<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Blog dos Perrusi &#187; Dos Outros</title>
	<atom:link href="http://www.blogdosperrusi.com/category/dos-outros/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://www.blogdosperrusi.com</link>
	<description>Crônica, política, doidice, o escambau!</description>
	<lastBuildDate>Tue, 07 Feb 2012 19:45:58 +0000</lastBuildDate>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.3.1</generator>

   <image>
    <title>Blog dos Perrusi</title>
    <url>http://0.gravatar.com/avatar/a2e5339eb179f9a959c2aceff1a14b32.png?s=48</url>
    <link>http://www.blogdosperrusi.com</link>
   </image>
		<item>
		<title>Linguagem e cérebro</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2011/01/09/na-ponta-da-lingua/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2011/01/09/na-ponta-da-lingua/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 09 Jan 2011 15:52:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dos Outros]]></category>
		<category><![CDATA[Benjamin Lee Whorf]]></category>
		<category><![CDATA[cérebro]]></category>
		<category><![CDATA[ego]]></category>
		<category><![CDATA[gênero]]></category>
		<category><![CDATA[geografia]]></category>
		<category><![CDATA[guugu yimithirr]]></category>
		<category><![CDATA[Guy Deutscher]]></category>
		<category><![CDATA[língua]]></category>
		<category><![CDATA[linguagem]]></category>
		<category><![CDATA[linguística]]></category>
		<category><![CDATA[matses]]></category>
		<category><![CDATA[mente]]></category>
		<category><![CDATA[percepção]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=5951</guid>
		<description><![CDATA[Gostei muito do artigo abaixo. Fico pensando como nossa língua natural, o português, formata nosso pensamento e nossas percepções.
Não, não quero pensar nisso.
Peguei na FSP.
Na ponta da língua
GUY DEUTSCHER
tradução Paulo Migliacci
SETENTA ANOS atrás, em 1940, uma revista de ciência popular  publicou um artigo curto que deu origem a uma das modas intelec-?tuais  mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gostei muito do artigo abaixo. Fico pensando como nossa língua natural, o português, formata nosso pensamento e nossas percepções.</p>
<p>Não, não quero pensar nisso.</p>
<p>Peguei na <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il0901201104.htm" target="_blank">FSP</a>.</p>
<blockquote><p><span style="font-size: large;"><strong>Na ponta da língua</strong></span></p>
<p><strong>GUY DEUTSCHER</strong><br />
tradução <strong>Paulo Migliacci</strong></p>
<p><strong>SETENTA ANOS</strong> atrás, em 1940, uma revista de ciência popular  publicou um artigo curto que deu origem a uma das modas intelec-?tuais  mais influentes do século 20. À primeira vista, o artigo não prenunciava  a celebridade que viria a adquirir. Nem o título, &#8220;Ciência e  Linguística&#8221;, nem a revista, a &#8220;Technology Review&#8221;, do Instituto de  Tecnologia de Massachu-?setts (MIT), nos EUA, tinham nenhum tipo de  glamour. E o autor, um engenheiro químico que trabalhava para uma  companhia de seguros e ganhava algum dinheiro extra dando aulas de  antropologia na Universidade Yale, era um improvável candidato ao  estrelato intelectual.<br />
Benjamin Lee Whorf, no entanto, teve uma ideia faiscante acerca do poder  da linguagem sobre a mente, e sua prosa sedutora levou toda uma geração  a acreditar que nossa língua materna restringe o que somos capazes de  pensar.</p>
<p><strong>IMAGEM DA REALIDADE</strong> Whorf afirmava, em especial, que os idiomas  dos indígenas norte-americanos impunham a seus falantes uma imagem da  realidade completamente diferente da nossa, e que os falantes dessas  línguas não seriam capazes de compreender alguns de nossos conceitos  básicos, como o fluxo do tempo ou a distinção entre objetos (como  &#8220;pedra&#8221;) e ações (como &#8220;queda&#8221;).<br />
Por décadas, a teoria de Whorf deslumbrou tanto acadêmicos quanto o  público em geral. À sombra de suas ideias, estudiosos apresentaram uma  longa série de argumentos criativos sobre o suposto poder da linguagem,  que variavam da asserção de que &#8220;os idiomas indígenas americanos  conferiam a seus falantes uma compreensão instintiva do conceito de  Einstein sobre o tempo como uma quarta dimensão&#8221; à teoria de que &#8220;a  natureza da religião judaica era determinada pelo sistema de tempos  verbais do hebraico antigo&#8221;.<br />
A teoria de Whorf veio a despencar, sob o peso de fatos concretos e de  um sólido bom senso, quando surgiram sinais de que jamais houve provas  que sustentassem sua fantástica argumentação. A ?reação foi tão dura  que, por décadas, quaisquer tentativas de estudar a influência da língua  materna sobre nossos pensamentos ficaram relegadas aos rincões menos  respeitáveis e mais amalucados do mundo acadêmico.</p>
<p><strong>NOVAS PESQUISAS</strong> Passados 70 anos, porém, é chegada a hora de  superar o trauma com relação a Whorf. Nos últimos anos, novas pesquisas  revelaram que, ao aprendermos nossa língua materna, nós de fato  adquirimos determinados hábitos de pensamento que dão forma às nossas  expe-?riências de maneira significativa, volta e meia surpreendente.<br />
Whorf, como agora sabemos, cometeu muitos erros. O mais grave foi  presumir que a língua materna restringe a nossa mente e inibe a nossa  capacidade de pensar determinados pensamentos. O pilar de sua  argumentação era a alegação de que, se um idioma não tem palavra para  determinado conceito, as pessoas que o falam não são capazes de  compreender o conceito. Se um idioma não tem um tempo verbal futuro, por  exemplo, seus falantes não são capazes de compreender o nosso conceito  de tempo futuro.<br />
É quase incompreensível que essa linha de argumentação tenha conquistado  tamanho sucesso, dado o imenso volume de provas em contrário que surgem  a olhos vistos, por todos os lados. Se você perguntar, em inglês  perfeitamente normal, e no presente, &#8220;você vem amanhã?&#8221;, vai sentir que o  seu domínio do conceito de futuro se esvai? Os anglófonos que jamais  ouviram a palavra alemã &#8220;Schadenfreude&#8221; têm dificuldade para compreender  o conceito de &#8220;alegrar-se com o infortúnio alheio&#8221;?<br />
Ou então pense no seguinte: se o estoque de palavras disponíveis no seu  idioma determina quais conceitos você será capaz de compreender, como é  que você faria para aprender coisas novas?</p>
<p><strong>DIREÇÃO OPOSTA</strong> Já que não existe prova de que qualquer idioma  proíba seus falantes de pensar coisa alguma, é preciso olhar em direção  oposta para descobrir de que maneira nossa língua materna altera nossa  experiência do mundo.<br />
Por volta de 50 anos atrás, o renomado linguista Roman Jakobson  assinalou um fato crucial sobre as diferenças entre idiomas, por meio de  uma máxima incisiva: &#8220;Os idiomas diferem essencialmente naquilo que  devem transmitir, e não naquilo que podem transmitir&#8221;. A máxima nos dá a  chave para compreender a força verdadeira da língua materna: caso  idiomas diferentes influenciem nossa mente de modos diferentes, isso não  acontecerá por causa daquilo que nosso idioma nos permite pensar, e sim  por aquilo que ele costuma nos obrigar a pensar.</p>
<p><strong>AMBIGUIDADE</strong> Considere esse exemplo: suponha que eu lhe diga, em  inglês, que &#8220;I spent yesterday evening with a neighbor&#8221; [Passei a noite  de ontem com um(a) vizinho(a)].<br />
Você pode muito bem especular se a minha companhia era homem ou mulher e  eu posso lhe dizer educadamente que isso não é da sua conta.<br />
Mas se estivéssemos conversando em francês ou alemão, eu não teria o  privilégio de manter essa ambiguidade, porque seria obrigado a escolher,  pela gramática do idioma, entre &#8220;voisin&#8221; ou &#8220;voisine&#8221;, &#8220;Nachbar&#8221; ou  &#8220;Nachbarin&#8221;. Os idiomas me compeliriam a lhe   informar o sexo da pessoa  que me acompanhou na noite passada, ainda que eu considere que isso não  seja da sua conta.<br />
Isso não significa, evidentemente, que os falantes de inglês sejam  incapazes de perceber as diferenças entre noites passadas com vizinhos  ou vizinhas; significa que não precisam levar em conta o sexo de  vizinhos, amigos, professores e de uma série de outras pessoas cada vez  que são mencionados numa conversa, enquanto os falantes de outros  idiomas são obrigados a fazê-lo.</p>
<p><strong>CONTEXTO</strong> O inglês, por sua vez, nos obriga a especificar  determinados tipos de informação que, em outros idiomas, podem ser  deixados para o contexto. Se quero falar, em inglês, sobre um jantar com  alguém que mora na vizinhança, posso não especificar o sexo dessa  pessoa, mas preciso informar sobre o momento do evento: preciso decidir  se jantamos, se estávamos jantando, se íamos jantar e assim por diante.<br />
Já o chinês não obriga seus falantes a especificar dessa maneira o tempo  exato da ação, pois a mesma forma verbal pode ser usada para ações  presentes, passadas ou futuras. Uma vez mais, isso não significa que os  chineses sejam incapazes de compreender o conceito de tempo. Significa  que não precisam pensar no tempo ao descrever uma ação.<br />
Nos casos em que o seu idioma rotineiramente o obriga a especificar  certos tipos de informação, ele o força a prestar atenção a certos  detalhes e a certos aspectos da experiência nos quais falantes de outros  idiomas talvez não sejam forçados a pensar o tempo todo. E uma vez que  esses hábitos de fala são cultivados desde cedo, é natural que se tornem  hábitos mentais, que vão além do idioma e afetam experiências,  percepções, associações, sentimentos, memórias e orientação no mundo.<br />
Mas há provas de que isso aconteça na prática?</p>
<p><strong>GÊNEROS</strong> Voltemos aos gêneros. Línguas como espanhol, francês,  alemão e russo não só obrigam o falante a pensar no sexo de amigos e  vizinhos como associam os gêneros masculino ou feminino a objetos  inanimados, sob critérios muitas vezes arbitrários. O que, por exemplo,  existe de especialmente feminino na barba (&#8220;la barbe&#8221;) de um francês?  Por que a água russa é feminina, e por que ela se torna &#8220;ele&#8221; quando  colocam um saquinho de chá lá dentro?<br />
Mark Twain escreveu uma famosa diatribe sobre o comportamento errático  dos gêneros, reclamando das tulipas no feminino e das virgens no gênero  neutro, em &#8220;The Awful German Language&#8221; [A Horrível Língua Alemã]. Embora  Twain tenha argumentado que existe algo de particularmente perverso no  sistema de gêneros do idioma alemão, é o inglês, na verdade, que se  mostra incomum, ao menos entre as línguas europeias, por não tratar  tulipas e chás como masculinos ou femininos.<br />
Idiomas que tratam objetos inanimados como &#8220;ele&#8221; ou &#8220;ela&#8221; forçam seus  falantes a se referir a esses objetos como se fossem homens ou mulheres.  E, como poderia lhe dizer qualquer pessoa cuja língua materna faça  distinções de gênero, quando o hábito pega, é impossível abandoná-lo.  Quando falo inglês, refiro-me a uma cama em gênero neutro, dizendo que  &#8220;it&#8221; é bem macia; sendo porém o hebraico minha língua materna, sinto que  &#8220;ela&#8221; é bem macia, na verdade. &#8220;Ela&#8221; se mantém no feminino por todo o  caminho, dos pulmões à glote, e só se torna neutra ao chegar à ponta da  língua.</p>
<p><strong>ASSOCIAÇÕES</strong> Nos últimos anos, diversas experiências demonstraram  que os gêneros gramaticais são capazes de influenciar sentimentos e  associações dos falantes em relação aos objetos que os cercam. Na década  de 90, por exemplo, psicólogos compararam as associações entre falantes  de alemão e espanhol. Há muitos substantivos inanimados cujos gêneros  se invertem de um idioma para outro. No alemão, uma ponte (&#8220;die  Brücke&#8221;), por exemplo, é feminina, mas &#8220;el puente&#8221; é masculino em  espanhol; o mesmo vale para relógios, apartamentos, garfos, jornais,  bolsos, ombros, selos, ingressos, violinos, o sol, o mundo e o amor.<br />
Já para os alemães uma maçã é masculina, mas feminina para os espanhóis;  o mesmo vale para cadeiras, vassouras, estrelas, mesas, guerras, chuva e  lixo. Quando os falantes foram convidados a classificar os objetos  segundo características diversas, os espanhóis definiram pontes,  relógios e violinos como portadores de mais &#8220;propriedades másculas&#8221;,  como a força, enquanto os alemães tendiam a vê-los como mais esguios ou  elegantes. No caso de objetos como cadeiras ou mesas, que são &#8220;ele&#8221; no  alemão e &#8220;ela&#8221; em espanhol, o efeito se inverte.</p>
<p><strong>VOZES</strong> Em outra experiência, falantes de espanhol e francês foram  convidados a associar vozes humanas a diversos objetos que apareciam num  desenho animado. Quando os franceses viam a imagem de um garfo (&#8220;la  fourchette&#8221;), a maioria preferia atribuir ao objeto uma voz feminina; já  os espanhóis, para os quais &#8220;el tenedor&#8221; é masculino, preferiam lhe  conferir voz masculina e rouca.<br />
Mais recentemente, psicólogos conseguiram demonstrar que os &#8220;idiomas com  gêneros&#8221; imprimem na mente de seus usuários os traços de gênero dos  objetos com tamanha força que essas associações chegam a obstruir a  capacidade do falante para armazenar informações na memória.<br />
É evidente que nada disso significa que falantes de espanhol, francês ou  alemão sejam incapazes de compreender que objetos inanimados não têm  sexo biológico -uma mulher alemã raramente confunde seu marido com um  chapéu, e homens espanhóis não confundem a cama com algo que possa estar  deitado nela. Mesmo assim, uma vez que as conotações de gênero foram  impressas em mentes jovens e impressionáveis, farão com que falantes de  idiomas dotados de gêneros vejam o mundo inanimado por lentes coloridas  de associações emocionais que os anglófonos -aprisionados em seu  monocromático deserto de &#8220;its&#8221;- ignoram completamente.<br />
Será que os gêneros opostos de &#8220;ponte&#8221; em alemão e espanhol, por  exemplo, influenciaram de alguma forma os projetos de pontes na Espanha e  na Alemanha? Será que os mapas emocionais impostos pelo sistema de  gêneros têm maiores consequências comportamentais em nossa vida  cotidiana? Influenciarão preferências, modas, hábitos e gostos?<br />
No estado atual do conhecimento sobre o cérebro, não se trata de algo  que possa ser mensurado com facilidade num laboratório de psicologia.  Mas seria surpreendente que não influenciassem.</p>
<p><strong>LINGUAGEM ESPACIAL</strong> A área que viu surgirem as provas mais  notáveis da influência dos idiomas no pensamento é a linguagem espacial  -como descrevemos a orientação do mundo em redor.<br />
Suponha que você queira explicar a alguém como chegar à sua casa.  Poderia dizer &#8220;depois do sinal, vire na primeira à esquerda, depois na  segunda à direita; você vai dar numa casa branca, nossa porta é a da  direita&#8221;. Mas, em tese, também poderia dizer &#8220;depois do sinal, siga para  o norte, depois vire a leste no segundo cruzamento e, quando vir uma  casa branca a leste, a nossa será a porta sul&#8221;.<br />
São dois conjuntos de instruções que descrevem a mesma rota, mas  dependem de diferentes sistemas de coordenadas. O primeiro emprega  coordenadas &#8220;egocêntricas&#8221;, que dependem do nosso corpo: o eixo  direita-esquerda e o eixo frente-trás, disposto de maneira ortogonal com  relação ao outro. O segundo sistema emprega coordenadas geográficas  fixas, que não nos acompanham quando nos viramos.<br />
É útil adotar coordenadas geográficas para caminhar em campos abertos,  por exemplo, mas as coordenadas egocêntricas dominam completamente a  nossa fala quando descrevemos espaços em pequena escala. Não dizemos:  &#8220;Quando sair do elevador, caminhe para o sul e bata na segunda porta a  leste&#8221;.<br />
A razão para que o sistema egocêntrico seja tão dominante em nossa  linguagem é que parece mais fácil e mais natural. Afinal, sempre sabemos  onde ficam &#8220;frente&#8221; e &#8220;trás&#8221;. Não precisamos de mapa ou bússola para  compreender; basta sentir, pois as coordenadas egocêntricas se baseiam  diretamente em nosso corpo e nosso campo visual imediato.</p>
<p><strong>GUUGU YIMITHIRR</strong> Mas então foi descoberto um remoto idioma  aborígine australiano, o guugu yimithirr, do norte de Queensland, e com  ele a perturbadora constatação de que nem todos os idiomas se conformam  ao que invariavelmente tomamos como &#8220;natural&#8221;. O guugu yimithirr não usa  de modo algum as coordenadas egocêntricas. O antropólogo John Haviland  e, mais tarde, o linguista Stephen Levinson demonstraram que o guugu  yimithirr não emprega palavras como &#8220;direita&#8221;, &#8220;esquerda&#8221;, &#8220;frente&#8221; ou  &#8220;trás&#8221; para descrever a posição de objetos.<br />
Nos casos em que costumamos usar o sistema egocêntrico, o guugu  yimithirr emprega os pontos cardeais. Se a ideia é que você abra um  pouco mais de espaço no banco do carro, um falante de guugu yimithirr  dirá &#8220;vá um pouquinho para leste&#8221;. Para dizer onde exatamente deixou um  objeto em casa, ele dirá &#8220;deixei na ponta sul da mesa oeste&#8221;. Ou  alertará:<br />
&#8220;Cuidado com aquela formigona bem ao norte do seu pé&#8221;. Mesmo quando veem  um filme na TV, descrevem-no com base na orientação da tela. Se a TV  estivesse voltada para o norte e um homem na tela se aproximasse, eles  diriam que ele está &#8220;vindo rumo ao norte&#8221;.</p>
<p><strong>PESQUISA</strong> Quando essas peculiaridades do guugu yimithirr foram  descobertas, inspiraram um projeto de pesquisa em larga escala sobre a  linguagem espacial. E isso deixou claro que o guugu yimithirr não  representa uma ocorrência excepcional; idiomas que se valem  primordialmente de coordenadas geográficas estão espalhados mundo afora,  da Polinésia ao México, da Namíbia a Bali.<br />
Para nós, poderia parecer o cúmulo do absurdo que uma professora de  dança dissesse &#8220;erga sua mão norte e mova sua perna sul para o leste&#8221;.  Mas algumas pessoas não perceberiam a piada: Colin McPhee, musicólogo  canadense-americano que passou muitos anos em Bali na década de 30,  conta a história de um menino que mostrava grande talento para a dança.  Como não havia professores em sua aldeia, McPhee conseguiu que um  instrutor de outra aldeia aceitasse o garoto.<br />
Quando visitou a aldeia para verificar como estava indo o estudo, o  menino estava desanimado, e o professor, irritado. Quando instruído a  dar &#8220;três passos para o leste&#8221; ou &#8220;se curvar para o sudoeste&#8221;, ele não  sabia o que fazer. Em sua aldeia natal, instruções assim não seriam  problema, mas, como a paisagem na nova aldeia lhe era completamente  desconhecida, ele ficava desorientado e confuso.<br />
Por que o instrutor não empregou outro método de instrução? Ele  provavelmente responderia que dizer &#8220;dê três passos para a frente&#8221; ou  &#8220;curve-se para trás&#8221; seria o cúmulo do absurdo.</p>
<p><strong>FALAR E PENSAR</strong> Assim, idiomas diferentes nos fazem falar sobre o  espaço de jeitos muito diferentes. Mas será que isso realmente significa  que pensamos sobre o espaço de forma diferente? É preciso cautela,  pois, mesmo que uma língua não tenha uma palavra como &#8220;para trás&#8221;, isso  não significa necessariamente que seus falantes sejam incapazes de  compreender esse conceito.<br />
Em vez disso, devemos procurar as possíveis consequências daquilo que as  linguagens geográficas obrigam seus falantes a expressar. Devemos ficar  especialmente atentos a quais hábitos mentais podem ser desenvolvidos  pela necessidade de especificar direções geográficas o tempo todo.<br />
A fim de falar um idioma como o guugu yimithirr, a pessoa precisa saber  onde estão os pontos cardeais a cada momento de sua vida. É preciso ter  uma bússola mental que opere o tempo todo, dia e noite, sem pausas para o  almoço ou folgas em fins de semana, pois, de outra forma, a pessoa não  seria capaz de comunicar as informações mais básicas nem de compreender o  que os outros dizem.</p>
<p><strong>SENSO DE ORIENTAÇÃO</strong> Os falantes de idiomas geográficos ?realmente  parecem dotados de um senso de orientação quase sobre-humano. A  despeito das condições de visibilidade, estejam em mata fechada ou  planície aberta, em ambientes abertos ou cobertos, e até mesmo no  interior de cavernas, parados ou em movimento, eles têm um senso de  direção infalível.<br />
Não param para olhar o sol antes de dizer que &#8220;tem uma formiga ao norte  do seu pé&#8221;. Apenas sentem onde ficam o norte, o sul, o leste e o oeste,  da mesma forma que pessoas com ouvido absoluto sentem qual é cada nota,  sem que precisem calcular os intervalos.<br />
Não faltam histórias sobre o que a nós pareceriam incríveis prodígios de  orientação, mas que entre os falantes de idiomas geográficos são  corriqueiros. Uma delas conta sobre um falante do idioma tzeltal, do sul  do México, que teve os olhos vendados e foi girado em torno de si mesmo  por mais de 20 vezes, numa casa escura. Mesmo vendado e zonzo com os  giros, ele foi capaz de apontar sem hesitação os quatro pontos cardeais.</p>
<p><strong>INDÍCIOS</strong> Como isso funciona? A convenção da comunicação por meio  de coordenadas geográficas compele os falantes a, desde cedo, prestarem  atenção a indícios oferecidos pelo ambiente físico (a posição do sol, o  vento etc.) a cada segundo e a desenvolver memórias precisas sobre suas  mudanças de rumo a todo instante.<br />
Assim, a comunicação cotidiana num idioma geográfico oferece o exercício  mais intenso que se possa imaginar em termos de orientação geográfica  (estima-se que perto de 10% das palavras usadas numa conversa em guugu  yimithirr sejam &#8220;norte&#8221;, &#8220;sul&#8221;, &#8220;leste&#8221; e &#8220;oeste&#8221;, acompanhadas de  gestos manuais precisos).<br />
