Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XL

12 de março de 2010, às 15:00h

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

(Orbi et Homo)

40º CAPÍTULO

Nas décadas de 1950 a 1970, a Itália se reorganizava do caos deixado pela derrota na Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, financiada pelo Plano Marshall, a direita dirigia o país sob a égide de três forças políticas principais: a ICR, através da Democracia Cristã, a CIA e a Máfia Siciliana, sem falar da Camorra. A corrupção econômica tornara-se um câncer nacional, inclusive dentro da própria Igreja através do IOR, e a violência física e moral se mostrava na repressão aos movimentos progressistas.

O troco da esquerda, aliás, viria, com mais violência ainda, a partir da década de 1980.

Não era de estranhar, pois, que a ICR, apesar de ter abolido a sagrada fogueira, perseguisse aqueles que considerava hereges, dentro e fora da Itália. Aqui mesmo, no Brasil, o Congresso Eucarístico Nacional do Recife, em 1950, proclamava que “quem não crê (na ICR), brasileiro não é”.

Não me surpreendi, pois, com o rapto de que fora vítima nem tampouco o violento interrogatório que sofrera. Mas, como dizia um filósofo, “nem toda confissão é uma vitória da tortura; porque, às vezes, a pior tortura é ter a voz silenciada”. E nesse sentido, o Santo Ofício jamais me venceria.

Depois de um pequeno lanche, do qual não participei (apenas deram-me um pouco d’água), o padre Von Hartz começou a delirar pronunciando uma sapientíssima aula de Teologia Cristã, repetindo, como me parecia evidente, os teólogos antigos, especialmente os medievais.

De repente, calou-se e, olhando-me fixamente, falou:

─ Padre Von Tsé! Chegou sua hora de confessar todas as heresias que vem pregando dentro de nossa Santa Igreja.

Mais descansado e aproveitando-me da vaidade do padre alemão, respondi, com toda a coragem que aprendera em nossa Comunidade, que só falaria se ele retirasse o arame farpado em volta do meu corpo, que me impedia de respirar direito. Para minha surpresa, Von Hartz concordou prontamente tal a sua curiosidade pseudointelectual no debate teológico que, segundo ele pensava, se seguiria com a vitória certa dos ensinamentos sagrados da ICR.

─ Em suma, padre Von Tsé! O senhor acredita que Deus criou os céus e a terra? ─ Perguntou-me, como se estivesse em plena aula de catecismo.

─ Não! ─ Respondi.

─ Como assim? ─ Exclamou Von Hartz, atônito.

─ Ora, padre Von Hartz! No princípio, havia apenas os quatro elementos: terra, água, fogo e ar. Eles formavam uma gigantesca massa amarronzada que se movia caoticamente pelo espaço. No meio dela, surgiu Nosso Senhor Todo-Poderoso, também feito dos quatro elementos, e não entendeu nada do que estava ocorrendo. Ele queria, mas não podia e não adiantava ter o “querer” sem o “poder”. Foi, então, que surgiu um “Assopro” de nome feminino, que chamo de Espírito Santo, segundo as Sagradas Escrituras, e inoculou no Todo-Poderoso o intelecto que, além do “querer, forneceu-lhe, enfim, o “poder”.

─ Estranho! Estranho! Quer dizer que a mulher já existia antes do próprio Deus? ─ Exclamou o padre alemão.

─ Não disse nada parecido, Senhor Vigário. Esclareci apenas que, em aramaico, o Espírito Santo tem nome feminino. Parecia mais como “um bater de asas”. Nada mais! Se era mulher, fica por sua conta. ─ Acrescentei.

E de onde veio todo o conhecimento de Deus? ─ Murmurou Von Hartz.

─ Do Caos! Da massa primordial cor de…, cor de…como direi…enfim, cor de merda. Mas, acontece que o Todo-Poderoso estava sozinho e não podia conversar com ninguém. Como já “podia”, resolveu criar o Filho e daí por diante começou o diálogo universal. Primeiramente, Eles não gostaram da cor do Universo e resolveram transformar tudo em leite do mais branco que pudessem. E esse branco leitoso é o que chamamos ainda hoje de Via Láctea. Porém, os dois falavam, falavam e nada criavam além de se moverem através do leite derramado. Para não se afogarem, aproveitaram o eterno movimento da massa original, e transformaram o rio de leite num imenso queijo, mais sólido e consistente sobre o qual podiam andar, correr e até patinar.

─ Heresia, heresia! ─ Murmurou Von Hartz assustado com minhas palavras. Nem liguei e continuei a falar. Quanto mais falasse, pensava, mais rápido o padre alemão se cansaria e deixaria de me atormentar.

