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Conversa oca

8 de março de 2010, às 14:03h

Umas das minhas crônicas favoritas de Dimas.

Por Dimas Lins

Ela levantou da rede e foi em direção à cozinha buscar outra garrafa de vinho, enquanto eu permaneci jogado no sofá perdido em nenhum pensamento. Ao retornar desta vez, trouxe à mão um vinho francês com uma composição de uvas cabernet sauvignon-syrah, bastante popular nos supermercados brasileiros. Observei quando ela derramou na minha taça um líquido de cor púrpura muito escuro, quase roxo, com pouca transparência. Depois, encheu também a sua taça e me deu um beijo na boca. Parou alguns segundos e, ainda em pé, ela me olhou de cima e me perguntou em quê eu estava pensando.

- Em nada – respondi.

(Um amigo me disse certa vez que o homem, e só ele, conhece a metafísica do vazio, a nulidade do ser. Ele diz que as mulheres costumam nos apontar o dedo e perguntar “o que você está pensando?”. Elas não acreditam na capacidade masculina de pensar em absolutamente nada. Esta é a sua tese. E a minha também.)

- Ninguém pensa em nada, pois o cérebro não pára. E como ele é o órgão do pensamento e da coordenação neural, você, com certeza, devia estar pensando em alguma coisa.

- Se você entende o pensamento como uma atividade química, eu concordo. Mas há uma grande diferença entre isso e uma atividade psíquica consciente e organizada. No exato momento em que você me perguntou, posso lhe assegurar, meu cérebro agia de maneira livre, independente e incondicionada. Ou seja, ele estava oco, como a touca de um bebê sem cabeça.

E eu ri à beça.

- Toda essa conversa sem pé nem cabeça para ocultar um pensamento?

- Querida, o fato é que mulher nenhuma acredita na intersecção nula, no vão, no oco, no vácuo, no nada.

- Acredito na nulidade de ação dos homens, não do pensamento. O homem existe, logo pensa… Ainda que sejam apenas tolices.

E ela riu e riu e ria. E continuou:

- O nada é a negação da existência ou a não-existência! Então, segundo a sua teoria, se você pensa em nada, logo você não existe. Neste caso, você seria apenas a conseqüência do vazio da minha taça ou o resultado da antimatéria do vinho que eu tomei.

Eu gaguejei e disse sim, mas sim, mas não, nem isso.

- Pensar em nada não nega ao ser a sua existência, embora, nessas circunstâncias, os impulsos elétricos do sistema nervoso central se aproximem de zero tendendo ao infinitivo. É como atingir o Nirvana! Pensar em nada é a supressão da consciência individual!

Ela não respondeu e caímos no silêncio. Tomei minha taça nas mãos e olhei-a como se fosse um filósofo e tivesse criado a frase definitiva do conhecimento humano: “pensar em nada é suprimir a consciência individual!”. Tomei um gole do vinho e abri um leve, mas enigmático sorriso.

- De quê você está rindo?

- De nada – respondi.

- Pensar em nada, eu já nem consigo engolir, mas ri de nada? Impossível! Como a supressão da consciência pode causar espasmo nos músculos faciais?!

- Desta vez o nada não foi absoluto, mas relativo. Não pensava em nada, mas algo que não significava nada. Na gradação do valor do pensamento, o que acabei de pensar não tinha relevância.

- Irrelevante, mas capaz de causar um espasmo muscular?!

Fiquei em silêncio, mas ela manteve-se na ofensiva.

- Você está apaixonado?

- Eu sempre estou apaixonado.

- Por quem?

- Por você, por uma música, por um livro, por um verso… Por muitas coisas.

-Você está apaixonado por outra pessoa?

- Por que essa pergunta oca agora?!

- Quando um homem ri assim e está com a cabeça distante é por que está apaixonado por alguma mulher!

- Meu bem, você está ansiosa e a ansiedade é a expectativa da dúvida.

Sorri, valorizando, por causa do vinho, a frase que acabara de dizer: “a ansiedade é a expectativa da dúvida!”.

- Basta de filosofia! – ela gritou, deixando o nada de lado e partindo para o tudo.