O hábito de manter consciência da direção geográfica é inculcado desde  muito cedo; estudos demonstram que, nessas sociedades, as crianças já  começam a utilizar direções geográficas aos dois anos, e, aos sete ou  oito, já dominam o sistema. Com um treino tão precoce e intenso, o  hábito logo se torna uma segunda natureza, inconsciente e involuntário.  Quando os falantes de guugu yimithirr foram questionados sobre como  sabiam onde ficava o norte, não foram capazes de explicar, assim como  você não seria capaz de explicar como sabe onde fica &#8220;atrás&#8221;.<br />
<strong>TEMPO</strong> Mas os efeitos de um idioma geográfico vão além, pois o  senso de orientação precisa se estender no tempo e ir além do presente  imediato. Se você fala uma língua do tipo guugu yimithirr, precisa  armazenar todas as suas lembranças tendo os pontos cardeais como parte  do quadro.<br />
Um falante de guugu yimithirr foi filmado enquanto contava aos amigos  uma história de sua juventude, quando seu barco virou em águas  infestadas de tubarões. Ele e uma pessoa mais velha foram apanhados por  uma tempestade, e o barco virou. Os dois saltaram na água e conseguiram  retornar à costa, depois de nadar por uns cinco quilômetros. Ao chegar,  descobriram que o missionário para quem trabalhavam estava mais  preocupado com a perda do barco do que aliviado com o salvamento  milagroso.<br />
Além do teor dramático, o mais notável na história é ter sido recordada  inteiramente com base em orientações geográficas: o narrador saltou para  a água pelo lado oeste do barco, e seu companheiro pelo lado leste;  viram um grande tubarão nadando ao norte; e por aí vai.<br />
Teriam os pontos cardeais sido acrescentados para aquela narrativa  específica? Pois bem, por acaso, a mesma pessoa foi filmada anos mais  tarde, contando a mesma história. Os pontos cardeais bateram  precisamente nos dois relatos. Ainda mais notáveis eram os espontâneos  gestos manuais que acompanhavam a história. Por exemplo, a direção em  que o barco virou foi indicada por um gesto na orientação geográfica  certa, independentemente da direção em que o narrador estivesse nas duas  ocasiões em que foi filmado.</p>
<p><strong>ROTAÇÕES</strong> Experiências psicológicas demonstraram também que, sob  certas circunstâncias, os falantes de idiomas como o guugu yimithirr  chegam a lembrar &#8220;a mesma realidade&#8221; de modo diferente do nosso. Há  debates candentes sobre a interpretação de algumas dessas experiências,  mas uma constatação que parece convincente é a de que, enquanto somos  treinados a ignorar as rotações direcionais ao guardar uma história na  memória, os falantes de idiomas geográficos são treinados a não fazê-lo.<br />
Isso pode ser compreendido ao imaginar que você vai viajar na companhia  de um falante de um idioma geográfico e que os dois vão se hospedar num  hotel de uma grande rede. O seu amigo está no apartamento em frente ao  seu e, se você for ao apartamento dele, verá uma réplica exata: a mesma  porta de banheiro à esquerda, o mesmo guarda-roupa com porta espelhada à  direita, o mesmo quarto de dormir, com a cama à esquerda, uma  escrivaninha idêntica na parede à direita, em cima dela a mesma TV, no  canto esquerdo, e o telefone, no canto direito. Ou seja, você viu o  mesmo quarto duas vezes.<br />
Mas quando o seu amigo entra no seu quarto, vê algo bem diferente, pois  tudo está invertido em sentido norte-sul. No quarto dele, a cama está ao  norte e, no seu, está ao sul; o telefone, no seu quarto, fica a oeste, e  o do amigo, a leste; e por aí vai. Enquanto você vê e se lembra do  mesmo quarto duas vezes, o falante de um idioma geográfico vê e se  lembra de dois quartos diferentes.</p>
<p><strong>GRADE</strong> Não é fácil para nós conceber como os falantes de guugu  yimithirr experimentam o mundo, com uma grade de pontos cardeais  sobreposta a cada imagem mental e a cada porção de memória gráfica.  Tampouco é fácil especular de que modo os idiomas geo-?gráficos afetam  outras áreas de experiência que não a orientação espacial -por exemplo,  se influenciam o senso de identidade de seus falantes, ou se resultam  numa visão de mundo menos egocêntrica.<br />
Mas um indício é revelador: se você vir um falante de guugu yimithirr  apontando para o próprio peito, naturalmente vai presumir que deseja  chamar a atenção para si. Na verdade, ele estará indicando um ponto  cardeal que está às suas costas. Enquanto nós estamos sempre no centro  do mundo e jamais nos ocorreria que apontar em nossa própria direção  pudesse significar outra coisa além de chamar a atenção para nós mesmos,  um falante de guugu yimithirr aponta em sua própria direção para  indicar aquilo que está atrás dele, como se ele fosse ar, e sua  existência, irrelevante.</p>
<p><strong>CORES</strong> De que outras formas o idioma que falamos poderia  influenciar nossa experiência do mundo? Recentemente, uma série de  engenhosos experimentos demonstrou que percebemos até mesmo as cores  pelo filtro de nossa língua materna.<br />
Há variações radicais na maneira pela qual os idiomas dividem o espectro  da luz visível; em inglês, por exemplo, azul e verde são consideradas  cores distintas, mas em muitos idiomas são vistas como tons de uma mesma  cor.<br />
E o fato é que as cores que nosso idioma nos obriga a tratar como  distintas podem refinar nossa sensibilidade puramente visual a  determinadas diferenças de cor na realidade, de modo que nosso cérebro  seja treinado a exagerar a distinção entre nuanças de cor, caso tenham  nomes diferentes em nosso idioma.<br />
Por mais estranho que pareça, a experiência de contemplar um quadro de  Chagall pode depender, em certa medida, de o nosso idioma ter ou não uma  palavra para o azul.</p>
<p><strong>MATSES</strong> Em breve os pesquisadores poderão também iluminar o  impacto da linguagem sobre áreas mais sutis de percepção. Por exemplo,  alguns idiomas, como o matses, do Peru, obrigam seus falantes -feito  rigorosos advogados- a especificar exatamente de que maneira vieram a se  informar sobre os fatos que estão testemunhando.<br />
Você não pode simplesmente dizer que &#8220;um animal passou por aqui&#8221;. É  preciso especificar, usando uma forma verbal diferente, caso tenha sido  por experiência direta (você viu o animal passar), inferência (você viu  pegadas), conjectura (animais costumam passar por ali naquele horário),  ouvir falar ou coisa parecida. Se uma afirmação for feita com a &#8220;cadeia  evidenciária&#8221; incorreta, será tomada como mentira.<br />
Assim, por exemplo, se você pergunta a um homem matse quantas mulheres  ele tem, a menos que elas estejam em seu campo de visão no momento, a  resposta virá no passado, e terá forma semelhante a &#8220;eram duas na última  vez que verifiquei&#8221;.<br />
Afinal de contas, se as mulheres não estiverem presentes, ele não pode  ter certeza absoluta de que não morreram ou fugiram desde a última vez  que as viu, mesmo que apenas cinco minutos antes. Portanto, não pode  testemunhar a situação como fato comprovado, em tempo presente.</p>
<p><strong>ESTUDOS EMPÍRICOS</strong> Será que a necessidade de pensar constantemente  sobre epistemologia, de maneira tão cuidadosa e sofisticada, influencia  as perspectivas de vida dos falantes do idioma ou seu senso de verdade e  causalidade? Quando nossas ferramentas experimentais forem menos  brutas, questões serão levadas a estudos empíricos.<br />
Por muitos anos, a língua materna foi tratada como um &#8220;presídio&#8221; que  restringia a capacidade de raciocinar. Quando se tornou claro que tais  alegações não tinham fundamento, passou-se a considerar que pessoas de  todas as culturas pensam genericamente da mesma maneira.<br />
É um erro, porém, superestimar a importância do raciocínio abstrato em  nossas vidas. Afinal, quantas decisões tomamos a cada dia com base em  lógica dedutiva, comparadas às decisões que tomamos por instinto,  intuição, emoção, impulso ou questões práticas?<br />
Os hábitos mentais que nossa cultura nos instila desde a infância  definem nossa orientação no mundo e nossa resposta emocional aos objetos  com que deparamos, e suas consequências provavelmente vão muito além  daquilo que foi demonstrado de modo experimental até agora.<br />
Podemos não saber ainda como medir essas consequências diretamente, ou  como avaliar sua contribuição para os desentendimentos políticos e  culturais. Mas, como primeiro passo para nos compreendermos uns aos  outros, seria melhor não fingirmos que pensamos todos da mesma forma.<br />
<strong></strong></p></blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2011/01/09/na-ponta-da-lingua/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>El legado de Néstor Kirchner</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2010/11/04/el-legado-de-nestor-kirchner/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2010/11/04/el-legado-de-nestor-kirchner/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 04 Nov 2010 14:26:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dos Outros]]></category>
		<category><![CDATA[Argentina]]></category>
		<category><![CDATA[esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Laclau]]></category>
		<category><![CDATA[legado]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
		<category><![CDATA[Néstor Kirchner]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=5445</guid>
		<description><![CDATA[
Artigo de Ernesto Laclau sobre a morte de Néstor Kirchner, ex-presidente argentino. Para a esquerda argentina, foi um desastre. Pesquei aqui.
A medida  que los días vayan pasando, el país comprenderá crecientemente las  verdaderas dimensiones de la tragedia que representa para los argentinos  la súbita desaparición de Néstor Kirchner. Con él hemos perdido [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/11/kirchner.jpg"><img class="size-full wp-image-5446 aligncenter" title="kirchner" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/11/kirchner.jpg" alt="" width="340" height="324" /></a></p>
<p>Artigo de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Ernesto_Laclau" target="_blank">Ernesto Laclau</a> sobre a morte de Néstor Kirchner, ex-presidente argentino. Para a esquerda argentina, foi um desastre. Pesquei <a href="http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/subnotas/156246-50159-2010-11-04.html" target="_blank">aqui</a>.</p>
<blockquote><p>A medida  que los días vayan pasando, el país comprenderá crecientemente las  verdaderas dimensiones de la tragedia que representa para los argentinos  la súbita desaparición de Néstor Kirchner. Con él hemos perdido al  estadista de mayor envergadura que nuestro país haya producido en los  últimos cincuenta años. A él estará siempre ligada la transformación  profunda del Estado que la Argentina experimentara a partir de 2003.</p>
<p>Hay que situarse mentalmente en el umbral de aquel año para advertir  todo lo que ha cambiado. El 2003 no está tan lejano en el tiempo y, sin  embargo, lo que lo precediera parece pertenecer claramente a otra  época. El país venía de una serie de experiencias traumáticas: la  dictadura militar, con la que, en razón de una serie de leyes y  amnistías, la ruptura había sido tan sólo parcial; el neoliberalismo  menemista que, a través de sus privatizaciones y desregulaciones, había  puesto a la Argentina al borde de la bancarrota; el fracaso estrepitoso  del gobierno de la Alianza, que condujo a los estallidos de 2001. Había  un cinismo y un desencanto generalizados respecto de la política, que  encontraría su expresión en el notorio lema “que se vayan todos”.</p>
<p>Ya las movilizaciones sociales subsiguientes a la crisis –las  fábricas recuperadas, la extensión del movimiento piquetero y otros  fenómenos concomitantes– estaban preanunciando que el ciclo del  neoliberalismo estaba llegando a su conclusión. Pero lo que muy pocos  esperaban era que esas movilizaciones fueran a encontrar eco y simpatía  al nivel del Estado nacional. Fue contra todas las expectativas que  ocurrió el 2003. Al principio, el nuevo tipo de discurso fue recibido  con un considerable grado de escepticismo. Se trataba, en la apreciación  de muchos, de mera retórica, tras la cual habrían de ocultarse las  habituales componendas de trastienda. Pero pronto hubo que rendirse a la  evidencia: el nuevo gobierno estaba comprometido con un programa total  de reestructuración de la sociedad argentina a sus distintos niveles.  Programa que no podía dejar de suscitar la adhesión popular, a la vez  que herir intereses creados que se habían consolidado a lo largo de  decenios. En poco tiempo pudimos verificar el apoyo brindado por el  Gobierno a las organizaciones populares; la decisión de operar, a través  de los juicios a los represores, el desmantelamiento de la ESMA y otras  medidas similares, la ruptura más radical con el pasado dictatorial que  haya tenido lugar en el continente latinoamericano; la reorientación  nacional de la economía, en el proceso que va desde la ruptura de facto  con el FMI hasta el reforzamiento del Mercosur y el rechazo del plan del  ALCA de Bush en la reunión de Mar del Plata de 2005; la democratización  de la Corte Suprema y de la cúpula militar, etc. Como es sabido, toda  esta corriente profunda de cambio fue continuada y radicalizada a través  de una serie de medidas legislativas durante el gobierno de la  presidenta Cristina Fernández, que ha representado uno de los esfuerzos  más ambiciosos y sistemáticos en nuestro continente por reestructurar al  Estado y redefinir sus relaciones con la sociedad civil. Todo esto se  ha hecho en el marco de una integración cada vez mayor de la Argentina  al espectro de los nuevos gobiernos progresistas de América latina. El  país está menos solo que nunca en el pasado.</p>
<p>No voy a entrar a discutir la minucia de este programa legislativo.  En los últimos días otros –Mario Wainfeld y Horacio Verbitsky entre  ellos– lo han hecho en artículos excelentes. Pero sí quisiera referirme a  un aspecto clave, que revela la naturaleza del legado de Néstor  Kirchner, a la vez que su estilo particular de liderazgo. Me refiero a  las resistencias que toda tentativa de cambio profundo suscita y al coro  de infundios con el que las fuerzas reaccionarias pretenden combatirla.  Hace unos días, los plumíferos de La Nación caracterizaban al  kirchnerismo como “populismo autoritario”. La fórmula misma ya es, desde  luego, problemática y ambigua, pero cuando se la usa para caracterizar  la situación argentina es doblemente absurda. Un populismo autoritario  sólo podría ser uno en el que las masas fueran enteramente pasivas y  sometidas a un liderazgo que tomara las decisiones sin compartir el  proceso deliberativo con nadie. Esto puede llegar a ocurrir en ciertas  sociedades –pensemos, por ejemplo, en el Zimbabwe de Mugabe–, pero  cuando esto ocurre, la deriva autoritaria es cada vez menos populista,  ya que las masas son sustituidas por pequeños grupos de matones  reclutados y organizados desde el poder. En tales condiciones lo que  prima es el autoritarismo, en tanto que el populismo se limita a una  cáscara vacía, a una interpelación meramente retórica, sin participación  activa alguna de las masas.</p>
<p>Ahora bien, cualquiera que conozca mínimamente lo que está pasando  en la Argentina, sabe muy bien que en ella se da la situación  exactamente opuesta. Todas las medidas legislativas han sido tomadas  sobre la base de la movilización autónoma de uno u otro sector de la  sociedad. ¿Cómo explicar entonces esta insistencia en los peligros  autoritarios del kirchnerismo? La respuesta es obvia. Se trata de crear  una cortina de humo, por la que la supuesta “defensa de las  instituciones” frente al “avance autoritario” no es sino un burdo  intento por defender un statu quo en el que las corporaciones medran,  frente al intento de democratizar a estas instituciones desde dentro.  ¿Recuerdan ustedes la reunión reciente del Sr. Magnetto con líderes de  la oposición para planificar algo no claramente especificado pero que,  en todo caso, implicaba a claras luces organizar la confrontación con el  Gobierno? ¿Y recuerdan ustedes esa otra reunión, mucho más siniestra,  en la que se obligó a Lidia Papaleo a resignar el control de Papel  Prensa bajo amenazas de muerte? La misma historia acerca de la sórdida  acción del poder corporativo frente a la voluntad popular se repite en  todas las instituciones. El gran dilema a ser dirimido en los próximos  años, comenzando por las elecciones de 2011, es quién va a prevalecer:  la Argentina corporativa del pasado o la Argentina popular que comenzó a  emerger con las movilizaciones de 2001, que se consolidó en 2003 y que  desde entonces ha ido ganando batalla tras batalla.</p>
<p>Es en el umbral de esta confrontación que el nombre de Néstor  Kirchner permanecerá siempre como un signo liminar y señero. Ya no será  una bandera para las luchas, pero se ha transformado en algo más  importante: en un símbolo para las conciencias. Quiero recordar tres  aspectos de su obra y de su mensaje. El primero es que fue uno de los  demócratas más radicales que la Argentina haya producido en años  recientes. Nunca intentó imponer una voluntad burocrática, sino que  siempre buscó en las movilizaciones espontáneas de los grupos de base  los aliados naturales a través de los cuales pensar, repensar y matizar  su proyecto. El segundo es que nunca hizo una interpelación fácil a  masas inestructuradas, sino que comprendió que, en las complejas  sociedades contemporáneas, cualquier proyecto de cambio tiene que pasar  por la transformación interna de las instituciones. No sé si Néstor  habrá leído a Gramsci, pero en todo caso su acción política muestra algo  que es profundamente gramsciano: la comprensión de que, en las  sociedades contemporáneas, no hay populismo fácil; que, sin la mediación  institucional, no hay proyecto político coherente. En tal sentido él  mostró, a través de su acción política, algo que siempre pensé: que  entre institucionalismo y populismo siempre hay una compleja  negociación, los resultados de la cual presentarán matices distintos en  diferentes sociedades.</p>
<p>Hay, finalmente, una tercera dimensión que es decisiva para entender  el legado de Kirchner: su firmeza de acero, su compromiso total con las  causas que abrazaba. Era un hombre de lucha, no de transacciones. Esto  es lo que indignaba a sus detractores y lo que denominaban su tendencia  “a doblar la apuesta”. Creo que se trataba de algo más importante que  eso. El tenía perfecta conciencia de la naturaleza de las fuerzas con  las que se enfrentaba, y sabía que sólo una voluntad inquebrantable  sería capaz de confrontarlas.</p>
<p>¿Qué nos queda por hacer ahora, hacia adelante, después de Néstor?  La respuesta es clara: proseguir su obra y completar su tarea. El nos ha  legado objetivos que son más vastos que su vida y que la nuestra y que  incluyen a todo nuestro continente. América latina ocupará su puesto en  esta marcha general de los pueblos que habrá de conducir, desde la  barbarie neoliberal, al establecimiento de formas justas, libres y  racionales entre los hombres. Ya hemos oído estos últimos días las voces  melifluas y viscosas de aquellos que, restregándose las manos de  satisfacción, dicen que ahora Cristina está sola y tendrá que  contemporizar con la oposición. Los que eso piensan van a encontrarse  con una sorpresa. En primer término, parecen no conocer el temple de  nuestra Presidenta, cuya determinación militante se ha mostrado en todas  las pruebas –muchas duras– que debió pasar durante su gobierno. En  todas las circunstancias mostró una claridad de propósitos y una  determinación en su ejecución que la coloca en situación de total  paridad con su predecesor.</p>
<p>En segundo lugar, Cristina no está sola. Ha perdido, es verdad, al  compañero de su vida y la acompañamos todos en su dolor. Pero la  acompaña también todo un pueblo, el cual se ha manifestado en los  últimos días en una de las expresiones de pesar colectivo más inmensas  –quizá la más inmensa– de la historia argentina. Debemos hacerle a  Néstor, en las palabras de Antonio Machado, “un duelo de labores y  esperanzas”. Cada fábrica, cada escuela, cada hogar, deben erigirse como  la expresión de la voluntad colectiva de que la llama que se encendió  en 2003 no se extinga jamás. Que todos los argentinos nos identifiquemos  con aquellas palabras que José Gervasio de Artigas pronunciara en su  lecho de muerte: “Amanece, ensíllenme el caballo”.</p>
<p>* Profesor de Teoría Política (Universidad de Essex).</p></blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2010/11/04/el-legado-de-nestor-kirchner/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Aborto é cadeia</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2010/10/14/contra-o-aborto/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2010/10/14/contra-o-aborto/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 14 Oct 2010 18:39:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dos Outros]]></category>
		<category><![CDATA[aborto]]></category>
		<category><![CDATA[filósofo]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[ICR]]></category>
		<category><![CDATA[niilismo]]></category>
		<category><![CDATA[Pondé]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=5125</guid>
		<description><![CDATA[A vida não pertence ao filósofo
Comento abaixo um artigo de Luiz Felipe Pondé, da Folha, sobre o aborto. Pondé é um dos novos articulistas contratados pela Folha. Filósofo conservador, acha Ratzinger um baita intelectual. Discute sobre o assunto com a inquisição embaixo do braço.
