Retratos femininos

12 de maio de 2008, às 14:33h

Uau! Pesquei o belíssimo vídeo abaixo no Hermenauta, que o pegou, por sua vez, no blog la nostalgie. Neste, é dada a seguinte informação:

Vídeo por: Philip Scott Johnson
Música por: Yo-Yo Ma, interpretando Bach’s Suite No. 1, BWV 1007 In G Major- Sarabande.
A seqüência dos quadros, com o nome dos mesmos e de seus respectivos pintores, pode ser vista aqui:
http://www.maysstuff.com/womenid.htm

A vida melhorou um pouco, olhando o vídeo…

P.J Harvey e Deerhoof

12 de maio de 2008, às 10:30h

Eu gosto da maga (Good fortune):

Olha ela, aqui, cantando indecente com o doido do Nick Cave (sinto ciúme, confesso) — Henry Lee:

Mas doido mesmo é o Deerhoof (The Perfect Me):

Mais intimidade e segredo

12 de maio de 2008, às 9:58h


Ver original aqui.

Num post anterior, falei de intimidade e segredo. Afirmei que segredo sem intimidade é o cúmulo da solidão. Mas ela, a solidão, pode ser aprazível e a intimidade, um inferno. Inclusive, o segredo, não contado, pode fazer parte da estratégia de transformar a intimidade numa “vida de ilusão” — a intimidade torna-se um jogo, no qual o segredo comanda, e a relação converte-se num claro-escuro de verdade e engano.

Leiam essa passagem sintomática do Retrato de Dorian Grey (traduzido por Clarice Lispector):

_[...] Das criaturas de quem gosto muito, nunca digo o nome a outras pessoas. Seria o mesmo que me privar de uma parte delas. Criei-me adorando o segredo. A meu ver só ele é capaz de nos tornar misteriosa ou maravilhosa a vida dos nossos dias. A coisa mais comum, se a ocultarmos, é um deleite. Quando saio da cidade, nunca digo aos meus aonde vou. Se o dissesse, estragaria todo o meu prazer. Um hábito absurdo, concordo; mas sei lá por que dá à vida um cunho romanesco. Acha-me bem tolo, não? Seja franco.
_Pelo contrário, meu caro Basil, pelo contrário! - protestou Lorde Henry. - Esquece que sou casado e que o único encanto do casamento é tornar absolutamente necessária aos dois cônjuges uma vida de ilusão. Não sei nunca onde anda minha mulher; nem ela sabe jamais o que eu faço. Quando nos encontramos - isto acontece uma ou outra vez - quando jantamos fora, ou visitamos o duque, impingimo-nos mutuamente, com a cara mais desavergonhada, as histórias mais extravagantes. Nisso, minha mulher se sai muito bem… muito melhor do que eu. Ao contrário do que me sucede, ela nunca se atrapalha com as datas. E, se me pega em falso, não arma cenas. Às vezes, eu até gostaria de vê-la zangar-se. Mas limita-se a rir de mim.
Um casal ancien régime pode, a seu bel prazer, transformar o segredo num jogo alegre, principalmente quando visita o duque. Com o fim da aristocracia e dos valores aristocráticos, para o casal moderno, brincar com a intimidade, através do segredo, tornou-se tabu e hipocrisia. Aos poucos, as provas cansam a verdade, e a vida deixa de ser uma ilusão e se torna uma realidade.

A história de Rand

12 de maio de 2008, às 8:04h

Pesquei no blog de Pedro Dória essa estória horrível. Fundamentalismo é uma desgraça. Fascismo é eufemismo na frente desses caras. A vida é difícil.

Lá vai:


‘A morte era o mínimo que ela merecia’, diz Abdel-Qader. ‘Não me arrependo. Tive o apoio de meus amigos, que também são pais e, portanto, sabem o que é aceitável ou não para qualquer muçulmano que honre sua religião’, ele disse.

Sentado em frente à sua porta, cercado por gérberas e margaridas brancas que ele plantou no jardim da família, Abdel-Qader se justifica.