─ No entanto, as conversas entre o Pai e o Filho, às vezes traduzidas pelo Espírito, não levavam a nada. Ora, naquelas alturas, passado muito tempo, o queijo universal começou a apodrecer e dos seus buracos surgiram inúmeros vermes, parecidos com tapurus, que o Filho chamou de Anjos, todos eles subordinados ao Pai, ao Filho e ao Assopro. Foi, então, que o Pai teve uma ideia das mais desastrosas. Resolveu criar o mundo e mandou que os Anjos fizessem um boneco, feito também dos quatro elementos. Depois, pediu ao Assopro que fuçasse nas suas narinas algo que prestasse. E foi assim que surgiram o homem e a mulher para reinarem no mundo e para o destruírem também como quase conseguiu seu chefe supremo, padre Von Hartz. Eis a ideia mais estrambólica que Nosso Senhor já tivera: a criação de nossa espécie.

─ Não acredito! Não acredito! Além disso, nosso Líder só perdeu a guerra por causa da incompetência dos generais e do dinheiro dos judeus americanos. ─ Gritou histericamente o padre alemão.

─ Mentira desgraçada! ─ Exclamei com moderação. E continuei:

─ Depois disso, o casal botou pra quebrar e teve milhares de filhos que povoaram a terra, até que surgiu um desgraçado e louco bárbaro germânico que queria acabar com a raça primordial. E quase conseguiu se não fossem a vitórias brasileiras em Monte Castelo e Monte Cassino.

─ Mas vamos deixar de blá-blá-blá pseudo-histórico, padre Von Tsé. ─ Interrompeu-me o Vigário Inquisidor cheio de irritação. ─ Voltemos à Santa Teologia. Ora, se não houvesse existido essa tal massa amarronzada, Deus Todo-Poderoso teria podido fazer sozinho todas as coisas? E a luz de onde veio, padre Von Tsé?

─ Padre Von Hartz! Eu acredito que não se possa fazer nada sem matéria e Deus, nosso Pai, ficaria somente com o “querer”. Quanto à luz, é óbvio; veio dos tapurus, como a gente vê nas velas de uma procissão.

─ E aquele Assopro, que o senhor chama de Espírito Santo, é da mesma natureza e essência de Deus?

─ É! Assim como o Filho, os anjos e os homens, isto é, tudo feito da mesma porcaria: terra, água, fogo e ar. O resto não passa de mentira dos padres e dos pastores para enganar o povo. ─ Respondi atrevidamente. Von Hartz, em troca, começou a cutucar meu fígado com o cabo do seu chicote até que não pude mais respirar.

─ Chamando-me de mentiroso, padre Tsé? Comparando-me com esses infiéis da Nova Seita? E Deus, Nosso Senhor, foi produzido por quem? ─ Interrogou o padre alemão.

─ Não sei! E deixe de apertar meu fígado, pelo amor de Nossa Senhora. Mas, todos, inclusive o Pai, o Filho e o Espírito Santo, recebem a vida do movimento e da mudança do Caos e caminham da imperfeição à perfeição.

─ É! Depois, voltaremos à Santa Virgem Mãe de Deus. E o Caos, quem o criou e quem o move?

─ Ele sempre existiu e se move sozinho. ─ Respondi.

O padre Von Hartz, embora vidrado na minha Cosmogonia, parecia cansado e começou a bocejar.

─ Padre Von Tsé! Vamos parar um pouco por aqui. Voltaremos depois de fazer um lanche do qual, por minha exclusiva bondade, o senhor vai participar. Daremos um bom cochilo e continuaremos essa interessante e imaginosa conversa duas horas mais tarde.

Comemorei a decisão de Von Hartz. Teria mais tempo para melhorar minha história.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV
Capítulo XXXVI
Capítulo XXXVII
Capítulo XXXVIII
Capítulo XXXIX

Ciro Gomes desce a lenha

12 de março de 2010, às 10:25h

É Ciro Gomes batendo em tudo e em todos.

Imagem de Amostra do You Tube

Ciro, no Valor, afirma que Aécio salvou o mandato de Lula:

O governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), teve um papel fundamental no desmonte de uma “articulação golpista” em 2005 que, por meio da CPI dos Correios que investigava denúncias do mensalão, pretendia levar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao impeachment. É o que revela, em entrevista ao Valor, o deputado Ciro Gomes (PSB-CE). Aécio mandava um avião buscar Ciro, então ministro da Integração Nacional de Lula, e os então deputados Gustavo Fruet (PSDB-PR) e Eduardo Paes (PSDB-RJ), integrantes da CPI. “Íamos para o hangar lá em Belo Horizonte e brigávamos muito, mas chegávamos a um acordo que era avalizado pelo Aécio. Ele nos ajudou a salvar o mandato de Lula”, garante Ciro.

Há frases memoráveis sobre Serra e FHC (pesquei do PHA):

FHC tem um ciúme infantil do Lula, uma inveja feminil do Lula”.

“O problema é o Serra e o carreirismo dele, só pensa em si. O problema do PSDB é o seguinte: eles (os tucanos) vivem embaixo de uma redoma, quando saem da rede de proteção da mídia, encontram um Brasil que não conhecem”.

