Perigos do LHC

11 de setembro de 2008, às 19:35h

VanVan, cientista cearense especializado no Nada Quântico, envia algumas informações preocupantes sobre o LHC (Large Hadron Collider), o acelerador de partículas recém-inaugurado. VanVan defende a tese de que o LHC trará mudanças climáticas imediatas. Pequenos buracos negros surgirão na estratosfera, pertubando o equilíbrio climático. Ele acha que as civilizações, na maioria das vezes, caem repentinamente, como castelo de cartas, porque elas se tornam, quando alcançam a demanda total de sua ecologia, altamente vulneráveis às flutuações naturais. E parece que chegamos a um ponto sem retorno na nossa organização ecológica. Flutuando o clima, a gente se escafede.

_Vc acredita mesmo nisso? Perguntei, um dia, enquanto comíamos raríssimos ovos de tartaruga de Intermares.
_Claro, mesmo sem LHC, estamos condenados. O acelerador apenas acelerará o processo.
_Não sei…
_Veja o caso da Ilha de Páscoa: o culto às estátuas tornou-se uma loucura autodestrutiva, uma ideologia patológica. Veja o extremismo de mercado nos EUA.  É um sistema de valores puramente materialista e aberto ao interesse pessoal racional. Mas, curiosamente, mesclou-se com um messianismo evangélico, lutando contra políticas sociais e públicas a partir de uma estranhíssima base metafísica. Essa derivação do cristianismo (nem Weber poderia imaginar) é extremamente hostil ao bem público.
_Sei, é um tipo de darwinismo social defendido por pessoas que odeiam Darwin!
_Isso mesmo! Acho, por exemplo, que a idéia de um mundo controlado pelos mercados de ações é tão louca como a atitude dos habitantes da Ilha da Páscoa em cortar todas as árvores da ilha para ajudar na fabricação de estátuas gigantescas. Estamos lascados, com certeza!

Fiquei, depois, pensando nesse assunto. Lembrei-me do LHC. Mas a idéia do fim da humanidade, convenhamos, não seria uma má idéia. Os seres humanos são a prova cabal de que Deus não é onisciente. Somos um erro divino de proporções transcendentais!

Assim, fui ler sobre os perigos do LHC. Fiquei apavorado.

Leiam abaixo sobre as possíveis catástrofes que poderão ocorrer com a ativação do LHC (tais informações e mais outras estão aqui):

  1. Produção de buracos-negros - Estes iriam começar absorver tudo a sua volta, ganhando cada vez mais massa e aumentando seu horizonte de eventos numa taxa que iria destruir por completo nosso planeta, o Sistema Solar e ferrar com nossas vizinhanças. Seriamos atraídos e dilacerados pelos seus intensos campos gravitacionais sem a menor chance de escapatória.
  2. Produção um tipo de matéria mais estável que a matéria comum - Isso converteria toda a matéria comum nessa forma de matéria mais estável, que sabe lá Deus sabe que raio é isso! Mas deve ser ruim…
  3. Produção de monopólos magnéticos - Um monopólo seria capaz de gerar linhas de campo magnético abertas, como as linhas de campo elétrico de uma carga positiva ou negativa. No caso magnético isso nunca foi observado, pois esses possuem divergentes iguais a zero[3]. Os campos magnéticos sempre se fecham sobre si mesmos, como um dipólo elétrico (uma analogia com campos elétrico, uma carga positiva e uma negativa a uma certa distância uma da outra).
    A produção desses monopólos magnéticos podem induzir um processo de decaimento de prótons, geralmente em um pion e um pósitron, que faria toda a matéria se desestruturar. Até hoje não foi visto nenhum decaimento de prótons e muito menos monopólos magnéticos, apesar de muitos tentarem conseguir obter esses monopólos. Aqui temos uma tentativa que não deu certo: Will it Blend
  4. Iniciar uma transição para um diferente estado de vácuo quântico - Esse vou explicar com a seguinte analogia: Imagine uma bolha de sabão no vácuo e que dentro dessa bolha de sabão está esse nosso cantinho do Universo e que essa coisa absurda esteja em equilíbrio estável. Agora, imagine uma agulha gigante estourando a bolha. LHC = Agulha Gigante.
  5. Produção de uma Fenda Interdimensional - Essa fenda poderia trazer criaturas de outras dimensões para a nossa. Isso pode não ser inteiramente ruim, pois 0,0032% das criaturas interdimensionais são boazinhas. Portanto podemos ter essa sorte e não acabar sendo destruidos por uma raça interdimensional!
    Como essa é a única grande catástrofe que poderiamos lutar para não sermos extintos ou escravizados, foram feitas simulações pelos militares para estimar o número de pessoas que sobreviveriam a esse tipo de evento. O jogo Half-Life foi uma dessas simulações e como apenas 22,67% das pessoas que o jogaram conseguiram terminar o jogo sem nenhum cheat code, estima-se pouco menos de 1/4 do população do planeta sobreviveria a esse sinistro.
  6. Todas as anteriores ao mesmo tempo, com a adição de fortes dores abdominais - Essas ocorreriam imediatamente antes de sua morte quase que instantânea.

Inclusive, em relação ao perigo cinco, já surgiram criaturas de outras dimensões no nosso planeta sem mesmo necessitar do LHC. O quase centenário Clube do Santo Nome (o Santinha) foi destruído por uma dessas criatura. Tinha um cabeção enorme e era inteiramente ruim. Um horror!

A entrevista do herói

10 de setembro de 2008, às 20:50h

Já foi publicado em outros blogs, mas publico, também, aqui. É a entrevista do herói brasileiro, Protógenes, o inimigo dos corruptos, dos colarinhos brancos, dos antirepublicanos, dos banqueiros, dos capitalistas, da burguesia, dos Aparelhos Ideológicos de Estado, da Reprodução Ampliada do Capital, ops!, empolguei-me, bem… er… um herói, em suma. De todo modo, é sempre reconfortante ver um tal qual chamando a Veja, a revista do fascio brasileiro, de mentirosa.

Lá vai:

por Bruno Rocha Lima, do jornal O POPULAR, de Goiânia

Afastado da Operação Satiagraha, o delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz criticou ontem, em entrevista exclusiva ao POPULAR, a condução, pela Justiça, dos processos de corrupção no Brasil. “Pesquise as investigações do Daniel Dantas em outros países e verá como se comporta o Judiciário”, disse, citando o banqueiro preso na ação. Protógenes participa hoje da Manifestação contra a Impunidade e a Violência, promovida pelo vereador Elias Vaz (PSOL), na Câmara de Goiânia, às 9h.

