Os Marcadores
11 de março de 2010, às 22:35hOs gays venceram. Sei, é uma frase retumbante e, admito, um tanto exagerada. Mas venceram — o que posso fazer, senão reconhecer o fato?! Numa linguagem gramsciana, impuseram sua hegemonia. Marcaram posição em todos os campos da masculinidade; aliás, a masculinidade é, agora, uma circunstância indefinível que existe de forma ambígua. O espaço da virilidade é um campo minado por minas cor-de-rosa. Um passo em falso, principalmente para trás, meu chapa, pode ser fatal. Não marque bobeira, pois bobo, você já é, e muito! O perigo de sofrer gozações extremas é alto. A autoestima pode baixar de vez, durante muito tempo.
Reparem no venerável bigode, símbolo máximo de todos os simbolismos homínidas. É gay! Hoje, um ostrogodo, um godo do leste, seria confundido com um visigodo, um godo do oeste – para um bom entendedor, basta. Digo mais: atualmente, é comum confundir o brado de reconhecimento de um chefe corso com um… javali! A confusão é grande, sem dúvida. Por isso, tentei alertar Perrusi Pai sobre a ambiguidade contemporânea do bigode:
_Rapaz, cuidado com o bigode.
_Bigode?! Quem é bigode?!
_Os pêlos que nascem sobre o lábio superior, meu pai.
_Ah, pensei que fosse Bigode, da seleção de 50.
_Não, não…
_E daí, o bigode?
_Sabe como é que é, né?!
_Não, não sei como é que é.
_Freddie Mercury matou o bigode.
_Matou?!
_Não, não é isso. Quero dizer que Freddie Mercury usava um baita de um bigode.
_O que é que tem?
_Nada, só estou dizendo.
_E quem é Freddie Mercury?!
_Deixa pra lá…
Meu pai não sabe do perigo, coitado.
Os gays tomaram conta do corpo masculino. O corpo, deles e ninguém tasca, porque viram por último. A virilidade foi desconstruída, ou melhor, desmilinguiu-se a tal ponto que virou um atributo… gay. A situação ficou paradoxal, pois ser efeminado também é… gay. O que nos restou? Gordura, muita gordura; um gosto pronunciado pela fritura; uma barriga imensa de cerveja; muita vulgaridade e insensibilidade; uma inhaca entranhada; muito peido e muito arroto. Sim, notei que peidar e arrotar muito é o cúmulo da heterossexualidade.
Atualmente, por exemplo, comprar uma roupa tornou-se uma demarcação de território. Depois de um tempão sem comprar roupas, mas preocupado com a minha imagem — o que, convenhamos, é uma preocupação sujeita a questionamentos — pedi a um amigo, que é um entendido da teoria queer, que fizesse uma lista de marcadores. O que é um marcador? Ora, é um sinal qualquer na roupa, esbravejando sua condição gay. É um termo da moda, muito importante, no momento, nas classificações sociais. Sendo uma construção social, o marcador muda o tempo todo.
Daí a noia, tá ligado?! Tem que ficar antenado nas mudanças. Mas, na hora da compra, não se pode relativizar um marcador. Há um marcador na roupa? Decida-se, meu chapa, ou saia do armário de vez ou não leve a roupa.
Assim, muito gentil, meu amigo me deu uma exaustiva lista de 150 marcadores.
_150?! Como, 150?! – gritei, surpreso.
_E olhe que fui comedido – disse meu amigo, dando uma rápida piscadela.
_Mas é impossível encontrar uma roupa que não tenha pelo menos um desses marcadores!
_Quase impossível. Fique sem roupa, queridinho, ande nu – deu mais outra piscadela.
_Veja, pare com essas piscadelas, que você me deixa nervoso. Fiz um pedido de amigo. Não me complique.
_Tá certo. Mas roupa agora é assim. Aliás, roupa boa é assim. Se quiser sem marcador, vá na Renner, na Riachuelo ou C&A.
_Eu sempre compro lá mesmo. Só que, agora, queria uma roupa um pouco mais cara e boa. Que tal a Seaway?
_Nossa, totalmente gay!
_Roupa cara ou a Seaway?!
_As duas…
_Certo, certo, não quero mais roupa cara, só uma um pouco melhor. Mas a Seaway não é uma loja de surfista?
_Surf agora é moda gay. Aquela prancha, aqueles corpos… – e, sem querer, deu uma piscadela.
_Cacetada! Antigamente, surfista, no máximo, era maconheiro.
_Maconha é bi!
_Aaah…
Fiquei pensando. Onde comprar roupas, afinal?! Roupas sem um dos 150 marcadores. De repente, encontrei o lugar, a loja onde compraria minhas camisas:
_E a Hering?
Ele pensou, pensou, fez beicinho, e disse:
_Huum, e aqueles dois peixinhos? Peixinho é tão gay…
_Os peixinhos são HTs. Um casal HT. E não têm marcadores, naquelas camisas básicas.
_Tem baby-look.
_Não compro baby-look.
_Ah, então, pode. Compre aquelas camisas “polo”, horrorosas e sem graça.
_Isso, camisa polo. Adoro camisa polo.
_Cuidado com a cor.
_Quais são as cores que não são marcadores?
_Preto ou cinza. Ou bege.
_Adoro essas cores.
_Gostar de cor é gay, e bege, queria te enganar, é HSH – e deu uma risadinha.
_Detesto cores.
No fundo, ele parecia desapontado. A hegemonia parava ali na Hering e seus peixinhos HTs. Ele sabia que tinha perdido uma batalha. Eu esperava que ele esquecesse da guerra.
Antes de ir embora, soltei um pum barulhento e fedegoso.
Ele detesta quando faço isso…












