Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXIV

29 de junho de 2009, às 12:00h

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

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(Confiteor Virgo)

24º CAPÍTULO

Deixei a Biblioteca tarde da noite ajudando Lippi a restaurar velhos documentos. Mas, alguma coisa mexia com minha cabeça. A idéia passava e repassava, e eu não podia captá-la com perfeição. O ratinho hamster de Irenia pulava de neurônio em neurônio. Um hamster?! Por que um hamster?! Algo não batia; algo não vinha batendo. Distraído, eu quase era atropelado por um bonde, o que mostra a minha incrível distração, pois atropelamentos por bondes são raros. Pesquisas em Harvard demonstraram que os bondes… deixa pra lá! Mas será que existe alguma relação entre bondes e cricetídeos?! Não, não, estou cansado, minha mente está fraca, preciso descansar…

Lanche no refeitório do albergue da Gregoriana e, depois, cama pra que te quero com o corpo exausto de tanto trabalho. Meu companheiro de quarto, Padre Javier, um jesuíta mexicano que terminava sua tese de Doutorado, dormia a sono solto.

Deitei-me numa banheira para aplacar as dores musculares e, de repente, cada gota d’água começava a virar um ratinho marrom e branco, outros brancos e pretos, azuis e vermelhos, uma multidão de hamsters cobria meu corpo até o pescoço. Um deles, ou uma delas, remexeu nos meus cabelos, como se fosse um ninho e pariu três filhotes.

Um hamster dos mais bonitinhos passeava pelo meu queixo e enfiou o rabinho dentro do meu nariz. Comecei, então, a gritar na maior aflição: hamsters, hamsters, hamsters!

Fui acordado aos berros e trambolhões pelo Padre Javier.

─ Padre Tsé! Acorda, acorda!

Felizmente! Suando em bicas, contei ao companheiro de quarto o pesadelo, e ele foi ao banheiro vomitar. Detestava ratos! Tentei dizer que os hamsters não são propriamente ratos, e têm cauda curta e são providos de bolsa na face interna da bochecha, mas foi tarde demais: já escutava o barulho abominável das substâncias do estômago de Xavier sendo expelidas na latrina. Quando voltou, me disse:

─ Ainda bem que foi com ratos, embora os deteste. O meu pesadelo constante e recorrente é muito pior.

─ Que tipo de pesadelo, irmão Javier? ─ Perguntei.

─ Não posso contar. Morro de vergonha, porque implica na maior blasfêmia que um cristão pode cometer. Um pecado inconfessável. Isso já vem ocorrendo há anos e, por mais que eu me esforce, o pesadelo volta.

─ E por que não experimenta a sagrada confissão? Talvez, com um padre compreensivo, você possa obter a absolvição e os pesadelos tendam a desaparecer.

─ Pode ser! Padre Tsé! O irmão me receberia em confissão? Não suporto mais os pesadelos. ─ Ofereceu-se o padre mexicano.

─ Pode começar, mas não precisa dos rituais preliminares. Fique deitado e eu me sento aqui nesta cadeira. ─ Respondi com a esperança de me acalmar do meu próprio pesadelo. Além disso, possivelmente, seria alguma besteirada e eu poderia refletir sobre os hamsters.

─ Fui educado numa missão jesuítica dentro de uma reserva indígena do México, próximo do Iucatan. ─ Começou Javier. ─ No México, nenhum homem se casa com uma mulher que não seja virgem. Logo cedo, em plena adolescência, me incutiram o culto à Virgem Maria. E eu só pensava nisso. Virei um fanático adorador da Santa Virgem Imaculada. Consagrei-me padre, entrei na Companhia de Jesus e me mandaram fazer o Doutorado aqui na Gregoriana. Ainda no México, já começara a ter meus pesadelos, mas foi aqui, em Roma, que eles se tornaram mais intensos e quase semanais.

─ Ora Javier! Deixe de parrapapá e me conte logo os tais pesadelos. ─ Interrompi o palavrório do jesuíta.

─ Pois bem! Nos pesadelos, escondo-me debaixo da cama do sagrado casal, a Virgem Maria e São José e, assim que o marido vai para sua oficina, eu pulo na cama e faço amor com a Virgem ou, melhor, tento fazer, mas ela não deixa.

─ Que horror! Ainda bem! ─ Exclamei enquanto o pobre Javier se derramava em lágrimas.

─ Às vezes, São José volta e eu me escondo novamente. Mas, não sei por que, a Virgem Santíssima sempre me protege e não me denuncia. Sempre acordo daquele jeito, Padre Tsé. Todo molhado! Peço-lhe a absolvição desse grande pecado, pois nem sei mesmo se posso defender minha tese e continuar como sacerdote. Vivo o dia inteiro pensando nisso. ─ Terminou Javier.

─ Preste atenção, Javier! Ter desejos carnais não é pecado. A coisa se complica apenas por causa da Virgem. Não dava pra mudar para a irmã ou a prima da Virgem? ─ Perguntei para provocar meu penitente.

─ Não! Tento imaginar, mas não consigo. É sempre com a Virgem com quem sonho.

─ Javier! Vamos examinar isso direitinho. Sua cabeça está cheia de cocô jesuítico. Ninguém é responsável pelos sonhos ou pesadelos que tem e, como você bem sabe, pecado implica vontade e responsabilidade pessoal. Um médico austríaco, que morreu logo no comecinho da Guerra, chamava isso que você tem de “complexo de Édipo recessivo”. E eu acrescentaria, com uma grande dose de necrofilia.

─ Necrófilo! Eu? ─ Gritou Javier revoltado, erguendo-se da cama.

─ Calma! Calma! Veja bem! Você acredita que a Virgem Maria é a Mãe de Deus? ─ Perguntei ao pobre mexicano fazendo-o deitar-se novamente.