Meus comentários estão em verde. Lá vai:
Vai encarar?
SOU CONTRA o aborto. Não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_5126" class="wp-caption alignnone" style="width: 490px"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/10/deus.jpg"><img class="size-full wp-image-5126" title="deus" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/10/deus.jpg" alt="" width="480" height="320" /></a><p class="wp-caption-text">A vida não pertence ao filósofo</p></div>
<p>Comento abaixo um artigo de Luiz Felipe Pondé, da Folha, sobre o aborto. Pondé é um dos novos articulistas contratados pela Folha. Filósofo conservador, acha Ratzinger um baita intelectual. Discute sobre o assunto com a inquisição embaixo do braço.</p>
<p>Meus comentários estão em verde. Lá vai:</p>
<blockquote><p><strong>Vai encarar?</strong></p>
<p>SOU CONTRA o aborto. Não preciso de religião para viver, não acredito em Papai Noel, sou da elite intelectual, sou PhD, pós-doc., falo línguas estrangeiras, escrevo livros &#8220;cabeça&#8221; e não tenho medo de cara feia.</p>
<p><span style="color: #008000;">Não sei como é o ambiente intelectual em São Paulo. Pelo visto, deve ser sufocante. O filósofo já começa botando pra quebrar. Vai encarar? E tome amostração. Já começa o artigo bebendo do cálice da luxúria intelectual: a vaidade. Parece dizer: &#8220;olhem o mensageiro, para mim, porra, só para mim, e não para a mensagem &#8212; vão encarar?&#8221;<br />
</span></p>
<p><span style="color: #008000;">É interessante o pano de fundo e a mensagem para o leitor: &#8220;sou um intelectual, e tampa de Crush, ainda por cima, mas sou contra o aborto; sim, isso é possível! Um intelectual pode ser contra o aborto, inclusive um da minha envergadura&#8221;. Há uma informação subreptícia, aqui: os intelectuais defendem o aborto e os ignorantes são contra.</span> <span style="color: #008000;">Não sabia disso &#8212; interessante, né?!</span> <span style="color: #008000;">Lanço a hipótese de que, em Sampa, os intelectuais são abortistas. Pelo raciocínio, a </span><span style="color: #008000;"><em>intelligentsia </em>paulistana é assassina de blástulas e mórulas.</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Fiquei na dúvida quanto a falar &#8220;línguas estrangeiras&#8221;. Significa que o filósofo, além da titulação, é possuído por demônios?<br />
</span></p>
<p>Prefiro pensar que a vida pertence a Deus. Já vejo a baba escorrer pelo canto da boca do &#8220;habitué&#8221; de jantares inteligentes, mas detenha seu &#8220;apetite&#8221; porque não sou uma presa fácil.</p>
<p><span style="color: #008000;">O filósofo não precisa de religião para viver, mas afirma que a vida pertence a um deus. Afirmação forte para quem deus não paga salário. E qual deus, afinal de contas? Deduzo que seja o deus cristão</span>.  <span style="color: #008000;">Existe algum deus que à vida não pertence?</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Sua crítica aos jantares inteligentes é correta. Não existe nada mais insuportável do que um jantar inteligente, principalmente com pessoas burras.</span> <span style="color: #008000;">Não é a primeira vez que o filósofo, nos seus artigos, fala desse ambiente inteligente. Ambiente de esquerda, certamente. Deve frequentá-lo e conhecê-lo. Não deve ser fácil. É de perder o apetite; afinal, toda esquerda é totalitária.</span></p>
<p>Lembre-se: não sou um beato bobo e o niilismo é meu irmão gêmeo. Temo que você seja mais beato do que eu. Mas não se deve discutir teologia em jantares inteligentes, seria como jogar pérolas aos porcos.</p>
<p><span style="color: #008000;">Descobrimos que o filósofo é um beato, embora não seja bobo. É um beato que não precisa da religião para viver; afinal, é filósofo. Diz que a vida pertence a um deus, mas que o niilismo é seu irmão gêmeo. Provavelmente, acha que jogar a vida nas mãos divinas é o cúmulo do niilismo. Há boatos de que deixar a vida na mão de um deus é uma temeridade, pior do que defender o aborto. Nunca se sabe o que o deus fará com nossas vidas, pois seus desígnios são inescrutáveis. O filósofo é, realmente, o espelho de seu irmão.</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Mas acertou, novamente. Não se deve discutir teologia em jantares inteligentes. Convenhamos, deve ser um saco. Talvez, como pilhéria, sei lá, afinal, a teologia é muito engraçada. Imaginem uma filosofia toda montada na existência de um único deus &#8212; não é engraçado?</span></p>
<p>Esse mesmo &#8220;habitué&#8221; que grita a favor do aborto chora por foquinhas fofinhas, estranha inversão&#8230;</p>
<p><span style="color: #008000;">Defender foquinhas fofinhas é de lascar. O que acontece nos jantares inteligentes em Sampa? Defendem foquinhas fofinhas?! </span></p>
<p><span style="color: #008000;">O filósofo faz a frase, mas não discute sua premissa: como o aborto é um assassinato, defender foquinhas fofinhas é um absurdo. É preferir a foquinha fofinha a uma <em>pessoa</em>. Talvez, entre os inteligentes do jantar, há quem não considere uma mórula ou uma blástula uma pessoa.</span> <span style="color: #008000;">São inteligentes, mas amantes da crueldade.</span></p>
<p>Não preciso de argumentos teológicos para ser contra o aborto. Sou contra o aborto porque acho que o feto é uma criança. A prova de que meu argumento é sólido é que os que são a favor do aborto trabalham duro para desumanizar o feto humano e fazer com que não o vejamos como bebês. E não quero uma definição &#8220;científica&#8221; do início da vida porque, assim que a tivermos, compraremos cremes antirrugas &#8220;babyskin&#8221; com cartão Visa.</p>
<p><span style="color: #008000;">Fiquei na dúvida. O filósofo fala de feto e não de embrião. Chama-se feto o desenvolvimento intra-uterino que tem início após oito semanas de vida embrionária, quando já se podem ser observados braços, pernas, olhos, nariz e boca. O feto é uma criança, segundo o filósofo &#8212; um bebê. E o embrião? O filósofo é a favor de aborto nesse estágio?</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Tendo como premissa, colocada como indiscutível, que o feto é um bebê, todo indivíduo que defende o aborto trabalha duro para desumanizá-lo. A desumanização é uma crueldade, sem dúvida. É interessante ver um filósofo, que tem como irmão gêmeo o niilismo, defender a humanização do feto.<br />
</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Ao mesmo tempo, o filósofo descarta uma definição científica sobre o início da vida. O filósofo é, provavelmente, contra a captura da vida pela ciência; afinal a vida é um valor transcendental que pertence a deus. E, sem deus, apenas com a ciência, podemos tudo, inclusive transformar carne de feto e<span style="color: #008000;">m creme.</span></span><span style="color: #008000;"> Pensei que defender a ciência acima de qualquer coisa fosse niilismo; mas, ele não faz essa defesa. Talvez, o filósofo diga-se irmão gêmeo do niilismo para se amostrar nos jantares inteligentes. É &#8220;in&#8221; ser reflexo do niilismo nos jantares inteligentes.</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Contudo, ele está certo num ponto: não existe uma definição científica sobre o início da vida. Discutir o início da vida é discutir seu sentido. A ciência não oferece sentido à vida; longe disso, não é sua pretensão, nem está em seu poder. Discutir o início da vida ou seu sentido é uma discussão baseada em valores. E vivemos num &#8220;politeísmo de valores&#8221; e não na Idade Média, tão valorizada, em outros textos, por Pondé. E, numa sociedade onde reina o pluralismo de valores, existem várias concepções sobre o&#8230; sentido da vida. Onde está a verdade nessa situação? Ela não está, pois não é o valor mais indicado nesse contexto. Talvez, a tolerância e sua consequência ética, a laicidade, sejam os valores mais interessantes para enfrentar o grande dilema do aborto.</span></p>
<p>Agora o tema é o &#8220;retorno&#8221; do aborto. O aborto entrou na moda neste segundo turno. É claro que esse retorno é retórico. Desde Platão, sabe-se que a democracia é um regime para sofistas e retóricos.</p>
<p><span style="color: #008000;">Um tema recorrente de Pondé: a desqualificação da democracia. Faz parte de uma longa linhagem de pensamento reacionário &#8212; outro representante no Brasil é Olavo de Carvalho. Nesse momento, Pondé é, enfim, o irmão gêmeo do niilismo. Não faz uma crítica democrática à democracia contemporânea, e sim uma de negação e de aniquilamento. Depois de tudo, cita Churchill, para disfarçar.</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Pondé desconfia da democracia. Por isso, talvez, em relação ao aborto, sempre toma como ponto de partida o valor da vida e não o da liberdade. Mas o problema é que o aborto põe em conflito irremediável justamente esses dois valores: vida e liberdade. </span></p>
<p>A relação entre democracia e marketing já era sabida como essencial desde a Grécia Antiga. Por que o espanto quando os candidatos, sabendo que grande parte da população brasileira é contra o aborto (talvez por razões religiosas vagas, talvez por &#8220;afeto moral&#8221; vago), se lançam numa batalha pelo espólio do &#8220;direito à vida&#8221;?</p>
<p><span style="color: #008000;">Concordo. Serra e Dilma estão sendo hipócritas. Mas a hipocrisia não é intrínseca à democracia; ao contrário, a hipocrisia a rói por dentro. A denúncia da hipocrisia estimula a democratização. Pondé, na verdade, insinua uma identificação entre democracia, hipocrisia e marketing.</span></p>
<p>O marketing é uma invenção contemporânea, mas a necessidade dele é intrínseca a qualquer técnica que passe pelo convencimento de uma maioria, desde a mais tenra assembleia de neandertais.</p>
<p><span style="color: #008000;">Será sempre curioso dizer a Fernando que o marketing é uma invenção neandertal. De todo modo, é bem vago dizer que a necessidade do marketing </span><span style="color: #008000;">&#8220;é intrínseca a qualquer técnica que passe pelo convencimento de uma maioria&#8221;.</span> <span style="color: #008000;">Gera um conceito bem largo de marketing. </span></p>
<p>A democracia é, na sua face sombria, um regime da mentira de massa. Quando essa mentira de massa é contra nós, reclamamos.</p>
<p><span style="color: #008000;">Quando a democracia torna-se um &#8220;regime da mentira de massa&#8221;, continua democracia? Não seria justamente o totalitarismo, na sua face transparente, um </span><span style="color: #008000;"> &#8220;regime da mentira de massa&#8221;? Se a hipocrisia é intrínseca à democracia, totalitarismo também não o seria?  O medo de que a democracia seja o embrião do totalitarismo é um medo das extremas, estando presente tanto na extrema-direita, como na extrema-esquerda. Nos extremos, é muito sedutora  a crítica catastrofista que procura demonstrar que, aquilo que parecia ser uma emancipação (a democracia, por exemplo), escondia no fundo uma nova forma de tirania, um totalitarismo. Aliás, para muitos neocons, qualquer  processo de democratização, tipo democracia participativa, desembocaria necessariamente numa sociedade totalitária.<br />
</span></p>
<p>Não há nada de evidentemente justo em termos morais ou de moralmente &#8220;avançado&#8221; na legalização do aborto. O que há de evidente em termos morais é a desumanização do feto como processo retórico (exemplo: &#8220;Feto não é gente&#8221;) e a defesa de uma forma avançada de &#8220;safe sex&#8221;: &#8220;Quero transar com a &#8220;reserva de comportamento legal&#8221; a meu favor. Se algo der errado, lavo&#8221;.</p>
<p><span style="color: #008000;">O filósofo não fala da descriminalização do aborto e sim da sua legalização. Da sua perspectiva, seriam a mesma coisa. Seu argumento moral não permite discussão, pois inquestionável e evidente por si mesmo. O feto é uma pessoa, o feto é humano, o feto é gente &#8212; e o embrião, a mórula e a blástula? São afirmações baseadas em valores &#8212; nem toda religião pensa assim, nem todo mundo entende dessa forma. </span></p>
<p><span style="color: #008000;">E, claro, &#8220;safe sex&#8221; é papo de mulher cabeça em jantar com pessoas inteligentes. No fundo, engravidar é um destino, afinal, a vida </span><span style="color: #008000;">a deus </span><span style="color: #008000;">pertence. A vida não pode ser uma escolha.<br />
</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Pondé quis, incialmente, desvencilhar-se da religião. Os argumentos teológicos, como sabemos, não vogam nos jantares inteligentes. Mas por que diabos tenho a nítida impressão de que seus argumentos têm um fundo religioso? &#8220;Feto não é gente?&#8221; não parece com &#8220;feto tem uma alma&#8221;?</span></p>
<p>E não me venham com &#8220;questão de saúde pública&#8221;. Esgoto é questão de saúde pública. A defesa do aborto nessas bases é apenas porque o aborto legal é mais barato. Resumindo: &#8220;Safe sex, cheap babies&#8221;. E não me digam que o feto &#8220;é da mulher&#8221;. O feto &#8220;é dele mesmo&#8221;. E não me digam que &#8220;todo o mundo avançado já legalizou o aborto&#8221;, porque esse argumento só serve para quem &#8220;ama a moda&#8221; e teme a solidão.</p>
<p><span style="color: #008000;">Aqui, o cabra arretou-se e se tornou vulgar. Um milhão e tanto de abortos anuais tornaram-se&#8230; esgoto. Um filósofo, que não precisa de religião para viver, precisa responder, infelizmente, à singela questão: o que fazer com esse número astronômico de abortos? Jogar no esgoto? Nenhuma novidade, pois é o que fazem nos abortos clandestinos.</span> <span style="color: #008000;">A visão de Pondé sobre saúde pública restringe-se ao lixo de sua casa!</span></p>
<p><span style="color: #008000;">(curioso, nos jantares inteligentes do filósofo, tem gente que defende o aborto por meio de argumentos econômicos. Serão tucanos? Gente inteligente da PUC?)<br />
</span></p>
<p><span style="color: #008000;">O feto não é da mulher. É dele mesmo. Como o feto se dispõe a si mesmo? Ah, claro, feto é pessoa (por que não admite logo que feto tem uma alma, já que a vida pertence a deus?). Vai, rapaz, diz logo o cerne de seu argumento.</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Pondé confunde de propósito três realidades bem diferentes: embrião, feto e pessoa. Não existe pessoa embrionária, nem pessoa fetal. O que temos, na verdade, é embrião de pessoa e feto de pessoa. Há dignidade moral tanto no embrião, como no feto, mas não teriam um direito moral e legal do mesmo naipe que a dignidade de uma pessoa já nascida &#8212; porque a pessoa é uma pessoa e não um embrião ou um feto.<span style="color: #008000;"> Foi a percepção de que o feto não é uma pessoa, inclusive, que balizou a </span></span><span style="color: #008000;">decisão Roe vs. Wade, da Suprema  Corte dos EUA, declarando</span> <span style="color: #008000;">inconstitucionais, </span><span style="color: #008000;"> em 1973, </span><span style="color: #008000;">muitas leis que  proibiam o aborto.</span></p>
<p><span style="color: #008000;">A moda seria a laicidade? Por que as sociedades laicas descriminalizaram e legalizaram o aborto? Certamente, porque temem a solidão.<br />
</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Depois de jantares inteligentes, o que mais detesto é mistura de judaísmo e cristianismo travestido de irmão gêmeo do niilismo.</span></p>
<p>Não pretendo desqualificar a angústia de quem vive esse drama. Longe de mim! Mas em vez de gastarmos tanta &#8220;energia social&#8221; na defesa do aborto, por que não usarmos essa energia para recebermos essas crianças indesejadas? Vem-me à mente dois exemplos, aparentemente de campos &#8220;opostos&#8221;. Deveríamos aprender com a Igreja Católica e seu esforço de criar redes de recepção dessas crianças, aparando as mães em agonia e seus futuros filhos à beira da morte. Por outro lado, são tantos os casais gays masculinos (os femininos sofrem menos porque dispõem de &#8220;útero próprio&#8221;) que querem adotar crianças e continuamos a julgá-los, equivocadamente, penso eu, incapazes do exercício do amor familiar.</p>
<p><span style="color: #008000;">Claro, o filósofo não pretende desqualificar a mulher que aborta. Logo abaixo, diz que aborto é homicídio, logo, qualificou a mulher que aborta como criminosa. A mulher que aborta&#8230; Por que tantas mulheres, independentemente de suas crenças religiosas, abortam? Por que Pondé não fica perplexo com essa pergunta? Ora, porque não está nem aí com as abortistas criminosas. Uma questão desse tipo seria desqualificada como uma pergunta de &#8220;saúde pública&#8221;, logo, de esgoto.</span></p>
<p><span style="color: #008000;">Mas Pondé avança, é inegável. Defende o casamento gay e a adoção de crianças por parte de casais homossexuais masculinos e femininos. O que salva o neocon é a incoerência &#8212; ufa!</span></p>
<p>Sou contra a legalização do aborto porque o considero um homicídio. Muita gente não entende essa implicação lógica quando supõe que seriam razoáveis argumentos como: &#8220;A legalização do aborto permite a escolha livre. Se sou contra, não faço. Se minha vizinha for a favor, ela faz&#8221;.</p>
<p>Agora, substitua a palavra &#8220;aborto&#8221; pela palavra &#8220;homicídio&#8221;, como fica o  argumento? Fica assim: &#8220;A legalização do homicídio permite a escolha  livre. Se sou contra, não faço. Se minha vizinha for a favor, ela faz&#8221;.</p>
<p><span style="color: #008000;">Pronto, enfim, Pondé disse a que veio. Aborto é crime. Sendo assim, gostaria de escutar as consequências do argumento: a prisão de um milhão e tanto de mulheres que abortam todo ano. E de seus cúmplices criminosos: médicos, enfermeiras, padres, freiras, namorados, maridos, amantes, pais, irmãos e irmãs, amigas e amigos, e o papagaio de casa, o pior de todos &#8212; todos deverão ser presos. Cadê a ICR defendendo um PAC para a construção de milhares de presídios no Brasil?</span> <span style="color: #008000;">Pois aborto não é uma questão de esgoto e sim de cadeia.</span></p>
<p>Quem é a favor do aborto não o é por razões &#8220;técnicas&#8221;, mas por &#8220;gosto&#8221; ideológico.</p>
<p><span style="color: #008000;">Sim, por gosto ideológico. Mas qual é a ideologia do filósofo? Existem várias ideologias numa sociedade aberta, pluralista e democrática. Existem várias posições sobre o sentido da vida nessa sociedade. Qual é a posição verdadeira? Aliás, quem decide sobre a verdade dos valores? A Igreja? Já foi o tempo, felizmente. Numa sociedade laica, ninguém decide sobre a verdade dos valores. O Estado laico não decide sobre o sentido da vida, e sim garante a tolerância e a convivência entre as pessoas e suas visões de mundo. O sentido da vida é uma questão privada, <em>quanto à sua verdade. </em>Por isso, a descriminalização do aborto é uma óbvia questão laica (não significa que não existam regras e limites, claro). Criminalizar o aborto é uma interferência do Estado numa questão de valor: o sentido da vida. É criminalizar pessoas e suas visões de mundo. </span></p>
<p><span style="color: #008000;">Sim, posso afirmar, agora, diante de convivas inteligentes, o óbvio: o aborto, numa sociedade laica, é uma escolha. Uma moda, segundo o filósofo.<br />
</span></p></blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2010/10/14/contra-o-aborto/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>5</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>#globomente: o dia em que o Twitter calou a Rede Globo</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2010/10/14/globomente-o-dia-em-que-o-twitter-calou-a-rede-globo/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2010/10/14/globomente-o-dia-em-que-o-twitter-calou-a-rede-globo/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 14 Oct 2010 11:30:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dos Outros]]></category>
		<category><![CDATA[bolinha de papel]]></category>
		<category><![CDATA[eleição]]></category>
		<category><![CDATA[Globo]]></category>
		<category><![CDATA[manipulação]]></category>
		<category><![CDATA[mídia]]></category>
		<category><![CDATA[Serra]]></category>
		<category><![CDATA[twitter]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=5305</guid>
		<description><![CDATA[
Publico o texto de André Raboni do Acerto de Contas. Pauleira na moleira de Serra e na mídia feia e malvada &#8212; uma bolinha de papel de dois quilos!
