Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXVIII

8 de fevereiro de 2010, às 23:32h

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

(Quod erant demonstrandum)

38º CAPÍTULO

Depois de toda aquela estória, de todo aquele blablablá, da decisão de deserção, bem, depois de tudo isso, o padre Javier me pareceu em pleno surto psicótico paranoico. Por isso mesmo, resolvi atender a todos os seus pedidos, inclusive segui-lo disfarçado até o aeroporto, como uma espécie de proteção para ele e a irmã Consuelo. Segundo Javier, a Companhia de Jesus não tolerava deserções e a formação militar dos jesuítas implicava em perseguições para toda a vida. Nem sempre torturas físicas para os desertores capturados, é verdade. Mas a destruição moral, psicológica e social era inevitável.

Claro! Vendo o peixe como o comprei!

Javier botou um traje civil com uma gravata escandalosamente colorida, cheia de animais e flores, à maneira mexicana. Colou um bigodão artificial e acrescentou um sombreiro à cabeça. Dramalhão dos piores, de fato.

Meu disfarce era mais simples. Como em Roma costumam circular milhares de urubus vestidos de preto, andando pelas calçadas, praças e bosques pra lá e pra cá em busca não sei do quê ─ da carniça das almas, talvez! ─ vesti-me mesmo de padre secular. Na verdade, o melhor disfarce para uma cidade totalmente dominada pelos negros agentes 666, segundo o Pastor da Assembleia lá da esquina.

Em silêncio, segui o casal a uns quarenta metros de distância até o aeroporto. Vi-os entrarem no avião e somente voltei para o Albergue quando o bicho voador perdeu-se nas nuvens bem distantes em direção a Ciudad de Mexico.

No outro dia, um Sábado, Roma amanheceu friorenta e chuvosa. Aproveitei para ler o último romance de Pitigrilli, então em moda, sobre os amores de uma condessa e seu copeiro, em plena barba do marido. Divertido! Ainda mais, sabendo-se que os dois não eram de nada.

O Domingo foi a mesma coisa; frio e chuva fina. Outro Pitigrilli e inúmeras fantasias eróticas, fazendo-me subir pelas paredes. Que horror! À tarde, recebi um telegrama cifrado de Javier, avisando-me de que chegara ao México e já estava a caminho da Sierra Madre com uma caravana de tropeiros, protegida por cinquenta guerreiros de sua tribo asteca. No dia seguinte, haveria o seu casamento e sua entronização como xamã, nomeado pelo próprio pai que se tornara o chefe da aldeia. Relembrou meu juramento de ficar calado até ao meio-dia da Segunda-feira. Nada mais!

Cheguei preguiçoso e atrasado na Biblioteca, lá para as onze da manhã. Fiquei na minha mesa, um pouco escondida no canto da imensa sala, junto a uma estante de livros antigos. Com o tédio do trabalho, abri um livro de fotografias eróticas, presente do padre Javier. Oitenta posições para se fazer uma criança! A maioria dedicada a atletas olímpicos. Eu, pelo menos, sabia fazer a mesma coisa de uma maneira mais simples. Mas, enfim!

De repente, uma sombra gigantesca cobriu a minha mesa. Era o padre chinês, Ching Ling Ling.

─ Padre Tsé! Monsenhor chama irmão conversa gabinete. ─ Disse o coitado. Guardei apressadamente o livro de fotografias na gaveta de documentos sagrados e tranquei-a com a chave.

Não dispensei o toc-toc cerimonial e entrei. Pra minha surpresa, numa poltrona bem grande, estava refestelado o gorducho Cardeal Ferrughi.

─ Sente-se, Padre Tsé. ─ Ordenou-me o Monsenhor Lippi, numa voz seca e desagradável, antes mesmo que os pudesse cumprimentar.

─ Já viu a tese do padre Javier? ─ Perguntou-me de chofre o Cardeal.

─ Claro! Assisti à defesa. ─ Respondi, surpreso.

─ E por que não nos disse que se tratava de uma porcaria? ─ Continuou Ferrughi.

