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	<title>Blog dos Perrusi &#187; Variedade</title>
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	<description>Crônica, política, doidice, o escambau!</description>
	<lastBuildDate>Tue, 07 Feb 2012 19:45:58 +0000</lastBuildDate>
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    <title>Blog dos Perrusi</title>
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		<item>
		<title>Couscous à la Ducaldo</title>
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		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2011/02/12/couscous-a-la-ducaldo/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 12 Feb 2011 09:36:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tsé-Tsé</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reverendo Tsé-Tsé]]></category>
		<category><![CDATA[Variedade]]></category>
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		<description><![CDATA[

 COUSCOUS À LA DUCALDO
(Um prato árabe para duas pessoas)
A pedido do Irmão Ducaldo, publico a seguinte Receita do Sagrado Couscous da Irmãzinha Benedetta.
 
INGREDIENTES
Uma colher de sopa de coentro em grão, colhido junto da Cidade da Copa.
Dois baldes de sopa de azeite de oliva, feito de azeitonas do Bosque das Oliveiras.
Uma xícara de sopa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2011/02/44610821couscous.jpg"><img class="size-medium wp-image-6122 aligncenter" title="44610821couscous" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2011/02/44610821couscous-300x200.jpg" alt="" width="300" height="200" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><strong> COUSCOUS À LA DUCALDO</strong><br />
(Um prato árabe para duas pessoas)</p>
<p>A pedido do Irmão Ducaldo, publico a seguinte Receita do Sagrado Couscous da Irmãzinha Benedetta.</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>INGREDIENTES</strong></p>
<p>Uma colher de sopa de coentro em grão, colhido junto da Cidade da Copa.</p>
<p>Dois baldes de sopa de azeite de oliva, feito de azeitonas do Bosque das Oliveiras.</p>
<p>Uma xícara de sopa de Curry (para agradar o presidente do Santinha).</p>
<p>Duzentas gramas de couscous (com semolina de trigo mofado ou de joio, se preferirem; se não houver, botar farinha de mandioca que serve também).</p>
<p>Meio quilo de carne de ovelha negra, porém piedosa e virgem.</p>
<p>Três tomates sem pele nem semente, colhidos nos Aflitos.</p>
<p>Sal tirado do que restou da estátua da mulher de Ló. Pimenta malagueta iraniana.</p>
<p>Quatro cebolas médias (se não houver, papoulas sertanejas).</p>
<p>Uma folha de louro da última flor do Lácio.</p>
<p>Um galho de alecrim (pode ser encontrado nos arredores de Nazaré da Galileia).</p>
<p>Um galho de tomilho do outro lado do Jordão.</p>
<p>Dois dentes de alho e duas colheres de alho porró. O alho pode ser encontrado nas Repúblicas Independentes.</p>
<p>Dois limões azedos (colhidos no quintal da Coisa).</p>
<p><strong>MODO DE PREPARAR</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Deixar a carne de ovelha negra na água benta, por dez horas, para lavar os pecados (numa bacia das almas, pra não virar bode expiatório). Depois, ficar em banho-maria durante duas horas. Temperar a carne com alho fedido, sal e pimenta. Regar com suco de limão e deixar tomar gosto durante as manifestações do Egito. Regar com um cálice de vinho (do que restou das Bodas de Caná; se não houver, da última ceia também serve). Refogar no azeite com a cebola picada (adicionando, talvez, uma gotinha de dendê a la brasileira). Colocar os tomates em triângulos e cubos (todos em pé e em diagonal, como se estivessem de castigo) juntamente com os demais temperos. Cobrir (o vácuo, talvez?) com água milagrosa. Cozinhar em fogo brando (daqueles que não queimam nem deixam de queimar) até amaciar o bode ─ desculpem, a ovelha negra (fogão de lenha obrigatório). Retirar a carne para uma travessa (de barro, de preferência) ou mesmo para uma peneira de juta. Coar um quarto de litro do seu caldo ─ eis pra que serve a peneira ─ (Nossa Senhora das Brasas! Quê caldo? Quê caldo? Ducaldo?). Levar ao fogo numa panela de bronze (preferência por esse metal ignorada). Quando ferver ─ se ainda houver lenha no fogão ─ colocar a farinha de couscous, mexendo sem parar com uma colher de pau de figueira sagrada até engrossar. Cozinhar, novamente, em fogo brando (o quê, o quê?) durante dez minutos e mexer, de vez em quando, da esquerda para a direita.</p>
<p>Servir o couscous acompanhado da carne de ovelha negra (aos pedacinhos) e do restante do caldo debaixo de uma ponte discreta do Capibaribe.</p>
<p>Acompanhado de uma irmãzinha, é claro!</p>
<p>Depois da comilança, então, tudo ocorrerá segundo a ordem natural das coisas!</p>
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		<title>Política científica</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2011/01/10/politica-cientifica/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2011/01/10/politica-cientifica/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 10 Jan 2011 22:01:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[ciência]]></category>
		<category><![CDATA[CNPq]]></category>
		<category><![CDATA[Homo lattes]]></category>
		<category><![CDATA[Lattes]]></category>
		<category><![CDATA[Miguel Nicolelis]]></category>
		<category><![CDATA[pesquisa]]></category>
		<category><![CDATA[pesquisador]]></category>
		<category><![CDATA[política científica]]></category>

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		<description><![CDATA[Mais uma entrevista do neurocientista Miguel Nicolelis. Concordo no atacado, discordo no varejo, mas é uma posição importante, vindo de quem vindo.
Selecionei a parte da entrevista que se refere à política científica brasileira. Não deixa de ser uma crítica ao Homo lattes (termo cunhado por dona Cynthia, num momento de grande inspiração).
Uma frase de Nicolelis [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mais uma entrevista do neurocientista Miguel Nicolelis. Concordo no atacado, discordo no varejo, mas é uma posição importante, vindo de quem vindo.</p>
<p>Selecionei a parte da entrevista que se refere à política científica brasileira. Não deixa de ser uma crítica ao<em> Homo lattes </em>(termo cunhado por dona <a href="http://quecazzo.blogspot.com/" target="_blank">Cynthia</a>, num momento de grande inspiração).</p>
<p>Uma frase de Nicolelis diz tudo:</p>
<blockquote><p>Com um físico da UFPE,  cheguei à  conclusão de que Albert Einstein não seria pesquisador 1A do  CNPq,  porque ele não preenche todos os pré-requisitos – número de  orientandos  de mestrado, de doutorado… Se Einstein não poderia estar  no topo, há  algo errado.</p></blockquote>
<p>Além do mais, a universidades federal, onde se produz ciência no Brasil, organiza-se ainda como uma repartição pública (não me refiro aos gestores e aos administradores, e sim à regulação normativa da universidade). Sua forma de organização é incompatível com a produção científica. Eu mesmo virei um empreendedor de atalhos burocráticos. Antes de ser pesquisador, sou um dos maiores especialistas em memos e ofícios, além de conhecer todos os caminhos e descaminhos da reitoria de minha universidade. Fiz amizade com inúmeros carimbos e vários protocolos, além de tomar cervejinha com muitos processos pelos bares da burocracia. Teve até uma autentificação muito da gostosa que&#8230; deixa pra lá.</p>
<p>Quem quiser ler a entrevista completa clique <a href="http://planobrasil.com/2011/01/10/integracao-entre-cerebro-e-maquinas-vai-influenciar-evolucao/" target="_blank">aqui</a>.</p>
<blockquote><p><strong>O que você acha da política científica brasileira?</strong></p>
<p>Está  ultrapassada. Principalmente, a gestão científica. Foi por isso  que eu  escrevi o Manifesto da Ciência Tropical (mais informações nesta   página). O mais importante nós temos: o talento humano. Mas ele é   rapidamente sufocado por normas absurdas dentro das universidades. Não   podemos mais fazer pesquisa de forma amadora. Devemos ter uma carreira   para pesquisadores em tempo integral e oferecer um suporte   administrativo profissional aos cientistas. Visitei um dos melhores   institutos de física do País, na Universidade Federal de Pernambuco   (UFPE), e o pessoal não tem suporte nenhum. Se um americano do Instituto   de Física da Universidade Duke visitar os pesquisadores brasileiros,   não vai acreditar. Eles tomam conta do auditório, fazem os cheques e   compram as coisas, porque não é permitido ter gestores científicos com   formação específica para este trabalho. Nós preferimos tirar cientistas   que despontaram da academia. Aqui no Brasil há a cultura de que,  subindo  na carreira científica, o último passo de glória é virar um   administrador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e   Tecnológico (CNPq), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) ou da   Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). É uma   tragédia. Esses caras não tem formação para administrar nada. Nem a casa   deles. Não temos quadros de gestores. A gente gasta muito dinheiro e   presta muita atenção em besteira e não investe naquilo que é   fundamental.</p>
<p><strong>Qual é a diferença nos mecanismos de financiamento e gestão científica nos EUA e no Brasil?</strong></p>
<p>O  investimento privado e público americano – sem contar os gastos do   Pentágono que, em parte, são sigilosos – é equiparável: cerca de US$   250 bilhões anuais cada um (o equivalente a R$ 425 bilhões). Eles também   enfrentam o problema de que as empresas privadas não costumam investir   em pesquisa pura, meio de cultura de onde saem as ideias aplicadas.   Contudo, o governo não investe só em universidades. Ele também coloca   dinheiro em empresas e em institutos de pesquisa privados. Este é o   segredo. No Brasil, a grande maioria dos mecanismos públicos de   financiamento está voltado para universidades públicas. Sendo assim,   você não contrata cientistas e técnicos para um projeto, pois depende   dos quadros da universidade. Mas esses quadros estão dando 300 horas de   aula por semestre. Não dá para competir com um chinês que está em   Berkeley pesquisando o dia inteiro e recebendo milhões de dólares para   contratar quem ele quiser. Como fazer ciência sem gente? Na realidade,   os americanos não contam com pessoas mais capazes lá. O que eles têm de   diferente é um número muito maior de pesquisadores, processos   eficientes, gestão científica profissional – a melhor jamais inventada –   e dinheiro. Nos Estados Unidos, sou visto como um pequeno  empreendedor.  Recebo dinheiro do governo americano e uma parcela menor  de  investimento privado. Tenho assim uma “padaria” que faz ciência:  posso  contratar o padeiro, o faxineiro e a atendente de acordo com as   necessidades do projeto. Esse empreendedorismo não é permitido pelas   leis brasileiras. As mesmas regras que regem o gasto de quaisquer dez   mil réis que um cientista ganha do governo federal servem para controlar   licitações de centenas de milhões de reais para a construção de   estradas, hidrelétricas… Achar que um cientista vai desviar dinheiro   para fazer fortuna pessoal é absurdo. O processo de financiamento deve   ser mais aberto, com mecanismos simples de auditoria. Além disso,   deveria ser mais fácil importar insumos e, com o tempo, precisaríamos   atrair empresas para produzi-los aqui. É um absurdo ver anticorpos   apodrecerem no aeroporto de Guarulhos por causa da burocracia. Alguém no   topo da pirâmide – o presidente da República ou o ministro da Ciência e   Tecnologia – precisa dizer: “Chega. Acabou a brincadeira.” É um   desperdício gigantesco de talento e de dinheiro. A China está   recuperando pesquisadores que emigraram para os EUA oferecendo condições   de trabalho ainda melhores que as americanas. Milhares de brasileiros   voltariam ao Brasil se tivessem melhores condições para trabalhar. Mas o   sujeito vem para uma universidade federal e é obrigado a dar 300 horas   de aula por semestre. Perdemos o talento. Além disso, ele conquista a   estabilidade de forma quase automática. Que motivação vai ter para   crescer? Há talentos, mas os processos são medievais. E o cientista   brasileiro tem muito receito de bater de frente com as autoridades para   reivindicar o que ele realmente precisa.</p>
<p><strong>Quanto o Brasil deveria investir em ciência?</strong></p>
<p>O  Brasil precisa investir de 4% a 5% do seu Produto Interno Bruto  (PIB)  em ciência e tecnologia para encarar a China, a Índia, a Rússia,  os  Estados Unidos, a Coreia do Sul… esses são os jogadores com quem   devemos nos equiparar. É o mesmo porcentual que já investimos em   educação. É essencial realizar os dois investimentos: por um lado, para   formar gente e iniciar a revolução educacional que o País precisa; por   outro, para usar o potencial intelectual dessas pessoas na produção de   algo para o País. Atualmente, investimos 1,3% do PIB. No Japão, é quase   4%. Isso explica muita coisa.</p>
<p><strong>Você afirmou diversas vezes que a ciência precisa ser democratizada no País.</strong></p>
<p>Sem  dúvida. É uma atividade extremamente elitizada. Não temos a  penetração  popular adequada nas universidades. Quantos doutores são  índios ou  negros? A ciência deve ir ao encontro da sociedade brasileira.  Essa foi  uma das razões que me motivaram a escrever o manifesto. Até  bem pouco  tempo, a ciência era uma atividade da aristocracia brasileira.  Há 30 ou  40 anos só a classe mais alta tinha acesso à universidade. Não   precisavam de financiamento porque tinham dinheiro próprio. Hoje, nós   precisamos de cientista que joga futebol na praia de Boa Viagem.   Precisamos do moleque que está na escola pública. As crianças precisam   ter acesso à educação científica, à iniciação científica. O que também   implica uma democratização na distribuição de oportunidades e recursos   em todo o País. Estamos trabalhando com 21 crianças da periferia de   Natal. Elas nem mesmo entraram no ensino médio e já estão sendo   incorporadas às linhas de produção de ciência do nosso instituto. Quatro   participaram de um projeto piloto em que aprenderam a usar ressonância   nuclear magnética de bancada para medir o volume de óleo nas sementes  do  pinhão-manso do semi-árido nordestino. E classificaram as diferentes   sementes de acordo com a quantidade de óleo. Duvido que exista algum   técnico na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) melhor   do que essas crianças. Não precisamos mais de caciques. Precisamos de   índios. Devemos investir na massificação dos talentos. Esses moleques   vão decidir o que vai ser a nossa ciência. Se chega um jovem muito   talentoso que quer investigar besouro, devemos responder: “Está bom,   filho. Vai pesquisar besouro.” Eu não investiria em tópicos, em áreas   específicas. Eu investiria primordialmente em gente. Porque se você   investir em pessoas talentosas, elas encontrarão nichos em que o Brasil   terá benefícios tremendos. Nós temos uma das maiores olimpíadas de   matemática do mundo, o que comprova que nosso talento matemático é   enorme. Mas não dá frutos porque faltam caminhos, oportunidades,   veículos… Acreditamos que devemos escolher o melhor menino. Mas e os   outros cem mil que quase ganharam? Precisam de incentivo para continuar.   Por isso, eu proponho o bolsa-ciência. É um bolsa-família para garoto   que tem talento científico. Não precisa ser gênio. Estou fazendo isso   com esses 21 meninos. Os quatro garotos do pinhão-manso recebem mais   dinheiro do que o pai e a mãe: uma bolsa de R$ 520 paga por doadores   privados. Precisamos investir no caos que é o sistema nervoso. Desta   forma, encontraremos caminhos imprevistos, surpresas agradáveis.</p>
<p><strong>Como avaliar mérito na academia?</strong></p>
<p>Nós  publicamos mais do que a Suíça. Mas o impacto da ciência suíça é  muito  maior. Basta ver o número de prêmios Nobel lá. E eles têm apenas  cinco  milhões de habitantes. Na academia brasileira, as recompensas  dependem  do que eu chamo de “índice gravitacional de publicação”: quanto  mais  pesado o currículo, melhor. Ou seja, o cientista precisa  colecionar o  maior número de publicações – sem importar tanto seu  conteúdo. Não pode  ser assim. O mérito tem de ser julgado pelo impacto  nacional ou  internacional de uma pesquisa. Não podemos dizer: quem  publica mais,  leva o bolo. Porque aí o sujeito começa a publicar em  qualquer revista.  Não é difícil. A publicação científica é um negócio  como qualquer  outro. Mesmo se você considerar as revistas de maior  impacto. Também  não adianta criar e usar um índice numérico de citações  (que mede o  número de citações dos artigos de um determinado cientista).  Talento  não está no número de citações: é imponderável. Meu  departamento na  Universidade Duke nunca pediu meu índice de citação.  Também nunca  calculei. Quando sai do Brasil, achei que estava deixando  um mundo de  lordes da ciência. Fui perguntando nome por nome lá fora.  Ninguém  conhecia. Ninguém sabia quem era. Críamos uma bolha provinciana  que  deve ser estourada agora se o Brasil quer dar um salto quântico. Mas  as  pessoas têm receio de falar com medo de perder o financiamento. Há   outras formas de medir o impacto científico: ver o que cara está fazendo   e consultar a opinião de pessoas que importam no mundo, dos líderes de   cada área. Sob este ponto de vista, o impacto da ciência brasileira é   muito baixo. E precisamos dizer isso sem medo. Não dá para esconder o   sol com a peneira. Quando decidem criar um Instituto Nacional (de   Ciência e Tecnologia), em vez de dividir o dinheiro entre 30 ou 40   pesquisadores promissores, preferem pulverizar o dinheiro entre 120   cientistas, muitos deles com propostas que não vão chegar a lugar   nenhum. Cada um recebe um R$ 1 milhão, uma quantia considerável na   opinião de muita gente mas que não paga nem a conta de luz de um projeto   bem feito. Não podemos ter receio de selecionar os melhores. Você   precisa escolher os bons jogadores, não os pernas-de-pau. Outra coisa:   só o Brasil ainda admite cientista por concurso público. Cientista tem   de ser admitido por mérito, por julgamento de pares, por entrevista, por   compromisso, por plano de trabalho.</p>