Tem como acabar com a corrupção no Brasil?
O problema da corrupção no Brasil tem jeito. Essa simples iniciativa do povo goiano, por intermédio de um parlamentar municipal, que está usando de suas atribuições de representante do povo para lançar esse movimento na cidade, acredito que já é uma luz no fim do túnel.

O senhor sofreu retaliações dentro da Polícia Federal pelo seu trabalho na Operação Satiagraha?

A retaliação vem, mas a própria sociedade já identifica. A coisa ficou tão notória, tão absurda, que se criam investigações para produzir prova para o bandido. Não vou entrar no mérito se as investigações atuais da Polícia Federal estão destinadas a isso, mas a pretensão da defesa é que se colete os dados obtidos nas investigações que foram produzidas paralelamente que porventura venham a beneficiá-los no futuro, na investigação principal e na ação penal.

Inclusive os advogados do Daniel Dantas já afirmaram que vão usar a participação de Francisco Ambrósio do Nascimento (servidor aposentado da Aeronáutica) nas investigações para invalidar as provas colhidas. Alegam que ele não faz parte dos quadros da Polícia Federal.

Ele participou sim da operação, mas existe um dispositivo legal que prevê a figura do colaborador eventual. Mas ele ficou pouco tempo na operação, é um analista e desempenhou o papel dele a pedido nosso. A todo tempo ele cumpria expediente na sede da PF.

E quanto às suspeitas de que a Polícia Federal grampeou ilegalmente o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes?
Posso lhe afirmar que a reportagem que foi lançada nos órgãos de imprensa afirmando que houve escuta ilegal e que as suspeitas recaem nos agentes que integraram a Satiagraha é mentirosa. Todas as escutas que fizemos foram autorizadas e nosso sistema é inclusive auditado. Todas nossas escutas estão de posse da Justiça Federal e são controladas pelo Ministério Público Federal. O próprio órgão de imprensa que deu o furo de reportagem não demonstrou o áudio. Cadê o áudio? Só aparece uma transcrição? Cadê o áudio? E envolve duas pessoas importantes da República, o presidente do STF e o senador Demóstenes Torres. Como que lança o nome de duas pessoas dessa forma e não aparecem as provas?

Acredita que a divulgação daquele diálogo foi uma manobra para abafar e desmoralizar as investigações da Satiagraha?

Se você observar historicamente os dados que a imprensa vem lançando no caso do Daniel Dantas, é um processo progressivo. Não vou entrar no mérito, porque isso é alvo de investigações, mas posso lhe dar um caminho, porque é de fonte aberta. É só você entrar no Google e pesquisar as investigações do Daniel Dantas em Nova York, em Cayman e na Itália, e ver como se comportaram o Judiciário e as procuradorias destes países. Você pode ver como ele realizou a defesa dele nesses países. Então não é supresa pra mim o que está ocorrendo aqui no Brasil.

O Daniel Dantas usou de manobras desta natureza em outras ocasiões?

O que está ocorrendo aqui não é surpresa. Inclusive, isso é bem retratado na investigação. Mas não posso dar detalhes porque está coberto pelo sigilo. E para as autoridades que trabalham no caso, como o juiz Fausto de Sanctis, e outros, não é surpresa nenhuma esse tipo de artifício.

Mas o Dantas teria poder para produzir fatos dessa magnitude para atrapalhar as investigações?
Não vou lançar esse tipo de indício, que teria sido A, B ou C, porque não há identificação. Agora, que é grave, isso é. Existe o nome de duas pessoas importantes envolvidas. Entendo que isso, (enfático) isso que tem que ser investigado. Não a intenção, porventura, da defesa de buscar dados que possam favorecer o processo principal do Daniel Dantas e também a investigação que está em curso. O que a investigação tem que mostrar é a gravidade do nome de duas pessoas importantes ser lançado na imprensa sem nenhum critério de verdade.

Na sua opinião, houve uma inversão no debate sobre as investigações?

Hoje, o que se discute é a conduta dos investigadores. Não se discute mais o investigado principal. E nem os fatos que porventura estão em torno dele, que são mais graves que a figura central dele. E o próprio investigado tem noção disso, senão não estaria fazendo toda uma estratégia de trabalho nesse sentido. Estava já voltando o foco para o investigado e os fatos em torno dele e aí se criou outro fato. E acredito que outros virão.

O debate sobre o uso das algemas também foi um foco de distração?

Prefiro não entrar no mérito. Recomendo a você fazer a pesquisa em fonte aberta sobre o que ocorreu com relação aos processos do Daniel Dantas em outros países e você verá nitidamente o que está acontecendo no Brasil.

Concorda com as restrições ao uso das algemas?

Entendo que é uma decisão da Suprema Corte e tem de ser respeitada. Mas, como cidadão, entendo que foi uma decisão casuística. Foi na semana que se discutia a investigação do Dantas, o uso ou não de algemas com ele. Quando pobre é algemado, não se discute. Mas quando rico é algemado, aí cria isso. A população não foi consultada.

Como se viu saindo da condição de herói, que prendeu pessoas poderosas suspeitas de corrupção, e de repente passou a ser atacado e ter o trabalho duramente questionado?
Dá um pouco de tristeza de ver algumas posições sem muita clareza e sem muita explicação para o que se pretende. Mas, por outro lado, são atitudes que cada vez mais me enchem de vontade de persistir no trabalho de combater a corrupção. Na Satiagraha, fiquei uma semana trancado numa sala à base de biscoito e café. Fiquei com seqüelas da operação, passei alguns dias gago e com perda temporária de memória. Mas, se me dediquei muito naquela ocasião, agora vou trabalhar dobrado.

Livro da Semana: Giorgio Agamben - Homo Sacer

8 de setembro de 2008, às 22:35h

Agamben é conhecido como o Foucault italiano. Já li seu livro “Estado de Exceção” — posso dizer que provoca, por isso é interessante. Discuti suas posições num curso da pós-graduação e gerou muita polêmica.

Transcrevo abaixo a orelha do livro Homo Sacer, escrita por Raul Antelo (quem entendê-la é um Homo Estupendi ):

Jean-Luc Nancy define Giorgio Agamben como um agudo flâneur que atravessa, solitário, o campo do pensamento, reparando nos mínimos detalhes. Sua deriva significa pasearse no mundo das coisas.