‘Não tenho mais uma filha e prefiro dizer que nunca tive uma. Essa menina me humilhou na frente da família e dos amigos. Ao conversar com um soldado estrangeiro, ela perdeu o que há de mais precioso para uma mulher. Talvez as pessoas do ocidente se choquem, mas nossas meninas não são como as filhas de lá que podem dormir com o homem que quiserem e às vezes engravidar sem ter casado. Nossas meninas devem respeitar sua religião, sua família e seus corpos.’

‘Agora, só tenho dois filhos. Aquela filha foi um erro em minha vida. Sei que Deus me abençoa pelo que fiz’, ele disse, sua voz soa honrada. ‘Meus filhos estão do meu lado e eles foram homens o suficiente para me ajudar a terminar a vida de alguém que nos trouxe vergonha.’

A filha de Abdel-Qader se chamava Rand. Tinha 17 anos. Foi espancada e morta por seu pai em Basra, no Iraque, por ter conversado com um soldado britânico. Para uma amiga, ela disse que estava apaixonada pelo rapaz. Era seu primeiro amor. Não trocou mais que palavras. Horrorizada, a mãe da Rand, pediu o divórcio. Foi espancada, teve o braço quebrado. Está escondida. Os irmãos mais velhos da moça ajudaram o pai. São muçulmanos xiitas.

Abdel-Qader ficou detido por duas horas na delegacia. Aí foi liberado. Os policiais o congratularam.

Por causa da aulas, tenho lido sobre o multiculturalismo. O que um multiculturalista faria diante do que foi feito e dito acima, já que todas as culturas equivalem-se? O que fazer diante de uma expressão cultural como a defendida acima?  Será que a luta contra o etnocentrismo tem como preço o nivelamento de todas as culturas, através de um relativismo cultural, beirando o absoluto? Será que existe um mínimo moral, isto é, um espaço comum de humanidade, no qual é possível julgar valores? Existe uma racionalidade prática que possa julgar princípios morais, isto é, uma razão prática conectada a valores universalizáveis?

Creio que essa discussão tornou-se fútil, já que Rand morreu… Seria esse o problema do Discurso: ele sempre chega post mortem.

Música

10 de maio de 2008, às 22:36h

Um pouco de música:

Só para rememorar. Com vocês, o velho Creedence, Have You Ever Seen the Rain :

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Um curioso conjunto chamado Breathe Owl Breathe, música do Michigan, meio country/folk, parece que é um duo (Miquéias Middaugh e Bill Callahan?) – Your Cape:


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Já que estou country, bora de country mesmo, com Laura Cantrell, Trains and Boats and Planes (essa música já foi cantada por Johnny Cash?):

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E finalizo com o doido do Nick Cave, Darker with the day:

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Intimidade

9 de maio de 2008, às 0:04h

O que é a intimidade? Bem, seria um fenômeno essencialmente dialógico: “é uma questão sobre o que partilhamos, sobre o que é para nós”. Intimidade é contar segredos. Ao contá-los, ultrapassamos o mero plano individual. E só podemos contá-los numa conversação; ora,

“uma conversação não é a coordenação de ações de indivíduos diferentes, mas uma ação comum nesse sentido forte, irredutível; é nossa ação”.

A conversa é como a dança: sempre inaugura uma ação comum. Assim, a intimidade é contar um segredo pessoal numa conversação, tornando-o uma ação comum, nosso segredo. Por isso, não se conta um segredo para um espelho (bem, já contei, mas não obtive resposta). Contá-lo sem intimidade seria o cúmulo da solidão — é preferível o espelho.

Sim, nunca poderemos descrever a intimidade em termos monológicos. Não é minha intimidade, mas sim, sempre, nossa intimidade. Ela surge ali no milímetro que nos separa — sem ela, esse milímetro vira um abismo.

Mas existe, sim, solidão a dois, justamente quando o casal ou a amizade perde a intimidade. A perda da intimidade é uma espécie de morte, pois se perdeu algo mais do que a simples junção de afeto de duas pessoas. Perdeu-se um nós irredutível à nossa individualidade e, até mesmo, à nossa interação afetiva. Por isso, a perda da intimidade é tão dolorida. Perde-se um fundamento para o outro.

E o outro é fundamental à nossa existência.