<p><strong>Como você se vê na Academia?</strong></p>
<p>Sou  um pária. Não tenho o menor receio de falar isso. Sou tolerado.  Ninguém  chega para mim de frente e fala qualquer coisa. Mas, nos  bastidores, é  inacreditável a sabotagem de que fomos vítimas aqui em  Natal nos  últimos oito anos. Mas sobrevivemos. O Brasil é uma obsessão  para mim.  Há muita gente que não faz e não quer que ninguém faça, pois o  status  quo está bem. Tenho excelentes amigos na academia do País,  respeito  profundamente a ciência brasileira. Sou cria de um dos  fundadores da  neurociência no Brasil, o professor César Timo-Iaria, e  neto científico  de um prêmio Nobel argentino – Bernardo Alberto Houssay.  Por isso, foi  uma triste surpresa os anticorpos que senti quando eu  voltei. Algumas  pessoas ficaram ofendidas porque não fiz o beija-mão  pedindo permissão  para fazer ciência na periferia de Natal. Este ano, na  avaliação dos  Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs),  tivemos um dos  melhores pareceres técnicos da área de biomedicina. E o  nosso orçamento  foi misteriosamente cortado em 75%. Pedi R$ 7 milhões.  Recebemos R$  1,5 milhão. Operamos com um sexto do nosso orçamento. As  pessoas têm  medo de abrir a boca, porque você é engolido pelos pares.  Então, eu  fico imaginando um pesquisador que volta para o Brasil depois  de  estudar lá fora. De qualquer forma, o pessoal precisa entender que   voltar para o Brasil é assumir um tipo especial de compromisso. Não é ir   para Harvard, Yale… Você deve estar disposto a dar seu quinhão para o   País porque ele ainda está em construção. Nem tudo vai funcionar como a   gente quer. Vejo muita gente egoísta voltando para o Brasil. Os jovens   precisam olhar menos para o umbigo e mais para a sociedade.</p>
<p><strong>Qual é o futuro dos jovens pesquisadores no País?</strong></p>
<p>Atualmente,  eles têm uma dificuldade tremenda de conseguir dinheiro  porque não são  pesquisadores 1A do CNPq. Você precisa ser um cardeal da  academia para  conseguir dinheiro e sobressair. Com um físico da UFPE,  cheguei à  conclusão de que Albert Einstein não seria pesquisador 1A do  CNPq,  porque ele não preenche todos os pré-requisitos – número de  orientandos  de mestrado, de doutorado… Se Einstein não poderia estar  no topo, há  algo errado. Minha esperança é que o futuro ministro ataque  isso de  frente pois, até agora, ninguém teve coragem de bater de frente  com o  establishment da ciência brasileira. Ninguém teve coragem de  chegar lá e  dizer: “Chega! Não é assim! A ciência não está devolvendo ao  povo  brasileiro o investimento do povo na ciência.” Os cientistas  brilhantes  jovens não têm acesso às benesses que os grandes cardeais –   pesquisadores A1 do CNPq – têm, muitos deles sem ter feito muita coisa   que valha. Além disso, veja a situação do Conselho Nacional de Ciência e   Tecnologia (CCT, que assessora o presidente da República nas decisões   relacionadas à política científica). O presidente da Academia  Brasileira  de Ciências (ABC) – agora, um grande matemático – me perdoe,  mas ele  não deveria ter cadeira cativa nesse conselho. O Brasil  deveria ter um  conselho de gente que está fazendo ciência mundo afora. E  não pessoas  que ocupam cargos burocráticos em associações de classe.  Deveria ser  gente com impacto no mundo. E pessoas jovens com a cabeça  aberta. Mas as  pessoas têm muita dificuldade de quebrar esses rituais.  Para entender a  que me refiro, basta participar de reuniões científicas  e acompanhar a  composição de uma mesa. Não há nada semelhante em lugar  nenhum do mundo:  perder três minutos anunciando autoridades e nomeando  quem está na  mesa. É coisa de cartório português da Idade Média.  Cientista é um  cidadão comum. Ele não tem de fazer toda essa firula  para apresentar o  que está fazendo. É um desperdício de energia, uma  pompa completamente  desnecessária. Muitas vezes, os pesquisadores  jovens não podem abrir a  boca diante dos cientistas mais velhos. Eu  ouço isso em todo o Brasil.  No meu departamento nos Estados Unidos, sou  professor titular há quase  doze anos. Minha voz não vale mais que a de  qualquer outro que acabou de  chegar. Qualquer um pode me interpelar a  qualquer momento. Qualquer um  pode reclamar de qualquer coisa. Qualquer  um pode fazer qualquer  pergunta. E ninguém me chama de professor  Nicolelis. Meu nome lá é  Miguel. Por quê? Porque o cientista é algo  comum na sociedade. O meu  estado (a Carolina do Norte) possui uma das  maiores densidades de PhD na  população dos EUA. Se você se comportar  como um pavão lá, vai se dar  mal. Todo mundo tem pelo menos um PhD.  Aqui, precisamos colocar a  molecada da periferia de Natal, de Rio  Branco e de Macapá na ABC, por  mérito. Às vezes, parece que existe uma  igreja chamada Ciência no País.  Se você não é um membro certificado,  ela é impenetrável. Minhas críticas  não são pessoais. Quero que o  Brasil seja uma potência científica para o  bem da humanidade. As  pessoas precisam ver que a juventude científica  brasileira está de mãos  atadas. Precisamos libertar este povo. Já estou  no terço final da  minha carreira científica. O que me resta é ajudar  essa molecada a  fazer o melhor.</p>
<p><strong>Você  tem uma opinião bastante crítica sobre a política  científica no País.  Mas, na eleição, manifestou apoio publicamente à  Dilma. Por quê?</strong></p>
<p>Porque  a outra opção era trágica. Basta olhar para o Estado de São  Paulo:  para a educação, a saúde e as universidades públicas. Não preciso  falar  mais nada. Eu adoro a USP, onde me formei. Mas a liderança que  temos  hoje na USP é terrível. O reitor da USP (João Grandino Rodas) é  uma  pessoa de pouca visão. Não chega nem perto da tradição das pessoas  que  passaram por aquele lugar. São Paulo acabou de perder um  investimento  de 150 milhões de francos suíços (cerca de R$ 270 milhões)  porque o  reitor da USP não tinha tempo para receber a delegação de mais  alto  nível já enviada pelo governo suíço ao Brasil. Mandaram o  pró-reitor de  pesquisa da universidade (Marco Antônio Zago) fazer uma  apresentação  para eles. Ninguém agradeceu a visita. Manifestei  oficialmente ao  professor Zago minha indignação como ex-aluno da USP. Um  dos  integrantes da delegação suíça doou um super-computador de US$ 20   milhões de dólares (cerca de R$ 34 milhões) para nosso instituto em   Natal. Chegou na semana passada e será um dos mais velozes do Brasil.   Não pagamos um centavo. Não há mais espaço para provincianismo na   ciência mundial. Nas reuniões que eu presenciei com comitês e comissões   de outros países, a tônica da Fapesp sempre foi assim: “Fora de São   Paulo não existe ciência que valha a pena investir”. Esse tipo de coisa é   muito mal visto pelos estrangeiros. Não há mais lugar para   regionalismo, preconceito… É ótimo para São Paulo ser responsável por   70% da produção científica do País, mas é muito ruim para o País, que   precisa democratizar o acesso à ciência. Não adianta dizer em reuniões   com emissários internacionais que São Paulo tem uma “relação amistosa”   com o Brasil, este outro País fora das fronteiras do Estado. Este   bairrismo não ajuda em nada. A Fapesp é uma jóia, um ícone nacional,   reconhecida no mundo inteiro. Mas isso não quer dizer que as últimas   administrações foram boas. Temos de ser críticos. Esta última   administração, em especial, foi muito ruim. A Fapesp está perdendo   importância. Veja só: a Science (no artigo publicado há algumas semanas   sobre a ciência no Brasil) não dedicou uma linha à Fapesp. Que  surpresas  você vê saindo da ciência de São Paulo? Acho que a matéria da  Science  foi uma boa chamada para acordar, para sair dos louros, descer  do salto  alto e ver o que podemos fazer com os R$ 500 milhões anuais  da Fapesp.  Ah, se eu tivesse um orçamento assim! Temos muito menos e  posso dizer  para o diretor-científico da Fapesp (Carlos Henrique de  Brito Cruz) que  nós saímos na Science. E ele tem condição de investir  nos melhores  centros de pesquisa do País.</p>
<p><strong>Como você avalia o governo Lula?</strong></p>
<p>Apoiei  e apoio incondicionalmente o presidente Lula porque vivemos  hoje o  melhor momento da história do País. A proposta global de inclusão  do  governo Lula – e espero que será a mesma com a Dilma – é aquela que  eu  acredito. Contudo, os detalhes devem ser corrigidos. Admiro   profundamente o ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende.   Tivemos grandes avanços como a criação dos INCTs e dos fundos setoriais.   Mas o ministro não enfrentou a estrutura. Talvez não pudesse… por não   ter condições práticas ou por fazer parte dela, por ter crescido nela.   Em oito anos, nunca fui chamado para dar uma opinião no MCT ou para   apresentar os resultados do projeto de Natal. Sei que outros cientistas,   melhores do que eu, também não foram chamados. É curioso. Mas fui   chamado pelo Ministério da Educação. O ministro (Fernando Haddad) é o   melhor já tivemos na história da República. Ele criou a infraestrutura   que será lembrada daqui a 50 anos como a reviravolta da educação   brasileira. Com o Haddad eu consigo conversar e nossa parceria está   dando resultados.</p>
<p><strong>O que você achou da escolha de Aloizio Mercadante para o MCT?</strong></p>
<p>Estou  curioso para saber qual é o currículo dele para gestão  científica.  Fiquei surpreso com a indicação, mas não o conheço. Não  tenho a mínima  ideia do seu grau de competência. Mas não fica bem para a  ciência  brasileira – um ministério tão importante – virar prêmio de  consolação  para quem perdeu a eleição. Não é uma boa mensagem. Mas  talvez seja bom  que o futuro ministro não seja um cientista de bancada,  alguém ligado à  comunidade científica. Assim, se ele tiver determinação  política,  poderá quebrar os vícios. O primeiro ministro da Ciência e  Tecnologia  (Renato Archer, que permaneceu no cargo de 1985 a 1987) não  era  cientista e foi talvez um dos melhores gestores que já tivemos. Ele   tinha consciência de que seu ministério era estratégico. O MCT   estabelece parcerias e tem impacto na ação de outros ministérios:   Educação, Saúde, Indústria e Comércio, Relações Exteriores, Agricultura,   Meio Ambiente… Hoje, boa parte do orçamento do ministério não é nem   executado. As agências de financiamento não têm uma rotina de chamadas.   Não podemos continuar como está.</p></blockquote>
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		<title>Linguagem e cérebro</title>
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		<pubDate>Sun, 09 Jan 2011 15:52:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dos Outros]]></category>
		<category><![CDATA[Benjamin Lee Whorf]]></category>
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		<description><![CDATA[Gostei muito do artigo abaixo. Fico pensando como nossa língua natural, o português, formata nosso pensamento e nossas percepções.
Não, não quero pensar nisso.
Peguei na FSP.
Na ponta da língua
GUY DEUTSCHER
tradução Paulo Migliacci
SETENTA ANOS atrás, em 1940, uma revista de ciência popular  publicou um artigo curto que deu origem a uma das modas intelec-?tuais  mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gostei muito do artigo abaixo. Fico pensando como nossa língua natural, o português, formata nosso pensamento e nossas percepções.</p>
<p>Não, não quero pensar nisso.</p>
<p>Peguei na <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il0901201104.htm" target="_blank">FSP</a>.</p>
<blockquote><p><span style="font-size: large;"><strong>Na ponta da língua</strong></span></p>
<p><strong>GUY DEUTSCHER</strong><br />
tradução <strong>Paulo Migliacci</strong></p>
<p><strong>SETENTA ANOS</strong> atrás, em 1940, uma revista de ciência popular  publicou um artigo curto que deu origem a uma das modas intelec-?tuais  mais influentes do século 20. À primeira vista, o artigo não prenunciava  a celebridade que viria a adquirir. Nem o título, &#8220;Ciência e  Linguística&#8221;, nem a revista, a &#8220;Technology Review&#8221;, do Instituto de  Tecnologia de Massachu-?setts (MIT), nos EUA, tinham nenhum tipo de  glamour. E o autor, um engenheiro químico que trabalhava para uma  companhia de seguros e ganhava algum dinheiro extra dando aulas de  antropologia na Universidade Yale, era um improvável candidato ao  estrelato intelectual.<br />
Benjamin Lee Whorf, no entanto, teve uma ideia faiscante acerca do poder  da linguagem sobre a mente, e sua prosa sedutora levou toda uma geração  a acreditar que nossa língua materna restringe o que somos capazes de  pensar.</p>
<p><strong>IMAGEM DA REALIDADE</strong> Whorf afirmava, em especial, que os idiomas  dos indígenas norte-americanos impunham a seus falantes uma imagem da  realidade completamente diferente da nossa, e que os falantes dessas  línguas não seriam capazes de compreender alguns de nossos conceitos  básicos, como o fluxo do tempo ou a distinção entre objetos (como  &#8220;pedra&#8221;) e ações (como &#8220;queda&#8221;).<br />
Por décadas, a teoria de Whorf deslumbrou tanto acadêmicos quanto o  público em geral. À sombra de suas ideias, estudiosos apresentaram uma  longa série de argumentos criativos sobre o suposto poder da linguagem,  que variavam da asserção de que &#8220;os idiomas indígenas americanos  conferiam a seus falantes uma compreensão instintiva do conceito de  Einstein sobre o tempo como uma quarta dimensão&#8221; à teoria de que &#8220;a  natureza da religião judaica era determinada pelo sistema de tempos  verbais do hebraico antigo&#8221;.<br />
A teoria de Whorf veio a despencar, sob o peso de fatos concretos e de  um sólido bom senso, quando surgiram sinais de que jamais houve provas  que sustentassem sua fantástica argumentação. A ?reação foi tão dura  que, por décadas, quaisquer tentativas de estudar a influência da língua  materna sobre nossos pensamentos ficaram relegadas aos rincões menos  respeitáveis e mais amalucados do mundo acadêmico.</p>
<p><strong>NOVAS PESQUISAS</strong> Passados 70 anos, porém, é chegada a hora de  superar o trauma com relação a Whorf. Nos últimos anos, novas pesquisas  revelaram que, ao aprendermos nossa língua materna, nós de fato  adquirimos determinados hábitos de pensamento que dão forma às nossas  expe-?riências de maneira significativa, volta e meia surpreendente.<br />
Whorf, como agora sabemos, cometeu muitos erros. O mais grave foi  presumir que a língua materna restringe a nossa mente e inibe a nossa  capacidade de pensar determinados pensamentos. O pilar de sua  argumentação era a alegação de que, se um idioma não tem palavra para  determinado conceito, as pessoas que o falam não são capazes de  compreender o conceito. Se um idioma não tem um tempo verbal futuro, por  exemplo, seus falantes não são capazes de compreender o nosso conceito  de tempo futuro.<br />
É quase incompreensível que essa linha de argumentação tenha conquistado  tamanho sucesso, dado o imenso volume de provas em contrário que surgem  a olhos vistos, por todos os lados. Se você perguntar, em inglês  perfeitamente normal, e no presente, &#8220;você vem amanhã?&#8221;, vai sentir que o  seu domínio do conceito de futuro se esvai? Os anglófonos que jamais  ouviram a palavra alemã &#8220;Schadenfreude&#8221; têm dificuldade para compreender  o conceito de &#8220;alegrar-se com o infortúnio alheio&#8221;?<br />
Ou então pense no seguinte: se o estoque de palavras disponíveis no seu  idioma determina quais conceitos você será capaz de compreender, como é  que você faria para aprender coisas novas?</p>
<p><strong>DIREÇÃO OPOSTA</strong> Já que não existe prova de que qualquer idioma  proíba seus falantes de pensar coisa alguma, é preciso olhar em direção  oposta para descobrir de que maneira nossa língua materna altera nossa  experiência do mundo.<br />
Por volta de 50 anos atrás, o renomado linguista Roman Jakobson  assinalou um fato crucial sobre as diferenças entre idiomas, por meio de  uma máxima incisiva: &#8220;Os idiomas diferem essencialmente naquilo que  devem transmitir, e não naquilo que podem transmitir&#8221;. A máxima nos dá a  chave para compreender a força verdadeira da língua materna: caso  idiomas diferentes influenciem nossa mente de modos diferentes, isso não  acontecerá por causa daquilo que nosso idioma nos permite pensar, e sim  por aquilo que ele costuma nos obrigar a pensar.</p>
<p><strong>AMBIGUIDADE</strong> Considere esse exemplo: suponha que eu lhe diga, em  inglês, que &#8220;I spent yesterday evening with a neighbor&#8221; [Passei a noite  de ontem com um(a) vizinho(a)].<br />
Você pode muito bem especular se a minha companhia era homem ou mulher e  eu posso lhe dizer educadamente que isso não é da sua conta.<br />
Mas se estivéssemos conversando em francês ou alemão, eu não teria o  privilégio de manter essa ambiguidade, porque seria obrigado a escolher,  pela gramática do idioma, entre &#8220;voisin&#8221; ou &#8220;voisine&#8221;, &#8220;Nachbar&#8221; ou  &#8220;Nachbarin&#8221;. Os idiomas me compeliriam a lhe   informar o sexo da pessoa  que me acompanhou na noite passada, ainda que eu considere que isso não  seja da sua conta.<br />
Isso não significa, evidentemente, que os falantes de inglês sejam  incapazes de perceber as diferenças entre noites passadas com vizinhos  ou vizinhas; significa que não precisam levar em conta o sexo de  vizinhos, amigos, professores e de uma série de outras pessoas cada vez  que são mencionados numa conversa, enquanto os falantes de outros  idiomas são obrigados a fazê-lo.</p>