Em São Paulo é picareta para um lado, picareta para o outro.”

“O Serra acabou de trair o seu próprio partido e elegeu o DEM para a Prefeitura de São Paulo, contra o PSDB. E para ele tudo pode. O Nordeste praticamente varreu o ex-PFL e Serra elege Kassab em São Paulo. E aí eu pergunto: quem elegeu o DEM em São Paulo vem me falar em modernidade ?”

“A briga vem do provincianismo paulista”.


Trashcan Sinatras e Mr. Airplane Man

12 de março de 2010, às 10:20h

Musiquinha bonitinha:

got carried away (live)

Imagem de Amostra do You Tube

Bem…er… é um grupo escocês, fundado em 1987. Pensei que fossem irlandeses, dada a melancolia. Confesso que fiquei num estado de languidez e tristeza indefinida. Para resolver minha angustiante situação, fui na cozinha e fiz um casadinho entre pedaços de banana e de goiabada — melhor do que prozac, posso garantir. A banda desapareceu em 1996 e reapareceu em 2004. Depois disso, não tenho mais notícias, afora a preguiça de procurar, é claro.

Outra musiquinha bonitinha:

How long

Imagem de Amostra do You Tube

É uma banda curiosa. São duas mulheres (Margaret Garrett, guitarra e vocal, e Tara McManus, bateria). Não saquei, inicialmente. Aliás, passei batido no gênero. Depois, soube disso. E, assim, fiquei matutando sobre a diferenciação de gênero por meio da audição. Sim, pode causar alguma confusão. O nome do grupo também me enganou. O nome, na verdade, é apenas uma homenagem a Howlin Wolf, um músico que nunca ouvi falar, que fizera uma canção com o nome de  “Mr. Airplane Man”. Seu som é uma espécie de punk-blues híbrido, seja lá o que isso, de fato, signifique. Elas têm ligação com o White Stripes e o Strokes. É básico e agradável.

Outra música:

Not Living At All

Imagem de Amostra do You Tube

Comida rara e cerveja

12 de março de 2010, às 10:15h

O alemão olhava sua cerveja. Estava com a cara vermelha de tanto beber. Bateu com sua caneca na mesa e esbravejou:

_Já comi tudo o que podia ser comido!

E alisou sua enorme pança, olhando todo amostrado para o biólogo.

_Já comi urubu, timbu e morcego de Intermares.
_E esses troços tinham gosto de quê?

O biólogo estava alto. Beber com o alemão não era fácil. Além do mais, embebedava-se rápido. E duvidava um pouco das histórias do alemão.

_O urubu tem gosto de faisão podre. O timbu, de molusco de carniça…
_Não é o contrário, não?! Nunca ouvi falar de molusco de carniça.
_Biólogo de merda.
_Alemão mentiroso.
_O morcego de Intermares parece com porquinho-da-índia, só que doce.
_Tá com a porra!
_Pois comi o papagaio norturno da Nova Zelândia, um lêmure raro de Madagascar e panda gigante. A bisteca de panda é uma coisa!
_Sei… E mamute? E preguiça gigante?
_Sim — depois de descongelar, é claro. Como você adivinhou?
_Não adivinhei. Deduzi.
_Tudo bem… agora, melhor do que mamute é mastodonte — carne boa. Comi lemingues, tigre da Tasmânia, tartaruga gigante, rinoceronte de Sumatra.
_Lemingues suicidas?
_São os melhores. É só esperar embaixo de uma falésia. Eles caem, praticamente, direto no prato.
_Lemingue suicida é lenda.
_Biólogo de Discovery.
_Alemão mitômano.

O biólogo já enjoava de tanta comida. Mas perguntou:

_E besouro?
_Comi vários, mas você me pegou. Não comi todos. Se comesse sete espécies por dia, levaria mais de vinte anos para comer um representante de cada tipo de besouro.
_É muito besouro.
_Oh, si.
_Dizem que o besouro é a imagem e a semelhança de Deus.
_É papo. O besouro é imagem e semelhança de Tammuzteca, um deus asteca.
_Ele não é uma vespa?
_Não.

O alemão tomou um gole de sua cerveja e limpou seu bigode.

_Cerveja alemã. É uma cerveja boa. E é antiga.
_Mas a mais antiga é a egípcia. Há cinco mil anos, os egípcios já faziam cerveja.
_É mesmo?
_Pois é… Só que não tinham lúpulo e, assim, aromatizavam a cerveja com cardamomo e coentro. Ficava encorpada, saborosa e refrescante. Só começavam a carregar as pedras para a construção de alguma pirâmide, depois de uma cervejinha. Tradição milenar.
_Tem lógica.

O alemão não estava gostando da direção da conversa. Pensou em falar sobre colegiais peitudas. Não tinha disso na Paraíba. Mas resolveu encarar a provocação do biólogo.