Crônica famosa

8 de maio de 2008, às 21:54h

Pesquei no blog de Rafael Galvão (blogueiro provocador da terrinha) essa crônica famosa de Nélson Rodrigues. Como já disse Orravan, uma vez, a Freud: _é o nosso Eurípides! Freud achou um exagero, e disse isso na cara de seu amigo; mas, no íntimo, aquiesceu. É que pensara na reação de Lou Salomé. Chamá-la de histérica, mesmo com o maior carinho do mundo, mesmo sem as conotações psicanalíticas, provavelmente daria uma confusão dos diabos. Mas, pelas caladas, quando lia Nélson Rodrigues, balançava a cabeça e repetia baixinho: _nosso Eurípides, nosso Eurípides…

Era bonito ser histérica

“Beijarei o punhal que matar Pinheiro Machado” — soluçou o orador. E, realmente, enfiou a mão no colete, ou cinto, e de lá arrancou, com ágil ferocidade, o punhal homicida. Logo, à vista de todos, beijou, chorando, o punhal. As lágrimas deslizavam pela face cava. E o orador, prolongando o efeito cênico, ainda ficou, por algum tempo, com o punhal erguido e profético. Um uivo unânime subiu das entranhas do silêncio. O comício veio abaixo. Sujeitos atiravam para o ar os chapéus de palha.

Mas resta de pé a pergunta: — Por que exatamente o punhal? Por que o ódio havia de ter a forma esguia e diáfana do punhal? 1915. Era o Brasil do fraque e do espartilho. Nas salas de visitas, havia sempre uma escarradeira de louça, com flores desenhadas em relevo. Eu tinha meus três anos e estava em Pernambuco. Três anos. Aos três anos, o sujeito começa a inventar o mundo. Minha família morava na praia. E eu começava a inventar o mundo. Primeiro, foi o mar. Não, não. Primeiro, inventei o caju selvagem e a pitanga brava.

Para os meus três anos, o mar, antes de ser paisagem, foi cheiro. Não era concha, nem espuma. Cheiro. Meu pai, antes de ser figura, gesto, bengala ou pura palavra, também foi cheiro. Ninguém tinha nome na minha primeira infância. A estrela-do-mar não se chamava estrela, nem o mar era mar. Só quando cheguei ao Rio, em 1916, é que tudo deixou de ser maravilhosamente anônimo.

Eis o que eu queria dizer — o primeiro nome que ouvi foi o de Pinheiro Machado. Alguém se chamava Pinheiro Machado. A princípio, ele não foi um destino, um perfil, um fraque, mas tão-somente um nome. Um nome solto no ar, quase um brinquedo auditivo. Eu não inventara ainda a morte, não inventara ainda o punhal, nem a palavra “defunto”.

Escrevi, não sei onde, que foi um suicida que me revelara a morte e me ensinara a morrer. Engano, engano. Foi Pinheiro Machado. Sim, Pinheiro Machado. E, súbito, eu aprendia que o homem morre e que o homem mata. Ainda hoje, e até nas minhas crônicas esportivas, falo muito, com uma constância obsessiva, no assassinato de Pinheiro Machado. Uns acham graça e ninguém entende a insistência cruel. Ah, eu teria de explicar que há, em qualquer infância, uma antologia de mortos; e, para o menino que fui, Pinheiro Machado é um desses mortos fundamentais.

Mas repito a pergunta: — Por que havia de ser o punhal? Pinheiro Machado podia ser assassinado a tiro, a bala. Pouco antes, um jornalista fora assassinado em Pernambuco. Chamava-se Trajano Chacon. Três ou quatro se juntaram e o mataram, a cano de chumbo. Não faca, punhal ou revólver. No caso de Pinheiro Machado, quero crer que o punhal convinha mais à retórica. Na época do soneto, era mais parnasiano. O orador podia tirar o punhal, beijá-lo, quase lambê-lo.