<p><strong>CONTEXTO</strong> O inglês, por sua vez, nos obriga a especificar  determinados tipos de informação que, em outros idiomas, podem ser  deixados para o contexto. Se quero falar, em inglês, sobre um jantar com  alguém que mora na vizinhança, posso não especificar o sexo dessa  pessoa, mas preciso informar sobre o momento do evento: preciso decidir  se jantamos, se estávamos jantando, se íamos jantar e assim por diante.<br />
Já o chinês não obriga seus falantes a especificar dessa maneira o tempo  exato da ação, pois a mesma forma verbal pode ser usada para ações  presentes, passadas ou futuras. Uma vez mais, isso não significa que os  chineses sejam incapazes de compreender o conceito de tempo. Significa  que não precisam pensar no tempo ao descrever uma ação.<br />
Nos casos em que o seu idioma rotineiramente o obriga a especificar  certos tipos de informação, ele o força a prestar atenção a certos  detalhes e a certos aspectos da experiência nos quais falantes de outros  idiomas talvez não sejam forçados a pensar o tempo todo. E uma vez que  esses hábitos de fala são cultivados desde cedo, é natural que se tornem  hábitos mentais, que vão além do idioma e afetam experiências,  percepções, associações, sentimentos, memórias e orientação no mundo.<br />
Mas há provas de que isso aconteça na prática?</p>
<p><strong>GÊNEROS</strong> Voltemos aos gêneros. Línguas como espanhol, francês,  alemão e russo não só obrigam o falante a pensar no sexo de amigos e  vizinhos como associam os gêneros masculino ou feminino a objetos  inanimados, sob critérios muitas vezes arbitrários. O que, por exemplo,  existe de especialmente feminino na barba (&#8220;la barbe&#8221;) de um francês?  Por que a água russa é feminina, e por que ela se torna &#8220;ele&#8221; quando  colocam um saquinho de chá lá dentro?<br />
Mark Twain escreveu uma famosa diatribe sobre o comportamento errático  dos gêneros, reclamando das tulipas no feminino e das virgens no gênero  neutro, em &#8220;The Awful German Language&#8221; [A Horrível Língua Alemã]. Embora  Twain tenha argumentado que existe algo de particularmente perverso no  sistema de gêneros do idioma alemão, é o inglês, na verdade, que se  mostra incomum, ao menos entre as línguas europeias, por não tratar  tulipas e chás como masculinos ou femininos.<br />
Idiomas que tratam objetos inanimados como &#8220;ele&#8221; ou &#8220;ela&#8221; forçam seus  falantes a se referir a esses objetos como se fossem homens ou mulheres.  E, como poderia lhe dizer qualquer pessoa cuja língua materna faça  distinções de gênero, quando o hábito pega, é impossível abandoná-lo.  Quando falo inglês, refiro-me a uma cama em gênero neutro, dizendo que  &#8220;it&#8221; é bem macia; sendo porém o hebraico minha língua materna, sinto que  &#8220;ela&#8221; é bem macia, na verdade. &#8220;Ela&#8221; se mantém no feminino por todo o  caminho, dos pulmões à glote, e só se torna neutra ao chegar à ponta da  língua.</p>
<p><strong>ASSOCIAÇÕES</strong> Nos últimos anos, diversas experiências demonstraram  que os gêneros gramaticais são capazes de influenciar sentimentos e  associações dos falantes em relação aos objetos que os cercam. Na década  de 90, por exemplo, psicólogos compararam as associações entre falantes  de alemão e espanhol. Há muitos substantivos inanimados cujos gêneros  se invertem de um idioma para outro. No alemão, uma ponte (&#8220;die  Brücke&#8221;), por exemplo, é feminina, mas &#8220;el puente&#8221; é masculino em  espanhol; o mesmo vale para relógios, apartamentos, garfos, jornais,  bolsos, ombros, selos, ingressos, violinos, o sol, o mundo e o amor.<br />
Já para os alemães uma maçã é masculina, mas feminina para os espanhóis;  o mesmo vale para cadeiras, vassouras, estrelas, mesas, guerras, chuva e  lixo. Quando os falantes foram convidados a classificar os objetos  segundo características diversas, os espanhóis definiram pontes,  relógios e violinos como portadores de mais &#8220;propriedades másculas&#8221;,  como a força, enquanto os alemães tendiam a vê-los como mais esguios ou  elegantes. No caso de objetos como cadeiras ou mesas, que são &#8220;ele&#8221; no  alemão e &#8220;ela&#8221; em espanhol, o efeito se inverte.</p>
<p><strong>VOZES</strong> Em outra experiência, falantes de espanhol e francês foram  convidados a associar vozes humanas a diversos objetos que apareciam num  desenho animado. Quando os franceses viam a imagem de um garfo (&#8220;la  fourchette&#8221;), a maioria preferia atribuir ao objeto uma voz feminina; já  os espanhóis, para os quais &#8220;el tenedor&#8221; é masculino, preferiam lhe  conferir voz masculina e rouca.<br />
Mais recentemente, psicólogos conseguiram demonstrar que os &#8220;idiomas com  gêneros&#8221; imprimem na mente de seus usuários os traços de gênero dos  objetos com tamanha força que essas associações chegam a obstruir a  capacidade do falante para armazenar informações na memória.<br />
É evidente que nada disso significa que falantes de espanhol, francês ou  alemão sejam incapazes de compreender que objetos inanimados não têm  sexo biológico -uma mulher alemã raramente confunde seu marido com um  chapéu, e homens espanhóis não confundem a cama com algo que possa estar  deitado nela. Mesmo assim, uma vez que as conotações de gênero foram  impressas em mentes jovens e impressionáveis, farão com que falantes de  idiomas dotados de gêneros vejam o mundo inanimado por lentes coloridas  de associações emocionais que os anglófonos -aprisionados em seu  monocromático deserto de &#8220;its&#8221;- ignoram completamente.<br />
Será que os gêneros opostos de &#8220;ponte&#8221; em alemão e espanhol, por  exemplo, influenciaram de alguma forma os projetos de pontes na Espanha e  na Alemanha? Será que os mapas emocionais impostos pelo sistema de  gêneros têm maiores consequências comportamentais em nossa vida  cotidiana? Influenciarão preferências, modas, hábitos e gostos?<br />
No estado atual do conhecimento sobre o cérebro, não se trata de algo  que possa ser mensurado com facilidade num laboratório de psicologia.  Mas seria surpreendente que não influenciassem.</p>
<p><strong>LINGUAGEM ESPACIAL</strong> A área que viu surgirem as provas mais  notáveis da influência dos idiomas no pensamento é a linguagem espacial  -como descrevemos a orientação do mundo em redor.<br />
Suponha que você queira explicar a alguém como chegar à sua casa.  Poderia dizer &#8220;depois do sinal, vire na primeira à esquerda, depois na  segunda à direita; você vai dar numa casa branca, nossa porta é a da  direita&#8221;. Mas, em tese, também poderia dizer &#8220;depois do sinal, siga para  o norte, depois vire a leste no segundo cruzamento e, quando vir uma  casa branca a leste, a nossa será a porta sul&#8221;.<br />
São dois conjuntos de instruções que descrevem a mesma rota, mas  dependem de diferentes sistemas de coordenadas. O primeiro emprega  coordenadas &#8220;egocêntricas&#8221;, que dependem do nosso corpo: o eixo  direita-esquerda e o eixo frente-trás, disposto de maneira ortogonal com  relação ao outro. O segundo sistema emprega coordenadas geográficas  fixas, que não nos acompanham quando nos viramos.<br />
É útil adotar coordenadas geográficas para caminhar em campos abertos,  por exemplo, mas as coordenadas egocêntricas dominam completamente a  nossa fala quando descrevemos espaços em pequena escala. Não dizemos:  &#8220;Quando sair do elevador, caminhe para o sul e bata na segunda porta a  leste&#8221;.<br />
A razão para que o sistema egocêntrico seja tão dominante em nossa  linguagem é que parece mais fácil e mais natural. Afinal, sempre sabemos  onde ficam &#8220;frente&#8221; e &#8220;trás&#8221;. Não precisamos de mapa ou bússola para  compreender; basta sentir, pois as coordenadas egocêntricas se baseiam  diretamente em nosso corpo e nosso campo visual imediato.</p>
<p><strong>GUUGU YIMITHIRR</strong> Mas então foi descoberto um remoto idioma  aborígine australiano, o guugu yimithirr, do norte de Queensland, e com  ele a perturbadora constatação de que nem todos os idiomas se conformam  ao que invariavelmente tomamos como &#8220;natural&#8221;. O guugu yimithirr não usa  de modo algum as coordenadas egocêntricas. O antropólogo John Haviland  e, mais tarde, o linguista Stephen Levinson demonstraram que o guugu  yimithirr não emprega palavras como &#8220;direita&#8221;, &#8220;esquerda&#8221;, &#8220;frente&#8221; ou  &#8220;trás&#8221; para descrever a posição de objetos.<br />
Nos casos em que costumamos usar o sistema egocêntrico, o guugu  yimithirr emprega os pontos cardeais. Se a ideia é que você abra um  pouco mais de espaço no banco do carro, um falante de guugu yimithirr  dirá &#8220;vá um pouquinho para leste&#8221;. Para dizer onde exatamente deixou um  objeto em casa, ele dirá &#8220;deixei na ponta sul da mesa oeste&#8221;. Ou  alertará:<br />
&#8220;Cuidado com aquela formigona bem ao norte do seu pé&#8221;. Mesmo quando veem  um filme na TV, descrevem-no com base na orientação da tela. Se a TV  estivesse voltada para o norte e um homem na tela se aproximasse, eles  diriam que ele está &#8220;vindo rumo ao norte&#8221;.</p>
<p><strong>PESQUISA</strong> Quando essas peculiaridades do guugu yimithirr foram  descobertas, inspiraram um projeto de pesquisa em larga escala sobre a  linguagem espacial. E isso deixou claro que o guugu yimithirr não  representa uma ocorrência excepcional; idiomas que se valem  primordialmente de coordenadas geográficas estão espalhados mundo afora,  da Polinésia ao México, da Namíbia a Bali.<br />
Para nós, poderia parecer o cúmulo do absurdo que uma professora de  dança dissesse &#8220;erga sua mão norte e mova sua perna sul para o leste&#8221;.  Mas algumas pessoas não perceberiam a piada: Colin McPhee, musicólogo  canadense-americano que passou muitos anos em Bali na década de 30,  conta a história de um menino que mostrava grande talento para a dança.  Como não havia professores em sua aldeia, McPhee conseguiu que um  instrutor de outra aldeia aceitasse o garoto.<br />
Quando visitou a aldeia para verificar como estava indo o estudo, o  menino estava desanimado, e o professor, irritado. Quando instruído a  dar &#8220;três passos para o leste&#8221; ou &#8220;se curvar para o sudoeste&#8221;, ele não  sabia o que fazer. Em sua aldeia natal, instruções assim não seriam  problema, mas, como a paisagem na nova aldeia lhe era completamente  desconhecida, ele ficava desorientado e confuso.<br />
Por que o instrutor não empregou outro método de instrução? Ele  provavelmente responderia que dizer &#8220;dê três passos para a frente&#8221; ou  &#8220;curve-se para trás&#8221; seria o cúmulo do absurdo.</p>
<p><strong>FALAR E PENSAR</strong> Assim, idiomas diferentes nos fazem falar sobre o  espaço de jeitos muito diferentes. Mas será que isso realmente significa  que pensamos sobre o espaço de forma diferente? É preciso cautela,  pois, mesmo que uma língua não tenha uma palavra como &#8220;para trás&#8221;, isso  não significa necessariamente que seus falantes sejam incapazes de  compreender esse conceito.<br />
Em vez disso, devemos procurar as possíveis consequências daquilo que as  linguagens geográficas obrigam seus falantes a expressar. Devemos ficar  especialmente atentos a quais hábitos mentais podem ser desenvolvidos  pela necessidade de especificar direções geográficas o tempo todo.<br />
A fim de falar um idioma como o guugu yimithirr, a pessoa precisa saber  onde estão os pontos cardeais a cada momento de sua vida. É preciso ter  uma bússola mental que opere o tempo todo, dia e noite, sem pausas para o  almoço ou folgas em fins de semana, pois, de outra forma, a pessoa não  seria capaz de comunicar as informações mais básicas nem de compreender o  que os outros dizem.</p>
<p><strong>SENSO DE ORIENTAÇÃO</strong> Os falantes de idiomas geográficos ?realmente  parecem dotados de um senso de orientação quase sobre-humano. A  despeito das condições de visibilidade, estejam em mata fechada ou  planície aberta, em ambientes abertos ou cobertos, e até mesmo no  interior de cavernas, parados ou em movimento, eles têm um senso de  direção infalível.<br />
Não param para olhar o sol antes de dizer que &#8220;tem uma formiga ao norte  do seu pé&#8221;. Apenas sentem onde ficam o norte, o sul, o leste e o oeste,  da mesma forma que pessoas com ouvido absoluto sentem qual é cada nota,  sem que precisem calcular os intervalos.<br />
Não faltam histórias sobre o que a nós pareceriam incríveis prodígios de  orientação, mas que entre os falantes de idiomas geográficos são  corriqueiros. Uma delas conta sobre um falante do idioma tzeltal, do sul  do México, que teve os olhos vendados e foi girado em torno de si mesmo  por mais de 20 vezes, numa casa escura. Mesmo vendado e zonzo com os  giros, ele foi capaz de apontar sem hesitação os quatro pontos cardeais.</p>
<p><strong>INDÍCIOS</strong> Como isso funciona? A convenção da comunicação por meio  de coordenadas geográficas compele os falantes a, desde cedo, prestarem  atenção a indícios oferecidos pelo ambiente físico (a posição do sol, o  vento etc.) a cada segundo e a desenvolver memórias precisas sobre suas  mudanças de rumo a todo instante.<br />
Assim, a comunicação cotidiana num idioma geográfico oferece o exercício  mais intenso que se possa imaginar em termos de orientação geográfica  (estima-se que perto de 10% das palavras usadas numa conversa em guugu  yimithirr sejam &#8220;norte&#8221;, &#8220;sul&#8221;, &#8220;leste&#8221; e &#8220;oeste&#8221;, acompanhadas de  gestos manuais precisos).<br />
O hábito de manter consciência da direção geográfica é inculcado desde  muito cedo; estudos demonstram que, nessas sociedades, as crianças já  começam a utilizar direções geográficas aos dois anos, e, aos sete ou  oito, já dominam o sistema. Com um treino tão precoce e intenso, o  hábito logo se torna uma segunda natureza, inconsciente e involuntário.  Quando os falantes de guugu yimithirr foram questionados sobre como  sabiam onde ficava o norte, não foram capazes de explicar, assim como  você não seria capaz de explicar como sabe onde fica &#8220;atrás&#8221;.<br />
<strong>TEMPO</strong> Mas os efeitos de um idioma geográfico vão além, pois o  senso de orientação precisa se estender no tempo e ir além do presente  imediato. Se você fala uma língua do tipo guugu yimithirr, precisa  armazenar todas as suas lembranças tendo os pontos cardeais como parte  do quadro.<br />
Um falante de guugu yimithirr foi filmado enquanto contava aos amigos  uma história de sua juventude, quando seu barco virou em águas  infestadas de tubarões. Ele e uma pessoa mais velha foram apanhados por  uma tempestade, e o barco virou. Os dois saltaram na água e conseguiram  retornar à costa, depois de nadar por uns cinco quilômetros. Ao chegar,  descobriram que o missionário para quem trabalhavam estava mais  preocupado com a perda do barco do que aliviado com o salvamento  milagroso.<br />
Além do teor dramático, o mais notável na história é ter sido recordada  inteiramente com base em orientações geográficas: o narrador saltou para  a água pelo lado oeste do barco, e seu companheiro pelo lado leste;  viram um grande tubarão nadando ao norte; e por aí vai.<br />
Teriam os pontos cardeais sido acrescentados para aquela narrativa  específica? Pois bem, por acaso, a mesma pessoa foi filmada anos mais  tarde, contando a mesma história. Os pontos cardeais bateram  precisamente nos dois relatos. Ainda mais notáveis eram os espontâneos  gestos manuais que acompanhavam a história. Por exemplo, a direção em  que o barco virou foi indicada por um gesto na orientação geográfica  certa, independentemente da direção em que o narrador estivesse nas duas  ocasiões em que foi filmado.</p>
<p><strong>ROTAÇÕES</strong> Experiências psicológicas demonstraram também que, sob  certas circunstâncias, os falantes de idiomas como o guugu yimithirr  chegam a lembrar &#8220;a mesma realidade&#8221; de modo diferente do nosso. Há  debates candentes sobre a interpretação de algumas dessas experiências,  mas uma constatação que parece convincente é a de que, enquanto somos  treinados a ignorar as rotações direcionais ao guardar uma história na  memória, os falantes de idiomas geográficos são treinados a não fazê-lo.<br />
Isso pode ser compreendido ao imaginar que você vai viajar na companhia  de um falante de um idioma geográfico e que os dois vão se hospedar num  hotel de uma grande rede. O seu amigo está no apartamento em frente ao  seu e, se você for ao apartamento dele, verá uma réplica exata: a mesma  porta de banheiro à esquerda, o mesmo guarda-roupa com porta espelhada à  direita, o mesmo quarto de dormir, com a cama à esquerda, uma  escrivaninha idêntica na parede à direita, em cima dela a mesma TV, no  canto esquerdo, e o telefone, no canto direito. Ou seja, você viu o  mesmo quarto duas vezes.<br />
Mas quando o seu amigo entra no seu quarto, vê algo bem diferente, pois  tudo está invertido em sentido norte-sul. No quarto dele, a cama está ao  norte e, no seu, está ao sul; o telefone, no seu quarto, fica a oeste, e  o do amigo, a leste; e por aí vai. Enquanto você vê e se lembra do  mesmo quarto duas vezes, o falante de um idioma geográfico vê e se  lembra de dois quartos diferentes.</p>
<p><strong>GRADE</strong> Não é fácil para nós conceber como os falantes de guugu  yimithirr experimentam o mundo, com uma grade de pontos cardeais  sobreposta a cada imagem mental e a cada porção de memória gráfica.  Tampouco é fácil especular de que modo os idiomas geo-?gráficos afetam  outras áreas de experiência que não a orientação espacial -por exemplo,  se influenciam o senso de identidade de seus falantes, ou se resultam  numa visão de mundo menos egocêntrica.<br />
Mas um indício é revelador: se você vir um falante de guugu yimithirr  apontando para o próprio peito, naturalmente vai presumir que deseja  chamar a atenção para si. Na verdade, ele estará indicando um ponto  cardeal que está às suas costas. Enquanto nós estamos sempre no centro  do mundo e jamais nos ocorreria que apontar em nossa própria direção  pudesse significar outra coisa além de chamar a atenção para nós mesmos,  um falante de guugu yimithirr aponta em sua própria direção para  indicar aquilo que está atrás dele, como se ele fosse ar, e sua  existência, irrelevante.</p>