─ Nem tanto! Acho-a um belo romance histórico religioso baseado num manuscrito copta antigo. Aliás, irmão Cardeal, por que tanto interesse em Javier? ─ Contra-ataquei, já sentindo o clima pesado da reunião. Desconfiei, por instinto, de que a fuga mexicano-rocambolesca de Javier já se tornara um fato notório no Vaticano.

─ Você viu o tal manuscrito? ─ Rosnou meu irado Orientador.

─ Não! Apenas a tradução em espanhol, feita pelo próprio Javier. E se tivesse visto, de nada adiantaria. Não entendo bulufas de copta. ─ Respondi.

─ Acontece que esse manuscrito não existe. ─ Disse com bastante seriedade o burocrata Lippi.

─ Como assim? ─ Exclamei.

─ Tudo inventado! Uma fraude acadêmica das piores. ─ Afirmou Lippi.

─ E os outros numerosos manuscritos antigos? E a copiosa bibliografia? ─ Ainda tentei argumentar.

─ Salvo alguns poucos teólogos conhecidos, as citações são falsas porque tais livros tampouco existem. ─ Concluiu o Monsenhor.

─ E você, padre Tsé, colaborou com essa fraude. ─ Rosnou o Cardeal.

─ Mentira de quem disse. Apenas, fiz alguns reparos de gramática latina. Nada mais! Além disso, não fui professor, orientador nem examinador de ninguém. ─ Respondi cada vez mais espantado com o interrogatório.

─ Por favor, Padre Tsé! Confesse! Estão cochichando que você e Javier formavam um parzinho romântico. ─ Concluiu Ferrughi ironicamente.

─ Protesto! Protesto! ─ Levantei-me vermelho de raiva. ─ Vou processá-lo, Cardeal! Vou processá-lo por infâmia, calúnia e difamação. ─ Gritei.

─ Calma, Tsé! Calma! Sente-se, por favor. ─ Ouvi a voz de Lippi mais suave e afetiva como nos tempos de outrora. E continuou:

─ Estamos aqui apenas para defendê-lo.

─ Recuso ser defendido por traidores. É isso ai! De tanto ficarem nessa porcaria de ICR, vocês terminaram pegando o vírus fedorento romano. Traidores e delatores! ─ Berrei com toda a força de meus pulmões.

Fiquei atordoado com o imenso barulho do Cardeal que segurava sua enorme pança de tanto rir.

─ Ora, Tsé! É que o padre Javier desapareceu e você é o principal suspeito. ─ Disse Lippi, num tom sério, embora cordial.

Olhei para meu relógio. Faltavam quinze minutos para o meio-dia.

─ E onde escondeu o cadáver, Tsé? ─ Falou o cardeal entre as lágrimas de tanto rizo.

─ Porra, Cardeal! Que cadáver? ─ Olhei novamente para o relógio. Faltavam ainda dez minutos para o meio-dia.

Tenso, quase como se tivesse adquirido um súbito tique nervoso, pregara o olho no relógio, cujos ponteiros teimavam em não andar.

─ E pare de ficar olhando pra esse maldito relógio. ─ Rosnou novamente o Cardeal.

─ Rolex legítmo! ─ Exclamei para ganhar tempo.

─ E comprado no Camelódromo de Roma! ─ Acrescentou Lippi, rindo de minha ingenuidade.

─ Mas, vamos falar sério, Tsé. ─ Continuou o Monsenhor. ─ Ocorre que o Superior dos Jesuítas, o Papa Negro, quer convocá-lo para um Interrogatório Oficial. E tememos pela sua integridade física.

─ Não pode! Sou padre secular e ele não tem jurisdição sobre mim. ─ Respondi.

─ Ele sabe disso, Tsé. Por isso, formulou uma queixa ao Santo Ofício e você pode parar na Santa Inquisição. ─ Explicou o Cardeal.

─ E na Santa Fogueira! Não! Não posso cair nas garras do Assistente da Inquisição. Ele é um padre alemão que foi da Juventude Nazista. ─ Disse, morrendo de medo.