Perícia por perícia, afinal, quem tem razão? Molina ou Meira da Rocha (UFSM/CESNORS &#8212; aqui, também)? Não preciso escolher. Fico com a trajetoria de manipulação da Globo, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/10/globo.jpg"><img class="size-full wp-image-5306 aligncenter" title="globo" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/10/globo.jpg" alt="" width="312" height="425" /></a></p>
<p>Publico o texto de <a href="http://acertodecontas.blog.br/midia/globomente-o-dia-em-que-o-twitter-calou-a-rede-globo/" target="_blank">André Raboni</a> do <a href="http://acertodecontas.blog.br/" target="_blank">Acerto de Contas</a>. Pauleira na moleira de Serra e na mídia feia e malvada &#8212; uma bolinha de papel de dois quilos!</p>
<p>Perícia por perícia, afinal, quem tem razão? Molina ou <a href="http://meiradarocha.jor.br/news/" target="_blank">Meira da Rocha</a> (UFSM/CESNORS &#8212; <a href="http://www2.tijolaco.com/29224" target="_blank">aqui</a>, também)? Não preciso escolher. Fico com a trajetoria de manipulação da Globo, pois é um fato que não precisa de peritos para ser comprovado. Nunca foi de ver para crer, pois esteve na cara da gente, desde a ditadura militar.</p>
<p>Lá vai:</p>
<blockquote><p>Pode-se pensar que discutir bolinhas de papel e rolos de fita crepe é  uma bobagem. Ou que o assunto está ultrapassado. Não só não é uma  bobagem, como tampouco o assunto está ultrapassado. Por um lado, seria  uma bobagem não fosse o fato de que o maior veículo de comunicação  televisiva do País, que goza de concessão pública para ser veiculado em  TV aberta, produziu uma montagem grotesca de compressão de vídeo para  levantar a bola (não a de papel, mas a moral) de um dos candidatos à  presidência da República – além da sua própria, pois sua grandeza jamais  poderia ser desbancada por um SBT. Por outro lado, o assunto estaria  ultrapassado se o desmonte da edição farsesca realizada a partir da  compressão de imagens combinada com artifacts – realizado pelo professor  de Jornalismo Gráfico, <a href="http://meiradarocha.jor.br/news/">José Antonio Meira da Rocha</a>,  da Universidade Federal de Santa Maria (RS) – tivesse sido exposto  pelos grandes veículos de comunicação (link ao final deste post).</p>
<p>Acontece  que a versão tosca do JN foi comprada de forma conveniente pela quase  totalidade dos grandes veículos de comunicação – o que impede de tornar o  assunto ultrapassado. Além disso, muita gente está repetindo à  exaustão, e de forma acrítica, essa versão fajuta. Versão que se fez  inquestionável no bom estilo medieval, <em>magister dixit</em> (“o  mestre o disse”). A versão tornou-se supra sumo do “argumento da  autoridade” depois de exibida no JN. Duas autoridades falaram: o próprio  JN e Ricardo Molina – como se não fossem passíveis de questionamentos.</p>
<p>Ao pensar sobre isso, recordo-me de um artigo “<em>A verdade que vem impressa nos jornais</em>“, da historiadora da imprensa, Isabel Lustosa, publicado em 2008 na <em>Folha de S.Paulo</em> – e reproduzido <a href="http://acertodecontas.blog.br/artigos/a-verdade-que-vem-impressa-nos-jornais/">aqui no blog</a>.  Na ocasião, Lustosa falava sobre o fetiche da palavra impressa em  grande jornal como atestado de veracidade inquestionável. Concluía seu  texto dizendo: “(…) <em>recomenda-se ao leitor contemporâneo lembrar que  não há texto neutro,  que, na composição e no desenvolvimento de um  texto jornalístico, na  maneira de narrar e destacar um fato, estão  também embutidas as paixões e  os interesses do jornalista, do editor ou  da empresa jornalística a que  estão ligados. De modo que nem sempre o  que sai no jornal é a expressão  genuína da mais pura verdade</em>.”</p>
<p>O  JN dedica 7 minutos de seu noticiário para criar laboratorialmente uma  versão dos fatos, e ninguém é capaz de questionar isso? Fetiche de  veracidade baseada no argumento da autoridade. Por mais de uma vez essa  versão kameliana foi desmentida, e ninguém repercute isso na grande  imprensa? Pura conveniência. A versão forjada pelo JN teve três funções  básicas: 1 – evitar a desmoralização de Serra (notadamente seu  preferido); 2 – evitar sua própria desmoralização; 3 – produzir munição  para os demais veículos de imprensa e seus colunistas, que puderam se  sentir à vontade para reproduzir o fato como se fosse verdade  inconteste.</p>
<p>Vejamos três exemplos de repetição acrítica da versão do JN. Cito uma colunista da Globo, uma da FSP e outra do Estadão.</p>
<p>1 – Miriam Leitão, em sua <a href="http://www.diariodepernambuco.com.br/2010/10/23/economia4_0.asp">coluna de ontem</a>:</p>
<p>“<em>Desta vez, foi uma pedra na cabeça de uma jornalista,<strong> e o rolo de fita na cabeça do candidato José Serra</strong>. Esse episódio deve ser visto pelo risco potencial de conflito generalizado. <strong>As imagens falam por si</strong></em>.”</p>
<p>2 – Renata Lo Prete, no <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po2310201001.htm">Painel de ontem</a>, na FSP:</p>
<p>“<em>À noite, depois da fala  de Lula, <strong>o “Jornal Nacional” desmontou essa versão</strong></em>.”</p>
<p>3 – Dora Kramer, <a href="http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101022/not_imp628209,0.php">colunista do Estadão</a>:</p>
<p>“Foram <strong>duas imagens</strong> captadas em dois momentos diferentes,<strong> comprovou-se ao  longo do dia</strong>.”</p>
<p>Primeiro,  as imagens não falam por si. Quem fala por elas é o perito. Segundo, o  JN não desmontou nada, pelo contrário, foi desmontado mais de uma vez.  Terceiro, o que se comprovou ao longo do dia foi que o JN forjou a  versão (com ajuda de seu perito predileto, Ricardo Molina), e não o  contrário.</p>
<p>Mas… se passou no JN, <em>magister dixit</em>, ora bolas!</p>
<p>Ao longo de toda a sexta-feira, dia 22, a hashtag <em>#globomente</em> oscilou entre o segundo e o terceiro assunto mais falado do mundo no Twitter.</p>
<p>Na quinta-feira, Marco Bahé publicou <a href="http://acertodecontas.blog.br/midia/por-que-o-twitter-e-tao-popular-no-brasil-por-causa-do-monopolio-dos-meios-de-comunicacao/">aqui no blog um artigo da Time</a>,  no qual se conjectura os motivos que fazem do Twitter um grande sucesso  no Brasil. Entre os motivos citados no artigo está a análise do  professor James Green, de que o sucesso do Twitter por aqui tem relação  íntima com a concentração do poder midiático em poucas mãos após a saída  do País de 21 anos de ditadura militar.</p>
<p>Entendi daquele artigo,  que o “brasilianista” aponta o Twitter e outras redes sociais como um  ponto de fuga dos brasileiros à grande concentração da mídia. Com o  advento de redes sociais como o Twitter, os jornalões e os grandes   veículos de comunicação já não têm mais o poder de veicular uma farsa e   ficar por isso mesmo.</p>
<p>Assim, durante toda a sexta-feira (ao contrário do que afirmou Dora Kramer no Estadão), <strong>refutou-se ao longo do dia</strong> a versão do JN. E toda a repercussão foi concentrada desde a hashtag <em>#globomente</em>, passando por centenas de blogs, páginas do Facebook, Orkut, Youtube, et cetera.</p>
<p>Ainda  que a versão do JN tenha sido desmontada (não apenas pelo professor  Meira da Rocha), sua matéria municiou os colunistas dos jornalões, que  desde então repetem comodamente aquela versão como verdade  inquestionável. Muitas pessoas lembraram as edições do debate de 1989,  quando Lula foi prejudicado claramente pela Rede Globo, em favor da  candidatura de Fernando Collor.</p>
<p>Acontece que, depois da matéria ter sido veiculada pelo JN (<a href="http://www.outroladodanoticia.com.br/livros/267-o-dia-em-que-ate-a-globo-vaiou-ali-kamel.html">ainda que jornalistas da própria Globo no estúdio de São Paulo tenham vaiado a versão na hora em que foi veiculada</a> – não reproduzo do próprio <em>Escrevinhador</em> porque de ontem para hoje o blog foi atacado por um malware) o estrago foi feito, e, em parte, é irreversível.</p>
<p>A estratégia é simples: a velha e boa <em>se colar, colou</em>.</p>
<p>Mas  colou apenas para os colunistas dos jornalões, e para quem mais fosse  conveniente. Mas no Twitter, passou longe de colar. E, embora a versão  do JN ainda repercuta de forma acrítica, a Rede Globo calou-se sobre o  assunto.</p>
<p>Vejam dois vídeos que desmontam a versão kameliana do tal rolo de fita que teria atingido Serra, mas que não existiu.</p>
<p><a href="http://www.blogdosperrusi.com/2010/10/14/globomente-o-dia-em-que-o-twitter-calou-a-rede-globo/"><em>Clique aqui para assistir o vídeo inserido.</em></a></p>
<p><a href="http://www.blogdosperrusi.com/2010/10/14/globomente-o-dia-em-que-o-twitter-calou-a-rede-globo/"><em>Clique aqui para assistir o vídeo inserido.</em></a></p>
<p>Recomendo também a leitura do texto do professor Meira da Rocha que desmontou, quadro a quadro, a farsa do Jornal Nacional.</p>
<p>No texto, ele observa o seguinte:</p>
<p><em>Será  que a velha mídia não se dá conta que qualquer pessoa pode gravar TV e  passar quadro-a-quadro? E que, fazendo isto, a pessoa pode ver que não  há nenhum rolo de fita crepe sendo atirado contra o candidato José  Serra? Que o detalhe salientado em zoom numa extensa matéria de 7  minutos não passava de um artifact de compressão de vídeo sobreposto à  cabeça de alguém ao fundo? Que não se vê no vídeo quadro-a-quadro nenhum  objeto indo ou vindo à cabeça do candidato?</em></p>
<p><em> E a Globo ainda vai procurar a opinião de um <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ricardo_Molina_de_Figueiredo">“especialista” de reputação duvidosa…</a></em></p>
<p><em> Tudo pode ser digitalizado, menos a  credibilidade de um veículo  jornalístico. E este único ativo que sobra à velha mídia, ela joga fora…</em></p>
<p>Leia a íntegra, com as imagens do quadro a quadro, clicando<a href="http://www.ponto.outraspalavras.net/2010/10/22/questionada-autenticidade-de-video-da-globo/"> aqui</a>.</p>
</blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2010/10/14/globomente-o-dia-em-que-o-twitter-calou-a-rede-globo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O que fazer? Farei.</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/28/o-que-fazer/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/28/o-que-fazer/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 28 Sep 2010 23:08:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dos Outros]]></category>
		<category><![CDATA[decisão]]></category>
		<category><![CDATA[Dilma]]></category>
		<category><![CDATA[eleição]]></category>
		<category><![CDATA[Marina]]></category>
		<category><![CDATA[NPTO]]></category>
		<category><![CDATA[Serra]]></category>
		<category><![CDATA[voto]]></category>
		<category><![CDATA[voto útil]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=5020</guid>
		<description><![CDATA[
Discordo de algumas avaliações de Celso, lá do NPTO, mas reconheço sua coerência. Achei sua defesa de Dilma bastante pertinente (além do mais&#8230; o cabra é muito engraçado. Estamos diante de uma raridade: uma prosa política que utiliza o humor).
Infelizmente, o crescimento de Marina aconteceu tarde demais. Se a onda verde tivesse começado quatro ou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/09/marina-e-dilma.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-5031" title="marina-e-dilma" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/09/marina-e-dilma.jpg" alt="" width="374" height="344" /></a></p>
<p>Discordo de algumas avaliações de Celso, lá do <a href="http://napraticaateoriaeoutra.org/?p=7171" target="_blank">NPTO</a>, mas reconheço sua coerência. Achei sua defesa de Dilma bastante pertinente (além do mais&#8230; o cabra é muito engraçado. Estamos diante de uma raridade: uma prosa política que utiliza o humor).</p>
<p>Infelizmente, o crescimento de Marina aconteceu tarde demais. Se a onda verde tivesse começado quatro ou três semanas antes da eleição, Marina poderia ter ultrapassado Serra. No atual contexto, seria uma reviravolta quase milagrosa ir ao segundo turno com Dilma. É uma pena, pois gostaria de ver um debate entre as duas.</p>
<p>Depois de tudo, ao contrário de muitos, tenho medo de um segundo turno com Serra. Se o clima está pesado, pioraria, e muito! Nem Palocci conseguiria aplacar os cães de aluguel. Pois é, morro de medo&#8230;</p>
<p>Por isso, declaro meu voto útil em Dilma, já no primeiro turno. Entre a necessidade e a impossiblidade, fico com a contingência.</p>
<p>Lá vai o texto &#8212; por que NPTO votará em Dilma:</p>
<blockquote><p>Os três principais candidatos nessa eleição presidencial são muito bons. A terceira colocada deve ser Marina Silva, e Marina Silva seria melhor presidente que 90% dos presidentes do mundo. Levando em conta só os competitivos, nos últimos dezesseis anos só Garotinho (que a The Economist  traduzia como “Little Kid”) avacalhou nosso currículo, onde, na minha modesta opinião, devemos ter orgulho de ostentar Lula e FHC.</p>
<p>Mas é preciso escolher, e, no que se segue, argumentarei que a melhor opção para o Brasil no momento é uma ex-guerrilheira nerd.</p>
<p>1.</p>
<p>Um bom governo, na minha opinião, deve (a) ser democrático, (b) não avacalhar a estabilidade econômica, e (c) combater a pobreza e a desigualdade. Por esses critérios, o governo Lula foi indiscutivelmente bom.</p>
<p>O governo Lula, tanto quanto o governo FHC, foi um governo democrático. Quem lê jornal no Brasil não apenas percebe que é permitido falar mal do governo, mas pode mesmo ser desculpado por suspeitar que falar mal do governo é obrigatório por lei. Os partidos de oposição atuam com plena liberdade, os movimentos sociais, idem, e, aliás, eu também. O Olavo de Carvalho se mandou para os Estados Unidos, dizem que com medo de ser perseguido politicamente, mas, se tiver sido por isso, foi só frescura. De qualquer modo, nunca antes nesse país exportamos tantos Olavos de Carvalho.</p>
<p>A economia foi muito bem gerida durante a Era Lula, a despeito do que falam muitos petistas (talvez preocupados com a falta de oposição competente). Companheiros, deixemos de falar besteira: a política econômica foi um sucesso. Mantivemos o bom sistema de metas de inflação implantado por Armínio Fraga no (bom) segundo governo FHC, e acrescentamos a isso: uma preocupação quase obsessiva por acumular reservas internacionais, a excelente ideia de comprar de volta nossa dívida em dólar, e medidas de incentivo fiscal quando foi necessário. A dívida como proporção do PIB caiu consideravelmente, e só voltou a subir quando foi necessário combater a crise. Certamente voltará a cair já agora.</p>
<p>Por essas e outras, fomos os últimos a entrar e os primeiros a sair da maior crise econômica desde 1929. Os tucanos se consideravam uma espécie de Keynes coletivo por terem sobrevivido à crise do México. Com muito menos custo, sobrevivemos à crise dos EUA. E isso se deu porque a economia durante a Era Lula foi muito mais bem administrada do que durante o primeiro governo FHC. No segundo governo FHC, aí sim, a economia foi bem gerida, e Lula fez muito bem em copiar seus métodos de gestão.</p>
<p>E, na área social, o Lula realmente se destaca na história brasileira, e na conjuntura econômica mundial. FHC não merece nada além de parabéns por ter copiado o Bolsa-Escola do governo petista do Distrito Federal (cujo governador havia idealizado o programa ainda na década de 80), e o PT merece críticas por ter atrasado sua adoção insistindo no confuso “Fome Zero” por tempo demais; mas, uma vez re-estabelecida a sanidade, o programa foi implementado com imenso sucesso, e, associado à política de recuperação do salário mínimo, e à boa gestão da economia, geraram resultados que não estavam nas projeções do mais otimista dos petistas em 2002. Para ser honesto, eu sempre votei no Lula, mas nunca achei que fosse dar tão certo.</p>
<p>A pobreza caiu algo como 43%. Vou dizer com palavras, para não dizerem que sou cabeça-de-planilha: a pobreza no Brasil caiu quase pela metade. Rodrigo Maia, escreva essa frase no quadro cem vezes. Mais de 30 milhões de pessoas (meia França, não muito menos que uma Argentina inteira) subiram às classes ABC. Cortamos a pobreza extrema pela metade (mas ainda é, claro, vergonhoso que tenhamos pobreza extrema). A desigualdade de renda caiu consideravelmente: a renda dos 10% mais ricos cresceu à taxa de 3 e poucos % na Era Lula, enquanto a renda dos mais pobres cresceu mais ou menos 10% ao ano, as famosas taxas chinesas. E tem uns manés que acham que os pobres votam no Lula porque são ignorantes ou mais tolerantes com a corrupção. Dê essas taxas à nossa elite e o Leblon inteiro tatua a cara do Zé Dirceu.</p>
<p>Não é à toa que o economista Marcelo Neri, um dos mais respeitados estudiosos da pobreza no Brasil, fala no período de 2003-2010 como “A Pequena Grande Década”. Tanto quanto sei, Neri não é petista.</p>
<p>Por outro lado, há algumas semanas, o sociólogo Demétrio Magnoli escreveu um balanço crítico do governo Lula, que considera um desastre. O artigo praticamente não tem nenhum número. I rest my case.</p>
<p>2.</p>
<p>Seria idiota dizer que isso não é, em nenhum grau, motivo para votar na Dilma. Dilma participou ativamente disso tudo, e, no mínimo, apoiou isso tudo. Marina Silva, é verdade, apoiou quase tudo isso. José Serra não o fez, e muitos de seus simpatizantes continuam convictos de que os últimos oito anos, em que a renda dos brasileiros mais pobres cresceu no ritmo da economia chinesa, foi uma era das trevas da qual a nossa elite bem pensante (hehehe) acordará em breve, chorando de felicidade porque era só um pesadelo.</p>
<p>Mas, até aí, eu considero que a Era FHC também foi boa para o país, por outros motivos, e mesmo assim foi bom que Lula fosse eleito em 2002 (como irrefutavelmente provado acima). Por que não seria esse o caso, agora?</p>
<p>Em primeiro lugar, porque não acho que será bom para o Brasil se o governo Lula tiver sido só um intervalo. Se Serra ganhar a eleição, eis o que se tornará a versão oficial sobre esse período: uns caras com diploma governavam muito bem o Brasil por muitas décadas, aí surgiu um paraíba muito carismático que acabou % ganhando a eleição, mas não fez nada demais, por isso eventualmente a turma do diploma retomou o controle da coisa toda. Coloquei um sinal de porcentagem no meio da frase para que ela tivesse pelo menos um erro que não fosse também papo furado.</p>
<p>É importante compreender que os novos atores que compõem o PT vieram para ficar, pois são sócios-fundadores de nossa democracia, e que, de agora em diante, o Brasil é um país com uma esquerda que sabe ser governo. Isso quer dizer que agora a direita, para vencer eleições, precisa apresentar boas candidaturas (de preferência sem roubar nossos sociólogos, ou economistas heterodoxos) e, o mais crucial de tudo, apresentar propostas para os mais pobres, que acabam de descobrir que podem melhorar imensamente suas vidas com o voto. A direita brasileira ainda não fez esse trabalho: continua pensando como se fosse um direito natural seu governar o país, e esperando que algum movimento legitimista re-estabeleça a ordem nesta budega.</p>
<p>Enquanto a justiça eleitoral não fizer o voto do Reinaldo Azevedo ter peso 50 milhões, a estratégia de fingir que o governo Lula não desmoralizou os anteriores, diminuindo a pobreza sem desestabilizar a economia, não vai ganhar eleição. Enquanto não tiver um projeto para o país (o que, diga-se, o Plano Real foi), a oposição não merece voltar ao governo. Como o PT dos anos 90, por exemplo, não merecia ganhar a presidência, pois seu programa era o que, no jargão sociológico, era conhecido como “nhenhenhém”. O PT venceu quando reconheceu que o papo agora era outro, e era preciso partir das conquistas já alcançadas. Não há sinal que consciência semelhante exista na oposição como bloco político, embora, sem dúvida, o candidato Serra o tenha compreendido.</p>
<p>3.</p>
<p>Mas esse tampouco é o melhor motivo para se votar na Dilma. O melhor motivo para se votar na Dilma é a Dilma.</p>