<p><strong>CORES</strong> De que outras formas o idioma que falamos poderia  influenciar nossa experiência do mundo? Recentemente, uma série de  engenhosos experimentos demonstrou que percebemos até mesmo as cores  pelo filtro de nossa língua materna.<br />
Há variações radicais na maneira pela qual os idiomas dividem o espectro  da luz visível; em inglês, por exemplo, azul e verde são consideradas  cores distintas, mas em muitos idiomas são vistas como tons de uma mesma  cor.<br />
E o fato é que as cores que nosso idioma nos obriga a tratar como  distintas podem refinar nossa sensibilidade puramente visual a  determinadas diferenças de cor na realidade, de modo que nosso cérebro  seja treinado a exagerar a distinção entre nuanças de cor, caso tenham  nomes diferentes em nosso idioma.<br />
Por mais estranho que pareça, a experiência de contemplar um quadro de  Chagall pode depender, em certa medida, de o nosso idioma ter ou não uma  palavra para o azul.</p>
<p><strong>MATSES</strong> Em breve os pesquisadores poderão também iluminar o  impacto da linguagem sobre áreas mais sutis de percepção. Por exemplo,  alguns idiomas, como o matses, do Peru, obrigam seus falantes -feito  rigorosos advogados- a especificar exatamente de que maneira vieram a se  informar sobre os fatos que estão testemunhando.<br />
Você não pode simplesmente dizer que &#8220;um animal passou por aqui&#8221;. É  preciso especificar, usando uma forma verbal diferente, caso tenha sido  por experiência direta (você viu o animal passar), inferência (você viu  pegadas), conjectura (animais costumam passar por ali naquele horário),  ouvir falar ou coisa parecida. Se uma afirmação for feita com a &#8220;cadeia  evidenciária&#8221; incorreta, será tomada como mentira.<br />
Assim, por exemplo, se você pergunta a um homem matse quantas mulheres  ele tem, a menos que elas estejam em seu campo de visão no momento, a  resposta virá no passado, e terá forma semelhante a &#8220;eram duas na última  vez que verifiquei&#8221;.<br />
Afinal de contas, se as mulheres não estiverem presentes, ele não pode  ter certeza absoluta de que não morreram ou fugiram desde a última vez  que as viu, mesmo que apenas cinco minutos antes. Portanto, não pode  testemunhar a situação como fato comprovado, em tempo presente.</p>
<p><strong>ESTUDOS EMPÍRICOS</strong> Será que a necessidade de pensar constantemente  sobre epistemologia, de maneira tão cuidadosa e sofisticada, influencia  as perspectivas de vida dos falantes do idioma ou seu senso de verdade e  causalidade? Quando nossas ferramentas experimentais forem menos  brutas, questões serão levadas a estudos empíricos.<br />
Por muitos anos, a língua materna foi tratada como um &#8220;presídio&#8221; que  restringia a capacidade de raciocinar. Quando se tornou claro que tais  alegações não tinham fundamento, passou-se a considerar que pessoas de  todas as culturas pensam genericamente da mesma maneira.<br />
É um erro, porém, superestimar a importância do raciocínio abstrato em  nossas vidas. Afinal, quantas decisões tomamos a cada dia com base em  lógica dedutiva, comparadas às decisões que tomamos por instinto,  intuição, emoção, impulso ou questões práticas?<br />
Os hábitos mentais que nossa cultura nos instila desde a infância  definem nossa orientação no mundo e nossa resposta emocional aos objetos  com que deparamos, e suas consequências provavelmente vão muito além  daquilo que foi demonstrado de modo experimental até agora.<br />
Podemos não saber ainda como medir essas consequências diretamente, ou  como avaliar sua contribuição para os desentendimentos políticos e  culturais. Mas, como primeiro passo para nos compreendermos uns aos  outros, seria melhor não fingirmos que pensamos todos da mesma forma.<br />
<strong></strong></p></blockquote>
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		<title>Vassily Grossman</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Dec 2010 18:20:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Orelha de Livro]]></category>
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Quem me conhece sabe que sou obcecado pela segunda guerra mundial e pelo totalitarismo. Tal mania é fruto direto da mesma compulsão paterna pelo tema e, também, pela mesma ruminação eterna de Fernando em relação à discussão (inclusive, o doido de pedra já fez até um documentário sobre a segunda guerra mundial). Creio que a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/12/vie-destin-vassili-grossman.jpeg"><img class="size-full wp-image-5768 aligncenter" title="vie-destin-vassili-grossman" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/12/vie-destin-vassili-grossman.jpeg" alt="" width="320" height="529" /></a></p>
<p>Quem me conhece sabe que sou obcecado pela segunda guerra mundial e pelo totalitarismo. Tal mania é fruto direto da mesma compulsão paterna pelo tema e, também, pela mesma ruminação eterna de Fernando em relação à discussão (inclusive, o doido de pedra já fez até um documentário sobre a segunda guerra mundial). Creio que a motivação do responsável pela metade do meu genótipo seja um tanto transcendental; talvez, tenha um tropismo repetitivo pela questão do Mal. Minha motivação, muitas vezes, além de ética, é política &#8212; como seria uma esquerda pós-totalitária? Talvez, a de Fernando passe, também, por esse problema político. De todo modo, lemos tanto sobre o assunto que, invariavelmente, temos pouco tempo para debater. Além do mais, a conversa tem ruído.</p>
<p>_Tenho um belo nariz – diz Fernando.</p>
<p>Não adianta conversar sério sobre totalitarismo, pois sempre aparece com esse papo. Isso me irrita.</p>
<p>_Pela envergadura, deve ser mouro.<br />
_Melhor do que ter um nariz esparramado de um sarraceno.<br />
_Não, na verdade, sou um italiano.<br />
_De descendência sarracena, certamente.<br />
_E a tataravó de tua tataravó concedia livremente para os mouros na Espanha. A vaca dos Navarro.<br />
_Pior foi o tataravô de teu tataravô, a mocinha Perruso dos sarracenos.<br />
_Coisete!<br />
_Sarna!</p>
<p>A discussão, como vemos, foge do tema, já que temos sempre contas a ajustar.</p>
<p>Atualmente, leio um romance de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Vasily_grossman" target="_blank">Vassili Grossman</a>: Vie et destin, escrito nos anos 1960, em plena URSS. É pauleira. Você lê, baixa a cabeça; lê, baixa a cabeça. O livro desmonta Stalingrado; logo, Stalingrado, rapaz. O romance seria a segunda parte de outro chamado “Pour une juste cause”, de 1952.</p>
<p>(Li nalgum lugar que &#8220;Vie et destin&#8221; seria traduzido para o brasileiro)</p>
<p>Mas quem é o cabra?</p>
<p>Sua família é de origem judaica. Apesar da descendência, Grossman não é crente nem fala idish. Na verdade, é um soviético, isto é, um estalinista. Produz realismo socialista e é um escritor menor.</p>
<p>Inicialmente, estuda em Kiev, depois, em Moscou, e se forma como engenheiro químico. Casa e pede divórcio, em 1932. Recebe o apadrinhamento de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Gorki" target="_blank">Gorki </a> e abandona a carreira de engenheiro, assumindo a de escritor. Talvez, por causa do apadrinhamento, sobrevive aos acasos macabros da política soviética dos anos trinta, quando todos, stalinistas ou não, podiam ser acusados de complô contra o regime.</p>
<p>Assim que os nazistas invadem a URSS, Grossman entra como voluntário, combatendo no front, e <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2510548&amp;sid=711223167121224412978120646&amp;k5=19FAEAD0&amp;uid=" target="_blank">vira jornalista do exército vermelho</a>. Os massacres dos judeus na Ucrânia causam uma profunda nódoa na sua alma. Começa a coletar dados sobre a <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Shoa" target="_blank">Shoa</a>. Participa da batalha de Stalingrado (a maior batalha de todos os tempos). Seu testemunho, como jornalista, transformam-no em herói nacional (talvez, por isso, tenha sido poupado dos posteriores expurgos do regime soviético). Segue o exército vermelho na ofensiva contra a Alemanha. É o primeiro homem a escrever sobre os campos de extermínio, ao entrar em Treblinka em julho de 44. Seu escrito “O Inferno de Treblinka” (Треблинский ад) é um testemunho que ficará como memória da capacidade humana de resistir a tragédias. Logo após, descobre que sua mãe fora morta nas primeiras semanas da invasão nazista na Ucrânia, assassinada em Berditchev, ela e alguns milhares de judeus soviéticos.</p>
<p>Retornando da guerra, Grossman volta “judeu”, horrorizado com o Holocausto, mas também com o tratamento dado às minorias étnicas pelos estalinistas. Começa a escrever textos críticos ao regime soviético; por isso, passa a ser hostilizado pela impressa oficial. A face antissemita do estalinismo fica clara durante a repressão ao dito “complô das batas brancas”, no qual foram acusados vários médicos soviéticos, quase todos judeus, que teriam assassinado dirigentes da cúpula do regime.</p>
<p>Em 1962, Grossman envia <em>Vie et Destin</em> à revista Znamia. Vadim Kojevnikov, o editor, percebeu logo que estava diante de uma bomba. Num regime totalitário, diante de uma situação de tal monta, o editor só tinha uma opção: lavar as mãos, evitando qualquer contaminação contra-revolucionária. Assim, enviou a obra para o famoso bairro <a href="http://fr.wikipedia.org/wiki/Loubianka_%28immeuble%29" target="_blank">Loubianka</a>, onde estava a sede da KGB. Mas não se pode lavar as mãos, numa ditadura, sem graves consequencias, pois o efeito é o mesmo da delação; logo, a delação, esse mecanismo implacável, desconstruído peça por peça pelo próprio Grossman. E foram essas mãos lavadas que produziram a cena cotidiana do totalitarismo: dois agentes do KGB apreendendo todo o material relacionado à feitura de Vie et Destin (cópias do livro e mesmo os rascunhos). Grossman não foi preso, e nem precisava, pois o golpe foi duro demais: morreria de câncer um ano depois. Era um sobrevivente, virou um espírito livre, mas não resistiu, no fundo, à apreensão da obra de sua vida. Foi degolado, como confessaria a um amigo. Há uma ironia no fim de sua resistência: sobrevive ao estalinismo, mas não ao<em> </em>degelo de Kruschev.</p>
<p>Confiscaram um romance. Medo de um romance? Há uma diferença, aqui: sua obra foi confiscada e não apenas censurada. A diferença diz muito. O confisco impede as mil formas de enganar a censura. Um Pasternak (<a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=111507&amp;sid=711223167121224412978120646&amp;k5=2EE19B5B&amp;uid=" target="_blank">Doutor Jivago</a>), por exemplo, tinha sido censurado e não confiscado. A censura não impediu a publicação do livro noutros lugares. Ela não elimina a obra, apenas a cala, muitas vezes provisoriamente. O confisco pode eliminar a obra e substituí-la pelo esquecimento. É mais grave. É difícil contorná-lo. Um exemplo é outro confisco famoso: Soljenítsin (Arquipélago Goulag), em 1973. Mas entendo o medo do Estado em relação ao Arquipélago: o romance é, na verdade, uma investigação literária, apresentando personagens reais, revelando nomes de vítimas e de carrascos. O romance de Soljenítsin é uma <em>exposição</em>. Sua ficção subordina-se ao real.</p>
<p>O romance de Grossman é uma ficção, mostrando raramente personagens reais. Ficções não derrubam regimes; no máximo, incomodam certo <em>status quo</em>. Dante não balançou, com seus poemas, o Papa, nem os Gibelinos, nem os Guelfos. Zola desestabilizou o Estado francês com o “Eu acuso” e não com seus romances. Ao confiscá-la, o Estado soviético colocou a obra literária de Grossman no mesmo nível dos segredos de Estado (o máximo de realidade de um regime totalitário). No totalitarismo, a realidade não pode revelar a verdade, donde a necessidade de se fazer da primeira uma ficção e da segunda, uma mentira. A censura e o confisco de uma obra são a suprema “homenagem” do Estado Absoluto.</p>
<p>Por que o medo? Porque a mística de Stalingrado poupa o regime soviético. Naquela batalha, estava em jogo a liberdade da humanidade. E o regime estava lá numa irmandade com o povo, lutando contra um inimigo comum. Qual é o significado de Stalingrado para Grossman? Continua apoteótico, mas revela uma tragédia: significa o encontro militar de dois monstros: o nazismo e o comunismo totalitário. São siameses, embora fratricidas. Entre as duas gigantescas pinças, está o povo – lutando pela liberdade? Sim, mas também pela sua sobrevivência. A tragédia do povo é a significação de Stalingrado: luta-se pela liberdade e pela vida, espremido entre duas encarnações da escravidão e da morte. Qual liberdade, afinal de contas? Não é a do soldado, nem da pessoa comum, mas é a do humano, abstração do Outro, que está lá como fantasma nas ruas destruídas, como potência do horror e dos escombros.</p>
<p>Não há evasão possível em Stalingrado.</p>
<p>No romance, aparece a relação louca entre Estado e indivíduo. A individualidade tem a leveza e a fragilidade da pluma. O Estado é uma máquina de moer gente. Talvez, a única vantagem da pessoa, em relação ao Estado, seja sua consciência absoluta de que vai morrer. A ditadura implacável não sabe que desaparecerá num dia prosaico ou glorioso. Pensa que é eterna. Não há vida na eternidade, muito menos esperança, essa mãe do desespero de morrer. Na luta pela sobrevivência, as pessoas, mesmo sem querer, preservam alguma esperança. A vida continua, justamente, nos gestos imperceptíveis que ocorrem no cotidiano da guerra. São atitudes que sustentam as pequenas bases da moral humana – a mais simples de todas: a bondade. Em Stalingrado, a sobrevivência amalgama solidariedade e bondade. Sobre-viver, nessa condição impossível, é um ato de heroísmo. E, como tal, é fazer o básico da resistência: ajudar os outros.</p>
<p>Entende-se, agora, o medo do regime soviético. Grossman produziu, no romance sobre Stalingrado, uma hipótese filosófica sobre a encarnação do Mal. Até então, ninguém tinha esfregado uma metafísica do Mal na cara da Besta, e de dentro do seu próprio ventre; além do mais, utilizando a mãe de todas as batalhas.</p>
<p>O que é uma metafísica do Mal encarnada num romance? Uma tragédia moderna.</p>
<p style="text-align: center;">(&#8230;)</p>
<p>Ainda Grossman, até como aperitivo de &#8220;Vie et destin&#8221;, transcrevo algumas observações feitas no seu  livro “Um escritor na guerra”:</p>
<blockquote><p><span style="font-size: medium;">“2 de maio.O dia da capitulação de Berlim. É difícil descrevê-lo. Uma  monstruosa concentração, impressões. Fogo e incêndios, fumaça, fumaça,  fumaça. [....] Este dia nublado, frio e chuvoso é sem dúvida o dia da  ruína da Alemanha.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">[...] Corpos esmagados e amassados como tubos.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">[...]O inimigo ofereceu sua rendição  durante a noite, pelo rádio. O general, comandante da guarnição (Helmuth  Weidling) deu a ordem.” Soldados! “Hitler, a quem vocês deram seu  juramento, cometeu suicídio.”</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">[...] Testemunhei os últimos disparos em Berlim. Grupos da SS em um  prédio às margens do Spree, não muito longe do Reichstag, recusaram-se a  se render.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Reichstag. Alto, poderoso. Soldados estão fazendo fogo no salão.[...]</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Pessoas dizem que ele (Goebbels) deu ordens para envenenar sua  família e se matou. Ontem ele se matou com um tiro. Seu corpo pequeno,  queimado, está estendido aqui também – a perna artificial, gravata  branca. [...]</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">O portão de Brandenburgo[...] No espaço( do arco), como em uma  moldura, pode-se ver o impressionante panorama de Berlim em chamas. Até  mesmo eu nunca vi uma imagem dessas, embora eu tenha visto milhares de  incêndios. [...]</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Foi na Alemanha, particularmente aqui em Berlim, que nossos soldados  realmente começaram a se perguntar por que os alemães nos atacaram tão  repentinamente. Por que os alemães precisavam dessa guerra terrível e  injusta? Milhões dos nossos homens viram agora as ricas fazendas do  leste da Prússia, agricultura altamente organizada, os galpões de  concreto para os animais, salas espaçosas, tapetes, armários cheios de  roupa.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Milhões dos nossos soldados viram estradas bem construídas ligando  uma vila a outra e as auto-estradas alemãs [...] Nossos soldados viram  nos subúrbios as casas de dois andares, com eletricidade, gás, banheiros  e jardins belamente cultivados. Nossa gente viu os palacetes da rica  burguesia de Berlim, o luxo inacreditável de castelos, propriedades e  mansões. E milhares de soldados repetem essas perguntas com raiva quando  olham a seu redor na Alemanha- “Mas por que vieram atrás de nós? O que  eles queriam?”</span></p></blockquote>
<p>Acho impressionante essa pergunta: o que eles queriam?</p>
<p><span style="font-size: medium;"><br />
</span></p>
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		<title>Entrevista sobre o crime no Rio</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Nov 2010 17:00:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[corrupção]]></category>
		<category><![CDATA[José Cláudio Alves]]></category>
		<category><![CDATA[narcotráfico]]></category>
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		<description><![CDATA[Cacetada, entrevista radical sobre o tráfico no Rio. Muitas vezes, o pessimismo da inteligência chega a ser embrutecedor. Caso seja verdade, sei não&#8230; Lendo o que o Tio Rei está escrevendo, as posições convergem &#8212; estamos diante do velho caso &#8220;os extremos tocam-se nalguma esquina ideológica&#8221;?