Faltavam cinco minutos para o meio-dia. Pedi, então, um copo-d’água a Lippi que se apressou em buscá-lo na copa. Bebi o sagrado líquido, gota a gota. Mas, ainda faltavam dois minutos para o término do meu juramento a Javier. Pedi para ir ao banheiro.

─ É na porta à esquerda, como você bem sabe, Tsé. ─ Disse Lippi.

Entrei no WC, dei duas ou três descargas e ouvi a primeira badalada do sino da Igreja de Santa Madalena, defronte da Biblioteca. Quando soou a décima segunda, sai do banheiro, sentei-me inteiramente calmo e comecei a contar tudo o que ocorrera na Sexta-feira anterior.

─ Já sabíamos de tudo, Tsé. Apenas, queríamos fazer uma prévia do tal Interrogatório Canônico para ver como você iria reagir. ─ Disse amavelmente Ferrughi. ─ E acrescentou:

─ Como o ofício só chega amanhã, eu e você vamos, agora mesmo, pegar minha limusine oficial, em direção da fazenda. O pretexto é que, como já estava previsto, precisávamos discutir o Curso de Doutorado que começa na próxima semana. Assim, teremos tempo de neutralizar o padre alemão.

─ Mas não trouxe roupa nem nada e estou morrendo de fome. ─ Ainda tentei argumentar.

─ A gente se arranja na fazenda, Tsé. No caminho, come-se uma pizza num restaurante de beira de estrada. ─ Disse o Cardeal, conduzindo-me para os fundos da Biblioteca, onde embarcamos para uma viagem de umas duas horas de carro.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV
Capítulo XXXVI
Capítulo XXXVII

Au revoir Simone e… Cocorosi

8 de fevereiro de 2010, às 9:00h

Gostei…

Conhecia a música, mas desconhecia a banda. Nome curioso…  Pirei com a de óculos. A maneira que toca, que dança, que toca (há algo louco ali)…

Versão live.

Au Revoir Simone – A Violent Yet Flammable World (Live)

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Outras músicas e algumas performances lembram o Cocorosie. Por falar das doidinhas, lá vai (com o maluco do Antony):

CocoRosie – Beautiful Boyz

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E quem quiser com vídeo, mas sem Antony, lá vai:

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Uma vítima da Operação Condor

5 de fevereiro de 2010, às 10:42h

Abaixo, artigo bem interessante. Pesquei no Brasília, eu vi, do jornalista Leandro Fortes.

Será um encontro e tanto. Lá vai:

O sequestrador mostra a cara

Um evento extraordinário se dará, hoje, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Sequestrada por agentes das ditaduras do Brasil e do Uruguai, a uruguaia Lílian Celiberti irá se encontrar, frente a frente, pela primeira vez, com seu seqüestrador, o ex-policial do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) gaúcho João Augusto da Rosa. Conhecido pela alcunha de “Irno”, o agente foi denunciado, há mais de 30 anos, pelo jornalista Luiz Cláudio Cunha, então chefe da sucursal da revista “Veja” em Porto Alegre. Guiado pela intuição, Luiz Cláudio flagrou Irno e um comparsa dentro do apartamento onde Lílian morava e estava cativa, em 1978. Uma série de reportagens depois iria lhe dar o Prêmio Esso de Reportagem, em 1979, e garantir a vida não só de Lílian, mas também de seu companheiro de então, Universindo Diaz, ambos brutalizados pela tortura cometida, de um lado e de outro da fronteira, por lacaios da clandestina “Operação Condor” – a sinistra aliança de troca de prisioneiros levada a cabo pelas ditaduras do Brasil, Uruguai, Paraguai, Chile e Argentina, nos anos 1970.

