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Tempestade no Cerrado

12 de março de 2010, às 10:10h

Repercuto, aqui, um artigo de Mauro Carrara.

Às armas, camaradas! Às armas!

Afinal, este es um gobierno de mierda, pero es nuestro gobierno!

Guardei foices, lanças, panelas e garfos. É só pedir que mando pelo pombo-correio. Deixem os banqueiros comigo!

Operação “Tempestade no Cerrado”: o que fazer? – por Mauro Carrara

O PT é um partido sem mídia…
O PSDB é uma mídia com partido.

“Tempestade no Cerrado”: é o apelido que ganhou nas redações a operação de bombardeio midiático sobre o governo Lula, deflagrada nesta primeira quinzena de Março, após o convescote promovido pelo Instituto Millenium.

A expressão é inspirada na operação “Tempestade no Deserto”, realizada em fevereiro de 1991, durante a Guerra do Golfo.

Liderada pelo general norte-americano Norman Schwarzkopf, a ação militar destruiu parcela significativa das forças iraquianas. Estima-se que 70 mil pessoas morreram em decorrência da ofensiva.

A ordem nas redações da Editora Abril, de O Globo, do Estadão e da Folha de S. Paulo é disparar sem piedade, dia e noite, sem pausas, contra o presidente, contra Dilma Roussef e contra o Partido dos Trabalhadores.

A meta é produzir uma onda de fogo tão intensa que seja impossível ao governo responder pontualmente às denúncias e provocações.

As conversas tensas nos “aquários” do editores terminam com o repasse verbal da cartilha de ataque.

  1. Manter permanentemente uma denúncia (qualquer que seja) contra o governo Lula nos portais informativos na Internet.
  2. Produzir manchetes impactantes nas versões impressas. Utilizar fotos que ridicularizem o presidente e sua candidata.
  3. Ressuscitar o caso “Mensalão”, de 2005, e explorá-lo ao máximo. Associar Lula a supostas arbitrariedades cometidas em Cuba, na Venezuela e no Irã.
  4. Elevar o tom de voz nos editoriais.
  5. Provocar o governo, de forma que qualquer reação possa ser qualificada como tentativa de “censura”.
  6. Selecionar dados supostamente negativos na Economia e isolá-los do contexto.
  7. Trabalhar os ataques de maneira coordenada com a militância paga dos partidos de direita e com a banda alugada das promotorias.
  8. Utilizar ao máximo o poder de fogo dos articulistas.

Quem está por trás

Parte da estratégia tucano-midiática foi traçada por Drew Westen, norte-americano que se diz neurocientista e costuma prestar serviços de cunho eleitoral.

É autor do livro The Political Brain, que andou pela escrivaninha de José Serra no primeiro semestre do ano passado.

A tropicalização do projeto golpista vem sendo desenvolvida pelo “cientista político” Alberto Carlos Almeida, contratado a peso de ouro para formular diariamente a tática de combate ao governo.

Almeida escreveu Por que Lula? e A cabeça do brasileiro, livros que o governador de São Paulo afirma ter lido em suas madrugadas insones.

O conteúdo

As manchetes dos últimos dias, revelam a carga dos explosivos lançados sobre o território da esquerda.

Acusam Lula, por exemplo, de inaugurar uma obra inacabada e “vetada” pelo TCU.

Produzem alarde sobre a retração do PIB brasileiro em 2009.

Criam deturpações numéricas.

A Folha de S. Paulo, por exemplo, num espetacular malabarismo de ideias, tenta passar a impressão de que o projeto “Minha Casa, Minha Vida” está fadado ao fracasso.

Durante horas, seu portal na Internet afirmou que somente 0,6% das moradias previstas na meta tinham sido concluídas.

O jornal embaralha as informações para forjar a ideia de que havia alguma data definida para a entrega dos imóveis.

Na verdade, estipulou-se um número de moradias a serem financiadas, mas não um prazo para conclusão das obras. Vale lembrar que o governo é apenas parceiro num sistema tocado pela iniciativa privada.

A mesma Folha utilizou seu portal para afirmar que o preço dos alimentos tinha dobrado em um ano, ou seja, calculou uma inflação de 100% em 12 meses.

A leitura da matéria, porém, mostra algo totalmente diferente. Dobrou foi a taxa de inflação nos dois períodos pinçados pelo repórter, de 1,02% para 2,10%.

