Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XL
12 de março de 2010, às 15:00hEm tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.
(Orbi et Homo)
40º CAPÍTULO
Nas décadas de 1950 a 1970, a Itália se reorganizava do caos deixado pela derrota na Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, financiada pelo Plano Marshall, a direita dirigia o país sob a égide de três forças políticas principais: a ICR, através da Democracia Cristã, a CIA e a Máfia Siciliana, sem falar da Camorra. A corrupção econômica tornara-se um câncer nacional, inclusive dentro da própria Igreja através do IOR, e a violência física e moral se mostrava na repressão aos movimentos progressistas.
O troco da esquerda, aliás, viria, com mais violência ainda, a partir da década de 1980.
Não era de estranhar, pois, que a ICR, apesar de ter abolido a sagrada fogueira, perseguisse aqueles que considerava hereges, dentro e fora da Itália. Aqui mesmo, no Brasil, o Congresso Eucarístico Nacional do Recife, em 1950, proclamava que “quem não crê (na ICR), brasileiro não é”.
Não me surpreendi, pois, com o rapto de que fora vítima nem tampouco o violento interrogatório que sofrera. Mas, como dizia um filósofo, “nem toda confissão é uma vitória da tortura; porque, às vezes, a pior tortura é ter a voz silenciada”. E nesse sentido, o Santo Ofício jamais me venceria.
Depois de um pequeno lanche, do qual não participei (apenas deram-me um pouco d’água), o padre Von Hartz começou a delirar pronunciando uma sapientíssima aula de Teologia Cristã, repetindo, como me parecia evidente, os teólogos antigos, especialmente os medievais.
De repente, calou-se e, olhando-me fixamente, falou:
─ Padre Von Tsé! Chegou sua hora de confessar todas as heresias que vem pregando dentro de nossa Santa Igreja.
Mais descansado e aproveitando-me da vaidade do padre alemão, respondi, com toda a coragem que aprendera em nossa Comunidade, que só falaria se ele retirasse o arame farpado em volta do meu corpo, que me impedia de respirar direito. Para minha surpresa, Von Hartz concordou prontamente tal a sua curiosidade pseudointelectual no debate teológico que, segundo ele pensava, se seguiria com a vitória certa dos ensinamentos sagrados da ICR.
─ Em suma, padre Von Tsé! O senhor acredita que Deus criou os céus e a terra? ─ Perguntou-me, como se estivesse em plena aula de catecismo.
─ Não! ─ Respondi.
─ Como assim? ─ Exclamou Von Hartz, atônito.
─ Ora, padre Von Hartz! No princípio, havia apenas os quatro elementos: terra, água, fogo e ar. Eles formavam uma gigantesca massa amarronzada que se movia caoticamente pelo espaço. No meio dela, surgiu Nosso Senhor Todo-Poderoso, também feito dos quatro elementos, e não entendeu nada do que estava ocorrendo. Ele queria, mas não podia e não adiantava ter o “querer” sem o “poder”. Foi, então, que surgiu um “Assopro” de nome feminino, que chamo de Espírito Santo, segundo as Sagradas Escrituras, e inoculou no Todo-Poderoso o intelecto que, além do “querer, forneceu-lhe, enfim, o “poder”.
─ Estranho! Estranho! Quer dizer que a mulher já existia antes do próprio Deus? ─ Exclamou o padre alemão.
─ Não disse nada parecido, Senhor Vigário. Esclareci apenas que, em aramaico, o Espírito Santo tem nome feminino. Parecia mais como “um bater de asas”. Nada mais! Se era mulher, fica por sua conta. ─ Acrescentei.
E de onde veio todo o conhecimento de Deus? ─ Murmurou Von Hartz.
─ Do Caos! Da massa primordial cor de…, cor de…como direi…enfim, cor de merda. Mas, acontece que o Todo-Poderoso estava sozinho e não podia conversar com ninguém. Como já “podia”, resolveu criar o Filho e daí por diante começou o diálogo universal. Primeiramente, Eles não gostaram da cor do Universo e resolveram transformar tudo em leite do mais branco que pudessem. E esse branco leitoso é o que chamamos ainda hoje de Via Láctea. Porém, os dois falavam, falavam e nada criavam além de se moverem através do leite derramado. Para não se afogarem, aproveitaram o eterno movimento da massa original, e transformaram o rio de leite num imenso queijo, mais sólido e consistente sobre o qual podiam andar, correr e até patinar.