Do Vi o Mundo
José Cláudio Alves: A reorganização da estrutura [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cacetada, entrevista radical sobre o tráfico no Rio. Muitas vezes, o pessimismo da inteligência chega a ser embrutecedor. Caso seja verdade, sei não&#8230; Lendo o que o <a href="http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/" target="_blank">Tio Rei</a> está escrevendo, as posições convergem &#8212; estamos diante do velho caso &#8220;os extremos tocam-se nalguma esquina ideológica&#8221;?</p>
<blockquote><p><span style="font-size: medium;"><strong>Do Vi o Mundo</strong></span></p>
<p><span style="font-size: medium;"><strong><a href="http://www.viomundo.com.br/politica/jose-claudio-alves-a-reorganizacao-da-estrutura-do-crime.html" target="_blank">José Cláudio Alves: A reorganização da estrutura do crime</a></strong></span></p>
<p><span style="font-size: medium;"><strong><a href="http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=38721" target="_blank">Uma guerra pela regeografização do Rio de Janeiro. Entrevista especial com José Cláudio Alves</a></strong></span></p>
<p><span style="font-size: medium;">do site do Instituto Humanitas Unisinos</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">&#8220;O que está por trás desses conflitos urbanos é uma reconfiguração da  geopolítica do crime na cidade&#8221;. Assim descreve o sociólogo José  Cláudio Souza Alves a motivação principal dos conflitos que estão se  dando entre traficantes e a polícia do Rio de Janeiro. Na entrevista a  seguir, concedida à IHU On-Line por telefone, o professor analisa a  composição geográfica do conflito e reflete as estratégias de  reorganização das facções e milícias durante esses embates. &#8220;A mídia nos  faz crer – sobretudo a Rede Globo está empenhada nisso – que há uma  luta entre o bem e o mal. O bem é a segurança pública e a polícia do Rio  de Janeiro e o mal são os traficantes que estão sendo combatidos. Na  verdade, isso é uma falácia. Não existe essa realidade. O que existe é  essa reorganização da estrutura do crime&#8221;, explica.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Souza Alves é graduado em Estudos Sociais pela Fundação  Educacional de Brusque. É mestre em sociologia pela Pontifícia  Universidade Católica do Rio de Janeiro e doutor, na mesma área, pela  Universidade de São Paulo. Atualmente, é professor na Universidade  Federal Rural do Rio de Janeiro e membro do Iser Assessoria.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Confira a entrevista.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;"><a name="more"></a>IHU On-Line – O que está por trás desses conflitos atuais no Rio de Janeiro? </span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Alves – O que está por trás desses conflitos urbanos é  uma reconfiguração da geopolítica do crime na cidade. Isso já vem se  dando há algum tempo e culminou na situação que estamos vivendo  atualmente. Há elementos presentes nesse conflito que vêm de períodos  maiores da história do Rio de Janeiro, um deles é o surgimento das  milícias que nada mais são do que estruturas de violência construídas a  partir do aparato policial de forma mais explícita. Elas, portanto,  controlarão várias favelas do RJ e serão inseridas no processo de  expulsão do Comando Vermelho e pelo fortalecimento de uma outra facção  chamada Terceiro Comando. Há uma terceira facção chamada Ada, que é um  desdobramento do Comando Vermelho e que opera nos confrontos que vão  ocorrer junto a essa primeira facção em determinadas áreas. Na verdade, o  Comando Vermelho foi se transformando num segmento que está perdendo  sua hegemonia sobre a organização do crime no Rio de Janeiro. Quem está  avançando, ao longo do tempo, são as milícias em articulação com o  Terceiro Comando.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Um elemento determinante nessa reconfiguração foi o surgimento das  UPPs a partir de uma política de ocupação de determinadas favelas,  sobretudo da zona sul do RJ. Seus interesses estão voltados para a  questão do capital do turismo, industrial, comercial, terceiro setor, ou  seja, o capital que estará envolvido nas Olimpíadas. Então, a expulsão  das favelas cariocas feita pelas UPPs ocorre em cima do segmento do  Comando Vermelho. Por isso, o que está acontecendo agora é um rearranjo  dessa estrutura. O Comando Vermelho está indo agora para um confronto  que aterroriza a população para que um novo acordo se estabeleça em  relação a áreas e espaços para que esse segmento se estabeleça e  sobreviva.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">IHU On-Line – Mas, então, o que está em jogo?</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Alves – Não está em jogo a destruição da estrutura do  crime, ela está se rearranjando apenas. Nesse rearranjo quem vai se  sobressair são, sobretudo, as milícias, o Terceiro Comando – que vem  crescendo junto e operando com as milícias – e a política de segurança  do Estado calcada nas UPPs – que não alteraram a relação com o tráfico  de drogas. A mídia nos faz crer – sobretudo a Rede Globo está empenhada  nisso – que há uma luta entre o bem e o mal. O bem é a segurança pública  e a polícia do Rio de Janeiro e o mal são os traficantes que estão  sendo combatidos. Na verdade, isso é uma falácia. Não existe essa  realidade. O que existe é essa reorganização da estrutura do crime.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">A realidade do RJ exige hoje uma análise muito profunda e complexa e  não essa espetacularização midiática, que tem um objetivo: escorraçar um  segmento do crime organizado e favorecer a constelação de outra  composição hegemônica do crime no RJ.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">IHU On-Line – Por que esse confronto nasceu na Vila Cruzeiro?</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Alves – Porque a partir dessa reconfiguração que foi  sendo feita das milícias e das UPPs (Unidades de Policiamento  Pacificadoras), o Comando Vermelho começou a estabelecer uma base  operacional muito forte no Complexo do Alemão. Este lugar envolve um  conjunto de favelas com um conjunto de entradas e saídas. O centro desse  complexo é constituído de áreas abertas que são remanescentes de matas.  Essa estruturação geográfica e paisagística daquela região favoreceu  muito a presença do Comando Vermelho lá. Mas se observarmos todas as  operações, veremos que elas estão seguindo o eixo da Central do Brasil e  Leopoldina, que são dois eixos ferroviários que conectam o centro do RJ  ao subúrbio e à Baixada Fluminense. Todos os confrontos estão ocorrendo  nesse eixo.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">IHU On-Line – Por que nesse eixo, em específico?</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Alves – Porque, ao longo desse eixo, há várias  comunidades que ainda pertencem ao Comando Vermelho. Não tão fortemente  estruturadas, não de forma organizada como no Complexo do Alemão, mas  são comunidades que permanecem como núcleos que são facilmente  articulados. Por exemplo: a favela de Vigário Geral foi tomada pelo  Terceiro Comando porque hoje as milícias controlam essa favela e a de  Parada de Lucas a alugam para o Terceiro Comando. Mas ao lado, cerca de  dois quilômetros de distância dessa favela, existe uma menor que é a  favela de Furquim Mendes, controlada pelo Comando Vermelho. Logo, as  operações que estão ocorrendo agora em Vigário Geral, Jardim América e  em Duque de Caxias estão tendo um núcleo de operação a partir de Furquim  Mendes. O objetivo maior é, portanto, desmobilizar e rearranjar essa  configuração favorecendo novamente o Comando Vermelho.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Então, o combate no Complexo do Alemão é meramente simbólico nessa  disputa. Por isso, invadir o Complexo do Alemão não vai acabar com o  tráfico no Rio de Janeiro. Há vários pontos onde as milícias e as  diferentes facções estão instaladas. O mais drástico é que quem vai  morrer nesse confronto é a população civil e inocente, que não tem  acesso à comunicação, saúde, luz&#8230; Há todo um drama social que essa  população vai ser submetida de forma injusta, arbitrária, ignorante,  estúpida, meramente voltada aos interesses midiáticos, de venda de  imagens e para os interesses de um projeto de política de segurança  pública que ressalta a execução sumária. No Rio de Janeiro a execução  sumária foi elevada à categoria de política pública pelo atual governo.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">IHU On-Line – Em que contexto geográfico está localizado a Vila Cruzeiro?</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Alves – A Vila Cruzeiro está localizada no que nós  chamamos de zona da Leopoldina. Ela está ao pé do Complexo do Alemão, só  que na face que esse complexo tem voltada para a Penha. A Penha é um  bairro da Leopoldina. Essa região da Leopoldina se constituiu no eixo da  estrada de ferro Leopoldina, que começa na Central do Brasil, passa por  São Cristóvão e dali vai seguir por Bom Sucesso, Penha, Olaria, Vigário  Geral – que é onde eu moro e que é a última parada da Leopoldina e aí  se entra na Baixada Fluminense com a estação de Duque de Caxias.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Esse &#8220;corredor&#8221; foi um dos maiores eixos de favelização da cidade do  Rio de Janeiro. A favelização que, inicialmente, ocorre na zona sul não  encontra a possibilidade de adensamento maior. Ela fica restrita a  algumas favelas. Tirando a da Rocinha, que é a maior do Rio de Janeiro,  os outros complexos todos – como o da Maré e do Alemão – estão  localizados no eixo da zona da Leopoldina até Avenida Brasil. A  Leopoldina é de 1887-1888, já a Avenida Brasil é de 1946. É nesse prazo  de tempo que esse eixo se tornou o mais favelizado do RJ. Logo, a Vila  Cruzeiro é apenas uma das faces do Complexo do Alemão e é a de maior  facilidade para a entrada da polícia, onde se pode fazer operações de  grande porte como foi feita na quinta-feira, dia 25-11. No entanto, isso  não expressa o Complexo do Alemão em si.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">A Maré fica do outro lado da Avenida Brasil. Ela tem quase 200 mil  habitantes. Uma parte dela pertence ao Comando Vermelho, a outra parte é  do Terceiro Comando. Por que não se faz nenhuma operação num complexo  tão grande ou maior do que o do Alemão? Ninguém cita isso! Por que não  se entra nas favelas onde o Terceiro Comando está operando? Porque o  Terceiro Comando já tem acordo com as milícias e com a política de  segurança. Por isso, as atuações se dão em cima de uma das faces mais  frágeis do Complexo do Alemão, como se isso fosse alguma coisa  significativa.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">IHU On-Line – Estando a Vila Cruzeiro numa das faces do Complexo, por que o Alemão se tornou o reduto de fuga dos traficantes?</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Alves – A estrutura dele é muito mais complexa para que  se faça qualquer tipo de operação lá. Há facilidade de fuga, porque há  várias faces de saída. Não é uma favela que a polícia consegue cercar.  Mesmo juntando a polícia do RJ inteiro e o Exército Nacional jamais se  conseguiria cercar o complexo. O Alemão é muito maior do que se possa  imaginar. Então, é uma área que permite a reorganização e reestruturação  do Comando Vermelho. Mas existem várias outras bases do Comando  Vermelho pulverizadas em toda a área da Leopoldina e Central do Brasil  que estão também operando.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Mesmo que se consiga ocupar todo o Complexo do Alemão, o Comando  Vermelho ainda tem possibilidades de reestruturação em outras pequenas  áreas. Ninguém fala, por exemplo, da Baixada Fluminense, mas Duque de  Caxias, Nova Iguaçu, Mesquita, Belford Roxo são áreas que hoje estão  sendo reconfiguradas em termos de tráfico de drogas a partir da ida do  Comando Vermelho para lá.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Por exemplo, um bairro de Duque de Caxias chamado Olavo Bilac é  próximo de uma comunidade chamada Mangueirinha, que é um morro. Essa  comunidade já é controlada pelo Comando Vermelho que está adensando a  elevação da Mangueirinha e Olavo Bilac já está sentindo os efeitos  diretos dessa reocupação. Mas ninguém está falando nada sobre isso.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">A realidade do Rio de Janeiro é muito mais complexa do que se possa  imaginar. O Comando Vermelho, assim como outras facções e milícias,  estabelece relação direta com o aparato de segurança pública do Rio de  Janeiro. Em todas essas áreas há tráfico de armas feito pela polícia, em  todas essas áreas o tráfico de drogas permanece em função de acordos  com o aparato policial.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">IHU On-Line – Podemos comparar esses traficantes que estão coordenando os conflitos no RJ com o PCC, de São Paulo?</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Alves – Só podemos analisar a história do Rio de  Janeiro, fazendo um retrospecto da história e da geografia. O PCC, em  São Paulo, tem uma trajetória muito diferente das facções do Rio de  Janeiro, tanto que a estrutura do PCC se dá dentro dos presídios. Quando  a mídia noticia que os traficantes no Rio de Janeiro presos estão  operando os conflitos, leia-se, por trás disso, que a estrutura  penitenciária do Estado se transformou na estrutura organizacional do  crime. Não estou dizendo que o Estado foi corrompido. Estou dizendo que o  próprio estado em si é o crime. O mercado e o Estado são os grandes  problemas da sociedade brasileira. O mercado de drogas, articulado com o  mercado de segurança pública, com o mercado de tráfico de drogas, de  roubo, com o próprio sistema financeiro brasileiro, é quem tem interesse  em perpetuar tudo isso.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">A articulação entre economia formal, economia criminosa e aparato  estatal se dá em São Paulo de uma forma diferente em relação ao Rio de  Janeiro. Expulsar o Comando Vermelho dessas áreas interessa à manutenção  econômica do capital. O que há de semelhança são as operações de  terror, operações de confronto aberto dentro da cidade para reestruturar  o crime e reorganizá-lo em patamares mais favoráveis ao segmento que  está ganhando ou perdendo.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">IHU On-Line – Como o senhor avalia essa política de instalação das  UPPs – Unidades de Policiamento Pacificadoras nas favelas do Rio de  Janeiro?</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Alves – É uma política midiática de visibilidade de  segurança no Rio de Janeiro e Brasil. A presidente eleita quase  transformou as UPPs na política de segurança pública do país e quer  reproduzir as UPPs em todo o Brasil. A UPP é uma grande farsa. Nas  favelas ocupadas pelas UPSs podem ser encontrados ex-traficantes que  continuam operando, mas com menos intensidade. A desigualdade social  permanece, assim como o não acesso à saúde, educação, propriedade da  terra, transporte. A polícia está lá para garantir o não tiroteio, mas  isso não garante a não existência de crimes. A meu ver, até agora, as  UPPs são apenas formas de fachada de uma política de segurança e  econômica de grupos de capitais dominantes na cidade para estabelecer um  novo projeto e reconfiguração dessa estrutura.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">IHU On-Line – A tensão no Rio de Janeiro, neste momento, é diferente de outros momentos de conflito entre polícia e traficantes?</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Alves – Sim, porque a dimensão é mais ampla, mais  aberta. Dizer que eles estão operando de forma desarticulada,  desesperada, desorganizada é uma mentira. A estrutura que o Comando  Vermelho organiza vem sendo elaborada há mais de cinco anos e ela tem  sido, agora, colocada em prática de uma forma muito mais intensa do que  jamais foi visto.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">A grande questão é saber o que se opera no fundo imaginário e  simbólico que está sendo construído de quem são, de fato, os inimigos da  sociedade fluminense e brasileira. Essa questão vai ter efeitos muito  mais venenosos para a sociedade empobrecida e favelizada. É isso que  está em jogo agora.</span></p></blockquote>
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		<title>A Comédia dos Erros – Shakespeare</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Nov 2010 12:30:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando</dc:creator>
				<category><![CDATA[Orelha de Livro]]></category>
		<category><![CDATA[Éfeso]]></category>
		<category><![CDATA[comédia dos erros]]></category>
		<category><![CDATA[criago]]></category>
		<category><![CDATA[gêmeos]]></category>
		<category><![CDATA[LPM]]></category>
		<category><![CDATA[patrão]]></category>
		<category><![CDATA[Plauto]]></category>
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		<category><![CDATA[Shakespeare]]></category>
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		<description><![CDATA[
Para aqueles que gostam de ler peças de teatro, ou para os que tem curiosidade pelo assunto, vai a dica da “Comedia dos Erros”, de Shakespeare. Uma leitura muito engraçada. Quem tiver a chance de ver no palco, vale a pena. Mas também é divertido ler a peça.
É uma história toda movida por qüiproquós, ou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/09/shakespeare.jpg"><img class="size-medium wp-image-4574 aligncenter" title="shakespeare" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/09/shakespeare-224x300.jpg" alt="" width="224" height="300" /></a></p>
<p>Para aqueles que gostam de ler peças de teatro, ou para os que tem curiosidade pelo assunto, vai a dica da “Comedia dos Erros”, de Shakespeare. Uma leitura muito engraçada. Quem tiver a chance de ver no palco, vale a pena. Mas também é divertido ler a peça.</p>
<p>É uma história toda movida por qüiproquós, ou seja, confusões. A figura do qüiproquó é um artifício dramático que acontece quando uma pessoa é confundida com a outra, isso não é esclarecido e a trama segue adiante a partir desse equívoco. Também se aplica a situações em que os personagens conversam coisas com sentidos diferentes e vão cultivando uma encrenca que cresce ao longo da história.</p>
<p>&#8220;A Comédia dos Erros&#8221; é sobre dois pares de gêmeos que foram separados na infância e se reencontram involuntariamente 25 anos depois. Dois vivem na cidade de Éfeso, patrão e criado. E os outros dois, também patrão e criado, chegam à cidade. Mas naquele lugar ninguém sabe da coincidência e começam a tratar e armar tramas tanto com a dupla que vive na cidade quanto com os recém chegados. E assim cresce a confusão.</p>
<p>“A Comédia dos Erros” é considerada a primeira peça de Shakespeare e estreou provavelmente em 1594. Sua trama é baseada na peça “Os Menecmos” (Os Gêmeos), escrita no ano de 195 a.C. pelo dramaturgo romano Plauto. Sim, Shakespeare era um grande plagiador. A pirataria era plenamente aceita naquele passado. Em muitas de suas peças, seu brilho está na recriação e no tratamento, e não na fábula que  conta, no caso dessas peças recriadas.  A trama de  “Romeu e Julieta”, por exemplo, é baseada (beirando o plágio mesmo) num conto italiano escrito em 1554 por Matteo Bandello.</p>
<p>Esta edição da LPM (coleção Pocquet) da &#8220;Comédia dos Erros&#8221;está muito bem traduzida e tem uma leitura agradável. Fica a dica.</p>
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		<title>Manifesto de Nicolelis</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Nov 2010 19:18:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Variedade]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[ciência]]></category>
		<category><![CDATA[ciência tropical]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento]]></category>
		<category><![CDATA[Miguel Nicolelis]]></category>
		<category><![CDATA[reforma científica]]></category>

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		<description><![CDATA[
Manifesto do maior cientista brasileiro, Miguel Nicolelis (entrevista completa, aqui). Interessou-me bastante o ponto três. Seria um sonho, realizado em plena luz do dia, se Dilma encampasse tais propostas.