O próprio Agamben lembra que uma única vez usou Spinoza o vernacular ladino. Foi em Compendium grammatices linguae hebrae para ilustrar que o verbo ativo reflexivo era uma expressão da causa imanente. Pasearse é a palavra espanhola que lhe vem à mente para mostrar uma relativa indecibilidade entre meios e fins, entre atualidade e potencialidade, entre sujeito e objeto. A vertigem da imanência é assim atualizada por um verbo que descreve o movimento infinito da autoconstituição e automanifestação do ser. A vida consiste em pasearse. Alguém muito próximo de Agamben, Guy Débord, fez dessa premissa uma doutrina, a deriva situacionista.

Em Homo Sacer, Agamben se passeia pela vida.  A seu ver, ela não pode mais ser tomada como noção médica ou científica. Os atributos da filosofia e da política (descontando os teológicos, herança benjaminiana muito viva em Agamben) lhe são muito mais específicos. Impossível, portanto, distinguir entre vida animal e humana, entre vida biológica e contemplativa. A vida e a teoria precisam ser pensadas em um novo plano de imanência, o da nuda vita.

Ser um filósofo da imanência, como Spinoza, Nietzsche, Foucault ou Deleuze (com quem aliás escreveu, a  quatro mãoss, um belo ensaio sobre Bartleby), torna Agamben um agudo perscrutador da indecibilidade. Seus ensaios sobre o fim do poema ou o cinema de Débord são eloquentes testemunhos dessa sensibilidade.

Homo Sacer integra uma trilogia com Notas sobre a política O que resta de Auchwitz. No segundo volume da série, o ato de pasearse não se detém nem mesmo perante o campo de concentração ou o conceito de povo. Define o povo como uma cisão biopolítica incontornável no mundo contemporâneo: ele é tanto aquilo que não pode ser incluído no todo de que faz parte quanto aquilo que não pode pertencer ao conjunto em que, mesmo assim, permanece, excluído e indesejado. Ettore Finazzi-Agrò viu essa definição de uma não deliberada leitura de Os Sertões. Por múltiplas razões, a imanência de Agamben implica pasearse através de nossa própria vida.

Lou Reed - The Velvet Underground

6 de setembro de 2008, às 22:26h

Lou Reed - Take A Walk On The Wild Side

Trainspotting - “Perfect Day” Lou Reed (music video) — Grande Filme!!!

The Velvet Underground - Sweet Jane (Live)

Caetanear

6 de setembro de 2008, às 19:19h

Por motivos misteriosos, talvez por acaso ou inconscientemente, visitei o blog de Caetano Veloso (aqui). Rapaz… o blog é bom e o cabra escreve bem pra dedéu!

Transcrevo uma discussão bem interessante sobre lingüistas e lingüística. Até Lévi-Strauss é citado, para gáudio dos antropólogos.

Lá vai:

