
Cuidado, é uma burrice.
Muitas vezes, a psicologia evolutiva e a economia (elas se encontram nalguns pontos das ciências humanas) apresentam uma vulnerabilidade bem tosca: ao pensarem que são ciências protegidas pelo rigor do método, esquecem que são influenciadas pelo contexto histórico e social. Certa economia, por exemplo, pensa que o indivíduo é uma máquina de calcular competindo com outras máquinas num ambiente de mercado. Matematiza-se a ação racional dessas máquinas e se joga no computador, como simulação. No ambiente virtual, tudo funciona perfeitamente; na vida real, são outros quinhentos. Por isso, essa economia, geralmente afinada com o mundo financeiro, nunca dá uma dentro… Não, não, estou sendo implicante. Essa economia funciona muito bem para ganhar dinheiro (no mercado, até se pode imaginar as pessoas funcionando como máquinas racionais, compulsivamente atrás de grana) — ela é, na verdade, um desastre para prever crises e ajudar o bem comum.
Já certa psicologia social esconde-se atrás da evolução para legitimar crenças morais. Evolução vira “progresso” e, no fundo, uma filosofia moral. Possui um desprezo impressionante pelas ciências sociais, oferecendo respostas fáceis a problemas sociais e históricos complexos, e faz o gosto da mídia — faço a hipótese de que a mídia prefere comumente uma explicação simplista a uma mais complexa, que exigiria mais esforço cognitivo e mais pesquisa.
Leiam aqui, por exemplo, essa pérola sobre a função evolutiva do estupro:
Do ponto de vista evolutivo, ele foi vantajoso para os homens. Pegar mulheres à força permitia que um macho fizesse dezenas, centenas de filhos, coisa que contou pontos no jogo da evolução.
Desse ponto de vista, meus caros amigos, recomendo a prudência, já que, dentro de nós, existe um monstro violador. Aposto que um de vocês, nesse exato instante, teve uma fantasia sexual extremamente violenta. Ahá, peguei você, hein, seu tarado!
Outro exemplo interessante é o estudo de um especialista em psicologia evolutiva da London School of Economics, Satoshi Kanazawa, que tenta demonstrar que
homens inteligentes estão mais propensos a valorizar a exclusividade sexual do que homens menos inteligentes.
Em suma, seu estudo vincula o QI baixo à infidelidade. Leiam aqui. Cito alguns trechos da reportagem:
Kanazawa analisou duas grandes pesquisas americanas a National Longitudinal Study of Adolescent Health e a General Social Surveys, que mediam atitudes sociais e QI de milhares de adolescentes e adultos.
Ao cruzar os dados das duas pesquisas, o autor concluiu que as pessoas que acreditam na importância da fidelidade sexual para uma relação demonstraram QI mais alto.
De acordo com o estudo, o ateísmo e o liberalismo político também são características de homens mais inteligentes.
Evidentemente, ele tem toda razão a respeito do ateísmo. Sou a prova viva dessa constatação
. Errou, claro, em relação ao liberalismo político…
Kanazawa acrescenta, ainda, que o estudo conclui
que o comportamento “fiel” do homem mais inteligente seria um sinal da evolução da espécie
Vejam que o termo “sinal da evolução da espécie” é normativo, significando apenas o sentido comum de “progresso” e de um tipo que implica “evolução moral”. O homem evoluído é um indivíduo liberal, ateu e fiel — moralmente superior, quem sabe. Deve ser anglo-saxão, pelo visto.
Discutindo essa instigante questão numa mesinha de bar, um colega, que não é nem um pouco inteligente, chorava suas tolices. Num instante de lucidez, levantou a seguinte conjetura:
_Os homens de QI mais alto são inteligentes porque nunca foram descobertos.
Fiquei espantado com a hipótese. Kanazawa, do alto de sua inocência positivista, esqueceu-se, talvez, desse pequeno detalhe. Confesso que não quero nem pensar nas consequências evolutivas e morais, caso essa suposição se confirme cientificamente. Fico assim calado. Diante do indizível, é melhor fechar a boca. No fundo, achei o devaneio de meu colega uma temeridade.
De todo modo, mesmo um burro pode ter seus momentos de clarividência. Meu colega sabe que não é inteligente, pelo menos do ponto de vista da psicologia evolutiva, porque pulou feio a cerca e foi pego de maneira vergonhosa. Imaginem, usou seu cartão de crédito num lugar muito, muito suspeito. E tem conta conjunta, a anta. Além do mais, sua mulher é bancária…
Vai ser burro assim no raio que o parta.