Manifesto da Ciência Tropical: um novo paradigma para o uso  democrático da ciência como agente efetivo de transformação social e  econômica no Brasil
por Miguel Nicolelis
É [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/11/miguel-nicolelis.jpg"><img class="size-full wp-image-5537 aligncenter" title="miguel-nicolelis" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/11/miguel-nicolelis.jpg" alt="" width="460" height="304" /></a></p>
<p>Manifesto do maior cientista brasileiro, Miguel Nicolelis (entrevista completa, <a href="http://www.viomundo.com.br/entrevistas/nicolelis-lanca-manifesto-da-ciencia-tropical-vai-ditar-a-agenda-mundial-do-seculo-xxi.html" target="_blank">aqui</a>). Interessou-me bastante o ponto três. Seria um sonho, realizado em plena luz do dia, se Dilma encampasse tais propostas.</p>
<blockquote><p><strong>Manifesto da Ciência Tropical: um novo paradigma para o uso  democrático da ciência como agente efetivo de transformação social e  econômica no Brasil</strong></p>
<p><strong>por Miguel Nicolelis</strong></p>
<p>É hora de a ciência brasileira assumir definitivamente um compromisso  mais central perante toda a sociedade e oferecer o seu poder criativo e  capacidade de inovação para erradicar a miséria, revolucionar a  educação e construir uma sociedade justa e verdadeiramente inclusiva.</p>
<p>É hora de agarrar com todas as forças a oportunidade de contribuir  para a construção da nação que sonhamos um dia ter, mas que por muitas  décadas pareceu escapar pelos vãos dos nossos dedos.</p>
<p>É hora de aproveitar este momento histórico e transformar o Brasil,  por meio da prática cotidiana do sonho, da democracia e da criação  científica, num exemplo de nação e sociedade, capaz de prover a  felicidade de todos os seus cidadãos e contribuir para o futuro da  humanidade.</p>
<p>No intuito de contribuir para o início desse processo de libertação  da energia potencial de criação e inovação acumulada há séculos no  capital humano do genoma brasileiro, eu gostaria de propor <strong>15 metas centrais para a capacitação do Programa Brasileiro de Ciência Tropical</strong>.</p>
<p>A implementação delas nos permitirá acelerar exponencialmente o  processo de inclusão social e crescimento econômico, que culminará, na  próxima década, com o banimento da miséria, a maior revolução  educacional e ambiental da nossa história e a decolagem irrevogável e  irrestrita da indústria brasileira do conhecimento.</p>
<p>Estas 15 metas visam a desencadear a massificação e a democratização  dos meios e mecanismos de geração, disseminação, consumo e  comercialização de conhecimento de ponta por todo o Brasil.</p>
<p><strong>1) Massificação da educação científica infanto-juvenil por todo o território nacional</strong></p>
<p>O objetivo é proporcionar a 1 milhão de crianças, nos próximos 4  anos,  acesso a um programa de educação científica pública, protagonista  e cidadã de alto nível. Esse programa utilizará o método científico  como ferramenta pedagógica essencial, combinando a filosofia de vida de  dois grandes brasileiros: Paulo Freire e Alberto Santos-Dumont.</p>
<p>Ao unir a educação como forma de alcançar a cidadania plena com a  visão de que ciência se aprende e se faz “pondo a mão na massa”, sugiro a  criação do <strong>Programa Educação para Toda a Vida</strong>, do qual faria parte o <strong>Programa Nacional de Educação Científica Alberto Santos -Dumont</strong> (veja abaixo). A porta de entrada se daria nos serviços de pré-natal  para as mães dos futuros alunos do programa. Após o nascimento, essas  crianças seriam atendidas no berçário e na creche, depois na escola de  educação científica que os serviria dos 4-17 anos, para que esses  brasileiros e brasileiras possam desenvolver toda a sua potencialidade  intelectual e criativa nas duas próximas décadas de suas vidas.</p>
<p>O programa de educação científica seria implementado no turno oposto  ao da escola pública regular, criando um regime de educação em tempo  integral para crianças de 4-17 anos, por meio de parceria do governo  federal com governos estaduais e municipais. Cada unidade da rede de  universidades federais poderia ser responsável pela gestão de um núcleo  do <strong>Programa Educação para Toda Vida</strong>, voltado para a população do entorno de cada campus.</p>
<p>O governo federal poderia ainda incentivar a participação da  iniciativa privada, oferecendo estímulos fiscais e tributários para as  empresas que estabelecessem unidades de educação científica  infanto-juvenil, ao longo do território nacional. Por exemplo, o novo  centro de pesquisas da Petrobras poderia criar uma das maiores unidades  do <strong>Educação para Toda Vida</strong>.</p>
<p><strong>2) Criação de centros nacionais de formação de professores de Ciência</strong></p>
<p>A implementação do <strong>Programa Educação para Toda Vida</strong> geraria uma demanda inédita para professores especializados no ensino de  ciência e tecnologia. Para supri-la, o governo federal poderia  estabelecer o <strong>Programa Nacional de Educação Científica Alberto Santos -Dumont</strong>,  que seria o responsável pela gestão dos centros nacionais de formação  de professores de ciências, espalhados por todo território nacional. As  universidades federais, os <strong>Institutos Federais de Tecnologia</strong> (antigos CEFETs) e uma futura cadeia de <strong>Institutos Brasileiros de Tecnologia </strong>(veja abaixo) poderiam estabelecer programas de formação de professores de ciências e tecnologia em todo o país.</p>
<p>Esses novos programas capacitariam uma nova geração de professores a  ensinar conceitos fundamentais da ciência, através de aulas práticas em  laboratórios especializados, tecnologia da informação e utilização de  métodos, processos e novas ferramentas para investigação científica. Os  alunos que se graduassem no programa <strong>Educação para Toda Vida </strong>teriam  capacitação, antes mesmo do ingresso na universidade, para se integrar  ao trabalho de laboratórios de pesquisa profissionais, tanto públicos  como privados, através do <strong>Programa Nacional de Iniciação Científica e do Bolsa Ciência</strong> (veja abaixo).</p>
<p><strong>3) Criação da carreira de pesquisador científico em tempo integral nas universidades federais</strong></p>
<p>Seria em paralelo à tradicional carreira de docente. Ela nos  permitiria recrutar uma nova geração de cientistas que se dedicaria  exclusivamente à pesquisa científica, com carga horária de aulas  correspondente a 10% do seu esforço total. Sem essa mudança não há como  esperar que pesquisadores das universidades federais possam dar o salto  científico qualitativo necessário para o desenvolvimento da ciência de  ponta do país.</p>
<p><strong>4) Criação de 16 Institutos Brasileiros de Tecnologia espalhados pelo país</strong></p>
<p>Eles serviriam para suprir a demanda de engenheiros, tecnólogos e  cientistas de alto nível e promover a inclusão social por meio do  desenvolvimento da indústria brasileira do conhecimento. Atualmente o  Brasil apresenta um déficit imenso desses profissionais.</p>
<p>Para sanar essa situação, o Brasil poderia reproduzir o modelo criado  pela Índia, que, desde a década de 1950, construiu uma das melhores  redes de formação de engenheiros e cientistas do mundo, constituída pela  cadeia de Institutos Indianos de Tecnologia.</p>
<p>Para tanto, o governo federal deveria criar nos próximos oito anos uma rede de 16 <strong>Institutos Brasileiros de Tecnologia</strong> (IBT) e espalhá-los em bolsões de miséria do território nacional,  especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Cada IBT  poderia admitir até 5.000 alunos por ano.</p>
<p><strong>5) Criação de 16 Cidades da Ciência</strong></p>
<p>Localizadas nas regiões com baixo índice de desenvolvimento humano,  como o Vale do Ribeira, Jequitinhonha, interior do Nordeste, Amazônia,  as <strong>Cidades da Ciência</strong> ficariam no entorno dos novos IBTs.</p>
<p>As <strong>Cidades da Ciência</strong> seriam, na prática, o  componente final da nova cadeia de produção do conhecimento de ponta no  Brasil. Acopladas aos novos IBTs e à rede de universidades federais,  criariam o ambiente necessário para a transformação do conhecimento de  ponta, gerados por cientistas brasileiros, em tecnologias e produtos de  alto valor agregado que dariam sustentação à indústria brasileira do  conhecimento.</p>
<p>Nas <strong>Cidades da Ciência</strong> seriam criadas e  estabelecidas as grandes empresas do conhecimento nacional, onde o  potencial científico do povo brasileiro poderia se transformar em novas  fontes de riqueza a serem aplicadas na gênese de um sistema nacional  autossustentável. Tal iniciativa permitiria a inserção do Brasil na era  da economia do conhecimento que dominará o século XXI.</p>
<p><strong>6) Criação de um arco contínuo de Unidades de Conservação e Pesquisa da Biosfera da Amazônia</strong></p>
<p>Esse verdadeiro cinturão de defesa, formado por um arco contínuo de <strong>Unidades de Conservação e Pesquisa da Biosfera da Amazônia</strong>,  seria disposto em paralelo ao chamado “Arco de Fogo”, formado em  decorrência do agronegócio predatório e da indústria madeireira ilegal,  responsáveis pelo desmatamento da região. Essa iniciativa visa a fincar  uma linha de defesa permanente contra o avanço do desmatamento ilegal,  modificando a estratégia das unidades de conservação a fim de colocá-las  a serviço de um <strong>Programa Nacional de Mapeamento dos Biomas Brasileiros</strong>.</p>
<p>Uma série de unidades de conservação poderia ser transformada em  unidades híbridas. Assim, além da conservação, poderiam incluir grandes  projetos de pesquisa que possibilitem ao Brasil mapear a riqueza e a  magnitude dos serviços ecológicos e climáticos encontrados nos diversos  biomas nacionais.</p>
<p>Para incentivar a participação de populações autóctones nesse esforço, o governo federal poderia criar o programa <strong>Bolsa Ciência Cidadã</strong>.  Homens, mulheres e adolescentes, que vivem na floresta amazônica e  conhecem seus segredos melhor do que qualquer professor doutor,  receberiam uma bolsa, similar ao bolsa família, para integrarem as  equipes de pesquisadores e responsáveis pela implementação das leis  ambientais na região. Esse exército de cidadãos, devotado à investigação  científica e à proteção da Amazônia, mostraria ao mundo o quão  determinado o Brasil está em preservar uma das maiores maravilhas  biológicas do planeta.</p>
<p>Evidentemente tal iniciativa poderia ser replicada em outras áreas  críticas, também ameaçadas pela indústria predatória, como o Pantanal, a  caatinga, o cerrado, a Mata Atlântica e os Pampas.</p>
<p><strong>7) Criação de oito “Cidades Marítimas” ao longo da costa brasileira</strong></p>
<p>A descoberta do pré-sal demonstra claramente que uma das maiores  fontes potenciais de riqueza futura da sociedade brasileira reside no  vasto e diverso bioma marítimo da nossa costa.</p>
<p>Apesar disso, os esforços nacionais para estudo científico desse  vasto ambiente são muito incipientes. Aqui também o Brasil pode inovar  de forma revolucionária. Em parceria com a Petrobras, o governo federal  poderia estabelecer, no limite das 350  milhas marinhas, oito  plataformas voltadas para a pesquisa oceanográfica e climática, visando  ao mapeamento das riquezas no mar tropical brasileiro.</p>
<p>Essas verdadeiras <strong>“Cidades Marítimas”,</strong> dispostas a  cada mil quilômetros da costa brasileira, seriam interligadas por  serviço de transporte marítimo e aéreo (helicópteros) e se valeriam de  incentivos à renascente indústria naval brasileira, para o  desenvolvimento, por exemplo, de veículos de exploração a grandes  profundidades.</p>
<p>Cada <strong>“Cidade Marítima”</strong> seria autossuficiente,  contando com laboratórios, equipamentos e equipe própria de  pesquisadores. Tais edificações serviriam também como postos mais  avançados de observação dos limites marítimos do Brasil. Com o crescente  desenvolvimento da exploração do pré-sal, essa rede de <strong>“Cidades Marítimas” p</strong>oderia assumir papel fundamental na defesa da nossa soberania marítima dentro das águas territoriais.</p>
<p><strong> <img src='http://www.blogdosperrusi.com/wp-includes/images/smilies/icon_cool.gif' alt='8)' class='wp-smiley' /> Retomada e Expansão do Programa Espacial Brasileiro</strong></p>
<p>Embora subestimado pela sociedade e a mídia brasileiras, o  fortalecimento do programa espacial brasileiro oferece outro exemplo  emblemático de como o futuro do desenvolvimento científico no Brasil é  questão de soberania nacional.</p>
<p>Dos países pertencentes ao BRIC, o Brasil é o que possui o mais  tímido e subdesenvolvido programa espacial. Apesar da sua situação  geográfica altamente favorável, a Base de Alcântara não tem  correspondido às altas expectativas geradas com a sua construção.</p>
<p>Essa situação é inaceitável, uma vez que, a longo prazo, pode levar o  Brasil a uma dependência irreversível no que tange a novas tecnologias e  novas formas de comunicação, colocando a nossa soberania em risco.  Dessa forma, urge reativar os investimentos nessa área vital, definir  novas e ambiciosas metas para o programa espacial brasileiro e  esclarecer o papel da sociedade civil na operação dos programas da Base  de Alcântara, cujo controle deveria estar nas mãos de uma equipe civil  de pesquisadores e não das forças amadas.</p>
<p><strong>9) Criação de um Programa Nacional de Iniciação Científica</strong></p>
<p>Com a criação do <strong>Programa Educação para Toda Vida</strong>,  seria necessário implementar novas ferramentas para que os adolescentes  egressos desses programas pudessem dar vazão a seus anseios de criação,  invenção e inovação através da continuidade do processo de educação  científica, mesmo antes do ingresso na universidade e depois dele.</p>
<p>Na realidade, é extremamente factível que grande número desses jovens  possa começar a contribuir efetivamente para o processo de geração de  conhecimento de ponta antes do ingresso na universidade.</p>
<p>O governo federal poderia criar um <strong>Programa Nacional de Iniciação Científica</strong> que leve ao estabelecimento de 1 milhão de <strong>Bolsas Ciência</strong>. Uma experiência preliminar desse programa já existe no CNPQ, através do recém-criado programa dos <strong>Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia</strong>.  Bastaria ampliá-lo e remover certas amarras burocráticas que dificultam  a sua implementação neste momento. Esse programa poderia também ser  usado pelo governo federal para eliminar uma porcentagem significativa  (30%) da evasão do ensino médio, decorrente da necessidade dos alunos em  contribuir para a renda familiar.</p>
<p>Jovens de talento científico reconhecido deveriam também ter a opção  de seguir carreira de inventor ou pesquisador sem necessitar de  doutorado ou outro curso de pós-graduação. Tal alternativa contribuiria  decisivamente para a diminuição do período de treinamento necessário  para que talentos científicos pudessem participar efetivamente do  desenvolvimento científico do Brasil.</p>
<p><strong>10) Investimento de 4-5% do PIB em ações de ciência e tecnologia na próxima década</strong></p>
<p>Tendo proposto novas ações, é fundamental que essas sejam devidamente  financiadas. Para tanto e, ainda, para assegurar a ascensão da ciência  brasileira aos patamares de excelência dos países líderes mundiais, o  governo brasileiro teria de tomar a decisão estratégica de destinar, nas  próximas décadas, algo em torno de 4-5% do PIB nacionala à ciência e  tecnologia.</p>
<p>Em vários países, como os EUA, essa conta é dividida em partes iguais  entre o poder público e privado. No Brasil, todavia, não existem  condições para que isso ocorra de imediato. Dessa forma, não restaria  outra alternativa ao governo federal senão assumir a responsabilidade  desse investimento estratégico, usando novas fontes de receita, como a  gerada pela exploração do pré-sal.</p>
<p><strong>11) Reorganização das agências federais de fomento à pesquisa</strong></p>
<p>Reformulação de normas de procedimento e processo para agilizar a  distribuição eficiente de recursos ao pesquisador e empreendedor  científico, bem como criar um novo modelo de gestão e prestação de  contas.</p>
<p>A ciência e o cientista brasileiro não podem mais ser regidos pelas  mesmas normas de 30-40 anos atrás, utilizadas na prestação de contas de  recursos públicos para construção de rodovias e hidrelétricas.</p>
<p>Urge, portanto, reformular completamente todos os protocolos de  cooperação do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) com outros  ministérios estratégicos para execução de projetos multiministeriais.</p>
<p>Na lista de cooperação estratégica do MCT, incluem-se os ministérios  da Educação, Saúde, Meio Ambiente, Minas e Energia, Indústria e  Comércio, Agricultura, Defesa e Relações Exteriores. Normas comuns de  operação dos departamentos jurídicos e dos processos de prestação de  contas devem ser produzidas entre o MCT e esses ministérios, de sorte a  incentivar a realização de projetos estratégicos interministerais, como o  <strong>Educação para Toda Vida</strong>.</p>
<p>O cenário atual cria inúmeros empecilhos para ratificação de projetos  estratégicos aprovados no mérito científico (o principal quesito), mas  que, via de regra, passam meses e até anos prisioneiros dos  desconhecidos meandros e procedimentos conflitantes com que operam os  diferentes departamentos jurídicos dos diferentes ministérios.</p>
<p>Urge eliminar tal barreira kafkaniana e transferir o poder de  decisão, atualmente nas catacumbas jurídicas dos ministérios onde volta e  meia processos desaparecem, para as mãos dos gestores de ciência  treinados para implementar uma visão estratégica do projeto nacional de  ciência e tecnologia.</p>
<p><strong>12) Criação de <em>joint ventures</em> para produção de insumos e materiais de consumo para prática científica dentro do Brasil</strong></p>
<p>É’ fundamental investir numa redução verdadeira dos trâmites  burocráticos “medievais” que ainda existem para aquisição de materiais  de consumo e equipamentos de pesquisa importados. Para tanto, é  importante definir políticas de incentivo ao estabelecimento de empresas  nacionais dispostas a suprir o mercado nacional com insumos e  equipamentos científicos.</p>
<p><strong>13) Criação do Banco do Cérebro</strong></p>
<p>Um dos maiores gargalos para o crescimento da área de ciência e  tecnologia no Brasil é a dificuldade que cientistas e empreendedores  científicos enfrentam para ter acesso ao capital necessário para  desenvolver novas empresas baseadas na sua propriedade intelectual.</p>
<p>Na maioria das vezes, esses inventores e microempreendedores científicos ficam à mercê da ação de <em>venture capitalists</em>, que oferecem capital em troca de boa parte do controle acionário da empresa em que desejam investir.</p>
<p>Para reverter esse cenário, o governo federal poderia criar o <strong>Banco do Cérebro</strong>,  uma instituição financeira destinada a implementar vários mecanismos  financeiros para fomento do empreendedorismo científico nacional.</p>
<p>Essas ferramentas financeiras incluiriam desde programa de  microcrédito científico até formas de financiamento de novas empresas  nacionais voltadas para produtos de alto valor agregado, fundamentais ao  desenvolvimento da ciência brasileira e da economia do conhecimento.</p>
<p>Para isso, o governo federal deverá exigir que esses novos empreendimentos científicos sejam localizados numa das novas <strong>Cidades da Ciência</strong>. <em>Joint ventures</em> entre empreendedores brasileiros e estrangeiros também deverão ser estimuladas pelo<strong> Banco do Cérebro</strong>, seguindo o mesmo critério social.</p>
<p><strong>14) Ampliação e incentivo a bolsas de doutorado e pós-doutorado dentro e fora do Brasil</strong></p>
<p>À primeira vista pode parecer contraditório propor metas para o desenvolvimento da <strong>Ciência Tropical</strong> e, ao mesmo tempo, reivindicar aumento significativo de bolsas de  doutorado e pós-doutorado para alunos brasileiros no exterior.</p>
<p>Novamente, a proposta da <strong>Ciência Tropical </strong>é, antes  de tudo, um nova proposta para o desenvolvimento de excelência na  prática da pesquisa e educação científica. Dessa forma, ela tem de  incentivar todas as formas que permitam aos melhores e mais promissores  cientistas brasileiros complementarem sua formação fora do território  nacional.</p>
<p>Como bem disse a presidente-eleita Dilma Rousseff durante a campanha:  “ O Brasil precisa de seus cientistas porque eles iluminam o nosso  país”.</p>
<p>Pois que os futuros jovens cientistas brasileiros tenham a  oportunidade de se transformar em genuínos embaixadores da ciência  brasileira e complementar seus estudos em universidades e institutos de  pesquisa estrangeiros, líderes em suas respectivas áreas.</p>
<p>Esse processo de intercâmbio e “oxigenação” de idéias é essencial à  prática da ciência de alto nível. Mesmo os cientistas brasileiros que  optarem por ficar no exterior depois desse e treinamento poderão trazer  dividendos fundamentais para o desenvolvimento da <strong>Ciência Tropical.</strong></p>
<p><strong>15) Recrutamento de pesquisadores e professores estrangeiros dispostos a se radicar no Brasil</strong></p>
<p>Com a crise financeira, verdadeiros exércitos de cientistas  americanos e europeus estarão procurando novas posições nos próximos  anos. Cabe ao Brasil tirar vantagem dessa situação e passar a ser um  importador de cérebros e não um exportador de talentos.</p>
<p>Historicamente, a academia brasileira tem inúmeros exemplos  excepcionais de pesquisadores estrangeiros de alto nível que alavancaram  grandes avanços científicos no Brasil. O <strong>Programa Brasileiro de Ciência Tropical </strong>só teria a ganhar com uma política mais abrangente, audaciosa e sistêmica de importação de talentos.</p></blockquote>
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		<title>El legado de Néstor Kirchner</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Nov 2010 14:26:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dos Outros]]></category>
		<category><![CDATA[Argentina]]></category>
		<category><![CDATA[esquerda]]></category>
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		<category><![CDATA[Néstor Kirchner]]></category>

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		<description><![CDATA[
Artigo de Ernesto Laclau sobre a morte de Néstor Kirchner, ex-presidente argentino. Para a esquerda argentina, foi um desastre. Pesquei aqui.