Além dos deturpadores de números, a Folha recorre aos colunistas do apocalipse e aos ratos da pena.

É o caso do repórter Kennedy Alencar. Esse, por incrível que pareça, chegou a fazer parte da assessoria de imprensa de Lula, nos anos 90.

Hoje, se utiliza da relação com petistas ingênuos e ex-petistas para obter informações privilegiadas. Obviamente, o material  é sempre moldado e amplificado de forma a constituir uma nova denúncia.

É o caso da “bomba” requentada neste março. Segundo Alencar, Lula vai “admitir” (em tom de confissão, logicamente) que foi avisado por Roberto Jefferson da existência do Mensalão.

Crimes anônimos na Internet

Todo o trabalho midiático diário é ecoado pelos hoaxes distribuídos no território virtual pelos exércitos contratados pelos dois partidos conservadores.

Três deles merecem destaque…

  1. O “Bolsa Bandido”. Refere-se a uma lei aprovada na Constituição de 1988 e regulamentada pela última vez durante o governo de FHC. Esses fatos são, evidentemente, omitidos. O auxílio aos familiares de apenados é atribuído a Lula. Para completar, distorce-se a regra para a concessão do benefício.
  2. Dilma “terrorista”. Segundo esse hoax, além de assaltar bancos, a candidata do PT teria prazer em torturar e matar pacatos pais de família. A versão mais recente do texto agrega a seguinte informação: “Dilma agia como garota de programa nos acampamentos dos terroristas”.
  3. O filho encrenqueiro. De acordo com a narração, um dos filhos de Lula teria xingado e agredido indefesas famílias de classe média numa apresentação do Cirque du Soleil.

O que fazer

Sabe-se da incapacidade dos comunicadores oficiais. Como vivem cercados de outros governistas, jamais sentem a ameaça. Pensam com o umbigo.

Raramente respondem à injúria, à difamação e à calúnia. Quando o fazem, são lentos, pouco enfáticos e frequentemente confusos.

Por conta dessa realidade, faz-se necessário que cada mente honesta e articulada ofereça sua contribuição à defesa da democracia e da verdade.

São cinco as tarefas imediatas…

  1. Cada cidadão deve estabelecer uma rede com um mínimo de 50 contatos e, por meio deles, distribuir as versões limpas dos fatos. Nesse grupo, não adianda incluir outros engajados. É preciso que essas mensagens sejam enviadas à Tia Gertrudes, ao dentista, ao dono da padaria, à cabeleireira, ao amigo peladeiro de fim de semana. Não o entupa de informação. Envie apenas o básico, de vez em quando, contextualizando os fatos.
  2. Escreva diariamente nos espaços midiáticos públicos. É o caso das áreas de comentários da Folha, do Estadão, de O Globo e de Veja. Faça isso diariamente. Não precisa escrever muito. Seja claro, destaque o essencial da calúnia e da distorção. Proceda da mesma maneira nas comunidades virtuais, como Facebook e Orkut. Mas não adianta postar somente nas comunidades de política. Faça isso, sem alarde e fanatismo, nas comunidades de artes, comportamento, futebol, etc. Tome cuidado para não desagradar os outros participantes com seu proselitismo. Seja elegante e sutil.
  3. Converse com as pessoas sobre a deturpação midiática. No ponto de ônibus, na padaria, na banca de jornal. Parta sempre de uma concordância com o interlocutor, validando suas queixas e motivos, para em seguida apresentar a outra versão dos fatos.
  4. Em caso de matérias com graves deturpações, escreva diretamente para a redação do veículo, especialmente para o ombudsman e ouvidores. Repasse aos amigos sua bronca.
  5. Se você escreve, um pouquinho que seja, crie um blog. É mais fácil do que você pensa. Cole lá as informações limpas colhidas em bons sites, como aqueles de Azenha, PHA,Grupo Beatrice, entre outros. Mesmo que pouca gente o leia, vai fazer volume nas indicações dos motores de busca, como o Google. Monte agora o seu.

A guerra começou. Não seja um desertor.