<p>Dilma tem uma trajetória política muito singular, como, aliás, tinham FHC e Lula. Quem tiver lido seu perfil recente na revista Piauí pode notar que há tantos fatos interessantes na sua vida que o jornalista mal teve espaço para falar dela, como pessoa. Dilma foi guerrilheira, foi torturada, e, durante a democratização, entrou para o PDT. Quando visitou, recentemente, o túmulo de Tancredo, a turma de sempre reclamou que o PT não o havia apoiado no Colégio Eleitoral. Bem, Dilma, como o PDT, apoiou Tancredo. Eventualmente, foi parar no PT, onde cresceu fulminantemente, e foi beneficiada pela decisão da oposição de queimar um por um dos quadros petistas mais famosos, algo pelo que, suspeito, já começam agora a se arrepender. Estariam pior agora se o candidato do Lula fosse, digamos, o Dirceu?</p>
<p>Tem gente que, com temor ou esperança, acha que Dilma mudará o rumo da economia. Eu posso estar errado, mas, baseado no que vi até agora, acho o seguinte: Dilma está singularmente posicionada para fazer com que, sob essa mesma política econômica, e com o mesmo compromisso com a justiça social, o país comece a crescer bem mais rápido do que cresceu nos últimos dezesseis anos.</p>
<p>Eu gosto de dizer o seguinte sobre política econômica: é verdade, o Banco Central desacelera o crescimento quando mantém os juros altos (e segura a inflação). Mas, a essa altura, o crescimento econômico já levou uma surra; antes de chegar no Banco Central, o carro do crescimento já tomou batidas da nossa falta de política de inovação, da baixíssima capacidade de investimento do Estado, da pobreza (que diminuiu, mas, para nossa vergonha, ainda está aí), do nosso abissal nível de qualificação educacional, dos entraves inacreditáveis para se abrir ou fechar um negócio, dos problemas gravíssimos da nossa urbanização. Essa desacelerada que o Banco Central dá é porque, depois de tomar tanta batida, ou nosso carro desacelera ou ele desmonta na pista.</p>
<p>Nossa visão deve ser a seguinte: queremos ter produção tecnológica como a Índia, mas com muito mais preocupação com a justiça social, e queremos ter o crescimento da China, mas com a mais absoluta democracia e com as garantias ambientais necessárias. Se esses limites nos atrasarem um pouco, paciência, somos, em nossos melhores momentos, um país que leva essas coisas a sério. O que não é admissível é que qualquer coisa que não nossos princípios atrase nosso progresso.</p>
<p>Muita gente diz que Lula entregou a candidatura à Dilma de mão-beijada, mas, aproveito para advertir, muita calma nessa hora, meu povo. Lula também lhe entregou uma roubada incrível, que foi também um teste. Quando Dilma foi colocada na direção do PAC, experimentou em primeira mão o quão ineficiente é nosso Estado como indutor do investimento: uma legião de entraves burocráticos, pressões políticas e uma história de más prioridades tornaram nosso Estado incapaz de investir e de oferecer infra-estrutura (tanto física quanto legal quanto humana) para o investimento privado.</p>
<p>A beleza da coisa é que Dilma é uma c.d.f. obcecada por políticas públicas. Quem leu sua entrevista no livro organizado pelo Marco Aurélio Garcia e pelo Emir Sader não pode ter deixado de se divertir com a diferença entre as coisas que os entrevistadores querem perguntar e as coisas que ela quer responder: os caras lá falando do liberalismo, de não sei o que mais, e ela animadona com um jeito de furar poço de petróleo, com um jeito qualquer de administrar hospital. Respeito muito o Marco Aurélio, que foi meu professor, mas a Dilma sai da entrevista muito melhor que ele e o Sader.</p>
<p>Me anima especialmente que, em vários momentos, tenha visto Dilma puxando o assunto das políticas de inovação. O Brasil não vai dar um salto qualitativo em termos de desenvolvimento enquanto não produzir tecnologia. Tecnologia é o tipo de coisa que depende de bons arranjos entre governo e setor privado, e, a crer nos relatos até agora a respeito de sua passagem pelo ministério de Minas e Energia, Dilma tem uma postura pragmática saudável nessas questões.</p>
<p>Lula deu ao capitalismo brasileiro milhões de novos consumidores, e essa descendência política exigirá de Dilma compromisso forte com a inclusão social. Mas agora é hora de dar ao capitalismo brasileiro a competitividade necessária para que ele gere os empregos de que precisam os novos ex-miseráveis, os formandos do ProUni, ou das novas Universidades Federais, inclusive; é hora de montar um Estado que entregue aos cidadãos as cidades necessárias à boa fruição da vida moderna, e montar um sistema de inovação tecnológica que tire da direita o monopólio do discurso moderno.</p>
<p>Por conhecer melhor do que ninguém o tamanho desse déficit, e pelo que se depreende de sua postura até agora diante desses problemas, Dilma Rousseff é a melhor opção para a presidência do Brasil nos próximos oito anos.</p>
<p>Até porque, contará com um recurso que só o PT tem: uma imprensa tão hostil que o sujeito realmente, realmente tem que prestar atenção para não fazer besteira. Superego é uma coisa útil, senão você trava.</p>
<p>4.</p>
<p>Certo, mas deve ter gente pensando, ah, mas ela é só uma tecnocrata, vai ser engolida pelos políticos (o bom é que essa mesma turma dizia que o Lula, por não ser um tecnocrata, ia ser engolido pelos políticos). Deve ter gente, à direita e à esquerda, com esperança de manipular a Dilma. A Dilma, no caso, é aquela menina que, aos vinte e poucos anos, inspirava respeito até nos caras do Doi-Codi, como se depreende dos documentos da época. Se quiser ir tentar manipular essa dona aí, rapaz, boa sorte, vai lá. Depois você conta pra gente como é que foi.</p></blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/28/o-que-fazer/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>12</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Reduto tucano ameaçado</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/14/reduto-tucano-ameacado/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/14/reduto-tucano-ameacado/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 14 Sep 2010 14:01:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dos Outros]]></category>
		<category><![CDATA[colunista]]></category>
		<category><![CDATA[Dilma]]></category>
		<category><![CDATA[eleição]]></category>
		<category><![CDATA[Maria Inês Nassif]]></category>
		<category><![CDATA[PSDB]]></category>
		<category><![CDATA[PT]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[Serra]]></category>
		<category><![CDATA[tucano]]></category>
		<category><![CDATA[Valor Econômico]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=4813</guid>
		<description><![CDATA[Ótima análise da melhor, atualmente, colunista do jornalismo político:


Da Coluna de Maria Inês Nassif, do Valor Econômico


O avanço de Dilma Rousseff, a  candidata do PT à Presidência, no reduto tucano paulista, é um dado  muito delicado para o grupo de José Serra dentro do PSDB. O partido  nacional não se sairá bem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ótima análise da melhor, atualmente, colunista do jornalismo político:</p>
<blockquote>
<div>
<p>Da Coluna de Maria Inês Nassif, do <a href="http://www.valoronline.com.br/">Valor Econômico</a></p>
</div>
<div>
<p>O avanço de Dilma Rousseff, a  candidata do PT à Presidência, no reduto tucano paulista, é um dado  muito delicado para o grupo de José Serra dentro do PSDB. O partido  nacional não se sairá bem das eleições de outubro, mas o tucanato  paulista estará em maus lençóis mesmo que ganhe as eleições para o  governo do estado.</p>
</div>
<div>
<p>Em São Paulo, a candidata do PT  já tem votos para suplantar seu adversário tucano. Isso significa que  Dilma conseguiu furar o bloqueio de uma forte rejeição petista no  estado, que tem garantido eleições sucessivas de candidatos do PSDB ou  apoiados pelos tucanos, no momento em que as lideranças nacionais do  PSDB paulista declinam. Para o PT, este é um acontecimento.</p>
</div>
<div>
<p>Mário Covas, que foi o grande  articulador da criação do partido e o único elemento agregador desse  núcleo original do PSDB, faleceu em 2001. Fernando Henrique Cardoso foi  eleito presidente duas vezes na onda do Plano Real e de uma ideia  genérica de “Brasil moderno” trazido pela hegemonia liberal, do qual  acabou se tornando o grande artífice no país, com a inestimável ajuda do  eleitorado conservador paulista, dos votos conservadores da região Sul e  dos grotões sob a influência do PFL no Nordeste e no Norte. Saiu do  governo desgastado por sucessivas crises econômicas e não assumiu  qualquer papel de liderança interna. Se as pesquisas se confirmarem,  José Serra perderá, já no primeiro turno, para Dilma Rousseff.</p>
</div>
<div>
<p>Sem líderes, PSDB ficará muito parecido com PMDB</p>
</div>
<div>
<p>O grupo serrista tinha forte  influência sobre o partido nacional e assumiu as rédeas do PSDB  estadual, até então sob a órbita de influência do herdeiro de Covas,  Geraldo Alckmin, um político de prestígio regional, mas afeito à  política tradicional de alianças com chefes políticos locais. A máquina  tucana no estado foi montada por Alckmin; o chefe da Casa Civil de  Serra, Aloysio Nunes, trabalhou muito para cooptá-la. O fato, no  entanto, é que Alckmin ainda tem mais votos no estado do que Serra.</p>
</div>
<div>
<p>Houve, portanto, um movimento  claro do governador José Serra para assumir a liderança regional do  partido, ao mesmo tempo em que mantinha forte influência sobre o partido  nacional, apesar de emersões episódicas do governador de Minas, Aécio  Neves.</p>
</div>
<div>
<p>Enquanto tinha o governo  estadual e era tido como o preferido nas eleições presidenciais, o  candidato tucano a presidente se manteve no controle das duas máquinas  partidárias — a paulista e a nacional.</p>
</div>
<div>
<p>Se perder a eleição, Serra  acumulará duas derrotas nas eleições presidenciais — foi candidato em  2002 e perdeu para Lula; é candidato em 2010 e pode perder para a  candidata de Lula, num partido que depende desesperadamente de uma  vitória para manter o nariz para fora da água. Está sendo cristianizado  pelos candidatos tucanos ao governo e ao Senado quase no país inteiro.  Dificilmente conseguirá se manter como liderança nacional sem cargo  político e sem aliados internos de peso.</p>
</div>
<div>
<p>Além disso, apesar das  aparências, manteve-se em rota de colisão constante com o DEM. Uma  estratégia de articulação oposicionista, no caso de vitória de Dilma  Rousseff, tem poucas chances de ter o ex-governador como elemento de  coesão — interna ou com aliados.</p>
</div>
<div>
<p>Por força do seu estilo, e das  disputas locais, o candidato a governador tucano no estado, Geraldo  Alckmin, jamais alçou voos nacionais. Não se pode dizer que os grupos de  Serra e de FHC tenham facilitado a vida de Alckmin, mesmo quando ele  foi candidato à Presidência, em 2006. Alckmin entra pela porta da sala  na política estadual; tem acesso apenas à porta da cozinha na política  nacional. Se vencer a eleição, ele deterá o controle da maior parcela de  um PSDB em crise. É duvidoso que consiga, no entanto, ser convidado  para entrar na sala de visitas da cúpula nacional.</p>
</div>
<div>
<p>O PSDB, que sempre sobreviveu  como partido de quadros, está com severos problemas — de quadros. Ao  longo de sua existência, o partido se manteve em torno de personalidades  que se desgastaram politicamente com o passar dos anos, ou estão  velhas, ou morreram. A exceção é o governador Aécio Neves, uma geração  abaixo da do grupo original e que, por manobras de Serra ou por  esperteza, guardou-se do desgaste que o embate com um governo altamente  popular traria e retirou a sua pré-candidatura a presidente da  República.</p>
</div>
<div>
<p>São Paulo deve ainda contribuir  fortemente para a bancada federal do PSDB, mas, sem líderes que  sustentem essa hegemonia, o partido deve ficar muito parecido com o  PMDB: cada um cuida de seus interesses eleitorais e todos brigam pelo  controle regional porque isso facilita o trânsito de suas necessidades  imediatas. Se Aécio não assumir o papel de líder nacional, já que  chegará ao Senado com uma votação avassaladora, o PSDB estará condenado a  ser uma federação de partidos regionais, a exemplo da legenda de Michel  Temer.</p>
</div>
<div>
<p>Para o diretor da Sensus,  Ricardo Guedes, a eleição foi definida, em favor de Dilma, no momento em  que Serra alcançou 40% de rejeição. Do penúltimo CNT/Sensus, coletado  de 31 de junho a 2 de agosto, para o último, feito de 20 a 22 de agosto,  Serra passou de cerca de 30% de rejeição para 40%. Isso torna qualquer  candidatura inviável, segundo Guedes.</p>
</div>
<div>
<p>Para Marcos Coimbra, do  Instituto Vox Populi, Dilma tem grandes chances de vencer no primeiro  turno porque o período de propaganda eleitoral gratuita tem sido  absolutamente eficiente no trabalho de associação entre ela e o  presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A campanha no rádio e na televisão  tem servido mais como informação a um eleitor pré-disposto a votar na  continuidade do que propriamente como instrumento de captação de votos.</p>
</div>
<div>
<p>Conforme se torna conhecida como  a candidata de Lula, Dilma consolida posição. A rejeição a Serra, na  opinião de Coimbra, é grande, mas decorrência da definição de voto por  Dilma. Por essa razão, Coimbra duvida da eficiência da campanha negativa  de Serra.</p>
</div>
<div>
<p><strong>Maria Inês Nassif</strong> escreve todas as quinta-feiras.</p>
</div>
</blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/14/reduto-tucano-ameacado/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>4</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A Veja é&#8230; Leia o NPTO e saberá</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/12/a-veja-e-leia-o-npto-e-sabera/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/12/a-veja-e-leia-o-npto-e-sabera/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 12 Sep 2010 16:23:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dos Outros]]></category>
		<category><![CDATA[aparelhamento]]></category>
		<category><![CDATA[conservador]]></category>
		<category><![CDATA[Dilma]]></category>
		<category><![CDATA[direita]]></category>
		<category><![CDATA[esgoto]]></category>
		<category><![CDATA[Estado]]></category>
		<category><![CDATA[Lula]]></category>
		<category><![CDATA[PT]]></category>
		<category><![CDATA[reaça]]></category>
		<category><![CDATA[Veja]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=4788</guid>
		<description><![CDATA[O melhor texto sobre o jornalismo de esgoto da Veja, sobre os reaças brasileiros e outras coisitas mais. Tinha que ser no NPTO, o melhor blog de política da blogosfera. Cuidado para não passar mal de tanto rir:
Quebra de Sigilo em Mauá (2): Veja e a tese do “Aparelhamento do Estado”
Não tenho tempo para ler [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O melhor texto sobre o jornalismo de esgoto da Veja, sobre os reaças brasileiros e outras coisitas mais. Tinha que ser no <a href="http://napraticaateoriaeoutra.org/" target="_blank">NPTO</a>, o melhor blog de política da blogosfera. Cuidado para não passar mal de tanto rir:</p>
<blockquote><p><strong>Quebra de Sigilo em Mauá (2): Veja e a tese do “Aparelhamento do Estado”</strong></p>
<p>Não tenho tempo para ler tudo que saiu sobre o escândalo, por isso  resolvi comprar a Veja. Imagino que, como de hábito, tudo que houver de  ataque mais agressivo contra o governo estará na Veja. Posso ter feito  errado, porque nem sempre o mais agressivo tem os melhores argumentos,  mas, se alguém aí souber de argumentos melhores, me avise.</p>
<p>1.</p>
<p>Antes de discutir o aparelhamento, uma observação. Não tenho, repito,  capacidade de discutir os detalhes da quebra do sigilo, mas tem um  negócio no final da reportagem da Veja da semana passada que me pareceu  estranho.</p>
<p>Segundo a Veja, a origem da quebra de sigilo estaria em um grupo de  inteligência petista que incluiria o Fernando Pimentel, que, por ter  participado de um jantar com o tal do Amaury, seria suspeito de ser o  elo perdido entre a quebra do sigilo e a Dilma. Meio fraco esse vínculo,  mas o que me causou certa perplexidade foi o seguinte:</p>
<p>Alertada, em maio, sobre as movimentações clandestinas de  seus auxiliares, Dilma determinou a imediata desmobilização do esquema  de espionagem [não, não foi a Carta Capital que disse isso, foi a Veja -  NPTO] (…) O que Dilma não sabe é que, ao desmantelar o gurpo, ela  acabou salvando um de seus principais assessores de se ver envolvido em  um escândalo. Dias antes de o grupo ser desfeito, o ex-ministro Antonio  Palocci tinha sido escolhido como alvo imediato do grupo de arapongas.  Para resolver uma disputa de poder entre os próprios petistas, o núcleo  decidiu convencer uma conhecida figura do ramo de diversões masculinas a  prestar um depoimento à Polícia Federal. Em troca de 4 milhões de  reais, a mulher acusaria o ex-ministro de ter usado dinheiro público  para patrocinar festas em Brasília. Benedito estava encarregado de  recolher o dinheiro com empresários mineiros. Fogo amigo também queima.  [separe essas duas frases e vai parecer que você tirou do blog do Rovai,  mas deixemos isso de lado - NPTO]</p>
<p>Faz tempo que não vou em uma reunião do partido, por isso, se as  coisas tiverem mudado, me expliquem que eu corrijo. Mas, se me lembro  bem, Pimentel era Paloccista de primeira hora, tendo sido, inclusive,  cogitado como substituto de Palocci na Fazenda. A disputa interna de  Palocci é com Dirceu, que, tanto quanto eu sei, ainda não apareceu nesse  caso. Pode ter havido algum realinhamento que eu não sei, mas, a  princípio, me parece que, se foram atrás do Palocci, quem mandou não foi  o Pimentel. Enfim, aguardo esclarecimentos de gente mais atualizada que  eu nas brigas das internas.</p>
<p>3.</p>
<p>Bem, mas tem um negócio a respeito do qual eu posso, sim, dar  opinião. Como eu já disse, o crime da Receita é só um crime isolado até  você ligá-lo à direção do PT (o que ninguém fez até agora) e/ou  inseri-lo em uma narrativa em que o PT é singularmente corrupto e  singularmente preocupado em aparelhar o Estado. A Veja gasta, na  verdade, mais espaço tentando fornecer esse background do que  propriamente esclarecendo o caso da Receita, e é isso que eu quero  discutir.</p>
<p>Por caridade, não vou comentar o quadro “Cidadãos Indignados”, que,  em uma amostra aleatória da população brasileira, sorteou o Roberto  Freire, o Denis Rosenfield, o Marco Antonio Villa, o Rodrigo Maia  (hehehe), e,<em>surprise, surprise</em>, o Magnoli. Só digo o seguinte: isso é preconceito contra o Olavo. Porque só ele ficou de fora?</p>
<p>4.</p>
<p>O primeiro movimento no texto para provar que o PT, sistematicamente,  aparelha o Estado, é um quadro com diferentes escândalos, a saber: o  mensalão, a violação do sigilo do Francenildo, os aloprados de 2006, a  abertura dos dados sobre os cartões corporativos, a Satiagraha (?), e o  caso Lina.</p>
<p>a.</p>
<p>O mensalão é um caso de corrupção que constitui muito mais a regra do  que a exceção na nossa história política. Todos os corruptos que  fizeram aliança com o PT tinham feito aliança com o PSDB (e com todo  mundo antes deles): alguém acha que antes do PT eles faziam alianças  ideológicas? A propósito, também está claro que qualquer corrupto que  desista do PT e resolva voltar para casa será recebido de braços abertos  pela oposição: estão aí o Roberto Jefferson e o Quércia que não me  deixam mentir.</p>
<p>b.</p>
<p>A violação do caseiro, sim, foi abuso de poder. Nesse caso, sem dúvida, nos comportamos de maneira torpe. A propósito, <a href="http://www.band.com.br/jornalismo/eleicoes2010/conteudo.asp?ID=100000343506">o cara, só para nos envergonhar ainda mais, não aceitou participar do programa do Serra</a> (imaginem o quanto não ofereceram), e está com o Plínio. Já tivemos  mais petistas como esse rapaz, esperemos que voltemos a ter mais no  futuro.</p>