Muitos e muitos anos depois, me vejo subindo a escadaria da Biblioteca Nacional. Estou crispado como o criminoso que vai reler a notícia do próprio crime. Lá dentro, peço a coleção do Correio da Manhã de 1915. Dou o mês do assassinato. Não me lembro se é permitido fumar na sala de leitura; em caso afirmativo, tiro um cigarro e o acendo (guardo o palito na própria caixa). Enquanto não vem a coleção, começo a tecer uma pequena fantasia homicida. Não é mais o Manso de Paiva, mas eu que me escondo atrás de uma coluna. Entra Pinheiro Machado, de fraque. Os rapapés o envolvem: — “Senador! Senador!”. É agora. Corro e mato Pinheiro Machado. Sou assassino. Em seguida, imagino a experiência inversa, de vítima. A dor fulminante da punhalada. Não tenho tempo nem para o espanto, nem para o grito.

O funcionário trouxe a coleção. Começo a ficar tenso. Encontro a edição do crime. Primeiro, passo os olhos no dia, mês e ano (sou um fascinado pelas datas dos velhos jornais e dos velhos túmulos). A manchete rasga as suas oito colunas: — ASSASSINADO o GENERAL PINHEIRO MACHADO! Ao bater estas notas, sinto o abismo entre as duas manchetes: — a de Pinheiro Machado era um berro gráfico, um uivo impresso; a de Kennedy, estupidamente impessoal, crassamente informativa. Ah, as manchetes de hoje não se espantam, nem se desgrenham, nem reconhecem a catástrofe.

O Correio da Manhã conta tudo. Estou vendo Pinheiro Machado, de fraque, chegando ao Hotel dos Estrangeiros. Lá está o seu lindo perfil de moeda. Vinha falar com dois políticos de São Paulo. Era um voluptuoso, um lúbrico do Poder. Sua conquista política era um jogo amoroso. O olho ficava mais doce, lascivo, translúcido. Amorosamente, Pinheiro Machado abriu os braços, enlaçando os dois políticos. E assim, entre um e outro, caminha o general, muito olhado. Claro que todos se voltavam para ver o homem que, segundo os comícios e os jornais, era o autor de todos os presidentes.

Pouco antes, chegava da Europa Irineu Machado, um dos grandes tribunos da época. Era homem de falar dez horas sem parar (antigamente, tínhamos mais oradores do que hoje camelôs de caneta-tinteiro). E Irineu Machado disse, em comício: — “Matar Pinheiro Machado não é ser assassino. É ser caçador”. Ele não estava improvisando nada. A frase fora criada, recriada, até chegar à sua forma exata, inapelável e assassina.

Era apenas uma frase. Mas aí é que está: — nada se fazia então sem frase. Para tudo era preciso uma frase. Repito: — uma frase tanto fazia uma adúltera como um ministro. E aquilo que Irineu Machado berrara foi de uma prodigiosa eficácia homicida. Caçar Pinheiro Machado, simplesmente caçar. Manso de Paiva estava ouvindo. E se não fosse Manso de Paiva seria outro Manso de Paiva. Até as senhoras eram Mansos de Paiva. A punhalada amadurecia no coração do povo. Mas volto ao Hotel dos Estrangeiros. Passa o caudilho com os outros dois. Ouvia-se o seu riso cálido, vital. Uma dama olha Pinheiro por detrás do leque como uma Butterfly.

Tudo teve a progressão fulminante da catástrofe. Manso de Paiva sai da coluna; corre, tira o punhal e o enterra até o fim nas costas do caudilho, pouco abaixo da nuca. Pinheiro soluça: — “Mataste-me, canalha!”. Mas Osvaldo Paixão, contemporâneo do episódio, orador de vários comícios ferocíssimos, retifica. Segundo ele, as últimas palavras de Pinheiro foram estas: — “Apunhalaste-me, canalha!”. Quero crer que ele tenha dito apenas: “Canalha”. Mas cabe perguntar: — que canalha? Ou, por outra: o caudilho estava com dois paulistas. Morreu certo de que um deles era o “canalha”.

(Preciso falar de Guimarães Rosa.) Ah, em 1915, as mulheres tinham um repertório de gritos que as novas gerações não usam, nem conhecem, Era bonito “ser histérica”. Muitas simulavam seus ataques, como o dostoievskiano Smerdiakov. Mas, quando Pinheiro caiu, as damas presentes não fingiam nada. Elas se esganiçavam, e rolavam pelas cadeiras, ou sapateavam como espanholas. Naquela época, uma notícia levava meia hora para ir de uma esquina à outra esquina. Mas toda a cidade ou, mais do que isso, o Brasil soube do assassinato, com uma instantaneidade brutalíssima.