LINGÜISTAS
2/09/2008 1:51 am
Peço perdão a C por interromper o que quer que seja que estávamos falando (o que era mesmo? sobre críticas e a imprensa? alguém pensou que era contra São Paulo? jamais: estou muito no Rio mas gosto muito mais de São Paulo sob vários pontos de vista - um dia volto a esse antigo tema): preciso dizer a Lucas Matos que eu nunca escrevi que lingüistas não amam a língua portuguesa - e que quando falei em demagogia eu me referia a determinados argumentos que vi publicados, não a todos os lingüistas. Não preciso ser especialista na disciplina para me manifestar. O que escrevi foi: “Sou apaixonado pela língua portuguesa e por gramática (ao contrário de lingüistas e demagogos em geral, acho o sucesso público de figuras como o professor Pasquale um bom sintoma).” Já li e ouvi de diversos demagogos (alguns eram lingüistas) reações enraivadas à presença pública de Pasquale e outros gramáticos que dão dicas em revistas ou na TV. Diferentemente deles, acho um bom sinal que tal fenômeno tenha surgido e crescido. Não há nenhum charme de falar sobre o que não sei aí. Sei muito bem de tudo isso. Quanto à lingüística propriamente dita, li Saussure (aquelas aulas) no início dos anos 70. Li somente porque os poetas concretos falavam dele, Lévi-Strauss (cujo “Tristes trópicos” me apaixonou em 1968) falava dele, todos falavam de Jacobson, que falava dele. Fiquei maravilhado com a afirmação de que a língua é viva e mutante na práxis dos falantes: a língua é falada, a escrita seria apenas uma notação convencionada a posteriori, como as pautas musicais. Nunca vou esquecer sua observação de que o francês é a única língua ocidental que tem uma palavra cuja grafia não guarda nem um só dos valores fonéticos originais das letras que a compõem: “oiseaux”. Depois, entre muitas outras conversas, observações e leituras, fui nuançando essa visão. Para meu governo (tenho uma vida mental íntima, como todo o mundo, que não se desenvolve para publicar-se: aqui no blog naturalmente essa vida íntima se expõe mais, mas é só uma tênue película - como sói acontecer.). Há já um bom número de anos, fui fazer show em Campinas e um professor da Unicamp me entregou um presente: o livro de uma lingüista, com uma dedicatória bonita (”Para Caetano, com as palavras que me faltam”). O livro era sobre português europeu e português brasileiro. Talvez surjam aqui imprecisões, já que perdi o livro numa das mudanças que se seguiram à minha separação - e muitas vezes o confundo com um outro, de autoria coletiva, chamado “Português brasileiro” (título e expressão que adoro). O da professora era escrito num português excelente e tudo nele me interessava. Mas havia coisas que me ficaram como questões numa discussão que nunca se deu. Por exemplo: ela assumia de uma vez por todas que a segunda pessoa do singular não existe no Brasil. É “você” e acabou. A segunda do plural, então, já tinha morrido antes de o Império terminar. Considerava também como inexorável o desaparecimento futuro das conjugações reflexivas (os verbos pronominais). Ora, eu acho que os gaúchos dizem “tu” a torto e a direito (talvez mais a torto do que a direito); os cariocas conjugam, com muita ginga, verbos na segunda pessoa para enfatizar ironia ou agressividade (”tás me estranhando!”, “tás por fora”, “tens cara de veado” etc.) e usam o “tu” para mostrar informalidade (”tu é gay, tu é gay que eu sei”, o Maracanã grita para alguns jogadores; meu filho de 16 anos diz a seus amigos - e ouve deles - coisas como “tu vai lá e chega na mina.”); os pernambucanos perguntam sempre “viste?” - que muitas vezes eles suavizam para “visse?”; os paraenses conjugam o verbo na segunda pessoa, quando escolhem “tu” em vez de “você” - e muitos deles usam o possessivo na segunda do plural (a um casal ou grupo de amigos perguntam: “esses livros aqui são vossos?”). E, seja como for, todos os brasileiros, inclusive (talvez mesmo principalmente) as crianças entendem as letras das canções de Orestes Barbosa ou de Chico Buarque em que o cantor se dirige à amada na segunda do singular. Não se pode dizer que todas essas pessoas não possuam esses recursos da língua. Muito menos que as estará oprimindo quem lhes explicar como funcionam. Por outro lado, meus amigos baianos e cariocas (inclusive muitos semi-analfabetos) riem dos mineiros (e de alguns falantes do interior de São Paulo) quando eles omitem o pronome dos verbos reflexivos: “paixonei com ela” (em vez de “me apaixonei por ela”), “espera eu aprontar” (em vez de “espera eu me aprontar”), “assustou” (em vez de “se assustou”) etc. Lembro que, no livro, a professora indicava tratar-se de tendências. Mas, além de ela dar valor normativo a essas tendências, o argumento de que qualquer transmissão de conhecimento relativo à tecnologia da língua é opressão era recorrente. Essas eram questões que gostaria de discutir com ela. Mas meu tempo foi sempre escasso - e temi importuná-la e tomar seu tempo. Depois perdi o livro. Volto a pensar nessas coisas (e em outras que encontrei, nascidas das descobertas de Noam Chomsky) sempre que vejo reações públicas de lingüistas a qualquer exposição de paradigma culto. Finalmente, li uma entrevista na Caros Amigos, que me foi enviada por Tuzé de Abreu, de um lingüista que escreveu “A norma oculta”, defendendo o português de Lula contra os preconceitos da “elite”. Eu tenho idéias políticas a respeito. E não preciso me formar em ligüística na Sorbonne para expô-lo. Claro que são argumentos para se discutir. Mas são fortes. Na entrevista do autor de “Norma oculta” (não estou evitando escrever seu nome: simplesmente esqueci, mas faço questão de mencionar o nome do livro, que deve ser lido) há agressões a Pasquale (por parte dele e dos entrevistadores) e a toda idéia de correção ou enriquecimento da fala. E um quase silêncio mórbido sobre a língua escrita. Ora, eu acho que esses arroubos de populismo são em geral um superesnobismo mal disfarçado. Claro que sei que se escrevia “frecha” (até os poetas românticos ainda usavam essa forma) e que , portanto, dizer “TV Grobo” não é exatamente errado. Mas as pessoas que dizem “grobo” são as mesmas que têm vocabulário menor, menos acesso aos conhecimentos, menos poder. Os emergentes brasileiros que, saindo da pobreza para a crescente classe média, desejam aprender com os Pasquales da vida são os alvos finais da agressão desses lingüistas. Por mais bem intencionados que sejam, estes resultam demagógicos, pois proíbem a troca natural entre os níveis de informação (sendo assim mais contra o dsenvolvimento orgânico da língua do que os gramáticos) e ostentam estar de posse de teorias de ponta. Aliás, naquela longa entrevista de Lévi-Strauss a Didier Eribon, o grande antropólogo diz que começou influenciado pela lingüístca mas que nos últimos anos deixou de interessar-se pelos textos teóricos da disciplina por achá-los muito esnobes e preciosistas. Acho que se tivermos mais brasileiros letrados, melhores escolas, menos pobreza (isto já começa a se dar), o trato com a palavra escrita poderá mudar muitas “tendências”. E é gritante o desleixo pela palavra escrita nesse processo. Sim, me lembro de Saussure. Mas, por exemplo, há “tendências” misteriosas: por que leio hoje nos jornais e nos livros quase sempre “em um” ou “em uma”, em vez de “num” ou “numa”? Será que há uma regra que desconheço? Os falantes que ouço, todos, sempre disseram “o corpo foi encontrado num canto da praça Genral Osório”. Mas os jornais escrevem “em um canto da General Osório”. As moças da TV já dizem preferencialmente “em um”. E já começo a ouvir pessoas de carne e osso dizendo “em uma rua escura” em vez de “numa rua escura”. Será que é regional (como a professora que me mandou o livro toma uma inclinação mineira contra os verbos pronominais como universalmente brasileira, eu estarei tomando uma tendência baiana a fazer a contração da preposição “em” com o artigo indefinido como regra nacional?)? “Você e tu”, está na minha letra de “Língua”. Odeio ter lido um elogio à decisão do novo traditor de Proust (um Py, aliás bom) de “evitar o lusitanismo “raparigas’” e chamar o título do terceiro volume de “Em busca do tempo perdido” de “À sombra das moças em flor”. Mas quê que é isso? Trata-se de um livro do início do século 20, contando histórias que se passam no século 19, um livro culto, complexo - por que diabos deve-se sacrificar o ritmo e a sonoridade bonita que Mário Quintana encontrou para traduzir “À l’ombre des jeunes filles en fleur” (inclusive mantendo o mesmo número de sílabas e a acentuação no “i” do original)? Só para usar o termo “moça”, vulgar, pesado, e dar a impressão de que escreveu em português brasileiro “natural”, sem “lusitanismo”? Não! Para mim ficou foi sem a beleza de “À sombra das raparigas em flor”. O que isso tem a ver com os lingüistas, a língua falada, a norma culta, a norma oculta, a demagogia e a mania de pensar que o melhor modo de resolver o problema das favelas é destruir o sistema de esgoto de que desfrutam as “elites”? Tudo.

Sarah Palin na capa da Veja!

1 de setembro de 2008, às 18:41h

A beleza como atributo da Reação!

Rapaz, inicialmente, achei a indicação de Sarah Palin, governadora do Alaska, um erro fatal do candidato republicano John McCain. Pensei que pretendia atrair o público feminino americano, até mesmo aquele que ficou orfão de Hilary Clinton. Achei isso um enorme erro de estratégia.