Lílian Celiberti, moradora de Montevidéu, decidiu atravessar a fronteira para, justamente, retribuir a imensa generosidade do jornalista que, um dia, salvou-lhe a vida, a do companheiro e, por extensão, de seus dois filhos. Os garotos, então crianças, foram seqüestrados junto com a mãe e mantidos numa sala do Dops gaúcho enquanto a mãe era esfolada num pau-de-arara pela turma do delegado Pedro Seeling, da qual Irno fazia parte. Desmascarado por Luiz Cláudio no livro “Operação Condor: sequestro dos uruguaios”, lançado no ano passado pela editora L&PM, Irno decidiu processá-lo por danos morais.

Eis aí uma boa metáfora sobre a relação do Brasil com a memória da ditadura militar e sua última cidadela, a Lei de Anistia. É uma forma de entender a reação dessa turma à proposta de uma Comissão da Verdade, inserida no texto do terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos, para responsabilizar torturadores da época do regime militar.

Irno foi o inspetor do Dops que colocou uma pistola na testa de Luiz Cláudio Cunha, este confundido, ao entrar no apartamento de Lílian Celiberti, com um membro da organização de esquerda à qual pertencia a uruguaia.  O repórter estava acompanhado do fotógrafo J.B. Scalco, que em seguida iria ajudar a decifrar a trama ao reconhecer o comparsa de Irno, o escrivão Orandir Portassi Lucas, mais conhecido por “Didi Pedalada”, ex-jogador do Internacional. Ambos os agentes foram condenados pela Justiça, em 1980.

Agora, Irno pede indenização por dano moral, alegando que Cunha não menciona sua absolvição por “falta de provas” no recurso que apresentou, em 1983, em segunda instância. O policial, lembra o jornalista, esqueceu-se de dizer que as “provas” do sequestro – Lílian e Universindo – estavam, então, submetidas à prisão sem processo legal e a todo tipo de torturas pela ditadura do Uruguai, que acabou apenas em 1985.

Na verdade, o que incomoda o inspetor Irno não é a omissão de Luiz Cláudio sobre o recurso na Justiça. Irno morre de vergonha é do papelão que ele protagonizou, obrigado pelos chefes a forjar uma nova identidade, com ajuda de fraude cartorária, para se contrapor ao depoimento do jornalista. Para tal, cortou os longos cabelos, moldou uma calva à navalha no alto da cabeça e cravou uma barba sem bigode na cara. Transformou-se, assim, em uma patética caricatura de Abraham Lincoln eternizada no anedotário político do Rio Grande do Sul. Flagrado na farsa por Luiz Cláudio e outros repórteres gaúchos, Irno submergiu no lixo da História até reaparecer, agora, à caça de uns caraminguás a mais para a aposentadoria.

Do outro lado, “Operação Condor: o sequestro dos Uruguaios” recebeu, em 2009, o troféu Jabuti da Câmara Brasileira do Livro e a Menção Honrosa do prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. A obra também recebeu menção honrosa em Havana, Cuba, no prestigiado Prêmio Casa de Las Américas, de 2010, que reuniu 436 obras de 22 países.

O encontro histórico de Lílian com Irno será às 15h, na 18º Vara Cível, no Foro Central de Porto Alegre. Quem estiver na capital gaúcha e for jornalista de verdade, não pode perder esse encontro.

Todo apoio e solidariedade a Luiz Cláudio Cunha e Lílian Celiberti, portanto.

jesus

5 de fevereiro de 2010, às 9:54h

Engraçadinho…

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Macacos e Contatos

4 de fevereiro de 2010, às 14:40h

Desde pequeno, sou um aficionado de ficção científica. Lembro-me de Odin levando-me ao antigo aeroporto de Recife para comprar uma coleção portuguesa de FC, chamada “Argonauta”. Eu me refestelava. Li tudo e, ainda, leio tudo, mesmo as porcarias.

No cinema, assisto a qualquer filme que tenha efeitos especiais. Têm raio e espaçonave, estou lá. Pode ser uma bosta, mas tô lá. Pode ser até ecologia para débeis mentais, como Avatar, não importa, não perco nada.