E ninguém percebeu que, com Pinheiro Machado, morria também o fraque. [4/12/1967]

Resposta no gogó

8 de maio de 2008, às 19:00h

Eita direita burra! Meu reino por uma direita inteligente nesse país. Como disse John Stuart Mill, o filósofo e economista político inglês (1806-1873) — verdadeiramente liberal, e não esses liberais carolas que infestam nossas plagas :

JAMAIS QUIS dizer que os conservadores são geralmente estúpidos. Quis dizer que as pessoas estúpidas são geralmente conservadoras

Não?! Vejam, então, a atuação de José Agripino Maia (DEM-RN) e a resposta contundente de Dilma, minha presidente!:

 

Acabou. A direita acabou nesse país. O Foro de São Paulo passou anos financiando os políticos da direita mais imbecil que existiu na face da Terra: os paspalhos do DEM! Plano, de fato, maquiavélico. Só sobrou a Veja, as piadinhas de Mainardi e o ressentimento de ex-trotskista de Reinaldo Azevedo (ah, sim, e o neostalinismo de Olavo de Carvalho). Atualmente, a direita só existe na… esquerda. Ora, existe algo mais conservador do que petismo e “investment grade”?!

Em tempo: esquerda conservadora e sacana. Já tinha dito, aqui, que o caso do dossiê era uma artimanha para explodir a candidatura de Dilma (minha presidente!), seja pela oposição, seja pelo próprio… PT. Pois agora sabemos que foi José Aparecido Nunes, petista histórico e aliado de José Dirceu, quem vazou os dados para o servidor do Senado André Fernandes, justamente o assessor do tucano…  Álvaro Dias (PSDB-PR). Eu fico é calado.

China

7 de maio de 2008, às 18:43h

Vancarder, o cientista cearense niilista, envia um artigo. Diz que o texto é apocalíptico. De fato, ele é uma pessoa que sabe tudo sobre o fim do mundo; afinal, mora em Cabedelo. Afirma que a consciência do Armagedon relativiza tudo, inclusive o fato de fazer omeletes com os raríssimos ovos de tartaruga de Intermares.

_Como todos! — fala com a boca cheia de ovo com farofa do Ceará.

O mundo acabará mesmo; assim, aproveitemos do bom e do melhor, incluindo, é claro, as espécies em extinção. Seu sonho, já me falou, é saborear carne de bebê de foca.

_Os esquimós não comem foca? Por que não comeria?

 

DEFESA@NET 07 Maio 2008
OESP 04 Maio 2008

O grande jogo nunca foi tão perigoso
O MAIOR NOVO JOGADOR É A CHINA,
QUE APOSTOU TUDO NO CRESCIMENTO

John Gray*

A história pode não se repetir, mas, como observou Mark Twain, às vezes ela rima. Crises e conflitos do passado ressurgem perceptivelmente similares, mesmo quando alterados por condições novas. Atualmente, está em curso uma corrida pelos recursos mundiais que lembra o Grande Jogo das décadas que precederam a 1ª Guerra Mundial. Agora, como então, o prêmio mais cobiçado é o petróleo; e o risco é que, à medida que a partida esquente, ela deixe de ser pacífica. Mas não se trata de uma simples reprise do fim do século 19 e início do 20. Existem hoje jogadores novos e poderosos. E não é somente o petróleo que está em jogo.

Foi Rudyard Kipling quem trouxe a idéia do Grande Jogo para a imaginação pública em Kim, seu romance de espionagem e geopolítica imperial na época do Raj britânico, publicado inicialmente como folhetim em 1900-1901. Os principais jogadores eram a Grã-Bretanha e a Rússia, e o objetivo do jogo era controlar o petróleo da Ásia Central. Hoje, a Grã-Bretanha conta muito pouco, e Índia e China, que eram países subjugados durante a última rodada do jogo, emergiram como jogadores decisivos. A luta não está mais centrada principalmente no petróleo centro-asiático. Ela se estende do Golfo Pérsico à África, América Latina e até às calotas polares, e é também uma luta por água e pelos suprimentos declinantes de minerais vitais.