“Mauro Carrara é jornalista, nascido em 1939, no Brás, em São Paulo. É o segundo filho de Giuseppe Carrara, professor de Filosofia em Bologna, e de Grazia Benedetti, uma operária e militante comunista de Nápoli. O casal chegou ao Brasil em 1934, fugindo da perseguição fascista. Mauro foi para a Itália em 1959, por sugestão do amigo dramaturgo G. Guarnieri. Em Firenze, estudou arte, ciências sociais e comunicação. De volta ao Brasil, passou dois anos na Amazônia. Ao atuar na defesa dos povos indígenas, foi preso pelo regime militar. Libertado, voltou à Itália. Como free-lancer, produziu reportagens para jornais como L’Unita e Il Manifesto. Com o primo Antonino, esteve no Vietnã, no início da década de 70. Em 1973, no Chile, juntou-se à resistência ao golpe contra Allende. No Brasil, como clandestino, aproximou-se do cartunista Henfil, cujos trabalhos traduziu para uma revista alternativa italiana. Na década de 80, prestou serviços para a ONU em países como China, Iraque e Marrocos. Nos anos 90, assessorou ONGs brasileiras, especialmente na área de Direitos Humanos. Ainda atua na área de comunicação e relações internacionais”

Conversa oca

8 de março de 2010, às 14:03h

Umas das minhas crônicas favoritas de Dimas.

Por Dimas Lins

Ela levantou da rede e foi em direção à cozinha buscar outra garrafa de vinho, enquanto eu permaneci jogado no sofá perdido em nenhum pensamento. Ao retornar desta vez, trouxe à mão um vinho francês com uma composição de uvas cabernet sauvignon-syrah, bastante popular nos supermercados brasileiros. Observei quando ela derramou na minha taça um líquido de cor púrpura muito escuro, quase roxo, com pouca transparência. Depois, encheu também a sua taça e me deu um beijo na boca. Parou alguns segundos e, ainda em pé, ela me olhou de cima e me perguntou em quê eu estava pensando.

- Em nada – respondi.

(Um amigo me disse certa vez que o homem, e só ele, conhece a metafísica do vazio, a nulidade do ser. Ele diz que as mulheres costumam nos apontar o dedo e perguntar “o que você está pensando?”. Elas não acreditam na capacidade masculina de pensar em absolutamente nada. Esta é a sua tese. E a minha também.)

- Ninguém pensa em nada, pois o cérebro não pára. E como ele é o órgão do pensamento e da coordenação neural, você, com certeza, devia estar pensando em alguma coisa.

- Se você entende o pensamento como uma atividade química, eu concordo. Mas há uma grande diferença entre isso e uma atividade psíquica consciente e organizada. No exato momento em que você me perguntou, posso lhe assegurar, meu cérebro agia de maneira livre, independente e incondicionada. Ou seja, ele estava oco, como a touca de um bebê sem cabeça.

E eu ri à beça.

- Toda essa conversa sem pé nem cabeça para ocultar um pensamento?

- Querida, o fato é que mulher nenhuma acredita na intersecção nula, no vão, no oco, no vácuo, no nada.

- Acredito na nulidade de ação dos homens, não do pensamento. O homem existe, logo pensa… Ainda que sejam apenas tolices.

E ela riu e riu e ria. E continuou:

- O nada é a negação da existência ou a não-existência! Então, segundo a sua teoria, se você pensa em nada, logo você não existe. Neste caso, você seria apenas a conseqüência do vazio da minha taça ou o resultado da antimatéria do vinho que eu tomei.

Eu gaguejei e disse sim, mas sim, mas não, nem isso.

- Pensar em nada não nega ao ser a sua existência, embora, nessas circunstâncias, os impulsos elétricos do sistema nervoso central se aproximem de zero tendendo ao infinitivo. É como atingir o Nirvana! Pensar em nada é a supressão da consciência individual!

Ela não respondeu e caímos no silêncio. Tomei minha taça nas mãos e olhei-a como se fosse um filósofo e tivesse criado a frase definitiva do conhecimento humano: “pensar em nada é suprimir a consciência individual!”. Tomei um gole do vinho e abri um leve, mas enigmático sorriso.

- De quê você está rindo?

- De nada – respondi.

- Pensar em nada, eu já nem consigo engolir, mas ri de nada? Impossível! Como a supressão da consciência pode causar espasmo nos músculos faciais?!