_Mas fomos nós que inventamos a lata de cerveja.
_Que nada, foram também os egípcios.
_A lata é uma invenção alemã e relativamente moderna.
_Pois os egípcios faziam lata, usando um amálgama de cobre e latão, muitas vezes com um toque de prata. Com isso, a cerveja aguentava o calor. Pense, alemão, onde os antigos egípcios guardariam sua cerveja?

O alemão ficou calado. Aparentemente, não quis mais falar, pelo menos sobre cerveja. Continuou bebendo, em silêncio. O biólogo resolveu quebrar o gelo.

_Você torce pelo Bayern de Munique?
_Não, torço pelo Schalke 04. O clube mais popular da Alemanha.
_Não é o Bayern?
_Não.

E retomaram a conversa.

Política externa

12 de março de 2010, às 10:14h

Curiosa, a política externa brasileira. Em Cuba, Lula foi completamente indiferente à luta política contra uma ditadura, e, chegando ao Brasil, desandou a falar atrocidades contra os presos políticos cubanos.  Em Israel, no seu parlamento, defendeu a criaçãodo Estado Palestino (corretamente), criticou a produção de armas nucleares (corretamente), não citou o Irã (contraditório) e deixou de fazer a visita protocolar ao túmulo do fundador do sionismo, Theodor Herzl (uma gafe).

Há alguma coisa errada, aqui. E o erro não é de ver para crer, está na cara.

O caminho da vitória

12 de março de 2010, às 10:13h

Pesquei o caminho do golpe no ultra-reacionário Blog do Professor Hariovaldo Almeida Prado :

Esse é o caminho para vitória final contra a camarilha bolchevista do PT que ora infesta a República dos Homens bons. Sigamos pois por este itinerário com as forças do bem, representadas pela imprensa livre e democrática, semana após semana até a total demolição das hostes comunistas lideradas por Lula.

Tempestade no Cerrado

12 de março de 2010, às 10:10h

Repercuto, aqui, um artigo de Mauro Carrara.

Às armas, camaradas! Às armas!

Afinal, este es um gobierno de mierda, pero es nuestro gobierno!

Guardei foices, lanças, panelas e garfos. É só pedir que mando pelo pombo-correio. Deixem os banqueiros comigo!

Operação “Tempestade no Cerrado”: o que fazer? – por Mauro Carrara

O PT é um partido sem mídia…
O PSDB é uma mídia com partido.

“Tempestade no Cerrado”: é o apelido que ganhou nas redações a operação de bombardeio midiático sobre o governo Lula, deflagrada nesta primeira quinzena de Março, após o convescote promovido pelo Instituto Millenium.

A expressão é inspirada na operação “Tempestade no Deserto”, realizada em fevereiro de 1991, durante a Guerra do Golfo.

Liderada pelo general norte-americano Norman Schwarzkopf, a ação militar destruiu parcela significativa das forças iraquianas. Estima-se que 70 mil pessoas morreram em decorrência da ofensiva.

A ordem nas redações da Editora Abril, de O Globo, do Estadão e da Folha de S. Paulo é disparar sem piedade, dia e noite, sem pausas, contra o presidente, contra Dilma Roussef e contra o Partido dos Trabalhadores.

A meta é produzir uma onda de fogo tão intensa que seja impossível ao governo responder pontualmente às denúncias e provocações.

As conversas tensas nos “aquários” do editores terminam com o repasse verbal da cartilha de ataque.

  1. Manter permanentemente uma denúncia (qualquer que seja) contra o governo Lula nos portais informativos na Internet.
  2. Produzir manchetes impactantes nas versões impressas. Utilizar fotos que ridicularizem o presidente e sua candidata.
  3. Ressuscitar o caso “Mensalão”, de 2005, e explorá-lo ao máximo. Associar Lula a supostas arbitrariedades cometidas em Cuba, na Venezuela e no Irã.
  4. Elevar o tom de voz nos editoriais.
  5. Provocar o governo, de forma que qualquer reação possa ser qualificada como tentativa de “censura”.
  6. Selecionar dados supostamente negativos na Economia e isolá-los do contexto.
  7. Trabalhar os ataques de maneira coordenada com a militância paga dos partidos de direita e com a banda alugada das promotorias.
  8. Utilizar ao máximo o poder de fogo dos articulistas.

Quem está por trás

Parte da estratégia tucano-midiática foi traçada por Drew Westen, norte-americano que se diz neurocientista e costuma prestar serviços de cunho eleitoral.

É autor do livro The Political Brain, que andou pela escrivaninha de José Serra no primeiro semestre do ano passado.

A tropicalização do projeto golpista vem sendo desenvolvida pelo “cientista político” Alberto Carlos Almeida, contratado a peso de ouro para formular diariamente a tática de combate ao governo.

Almeida escreveu Por que Lula? e A cabeça do brasileiro, livros que o governador de São Paulo afirma ter lido em suas madrugadas insones.

