas não é propriamente o clube, é uma cultura de violência, de confronto. Até a última audiência, esperei encontrar o sargento. Queria saber se ele já estava mais tranqüilo, se ele tinha revisto sua atitude profissional, dizer que aquilo tudo poderia ser de outra forma, e que no fundo, poderíamos ser amigos, tomar uma cerveja e apertar as mãos. Nunca mais o vi, mas lembro sua expressão de ódio, quando me recusei a retirar a ocorrência na delegacia. O ódio, especialmente o gratuito, sempre me deixa assombrado.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">Meu advogado chega. Somos informados que o querelante não compareceu, mas justificou a ausência (caso contrário, haveria a extinção da punibilidade por perempção). A delicada atendente, Rosana, remarcou a audiência para 6 de agosto. Recebi uma cópia da queixa-crime ou “as iniciais”, como bem me avisou uma amiga advogada. São 15 páginas, redigidas e assinadas por quatro advogados. Ao final, requerem que eu seja interrogado, que sejam solicitados meus antecedentes criminais, e que terei violado os artigos 138, 139 e 140 do CPB.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">O último parágrafo:</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">“Ao final, REQUER-SE se seja a ação julgada procedente, condenando-se o QUERELADO nas penas previstas no art. 138, 139 e 140, do CBP, designando-se o Presídio Aníbal Bruno para o cumprimento da pena”. As palavras estão escritas assim mesmo, com letra maiúsculas, o que me parece um grito.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">Era uma coisa que eu nem sabia, que o querelante pode até escolher onde o querelado vai cumprir a pena.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">Dali, saímos para outra Vara Criminal, onde tramita a ação contra a dupla Inácio e Samarone. É um processo gigantesco, com cinco volumes. Uma despachada funcionária traz os volumes, para nossa apreciação. Fiquei imaginando o quanto isso custa ao País. Há inúmeros Sedex com meu endereço antigo, com intimações, centenas, talvez milhares de páginas escritas,fotocópias de textos, alegações, despachos de funcionários do Poder Judiciário, carimbos, novas intimações.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">Do quarto andar daquele imenso prédio, vi o Coque, e lembrei imediatamente do Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis (MABI), criado pelos jovens da comunidade, que lutam contra a violência e pela cultura no bairro. Na minha cabeça, passou o filme dos encontros na Biblioteca Popular do Coque, que funciona a 500 metros dali, mantida pela raça e resistência da comunidade. Me veio o sentimento de que o Brasil é um país onde mundos não dialogam, e por isso, tanta violência, tanta dor, tanto sofrimento, tanta raiva e tanto rancor. Tantos querelantes e querelados.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">Descemos, tiramos cópia de tudo. Fui conversando com meu advogado, o Diego Galdino, uma pessoa de uma extrema gentileza e educação, um homem afável, de gestos tranqüilos e voz serena. Desconfio que ganhei um novo amigo.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">Lá pelas tantas, com nossas cópias todas em mãos, já saindo do fórum, falamos do dia 6 de julho, quando o Santinha estréia na Série C, em Campina Grande, contra o Campinense. Descobrimos que estamos no mesmo ônibus, um dos 15, que vai levar a torcida ao jogo.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #993300;">Meu espírito quimérico entendeu que atravessarei com serenidade mais uma querela. Aguardemos, meus amigos, aguardemos.</span></strong></p>
<p><span style="color: #0000ff;"><strong><span><strong>Para o Diego Galdino, tornado amigo.</strong></span></strong></span></p>
</div>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/22/a-judicializacao-dos-inocentes/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>A pernambucanidade</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/22/a-pernambucanidade/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/22/a-pernambucanidade/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 22 Jun 2008 12:02:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>perrusi</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=336</guid>
		<description><![CDATA[
Terra dos Altos Paranormais!
_É claro que somos superiores - disse a um gaúcho. Era um amigo meu, autêntico representante de um povo viciado em chimarrão, droga tão perigosa, que é impossível contê-la, mesmo através de uma política de redução de danos. 

Sou pernambucano, um ser superior. Todos, aqui, na terrinha, nascem com poderes paranormais. E [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/pernambuco.gif"><img class="alignnone size-full wp-image-335" title="pernambuco" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/pernambuco.gif" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #990000; font-size: xx-small;">Terra dos Altos Paranormais!</span></p>
<p><span style="font-size: small;">_É claro que somos superiores - disse a um gaúcho. Era um amigo meu, autêntico representante de um povo viciado em chimarrão, droga tão perigosa, que é impossível contê-la, mesmo através de uma política de redução de danos. </span></p>
<p><span style="font-size: small;">Sou pernambucano, um ser superior. Todos, aqui, na terrinha, nascem com poderes paranormais. E sabemos disso, sim. Temos plena consciência de nossos poderes. Tanto é que a <em>Constituição de Pernambuco</em>, nossa constituição, da qual me orgulho muito, reconhece a assistência à paranormalidade. A única que faz isso no planeta, vale dizer. De Pernambuco para o mundo!</span></p>
<blockquote style="margin-right: 0px;" dir="ltr">
<p align="left"><span style="color: #008000; font-size: small;"><strong>DA ASSISTÊNCIA SOCIAL</strong></span></p>
<p><span style="color: #008000; font-size: small;"><strong>Art. 174 </strong>- O Estado e os Municípios, diretamente ou através do auxílio de entidades privadas de caráter assistencial, regularmente constituídas, em funcionamento e sem fins lucrativos, prestarão assistência aos necessitados, ao menor abandonado ou desvalido, ao superdotado, <span style="color: #ff0000;"><strong>ao paranormal</strong> </span>e à velhice desamparada.</span></p></blockquote>
<p dir="ltr"><span style="font-size: small;">Claro, ainda falta o reconhecimento assistencial aos mutantes - nós, os membros da família Perrusi: meu pai, com seu magnetismo, quebra qualquer objeto eletrônico, principalmente computadores. É um matricida: destrói toda e qualquer carta-mãe. </span></p>
<p dir="ltr"><span style="font-size: small;">Minha mãe é capaz de perder todo objeto na sua frente, principalmente quando o coloca na sua bolsa, que é, </span><span style="font-size: small;"> segundo cientistas da Nasa, </span><span style="font-size: small;">um pequeno buraco negro. Inclusive, um deles, coitado, um americano todo cheio de boa vontade, foi olhar a bolsa por dentro e desapareceu para sempre. </span></p>
<p dir="ltr"><span style="font-size: small;">Minha irmã é capaz de confundir qualquer pessoa quando discute - pode ser um gênio, possuir uma integridade cognitiva impressionante, mas discutiu um pouquinho de nada com minha queridinha&#8230; pumba!, não tem jeito, o efeito é imediato: dias na maior confusão mental, ciscando feito uma galinha. E eu?! Bem&#8230; er&#8230; vamos mudar de assunto!<br />
</span></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2008/06/22/a-pernambucanidade/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
	</channel>
</rss>