- Desta vez o nada não foi absoluto, mas relativo. Não pensava em nada, mas algo que não significava nada. Na gradação do valor do pensamento, o que acabei de pensar não tinha relevância.

- Irrelevante, mas capaz de causar um espasmo muscular?!

Fiquei em silêncio, mas ela manteve-se na ofensiva.

- Você está apaixonado?

- Eu sempre estou apaixonado.

- Por quem?

- Por você, por uma música, por um livro, por um verso… Por muitas coisas.

-Você está apaixonado por outra pessoa?

- Por que essa pergunta oca agora?!

- Quando um homem ri assim e está com a cabeça distante é por que está apaixonado por alguma mulher!

- Meu bem, você está ansiosa e a ansiedade é a expectativa da dúvida.

Sorri, valorizando, por causa do vinho, a frase que acabara de dizer: “a ansiedade é a expectativa da dúvida!”.

- Basta de filosofia! – ela gritou, deixando o nada de lado e partindo para o tudo.

Retrocedi, pois sabia que aquela conversa oca ia dar em nada. Respirei fundo, bebi um pouco de vinho e dei-lhe um beijo na boca. E ela correspondeu aquele beijo.

Editorial explosivo

8 de março de 2010, às 13:48h

Cacetada, olha aí o editorial do O Estado de Minas.

Detonou Serra. Aliás, é bomba por todos os lados.

“Minas a reboque, não!”

Atualizado e Publicado em 08 de março de 2010 às 16:27

Editorial do jornal O Estado de Minas

Indignação. É com esse sentimento que os mineiros repelem a arrogância de lideranças políticas que, temerosas do fracasso a que foram levados por seus próprios erros de avaliação, pretendem dispor do sucesso e do reconhecimento nacional construído pelo governador Aécio Neves. Pior. Fazem parecer obrigação do líder mineiro, a quem há pouco negaram espaço e voz, cumprir papel secundário, apenas para injetar ânimo e simpatia à chapa que insistem ser liderada pelo governador de São Paulo, José Serra, competente e líder das pesquisas de intenção de votos até então.

Atarantados com o crescimento da candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, percebem agora os comandantes do PSDB, maior partido de oposição, pelo menos dois erros que a experiência dos mineiros pretendeu evitar. Deveriam ter mantido acesa, embora educada e democrática, a disputa interna, como proposto por Aécio. Já que essa estratégia foi rejeitada, que pelo menos colocassem na rua a candidatura de Serra e dessem a ela capacidade de aglutinar outras forças políticas, como fez o Palácio do Planalto com a sua escolhida, muito antes de o PT confirmar a opção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na política, a hesitação cobra caro, mais ainda numa disputa que promete ser das mais difíceis. Não há como negar que a postura vacilante do próprio candidato, até hoje não lançado, de atrair aliados tem adubado a ascensão da pouco conhecida candidata oficial. O que é inaceitável é que o comando tucano e outras lideranças da oposição queiram pagar esse preço com o sacrifício da trajetória de Aécio Neves. Assim como não será justo tributar-lhe culpa em caso de derrota de uma chapa em que terá sido apenas vice, também incomoda os mineiros uma pergunta à arrogância: se o mais bem avaliado entre os governadores da última safra de gestores públicos é capaz de vitaminar uma chapa insossa e em queda livre, por que Aécio não é o candidato a presidente?

Perplexos ante mais essa demonstração de arrogância, que esconde amadorismo e inabilidade, os mineiros estão, porém, seguros de que o governador “político de alta linhagem de Minas” vai rejeitar papel subalterno que lhe oferecem. Ele sabe que, a reboque das composições que a mantiveram fora do poder central nos últimos 16 anos, Minas desta vez precisa dizer não.

Abandono do barco

8 de março de 2010, às 13:47h

Pesquei a animação no blog Quanto Tempo Dura?

Cliquem na animação, do contrário não funciona. Vá saber…

Leiam também a entrevista de Jarbas Vasconcelos no Acerto de Contas. Desânimo geral.

Cuba e Links

1 de março de 2010, às 18:00h

Para quem não conhece, lá vai o endereço do blog da dissidente cubana, Yoani Sánchez: Generación Y

Um artigo seu, sobre a morte do dissidente cubano, apareceu aqui.

Do outro lado…

Uma versão bem diferente.