Esse final de filme abaixo é retumbante:

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Acho o final do Planeta dos Macacos – falo do original e não do remake, que é muito fraquinho – um final espetacular. Eu fiquei tão estupefato quanto George Taylor (Charlton Heston), quando vi os restos da Estátua da Liberdade e descobri que o planeta dos macacos era, na verdade, a Terra. Até então… Enfim, eu teria a mesma reação. 8-)

Outro grande filme de FC é esse:

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Venderia a alma — daria de graça, na verdade — para viajar na espaçonave. Nasci na época errada…

Parabéns!!!

3 de fevereiro de 2010, às 11:14h

Parabéns ao meu clube amado. Paixão eterna. Já, já um século nos contemplará. Os fundadores morreram — um por um – todos morrerão. O Sol queimará a Terra. Um gigantesco buraco-negro engolirá o sistema solar. A entropia acabará com a Via Láctea e o Universo. Deixará de existir o Espaço-Tempo.

Só sobrará o Escudo,
Lá grudado no Olho do Infinito
(sem tempo, uma eternidade ou um instante)
– sem tic, nem tac –
Até que…
Uns meninos descalços sairão de dentro com uma bola
Felizes, gritarão: FIAT LUX!

 

E, com preto-branco-encarnado,  luz se fez…

 

  

 

  

Adorável leão

3 de fevereiro de 2010, às 10:33h

Acho muito bonito esse vídeo. Fiquei enternecido. Impossível não se emocionar com a relação de dois homens com um animal.  Nessa relação especial,  virilidades e machismos transmutam-se em carinho, através de uma ecologia profunda. A deusa Gaia sorri e diz “Avatar”. O mundo animal ameniza a violência humana. O vídeo é a prova de que os animais são bons, logo, somos nós os selvagens, e que devemos pautar nossa consciência pelo exemplo de São Francisco de Assis, com passarinhos e… leões.

O exemplo abaixo é corriqueiro, aqui, em Recife – homens em torno de supostos leões. Nas imediações da Ilha do Chié, vê-se marmanjos acariciando, afagando, roçando ”leões”. São cenas pacíficas e de muito amor. Mas como não existe esse animal por essas plagas, nem mesmo na minguada mata atlântica, os adoradores do grande felino pegam uma cachorra e colocam uma peruca. O efeito, dizem, é mais do que uma ilusão, é verdadeiro. A cachorra de peruca é um leão. E tome adoração.

O CCC pertinho de você

2 de fevereiro de 2010, às 14:20h

Notícia velha, mas vale a pena comentá-la…

Logo no início do ano, tivemos vários sinais de que a direita brasileira estava (e está) assanhada. Ela não tem vergonha de explicitar sua visão hondurenha de democracia (ainda postarei sobre esse assunto), nem mesmo seu valor supremo, a demofobia. Entre outros exemplos, um  bem sintomático foi o flagrante do preconceito de classe de um âncora importante da televisão brasileira, Boris Casoy. No vídeo abaixo, o âncora zomba dos garis que acabavam de desejar um Feliz 2010 aos brasileiros.

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Casoy é um típico conservador tupiniquim e tem seu particular repertório de preconceitos. Foi pego em flagrante, mas o que disse é perfeitamente natural e aceitável em diversos segmentos sociais brasileiros, principalmente naquele que encarna o moralismo hipócrita de certa classe média. Não sabia, até então, que fosse um reaça — sim, faço uma diferença entre conservadorismo e reacionarismo, embora reconheça que, no Brasil, as diferenças são sutis. Soube isso, de fato, quando li o blog Cloaca News e descobri que os valores de Casoy forjaram-se no tempo da ditadura.  Segundo o Cloaca, citando reportagem da antiga revista “O Cruzeiro”, o âncora foi do funesto CCC (Comando de Caça aos Comunistas) — aqui , aqui, aqui –, organização terrorista de direita.