Retrocedi, pois sabia que aquela conversa oca ia dar em nada. Respirei fundo, bebi um pouco de vinho e dei-lhe um beijo na boca. E ela correspondeu aquele beijo.

Editorial explosivo

8 de março de 2010, às 13:48h

Cacetada, olha aí o editorial do O Estado de Minas.

Detonou Serra. Aliás, é bomba por todos os lados.

“Minas a reboque, não!”

Atualizado e Publicado em 08 de março de 2010 às 16:27

Editorial do jornal O Estado de Minas

Indignação. É com esse sentimento que os mineiros repelem a arrogância de lideranças políticas que, temerosas do fracasso a que foram levados por seus próprios erros de avaliação, pretendem dispor do sucesso e do reconhecimento nacional construído pelo governador Aécio Neves. Pior. Fazem parecer obrigação do líder mineiro, a quem há pouco negaram espaço e voz, cumprir papel secundário, apenas para injetar ânimo e simpatia à chapa que insistem ser liderada pelo governador de São Paulo, José Serra, competente e líder das pesquisas de intenção de votos até então.

Atarantados com o crescimento da candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, percebem agora os comandantes do PSDB, maior partido de oposição, pelo menos dois erros que a experiência dos mineiros pretendeu evitar. Deveriam ter mantido acesa, embora educada e democrática, a disputa interna, como proposto por Aécio. Já que essa estratégia foi rejeitada, que pelo menos colocassem na rua a candidatura de Serra e dessem a ela capacidade de aglutinar outras forças políticas, como fez o Palácio do Planalto com a sua escolhida, muito antes de o PT confirmar a opção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na política, a hesitação cobra caro, mais ainda numa disputa que promete ser das mais difíceis. Não há como negar que a postura vacilante do próprio candidato, até hoje não lançado, de atrair aliados tem adubado a ascensão da pouco conhecida candidata oficial. O que é inaceitável é que o comando tucano e outras lideranças da oposição queiram pagar esse preço com o sacrifício da trajetória de Aécio Neves. Assim como não será justo tributar-lhe culpa em caso de derrota de uma chapa em que terá sido apenas vice, também incomoda os mineiros uma pergunta à arrogância: se o mais bem avaliado entre os governadores da última safra de gestores públicos é capaz de vitaminar uma chapa insossa e em queda livre, por que Aécio não é o candidato a presidente?

Perplexos ante mais essa demonstração de arrogância, que esconde amadorismo e inabilidade, os mineiros estão, porém, seguros de que o governador “político de alta linhagem de Minas” vai rejeitar papel subalterno que lhe oferecem. Ele sabe que, a reboque das composições que a mantiveram fora do poder central nos últimos 16 anos, Minas desta vez precisa dizer não.

Abandono do barco

8 de março de 2010, às 13:47h

Pesquei a animação no blog Quanto Tempo Dura?

Cliquem na animação, do contrário não funciona. Vá saber…

Leiam também a entrevista de Jarbas Vasconcelos no Acerto de Contas. Desânimo geral.

Cuba e Links

1 de março de 2010, às 18:00h

Para quem não conhece, lá vai o endereço do blog da dissidente cubana, Yoani Sánchez: Generación Y

Um artigo seu, sobre a morte do dissidente cubano, apareceu aqui.

Do outro lado…

Uma versão bem diferente.

Aproveitem e leiam a defesa da “democracia” cubana no site “Agência Carta Maior”, aqui. Outra defesa, nesse endereço, aqui.

Pessoalmente, acho difícil discutir com esse tipo de esquerda: dá azia e vontade de vomitar.

Adorno chamava de fascismo de esquerda…

Gramática

19 de fevereiro de 2010, às 19:30h

Encontrei essa pequena obra-prima da gramática universal no blog Diário Gauche:

Filho da puta é adjunto adnominal (ou paronomástico), se for “conheci um juiz filho da puta”. Se for “o juiz é um filho da puta”, daí é predicativo.

Agora, se for “esse filho da puta é um juiz”, daí é sujeito.

Porém, se o cara aponta uma arma para a testa do juiz e diz:

“Agora nega a liminar, filho da puta!” – daí é vocativo.

Finalmente, se for: “O ex-juiz Nicolau dos Santos Neto, aquele filho da puta, desviou o dinheiro da obra pública tal” – daí é aposto.