Aproveitem e leiam a defesa da “democracia” cubana no site “Agência Carta Maior”, aqui. Outra defesa, nesse endereço, aqui.

Pessoalmente, acho difícil discutir com esse tipo de esquerda: dá azia e vontade de vomitar.

Adorno chamava de fascismo de esquerda…

Gramática

19 de fevereiro de 2010, às 19:30h

Encontrei essa pequena obra-prima da gramática universal no blog Diário Gauche:

Filho da puta é adjunto adnominal (ou paronomástico), se for “conheci um juiz filho da puta”. Se for “o juiz é um filho da puta”, daí é predicativo.

Agora, se for “esse filho da puta é um juiz”, daí é sujeito.

Porém, se o cara aponta uma arma para a testa do juiz e diz:

“Agora nega a liminar, filho da puta!” – daí é vocativo.

Finalmente, se for: “O ex-juiz Nicolau dos Santos Neto, aquele filho da puta, desviou o dinheiro da obra pública tal” – daí é aposto.

Que língua, a nossa, não?

O foto que ilustra o post foi pega, certamente, de forma aleatória. Tudo indica, não é exemplo de nada, apenas uma ilustração que não tem relação alguma com a nossa língua:

Amor de Carnaval

17 de fevereiro de 2010, às 10:15h

Cacetada, muito boa essa crônica de Xico Sá…

Transa-miojo foi genial…

Lá vai:

    Xico Sá

    Por Xico Sá . 17.02.10 – 09h48

    [Xico Sá no Carnaval] O amor eterno e a transa-miojo

    Quanto tempo dura uma paixão de carnaval? Algumas aguentam apenas uma subida ou descida de ladeira em Olinda, uma passagem de um trio na Bahia, um giro por uma quadra em Ipanema do bloco “Simpatia é quase amor” etc.
    Outras, raríssimas, dão em casamento. Como a de um amigo, o fotógrafo paulista Egberto Nogueira, que fez questão de casar na mesma data e local do crime, um ano depois do encontro: em pleno sábado de Zé Pereira, em uma igreja olindense. Palmas!
    O bom e confortável é que, ao contrário da vida dura e normal, não temos muito o que choramingar sobre as delirantes paixões momescas. Nada de esperar aquele torpedo ou telefonema do dia seguinte. O day after simplesmente não existe. É tudo aqui e agora. A generosa arte zen do desapego.
    Mais do que uma chance para os amadores – aqueles que deixam todas as sacanagens do mundo para o período carnavalesco – extravasarem, a folia da carne é uma aventura sem ego. Pelo menos para um feio e mal-diagramado como este cronista.
    Você leva um fora e nem liga; a dor é instantânea e o pé-na-bunda é sempre com a maciez de umas delicadas pantufas, pés de amigo(a) urso(a), no pasa nada.
    Esquema lava-jato de existência, lavou tá novo; a fila anda e segue a comédia. Assim deveria ser levada a vida, mas quem diz que conseguimos no bafo de onça da rotina?
    O sexo carnavalesco, então, nem se fala. Se o cara já tem ejaculação precoce, aí é que o mundo o apressa mais ainda. Só transa-miojo: esquentou, ferveu, adeus.
    É tempo de álibi para qualquer humaníssimo fracasso, como as nossas brochadas, por exemplo. Infinitamente mais perdoável. Nesse caso, nem queremos o segundo turno, uma nova chance, como acontece. Nem precisamos depois provar que não somos mesmo essa coisa toda. Simplesmente esquecemos. Que boa sorte.
    O carnaval é uma lição de desencanamento. Vale por mil manuais de auto-ajuda, vale por todas as lições otimistas de Pollyana, moça. Que tal aplicar a técnica momesca no nosso dia a dia, depois das cinzas, quando voltarmos a São Paulo? Seria perfeito.
    Para que tanto desgosto inventado? Tratemos o próximo como um folião permanente, o(a) namorado(a) como um(a) passante/ficante, levemos menos a sério a vida. Evoé Baco, evoé Momo!
    Com licença que vou ali gastar o resto do corpinho no Recife Antigo. Quem sabe dou sorte e encontro o amor da vida, digo, o amor da quinzena, o amor da semana, o amor de hoje à noite, o amor eterno enquanto dura o show do Cidadão Instigado no Rec Beat, o amor possível que mereça esse nome. Afinal de contas, assim como a fama para Andy Wahrol, no carnaval amamos e somos amados pelo menos por 15 minutos.