<p>c.</p>
<p>O caso dos aloprados tinha duas dimensões: uma era a tentativa de  montar um dossiê contra o Serra, algo inteiramente legítimo e parte do  jogo democrático (desde que, naturalmente, não se faça nada de ilegal  para conseguir as informações). Se você chegar nos EUA e disser que no  Brasil tem um partido que faz dossiês contra seus adversários, eles vão  dizer, aqui tem pelo menos dois. O problema no caso dos aloprados era  outro, era a origem do dinheiro, que vinha, se não me falha a memória,  de caixa 2. Nenhum órgão da administração pública foi mobilizado nessa  história. Não é, portanto, evidência de aparelhamento.</p>
<p>d.</p>
<p>O caso dos cartões corporativos é uma história até hoje meio mal  contada, que até hoje me impressiona pela irrelevância. O PT teria feito  um dossiê sobre gastos de tucanos com o cartão corporativo. Pelo bem do  argumento, e por minha falta de paciência de pesquisar um negócio sem  importância desses, vamos contar que seja abuso de poder.</p>
<p>e.</p>
<p>A Satiagraha pode ter tido algum abuso de poder, mas não foi do PT.  Dêem uma olhada na reportagem que saiu na Piauí desse mês sobre o  Protógenes, escrita por um cara que é eleitor da Dilma. O artigo desce o  pau no Protógenes, mostra que o grande objetivo do Protógenes era  conseguir ligar o Dantas ao Zé Dirceu, e que há, inclusive, evidências  de que a investigação produziu um dossiê sobre a Dilma.</p>
<p>Digamos que todas as acusações de incompetência do autor da  reportagem contra o Protógenes sejam falsas. Ainda assim, o que se vê é  muita gente do PT puta com o Protógenes. O cara é meio que um  franco-atirador, e é um péssimo exemplo de disciplinado militante  petista dentro da máquina pública, se é disso que se lhe quer fazer de  exemplo.</p>
<p>f.</p>
<p>E o caso Lina é um disse-me-disse a respeito de Dilma ter pedido para  as acusações contra o Sarney serem investigadas mais rápido. Pelo bem  do argumento, vamos supor que Lina estivesse dizendo a verdade: seria um  caso de favorecimento político de aliados envolvidos em corrupção. Taí  um negócio que, realmente, só passou a existir depois do PT. Estou muito  menos disposto, aliás, a conceder o benefício da dúvida nesse caso.</p>
<p>E há as contra-evidências de aparelhamento: a PF foi muito mais  atuante sob o PT do que em qualquer outro período, inclusive contra o  governo. O Tarso Genro, por exemplo, não avisou o Lula que o filho dele  estava sendo investigado, o que, isso sim, deve ter acontecido pela  primeira vez na história brasileira. Não há mais engavetador-geral da  República.</p>
<p>E, algo que nunca poderia ter faltado em uma discussão sobre  aparelhamento do Estado – certamente não faltaria em uma discussão nos  EUA – Lula nomeou diversos ministros do STF que têm perfil ideológico  diferente do governo, a começar pelo mais conservador de todos, Carlos  Alberto Menezes Direito. O Toffoli é um cara politicamente mais próximo  do governo, mas, no quadro de, na minha conta, seis nomeações (errei a  conta?), é muito pouco para falar em aparelhamento. Olhem as nomeações  do FHC: Gilmar. Mendes.</p>
<p>Ou seja: na pior das hipóteses, teríamos dois casos de abuso de poder  em 8 anos de PT: a violação do sigilo do caseiro e o caso dos cartões  corporativos. É, rapaz, é exatamente esse o caso na Rússia do Putin,  para ficar no exemplo sugerido pelo Magnoli (porra, Magnoli, você está  enterrando a carreira, e duvido que esteja ganhando tão bem para isso):  não é que o Putin assassine jornalistas dissidentes, é que ele uma vez  violou os gastos com cartão corporativo dos caras.</p>
<p>Vejam, não é que esses casos não sejam graves, ou não constituam  crimes e erros. É que não há nada aí que não possa ser explicado pelos  ocupantes de cargos no governo serem ambiciosos politicamente ou  gananciosos financeiramente. Não há nada aí que, pare ser explicado,  exija a tese do projeto totalitário. A corrupção, a propósito, não só  não levou à implantação do totalitarismo, como pode ter mesmo causado  seu fim (taí um herói que recebeu poucas homenagens, o estelionatário do  mercado negro soviético).</p>
<p>5.</p>
<p>Mas o principal argumento da Veja está na matéria “O Partido do Polvo”, que vem logo depois. Começa assim:</p>
<p>Quando a máquina pública passa a ser controlada por  pessoas ligadas umbilicalmente a um partido político, e este, a  sindicatos, acaba de ser criado um poder independente no país. Nesse  poder, os ditames do corporativismo, das inclinações políticas e dos  interesses comuns da burocracia estatal oficial valem mais do que as  leis. Seus integrantes estão sempre de acordo sobre as grandes questões  políticas e obedecem cegamente a um líder carismático.</p>
<p>A frase seguinte é tão boa que merece esperar para ser discutida em separado. Vamos às idéias contidas no primeiro parágrafo:</p>
<p>1. “Quando a máquina pública passa a ser controlada por pessoas  ligadas umbilicalmente a um partido político…”, isto é, na democracia  moderna; ou seja, para a Veja, o primeiro problema do PT é o “P”, ser um  partido, como Democratas e Republicanos, Trabalhistas e Conservadores, e  como nada na direita brasileira é.</p>
<p>2. “…e este, a sindicatos…”, isto é, em um regime sem voto censitário  em que os sindicatos, como em todo o mundo desenvolvido, formam seu  partido político e têm chance de ganhar. O segundo problema do PT para a  Veja é o “T”, ser um partido dos trabalhadores. Mais sobre isso  adiante.</p>
<p>3. Se o que está em jogo são “os interesses comuns da burocracia  estatal”, o que houve foi estatização do Partido, não partidarização do  Estado.</p>
<p>4. “Seus integrantes estão sempre de acordo sobre as grandes questões  políticas…” deve ser uma frase que entrou por engano, pois nenhuma  cavalgadura seria tão dura e cavalga a ponto de dizer isso sobre o PT.</p>
<p>5.”…e obedecem cegamente a um líder carismático” deve ter entrado só  para tentar completar o álbum do Economia e Sociedade do Weber: afinal,  já foi dito que prevalecem os interesses da burocracia, os interesses  corporativos (que, imagino, não são só os dos burocratas, mas também dos  setores sindicalizados), só faltava os do líder carismático, que, na  tradição sociológica, é praticamente o contrário da gestão burocrática  e/ou dos agentes movidos por interesses corporativos. Se os  militantes/burocratas seguem a palavra do líder, não estão representando  seu próprio interesses, se representam seus próprios interesses, o  Estado está fechado a interesses corporativos, se o que vale são os  interesses corporativos, os corporativistas estão pouco se lixando para o  carisma do Lula.</p>
<p>Para completar o álbum, só faltou alguma coisa a respeito de  tradição, mas isso não dava pra botar, porque seria necessário fazer  referência a tudo que se sabe sobre a história do Estado Brasileiro e  sua tradição patrimonialista. Nada disso existiu, pois</p>
<p>Desde 2003, as promoções de funcionários públicos não são mais baseadas no mérito, e sim na afinidade política.</p>
<p>Desde 2003. Desenterrem o Faoro que eu quero chutar o defunto.  Empacotem a biblioteca do Sérgio Buarque de Hollanda na Unicamp. Esses  caras não sabiam nada. Até 2003, o Estado brasileiro era o tipo ideal  weberiano de dominação racional-legal. Aliás, com essa a Veja rompe de  vez com o ideário liberal: pois não era porque o Estado brasileiro era  um Leviatã paquidérmico e corrupto que a gente tinha que privatizar as  coisas? Qual governo do PT teve antes do FHC ter que desmontar a coisa  toda?</p>
<p>Mas agora é que fica bom:</p>
<p>Eles [os militantes - NPTO] se comunicam remotamente e coordenam suas ações <strong>como que orientados por ferormônios</strong>,  de modo que, mesmo sem trocar palavras sabem, caso a caso, o que é do  interesse maior do grupo e agem de acordo com ele. Em seu estágio final,  essa hierarquia paralela se organiza como uma sociedade secreta e  resiste até mesmo à alternância do poder político.</p>
<p>Ferorm…rapaz, eu não conseguiria inventar uma porra dessas se  tentasse. O PT é o coletivo Borg.  Quando o Lula tem uma idéia, o Dirceu  dá um cheirinho nele, e já sai dali com aquela coisa de metalúrgico  suado impregnada em seu corpo filocastrista. Quando encontra o Palocci,  rola um olho no olho, um lance de pele, e ele dá aquela suada em jato  pra cima do trostsko, que sai dali embebido para roçar a barba na barba  do Genoínio e, porra, esses caras da Veja não podem sair publicando suas  fantasias numa revista de família. Chat da Internet está aí pra isso  mesmo.</p>
<p>O que esta merda de parágrafo está fazendo aí? Está deixando claro  que não encontraram link nenhum entre a violação do sigilo e a campanha  da Dilma. O link, então, foi a troca de ferormônios. O que dizer, meu  amigo, o que dizer?</p>
<p>Mas esse artigo da Veja eu fiquei feliz em guardar. É um documento  histórico, prova do reflexo reacionário manifestado por parte da  sociedade brasileira diante da chegada à presidência de um partido dos  trabalhadores. O resto do artigo se dedica a denunciar que tem  sindicalista no governo. Vejam, por exemplo, esse trecho:</p>
<p>Desde 2003, quando Lula chegou ao poder, seus seguidores  aceleraram uma operação de conquista de postos-chave do Estado que,  aliás, já vinha sendo disciplinadamente seguida em governos anteriores  sem que soassem alarmes [NPTO: como, rapaz?]. Dos quarenta cargos mais  cobiçados do governo, os partidários de Lula e filiados ao PT ocupam 22.  Nesses postos eles controlam orçamentos anuais que, somados, chegam a  870 bilhões de reais. Isso representa um quarto do produto interno  brasileiro, ou seja, que 25% da riqueza nacional está sob administração  direta de quadros partidários e ligados a sindicatos e centrais  sindicais, todas comprometidos com um programa duradouro de poder.</p>
<p>Bom, rapaz, agora eu vou revelar em primeira mão pra você como é que  esses caras ganharam esse poder todo: ELES GANHARAM A PORRA DA ELEIÇÃO,  CARALHO. Todo mundo que ganha a porra da eleição, caralho, adquire  controle sobre o Estado (dã), e, se o Estado controlar 25% do PIB, é  essa a porcentagem que eles vão controlar.</p>
<p>Aí eu pensava que o cara ia enveredar pelo caminho de dizer que os  quadros petistas são menos competentes que os tucanos. Eu, pessoalmente,  não estranharia se fossem. Quando um grupo novo chega ao poder, ainda  não sabe governar, e só governando aprende. Vocês já viram o que faziam  os dissidentes que foram alçados ao poder após o fim do comunismo?  Ninguém ali tinha a menor experiência utilizável na administração  pública: eram filósofos, artistas de vanguarda, operários. Poucos anos  depois da transição, os partidos comunistas da região voltaram ao poder  em massa, após abdicar do comunismo propriamente dito, vencendo eleições  com a bandeira da competência técnica (era verdade, os caras tinham  governado o país por cinquenta anos, acabaram aprendendo alguma coisa).  Quem se interessar pelo tema pode checar o livro da <a href="http://www.cambridge.org/us/catalogue/catalogue.asp?isbn=0521001463">Anna Gryzmala-Busse</a>.</p>
<p>Mas não é disso que fala a reportagem da Veja<em>. </em>Ó só:</p>
<p>(…) os funcionários públicos guindados pelo PT têm, em  média, boa formação escolar e seriam pessoas certas no lugar certo não  fosse sua devoção a uma causa partidária.</p>
<p>Ou seja: o problema dos petistas que o PT alçou a cargos melhores não  é eles terem sido alçados a cargos melhores, é que eles são petistas.  Bom, aí não tem jeito, né, rapaz. Se o problema do petista é que ele é  petista, não é difícil provar que ser petista é um problema. Assim, até  eu.</p>
<p>E o impressionante é que a reportagem segue ignorando solenemente a  informação de que os petistas no Estado têm qualificação para ocupar os  cargos que ocupam, informação prontamente disponível para o autor da  matéria se olhasse para a tela enquanto digita. Pois o texto continua  como se o parágrafo acima não tivesse existido:</p>
<p>Antes de Lula e do PT, esses cargos eram ocupados em  parte por indicação política, já que a maioria dos postos era reservada  para especialistas de reconhecido conhecimento técnico [que merda de  frase, hein, meu filho - NPTO]. No governo Lula, 45%  desses cargos  foram entregues a sindicalistas, sendo que, entre eles, 82% são filiados  ao PT.</p>
<p>Bom, mas, como vimos, o nível desses sujeitos era compatível com os  cargos ocupados. Como vimos aí em cima, mané. Olha pra cima, lesado. Tá  aí, foi você que escreveu.</p>
<p>E, pra terminar, dois boxes: em um deles, descobre-se que o partido  que ganhou as eleições indicou os ocupantes dos cargos que devem ser  indicados por quem ganhar as eleições. Bom, que é, é. No segundo, quatro  informações:</p>
<p>1) desde a chegada de Lula à presidência, seis mil funcionários  públicos se filiaram ao PT. Isso não surpreende, visto que o PT deu  aumentos de salários muito mais generosos ao funcionalismo do que o  PSDB, carinhosamente chamado pelos professores de São Paulo de Pior  Salário Do Brasil. O cara apóia o partido que atende melhor seus interesses, nenhuma surpresa aqui.</p>
<p>2) há uma porrada de cargos de confiança. Sim, mas os ocupantes  desses cargos antes do PT não eram concursados, tampouco. Nessas horas,  sempre me lembro <a href="http://www.blogdoalon.com.br/2009/03/teste-de-qi-e-rasteira-no-eleitor-0203.html">dessa excelente historinha contada pelo Alon</a>:</p>
<p>A brigalhada pelo comando dos fundos de pensão faz  lembrar uma história que conheço há mais de trinta anos. Uma piada de  centro acadêmico. E nem é tão piada assim. Dois líderes de facções  adversárias conversam para tentar montar uma chapa de consenso na  entidade. Estão num impasse. Quem fará a maioria? Um dos dois chefes  políticos tem a ideia. “40% para vocês, 40% para nós e o resto para os  independentes.” O outro sorri. “Ótimo. A gente interrompe a conversa  agora e voltamos a falar amanhã de manhã. Eu trago a lista dos meus  independentes e você traz a dos seus.”</p>
<p>A propósito, o número de cargos de confiança deveria mesmo ser drasticamente reduzido.</p>
<p>3) Desses cargos de confiança, 45% foram entregues a sindicalistas.  Ou seja, menos da metade dos cargos que podem ser ocupados por quem o  governo indicar, sob um governo do partido dos sindicalistas, é ocupada  por sindicalistas. Se o número impressionar por alguma coisa, é por ser  baixo.</p>
<p>4) Entre esses sindicalistas, 82% são filiados ao PT. O que se deve,  naturalmente, a ter sido o PT que ganhou a eleição. Talvez seja essa a  informação que tenha faltado ao autor da reportagem. Não culpem o rapaz:  se ele só ler a revista em que trabalha, pode ser perdoado por ter  deixado essa passar.</p>
<p>5) 70% dos funcionários públicos filiados ao PT foram promovidos após  a filiação. Bom, a primeira coisa a se dizer aqui é que esse número é  suspeito até se efetuarem os controles estatísticos necessários. Aliás,  seria fácil fazer isso com os dados apresentados na pesquisa da Maria  Celina (base da reportagem), e seria legal se alguém fizesse. A própria  reportagem admite que muitas dessas promoções poderiam ter ocorrido de  qualquer maneira (e muita promoção no serviço público é, na prática, por  idade). Agora, alguém fica chocado porque o partido no poder recruta  para cargos mais altos gente afinada com seu projeto? Vocês não sabem  que quando o PSDB ganha a eleição, no Itamaraty – para ficar no exemplo  de uma ilha de excelência bem excelente – os melhores cargos vão para  gente mais à direita? Bom, se não souber, é só você que não sabe.</p>
<p>E, para ficar em outro contra-exemplo óbvio para a tese do  aparelhamento, inexplicavelmente não discutido na reportagem, o PT deu o  Banco Central a um tucano. No governo FHC, tudo que levamos foi o  Ministério da Cultura, que recebeu tão pouca verba que a festa dos 500  anos foi organizada pelo Ministro do Turismo (o felizmente esquecido  Rafael Greca, do DEM, que fez aquela caravela que afundou).</p>
<p>6.</p>
<p>É claro que há petistas corruptos, petistas gananciosos, esquemas  envolvendo dirigentes partidários com empresários corruptos. E também os  há direitistas. E não há qualquer sinal que os haja menos.</p>
<p>Mas, por enquanto, não há evidências  para a tese do aparelhamento do  Estado pelo PT, no sentido forte que se dá ao termo, de submissão  radical da máquina estatal ao partido. Pode ser que venha a haver, e  digo mais, se nas próximas eleições a oposição não for capaz de fazer  algo melhor do que tem feito, o PT tende mesmo a se corromper de maneira  mais global, como tenderiam os tucanos fôssemos nós os eleitoralmente  ineptos.</p>
<p>Mas o exercício sociológico feito pela Veja é simplesmente azevêdico.  A tentativa de produzir um background narrativo contra o qual projetar  novas denúncias até a eleição foi um fracasso constrangedor, ao menos no  nível intelectual (e, ao que parece, o tem sido também no nível  eleitoral). Mas, é claro, na matéria já há o recurso teórico que cumpre  papel semelhante à tese dos ferormônios: é que, a partir de certo ponto,  o grupo no poder se constitui em sociedade secreta. Daí em diante, se  não aparecerem evidências de nada do que está previsto aqui, a  explicação é simples: é que é tudo secreto.</p>
<p>7.</p>
<p>E, se vocês têm dúvida de que a edição da semana passada deveria dar o  background para a edição, de capa quase idêntica (só mais avermelhada),  dessa semana, a nova denúncia já começa assim:</p>
<p>A reportagem de capa de Veja da semana passada relatou o  escândalo da quebra de sigilo de adversários políticos promovida por  militantes do PT e <strong>deu uma visão panorâmica da imensidão e profundidade do aparelhamento do estado brasileiro por interesses partidários</strong>. A presente reportagem foca nos detalhes de um caso de aparelhamento muito especial. [ênfase: NPTO]</p>
<p>“Panorâmica”, no caso, quer dizer vista de tão longe que nenhum dos  traços do fenômeno real permanecem identificáveis, e do borrão  resultante qualquer um faz o teste de Rorschach que lhe convém. Na falta  de ferormônios que os articule, os argumentos levantados pela Veja  permanecem uma coleção de baboseiras sobre o PT coladas sobre o trabalho  da Maria Celina, da qual são tirados alguns  percentuais bastante  simples.</p>
<p>E, na falta disso, mesmo na hipótese de tanto a denúncia da semana  passada quanto a dessa semana serem verdade, a tese que a Veja quer  vender, a que realmente poderia impressionar os eleitores formadores de  opinião – é preciso derrotar o PT porque, não obstante os bons  resultados de seu governo, ele tem um projeto totalitário de poder –  revela-se apenas um exercício de sociologia aloprada.</p></blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/12/a-veja-e-leia-o-npto-e-sabera/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>3</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Sinais Trocados</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/10/sinais-trocados/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/10/sinais-trocados/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 10 Sep 2010 23:15:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dos Outros]]></category>
		<category><![CDATA[Carta Capital]]></category>
		<category><![CDATA[dados bancários]]></category>
		<category><![CDATA[devassa]]></category>
		<category><![CDATA[eleição]]></category>
		<category><![CDATA[fhc]]></category>
		<category><![CDATA[Leandro Fortes]]></category>
		<category><![CDATA[Michel Temer]]></category>
		<category><![CDATA[Serra]]></category>
		<category><![CDATA[sigilo fiscal]]></category>
		<category><![CDATA[tucano]]></category>
		<category><![CDATA[Verônica Serra]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=4746</guid>
		<description><![CDATA[Reportagem interessante de LeandroFortes, na  CartaCapital. Refresca a memória sobre Verônica Serra e a indignação seletiva da mídia de São Paulo.