Agora, não sei mais. Acho até que foi uma jogada habilidosa. Possivelmente, o objetivo da indicação de Sarah Palin não foi atrair, propriamente, o público feminino, e sim um grupo específico do eleitorado americano: a direita ultraconservadora cristã.  Tal setor estava, pelo que entendi, um tanto desmobilizado. Algumas análises colocam um peso grande na direita cristã quando da vitória de Busch, principalmente na eleição de 2000. Foi uma vitória  menos política do que “cultural”, calcada na homofobia e noutros valores neocons. Ora, Sarah Palin é mais conservadora, se é que isso seja possível, do que Bush; na verdade, ela é ultraconservadora. Pensem em valores neocons — não, pensem em valores à direita dos neocons; pronto, eis Sarah Palin. Além do mais, é bonitona e jovem (44 anos!), amenizando o fato de que McCain é um candidato velho (71 anos).  Sem dúvida, é uma fina flor do Fascio. Defende o ensino do criacionismo nas escolas americanas. É até contra a pílula anticoncepcional, imaginem. E etc e tal. Deve considerar o papai-mamãe o cúmulo do kama sutra. Inclusive, jamais fez o candelabro italiano ou o torno polinésio, o que gerou uma reclamação de seu marido ao Partido Republicano. Esse escândalo foi abafado, é claro.

Há boatos de que Olavo de Carvalho é o grande mentor da governadora. Falam também que há outro brasileiro envolvido na campanha: Luiz Felipe Pondé, aquele colunista da FSP que acredita no Limbo, apesar do veto do Papa. Ele acredita piamente (deve acreditar de forma sincera nos mitos da extrema-direita) que

“Hoje em dia você aprende no jardim da infância que “tudo é relativo”, “a verdade” não existe, e todos os males do mundo são fruto do patriarcalismo e da Igreja Católica” (aqui - só para assinantes)

Tais maravilhas, supostamente de esquerda, claro, são ensinadas nos colégios privados da classe média brasileira. Os donos dos colégios privados são empresários vermelhos, provavelmente financiados pelos comunistas chineses. Não é mais o rublo e sim o yuan, o fetiche da doutrinação ideológica. Os alunos doutrinados sabem decorado Foucault; já os da escola pública decoram Nietzsche, certamente. As escolas são aparelhos ideológicos do governo bolchevique de Lula!

Pois é… Sarah Palin, segundo dizem, pensa o mesmo das escolas americanas. Mas não é o governo que é bolchevique, e sim o sistema; afinal, o sistema está todo nas mãos dos liberais, principalmente a mídia, apesar da Fox. E, todo mundo sabe, os liberais americanos são piores do que os comunistas — estes, pelo menos, são moralistas.

Por isso, nas hostes republicanas, há uma grande expectativa de que Sarah saia na capa da Veja!

PS: Saiu no Estadão (aqui):

Palin afirmou que é contra financiar programas de educação sexual no Alasca, e propôs apoiar programas de abstinência sexual nas escolas. “Esses programas explícitos de educação sexual não terão o meu apoio”, escreveu Palin em 2006 em um questionário distribuído aos candidatos ao cargo de governador.

Como seria um programa de abstinência sexual para garotas, por exemplo? A volta do uso do cinto de castidade? Bem, de todo modo, o programa familiar de repressão sexual de Sarah Palin não deu muito certo: sua filha solteira de 17 anos está grávida de cinco meses!

Como sofrem os reaças. Vida dura.

PS2: Busch chamou Obama de esquerda raivosa. Pedro Dória (aqui) faz a seguinte observação a respeito do comentário — claro, Sarah tem tudo a ver:

Quando prefeita de Wasillia, demitiu a bibliotecária-chefe porque ela não queria censurar alguns livros. (Depois recontratou-a por pressão popular.) Seu pastor previu que quem condena a Guerra do Iraque arderia no fogo dos infernos. Apenas duas semanas atrás, ele fez um sermão sobre a necessidade de os judeus abraçarem Jesus para que não sejam condenados. Já o presidente do Partido da Independência do Alaska, do qual seu marido era membro até o ano passado, previu a danação dos EUA – tal qual o pastor de Obama.

(Raivosa é a esquerda?)

Sarah é a reaça que vem do frio. Brrr!…

Folha Marrom

31 de agosto de 2008, às 18:16h

É duro ler os jornais e a grande mídia. A Folha, apelidada de “Vaidosa”  pelo meu amigo Gil, deixa a vaidade de lado e se torna  a luxúria do jornalismo marrom. A UOL, então, tornou-se um enorme campo de plantação de notícia.

=> publica, incialmente, que o STF foi grampeado. Para quem lia, o grampo parecia um fato consumado. Descobre-se, na leitura, que é notícia da Veja, essa fina flor do Fascio. Não se sabe a fonte pra variar. É a deontologia jornalística acima da república. Pode-se lançar qualquer acusação, contanto que a fonte seja secreta. E a fonte secreta é a ética que sustenta a liberdade na imprensa. Lendo a matéria da Veja, não se encontra um indício sequer, um papel, um documento, um arquivo  provando a acusação, apenas a fonte secreta da Abin.

Depois, a Folha On-Line relativiza a notícia, dizendo que

a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) abriu investigação interna para apurar se houve envolvimento de agentes secretos em escutas clandestinas em telefones do presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Gilmar Mendes

Se houve grampo… Ah, não é fato, ainda. E o curioso é a conversa grampeada entre Gilmar Mendes e Demóstenes Torres (DEM-GO) — uma conversa que dignifica dois grandes representantes da república brasileira.  Nos filmes de espionagem, os grampos servem para acabar com a reputação alheia e descobrir crimes. O grampo da Veja serve para dignificar as pessoas. Eis um grampo paradoxal. E muito útil, por sinal. Como Gilmar Mendes é leitor de Veja e Caras, acredita piamente em qualquer reportagem da imprensa marrom.

Pesquei essa sequência no blog de Idelber (Biscoito Fino e a Massa — aqui), que atualmente foge do furacão Gustav (Idelber tem mais medo do furacão do que do Estado Policial, o que é muito estranho):

Em 2006, o Ministro Marco Aurélio de Mello disse que foi grampeado. Claro, disse que o responsável era Lula. Era mentira.

Em 2007, Gilmar Mendes e Marco Aurélio de Mello, novamente, denunciam que estão sendo grampeados. Era mentira.