Acuado, Casoy pediu desculpas. Dias depois, chamou o jurista Ives Gandra Martins, conhecido por defender a Opus Dei (aqui, aqui, aqui), para avaliar o Plano Nacional de Direitos Humanos, aquele mesmo que tornará o país uma república soviética. Foi interessante assistir à Band juntar CCC + Opus Dei para examinar esse plano comunista, cujo propósito não é de se ver para crer, pois tá na cara:  acabar com o sossego do agrobusiness, a tranquilidade dos barões da mídia, a serenidade da Igreja Católica e com a mística da Gloriosa de nossos militares — não causa surpresa que o Plano atiçasse esse pessoal (latifundiários + donos de meios de comunicação + alto clero católico + oficiais das forças armadas) — uma questão de classe, diria um velho barbudo. Afinal, toda ação tem Reação, e seria ingenuidade pensar o contrário. Convenhamos, a popularidade de Lula irrita mais do que diminui os poderes centenários do Brasil.

Contudo, flagrante de reaça gera humor e música; no caso, um rap maneiro em homenagem ao caça-comunista e antigari, Casoy:

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O sentido da vida e a chuva que cai

1 de fevereiro de 2010, às 20:54h

No fundo, não ligo muito para a passagem de ano, mas fiquei, dessa vez, impactado por causa de um vídeo-mensagem. Sim, depois de vê-lo, além de me assustar barbaridade, mudei completamente a minha forma de ver e de me relacionar com o mundo. Foi por causa desse vídeo abaixo que fiz promessas e decidi mudar a minha vida. Não recomendo, inclusive, para as pessoas que não querem mudar; pois, viu o vídeo, mudou – é inevitável.

Curiosamente, o vídeo foi feito na chuva. É irônica a chuva. Pode matar e pode, também, trazer espetaculares catarses na vida das pessoas. Seria a chuva transformadora; provavelmente, substituta da missão histórica da classe operária.

E, por falar em pessoas, algumas não aceitaram a mensagem ecumênica do vídeo, como VanVan, o cientista cearense.

_Eu mato essa doida – disse furioso – há coisas que não devem ser ditas, e sim esquecidas. Eu mato!
_Mas é profundo – tentei retrucar
_Profundo, uma ova! Já durmo mal, normalmente, agora são noites de insônia pensando no sentido da vida, principalmente em dias de chuva.
_Você não entende. Veja a coragem da menina: ela fala na primeira pessoa. Não se esconde atrás de teorias. Não tem vergonha de seus afetos. É autêntica e tem um tesouro: a sinceridade. É incrível, ela é sincera.

Comecei a cantar uma canção revolucionária.

_Chove chuva, chove sem parar…

VanVan rosnou.

_Só gostei do final do vídeo — disse.

Convenhamos, sua única franqueza é seu rosnado. Na verdade, detesta a sinceridade, achando-a uma grosseria. Diz que não é mal-educado, só falando, assim, por trás das pessoas.

Parei de discutir e fui olhar, pela miléssima vez, o vídeo. Ainda acho que pode servir como um manual de auto-ajuda. Talvez, torne as pessoas mais imbecis; portanto, menos más. Experiências no Laboratório de Maldades Induzidas (LMI) da UFPB demonstraram a incompatibilidade entre a imbecilidade e a maldade. Um mundo menos maldoso é um mundo mais imbecil — a maldade como sinal de inteligência, eis a conclusão lógica. VanVan defende a extinção das tartarugas de Intermares. É mau pra dedéu. Jamais entenderia a mensagem imbecil do vídeo. Pena.

Bem, vamos ao vídeo (não chorem na frente das crianças, por favor):

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Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXVII

22 de janeiro de 2010, às 17:59h

Abandonei o blog. Sim, abandonei. Foi um caso de Filho abandonando o Pai, o que é, convenhamos, um absurdo. Filho que abandona o Pai, mesmo num blog, vira porco, diz a cultura popular. Não quero virar porco, mas que merecia, ah, como merecia. Sim, porque Filho não abandona Pai, embora este já o tenha abandonado, um dia, lá na cruz.