Que língua, a nossa, não?

O foto que ilustra o post foi pega, certamente, de forma aleatória. Tudo indica, não é exemplo de nada, apenas uma ilustração que não tem relação alguma com a nossa língua:

Amor de Carnaval

17 de fevereiro de 2010, às 10:15h

Cacetada, muito boa essa crônica de Xico Sá…

Transa-miojo foi genial…

Lá vai:

    Xico Sá

    Por Xico Sá . 17.02.10 – 09h48

    [Xico Sá no Carnaval] O amor eterno e a transa-miojo

    Quanto tempo dura uma paixão de carnaval? Algumas aguentam apenas uma subida ou descida de ladeira em Olinda, uma passagem de um trio na Bahia, um giro por uma quadra em Ipanema do bloco “Simpatia é quase amor” etc.
    Outras, raríssimas, dão em casamento. Como a de um amigo, o fotógrafo paulista Egberto Nogueira, que fez questão de casar na mesma data e local do crime, um ano depois do encontro: em pleno sábado de Zé Pereira, em uma igreja olindense. Palmas!
    O bom e confortável é que, ao contrário da vida dura e normal, não temos muito o que choramingar sobre as delirantes paixões momescas. Nada de esperar aquele torpedo ou telefonema do dia seguinte. O day after simplesmente não existe. É tudo aqui e agora. A generosa arte zen do desapego.
    Mais do que uma chance para os amadores – aqueles que deixam todas as sacanagens do mundo para o período carnavalesco – extravasarem, a folia da carne é uma aventura sem ego. Pelo menos para um feio e mal-diagramado como este cronista.
    Você leva um fora e nem liga; a dor é instantânea e o pé-na-bunda é sempre com a maciez de umas delicadas pantufas, pés de amigo(a) urso(a), no pasa nada.
    Esquema lava-jato de existência, lavou tá novo; a fila anda e segue a comédia. Assim deveria ser levada a vida, mas quem diz que conseguimos no bafo de onça da rotina?
    O sexo carnavalesco, então, nem se fala. Se o cara já tem ejaculação precoce, aí é que o mundo o apressa mais ainda. Só transa-miojo: esquentou, ferveu, adeus.
    É tempo de álibi para qualquer humaníssimo fracasso, como as nossas brochadas, por exemplo. Infinitamente mais perdoável. Nesse caso, nem queremos o segundo turno, uma nova chance, como acontece. Nem precisamos depois provar que não somos mesmo essa coisa toda. Simplesmente esquecemos. Que boa sorte.
    O carnaval é uma lição de desencanamento. Vale por mil manuais de auto-ajuda, vale por todas as lições otimistas de Pollyana, moça. Que tal aplicar a técnica momesca no nosso dia a dia, depois das cinzas, quando voltarmos a São Paulo? Seria perfeito.
    Para que tanto desgosto inventado? Tratemos o próximo como um folião permanente, o(a) namorado(a) como um(a) passante/ficante, levemos menos a sério a vida. Evoé Baco, evoé Momo!
    Com licença que vou ali gastar o resto do corpinho no Recife Antigo. Quem sabe dou sorte e encontro o amor da vida, digo, o amor da quinzena, o amor da semana, o amor de hoje à noite, o amor eterno enquanto dura o show do Cidadão Instigado no Rec Beat, o amor possível que mereça esse nome. Afinal de contas, assim como a fama para Andy Wahrol, no carnaval amamos e somos amados pelo menos por 15 minutos.

    Apesar dela, apesar de mim

    17 de fevereiro de 2010, às 9:53h

    A resposta de Camus é atual, poderia ser dita lá no Bar Real, esperando um bloco de carnaval passar.  O bloco passou, a esquerda entrou num beco e encontrou um muro.

    _Sr. Camus, o sr. ainda faz parte da esquerda?

    _Sim, apesar dela e apesar de mim.