─ Heresia, heresia! ─ Murmurou Von Hartz assustado com minhas palavras. Nem liguei e continuei a falar. Quanto mais falasse, pensava, mais rápido o padre alemão se cansaria e deixaria de me atormentar.
─ No entanto, as conversas entre o Pai e o Filho, às vezes traduzidas pelo Espírito, não levavam a nada. Ora, naquelas alturas, passado muito tempo, o queijo universal começou a apodrecer e dos seus buracos surgiram inúmeros vermes, parecidos com tapurus, que o Filho chamou de Anjos, todos eles subordinados ao Pai, ao Filho e ao Assopro. Foi, então, que o Pai teve uma ideia das mais desastrosas. Resolveu criar o mundo e mandou que os Anjos fizessem um boneco, feito também dos quatro elementos. Depois, pediu ao Assopro que fuçasse nas suas narinas algo que prestasse. E foi assim que surgiram o homem e a mulher para reinarem no mundo e para o destruírem também como quase conseguiu seu chefe supremo, padre Von Hartz. Eis a ideia mais estrambólica que Nosso Senhor já tivera: a criação de nossa espécie.
─ Não acredito! Não acredito! Além disso, nosso Líder só perdeu a guerra por causa da incompetência dos generais e do dinheiro dos judeus americanos. ─ Gritou histericamente o padre alemão.
─ Mentira desgraçada! ─ Exclamei com moderação. E continuei:
─ Depois disso, o casal botou pra quebrar e teve milhares de filhos que povoaram a terra, até que surgiu um desgraçado e louco bárbaro germânico que queria acabar com a raça primordial. E quase conseguiu se não fossem a vitórias brasileiras em Monte Castelo e Monte Cassino.
─ Mas vamos deixar de blá-blá-blá pseudo-histórico, padre Von Tsé. ─ Interrompeu-me o Vigário Inquisidor cheio de irritação. ─ Voltemos à Santa Teologia. Ora, se não houvesse existido essa tal massa amarronzada, Deus Todo-Poderoso teria podido fazer sozinho todas as coisas? E a luz de onde veio, padre Von Tsé?
─ Padre Von Hartz! Eu acredito que não se possa fazer nada sem matéria e Deus, nosso Pai, ficaria somente com o “querer”. Quanto à luz, é óbvio; veio dos tapurus, como a gente vê nas velas de uma procissão.
─ E aquele Assopro, que o senhor chama de Espírito Santo, é da mesma natureza e essência de Deus?
─ É! Assim como o Filho, os anjos e os homens, isto é, tudo feito da mesma porcaria: terra, água, fogo e ar. O resto não passa de mentira dos padres e dos pastores para enganar o povo. ─ Respondi atrevidamente. Von Hartz, em troca, começou a cutucar meu fígado com o cabo do seu chicote até que não pude mais respirar.
─ Chamando-me de mentiroso, padre Tsé? Comparando-me com esses infiéis da Nova Seita? E Deus, Nosso Senhor, foi produzido por quem? ─ Interrogou o padre alemão.
─ Não sei! E deixe de apertar meu fígado, pelo amor de Nossa Senhora. Mas, todos, inclusive o Pai, o Filho e o Espírito Santo, recebem a vida do movimento e da mudança do Caos e caminham da imperfeição à perfeição.
─ É! Depois, voltaremos à Santa Virgem Mãe de Deus. E o Caos, quem o criou e quem o move?
─ Ele sempre existiu e se move sozinho. ─ Respondi.
O padre Von Hartz, embora vidrado na minha Cosmogonia, parecia cansado e começou a bocejar.
─ Padre Von Tsé! Vamos parar um pouco por aqui. Voltaremos depois de fazer um lanche do qual, por minha exclusiva bondade, o senhor vai participar. Daremos um bom cochilo e continuaremos essa interessante e imaginosa conversa duas horas mais tarde.
Comemorei a decisão de Von Hartz. Teria mais tempo para melhorar minha história.
Toda a Memória (Falsa?!):
Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI
Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV
Capítulo XXXVI
Capítulo XXXVII
Capítulo XXXVIII
Capítulo XXXIX