O conteúdo

As manchetes dos últimos dias, revelam a carga dos explosivos lançados sobre o território da esquerda.

Acusam Lula, por exemplo, de inaugurar uma obra inacabada e “vetada” pelo TCU.

Produzem alarde sobre a retração do PIB brasileiro em 2009.

Criam deturpações numéricas.

A Folha de S. Paulo, por exemplo, num espetacular malabarismo de ideias, tenta passar a impressão de que o projeto “Minha Casa, Minha Vida” está fadado ao fracasso.

Durante horas, seu portal na Internet afirmou que somente 0,6% das moradias previstas na meta tinham sido concluídas.

O jornal embaralha as informações para forjar a ideia de que havia alguma data definida para a entrega dos imóveis.

Na verdade, estipulou-se um número de moradias a serem financiadas, mas não um prazo para conclusão das obras. Vale lembrar que o governo é apenas parceiro num sistema tocado pela iniciativa privada.

A mesma Folha utilizou seu portal para afirmar que o preço dos alimentos tinha dobrado em um ano, ou seja, calculou uma inflação de 100% em 12 meses.

A leitura da matéria, porém, mostra algo totalmente diferente. Dobrou foi a taxa de inflação nos dois períodos pinçados pelo repórter, de 1,02% para 2,10%.

Além dos deturpadores de números, a Folha recorre aos colunistas do apocalipse e aos ratos da pena.

É o caso do repórter Kennedy Alencar. Esse, por incrível que pareça, chegou a fazer parte da assessoria de imprensa de Lula, nos anos 90.

Hoje, se utiliza da relação com petistas ingênuos e ex-petistas para obter informações privilegiadas. Obviamente, o material  é sempre moldado e amplificado de forma a constituir uma nova denúncia.

É o caso da “bomba” requentada neste março. Segundo Alencar, Lula vai “admitir” (em tom de confissão, logicamente) que foi avisado por Roberto Jefferson da existência do Mensalão.

Crimes anônimos na Internet

Todo o trabalho midiático diário é ecoado pelos hoaxes distribuídos no território virtual pelos exércitos contratados pelos dois partidos conservadores.

Três deles merecem destaque…

  1. O “Bolsa Bandido”. Refere-se a uma lei aprovada na Constituição de 1988 e regulamentada pela última vez durante o governo de FHC. Esses fatos são, evidentemente, omitidos. O auxílio aos familiares de apenados é atribuído a Lula. Para completar, distorce-se a regra para a concessão do benefício.
  2. Dilma “terrorista”. Segundo esse hoax, além de assaltar bancos, a candidata do PT teria prazer em torturar e matar pacatos pais de família. A versão mais recente do texto agrega a seguinte informação: “Dilma agia como garota de programa nos acampamentos dos terroristas”.
  3. O filho encrenqueiro. De acordo com a narração, um dos filhos de Lula teria xingado e agredido indefesas famílias de classe média numa apresentação do Cirque du Soleil.

O que fazer

Sabe-se da incapacidade dos comunicadores oficiais. Como vivem cercados de outros governistas, jamais sentem a ameaça. Pensam com o umbigo.

Raramente respondem à injúria, à difamação e à calúnia. Quando o fazem, são lentos, pouco enfáticos e frequentemente confusos.

Por conta dessa realidade, faz-se necessário que cada mente honesta e articulada ofereça sua contribuição à defesa da democracia e da verdade.

São cinco as tarefas imediatas…

  1. Cada cidadão deve estabelecer uma rede com um mínimo de 50 contatos e, por meio deles, distribuir as versões limpas dos fatos. Nesse grupo, não adianda incluir outros engajados. É preciso que essas mensagens sejam enviadas à Tia Gertrudes, ao dentista, ao dono da padaria, à cabeleireira, ao amigo peladeiro de fim de semana. Não o entupa de informação. Envie apenas o básico, de vez em quando, contextualizando os fatos.
  2. Escreva diariamente nos espaços midiáticos públicos. É o caso das áreas de comentários da Folha, do Estadão, de O Globo e de Veja. Faça isso diariamente. Não precisa escrever muito. Seja claro, destaque o essencial da calúnia e da distorção. Proceda da mesma maneira nas comunidades virtuais, como Facebook e Orkut. Mas não adianta postar somente nas comunidades de política. Faça isso, sem alarde e fanatismo, nas comunidades de artes, comportamento, futebol, etc. Tome cuidado para não desagradar os outros participantes com seu proselitismo. Seja elegante e sutil.
  3. Converse com as pessoas sobre a deturpação midiática. No ponto de ônibus, na padaria, na banca de jornal. Parta sempre de uma concordância com o interlocutor, validando suas queixas e motivos, para em seguida apresentar a outra versão dos fatos.
  4. Em caso de matérias com graves deturpações, escreva diretamente para a redação do veículo, especialmente para o ombudsman e ouvidores. Repasse aos amigos sua bronca.
  5. Se você escreve, um pouquinho que seja, crie um blog. É mais fácil do que você pensa. Cole lá as informações limpas colhidas em bons sites, como aqueles de Azenha, PHA,Grupo Beatrice, entre outros. Mesmo que pouca gente o leia, vai fazer volume nas indicações dos motores de busca, como o Google. Monte agora o seu.