Em 2008, após libertar duas vezes Daniel Dantas, Gilmar Mendes disse que escutou da desembargadora Suzana Carmargo a acusação de que teria sido grampeado pelo Juiz Fausto de Sanctis (aquele que defende um Ministério Público a serviço da República). Logo após, a desembargadora pediu, encarecidamente, que a memória nacional esquecesse-a por completo. Era tudo mentira.

Segundo uma fonte secreta da Veja, o Estado Policial persegue Gilmar Mendes — a fonte secreta jurou, sussurando para ninguém escutar, exceto a Veja,  que existe sim um Estado Policial. Segundo outra fonte secreta da Veja, há um desejo totalitário de que Gilmar Mendes seja preso. Segundo alguma outra fonte secreta da Veja, o que temos é uma típica conspiração bolchevique. Tudo, vale dizer, é extremamente secreto. Eu tive a sorte de escutar tudo isso quando passava pelo Bar do Surfista, aqui, da praia de Intermares. Havia uma reunião de fontes secretas, tomando sol, cerveja e comendo guaiamum. Até que falavam baixo. Foi o vento que trouxe os segredos.

Querem, de todo jeito, detonar a Operação Satiagraha. A oposição, segundo a Agência Estado, uma agência de notícia marrom claro, pede a demissão de toda a diretoria da Abin — o alvo: Paulo Lacerda, aquele que tornou a Polícia Federal um orgão a serviço da República. E, como é a época de eleições, a oposição aproveita e ameaça pedir… o quê?! O quê?! Ora, simplesmente, o impeachment de Lula! (aqui)

Dá um tédio…

PS: soube, agora, que Lula afastou a cúpula da Abin. Certamente, Paulo Lacerda não terá a mão amiga de Lular para lhe ajudar; ao contrário, Lula vem detonando a Operação Satiagraha, desde a defenestração do delegado Protógenes. O presidente tem medo de Daniel Dantas. Por que será?!

=> A FSP publica um artigo sobre Obama. O texto é assinado por Robert Kagan. No final do texto, descobrimos que Kagan é assessor informal… sabem de quem? Sim, do candidato republicano John McCain. Kagan é, simplesmente, um neocon americano, ainda mais com um nome que me faz ter ânsias de produzir trocadilhos infames. É um neocon daqueles que querem impor, na porrada, os valores democráticos.

Depois de muita bomba na cabeça e, quem sabe, de uma torturazinha em Guantánamo, o recalcitrante enfim diz:

_ asdf wer wrg wer…
_Hein?! Exclama o coronel americano
_Acho que está sem dentes e a língua inchou, meu coronel — diz o cabo Ustra, ainda com o alicate na mão — mas acho que disse: sim, eu aceito a Democracia!
_Aaah…

=> Incrível como a FSP é serrista. Isso, digo eu, que não sou paulistano, imagino para quem mora lá.

=> A FSP, no editorial Ocupar as Fronteiras, defende implicitamente argumentos da extrema-direita e dos milicas (”milica”: todo militar que defendeu ou defende o Golpe Militar de 64), insinuando que os indígenas brasileiros serão usados para desmembrar o Brasil. Editorial paranóico. Num típico conflito de terra, é claro que a FSP defenderá a propriedade privada. E é disso de que se trata na discussão sobre os territórios indígenas. Propriedade privada x propriedade comunitária.

=> E defenderá, claro, a propriedade privada como solução para o petróleo do pré-sal. Qualquer posição que defenda a participação do Estado nos lucros do petróleo é chamada de petropopulismo. Já a posição que defende a reversão de parte do lucro para a educação e a saúde, aí é petroassistencialismo. A melhor posição é a defesa da iniciativa privada, a defesa petromagnata.

Artigo: Raposa e os municípios

31 de agosto de 2008, às 15:01h

Artigo interessante de Marcelo Leite, na FSP (aqui– para assinantes), sobre o imbróglio a respeito das terras indígenas da Raposa/Serra do Sol).

Lá vai:


Homologar terra indígena em seu território não lhes subtrai área

O voto do relator Carlos Ayres Britto no STF (Supremo Tribunal Federal) trouxe alguma luz sobre a controversa TIRSS (Terra Indígena Raposa/Serra do Sol). Mas muita confusão e má-fé ainda se propagam pelo éter, na internet e sobre papel, o que justifica voltar ao tema.
O prefeito de Pacaraima (RR), Paulo César Quartiero (DEM), líder dos rizicultores que contestam a área contínua homologada, alega que seu município desaparecerá. Não é verdade.
Todas as terras indígenas (TIs) do Brasil ficam dentro de municípios e Estados (às vezes, em mais de um).
Homologar uma TI em seu território não lhes subtrai área. Os respectivos governos continuam a ter jurisdição administrativa sobre a população e as atividades ali presentes.
Mudam, porém, duas coisas. Uma: as terras indígenas são inscritas no patrimônio da União e reconhecidas como indisponíveis para apropriação privada (o que já eram de direito, segundo o artigo 231 da Constituição; os títulos dos arrozeiros são nulos).
Duas: a gestão municipal na terra indígena fica subordinada às prioridades dessa população.
É contra essas restrições que os fazendeiros e oligarcas se insurgem.
Reação compreensível, ainda que não os autorize a bloquear pontes nem a cometer atentados. Mas não é fato que os municípios afetados deixarão de existir, nem que o Estado de Roraima se tornará “virtual”.
São três as localidades em questão: Pacaraima, Uiramutã e Normandia. A última vila é o município mais antigo, tendo sido criado em 1982. Cinco anos, portanto, depois de iniciados os trabalhos de identificação da área indígena, em 1977.
Pacaraima e Uiramutã são mais complicados. Sua instituição ocorreu em 1995, dois anos depois de concluídos os trabalhos de identificação pela Funai (Fundação Nacional do Índio).
Foi uma reação de deputados federais roraimenses, que conseguiram aprovar plebiscitos de criação para tentar garantir na terra indígena a escassa população não-índia.
Se a TIRSS é grande (17 mil km2, em números redondos), os municípios também são, como de regra na região amazônica. Os territórios de Normandia, ao sul, e Uiramutã, ao norte, dividem Raposa/Serra do Sol mais ou menos ao meio.
Os dois municípios medem, respectivamente, 7 mil km2 e 8 mil km2 -algo em torno de cinco municípios de São Paulo. Cada uma das localidades tem população aproximada de 7 mil pessoas. Na capital paulista, são quase 11 milhões.
A Pacaraima de Quartiero tem menos da metade de seu território na TIRSS. A parte maior fica noutra TI, São Marcos, homologada em 1991. Isso não impediu Pacaraima de existir nem Quartiero de se eleger, mesmo cercado de índios, no lado brasileiro, e de venezuelanos, no outro.
Há mais. Os núcleos urbanos de Normandia e Uiramutã já foram excluídos do perímetro da terra indígena homologada. O primeiro, em 1993, e o segundo, em 2005.
Esses dados, com freqüência escamoteados, podem solucionar a questão jurídica, talvez. Assim se pronunciou o relator Britto, mas ainda faltam os outros dez ministros do STF.
Não resolvem, contudo, a situação de fato: habitantes não-índios dos três povoados ficarão isolados, imprensados contra as fronteiras da Venezuela e da Guiana.
Para garantir seu direito de ir e vir, não há necessidade de excluir as estradas que cortam a terra indígena de seu perímetro. Basta que a Funai mantenha controle do acesso em nome do titular das terras, a União.