(talvez, tenha sido o maior Abandono de todos os tempos. Inclusive, foi matéria de artigos de Tsé-Tsé)

E não abandonei apenas este blog. Na verdade, foi um abandono geral e radical, pois deixei o Torcedor Coral (lá, inclusive, já voltei) e o Que Cazzo (aqui, só nas férias) ao léu! Tenho vergonha e admito. Entretanto, tenho desculpa pronta na língua: a universidade virou uma fábrica fordista. Não paro mais de trabalhar, e o tempo deixou de existir, virando uma utopia qualquer.

Mas, na passagem do ano, fiz aquelas promessas que nunca são cumpridas, embora funcionem como uma espécie de meta inatingível durante o ano. Uma delas foi a seguinte: voltarei aos blogs. Além disso, é ano de 2010 da Graça de Nosso Senhor. Ano no qual a direita faz-se reação e está agitada, inventando crise em cima de crises. Uma direita que tem uma visão hondurenha da democracia. Quero acompanhar, no blog, um ano tão delicado.

Por enquanto, continuamos com as memórias (?) do Reverendo…

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

(Bona et felicitatis in novum annum)

37º CAPÍTULO

Ufa! A defesa de tese do padre Javier terminou às seis horas da noite, depois de um dia de intensas discussões acadêmicas, entremeadas de lanches, orações, novenas e terços rezados. Um ritual litúrgico dos mais pesados para examinar uma simples tese de Doutorado; mas, a ICR é assim mesmo. Mera imitação das cerimônias do extinto Império Romano, no qual, até para se dar um peido, eram invocados os deuses do Olimpo.

No caso, predominavam os louvores à Santa Virgem.

A Banca era composta pelo Orientador de Javier, um cardeal mexicano de uns 85 anos que, praticamente, dormiu o tempo inteiro. Mais dois cardeais carcomidos pela idade que babavam enquanto rezavam as Ave-Marias. E dois jesuítas mais jovens que, como urubus, caíram de pau e pedra em cima da carniça do coitado do Javier.

No final, para minha surpresa, a tese foi aprovada com a nota máxima, com pedido de publicação como sempre se faz numa Universidade pertinho de nossa Comunidade.

Na porta de saída, feita de mogno extraído ilegalmente da Amazônia pela ICR, o irmão Javier me deu um caloroso abraço, dizendo-me que fora aprovado graças à minha ajuda. Neguei, claro, respondendo-lhe que o brilhantismo literário do seu trabalho valia muito mais do que a nota máxima.

Contudo, bem baixinho no meu ouvido, Javier pediu-me, pelo amor de todos os santos da ICR, que o esperasse no Albergue, enquanto ele iria receber a medalha de honra da inefável Companhia de Jesus, ADMDG (ou nefanda? Não sei mais. Tô ficando velho! Vou olhar no Dicionário.). Tinha revelações secretas a me comunicar e sua aflição era grande.

Demais até!

Fiquei impressionado com a agitação emocional do irmão mexicano e me dirigi ao albergue da Gregoriana. A cama de Javier estava toda revirada, as gavetas do seu armário abertas e vazias e, em cima da mesa de trabalho, havia uma mala de viagem enorme e cheia de roupas bem arrumadas. Possivelmente, um rito sagrado jesuítico, pensei.

Com uma leve dor de cabeça, por causa da xaropada da defesa de Tese, deitei-me e refleti um pouco à espera de Javier. Afinal de contas, a maioria das teses vaticanas não passavam de lana caprina, sem um objeto científico determinado. Bastava citar dois ou três teólogos conhecidos, contar uma boa história, repetir algumas lendas cristãs primitivas e medievais como se fossem verdades eternas e pronto. Mais uma tese que ninguém iria ler.

Contudo, achara o “Evangelho da Infância e Adolescência de Nosso Senhor”, título da tese de Javier, muito interessante como peça literária. De fato, um verdadeiro romance histórico religioso recheado de acurada e sincera piedade. Claro! A matança das criancinhas e a viagem e estadia da Sagrada Família no Egito, apesar de improváveis, comovem qualquer coração empedernido, como o deste escriba, por exemplo. Invenções piedosas? Não sei, embora baseadas num manuscrito copta de legítima antiguidade.