A medida  que los días vayan pasando, el país comprenderá crecientemente las  verdaderas dimensiones de la tragedia que representa para los argentinos  la súbita desaparición de Néstor Kirchner. Con él hemos perdido [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/11/kirchner.jpg"><img class="size-full wp-image-5446 aligncenter" title="kirchner" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/11/kirchner.jpg" alt="" width="340" height="324" /></a></p>
<p>Artigo de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Ernesto_Laclau" target="_blank">Ernesto Laclau</a> sobre a morte de Néstor Kirchner, ex-presidente argentino. Para a esquerda argentina, foi um desastre. Pesquei <a href="http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/subnotas/156246-50159-2010-11-04.html" target="_blank">aqui</a>.</p>
<blockquote><p>A medida  que los días vayan pasando, el país comprenderá crecientemente las  verdaderas dimensiones de la tragedia que representa para los argentinos  la súbita desaparición de Néstor Kirchner. Con él hemos perdido al  estadista de mayor envergadura que nuestro país haya producido en los  últimos cincuenta años. A él estará siempre ligada la transformación  profunda del Estado que la Argentina experimentara a partir de 2003.</p>
<p>Hay que situarse mentalmente en el umbral de aquel año para advertir  todo lo que ha cambiado. El 2003 no está tan lejano en el tiempo y, sin  embargo, lo que lo precediera parece pertenecer claramente a otra  época. El país venía de una serie de experiencias traumáticas: la  dictadura militar, con la que, en razón de una serie de leyes y  amnistías, la ruptura había sido tan sólo parcial; el neoliberalismo  menemista que, a través de sus privatizaciones y desregulaciones, había  puesto a la Argentina al borde de la bancarrota; el fracaso estrepitoso  del gobierno de la Alianza, que condujo a los estallidos de 2001. Había  un cinismo y un desencanto generalizados respecto de la política, que  encontraría su expresión en el notorio lema “que se vayan todos”.</p>
<p>Ya las movilizaciones sociales subsiguientes a la crisis –las  fábricas recuperadas, la extensión del movimiento piquetero y otros  fenómenos concomitantes– estaban preanunciando que el ciclo del  neoliberalismo estaba llegando a su conclusión. Pero lo que muy pocos  esperaban era que esas movilizaciones fueran a encontrar eco y simpatía  al nivel del Estado nacional. Fue contra todas las expectativas que  ocurrió el 2003. Al principio, el nuevo tipo de discurso fue recibido  con un considerable grado de escepticismo. Se trataba, en la apreciación  de muchos, de mera retórica, tras la cual habrían de ocultarse las  habituales componendas de trastienda. Pero pronto hubo que rendirse a la  evidencia: el nuevo gobierno estaba comprometido con un programa total  de reestructuración de la sociedad argentina a sus distintos niveles.  Programa que no podía dejar de suscitar la adhesión popular, a la vez  que herir intereses creados que se habían consolidado a lo largo de  decenios. En poco tiempo pudimos verificar el apoyo brindado por el  Gobierno a las organizaciones populares; la decisión de operar, a través  de los juicios a los represores, el desmantelamiento de la ESMA y otras  medidas similares, la ruptura más radical con el pasado dictatorial que  haya tenido lugar en el continente latinoamericano; la reorientación  nacional de la economía, en el proceso que va desde la ruptura de facto  con el FMI hasta el reforzamiento del Mercosur y el rechazo del plan del  ALCA de Bush en la reunión de Mar del Plata de 2005; la democratización  de la Corte Suprema y de la cúpula militar, etc. Como es sabido, toda  esta corriente profunda de cambio fue continuada y radicalizada a través  de una serie de medidas legislativas durante el gobierno de la  presidenta Cristina Fernández, que ha representado uno de los esfuerzos  más ambiciosos y sistemáticos en nuestro continente por reestructurar al  Estado y redefinir sus relaciones con la sociedad civil. Todo esto se  ha hecho en el marco de una integración cada vez mayor de la Argentina  al espectro de los nuevos gobiernos progresistas de América latina. El  país está menos solo que nunca en el pasado.</p>
<p>No voy a entrar a discutir la minucia de este programa legislativo.  En los últimos días otros –Mario Wainfeld y Horacio Verbitsky entre  ellos– lo han hecho en artículos excelentes. Pero sí quisiera referirme a  un aspecto clave, que revela la naturaleza del legado de Néstor  Kirchner, a la vez que su estilo particular de liderazgo. Me refiero a  las resistencias que toda tentativa de cambio profundo suscita y al coro  de infundios con el que las fuerzas reaccionarias pretenden combatirla.  Hace unos días, los plumíferos de La Nación caracterizaban al  kirchnerismo como “populismo autoritario”. La fórmula misma ya es, desde  luego, problemática y ambigua, pero cuando se la usa para caracterizar  la situación argentina es doblemente absurda. Un populismo autoritario  sólo podría ser uno en el que las masas fueran enteramente pasivas y  sometidas a un liderazgo que tomara las decisiones sin compartir el  proceso deliberativo con nadie. Esto puede llegar a ocurrir en ciertas  sociedades –pensemos, por ejemplo, en el Zimbabwe de Mugabe–, pero  cuando esto ocurre, la deriva autoritaria es cada vez menos populista,  ya que las masas son sustituidas por pequeños grupos de matones  reclutados y organizados desde el poder. En tales condiciones lo que  prima es el autoritarismo, en tanto que el populismo se limita a una  cáscara vacía, a una interpelación meramente retórica, sin participación  activa alguna de las masas.</p>
<p>Ahora bien, cualquiera que conozca mínimamente lo que está pasando  en la Argentina, sabe muy bien que en ella se da la situación  exactamente opuesta. Todas las medidas legislativas han sido tomadas  sobre la base de la movilización autónoma de uno u otro sector de la  sociedad. ¿Cómo explicar entonces esta insistencia en los peligros  autoritarios del kirchnerismo? La respuesta es obvia. Se trata de crear  una cortina de humo, por la que la supuesta “defensa de las  instituciones” frente al “avance autoritario” no es sino un burdo  intento por defender un statu quo en el que las corporaciones medran,  frente al intento de democratizar a estas instituciones desde dentro.  ¿Recuerdan ustedes la reunión reciente del Sr. Magnetto con líderes de  la oposición para planificar algo no claramente especificado pero que,  en todo caso, implicaba a claras luces organizar la confrontación con el  Gobierno? ¿Y recuerdan ustedes esa otra reunión, mucho más siniestra,  en la que se obligó a Lidia Papaleo a resignar el control de Papel  Prensa bajo amenazas de muerte? La misma historia acerca de la sórdida  acción del poder corporativo frente a la voluntad popular se repite en  todas las instituciones. El gran dilema a ser dirimido en los próximos  años, comenzando por las elecciones de 2011, es quién va a prevalecer:  la Argentina corporativa del pasado o la Argentina popular que comenzó a  emerger con las movilizaciones de 2001, que se consolidó en 2003 y que  desde entonces ha ido ganando batalla tras batalla.</p>
<p>Es en el umbral de esta confrontación que el nombre de Néstor  Kirchner permanecerá siempre como un signo liminar y señero. Ya no será  una bandera para las luchas, pero se ha transformado en algo más  importante: en un símbolo para las conciencias. Quiero recordar tres  aspectos de su obra y de su mensaje. El primero es que fue uno de los  demócratas más radicales que la Argentina haya producido en años  recientes. Nunca intentó imponer una voluntad burocrática, sino que  siempre buscó en las movilizaciones espontáneas de los grupos de base  los aliados naturales a través de los cuales pensar, repensar y matizar  su proyecto. El segundo es que nunca hizo una interpelación fácil a  masas inestructuradas, sino que comprendió que, en las complejas  sociedades contemporáneas, cualquier proyecto de cambio tiene que pasar  por la transformación interna de las instituciones. No sé si Néstor  habrá leído a Gramsci, pero en todo caso su acción política muestra algo  que es profundamente gramsciano: la comprensión de que, en las  sociedades contemporáneas, no hay populismo fácil; que, sin la mediación  institucional, no hay proyecto político coherente. En tal sentido él  mostró, a través de su acción política, algo que siempre pensé: que  entre institucionalismo y populismo siempre hay una compleja  negociación, los resultados de la cual presentarán matices distintos en  diferentes sociedades.</p>
<p>Hay, finalmente, una tercera dimensión que es decisiva para entender  el legado de Kirchner: su firmeza de acero, su compromiso total con las  causas que abrazaba. Era un hombre de lucha, no de transacciones. Esto  es lo que indignaba a sus detractores y lo que denominaban su tendencia  “a doblar la apuesta”. Creo que se trataba de algo más importante que  eso. El tenía perfecta conciencia de la naturaleza de las fuerzas con  las que se enfrentaba, y sabía que sólo una voluntad inquebrantable  sería capaz de confrontarlas.</p>
<p>¿Qué nos queda por hacer ahora, hacia adelante, después de Néstor?  La respuesta es clara: proseguir su obra y completar su tarea. El nos ha  legado objetivos que son más vastos que su vida y que la nuestra y que  incluyen a todo nuestro continente. América latina ocupará su puesto en  esta marcha general de los pueblos que habrá de conducir, desde la  barbarie neoliberal, al establecimiento de formas justas, libres y  racionales entre los hombres. Ya hemos oído estos últimos días las voces  melifluas y viscosas de aquellos que, restregándose las manos de  satisfacción, dicen que ahora Cristina está sola y tendrá que  contemporizar con la oposición. Los que eso piensan van a encontrarse  con una sorpresa. En primer término, parecen no conocer el temple de  nuestra Presidenta, cuya determinación militante se ha mostrado en todas  las pruebas –muchas duras– que debió pasar durante su gobierno. En  todas las circunstancias mostró una claridad de propósitos y una  determinación en su ejecución que la coloca en situación de total  paridad con su predecesor.</p>
<p>En segundo lugar, Cristina no está sola. Ha perdido, es verdad, al  compañero de su vida y la acompañamos todos en su dolor. Pero la  acompaña también todo un pueblo, el cual se ha manifestado en los  últimos días en una de las expresiones de pesar colectivo más inmensas  –quizá la más inmensa– de la historia argentina. Debemos hacerle a  Néstor, en las palabras de Antonio Machado, “un duelo de labores y  esperanzas”. Cada fábrica, cada escuela, cada hogar, deben erigirse como  la expresión de la voluntad colectiva de que la llama que se encendió  en 2003 no se extinga jamás. Que todos los argentinos nos identifiquemos  con aquellas palabras que José Gervasio de Artigas pronunciara en su  lecho de muerte: “Amanece, ensíllenme el caballo”.</p>
<p>* Profesor de Teoría Política (Universidad de Essex).</p></blockquote>
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		<title>Aborto é cadeia</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Oct 2010 18:39:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A vida não pertence ao filósofo
Comento abaixo um artigo de Luiz Felipe Pondé, da Folha, sobre o aborto. Pondé é um dos novos articulistas contratados pela Folha. Filósofo conservador, acha Ratzinger um baita intelectual. Discute sobre o assunto com a inquisição embaixo do braço.
Meus comentários estão em verde. Lá vai:
Vai encarar?
SOU CONTRA o aborto. Não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_5126" class="wp-caption alignnone" style="width: 490px"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/10/deus.jpg"><img class="size-full wp-image-5126" title="deus" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/10/deus.jpg" alt="" width="480" height="320" /></a><p class="wp-caption-text">A vida não pertence ao filósofo</p></div>
<p>Comento abaixo um artigo de Luiz Felipe Pondé, da Folha, sobre o aborto. Pondé é um dos novos articulistas contratados pela Folha. Filósofo conservador, acha Ratzinger um baita intelectual. Discute sobre o assunto com a inquisição embaixo do braço.</p>
<p>Meus comentários estão em verde. Lá vai:</p>
<blockquote><p><strong>Vai encarar?</strong></p>
<p>SOU CONTRA o aborto. Não preciso de religião para viver, não acredito em Papai Noel, sou da elite intelectual, sou PhD, pós-doc., falo línguas estrangeiras, escrevo livros &#8220;cabeça&#8221; e não tenho medo de cara feia.</p>
<p><span style="color: #008000;">Não sei como é o ambiente intelectual em São Paulo. Pelo visto, deve ser sufocante. O filósofo já começa botando pra quebrar. Vai encarar? E tome amostração. Já começa o artigo bebendo do cálice da luxúria intelectual: a vaidade. Parece dizer: &#8220;olhem o mensageiro, para mim, porra, só para mim, e não para a mensagem &#8212; vão encarar?&#8221;<br />
</span></p>
<p><span style="color: #008000;">É interessante o pano de fundo e a mensagem para o leitor: &#8220;sou um intelectual, e tampa de Crush, ainda por cima, mas sou contra o aborto; sim, isso é possível! Um intelectual pode ser contra o aborto, inclusive um da minha envergadura&#8221;. Há uma informação subreptícia, aqui: os intelectuais defendem o aborto e os ignorantes são contra.</span> <span style="color: #008000;">Não sabia disso &#8212; interessante, né?!</span> <span style="color: #008000;">Lanço a hipótese de que, em Sampa, os intelectuais são abortistas. Pelo raciocínio, a </span><span style="color: #008000;"><em>intelligentsia </em>paulistana é assassina de blástulas e mórulas.</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Fiquei na dúvida quanto a falar &#8220;línguas estrangeiras&#8221;. Significa que o filósofo, além da titulação, é possuído por demônios?<br />
</span></p>
<p>Prefiro pensar que a vida pertence a Deus. Já vejo a baba escorrer pelo canto da boca do &#8220;habitué&#8221; de jantares inteligentes, mas detenha seu &#8220;apetite&#8221; porque não sou uma presa fácil.</p>
<p><span style="color: #008000;">O filósofo não precisa de religião para viver, mas afirma que a vida pertence a um deus. Afirmação forte para quem deus não paga salário. E qual deus, afinal de contas? Deduzo que seja o deus cristão</span>.  <span style="color: #008000;">Existe algum deus que à vida não pertence?</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Sua crítica aos jantares inteligentes é correta. Não existe nada mais insuportável do que um jantar inteligente, principalmente com pessoas burras.</span> <span style="color: #008000;">Não é a primeira vez que o filósofo, nos seus artigos, fala desse ambiente inteligente. Ambiente de esquerda, certamente. Deve frequentá-lo e conhecê-lo. Não deve ser fácil. É de perder o apetite; afinal, toda esquerda é totalitária.</span></p>
<p>Lembre-se: não sou um beato bobo e o niilismo é meu irmão gêmeo. Temo que você seja mais beato do que eu. Mas não se deve discutir teologia em jantares inteligentes, seria como jogar pérolas aos porcos.</p>
<p><span style="color: #008000;">Descobrimos que o filósofo é um beato, embora não seja bobo. É um beato que não precisa da religião para viver; afinal, é filósofo. Diz que a vida pertence a um deus, mas que o niilismo é seu irmão gêmeo. Provavelmente, acha que jogar a vida nas mãos divinas é o cúmulo do niilismo. Há boatos de que deixar a vida na mão de um deus é uma temeridade, pior do que defender o aborto. Nunca se sabe o que o deus fará com nossas vidas, pois seus desígnios são inescrutáveis. O filósofo é, realmente, o espelho de seu irmão.</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Mas acertou, novamente. Não se deve discutir teologia em jantares inteligentes. Convenhamos, deve ser um saco. Talvez, como pilhéria, sei lá, afinal, a teologia é muito engraçada. Imaginem uma filosofia toda montada na existência de um único deus &#8212; não é engraçado?</span></p>
<p>Esse mesmo &#8220;habitué&#8221; que grita a favor do aborto chora por foquinhas fofinhas, estranha inversão&#8230;</p>
<p><span style="color: #008000;">Defender foquinhas fofinhas é de lascar. O que acontece nos jantares inteligentes em Sampa? Defendem foquinhas fofinhas?! </span></p>
<p><span style="color: #008000;">O filósofo faz a frase, mas não discute sua premissa: como o aborto é um assassinato, defender foquinhas fofinhas é um absurdo. É preferir a foquinha fofinha a uma <em>pessoa</em>. Talvez, entre os inteligentes do jantar, há quem não considere uma mórula ou uma blástula uma pessoa.</span> <span style="color: #008000;">São inteligentes, mas amantes da crueldade.</span></p>
<p>Não preciso de argumentos teológicos para ser contra o aborto. Sou contra o aborto porque acho que o feto é uma criança. A prova de que meu argumento é sólido é que os que são a favor do aborto trabalham duro para desumanizar o feto humano e fazer com que não o vejamos como bebês. E não quero uma definição &#8220;científica&#8221; do início da vida porque, assim que a tivermos, compraremos cremes antirrugas &#8220;babyskin&#8221; com cartão Visa.</p>
<p><span style="color: #008000;">Fiquei na dúvida. O filósofo fala de feto e não de embrião. Chama-se feto o desenvolvimento intra-uterino que tem início após oito semanas de vida embrionária, quando já se podem ser observados braços, pernas, olhos, nariz e boca. O feto é uma criança, segundo o filósofo &#8212; um bebê. E o embrião? O filósofo é a favor de aborto nesse estágio?</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Tendo como premissa, colocada como indiscutível, que o feto é um bebê, todo indivíduo que defende o aborto trabalha duro para desumanizá-lo. A desumanização é uma crueldade, sem dúvida. É interessante ver um filósofo, que tem como irmão gêmeo o niilismo, defender a humanização do feto.<br />