    Apesar dela, apesar de mim

    17 de fevereiro de 2010, às 9:53h

    A resposta de Camus é atual, poderia ser dita lá no Bar Real, esperando um bloco de carnaval passar.  O bloco passou, a esquerda entrou num beco e encontrou um muro.

    _Sr. Camus, o sr. ainda faz parte da esquerda?

    _Sim, apesar dela e apesar de mim.

    Daria um samba…

    Solitude e solidão

    17 de fevereiro de 2010, às 9:03h

    O grande Edmar mandou essa citação abaixo de Charles Bukowski (encontrada no Blog do Portinho):

    Bar perto da estação rodoviária, mudou de dono 6 vezes num ano. Começou como inferninho de strip-tease. Foi passando de mão em mão, primeiro pra um chinês, depois pra um mexicano, pra um aleijado, ou vice-versa, sei lá, só sei que gostava de ficar lá sentado, olhando o relógio da torre da estação pela porta lateral entreaberta. É um lugar bem razoável – não tem muita mulher pra chatear, apenas um punhado de comedores de mandioca e jogadores de pingue-pongue, que não se metiam comigo. Passavam a maior parte do tempo sentados, assistindo um jogo idiota qualquer pela televisão. Claro que no quarto da gente é melhor, mas anos e anos de bebedeira já demonstraram que o culto da birita sozinha, tomada entre quatro paredes, não só liquida com qualquer um como também ajuda ELES a liquidar com a gente. Não há necessidade de propiciar vitórias fáceis. Saber o ponto de equilíbrio exato entre a solidão e a aglomeração, aí é que estava o truque, o golpe que a gente precisava usar para não ser internado no hospício.”

    Concordo… ma non tanto. Algumas vezes, já tentei beber só e findei não gostando. Desisti, rapidamente, do culto da birita sozinha. Não tenho delírios persecutórios com ELES, mas, no cômputo geral, prefiro beber vendo pessoas, mesmo que desconhecidas. Contudo, eis a diferença com Bukowski, meu ponto de equilíbrio não seria entre a aglomeração e a solidão, e sim entre esta última e a solitude.

    A solitude é a solidão poetizada, que nunca se realiza, arranhando apenas a imaginação e não a alma. Dá para curtir a solitude. Confundi-la com solidão ou não saber mais distingui-las é muito perigoso. No milímetro que separa a solidão da solitude, cabem todos os abismos — para fazer uma paródia. Não bebo só na solidão; nesse caso, procuro a aglomeração, mesmo que seja a de amigos.

    Biritar na solidão deixa-me mais só, e acho isso uma desgraça.
    Biritar na solitude deixa-me mais só, e acho isso muito bom.

    Meu medo é, na velhice, não saber mais a diferença. Minha esperança é já ter adquirido essa pequena sabedoria.

    Madame Satã

    16 de fevereiro de 2010, às 16:10h

    Pesquei essa fantástica entrevista, da turma do Pasquim com Madame Satã, no Tiro de Letra.

    A entrevista fala por si mesma. Quem não sabe quem foi M.S, que se informe e aprenda estória do Brasil.

    Lá vai:

    Entrevistado por Sergio Cabral, Paulo Francis, Millôr Fernandes, Chico Júnior, Paulo Garcez, Jaguar e Fortuna, para O Pasquim, de 05/05/1971, e republicada no livro ALTMAN, Fábio. A arte da entrevista. São Paulo: Scritta, 1995.

    * * *

    A personagem da entrevista desta semana era lenda no meu tempo de menino em Botafogo. Uma espécie de gunfighter da Lapa, fechando bares e enfrentando as terríveis Polícia Especial e D.G.I. (Departamento Geral de Investigações), que enchiam de pavor quem andasse nas ruas, coisa que os garotos da época, na maioria, faziam. E havia o paradoxo aparente de homossexualismo de Madame Satã. Aparente, sim, porque e Julio César, Alexandre o Grande, ou, próximo de nós, Heydrich e Goering? Pensar que violência é característica heterossexual não passa de balela primitiva.