Acima de tudo, o aquecimento global está aumentando a escassez de recursos naturais. O Grande Jogo que está em curso hoje é mais descontrolado e mais perigoso que o anterior.

O maior novo jogador é a China, e é aí que o padrão emergente fica mais claro. Os governantes chineses apostaram tudo no crescimento econômico. Sem uma melhoria nos níveis de vida em seu país haveria uma agitação em larga escala que poderia pôr em risco seu poder. Além disso, a China está no meio da maior e mais rápida transição do campo para a cidade da história, um processo que não pode ser estancado.

Não há alternativa à continuidade do crescimento, e este traz consigo alguns efeitos colaterais fatais. Consumida em excesso pela indústria e agricultura, e sob a ameaça do recuo das geleiras do Himalaia, a água está se tornando um recurso não renovável. Dois terços das cidades da China enfrentam situações de escassez, enquanto desertos engolem terras cultiváveis. A industrialização vertiginosa está agravando essa ruptura ambiental, com a construção de muito mais usinas de eletricidade tocadas a carvão, altamente poluente, o que agrava ainda mais o aquecimento global. Há um círculo vicioso em ação, e não só na China.

Como o crescimento em curso requer um consumo maciço de energia e minerais, empresas chinesas estão vasculhando o mundo atrás de suprimentos. O resultado é uma demanda crescente e interminável por recursos que são implacavelmente finitos. Ainda que as reservas de petróleo não tenham chegado ao limite, no sentido literal, os dias de petróleo barato acabaram. Os países reagem, tentando garantir para si as reservas restantes - incluindo as que estão sendo abertas pela mudança climática. O Canadá está construindo bases para fazer
frente às pretensões russas à calota de gelo do Ártico que está derretendo, partes da qual são pretendidas também pela Noruega, Dinamarca e Estados Unidos. A Grã-Bretanha está reclamando áreas em torno do Pólo Sul.

A disputa pela energia dará a forma de muitos dos conflitos que podemos esperar no transcorrer do século. O perigo não é somente de outro choque do petróleo que repercuta na produção industrial, mas uma ameaça de fome. Sem o fluxo incessante de petróleo para as fazendas altamente mecanizadas de hoje, muitas gôndolas de alimentos nos supermercados ficariam vazias. O mundo, longe de estar se desprendendo do petróleo, está mais viciado do que nunca no produto. Não espanta que Estados poderosos estejam se apressando para
agarrar sua parte.

Essa nova rodada do Grande Jogo não começou ontem. Começou no último grande conflito do século 20, que foi uma guerra do petróleo e nada mais. Ninguém tentou simular que a Guerra do Golfo travada em 1990-1991 foi para combater o terrorismo ou expandir a democracia. Como George Bush pai e John Major admitiram na época, ela visava a garantir os suprimentos globais de petróleo, pura e simplesmente. Apesar das negativas de uma geração menos honesta de políticos, não pode haver dúvida de que controlar o petróleo do país foi um dos objetivos da invasão do Iraque.

O petróleo continua no centro do jogo, e, no mínimo, é ainda mais importante que antes. Com sua logística complexa e pesada dependência do poderio aéreo, os exércitos high tech são grandes consumidores de energia. Segundo um relatório do Pentágono, a quantidade de petróleo necessária diariamente para cada soldado aumentou quatro vezes entre a 2ª Guerra Mundial e a Guerra do Golfo, e quadruplicou novamente quando os EUA invadiram o Iraque. Estimativas recentes sugerem que a quantidade usada por soldado deu novo
salto nos cinco anos desde a invasão.

Enquanto países ocidentais dominaram a última rodada do Grande Jogo, desta vez eles dependem dos produtores de petróleo para ter o combustível necessário para poder jogar. E os países produtores estão ficando cada vez mais autoconfiantes. O afiado desprezo do sr. Putin pela opinião mundial pode irritar ouvidos europeus, mas a Europa é pesadamente dependente da energia russa. O presidente venezuelano Hugo Chávez pode ser objeto de ódio de George W. Bush, mas a Venezuela ainda supre cerca de 10% do petróleo importado pelos EUA. O presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad pode ser o diabo encarnado, mas, com o petróleo acima de U$ 100 o barril, qualquer tentativa ocidental de derrubá-lo seria tremendamente arriscada.