A guerra começou. Não seja um desertor.

“Mauro Carrara é jornalista, nascido em 1939, no Brás, em São Paulo. É o segundo filho de Giuseppe Carrara, professor de Filosofia em Bologna, e de Grazia Benedetti, uma operária e militante comunista de Nápoli. O casal chegou ao Brasil em 1934, fugindo da perseguição fascista. Mauro foi para a Itália em 1959, por sugestão do amigo dramaturgo G. Guarnieri. Em Firenze, estudou arte, ciências sociais e comunicação. De volta ao Brasil, passou dois anos na Amazônia. Ao atuar na defesa dos povos indígenas, foi preso pelo regime militar. Libertado, voltou à Itália. Como free-lancer, produziu reportagens para jornais como L’Unita e Il Manifesto. Com o primo Antonino, esteve no Vietnã, no início da década de 70. Em 1973, no Chile, juntou-se à resistência ao golpe contra Allende. No Brasil, como clandestino, aproximou-se do cartunista Henfil, cujos trabalhos traduziu para uma revista alternativa italiana. Na década de 80, prestou serviços para a ONU em países como China, Iraque e Marrocos. Nos anos 90, assessorou ONGs brasileiras, especialmente na área de Direitos Humanos. Ainda atua na área de comunicação e relações internacionais”

A espera do cara

12 de março de 2010, às 10:05h

Cruzes, que sol! Pensou o cara, na praia, enquanto esperava. Estava sem dinheiro. Já bebera duas águas de coco na base do fiado. O barraqueiro desconfiava, mas aceitou o pedido. O cara tinha consciência de que as dívidas cresciam na praia, mais do que cogumelos em dias de chuva. Mas ele esperava. Na espera, tinha esperança. Se o mundo fosse absolutamente determinado, a esperança seria um ato de desespero; por isso, tinha esperança de que, no mundo, existisse uma brecha, isto é, antes da pura determinação, houvesse um acaso fundador — a repetição do acaso criaria a necessidade, filosofou, antes de terminar o coco. Sua esperança, naquele momento, era apenas uma manifestação de uma esperança primordial.

O cara ficou noiado com a possibilidade de que a metafísica da esperança fosse uma ilusão. Se fosse uma ilusão, sabia que esperava em vão.

O mundo podia ser aberto, mas o calor fechava tudo. Havia qualquer coisa de demente naquela temperatura. Inclusive, aos poucos, o cara esquecia do que, afinal, esperava.

_Esperar o que ou quem?! Perguntou ao barraqueiro
_Eu só espero meu dinheiro.
_Pelo menos, você sabe o que esperar.
_Pois é…

O cara tomou mais uma água de coco, enquanto esperava. O barraqueiro, intuitivamente,  descobria que caía numa armadilha.

_A espera, no fundo, é uma promessa — disse o cara ao barraqueiro.
_Tenho medo de sua promessa. Você está apenas diminuindo o peso da imprevisibilidade. Você promete pagar o que deve, mas o futuro é totalmente incerto; por isso, tentando corrigir essa incerteza fundamental, você promete.

O cara meneou a cabeça. O barraqueiro sabia do que falava. Em alemão, promessa é versprechen, que também significa lapso…

_Prometer é um ato falho — completou magistralmente o pensamento do narrador, o barraqueiro.

O cara achou muito estranho o narrador entrar assim no meio da estória. Não gostou.

_Você completou o narrador.
_Completei, uma ova! E os cocos?

O cara estava achando esquisito o vocabulário do barraqueiro — ele era um outro. O cara, também, não falava desse jeito. Ele era outro. A conversa era para ser banal, completamente prosaica. Não era pra ser esse lodo filosófico. Toda conversa é um exílio, no fundo, mas toda compreensão implica a responsabilidade…

_Porra, pára com isso, narrador!
_Não sou “narrador”. Sou um barraqueiro, que vende cocos e que, ainda, não foi pago.
_Não falo com você, rapaz.
_Fala com quem, então?! Pode endoidar à vontade, contanto que pague meus cocos.
_Os cocos são da Natureza, da Deusa Gaia, avatar, avatar!

_Porra, tá vendo?! Eu não disse essa idiotice! Foi o narrador.
_Esse tal de narrador vai pagar meus cocos, por acaso?

O cara olhou o barraqueiro. Ali, com narrador ou sem narrador, para o bem ou para o mal, ali houve…

Ops!

_Vá, vá, continue, já tomei mesmo a decisão… — disse o cara, meio desanimado.