    Satã nos impressionou bastante, porque é um tipo completamente fora do nosso âmbito de experiência. Todos nós duvidamos de tudo, inclusive de nós mesmos. Convertemos nossos superegos em catedrais em que nos ajoelha­mos e pedimos perdão a nós mesmos, sem resultado. Satã tem certeza das coisas que faz. Eu disse, na entrevista, que ele me parece literatura, à parte mais sofisticado e legítimo do que Jean Genet (o que Sartre escreveria sobre ele, fico pensando). Não esconde o jogo. Se aceita como é. Há coisa mais dificil? Pra nós (um mítico nós e todos, bem entendido, mas os incluídos se reconhecerão) impossível.

    Eu diria mais: que Satã representa a verdadeira contracultura brasileira, que essa que aí está, apesar de seus valores intrínsecos e universais, nos foi imposta de fora pra dentro, o que às vezes é bom, outras, não. Já Satã emergiu deste asfalto, deste clima, deste ragu cultural brasileiro, que tentamos negar inutilmente, mas que, tal qual o rio do poema de Eliot, é um deus primitivo, capaz de adormecer, apenas e sempre vivo, vingativo e traiçoeiro. A sociedade urbana, de consumo, aqui, é puro verniz, descascando visivelmente. Outras forças, suprimidas, estão aí, poderosamente latentes, acumulando impacto.

    A inocência de Satã das coisas da moda elitista, de modelos de raciocínio, é completa. Mas nenhum de nós se sentiu tentado a ironizá-lo. Não por medo. Ele é bem mais educado do que a maioria dos grã-finos que conheço (um bom número, acrescento). Foi por respeito. Sentimos uma personalidade realizada. Quantos de nós podem dizer a mesma coisa? Nesse mundinho de classe média pra cima, que muita gente boa (tradução poderosa) imagina ser o Brasil, e que é, no duro, uma ínfima e arrogante minoria, pouco existe de igual em termos de tipo. Quem vai prevalecer? Não percam o próximo e emocionante capítulo.

    (Paulo Francis)

    * * *

    Sérgio - Quantos anos você esteve preso?

    Ao todo eu tirei 27 anos e oito meses.

    Sérgio – E há quantos anos você está liberdade

    Há seis anos. Saí no dia 3 de maio, há seis anos.

    Sérgio – Mas você continua morando na Ilha Grande.

    Continuo morando na Ilha Grande porque eu achei que é um lugar onde eu posso viver mais sossegado, mais descansado das perseguições da polícia e mesmo da vida agitada que eu levava.

    Millôr – Que idade você tem?

    Tenho 71 anos de idade.

    Sérgio - Com essa cara?! É verdade que você tem mãe viva, ainda?

    Tenho sim, está com 103 anos e mora no interior de Pernambuco.

    Millôr - Você é pernambucano?

    Sou.

    Millôr – Você está no Rio há quantos anos?

    Eu cheguei no Rio em 1907 e fui morar na rua Moraes e Vale, 27, ali no largo da Lapa.

    Millôr - E que profissão você exercia?

    Eu sempre fui cozinheiro. Até 1923 eu fui cozinheiro. Em 1924 eu ingressei na Casa de Caboclo.

    Millôr - Que nível de instrução você tem?

    Sou analfabeto de pai e mãe.

    Millôr - Pelos seus amigos você é chamado como? De Madame Satã ou é chamado pelo seu próprio nome?

    De Satã.

    Millôr - Como é seu nome todo?

    Meu nome todo é João Francisco dos Santos, sou filho de Manoel Francisco dos Santos e Firmina Teresa da Conceição.

    Millôr - Você tem consciência de que você é uma figura mitológica no Rio de Janeiro?

    É o que diz a sociedade, não é? Só que tem que eu sou anti-social.

    Millôr - Você sabe que nós aqui fazemos um jornal que é marginal. De modo que o fato de você ter uma vida um pouco à margem da sociedade só faz com que nós tenhamos uma grande emoção em falar com você. Agora, você ficou famoso na mitologia carioca, na lenda do Rio, porque você foi um homem que dominou a vida da Lapa, pelo menos esta vida de uma certa margem da sociedade do Rio, e você era famoso por ser o homossexual mais macho que já houve na história do Rio.

    Isso é o que diz a história, né?

    Sérgio – Mas você é homossexual?

    Sempre fui, sou e serei.

    (mais…)