    Daria um samba…

    Solitude e solidão

    17 de fevereiro de 2010, às 9:03h

    O grande Edmar mandou essa citação abaixo de Charles Bukowski (encontrada no Blog do Portinho):

    Bar perto da estação rodoviária, mudou de dono 6 vezes num ano. Começou como inferninho de strip-tease. Foi passando de mão em mão, primeiro pra um chinês, depois pra um mexicano, pra um aleijado, ou vice-versa, sei lá, só sei que gostava de ficar lá sentado, olhando o relógio da torre da estação pela porta lateral entreaberta. É um lugar bem razoável – não tem muita mulher pra chatear, apenas um punhado de comedores de mandioca e jogadores de pingue-pongue, que não se metiam comigo. Passavam a maior parte do tempo sentados, assistindo um jogo idiota qualquer pela televisão. Claro que no quarto da gente é melhor, mas anos e anos de bebedeira já demonstraram que o culto da birita sozinha, tomada entre quatro paredes, não só liquida com qualquer um como também ajuda ELES a liquidar com a gente. Não há necessidade de propiciar vitórias fáceis. Saber o ponto de equilíbrio exato entre a solidão e a aglomeração, aí é que estava o truque, o golpe que a gente precisava usar para não ser internado no hospício.”

    Concordo… ma non tanto. Algumas vezes, já tentei beber só e findei não gostando. Desisti, rapidamente, do culto da birita sozinha. Não tenho delírios persecutórios com ELES, mas, no cômputo geral, prefiro beber vendo pessoas, mesmo que desconhecidas. Contudo, eis a diferença com Bukowski, meu ponto de equilíbrio não seria entre a aglomeração e a solidão, e sim entre esta última e a solitude.

    A solitude é a solidão poetizada, que nunca se realiza, arranhando apenas a imaginação e não a alma. Dá para curtir a solitude. Confundi-la com solidão ou não saber mais distingui-las é muito perigoso. No milímetro que separa a solidão da solitude, cabem todos os abismos — para fazer uma paródia. Não bebo só na solidão; nesse caso, procuro a aglomeração, mesmo que seja a de amigos.

    Biritar na solidão deixa-me mais só, e acho isso uma desgraça.
    Biritar na solitude deixa-me mais só, e acho isso muito bom.

    Meu medo é, na velhice, não saber mais a diferença. Minha esperança é já ter adquirido essa pequena sabedoria.

    Madame Satã

    16 de fevereiro de 2010, às 16:10h

    Pesquei essa fantástica entrevista, da turma do Pasquim com Madame Satã, no Tiro de Letra.

    A entrevista fala por si mesma. Quem não sabe quem foi M.S, que se informe e aprenda estória do Brasil.

    Lá vai:

    Entrevistado por Sergio Cabral, Paulo Francis, Millôr Fernandes, Chico Júnior, Paulo Garcez, Jaguar e Fortuna, para O Pasquim, de 05/05/1971, e republicada no livro ALTMAN, Fábio. A arte da entrevista. São Paulo: Scritta, 1995.

    * * *

    A personagem da entrevista desta semana era lenda no meu tempo de menino em Botafogo. Uma espécie de gunfighter da Lapa, fechando bares e enfrentando as terríveis Polícia Especial e D.G.I. (Departamento Geral de Investigações), que enchiam de pavor quem andasse nas ruas, coisa que os garotos da época, na maioria, faziam. E havia o paradoxo aparente de homossexualismo de Madame Satã. Aparente, sim, porque e Julio César, Alexandre o Grande, ou, próximo de nós, Heydrich e Goering? Pensar que violência é característica heterossexual não passa de balela primitiva.

    Satã nos impressionou bastante, porque é um tipo completamente fora do nosso âmbito de experiência. Todos nós duvidamos de tudo, inclusive de nós mesmos. Convertemos nossos superegos em catedrais em que nos ajoelha­mos e pedimos perdão a nós mesmos, sem resultado. Satã tem certeza das coisas que faz. Eu disse, na entrevista, que ele me parece literatura, à parte mais sofisticado e legítimo do que Jean Genet (o que Sartre escreveria sobre ele, fico pensando). Não esconde o jogo. Se aceita como é. Há coisa mais dificil? Pra nós (um mítico nós e todos, bem entendido, mas os incluídos se reconhecerão) impossível.