… esse fiat lux que é a decisão, esse ato de vontade que mata toda discussão, a pura prática…

O cara olhou pra cima, mandou uma dedada e saiu correndo, pegando o narrador  de surpresa. Sem o cara não tinha estória, não tinha espera, não tinha nada. O que escrever, agora?! O constrangimento literário foi grande. Além do mais, como acabar a estória?

O barraqueiro se arretou, olhou pra cima e disse:

_Ô, meu chapa, você vai pagar meus cocos?!

Ninguém respondeu.

_E meus cocos, carai?!

De repente, o céu inteiro começou a tremer, e o barraqueiro escutou uma voz tonitruante:

_Ah, vá se danar!

O céu tremia e estava vermelho. De toda parte, começou a cair uma chuva de meteoritos radioativos. Não sobrou nada, apenas um buraco fumegante. Não ficou vestígio algum do barraqueiro.

O narrador sabia que não era a melhor forma de acabar a estória. O ato final fora vulgar. Apelara, enfim. E já sentia os efeitos colaterais da resolução. Começara a existir, desde a fuga do cara, um narrador do narrador. Era um efeito de linguagem impossível de se evitar.  O narrador, estando na narrativa, cria um outro narrador. O perigo é uma cadeia infinita de narradores, assustando os personagens. A infinitude do comentário sem fim e do comentário do comentário, esse duplo que, na interpretação do Talmud…

CABROOM!

(…)

Glauco

12 de março de 2010, às 10:00h

Rapaz, fiquei chocado com a morte de Glauco. Como foi estúpida. Como foi violenta. E ainda mataram seu filho de 25 anos.

Gostava muito de suas charges e de suas estórias em quadrinhos , principalmente aquelas dos anos 80.

Adorava Dona Marta.

Mataram Glauco…

Mundo cão.


VanVan, o cientista cearense, pesaroso com a morte de Glauco, envia mensagem:

Só soube agora, muita surpresa e revolta!

Glauco, Laerte e Angeli foram minhas referências de quadrinhos e irreverência da adolescência. Mais do que qualquer referência política, já que nunca tive nenhuma mesmo.

Que fim estúpido e que tragédia familiar.

Um fim terrível e absurdo para Los Tres Amigos… não merecia…

Pro absurdo do mundo só resta calar.

Por Marcelo Godoy, Agencia Estado, Atualizado: 12/3/2010 18:05

Suspeito de matar cartunista dizia ser Jesus Cristo

O universitário Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, de 24 anos, queria sequestrar o cartunista Glauco, segundo parentes da vítima contaram ao chegar à Delegacia Seccional de Osasco (SP). Glauco e seu filho, Raoni, foram assassinados na madrugada desta sexta-feira. Frequentador da Igreja Céu de Maria, fundada pelo cartunista, Sundfeld queria Glauco o acompanhasse até a casa de sua mãe, no Pacaembu, zona oeste, para dizer a ela que o rapaz era “Jesus Cristo”.
Segundo o relato desses parentes, Sundfeld estava transtornado, armado com uma pistola 765 mm, e primeiro rendeu a filha do cartunista, Juliana. Ela chamou pela mãe e Glauco também foi ao local. Sundfeld chegou a agredir as duas mulheres e deu uma coronhada no cartunista, a quem costumava pedir conselhos. O rapaz ameaçou se matar e Glauco lhe disse para “não fazer isso”.
Nessa hora, Raoni chegou e viu o pai ensanguentado. Foi aí que Sundfeld acabou disparando a pistola dez vezes. Quatro tiros atingiram o cartunista e outros quatro, Raoni. Os dois chegaram a ser socorridos, mas não resistiram aos ferimentos.
Esses mesmos familiares que relataram o ataque de Sundfeld acreditam que havia uma segunda pessoa no carro usado pelo suspeito. A polícia fez buscas nas casas do pai e da mãe de Sundfeld, no Alto de Pinheiros e no Pacaembu, mas não localizou o rapaz.


VanVan perguntou pelo segredo do morcego. Embora ache um tanto temerária a pergunta, não me furtaria a colocar a resposta:

Os Marcadores

11 de março de 2010, às 22:35h

Os gays venceram. Sei, é uma frase retumbante e, admito, um tanto exagerada. Mas venceram — o que posso fazer, senão reconhecer o fato?! Numa linguagem gramsciana, impuseram sua hegemonia. Marcaram posição em todos os campos da masculinidade; aliás, a masculinidade é, agora, uma circunstância indefinível que existe de forma ambígua. O espaço da virilidade é um campo minado por minas cor-de-rosa. Um passo em falso, principalmente para trás, meu chapa, pode ser fatal. Não marque bobeira, pois bobo, você já é, e muito! O perigo de sofrer gozações extremas é alto. A autoestima pode baixar de vez, durante muito tempo.