É incrível como todo  escândalo causa um efeito dominó em direção ao passado. Todo escândalo é filhote de outro. Não existe um escândalo autêntico, absolutamente original. Qual foi o primeiro escândalo? O escândalo primevo, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Reportagem interessante de LeandroFortes, na <a href="http://www.cartacapital.com.br/"><strong> CartaCapital</strong></a><strong>. </strong>Refresca a memória sobre Verônica Serra e a indignação seletiva da mídia de São Paulo.</p>
<p>É incrível como todo  escândalo causa um efeito dominó em direção ao passado. Todo escândalo é filhote de outro. Não existe um escândalo autêntico, absolutamente original. Qual foi o primeiro escândalo? O escândalo primevo, o <em>fiat lux </em>dos escândalos?</p>
<p>Mais bizarros são os dossiês. Eles existem? São formas puras, sem conteúdo. São fantasmas. Será que nunca verei um dossiê na vida? Seria uma realização na minha biografia: _vi um dossiê!</p>
<blockquote><p><strong>Extinta empresa de Verônica Serra expôs os dados bancários de  60 milhões de brasileiros obtidos em acordo questionável com o governo  FHC</strong></p>
<p>Em 30 de janeiro de 2001, o peemedebista Michel Temer, então  presidente da Câmara dos Deputados, enviou um ofício ao Banco Central,  comandado à época pelo economista Armínio Fraga. Queria explicações  sobre um caso escabroso. Naquele mesmo mês, por cerca de 20 dias, os  dados de quase 60 milhões de correntistas brasileiros haviam ficado  expostos à visitação pública na internet, no que é, provavelmente uma  das maiores quebras de sigilo bancário da história do País. O site  responsável pelo crime, filial brasileira de uma empresa argentina, se  chamava Decidir.com e, curiosamente, tinha registro em Miami, nos  Estados Unidos, em nome de seis sócios. Dois deles eram empresárias  brasileiras: Verônica Allende Serra e Verônica Dantas Rodenburg.</p>
<p>Ironia do destino, a advogada Verônica Serra, 41 anos, é hoje a  principal estrela da campanha política do pai, José Serra, justamente  por ser vítima de uma ainda mal explicada quebra de sigilo fiscal  cometida por funcionários da Receita Federal. A violação dos dados de  Verônica tem sido extensamente explorada na campanha eleitoral. Serra  acusou diretamente Dilma Rousseff de responsabilidade pelo crime, embora  tenha abrandado o discurso nos últimos dias.</p>
<p>Naquele começo de 2001, ainda durante o segundo mandato do presidente  FHC, Temer não haveria de receber uma reposta de Fraga. Esta, se  enviada algum dia, nunca foi registrada no protocolo da presidência da  Casa. O deputado deixou o cargo menos de um mês depois de enviar o  ofício ao Banco Central e foi sucedido pelo tucano Aécio Neves,  ex-governador de Minas Gerais, hoje candidato ao Senado. Passados nove  anos, o hoje candidato a vice na chapa de Dilma Rousseff garante que  nunca mais teve qualquer informação sobre o assunto, nem do Banco  Central nem de autoridade federal alguma. Nem ele nem ninguém.</p>
<p>Graças à leniência do governo FHC e à então boa vontade da mídia, que  não enxergou, como agora, nenhum indício de um grave atentado contra os  direitos dos cidadãos, a história ficou reduzida a um escândalo de  emissão de cheques sem fundos por parte de deputados federais.</p>
<p>Temer decidiu chamar o Banco Central às falas no mesmo dia em que uma  matéria da Folha de São Paulo informava que, graças ao passe livre do  Decidir.com, era possível a qualquer um acessar não só os dados  bancários de todos os brasileiros com conta corrente ativa, mas também o  Cadastro de Emitentes de Cheques sem Fundos (CCF), a chamada “lista  negra”do BC. Com base nessa facilidade, o jornal paulistano acessou os  dados bancários de 692 autoridades brasileiras e se concentrou na  existência de 18 deputados enrolados com cheques sem fundos,  posteriormente constrangidos pela exposição pública de suas mazelas  financeiras.</p>
<p>Entre esses parlamentares despontava o deputado Severino Cavalcanti,  então do PPB (atual PP) de Pernambuco, que acabaria por se tornar  presidente da Câmara dos Deputados, em 2005, com o apoio da oposição  comandada pelo PSDB e pelo ex-PFL (atual DEM). Os congressistas expostos  pela reportagem pertenciam a partidos diversos: um do PL, um do PPB,  dois do PT, três do PFL, cinco do PSDB e seis do PMDB. Desses, apenas  três permanecem com mandato na Câmara, Paulo Rocha (PT-PA), Gervásio  Silva (DEM-SC) e Aníbal Gomes (PMDB-CE). Por conta da campanha  eleitoral, CartaCapital conseguiu contato com apenas um deles, Paulo  Rocha. Via assessoria de imprensa, ele informou apenas não se lembrar de  ter entrado ou não com alguma ação judicial contra a Decidir.com por  causa da quebra de sigilo bancário.</p>
<p>Na época do ocorrido, a reportagem da Folha ignorou a presença  societária na Decidir.com tanto de Verônica Serra, filha do candidato  tucano, como de Verônica Dantas, irmã do banqueiro Daniel Dantas, dono  do Opportunity. Verônica D. e o irmão Dantas foram indiciados, em 2008,  pela Operação Satiagraha, da Polícia Federal, por crimes de lavagem de  dinheiro, evasão de divisas, sonegação fiscal, formação de quadrilha,  gestão fraudulenta de instituição financeira e empréstimo vedado.  Verônica também é investigada por participação no suborno a um delegado  federal que resultou na condenação do irmão a dez anos de cadeia. E  também por irregularidades cometidas pelo Opportunity Fund: nos anos 90,  à revelia das leis brasileiras, o fundo operava dinheiro de nacionais  no exterior por meio de uma facilidade criada pelo BC chamada Anexo IV e  dirigida apenas a estrangeiros.</p>
<p>A forma como a empresa das duas Verônicas conseguiu acesso aos dados  de milhões de correntistas brasileiros, feita a partir de um convênio  com o Banco do Brasil, sob a presidência do tucano Paolo Zaghen, é fruto  de uma negociação nebulosa. A Decidir.com não existe mais no Brasil  desde março de 2002, quando foi tornada inativa em Miami, e a dupla tem  se recusado, sistematicamente, a sequer admitir que fossem sócias,  apesar das evidências documentais a respeito. À época, uma funcionária  do site, Cíntia Yamamoto, disse ao jornal que a Decidir.com dedicava-se a  orientar o comércio sobre a inadimplência de pessoas físicas e  jurídicas, nos moldes da Serasa, empresa criada por bancos em 1968. Uma  “falha”no sistema teria deixado os dados abertos ao público. Para  acessá-los, bastava digitar o nome completo dos correntistas.</p>
<p>A informação dada por Yamamoto não era, porém, verdadeira. O site da  Decidir.com, da forma como foi criado em Miami, tinha o seguinte aviso  para potenciais clientes interessados em participar de negócios no  Brasil: “encontre em nossa base de licitações a oportunidade certa para  se tornar um fornecedor do Estado”. Era, por assim dizer, um balcão  facilitador montado nos Estados Unidos que tinha como sócias a filha do  então ministro da Saúde, titular de uma pasta recheada de pesadas  licitações, e a irmã de um banqueiro que havia participado ativamente  das privatizações do governo FHC.</p>
<p>A ação do Decidir.com é crime de quebra de sigilo fiscal. O uso do  CCF do Banco Central é disciplinado pela Resolução 1.682 do Conselho  Monetário Nacional, de 31 de janeiro de 1990, que proíbe divulgação de  dados a terceiros. A divulgação das informações também é caracterizada  como quebra de sigilo bancário pela Lei n˚ 4.595, de 1964. O Banco  Central deveria ter instaurado um processo administrativo para averiguar  os termos do convênio feito entre a Decidir.com e o Banco do Brasil,  pois a empresa não era uma entidade de defesa do crédito, mas de  promoção de concorrência. As duas também deveriam ter sido alvo de uma  investigação da polícia federal, mas nada disso ocorreu. O ministro da  Justiça de então era José Gregori, atual tesoureiro da campanha de  Serra.</p>
<p>A inércia do Ministério da Justiça, no caso, pode ser explicada pelas  circunstâncias políticas do período. A Polícia Federal era comandada  por um tucano de carteirinha, o delgado Agílio Monteiro Filho, que  chegou a se candidatar, sem sucesso, à Câmara dos Deputados em 2002,  pelo PSDB. A vida de Serra e de outros integrantes do partido, entre os  quais o presidente Fernando Henrique, estava razoavelmente bagunçada por  conta de outra investigação, relativa ao caso do chamado Dossiê Cayman,  uma papelada falsa, forjada por uma quadrilha de brasileiros em Miami,  que insinuava a existência de uma conta tucana clandestina no Caribe  para guardar dinheiro supostamente desviado das privatizações. Portanto,  uma nova investigação a envolver Serra, ainda mais com a família de  Dantas a reboque, seria politicamente um desastre para quem pretendia,  no ano seguinte, se candidatar à Presidência. A morte súbita do caso,  sem que nenhuma autoridade federal tivesse se animado a investigar a  monumental quebra de sigilo bancário não chega a ser, por isso, um  mistério insondável.</p>
<p>Além de Temer, apenas outro parlamentar, o ex-deputado bispo  Wanderval, que pertencia ao PL de São Paulo, se interessou pelo assunto.  Em fevereiro de 2001, ele encaminhou um requerimento de informações ao  então ministro da Fazenda, Pedro Malan, no qual solicitava providências a  respeito do vazamento de informações bancárias promovido pela  Decidir.com. Fora da política desde 2006, o bispo não foi encontrado por  CartaCapital para informar se houve resposta. Também procurada, a  assessoria do Banco Central não deu qualquer informação oficial sobre as  razões de o órgão não ter tomado medidas administrativas e judiciais  quando soube da quebra de sigilo bancário.</p>
<p>Fundada em 5 de março de 2000, a Decidir.com foi registrada na  Divisão de Corporações do estado da Flórida, com endereço em um prédio  comercial da elegante Brickell Avenue, em Miami. Tratava-se da  subsidiária americana de uma empresa de mesmo nome criada na Argentina,  mas também com filiais no Chile (onde Verônica Serra nasceu, em 1969,  quando o pai estava exilado), México, Venezuela e Brasil. A  diretoria-executiva registrada em Miami era composta, além de Verônica  Serra, por Verônica Dantas, do Oportunity, Brian Kim, do Citibank, e por  mais três sócios da Decidir.com da Argentina, Guy Nevo, Esteban Nofal e  Esteban Brenman. À época, o Citi era o grande fiador dos negócios de  Dantas mundo afora. Segundo informação das autoridades dos Estados  Unidos, a empresa fechou dois anos depois, em 5 de março de 2002.  Manteve-se apenas em Buenos Aires, mas com um novo slogan: “com os  nossos serviços você poderá concretizar negócios seguros, evitando  riscos desnecessários”.</p>
<p>Quando se associou a Verônica D. Na Decidir.com, em 2000, Verônica S.  era diretora para a América Latina da companhia de investimentos  International Real Returns (IRR), de Nova York, que administrava uma  carteira de negócios de 660 bilhões de dólares. Advogada formada pela  Universidade de São Paulo, com pós-graduação em Harvard, nos EUA,  Verônica S. Também se tornou conselheira de uma série de companhias  dedicadas ao comércio digital na América Latina, entre elas a  Patagon.com, Chinook.com, TokenZone.com, Gemelo.com, Edgix, BB2W,  Latinarte.com, Movilogic e Endeavor Brasil. Entre 1997 e 1998, havia  sido vice-presidente da Leucadia National Corporation, uma companhia de  investimentos de 3 bilhões de dólares especializada nos mercados da  América Latina, Ásia e Europa. Também foi funcionária do Goldman Sachs,  em Nova York.</p>
<p>Verônica S. ainda era sócia do pai na ACP – Análise da Conjuntura  Econômica e Perspectivas Ltda, fundada em 1993. A empresa funcionava em  um escritório no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, cujo  proprietário era o cunhado do candidato tucano, Gregório Marin Preciado,  ex-integrante do conselho de administração do Banco do Estado de São  Paulo (Banespa), nomeado quando Serra era secretário de Planejamento do  governo de São Paulo, em 1993. Preciado obteve uma redução de dívida no  Banco do Brasil de 448 milhões de reais para irrisórios 4,1 milhões de  reais no governo FHC, quando Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-arrecadador  de campanha de Serra, era diretor da área internacional do BB e  articulava as privatizações.</p>
<p>Por coincidência, as relações de Verônica S. com a Decidir.com e a  ACP fazem parte do livro Os Porões da Privataria, a ser lançado pelo  jornalista Amaury Ribeiro Jr. Em 2011.</p>
<p>De acordo com o texto de Ribeiro Jr., a Decidir.com foi basicamente  financiada, no Brasil, pelo Banco Opportunity com um capital de 5  milhões de dólares. Em seguida, transferiu-se, com o nome de Decidir  International Limited, para o escritório do Ctco Building, em Road Town,  Ilha de Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas, famoso paraíso fiscal no  Caribe. De lá, afirma o jornalista, a Decidir.com internalizou 10  milhões de reais em ações da empresa no Brasil, que funcionava no  escritório da própria Verônica S. A essas empresas deslocadas para  vários lugares, mas sempre com o mesmo nome, o repórter apelida, no  livro, de “empresas-camaleão”.</p>
<p>Oficialmente, Verônica S. e Verônica D. abandonaram a Decidir.com em  março de 2001 por conta do chamado “estouro da bolha” da internet –  iniciado um ano antes, em 2000, quando elas se associaram em Miami. A  saída de ambas da sociedade coincide, porém, com a operação abafa que se  seguiu à notícia sobre a quebra de sigilo bancário dos brasileiros pela  companhia. Em julho de 2008, logo depois da Operação Satiagraha, a  filha de Serra chegou a divulgar uma nota oficial para tentar descolar o  seu nome da irmã de Dantas. “Não conheço Verônica Dantas, nem  pessoalmente, nem de vista, nem por telefone, nem por e-mail”, anunciou.</p>
<p>Segundo ela, a irmã do banqueiro nunca participou de nenhuma reunião  de conselho da Decidir.com. Os encontros mensais ocorriam, em geral, em  Buenos Aires. Verônica Serra garantiu que a xará foi apenas  “indicada”pelo Consórcio Citibank Venture Capital (CVC)/Opportunity como  representante no conselho de administração da empresa fundada em Miami.  Ela também negou ter sido sócia da Decidir.com, mas apenas  “representante”da IRR na empresa. Mas os documentos oficiais a  desmentem.</p></blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/10/sinais-trocados/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Plínio, pois é…</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/04/quem-sabe-plinio/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/04/quem-sabe-plinio/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 05 Sep 2010 02:00:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dos Outros]]></category>
		<category><![CDATA[canhota]]></category>
		<category><![CDATA[democracia]]></category>
		<category><![CDATA[esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[marcar posição]]></category>
		<category><![CDATA[Plínio]]></category>
		<category><![CDATA[programa]]></category>
		<category><![CDATA[PSOL]]></category>
		<category><![CDATA[socialismo]]></category>
		<category><![CDATA[voto útil]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=4626</guid>
		<description><![CDATA[Gostei da defesa de Plínio de Arruda Sampaio feita por André Raboni no Acertos de Contas. Discordo muito dela, mas sai, pelo menos, da mesmice do atual debate eleitoral. E, convenhamos, essa mesmice não é nem debate, porque simplesmente não existe discusão de coisa alguma.
Minha razão dá gritos de cachorro atropelado, mandando-me votar contra a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gostei da defesa de Plínio de Arruda Sampaio feita por André Raboni no <a href="http://acertodecontas.blog.br/politica/plinio-uma-candidatura-propositiva/" target="_blank">Acertos de Contas</a>. Discordo muito dela, mas sai, pelo menos, da mesmice do atual debate eleitoral. E, convenhamos, essa mesmice não é nem debate, porque simplesmente não existe discusão de coisa alguma.</p>
<p>Minha razão dá gritos de cachorro atropelado, mandando-me votar contra a direita no segundo turno. Até aí tudo bem. Já no primeiro turno&#8230; Confesso minha dificuldade em votar em Dilma &#8212; não sou antigovernista, inclusive reconhecendo o valor do governo Lula, mas queria uma opção mais à esquerda &#8212; bem&#8230; er&#8230; também não sei lá o que seria uma &#8220;opção mais à esquerda&#8221;. Seviciar os banqueiros, por exemplo? Pode ser, afinal, ser de esquerda não é, justamente,  não &#8220;saber qual é o crime maior, se é fundar um banco ou assaltá-lo&#8221;?</p>
<p>Claro, já disse aqui: voto útil na hora, caso surja a possibilidade de Serra ir ao segundo turno, mas com o crescimento de Dilma&#8230;</p>
<p>Marina ainda não me convenceu. Além do mais, sua frase a respeito do escândalo do sigilo fiscal, logo, seu apoio velado à tentativa de impugnação da candidatura de Dilma, revela que não compreende bem o que está em jogo : “se a Dilma faz isso agora, vai saber o que faria no governo”. Essa ilação é serrismo&#8230;</p>
<p>Não simpatizo com o PSOL, e as propostas da candidatura de Plínio ferem minha sensibilidade de ex-bolchevique. Não nego que minha autocomiseração tornou-me um bombeiro da revolução e um coveiro do socialismo. Sendo assim, suas propostas, do meu ponto de vista, parecem mais declarações de princípios, logo, sem tática, somente estratégia &#8212; &#8220;fins sem meios&#8221; foi e sempre será a doença infantil do esquerdismo. Cadê a adaptação dos princípios à análise concreta da situação concreta?</p>
<p>Ah, sim, os banqueiros &#8212; morte aos banqueiros! Pronto, o mantra compensa meu reformismo.</p>
<p>Mesmo assim, as declarações de Plínio são interessantes para marcar uma posição radical. A democracia brasileira não parece correr perigo, apesar do neoudenismo de Serra. Por que não um voto de princípio? Caso tenha um segundo turno, tudo se resolve com um voto útil. Além do mais, não nego minha imensa simpatia por esse senhor de tantas lutas e de tantos combates.</p>
<p>Assim, continuo pensando&#8230;</p>
<p>Lá vai, o artigo:</p>
<blockquote><p><strong>Plínio, uma candidatura propositiva</strong></p>
<p><a href="http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/04/quem-sabe-plinio/"><em>Clique aqui para assistir o vídeo inserido.</em></a></p>
<p>Na última quinta-feira, Pierre Lucena publicou o post “<em>A<a href="http://acertodecontas.blog.br/politica/algum-conhece-uma-proposta-de-campanha/">lguém conhece uma proposta de campanha? Umazinha só, please?</a></em>“.  Pois eu conheço não apenas uma, mas várias, e formam o corpo da  candidatura de Plínio de Arruda Sampaio, que é, essencialmente, uma  candidatura propositiva.</p>
<p>Muitas pessoas podem não levá-lo a sério,  e achincalhar suas ideias socialistas. Mas além de ser um homem íntegro  e coerente, sua campanha à presidência traz ao eleitorado brasileiro  uma série de propostas, em diversas áreas, e traz um ganho incalculável à  democracia brasileira, o que torna sua postulação muito interessante –  ainda que não se concorde com suas ideias.</p>
<p>Infelizmente, o que  tenho sentido nestas eleições é que uma parte significativa do próprio  eleitorado não parece muito interessada em discutir propostas. Na  internet, espaço onde tenho dedicado muitas horas de trabalho dos meus  dias, o que tenho visto é uma verdadeira rinha de torcidas organizadas e  pouquíssimo interesse em debater, com honestidade a profundidade,  ideias.</p>
<p>O clima de polarização da campanha tem criado, mais ou  menos, o seguinte ambiente: ou se é governista, e se vota em Dilma, ou  se é opositor, e vota em Serra; ou, ainda, é-se insatisfeito com as  práticas petistas e, numa espécie de estilo Pôncio Pilatos, vota-se em  Marina com quem “lava as mãos” (sem galhofar, por evidente, com aqueles  que votam na candidata por honesto apoio programático).</p>
<p>Mas, e onde se encaixa Plínio nessa coisa? …</p>
<p><object id="vvq-49747-youtube-2" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="425" height="344" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="wmode" value="opaque" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/W54tJxHJzX0&amp;amp;rel=0&amp;amp;fs=1&amp;amp;showsearch=0&amp;amp;showinfo=0" /><embed id="vvq-49747-youtube-2" type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="344" src="http://www.youtube.com/v/W54tJxHJzX0&amp;amp;rel=0&amp;amp;fs=1&amp;amp;showsearch=0&amp;amp;showinfo=0" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" wmode="opaque"></embed></object></p>
<p>Plínio  é um candidato que me agrada bastante, e terá o meu voto – muito embora  eu não nutra a maior das paixões pelo seu partido, o PSol. Sua  plataforma foge de todo este joguete polarizado que está posto à  sociedade. Neste sentido, a candidatura de Plínio cumpre um papel  simbólico importante para a sociedade brasileira.</p>
<p>Partindo de uma  proposta socialista, republicana e democrática, a candidatura combate a  ignorância política em que chafurdou a eleição deste ano. Além disso,  afasta a sombra lúgubre da americanização do nosso sistema político,  onde dois partidos se alternam no poder, conservando uma estrutura  binária cuja função é criar uma <em>aparência</em> de mudanças políticas no país.</p>
<p>Sua  campanha tem apresentado propostas muito interessantes, e, mesmo com  pouquíssimo espaço na mídia, tem conseguido fazer uma campanha de parcos  recursos, mas utilizando de forma muito inteligente as ferramentas  disponíveis na internet (sobretudo o Twitter, onde Plínio concede  sistemáticas entrevistas, conversa quase que diariamente com as pessoas,  de forma franca e objetiva, além de fazer transmissões ao vivo pelo <em>twitcam</em>, apresentando, desta forma, suas propostas, otimizando um instrumento de baixo custo e de razoável alcance).</p>