Enquanto o poder ocidental diminui, as potências ascendentes se estranham. China e Índia são rivais por petróleo e gás natural da Ásia Central. Taiwan, Vietnã, Malásia e Indonésia se chocaram sobre reservas submarinas de petróleo no Mar do Sul da China. Arábia Saudita e Irã são rivais no Golfo, enquanto Irã e Turquia estão de olho no Iraque. Uma maior cooperação internacional pode parecer a solução óbvia, mas a realidade é que, à medida que se agrava a escassez de recursos, o mundo está ficando continuamente mais fragmentado e dividido.

Estamos longe do mundo de fantasia de apenas uma década atrás, quando gurus da moda falavam sabiamente da economia do conhecimento. Na época, eles nos diziam que os recursos materiais não tinham mais importância - eram as idéias que impulsionavam o desenvolvimento econômico. O ciclo econômico fora deixado para trás, e uma era de crescimento inesgotável havia chegado. Na verdade, economia do conhecimento foi uma ilusão criada pelo petróleo barato e o dinheiro barato, e as expansões econômicas perpétuas sempre terminaram em lágrimas. Isso não é o fim do mundo ou do capitalismo global, apenas a história de sempre.

O diferente desta vez é a mudança climática. A elevação dos níveis dos oceanos provoca a redução de alimentos e dos suprimentos de água doce, o que pode causar movimentos em larga escala de refugiados ambientais da África e da Ásia para a Europa. O aquecimento global ameaça o suprimento de energia, na medida em que barragens hidrelétricas e plataformas de petróleo tornam-se menos seguras. À medida que os combustíveis fósseis do passado se tornam mais caros, outros, como as areias betuminosas, estão se tornando economicamente mais viáveis. Mas esses combustíveis alternativos são também mais poluentes que o petróleo convencional.

Nesta rodada do Grande Jogo, escassez de energia e aquecimento global se realimentam. O resultado só pode ser um risco crescente de conflito. Havia cerca de 1,65 bilhão de pessoas no mundo quando a última rodada foi jogada. No início do século 21, há quatro vezes mais lutando para assegurar seu futuro num mundo em radical transformação pela mudança climática. Seria
inteligente planejarmos mais algumas rimas da história.


*John Gray, filósofo inglês, é autor, entre outros, de Cachorro de Palha e O Falso Amanhecer (ambos da Record)

Hipocrisia

7 de maio de 2008, às 9:00h

Os carolas venceram:

BRASÍLIA - A Comissão de Seguridade Social e Família, da Câmara dos Deputados, rejeitou por unanimidade, nesta quarta-feira, o projeto de lei que descriminaliza o aborto. O projeto de lei que suprime o artigo 124 do Código Penal brasileiro, está no Congresso há 17 anos e a votação foi marcada por ruidosas manifestações de grupos feministas, favoráveis ao projeto..

Os 33 deputados que seguiram o parecer do relator (mantendo o aborto como crime), deputado Jorge Tadeu Mudalen (DEM-SP), não aceitaram adiar a votação da matéria, o que provocou a saída dos cinco parlamentares favoráveis ao projeto de descriminalização

Deputados carolas,
deixem de hipocrisia, denunciem e prendam suas mulheres!
Médicos carolas,
deixem de hipocrisia, denunciem e prendam suas pacientes!
Burgueses carolas,
deixem de hipocrisia, denunciem e prendam suas filhas!
Jovens carolas,
deixem de hipocrisia, denunciem e prendam suas namoradas!

O Vaticano prometeu investimentos de milhões de dólares na construção de penitenciárias para as criminosas — convenhamos, será muita gente, sem falar dos responsáveis pelo aborto, das famílias cúmplices, dos amigos silenciosos; em suma, precisaremos de ajuda externa. Todas as prisões serão localizadas nos bairros populares das capitais. As maternidades do SUS serão vigiadas dia e noite, onde haverá prisão in loco das delinquentes — já as clínicas de atendimento socialite serão vigiadas por macacos surdos, mudos e cegos.