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Livro da Semana: o livro dos lobisomens

10 de outubro de 2008, às 22:59h

Livro muito curioso. Na verdade, já conhecia o escritor da obra, o Reverendo Sabine, através do não menos Reverendo Tsé-Tsé.

_É quase meu parente! — disse, orgulhoso.
_Mas você me disse que tinha sangue etrusco — retruquei.
_Etrusco inglês, meu caro.
_Peraí, e isso existe?!
_Fugimos dos romanos, fomos parar na Bretanha, fugimos dos celtas, chegamos nas Ilhas Britânicas e nos misturamos com os pictos.
_Aaah… Mas Sabine não é etrusco, nem picto!
_Mas é inglês! Sendo um descendente de etruscos ingleses, sou parente do clérigo.

Preferi não discutir mais. Pra quê, afinal?!

O Reverendo Tsé-Tsé é especialista em lendas urbanas. Defendeu, na Escola do Vaticano, uma tese sobre a perna cabeluda. Afirmou, mostrando dados empíricos irrefutáveis, inclusive fotos, que a tal perna era, na realidade, o membro tricogênico, compreendido entre o joelho e o tornozelo, de Teresa de Calcutá. O presidente da banca — que ironia — era Ratzinger. Ficou furioso. Depois da defesa, o futuro papa teve uma série de pesadelos com a Madre Beata, todos cabeludos (sei, sei, essa foi infame). Quase excomungou o Reverendo. Achou a lenda da perna cabeluda uma heresia que devia ser olvidada. Depois da defesa, o Reverendo só fala do assunto em privado; publicamente, somente empanturrado de vinho do Santo Ofício.

Inclusive, depois da quinta jarra, muitas vezes, aborda um tema estranho, sem relação com nada, um tanto extemporâneo: lobisomens brasileiros.

_Lobisomem brasileiro é uma onda!
_Por quê? São surfistas?! — perguntei.
_Bem que tua mãe diz que você é um abiscoitado!
_(?!)
_Lobisomem brasileiro não tem glamour, não tem direito à bala de prata, roupas de couro, nem mistério.
_Ah, é?!
_Ah, sim. O coitado vira lobisomem em encruzilhada, chiqueiro e até galinheiro.
_Cacetada, galinheiro é humilhação.
_Pois é, muitas vezes, sai todo sujo de titica de galinha… E não precisa de lua cheia, somente que seja sexta-feira.
_Bem, sexta é melhor do que segunda-feira. Tem todo o final de semana para assombrar.
_Que nada, sua rotina é de lascar: uma noite apenas para percorrer sete cidades, antes de voltar ao lugar donde se transformou em fera abominável. E, se não voltar antes do galo anunciar o dia, vira um pequinês!
_Que horror!
_O lobisomem brasileiro não é produto de feitiço e sim de maldição.
_Convenhamos, isso é muito pior. Tirar feitiço é fácil – é só procurar uma benzedeira lá em Juazeiro do Norte. Maldição é outro papo!
_Maldição é pra vida toda, meu filho.
_E qual é a maldição?
_É herança maldita: o último de uma série de sete filhos, o caçula de sete irmãos, filho de um incesto, ficar dez anos sem confissão, não fazer a comunhão, nascer com os dedos tortos, casar apenas no civil, deixar de receber batismo, ser do PT.
_Deve ter muito lobisomem no Brasil.
_Pra dedéu! Conheço vários. Mas, nem tudo são espinhos na vida de um lobisomem brasileiro, afinal, uma de suas funções é desvirginar donzelas inocentes que passeiam sozinhas pela praia de Intermares.
_Taí uma bela função. Ele se alimenta, por acaso, de tartarugas?
_Não, quem se alimenta disso é VanVan, o cientista cearense.
_Será que Vancarder é um lobisomem?
_Há, de fato, um boato a respeito. Nunca comprovado, aliás. Talvez seja um lobisomem ecochato, o que seria uma vergonha! Mas o lobisomem alimenta-se de fetos, crianças ainda pagãs, adultos, cadáveres, cachorros, bezerros e outros animais pequenos. Ele gosta também de cientista social.
_É mesmo?!
_Tem um gosto de plástico, mas dá pro gasto.
_Como você sabe disso? — perguntei, desconfiado.
_Deixa pra lá. Você não quer saber como se mata um lobisomem brasileiro?!
_Não, quero saber é como você sabe que cientista social tem gosto de plástico.
_Deixe de papo, isso não é importante. Veja, é preciso coragem para matar um lobisomem brasileiro: faz-se uma saudação com a cruz a seis metros do monstro, joga-se água benta nele e, depois, reza-se sete vezes, durante sete noites, com sete velas acessas. Além disso, pode-se dar um tiro certeiro na cabeça do bicho, sem antes esquecer, é claro, de untar a bala com a cera de uma vela queimada em três missas seguidas.
_Não quero saber. Como você sabe que cientista social tem gosto de plástico?