</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Ao mesmo tempo, o filósofo descarta uma definição científica sobre o início da vida. O filósofo é, provavelmente, contra a captura da vida pela ciência; afinal a vida é um valor transcendental que pertence a deus. E, sem deus, apenas com a ciência, podemos tudo, inclusive transformar carne de feto e<span style="color: #008000;">m creme.</span></span><span style="color: #008000;"> Pensei que defender a ciência acima de qualquer coisa fosse niilismo; mas, ele não faz essa defesa. Talvez, o filósofo diga-se irmão gêmeo do niilismo para se amostrar nos jantares inteligentes. É &#8220;in&#8221; ser reflexo do niilismo nos jantares inteligentes.</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Contudo, ele está certo num ponto: não existe uma definição científica sobre o início da vida. Discutir o início da vida é discutir seu sentido. A ciência não oferece sentido à vida; longe disso, não é sua pretensão, nem está em seu poder. Discutir o início da vida ou seu sentido é uma discussão baseada em valores. E vivemos num &#8220;politeísmo de valores&#8221; e não na Idade Média, tão valorizada, em outros textos, por Pondé. E, numa sociedade onde reina o pluralismo de valores, existem várias concepções sobre o&#8230; sentido da vida. Onde está a verdade nessa situação? Ela não está, pois não é o valor mais indicado nesse contexto. Talvez, a tolerância e sua consequência ética, a laicidade, sejam os valores mais interessantes para enfrentar o grande dilema do aborto.</span></p>
<p>Agora o tema é o &#8220;retorno&#8221; do aborto. O aborto entrou na moda neste segundo turno. É claro que esse retorno é retórico. Desde Platão, sabe-se que a democracia é um regime para sofistas e retóricos.</p>
<p><span style="color: #008000;">Um tema recorrente de Pondé: a desqualificação da democracia. Faz parte de uma longa linhagem de pensamento reacionário &#8212; outro representante no Brasil é Olavo de Carvalho. Nesse momento, Pondé é, enfim, o irmão gêmeo do niilismo. Não faz uma crítica democrática à democracia contemporânea, e sim uma de negação e de aniquilamento. Depois de tudo, cita Churchill, para disfarçar.</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Pondé desconfia da democracia. Por isso, talvez, em relação ao aborto, sempre toma como ponto de partida o valor da vida e não o da liberdade. Mas o problema é que o aborto põe em conflito irremediável justamente esses dois valores: vida e liberdade. </span></p>
<p>A relação entre democracia e marketing já era sabida como essencial desde a Grécia Antiga. Por que o espanto quando os candidatos, sabendo que grande parte da população brasileira é contra o aborto (talvez por razões religiosas vagas, talvez por &#8220;afeto moral&#8221; vago), se lançam numa batalha pelo espólio do &#8220;direito à vida&#8221;?</p>
<p><span style="color: #008000;">Concordo. Serra e Dilma estão sendo hipócritas. Mas a hipocrisia não é intrínseca à democracia; ao contrário, a hipocrisia a rói por dentro. A denúncia da hipocrisia estimula a democratização. Pondé, na verdade, insinua uma identificação entre democracia, hipocrisia e marketing.</span></p>
<p>O marketing é uma invenção contemporânea, mas a necessidade dele é intrínseca a qualquer técnica que passe pelo convencimento de uma maioria, desde a mais tenra assembleia de neandertais.</p>
<p><span style="color: #008000;">Será sempre curioso dizer a Fernando que o marketing é uma invenção neandertal. De todo modo, é bem vago dizer que a necessidade do marketing </span><span style="color: #008000;">&#8220;é intrínseca a qualquer técnica que passe pelo convencimento de uma maioria&#8221;.</span> <span style="color: #008000;">Gera um conceito bem largo de marketing. </span></p>
<p>A democracia é, na sua face sombria, um regime da mentira de massa. Quando essa mentira de massa é contra nós, reclamamos.</p>
<p><span style="color: #008000;">Quando a democracia torna-se um &#8220;regime da mentira de massa&#8221;, continua democracia? Não seria justamente o totalitarismo, na sua face transparente, um </span><span style="color: #008000;"> &#8220;regime da mentira de massa&#8221;? Se a hipocrisia é intrínseca à democracia, totalitarismo também não o seria?  O medo de que a democracia seja o embrião do totalitarismo é um medo das extremas, estando presente tanto na extrema-direita, como na extrema-esquerda. Nos extremos, é muito sedutora  a crítica catastrofista que procura demonstrar que, aquilo que parecia ser uma emancipação (a democracia, por exemplo), escondia no fundo uma nova forma de tirania, um totalitarismo. Aliás, para muitos neocons, qualquer  processo de democratização, tipo democracia participativa, desembocaria necessariamente numa sociedade totalitária.<br />
</span></p>
<p>Não há nada de evidentemente justo em termos morais ou de moralmente &#8220;avançado&#8221; na legalização do aborto. O que há de evidente em termos morais é a desumanização do feto como processo retórico (exemplo: &#8220;Feto não é gente&#8221;) e a defesa de uma forma avançada de &#8220;safe sex&#8221;: &#8220;Quero transar com a &#8220;reserva de comportamento legal&#8221; a meu favor. Se algo der errado, lavo&#8221;.</p>
<p><span style="color: #008000;">O filósofo não fala da descriminalização do aborto e sim da sua legalização. Da sua perspectiva, seriam a mesma coisa. Seu argumento moral não permite discussão, pois inquestionável e evidente por si mesmo. O feto é uma pessoa, o feto é humano, o feto é gente &#8212; e o embrião, a mórula e a blástula? São afirmações baseadas em valores &#8212; nem toda religião pensa assim, nem todo mundo entende dessa forma. </span></p>
<p><span style="color: #008000;">E, claro, &#8220;safe sex&#8221; é papo de mulher cabeça em jantar com pessoas inteligentes. No fundo, engravidar é um destino, afinal, a vida </span><span style="color: #008000;">a deus </span><span style="color: #008000;">pertence. A vida não pode ser uma escolha.<br />
</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Pondé quis, incialmente, desvencilhar-se da religião. Os argumentos teológicos, como sabemos, não vogam nos jantares inteligentes. Mas por que diabos tenho a nítida impressão de que seus argumentos têm um fundo religioso? &#8220;Feto não é gente?&#8221; não parece com &#8220;feto tem uma alma&#8221;?</span></p>
<p>E não me venham com &#8220;questão de saúde pública&#8221;. Esgoto é questão de saúde pública. A defesa do aborto nessas bases é apenas porque o aborto legal é mais barato. Resumindo: &#8220;Safe sex, cheap babies&#8221;. E não me digam que o feto &#8220;é da mulher&#8221;. O feto &#8220;é dele mesmo&#8221;. E não me digam que &#8220;todo o mundo avançado já legalizou o aborto&#8221;, porque esse argumento só serve para quem &#8220;ama a moda&#8221; e teme a solidão.</p>
<p><span style="color: #008000;">Aqui, o cabra arretou-se e se tornou vulgar. Um milhão e tanto de abortos anuais tornaram-se&#8230; esgoto. Um filósofo, que não precisa de religião para viver, precisa responder, infelizmente, à singela questão: o que fazer com esse número astronômico de abortos? Jogar no esgoto? Nenhuma novidade, pois é o que fazem nos abortos clandestinos.</span> <span style="color: #008000;">A visão de Pondé sobre saúde pública restringe-se ao lixo de sua casa!</span></p>
<p><span style="color: #008000;">(curioso, nos jantares inteligentes do filósofo, tem gente que defende o aborto por meio de argumentos econômicos. Serão tucanos? Gente inteligente da PUC?)<br />
</span></p>
<p><span style="color: #008000;">O feto não é da mulher. É dele mesmo. Como o feto se dispõe a si mesmo? Ah, claro, feto é pessoa (por que não admite logo que feto tem uma alma, já que a vida pertence a deus?). Vai, rapaz, diz logo o cerne de seu argumento.</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Pondé confunde de propósito três realidades bem diferentes: embrião, feto e pessoa. Não existe pessoa embrionária, nem pessoa fetal. O que temos, na verdade, é embrião de pessoa e feto de pessoa. Há dignidade moral tanto no embrião, como no feto, mas não teriam um direito moral e legal do mesmo naipe que a dignidade de uma pessoa já nascida &#8212; porque a pessoa é uma pessoa e não um embrião ou um feto.<span style="color: #008000;"> Foi a percepção de que o feto não é uma pessoa, inclusive, que balizou a </span></span><span style="color: #008000;">decisão Roe vs. Wade, da Suprema  Corte dos EUA, declarando</span> <span style="color: #008000;">inconstitucionais, </span><span style="color: #008000;"> em 1973, </span><span style="color: #008000;">muitas leis que  proibiam o aborto.</span></p>
<p><span style="color: #008000;">A moda seria a laicidade? Por que as sociedades laicas descriminalizaram e legalizaram o aborto? Certamente, porque temem a solidão.<br />
</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Depois de jantares inteligentes, o que mais detesto é mistura de judaísmo e cristianismo travestido de irmão gêmeo do niilismo.</span></p>
<p>Não pretendo desqualificar a angústia de quem vive esse drama. Longe de mim! Mas em vez de gastarmos tanta &#8220;energia social&#8221; na defesa do aborto, por que não usarmos essa energia para recebermos essas crianças indesejadas? Vem-me à mente dois exemplos, aparentemente de campos &#8220;opostos&#8221;. Deveríamos aprender com a Igreja Católica e seu esforço de criar redes de recepção dessas crianças, aparando as mães em agonia e seus futuros filhos à beira da morte. Por outro lado, são tantos os casais gays masculinos (os femininos sofrem menos porque dispõem de &#8220;útero próprio&#8221;) que querem adotar crianças e continuamos a julgá-los, equivocadamente, penso eu, incapazes do exercício do amor familiar.</p>
<p><span style="color: #008000;">Claro, o filósofo não pretende desqualificar a mulher que aborta. Logo abaixo, diz que aborto é homicídio, logo, qualificou a mulher que aborta como criminosa. A mulher que aborta&#8230; Por que tantas mulheres, independentemente de suas crenças religiosas, abortam? Por que Pondé não fica perplexo com essa pergunta? Ora, porque não está nem aí com as abortistas criminosas. Uma questão desse tipo seria desqualificada como uma pergunta de &#8220;saúde pública&#8221;, logo, de esgoto.</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Mas Pondé avança, é inegável. Defende o casamento gay e a adoção de crianças por parte de casais homossexuais masculinos e femininos. O que salva o neocon é a incoerência &#8212; ufa!</span></p>
<p>Sou contra a legalização do aborto porque o considero um homicídio. Muita gente não entende essa implicação lógica quando supõe que seriam razoáveis argumentos como: &#8220;A legalização do aborto permite a escolha livre. Se sou contra, não faço. Se minha vizinha for a favor, ela faz&#8221;.</p>
<p>Agora, substitua a palavra &#8220;aborto&#8221; pela palavra &#8220;homicídio&#8221;, como fica o  argumento? Fica assim: &#8220;A legalização do homicídio permite a escolha  livre. Se sou contra, não faço. Se minha vizinha for a favor, ela faz&#8221;.</p>
<p><span style="color: #008000;">Pronto, enfim, Pondé disse a que veio. Aborto é crime. Sendo assim, gostaria de escutar as consequências do argumento: a prisão de um milhão e tanto de mulheres que abortam todo ano. E de seus cúmplices criminosos: médicos, enfermeiras, padres, freiras, namorados, maridos, amantes, pais, irmãos e irmãs, amigas e amigos, e o papagaio de casa, o pior de todos &#8212; todos deverão ser presos. Cadê a ICR defendendo um PAC para a construção de milhares de presídios no Brasil?</span> <span style="color: #008000;">Pois aborto não é uma questão de esgoto e sim de cadeia.</span></p>
<p>Quem é a favor do aborto não o é por razões &#8220;técnicas&#8221;, mas por &#8220;gosto&#8221; ideológico.</p>
<p><span style="color: #008000;">Sim, por gosto ideológico. Mas qual é a ideologia do filósofo? Existem várias ideologias numa sociedade aberta, pluralista e democrática. Existem várias posições sobre o sentido da vida nessa sociedade. Qual é a posição verdadeira? Aliás, quem decide sobre a verdade dos valores? A Igreja? Já foi o tempo, felizmente. Numa sociedade laica, ninguém decide sobre a verdade dos valores. O Estado laico não decide sobre o sentido da vida, e sim garante a tolerância e a convivência entre as pessoas e suas visões de mundo. O sentido da vida é uma questão privada, <em>quanto à sua verdade. </em>Por isso, a descriminalização do aborto é uma óbvia questão laica (não significa que não existam regras e limites, claro). Criminalizar o aborto é uma interferência do Estado numa questão de valor: o sentido da vida. É criminalizar pessoas e suas visões de mundo. </span></p>
<p><span style="color: #008000;">Sim, posso afirmar, agora, diante de convivas inteligentes, o óbvio: o aborto, numa sociedade laica, é uma escolha. Uma moda, segundo o filósofo.<br />
</span></p></blockquote>
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		<title>Descriminalização</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Oct 2010 12:06:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[1987]]></category>
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		<category><![CDATA[Saint-Just]]></category>

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		<description><![CDATA[Sessão habitual no júri da Comarca de São Lourenço da Mata
A discussão do aborto é complexa e, sendo utilizada para fins eleitorais, torna-se rasa e redutora. Além do mais, foi capturada pelo que tem de mais atrasado no cristianismo. As posições da Igreja Católica não se reduzem, por exemplo, às posições oficiais do Vaticano. Existem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_5121" class="wp-caption alignnone" style="width: 490px"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/10/thermidor.jpg"><img class="size-full wp-image-5121" title="thermidor" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/10/thermidor.jpg" alt="" width="480" height="330" /></a><p class="wp-caption-text">Sessão habitual no júri da Comarca de São Lourenço da Mata</p></div>
<p>A discussão do aborto é complexa e, sendo utilizada para fins eleitorais, torna-se rasa e redutora. Além do mais, foi capturada pelo que tem de mais atrasado no cristianismo. As posições da Igreja Católica não se reduzem, por exemplo, às posições oficiais do Vaticano. Existem outras posições menos dogmáticas, sem a mania fundamentalista de ler a Bíblia de forma literal.</p>
<p>Não vejo problema de que, numa eleição, discuta-se sobre o aborto. O eleitor precisa conhecer as posições dos candidatos. O que lamento, na verdade, é a instrumentalização da discussão e sua captura pelo fundamentalismo cristão, somando-se à pusilanimidade dos candidatos, apavorados com a possível perda de votos, caso externassem sua verdadeira posição. Assim, todos rezam, todos beijam o crucifixo &#8212; hipocrisia.</p>
<p>Pesquisando no meu baú, procurava documentos contra a hipocrisia. De tanto procurar, achei uma velha entrevista da mãe de todas as mães, dos idos de 1987, concedida a um jornal do Ministério Público de Pernambuco. Uma entrevista bombástica, avançadíssima para a época, ainda mais num meio tão conservador como o Ministério Público. Transcrevi a parte relativa à querela do aborto &#8212; uma dia, transcrevo toda, porque é bastante atual, principalmente para os jovens carolas e reacionários dos dias de hoje.</p>
<p>Era o aniversário de 40 anos do jornal &#8220;Publicandum&#8221;. Tiveram a ideia de publicar, entre outras matérias, uma entrevista com um colega do ministério. Foi feito uma votação entre os pares e escolheram, logo quem, meu Deus, a Saint-Just da  Comarca de São Lourenço da Mata, onde as sessões de júri eram mais populares do que a missa de domingo e um jogo do Santinha.</p>
<p>No baú, encontrei histórias explosivas dessa época, quando a região queimava seus criminosos nas labaredas da Salvação Pública. Um dia, conto mais.</p>
<p>O espantoso da discussão abaixo é que, desde aquela época, a situação mudou muito pouco, quase nada.</p>
<p>Lá vai:</p>
<blockquote><p><strong>PUBLICANDUM, ANO II, Nº3 &#8211; ASSOCIAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE PERNAMBUCO, JULHO/DEZEMBRO 1987, EDIÇÃO 40 ANOS</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>CONHECENDO A COLEGA MAUD</strong></p>
<p>(Entrevista com Maud Fragoso de Albuquerque Perrusi, titular da 1ª Promotoria de Justiça da, Pernambuco, com exercício na Assessoria Técnica da Procuradoria Geral da Justiça).</p>
<p>1)&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</p>
<p><strong>14)  O aborto deve ser ou não descriminalizado?</strong></p>
<p><strong> </strong>A questão é muito complexa, pois, para melhor respondê-la, teríamos que buscar as razões da criminalização do aborto, sejam elas religiosas, econômicas, demográficas ou políticas.</p>
<p>Não podemos ignorar, por exemplo, a forte influência entre nós da Igreja Católica atual que, conservando a tradição cristã-judaica, condena o aborto sob o argumento de que o feto representa o testemunho de Deus, sendo, portanto, sua eliminação, um atentado à vida e a Deus, seu criador.</p>
<p>Por outro lado, a nossa política governamental, que se reflete na legislação penal, sempre foi repressiva a propósito do direito ao aborto. Em outros termos, a ideologia pequeno-burguesa, fortemente influenciada pela Igreja e cujos efeitos se fazem sentir na massa popular, envolve o aborto de toda a sorte de preconceitos da moral tradicional, a começar pelo sentimento de culpa e de pecado incutido pela Igreja na consciência feminina, se a mulher parte para a solução dramática do aborto.</p>
<p>O anteprojeto da parte especial do Código Penal traz algumas modificações a respeito do aborto. Ao invés de exclusão de punição, o “aborto necessário”, o “sentimental” e, agora o “piedoso” que, na verdade, é o aborto “eugênico”, passam a não constituírem crime.</p>
<p>Tendo em vista essas propostas de modificações a respeito da legislação do aborto, vemos que a tendência é no sentido de sua descriminalização. E não podemos ser contrários a esse fato, que reflete a nossa própria realidade.</p>
<p>Entretanto, isso não significa passar de repente a uma total descriminalização do aborto. Passaríamos, primeiramente, por uma política de conscientização da natalidade para que o aborto não seja visto como um meio contraceptivo. Em seguida, teríamos que cercar esse “direito ao aborto” de medidas prévias, como as que existem em países desenvolvidos, a exemplo da França, onde o “aborto precoce”, possível até a décima semana de gestação e somente praticado por médico, é precedido de estudos médico-psicológico e social que, se favoráveis, possibilitam a sua realização em hospital público ou privado, este, com autorização de funcionamento segundo o Código de Saúde Pública.</p>
<p>Essas modificações legislativas, no nosso país, visando a descriminalização do aborto, não implicarão no aumento do número de abortos realizados atualmente. Vale salientar que as práticas abortivas feitas, clandestinamente, somente favorecem a classe que tem meios econômicos para enfrentar o problema, em boas condições sanitárias.</p>
<p>A lei não pode, pois, ignorar esse fato e insistir nessa injustiça de classe. Ao contrário, a lei, para não se distanciar cada vez mais da realidade, deve tentar desmascarar essa hipocrisia.</p></blockquote>
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