    Eu diria mais: que Satã representa a verdadeira contracultura brasileira, que essa que aí está, apesar de seus valores intrínsecos e universais, nos foi imposta de fora pra dentro, o que às vezes é bom, outras, não. Já Satã emergiu deste asfalto, deste clima, deste ragu cultural brasileiro, que tentamos negar inutilmente, mas que, tal qual o rio do poema de Eliot, é um deus primitivo, capaz de adormecer, apenas e sempre vivo, vingativo e traiçoeiro. A sociedade urbana, de consumo, aqui, é puro verniz, descascando visivelmente. Outras forças, suprimidas, estão aí, poderosamente latentes, acumulando impacto.

    A inocência de Satã das coisas da moda elitista, de modelos de raciocínio, é completa. Mas nenhum de nós se sentiu tentado a ironizá-lo. Não por medo. Ele é bem mais educado do que a maioria dos grã-finos que conheço (um bom número, acrescento). Foi por respeito. Sentimos uma personalidade realizada. Quantos de nós podem dizer a mesma coisa? Nesse mundinho de classe média pra cima, que muita gente boa (tradução poderosa) imagina ser o Brasil, e que é, no duro, uma ínfima e arrogante minoria, pouco existe de igual em termos de tipo. Quem vai prevalecer? Não percam o próximo e emocionante capítulo.

    (Paulo Francis)

    * * *

    Sérgio - Quantos anos você esteve preso?

    Ao todo eu tirei 27 anos e oito meses.

    Sérgio – E há quantos anos você está liberdade

    Há seis anos. Saí no dia 3 de maio, há seis anos.

    Sérgio – Mas você continua morando na Ilha Grande.

    Continuo morando na Ilha Grande porque eu achei que é um lugar onde eu posso viver mais sossegado, mais descansado das perseguições da polícia e mesmo da vida agitada que eu levava.

    Millôr – Que idade você tem?

    Tenho 71 anos de idade.

    Sérgio - Com essa cara?! É verdade que você tem mãe viva, ainda?

    Tenho sim, está com 103 anos e mora no interior de Pernambuco.

    Millôr - Você é pernambucano?

    Sou.

    Millôr – Você está no Rio há quantos anos?

    Eu cheguei no Rio em 1907 e fui morar na rua Moraes e Vale, 27, ali no largo da Lapa.

    Millôr - E que profissão você exercia?

    Eu sempre fui cozinheiro. Até 1923 eu fui cozinheiro. Em 1924 eu ingressei na Casa de Caboclo.

    Millôr - Que nível de instrução você tem?

    Sou analfabeto de pai e mãe.

    Millôr - Pelos seus amigos você é chamado como? De Madame Satã ou é chamado pelo seu próprio nome?

    De Satã.

    Millôr - Como é seu nome todo?

    Meu nome todo é João Francisco dos Santos, sou filho de Manoel Francisco dos Santos e Firmina Teresa da Conceição.

    Millôr - Você tem consciência de que você é uma figura mitológica no Rio de Janeiro?

    É o que diz a sociedade, não é? Só que tem que eu sou anti-social.

    Millôr - Você sabe que nós aqui fazemos um jornal que é marginal. De modo que o fato de você ter uma vida um pouco à margem da sociedade só faz com que nós tenhamos uma grande emoção em falar com você. Agora, você ficou famoso na mitologia carioca, na lenda do Rio, porque você foi um homem que dominou a vida da Lapa, pelo menos esta vida de uma certa margem da sociedade do Rio, e você era famoso por ser o homossexual mais macho que já houve na história do Rio.

    Isso é o que diz a história, né?

    Sérgio – Mas você é homossexual?

    Sempre fui, sou e serei.

    (mais…)

    Uma vítima da Operação Condor

    5 de fevereiro de 2010, às 10:42h

    Abaixo, artigo bem interessante. Pesquei no Brasília, eu vi, do jornalista Leandro Fortes.