<p>Dá  gosto de ver a campanha de Plínio. E dá vergonha observar a pobreza que  se tornou o processo eleitoral brasileiro. Praticamente todas as  questões têm sido tratadas de forma superficial, ou com tergiversações,  pelas candidaturas mais bem colocadas nas pesquisas – até mesmo as  questões mais urgentes, com a reforma política.</p>
<p>Com isso, quem  perde é o país. Perde uma boa oportunidade de debater as grandes  questões nacionais, deixando de lado o momento eleitoral do primeiro  turno que deveria ser, basicamente, um período de amadurecimento das  ideias. Mas não quero isentar o próprio eleitorado de culpa nesse  cartório da polarização, que é acentuada pelos grandes veículos de  comunicação.</p>
<p>Se candidatos como Plínio não ocupam grandes espaços  na mídia – às vezes, nem os poucos espaços que lhe deveriam ser  garantidos pela representação congressual de seu partido -, o eleitor  poderia dedicar-se um pouquinho e ir atrás de informações (a internet  ajuda muito para isso). Mas… Boa parte das pessoas está mesmo é se  lixando pra tudo isso.</p>
<p>É bastante provável que muitas pessoas  tenham medo da candidatura de Plínio (medo de uma “revolução  socialista”, ou coisa que o valha). No entanto (e Plínio já deixou isso  muito claro), a sua pretensão não é fazer uma revolução no Brasil, mas  reajustar paulatinamente a estrutura econômica, política e social do  país.</p>
<p>As propostas de Plínio buscam se realizar a partir de  alguns marcos da sociedade atual, e não visa rompimentos <em>revolucionistas</em> com a ordem constitucional brasileira. Seguir as leis e respeitar a   constituição é um dos pressupostos da candidatura de Plínio.</p>
<p>Muitos  podem não concordar com as propostas de Plínio, e isso faz parte do  processo democrático. Alguns por motivos racionais e respeitáveis,  outros por simples “medo”. Acontece que medo não é argumento, é  sentimento.</p>
<p>Se o eleitor tem esse sentimento dentro da alma, deve  saber que isso é psicológico, e só se resolve de duas formas: ou num  divã (com terapia psicanalítica e/ou esquizoanalítica) ou no  esquecimento (tapando o sol com a peneira e fingindo pra si mesmo –  têm-se a opção de repetir hipnopédicamente que o “medo” não existe).</p>
<p>Politicamente  falando, o “medo” também é um dispositivo ideológico (alguém lembra de  Regina Duarte, a “medrosa”?) cuja função psicológica cumpre a agenda do  afastamento <em>a priori</em> de uma ideia, de uma proposta, sem que o indivíduo amiúde faça uma reflexão sobre as profundas causas desse sentimento.</p>
<p>Quando  o sentimento do medo for sanado, ou, ao menos, equilibrado, nesse  momento pode-se parar e observar com maior objetividade as propostas  colocadas pela candidatura de Plínio. Nesse instante, sem medos e  preconceitos, o eleitor pode concordar ou discordar racionalmente das  propostas.</p>
<p>É uma opção pessoal, o que difere demasiadamente da alegação de que não há proposta alguma colocada no prato eleitoral.</p>
<p>Falarei rapidamente sobre algumas propostas (sim, existem propostas!).</p>
<p><strong>1 – Auditoria da dívida pública federal (DPF): </strong></p>
<p>Atualmente,  o estoque do endividamento público federal (incluindo a dívida externa e  a interna) é de mais de 1 trilhão e meio de reais. Apesar da hipótese  de que a dívida pública federal é estacionária, e, por isso, não  apresenta um comportamento “explosivo” (essa ideia pode ser vista <a onclick="javascript:_gaq.push(['_trackEvent','outbound-article','www.tesouro.fazenda.gov.br/premio_TN/ivpremio/divida/MHafdpIVPTN/FONSECA_NETO.pdf']);" href="http://www.tesouro.fazenda.gov.br/premio_TN/ivpremio/divida/MHafdpIVPTN/FONSECA_NETO.pdf">aqui</a>),  essa bomba trilionária não é auditada de forma profunda (ainda que seja  um dispositivo previsto na Constituição Federal de 88), com a  participação de organismos internacionais, desde os tempos de Getúlio  Vargas.</p>
<p>Alguns especialistas da economia preferem dizer que isso é  bobagem, ou que o mais coerente e acertado seria sentar com os credores  para renegociar os termos da dívida, e que o próprio Banco Central  poderia operacionalizar uma mudança na rostidade da dívida.</p>
<p>Isso é uma questão de viés através do qual se observa o problema.</p>
<p>A  candidatura de Plínio coloca esse ponto em discussão (concorde-se ou  não com seu ponto de vista de promover uma auditoria profunda da DPF,  coloocar a ideia em debate é importante), o que se traduz numa proposta  de campanha que, para o bem ou para o mal, está sendo silenciada pelos  veículos de comunicação, que fecharam suas portas para o debate mais  profundo.</p>
<p>Para Plínio, boa parte do gasto com a DPF (segundo o  candidato, uma “dívida extremamente questionável”) deveria ser  equacionado, e seus dividendos repassados para a garantia de educação e  saúde públicas de qualidade.</p>
<p>De acordo com o candidato “<em>Nós estamos pagando de dívida pública 36% do orçamento e repassamos para a educação apenas 11%</em>”.</p>
<p>Sobre  a necessidade de se realizar uma auditoria da DPF, o deputado Ivan  Valente escreveu um texto, publicado no site do PSol. Leia <a onclick="javascript:_gaq.push(['_trackEvent','outbound-article','www.plinio50.com.br/artigos/136-a-urgencia-da-auditoria-da-divida-publica.html']);" href="http://www.plinio50.com.br/artigos/136-a-urgencia-da-auditoria-da-divida-publica.html">aqui</a>.</p>
<p><strong>2 – Revogação da MP 458:</strong></p>
<p>A <a onclick="javascript:_gaq.push(['_trackEvent','outbound-article','www.leidireto.com.br/medidaprovisoria-458.html']);" href="http://www.leidireto.com.br/medidaprovisoria-458.html">Medida Provisória 458</a> foi publicada pelo governo federal em 10 de fevereiro deste ano, e  trata da regularização das terras ocupadas em área da União, na esfera  da Amazônia Legal. É conhecida como a MP que regularizou a grilagem de  terras na Amazônia.</p>
<p>A MP 458 foi, inclusive, aprovada no Senado  sob protestos de Marina Silva (a quem Plínio se refere através do  conceito de “ecocapitalista”, pois a candidata não defende mudanças do  sistema econômico nacional – consideradas essenciais por Plínio – para  que se possa fazer uma efetiva defesa do Meio Ambiente). A revogação  dessa MP faz parte de um projeto de sociedade baseada na defesa da  soberania nacional e justiça social.</p>
<p>Neste contexto, entra também a  proposta da realização de uma auditoria da dívida ecológica, em função  dos passivos ambientais provocados pelo agronegócio.</p>
<p><strong>3 – Reforma Agrária:</strong></p>
<p>A  proposta que Plíno coloca sobre essa questão é muito interessante – e  (compartilho dessa visão) vital para as famílias de trabalhadores rurais  e também para a economia nacional, com desdobramentos em outras áreas,  como a redução da violência urbana e rural. O candidato propõe a  expropriação de todas as terras que se utilizem de trabalho escravo e  infantil.</p>
<p>Recentemente, Plínio assinou a carta do Fórum Nacional  pela Reforma Agrária, onde está proposta a realização de um plebiscito  para estabelecer limites ao tamanho das propriedades. Plínio sinaliza  para o limite máximo de mil hectares. Segundo o candidato, “<em>existem 5,5 milhões de fazendas no Brasil, das quais 1% delas, ou seja, 55 mil, tem 44% da terra</em>“.</p>
<p>No  Brasil existem enormes porções de terras cuja produtividade é  estritamente voltada para a exportação, sobretudo soja e carne bovina.  Não é por acaso que, quando vamos ao supermercado, o preço da carne e  dos laticínios em geral é tão alto.</p>
<p>Talvez não seja alto para o  nobre leitor que, por ventura, disponha de boas condições financeiras;  para mim, e para muitas famílias brasileiras assalariadas, o custo é  bastante alto – de uns tempos pra cá, praticamente me vi obrigado a me  tornar vegetariano, contra o meu desejo alimentar, bastante carnívoro.</p>
<p>A  distribuição das terras com suporte de políticas públicas de apoio à  agricultura familiar diversificaria as plantações brasileiras. Com isso,  a produção passaria a ser voltada para uma grande variedade de  alimentos (baseados nos princípios da segurança alimentar, ou seja, sem  transgênicos) a ser oferecida no mercado interno e externo.</p>
<p>O  Brasil deve ser o único país das Américas que ainda não deu resolução às  questões relativas à terra. Está mais do que em tempo.</p>
<p><strong>4 – Saúde pública universal:</strong></p>
<p>Plínio  propõe a estatização de todo sistema de saúde do Brasil. A ideia que  está por trás dessa proposta é baseada no princípio da igualdade. Para  Plínio, no momento em que os mais ricos tiverem que dividir as  enfermarias com as classes mais pobres, neste momento a cobrança por  melhores condições de saúde se tornará mais efetiva dentro da sociedade.</p>
<p>Além disso, paga-se muito aos planos de saúde, e quando a coisa é mais complicada, o cidadão recorre ao SUS. Na sua <a onclick="javascript:_gaq.push(['_trackEvent','outbound-article','www.youtube.com/watch?v=8k7GNJECDQ4']);" href="http://www.youtube.com/watch?v=8k7GNJECDQ4">entrevista ao <em>Jornal da Globo</em></a>, esta semana, o candidato narrou uma história interessante. Disse o seguinte:</p>
<p>“<em> </em><em>Agora  meu neto estava em Londres, sentiu uma dor, foi para o hospital. Chegou  no hospital e disse: ‘esqueci a minha carteira de identidade’. O médico  fez: ‘Que é isso, meu filho, a sua carteira de identidade é o seu  corpo. Está se sentindo mal? Deita aí.’ Isso que é Saúde Pública </em>“.</p>
<p>Assista a entrevista na íntegra, <a onclick="javascript:_gaq.push(['_trackEvent','outbound-article','www.youtube.com/watch?v=8k7GNJECDQ4']);" href="http://www.youtube.com/watch?v=8k7GNJECDQ4">aqui</a>.</p>
<p><strong>5 – Educação pública:</strong></p>
<p>A  proposta de Plínio é não permitir que escolas sejam formatadas como  empresas, como negócio onde se fatura muito dinheiro. Sua candidatura  defende a valorização das escolas públicas, através do Plano Nacional de  Educação da Sociedade Brasileira, prevendo a destinação de 10% de todo o  Produto Interno Bruto para garantir Educação Pública de qualidade em  todos os níveis.</p>
<p>A proposta de repasse dos 10% também foi  levantada na Conferência Nacional de Educação (Conae), entre março e  abril deste ano. No final do mês passado, Plínio voltou a falar sobre a  necessidade de o MEC incluir essa proposta no Plano Nacional, que está  sendo elaborado.</p>
<p>A efetivação desse percentual do PIB para  educação viria como um desdobramento do corte de gastos da dívida  pública (ver proposta 1).</p>
<p>Plínio também é favorável à revisão do modelo do ProUni e do ReUni, e disse que “<em>O  Brasil não pode aceitar um projeto para expandir o número de  profissionais com formação limitada, de modo a pressionar os salários  para baixo</em>”.</p>
<p>Sobre a questão da educação, sugiro a leitura de uma entrevista que o candidato concedeu ao Portal Aprendiz, <a onclick="javascript:_gaq.push(['_trackEvent','outbound-article','www.educacionista.org.br/jornal/index.php?option=com_content&amp;task=view&amp;id=6649&amp;Itemid=43']);" href="http://www.educacionista.org.br/jornal/index.php?option=com_content&amp;task=view&amp;id=6649&amp;Itemid=43">aqui</a>.</p>
<p><strong>6 – Reestatização da Vale do Rio Doce:</strong></p>
<p>A  idéia por trás das privatizações empreendidas pelo governo FHC  baseou-se nos pressupostos estabelecidos no “Consenso de Washington”,  cujas medidas foram estabelecidas pelo Banco Mundial, o FMI e o  Departamento do Tesouro dos EUA, e veio a se tornar uma espécie de  receita global para acelerar o desenvolvimento econômico. Uma dessas  “receitas” era a privatização de todas as empresas estatais do mundo.</p>
<p>Ideologicamente,  o Consenso de Washington justificou certo esvaziamento político das  privatizações, colocando-as como meras questões econômicas. Entretanto,  essa visão despolitizada do ideário privatista do Consenso de Washington  passa longe de ser um consenso, e muitos encaram as privatizações como  um processo sumariamente político.</p>
<p>Plínio contesta a forma como  foi privatizada a Vale, e propõe sua reestatização. Contesta-se a forma  como foi privatizada, os valores e a questão da soberania nacional.</p>
<p>No  leilão, a Vale foi vendida por R$ 3,338 bilhões, entregue com um caixa  de R$ 700 milhões e um patrimônio de R$ 92,64 bilhões.  Levando em  consideração o valor de seu patrimônio, a Vale teria sido privatizada  sem uma avaliação correta de seu valor.</p>
<p>A riqueza mineral do  subsolo brasileiro é enorme, e impulsiona o valor estimado da empresa à  casa do trilhão de Reais, e tais riquezas compõem o corpo da soberania  nacional, entregue de forma contestável à iniciativa privada.</p>
<p><strong>*****</strong></p>
<p>Existem  outras propostas no programa de governo de Plínio, e não concordo,  necessariamente, com todas. Mas entendo a importância de colocá-las em  debate. Outras propostas podem ser vistas no site do candidato, clicando  <a onclick="javascript:_gaq.push(['_trackEvent','outbound-article','www.plinio50.com.br/programa-de-governo-psol-plinio-de-arruda-sampaio.html']);" href="http://www.plinio50.com.br/programa-de-governo-psol-plinio-de-arruda-sampaio.html">aqui</a>.</p>
<p><strong>*****</strong></p>
<p>Com  este post, minha intenção é fazer um convite ao leitor do blog  (concorde ou não com as propostas acima descritas): que tal a gente  debater ideias e projetos de sociedade?</p></blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/04/quem-sabe-plinio/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>4</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O dossiê do dossiê do dossiê&#8230;</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/02/o-dossie-do-dossie-do-dossie/</link>
		<comments>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/02/o-dossie-do-dossie-do-dossie/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 02 Sep 2010 13:45:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dos Outros]]></category>
		<category><![CDATA[Amaury Ribeiro Jr]]></category>
		<category><![CDATA[araponga]]></category>
		<category><![CDATA[Banco do Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Dilma]]></category>
		<category><![CDATA[dossiê]]></category>
		<category><![CDATA[espionagem]]></category>
		<category><![CDATA[fhc]]></category>
		<category><![CDATA[investigação]]></category>
		<category><![CDATA[Serra]]></category>
		<category><![CDATA[Veja]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.blogdosperrusi.com/?p=4555</guid>
		<description><![CDATA[Artigo fundamental de Leandro Fortes:
No modorrento feriado de Corpus Christi, os leitores dos jornais foram  inundados com informações sobre uma trama que envolveria a fabricação de  dossiês contra o candidato tucano à Presidência, José Serra, produzidos  por gente ligada ao comitê da adversária Dilma Rousseff. O time de  espiões teria sido [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Artigo fundamental de <a href="http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&amp;a2=8&amp;i=6955" target="_blank">Leandro Fortes</a>:</p>
<blockquote><p>No modorrento feriado de Corpus Christi, os leitores dos jornais foram  inundados com informações sobre uma trama que envolveria a fabricação de  dossiês contra o candidato tucano à Presidência, José Serra, produzidos  por gente ligada ao comitê da adversária Dilma Rousseff. O time de  espiões teria sido montado pelo jornalista Luiz Lanzetta, dono da  agência Lanza, responsável pela contratação de funcionários para a área  de comunicação da campanha petista. O primeiro desses documentos seria  um relatório sobre as ligações de Verônica Serra, filha do candidato do  PSDB, com Verônica Dantas, irmã do banqueiro Daniel Dantas, do  Opportunity. Uma história tão antiga quanto os dinossauros e já relatada  inúmeras vezes na última década, inclusive por <em>CartaCapital</em>.</p>
<p>A  notícia sobre o suposto dossiê, que ninguém sabe dizer se existe de  fato, veio a público em uma reportagem confusa da revista Veja e ganhou  lentamente as páginas dos jornais durante a semana até ser brindada com  uma forte rea-ção do PSDB e de Serra. Na quarta-feira 2, o pré-candidato  tucano acusou Dilma Rousseff de estar por trás da “baixaria” e cobrou  explicações. A petista disse que a acusação era uma “falsidade” e o  presidente do partido, José Eduardo Dutra, informou que a cúpula da  legenda havia decidido interpelar Serra na Justiça por conta das  declarações.</p>
<p>Os boatos sobre a fábrica de dossiês parecem ser  fruto de uma disputa interna entre dois grupos petistas interessados em  comandar a estrutura de comunicação da campanha de Dilma Rousseff, um  ligado a Lanzetta, outro ao deputado estadual Rui Falcão. A origem dessa  confusão era, porém, desconhecida do público, até agora. <em>CartaCapital</em> teve acesso a parte do tal “dossiê” que gerou toda essa especulação.  Trata-se, na verdade, de um livro ainda não publicado com 14 capítulos  intitulado <em>Os Porões da Privataria</em>, do jornalista Amaury Ribeiro Jr.</p>
<p>O  livro descreve com minúcias o que seria a participação de Serra e  aliados tucanos nos bastidores das privatizações durante os dois  mandatos de Fernando Henrique Cardoso. É um arrazoado cujo conteúdo  seria particularmente constrangedor para o pré-candidato e outros tantos  tucanos poderosos dos anos FHC. Entre os investigados por Ribeiro Jr.  estão também três parentes de Serra: a filha Verônica, o genro Alexandre  Bourgeois e o primo Gregório Marin Preciado. Está sendo produzido há  cerca de dois anos e nada tem a ver com a suposta intenção petista de  fabricar acusações contra o adversário.</p>
<p>É essa a origem das  informações sobre a existência do tal “dossiê” contra a filha de Serra. E  a razão de os tucanos terem lançado um ataque preventivo às informações  que constam do livro. De fato, Ribeiro Jr. dedicou-se a apurar os  negócios de Verônica. Repórter experiente com passagens em várias  redações da imprensa brasileira, Ribeiro Jr. iniciou as apurações a  pedido do seu último empregador, o Grupo Diá-rios Associados, que  congrega, entre outros, os jornais Correio Braziliense e O Estado de  Minas. O livro narra, por exemplo, supostos benefícios obtidos por Marin  Preciado em instituições financeiras públicas, entre elas o Banco do  Brasil, na época em que outro ex-tesoureiro de Serra, Ricardo Sérgio de  Oliveira, trabalhava lá. Para quem não se lembra, Oliveira ficou famoso  após a divulgação de sua famosa frase “no limite da irresponsabilidade”  no conjunto dos grampos do BNDES.</p>
<p>Em uma entrevista que será usada como peça de divulgação do livro e à qual <em>CartaCapital</em> teve acesso, Ribeiro Jr. afirma que a investigação que desaguou no  livro começou há dois anos. À época, explica, havia uma movimentação,  atribuída ao deputado Marcelo Itagiba (PSDB-RJ), visceralmente ligado a  Serra, para usar arapongas e investigar a vida do governador tucano  Aécio Neves, de Minas Gerais. Justamente quando Aécio disputava a  indicação como candidato à Presidência pelos tucanos. “O interesse  suposto seria o de flagrar o adversário de Serra em situações escabrosas  ou escândalos para tirá-lo do páreo”, diz o jornalista. “Entrei em  campo, pelo outro lado, para averiguar o lado mais sombrio das  privatizações, propinas, lavagem de dinheiro e sumiço de dinheiro  público.”</p>
<p>A ligação feita entre o nome de Ribeiro Jr. e o  anunciado esquema de espionagem do comitê de Dilma deveu-se a um  encontro entre ele e Lanzetta, em Brasília, no qual se especulou sobre  sua contratação para a equipe de comunicação da campanha petista.  Vencedor de três prêmios Esso e quatro prêmios Vladimir Herzog, entre  muitos outros, Ribeiro Jr., 47 anos, é conhecido por desencavar boas  histórias. Herdeiro de uma pizzaria e uma fazenda em Campo Grande (MS) e  ocupado com a finalização do livro, o jornalista recusou o convite.</p>
<p>Na  entrevista de divulgação do livro, Ribeiro Jr. afirma que a obra  estabelece a ligação de diversos tucanos com as privatizações e desnuda  inúmeras ações com empresas <em>offshore</em> para fazer entrar no  Brasil dinheiro oriundo de paraísos fiscais. “São operações complicadas e  necessitam ser explicadas com cuidado para os brasileiros perceberem o  quanto foram lesados e em quanto mais poderão ser.”</p>
<p>A  aproximação entre Ribeiro Jr. e Lanzetta, contudo, teria sido suficiente  para que grupos interessados em ganhar espaço na campanha petista  desencadeassem uma onda de boatos sobre a formação de um time de  contraespionagem para produzir dossiês contra os tucanos. Diante do  precedente dos “aloprados” do PT, a mídia embarcou com entusiasmo na  versão depois assumida com tanto vigor pelos próceres tucanos. É mais um  não fato da campanha.</p>
<p>O mesmo fenômeno envolveu o ex&#8211;delegado  federal Onésimo de Souza, especialista em contraespionagem que chegou a  oferecer serviços ao PT de vigilância e rastreamento de escutas  telefônicas. Como cobrou caro demais, acabou descartado, mas foi  apontado como futuro integrante da tal equipe de arapongas de Dilma  Rousseff.</p>
<p>Por ordem da pré-candidata, qualquer assunto relativo a  dossiê e afins está proibido no comitê de campanha instalado numa casa  do Lago Sul de Brasília. Dilma se diz “estarrecida” com as acusações  veiculadas, primeiro, na revista Veja e, em seguida, por diversos outros  veículos &#8211; sempre com foco na suposta espionagem, nunca no conteúdo do  suposto dossiê. Aos auxiliares, a petista mandou avisar que não  aceitará, “em hipótese alguma”, a confecção de dossiês durante a  campanha e demitirá sumariamente quem se envolver com tal expediente.</p></blockquote>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/02/o-dossie-do-dossie-do-dossie/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>