MARCELO LEITE é autor de “Promessas do Genoma” (Editora da Unesp, 2007) e de “Brasil, Paisagens Naturais - Espaço, Sociedade e Biodiversidade nos Grandes Biomas Brasileiros” (Editora Ática, 2007). Blog: Ciência em Dia ( cienciaemdia.folha.blog.uol.com.br ).
E-mail: cienciaemdia.folha@uol.com.br

O Inferno é sempre mais embaixo.

29 de agosto de 2008, às 17:32h

Belo artigo de Xico Sá, colunista da FSP. Diz tudo. Não chorem, por favor.

Lá vai:

XICO SÁ

O Santa e o diabo na terra do sol


Fracasso olímpico, Fla-Flu, San-São, que nada, o grande drama será vivido pelo Santa Cruz no Carcará do Sertão

Amigo torcedor, amigo secador, a peça mais trágica do nosso futebol neste ano, indecifrável até para um Sófocles ou Eurípedes, é o inferno coral vivido pelo glorioso Santa Cruz Futebol Clube.

O fracasso olímpico é nada, é varejão Ceasa da vida, diante do que o destino, ludibriado pela esperteza ilusionista dos cartolas -esses prestidigitadores miseráveis-, aprontou para o terror do Nordeste, como cifrou, no hino extra-oficial do clube, o velho e genial Capiba. Nada será mais importante no próximo domingo do que o momento em que o Santinha, como é mimado pela sua torcida, entrar no gramado do Cornélio de Barros, o ninho do Carcará do Sertão, para o embate com o time do Salgueiro. Nem o mitológico Fla-Flu, o clássico que diz mais do Brasil do que mil bibliotecas, terá importância a essa altura.

O San-São, no Morumbi, vítima da calvície ludopédica dos últimos tempos, também não traduz 10% da grandeza histórica do que veremos sob o sol de Pernambuco. Nesse momento, na av. Aurora de Carvalho Rosa, s/nº, o Santa pode se despedir da Série C, que, digamos, já é o subsolo do diabo, e alcançar a recém-criada e indefinida quarta divisão, mais terrível e assustadora do que “A Encarnação do Demônio“, filme do gênio da raça mestiça José Mojica Marins, o Zé do Caixão.

Se você, amigo corintiano, como o nosso mal-assombrado cineasta, acha que atravessa o purgatório ludopédico, imagina o que vem a ser isso, a Série D do Brasileiro! O Santa Cruz, o social clube da “poeira”, sinônimo de povão no Recife das insurreições populares, não merece.

E não me venha, amigo rodrigueano, com essa de castigo dos deuses. Dessa até nós, amantes de mistérios esféricos do futiba e reencarnações possíveis, estamos fora. Foi coisa de gente de carne e osso mesmo. O Santinha é grande demais para descer a esse ponto.

O Santa, orgulhoso com o Mundão do Arruda, por muito tempo o quarto maior estádio do universo, onde me iniciei na carreira de repórter esportivo, há de voltar a ser gigante, hiperbólico como Pernambuco, onde o Capibaribe e o Beberibe se juntam para formar o oceano Atlântico.

Que o bruxo Fumanchu, que formava aquele ataque dos sonhos com Nunes e Joãozinho, reencarne nos mais jovens tricolores que vestirem o manto coral daqui para a frente. Fumanchu, personagem de uma das mais belas crônicas de futebol que já li na vida (*), obra do escriba Inácio França, Santa Cruz de corpo e alma, que viu cair de um livro empoeirado a figurinha colorida do velho ponta e resolveu ir atrás da criatura, saber por onde andava, o que fazia… Era figurinha do álbum “Futebol cards”, quem lembra? Noves fora a nostalgia, essa doença infantil e inevitável que adquirimos aos 19 e levamos ao túmulo, é uma história linda.

Aliás, o pior do futebol de hoje não é nem a grosseria dos boleiros de fazenda, é a impossibilidade de se preencher um álbum desse gênero. Os jogadores não ficam nos nossos times nem o tempo suficiente para que a gente os encontre no envelope de figurinha, esse doce e misterioso suspense das bancas de revistas.

A vida, amigo Samarone Lima, cronista de mancheia da história do Santinha, é e sempre será a chance de completar um álbum de figurinhas.

Conto infantil

28 de agosto de 2008, às 19:11h

É aniversário do blog Estradar (aqui), e Dimas pediu-me uma crônica para a sua série comemorativa. Estou sem tempo, infelizmente, até comecei a escrever uma crônica meio rodriguiana, mas não tive fôlego suficiente — pelo menos, por enquanto. O jeito foi enviar um recauchutado conto infantil que foi da lavra de Perrusi Pai. Fiz algumas modificações; porém, o espírito manteve-se intacto. Não disse a Dimas, mas a estória foi concebida para aterrorizar as crianças. Perrusi Pai achava que boa parte da educação infantil realiza-se através do Terror. Quanto mais terror, mais a criança torna-se dócil e preparada para a civilização. Ele disse-me que sua pedagogia baseava-se numa interpretação radical das teorias de Freud — só existe uma forma de impor o Superego numa criança dominada pelo Id: causando medo. Quando eu tinha pesadelos com seus contos e acordava gritando madrugada adentro, ele sabia que estava no caminho certo.