    Será um encontro e tanto. Lá vai:

    O sequestrador mostra a cara

    Um evento extraordinário se dará, hoje, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Sequestrada por agentes das ditaduras do Brasil e do Uruguai, a uruguaia Lílian Celiberti irá se encontrar, frente a frente, pela primeira vez, com seu seqüestrador, o ex-policial do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) gaúcho João Augusto da Rosa. Conhecido pela alcunha de “Irno”, o agente foi denunciado, há mais de 30 anos, pelo jornalista Luiz Cláudio Cunha, então chefe da sucursal da revista “Veja” em Porto Alegre. Guiado pela intuição, Luiz Cláudio flagrou Irno e um comparsa dentro do apartamento onde Lílian morava e estava cativa, em 1978. Uma série de reportagens depois iria lhe dar o Prêmio Esso de Reportagem, em 1979, e garantir a vida não só de Lílian, mas também de seu companheiro de então, Universindo Diaz, ambos brutalizados pela tortura cometida, de um lado e de outro da fronteira, por lacaios da clandestina “Operação Condor” – a sinistra aliança de troca de prisioneiros levada a cabo pelas ditaduras do Brasil, Uruguai, Paraguai, Chile e Argentina, nos anos 1970.

    Lílian Celiberti, moradora de Montevidéu, decidiu atravessar a fronteira para, justamente, retribuir a imensa generosidade do jornalista que, um dia, salvou-lhe a vida, a do companheiro e, por extensão, de seus dois filhos. Os garotos, então crianças, foram seqüestrados junto com a mãe e mantidos numa sala do Dops gaúcho enquanto a mãe era esfolada num pau-de-arara pela turma do delegado Pedro Seeling, da qual Irno fazia parte. Desmascarado por Luiz Cláudio no livro “Operação Condor: sequestro dos uruguaios”, lançado no ano passado pela editora L&PM, Irno decidiu processá-lo por danos morais.

    Eis aí uma boa metáfora sobre a relação do Brasil com a memória da ditadura militar e sua última cidadela, a Lei de Anistia. É uma forma de entender a reação dessa turma à proposta de uma Comissão da Verdade, inserida no texto do terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos, para responsabilizar torturadores da época do regime militar.

    Irno foi o inspetor do Dops que colocou uma pistola na testa de Luiz Cláudio Cunha, este confundido, ao entrar no apartamento de Lílian Celiberti, com um membro da organização de esquerda à qual pertencia a uruguaia.  O repórter estava acompanhado do fotógrafo J.B. Scalco, que em seguida iria ajudar a decifrar a trama ao reconhecer o comparsa de Irno, o escrivão Orandir Portassi Lucas, mais conhecido por “Didi Pedalada”, ex-jogador do Internacional. Ambos os agentes foram condenados pela Justiça, em 1980.

    Agora, Irno pede indenização por dano moral, alegando que Cunha não menciona sua absolvição por “falta de provas” no recurso que apresentou, em 1983, em segunda instância. O policial, lembra o jornalista, esqueceu-se de dizer que as “provas” do sequestro – Lílian e Universindo – estavam, então, submetidas à prisão sem processo legal e a todo tipo de torturas pela ditadura do Uruguai, que acabou apenas em 1985.

    Na verdade, o que incomoda o inspetor Irno não é a omissão de Luiz Cláudio sobre o recurso na Justiça. Irno morre de vergonha é do papelão que ele protagonizou, obrigado pelos chefes a forjar uma nova identidade, com ajuda de fraude cartorária, para se contrapor ao depoimento do jornalista. Para tal, cortou os longos cabelos, moldou uma calva à navalha no alto da cabeça e cravou uma barba sem bigode na cara. Transformou-se, assim, em uma patética caricatura de Abraham Lincoln eternizada no anedotário político do Rio Grande do Sul. Flagrado na farsa por Luiz Cláudio e outros repórteres gaúchos, Irno submergiu no lixo da História até reaparecer, agora, à caça de uns caraminguás a mais para a aposentadoria.

    Do outro lado, “Operação Condor: o sequestro dos Uruguaios” recebeu, em 2009, o troféu Jabuti da Câmara Brasileira do Livro e a Menção Honrosa do prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. A obra também recebeu menção honrosa em Havana, Cuba, no prestigiado Prêmio Casa de Las Américas, de 2010, que reuniu 436 obras de 22 países.

    O encontro histórico de Lílian com Irno será às 15h, na 18º Vara Cível, no Foro Central de Porto Alegre. Quem estiver na capital gaúcha e for jornalista de verdade, não pode perder esse encontro.

    Todo apoio e solidariedade a Luiz Cláudio Cunha e Lílian Celiberti, portanto.