─ Claro, Tsé! Trata-se de um dos principais dogmas da ICR, comprovado empiricamente por todos os nossos teólogos.

─ Pois bem! E nós, o que somos de Deus Nosso Senhor?

─ Ora, Tsé! Somos todos Filhos de Deus. ─ Respondeu acertadamente Javier.

─ Sigamos, pois, um rigoroso raciocínio aristotélico-tomista. Premissa maior: a Virgem Maria é a mãe de Deus, como você próprio afirmou. Premissa menor: todos nós somos Filhos de Deus, como você também afirmou. Conclusão: a Virgem Maria é a nossa Avó. Correto, Javier?

─ Hum, hum! Aparentemente, Tsé, você está certo, pelo menos do ponto de vista lógico-formal. Mas, existe a Metafísica e, talvez, quem sabe, haja outra saída. ─ Respondeu o colega mexicano.

─ Aí é que está o problema. Não há Metafísica que explique e acabe com pesadelos. Explico-me, então: Complexo de Édipo recessivo porque você mantem desejos sexuais para com sua Avó, por mais divina que ela seja. E necrofilia porque se apaixonou por uma mulher que está morta há quase dois mil anos. ─ Terminei meu raciocínio, morrendo de rir por dentro do aperreio do coitado jesuíta.

─ Meu Deus! Não sou digno de tua misericórdia! ─ Bradou Javier lançando os braços para os céus.

─ Calma, Javier! Há um jeito de se livrar desses pesadelos. Precisa apenas seguir meus conselhos. E não lhe dou absolvição porque não vejo nenhum pecado em você. Pelo menos nisso. Atrás da Gregoriana, fica o Convento de Santa Maria Maggiore. Todos os dias, as noviças, todas virgens, por supuesto, tomam sol no jardim separado da rua apenas por uma grade. Andam de mãos dadas, aos pares. Já passei por lá diversas vezes e tem cada uma linda de morrer. Já surpreendi certos olhares muito pouco angelicais de algumas. Ora, Javier, com esta sua estampa de ator mexicano, que nem Pedro Armendares, é só ficar olhando, olhando, até que algumas passem por você. Aí, por exemplo, você começa um diálogo sagrado sobre os mistérios da Santíssima Trindade. Depois, volta, até que uma ou duas caiam em sua lábia de jesuíta. Se ocorrer isso, como acho provável, você convida para um passeio na Villa Borghese que fica ao norte da cidade.

─ E depois, irmão Tsé? ─ Interrompeu Javier interessadíssimo.

─ Ora, ora! Você cumpre com o seu dever de índio mexicano. Aliás, irmão Javier, isso é tão normal que ninguém liga mais na ICR. E com isso, você se livra dos pesadelos e termina sua tese em paz.

─ Ufa! Padre Tsé! Vou tentar, vou tentar. ─ Prometeu Javier.

─ Mas, ainda há uma coisinha. Por favor, pare de se masturbar no banheiro.

─ Eu? Eu? Nunca! ─ Exclamou, cheio de vergonha, Javier.

─ Ora, padre! Você se tranca no banheiro de madrugada e, depois de meia hora, fica gritando resfolegante: Aleluia! Aleluia! Santinha! Minha Santa Virgem! Se continuar desse jeito, pode até pegar tuberculose. Olhe o que lhe digo.

Botei minhas roupas de frio, vesti minha batina da Gregoriana e sai pelo frio da manhã pelas ruas da cidade. Precisava urgentemente resolver o mistério dos hamsters. Entrei num café e tomei uma xícara de chocolate quente com um grosso sanduíche. Quase derrubava tudo na mesa quando vi um olho de hamster dentro do sanduíche me espiando. Que nada! Era apenas uma casquinha de azeitona preta.

Comprei os jornais, L’Osservatore Romano, da ICR, e o chato L’Unità, do PCI. Na terceira página, o sagrado jornal dava apenas uma pequena notícia sobre um incidente com ratos mortos em frente da Biblioteca, fazendo com que alguns populares gritassem que se tratava de uma nova Peste Negra. O PCI tinha uma enorme manchete sobre a greve dos ferroviários iniciada de madrugada e que prenunciava o Socialismo na Itália. Na última página, falava sobre “a farsa do Vaticano em manipular ratos para enganar o ingênuo povo italiano”.

Nada mais! O Laudo da Gregoriana havia funcionado. Graças ao Cardeal Ferrughi.

Peguei um bonde para o trabalho. Hamster, hamster, hamster!

Parecia uma praga. Saltei um ponto antes da Praça da Biblioteca e entrei nos Correios. Naquela época, a hierarquia romana não pagava nada. Falei que era o Arcebispo de Bel-O-Kan e passei um longo telegrama para Dr. Quim, pedindo-lhe que interrogasse Dudulaidadá sobre a função dos hamsters na terra, mesmo ainda não sabendo o que aperreava minha cabeça. Solicitei reposta urgentíssima, endereçada à Biblioteca.

Segui a pé distraído, em direção do trabalho. Dei uma violenta topada no meio fio e, de repente, tudo se esclareceu. Foi quase como a alucinação de São Paulo no caminho de Damasco.

Agora, eu sabia o que havia de estranho no ratinho da menina do violino. Entrei na Biblioteca, e o padre chinês avisou-me que Monsenhor Lippi queria falar comigo com urgência. Deixei meus bagulhos sobre a mesa e entrei no Gabinete do meu chefe.

(…)

Estou cansado e, como o padre Javier, chorando muito. Piedade da Coisa que está apanhando de todo mundo. Quem sabe, amanhã, eu não termino de contar o resto da história e me livro de vez destas Memórias?

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII

Pelo fim da dopagem mística

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