Mas era minha mãe que adorava contar estórias de terror aos seus pequerruchos. Perrusi Pai é um frouxo e tem pena, esse sentimento incompatível com a boa pedagogia. Quantas vezes, ela me esperou escondida em algum lugar da casa para me dar um baita susto — debaixo da mesa era seu lugar favorito. Ainda hoje, não fico à vontade numa mesa, pois espero a qualquer momento um monstro saindo debaixo do móvel. Muitas vezes, eu como em pé, principalmente macarrão, por motivos que nem os anos de psicanálise desvendaram completamente.

Minha mãe passava semanas elaborando um susto. Acho que, com os sustos, ela compensava de alguma forma o trabalho inominável de ser mãe. _Toda mãe tem fantasia de infanticídio! Diz até hoje. Seus sustos, agora eu sei, eram a sublimação de um desejo infanticida. Assim, escapei de uma boa. Quem me conhece sabe o quanto sou assustado por nada. Minha constante cara de pavor é reflexo de uma moderna concepção de educação. Faça bu! e eu desmorono.

Dessa forma, mandei um conto infantil a Dimas. Como acaba de ser pai, quis lhe oferecer um método educativo bastante eficiente. Sim, Dimas, conte estórias apavorantes a Malu, e você terá a garotinha mais doce e meiga da paróquia.

Lá vai:

A terrível estória do besouro-bosta

Imagem: Vladstudio

“Era uma vez uma princesa que morava num belo e magnífico castelo, no meio de um bosque espesso e inacessível. Ela vivia trancada no seu quarto por ordem do rei, seu pai, porque este tinha medo de que algum aventureiro lançasse mão. Mas ela já estava na idade de casar, inclusive batia palminhas, e o próprio rei estava ficando velho, precisando de herdeiros e de dinheiro. Diante disso, ele editou uma nova lei: “o homem que conseguisse soltar a princesa do castelo teria a sua mão e herdaria o trono“. Foram muitos os príncipes que vieram de todos os lugares para tentar a sorte, embora todos malograssem nos seus objetivos. Era triste escutar os lamentos chorosos da princesa em cada desfeita dos seus pretendentes. O rei continuava intransigente e não a liberava da sua prisão sequer um segundo.

Era uma coisa estranha o fato de que os valentes príncipes não conseguissem chegar nem mesmo perto do castelo - mas é que Imangaard, a princesa que batia palminhas, não sabia das condições impostas pelo rei. Para se chegar lá, somente havia dois caminhos permitidos. O primeiro passava pelo bosque que era protegido pelo pavoroso bicho-galo. Monstro bissexual, macho e fêmea ao mesmo tempo, era alumiado e sombrejado de uma vez só. Tinha três carreiras de peitos, cada uma com 35 bicos. Cada bico dava pra mamar 147 homens. Com a força de um peido, derrubava invariavelmente quem ousassem desafiá-l@. Pior do que isso era o castigo da derrota. Por ordem do rei, todo aquele que fosse derrotado pelo bicho-galo era posicionado de quatro pés, calças arriadas, de tal sorte que era, imediatamente, possuído pelo monstro, que penetrava os derrotados com seu membro longo e fino. El@ não errava uma estocada e parecia extrair muito prazer daquela atividade. Quem se desse ao trabalho de olhar, notaria um certo ar de riso malicioso em Seu rosto. As sessões eram chamadas pelo rei de “o que é pior do que o empalamento” e eram assistidas somente pela aristocracia — à plebe só restava boatar.

O segundo caminho seguia por um profundo fosso, cheio de merda e baratas. Quem por ali passasse, teria que andar devagar, atolado de merda e barata até o pescoço. Assim mesmo, alguns corajosos tentaram, desistindo no meio do caminho por não suportarem tanto sacrifício, ainda mais porque a travessia tinha de ser feita na escuridão e em plena meia-noite.

Parece que a princesa morreu de desgosto, embora existam outras versões relatando que ela engravidou de um pajem, com o seu rebento tornando-se depois Bastardus I, para o constrangimento do seu pai”.

Bem, diante da minha incredulidade, minha mãe arredondava a estória e dizia que a saga dessa família real não terminava por aqui, existindo outra história, um tanto constrangedora, que abalava os alicerces da realeza. Mamãe, antes de iniciar a estória, dava uma risadinha meio histérica, e eu sabia que era o sinal de que vinha alguma coisa que faria Allan Poe corar.

Havia nas redondezas do castelo do rei um besouro-bosta que, de hábito, alimentava-se do cocô da rainha. Isso não seria um grande problema, talvez apenas uma questão de ecologia, se não fosse a esquisitice desse besouro de só gostar de cocô fresco, precisando assim entrar nas tripas da rainha. O rei passava o tempo todo preocupado, tentando afugentar o besouro, o que raramente acontecia para a total tristeza da rainha. O problema agravou-se a tal ponto que a nobre dama sempre ficava deitada, todas as manhãs, esperando o besouro, para que lhe fosse dado passar o resto do dia mais tranqüila.

Um dia, o rei teve que viajar e, preocupado com o estado de sua esposa, mandou chamar um remendão para pregar uma tábua no traseiro da rainha, vedando a passagem preferida do besouro. Acontece que o besouro, inconformado por ter sido privado do seu alimento predileto, havia feito, com muita arte, um buraquinho na madeira, continuando, pois, tranqüilamente, com os seus velhos hábitos. Dizem que a rainha matou-se e o besouro, desesperado com o fim do seu repasto, jogou-se direto na boca de uma lagartixa, o que lhe trouxe uma morte atroz. Contudo, outras versões contam que, no fundo, a rainha gostava do besouro e, principalmente, do que lhe fazia, bem como - pasmem meus queridos estradeiros, porque esta informação é surpreendente - foi a própria rainha que fez o buraquinho na madeira!

Tal versão é bastante difundida entre o populacho, vale dizer. O que convenhamos não significa absolutamente nada, embora muitos freudo-marxistas (ler Lins, Dimas. Freud e o besouro bosta: a pernambucanidade desvelada. Recife: Joaquim Nabuco, 2004) tenham interpretado a figura simbólica do besouro como o povo entrando no forever da realeza. Acho, sinceramente, que é forçar demais…

PS: soube que o besouro-bosta ficou puto com Dimas. Imagens de joaninhas? O que ele insinua, afinal de contas? Que o besouro-bosta, na verdade, é um besouro-gay? _Sou um heterobesouro. Já comi várias joaninhas, porra! Disse, de uma forma um tanto machista, o besouro-bosta. Acho que Dimas brinca com fogo. Talvez, fosse o caso de comprar uma placa de aço…