O Reverendo quase rosnou. Deu medo. Não disse nada, mas gesticulou bastante. Saiu da sala esbravejando em baixo aramaico, uma mania antiga. Fiquei pensando… Será que o reverendo era um… Recalquei o pensamento. Algumas verdades precisam ser esquecidas, nem mesmo guardadas. Mas, depois disso, fiquei cabreiro.

Bem, lá vai a orelha do livro:

O reverendo Sabine Baring-Gould é considerado um dos dez maiores escritores britãnicos do século XIX, embora seja mais conhecido por sua prolífica produção de hinos religiosos. O autor também é frequentemente citado como inspirador de Pigmalião, obra-prima de George Bernard Shaw, que, por sua vez, originou o clássico do cinema My Fair Lady.

Mas Baring-Gould também escrevia em profusão, e sua obra literária chamou a atenção de H. P. Lovecraft, mestre do sobrenatural. E não é para menos. Em O Livro dos Lobisomens, o autor lança mão dos anos dedicados ao estudo do foclore bretão para construir um painel rico e detalhado da licantropia.

Abordando temas polêmicos e controversos, este é, até hoje, um dos mais completos e essenciais compêndios sobre os lobisomens e sua mitologia.

PS: o diálogo com o Reverendo Tsé-Tsé inspirou-se do prefácio, escrito por Helena Gomes, do Livro dos Lobisomens — uma jornalista e professora universitária, versada sobre lobisomens e outros mitos fantásticos.

Livro da Semana: Giorgio Agamben – Homo Sacer

8 de setembro de 2008, às 22:35h

Agamben é conhecido como o Foucault italiano. Já li seu livro “Estado de Exceção” — posso dizer que provoca, por isso é interessante. Discuti suas posições num curso da pós-graduação e gerou muita polêmica.

Transcrevo abaixo a orelha do livro Homo Sacer, escrita por Raul Antelo (quem entendê-la é um Homo Estupendi ):

Jean-Luc Nancy define Giorgio Agamben como um agudo flâneur que atravessa, solitário, o campo do pensamento, reparando nos mínimos detalhes. Sua deriva significa pasearse no mundo das coisas.

O próprio Agamben lembra que uma única vez usou Spinoza o vernacular ladino. Foi em Compendium grammatices linguae hebrae para ilustrar que o verbo ativo reflexivo era uma expressão da causa imanente. Pasearse é a palavra espanhola que lhe vem à mente para mostrar uma relativa indecibilidade entre meios e fins, entre atualidade e potencialidade, entre sujeito e objeto. A vertigem da imanência é assim atualizada por um verbo que descreve o movimento infinito da autoconstituição e automanifestação do ser. A vida consiste em pasearse. Alguém muito próximo de Agamben, Guy Débord, fez dessa premissa uma doutrina, a deriva situacionista.

Em Homo Sacer, Agamben se passeia pela vida.  A seu ver, ela não pode mais ser tomada como noção médica ou científica. Os atributos da filosofia e da política (descontando os teológicos, herança benjaminiana muito viva em Agamben) lhe são muito mais específicos. Impossível, portanto, distinguir entre vida animal e humana, entre vida biológica e contemplativa. A vida e a teoria precisam ser pensadas em um novo plano de imanência, o da nuda vita.

Ser um filósofo da imanência, como Spinoza, Nietzsche, Foucault ou Deleuze (com quem aliás escreveu, a  quatro mãoss, um belo ensaio sobre Bartleby), torna Agamben um agudo perscrutador da indecibilidade. Seus ensaios sobre o fim do poema ou o cinema de Débord são eloquentes testemunhos dessa sensibilidade.

Homo Sacer integra uma trilogia com Notas sobre a política e  O que resta de Auchwitz. No segundo volume da série, o ato de pasearse não se detém nem mesmo perante o campo de concentração ou o conceito de povo. Define o povo como uma cisão biopolítica incontornável no mundo contemporâneo: ele é tanto aquilo que não pode ser incluído no todo de que faz parte quanto aquilo que não pode pertencer ao conjunto em que, mesmo assim, permanece, excluído e indesejado. Ettore Finazzi-Agrò viu essa definição de uma não deliberada leitura de Os Sertões. Por múltiplas razões, a imanência de Agamben implica pasearse através de nossa própria vida.