Reparem no venerável bigode, símbolo máximo de todos os simbolismos homínidas. É gay! Hoje, um ostrogodo, um godo do leste, seria confundido com um visigodo, um godo do oeste – para um bom entendedor, basta. Digo mais: atualmente, é comum confundir o brado de reconhecimento de um chefe corso com um… javali! A confusão é grande, sem dúvida. Por isso, tentei alertar Perrusi Pai sobre a ambiguidade contemporânea do bigode:

_Rapaz, cuidado com o bigode.
_Bigode?! Quem é bigode?!
_Os pêlos que nascem sobre o lábio superior, meu pai.
_Ah, pensei que fosse Bigode, da seleção de 50.
_Não, não…
_E daí, o bigode?
_Sabe como é que é, né?!
_Não, não sei como é que é.
_Freddie Mercury matou o bigode.
_Matou?!
_Não, não é isso. Quero dizer que Freddie Mercury usava um baita de um bigode.
_O que é que tem?
_Nada, só estou dizendo.
_E quem é Freddie Mercury?!
_Deixa pra lá…

Meu pai não sabe do perigo, coitado.

Os gays tomaram conta do corpo masculino. O corpo, deles e ninguém tasca, porque viram por último. A virilidade foi desconstruída, ou melhor, desmilinguiu-se a tal ponto que virou um atributo… gay. A situação ficou paradoxal, pois ser efeminado também é… gay. O que nos restou? Gordura, muita gordura; um gosto pronunciado pela fritura; uma barriga imensa de cerveja; muita vulgaridade e insensibilidade; uma inhaca entranhada; muito peido e muito arroto. Sim, notei que peidar e arrotar muito é o cúmulo da heterossexualidade.

Atualmente, por exemplo, comprar uma roupa tornou-se uma demarcação de território. Depois de um tempão sem comprar roupas, mas preocupado com a minha imagem — o que, convenhamos, é uma preocupação sujeita a questionamentos — pedi a um amigo, que é um entendido da teoria queer, que fizesse uma lista de marcadores. O que é um marcador? Ora, é um sinal qualquer na roupa, esbravejando sua condição gay. É um termo da moda, muito importante, no momento, nas classificações sociais. Sendo uma construção social, o marcador muda o tempo todo.

Daí a noia, tá ligado?! Tem que ficar antenado nas mudanças. Mas, na hora da compra, não se pode relativizar um marcador. Há um marcador na roupa? Decida-se, meu chapa, ou saia do armário de vez ou não leve a roupa.

Assim, muito gentil, meu amigo me deu uma exaustiva lista de 150 marcadores.

_150?! Como, 150?! – gritei, surpreso.
_E olhe que fui comedido – disse meu amigo, dando uma rápida piscadela.
_Mas é impossível encontrar uma roupa que não tenha pelo menos um desses marcadores!
_Quase impossível. Fique sem roupa, queridinho, ande nu – deu mais outra piscadela.
_Veja, pare com essas piscadelas, que você me deixa nervoso. Fiz um pedido de amigo. Não me complique.
_Tá certo. Mas roupa agora é assim. Aliás, roupa boa é assim. Se quiser sem marcador, vá na Renner, na Riachuelo ou C&A.
_Eu sempre compro lá mesmo. Só que, agora, queria uma roupa um pouco mais cara e boa. Que tal a Seaway?
_Nossa, totalmente gay!
_Roupa cara ou a Seaway?!
_As duas…
_Certo, certo, não quero mais roupa cara, só uma um pouco melhor. Mas a Seaway não é uma loja de surfista?
_Surf agora é moda gay. Aquela prancha, aqueles corpos… – e, sem querer, deu uma piscadela.
_Cacetada! Antigamente, surfista, no máximo, era maconheiro.
_Maconha é bi!
_Aaah…

Fiquei pensando. Onde comprar roupas, afinal?! Roupas sem um dos 150 marcadores. De repente, encontrei o lugar, a loja onde compraria minhas camisas:

_E a Hering?

Ele pensou, pensou, fez beicinho, e disse:

_Huum, e aqueles dois peixinhos? Peixinho é tão gay…
_Os peixinhos são HTs. Um casal HT. E não têm marcadores, naquelas camisas básicas.
_Tem baby-look.
_Não compro baby-look.
_Ah, então, pode. Compre aquelas camisas “polo”, horrorosas e sem graça.
_Isso, camisa polo. Adoro camisa polo.
_Cuidado com a cor.
_Quais são as cores que não são marcadores?
_Preto ou cinza. Ou bege.
_Adoro essas cores.
_Gostar de cor é gay, e bege, queria te enganar, é HSH – e deu uma risadinha.
_Detesto cores.

No fundo, ele parecia desapontado. A hegemonia parava ali na Hering e seus peixinhos HTs. Ele sabia que tinha perdido uma batalha. Eu esperava que ele esquecesse da guerra.

Antes de ir embora, soltei um pum barulhento e fedegoso.

Ele detesta quando faço isso…