O irmão Javier chegou mais calmo e com uma medalha de ouro plantada no peito.

Ajoelhou-se e pediu-me que o ouvisse em confissão. Depois dos parrapapás litúrgicos, botou pra falar, contando-me uma história do arco da velha.

Começou dizendo que eu, padre Tsé-Tsé, havia salvo sua vida, o que não passava de um grande e descabido exagero. Deixara de se masturbar em nome da Virgem Sagrada e seguira meus conselhos de paquerar as irmãs do Convento de Santa Maria Maggiore. Num dos passeios, junto às grades do Convento, teve a maior surpresa quando encontrou a irmã Consuelo Popocatepetl, sua prima e conterrânea da aldeia indígena, onde nasceram, em plena Sierra Madre.

Na verdade, depois de um terremoto, todas as crianças sadias da aldeia, com a idade de doze anos, haviam sido raptadas por homens de preto com uma enorme cruz pendurada no pescoço. Quando deu fé, Javier acordou num Convento jesuíta onde ficara interno até se consagrar como padre. De tanto rezar Ave Marias, acabou esquecendo suas antigas tradições astecas, tornando-se devoto fanático da Virgem.

Daí, aliás, suas incursões noturnas ao banheiro do Albergue.

Mas as grades do Santa Maria Maggiore separavam irremediavelmente os primos reencontrados em Roma. De conversa em conversa, terminaram se apaixonando. Mal podiam tocar nos dedos um do outro. Daí em diante, sua vida mudara.

O fogo se espalhara e Javier sugeriu à irmã que pedisse para sair do Convento, de quinze em quinze dias, para visitar uma senhora mexicana que supostamente sofria de um câncer.

Sagrada mentira!

Dessa forma, clandestinamente, dirigiam-se à Villa Borghesi e se entregavam aos prazeres da carne na Mansão da ICR. Não aguentavam mais os rigores eclesiásticos e resolveram fugir de volta ao México. Mas, antes, tinha que defender sua tese para que os jesuítas não o perseguissem com as chamas da Inquisição. Segundo Javier, havia um bispo alemão, que pertencera à Juventude Nazista, e que se tornaria o próximo Chefe do Santo Ofício. Javier não queria ser queimado em nenhuma fogueira!

─ Mas, Javier! Os nazistas foram derrotados e não há mais fogueiras. ─ Interrompi o atormentado jesuíta.

─ Irmão Tsé! Isso é que o senhor pensa. Mês passado, passei no prédio da Companha e senti um cheiro esquisito de churrasco. ─ Respondeu-me.

─ Tudo bem! Mas em que posso lhe ajudar, logo agora que o irmão se tornou Doutor? ─ Perguntei.

─ Doutor que nada, Padre Tsé! Foi tudo combinado. Nosso Superior enviou-me por escrito as críticas e tive tempo para estudá-las.

─ Mas, Javier! Isso não passa de sacanagem acadêmica! ─ Exclamei.

─ Bobagem, irmão Tsé! Todas as teses, aqui na Gregoriana, são assim. Ninguém as lê. Por isso mesmo, resolvi escrever um romance sacro sobre a vida de Nosso Senhor.

─ E de inegável valor literário! Aliás, dei boas rizadas com os híbridos criados por Nosso Senhor. Geniais, sem dúvida! ─ Acrescentei.

─ Ora Tsé! Inspirei-me nos políticos mexicanos e no alto clero romano. Nada mais! Já havia publicado dois livros de contos piedosos no México. Pra mim, foi fácil. Mas tudo isso é passado. O problema é outro. Preciso de sua ajuda e quero que o irmão jure que, até pelo menos ao meio dia da próxima segunda-feira, não dirá nada a ninguém. Nem mesmo à Inquisição.

Achei a história de Javier tão babaca que jurei que guardaria segredo eterno. Aliás, terrível equívoco de minha parte. Mal sabia o que me esperava na semana seguinte.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV
Capítulo XXXVI