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	<title>Blog dos Perrusi &#187; Orelha de Livro</title>
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	<description>Crônica, política, doidice, o escambau!</description>
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    <title>Blog dos Perrusi</title>
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		<title>Vassily Grossman</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Dec 2010 18:20:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Orelha de Livro]]></category>
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		<description><![CDATA[
Quem me conhece sabe que sou obcecado pela segunda guerra mundial e pelo totalitarismo. Tal mania é fruto direto da mesma compulsão paterna pelo tema e, também, pela mesma ruminação eterna de Fernando em relação à discussão (inclusive, o doido de pedra já fez até um documentário sobre a segunda guerra mundial). Creio que a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/12/vie-destin-vassili-grossman.jpeg"><img class="size-full wp-image-5768 aligncenter" title="vie-destin-vassili-grossman" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/12/vie-destin-vassili-grossman.jpeg" alt="" width="320" height="529" /></a></p>
<p>Quem me conhece sabe que sou obcecado pela segunda guerra mundial e pelo totalitarismo. Tal mania é fruto direto da mesma compulsão paterna pelo tema e, também, pela mesma ruminação eterna de Fernando em relação à discussão (inclusive, o doido de pedra já fez até um documentário sobre a segunda guerra mundial). Creio que a motivação do responsável pela metade do meu genótipo seja um tanto transcendental; talvez, tenha um tropismo repetitivo pela questão do Mal. Minha motivação, muitas vezes, além de ética, é política &#8212; como seria uma esquerda pós-totalitária? Talvez, a de Fernando passe, também, por esse problema político. De todo modo, lemos tanto sobre o assunto que, invariavelmente, temos pouco tempo para debater. Além do mais, a conversa tem ruído.</p>
<p>_Tenho um belo nariz – diz Fernando.</p>
<p>Não adianta conversar sério sobre totalitarismo, pois sempre aparece com esse papo. Isso me irrita.</p>
<p>_Pela envergadura, deve ser mouro.<br />
_Melhor do que ter um nariz esparramado de um sarraceno.<br />
_Não, na verdade, sou um italiano.<br />
_De descendência sarracena, certamente.<br />
_E a tataravó de tua tataravó concedia livremente para os mouros na Espanha. A vaca dos Navarro.<br />
_Pior foi o tataravô de teu tataravô, a mocinha Perruso dos sarracenos.<br />
_Coisete!<br />
_Sarna!</p>
<p>A discussão, como vemos, foge do tema, já que temos sempre contas a ajustar.</p>
<p>Atualmente, leio um romance de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Vasily_grossman" target="_blank">Vassili Grossman</a>: Vie et destin, escrito nos anos 1960, em plena URSS. É pauleira. Você lê, baixa a cabeça; lê, baixa a cabeça. O livro desmonta Stalingrado; logo, Stalingrado, rapaz. O romance seria a segunda parte de outro chamado “Pour une juste cause”, de 1952.</p>
<p>(Li nalgum lugar que &#8220;Vie et destin&#8221; seria traduzido para o brasileiro)</p>
<p>Mas quem é o cabra?</p>
<p>Sua família é de origem judaica. Apesar da descendência, Grossman não é crente nem fala idish. Na verdade, é um soviético, isto é, um estalinista. Produz realismo socialista e é um escritor menor.</p>
<p>Inicialmente, estuda em Kiev, depois, em Moscou, e se forma como engenheiro químico. Casa e pede divórcio, em 1932. Recebe o apadrinhamento de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Gorki" target="_blank">Gorki </a> e abandona a carreira de engenheiro, assumindo a de escritor. Talvez, por causa do apadrinhamento, sobrevive aos acasos macabros da política soviética dos anos trinta, quando todos, stalinistas ou não, podiam ser acusados de complô contra o regime.</p>
<p>Assim que os nazistas invadem a URSS, Grossman entra como voluntário, combatendo no front, e <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2510548&amp;sid=711223167121224412978120646&amp;k5=19FAEAD0&amp;uid=" target="_blank">vira jornalista do exército vermelho</a>. Os massacres dos judeus na Ucrânia causam uma profunda nódoa na sua alma. Começa a coletar dados sobre a <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Shoa" target="_blank">Shoa</a>. Participa da batalha de Stalingrado (a maior batalha de todos os tempos). Seu testemunho, como jornalista, transformam-no em herói nacional (talvez, por isso, tenha sido poupado dos posteriores expurgos do regime soviético). Segue o exército vermelho na ofensiva contra a Alemanha. É o primeiro homem a escrever sobre os campos de extermínio, ao entrar em Treblinka em julho de 44. Seu escrito “O Inferno de Treblinka” (Треблинский ад) é um testemunho que ficará como memória da capacidade humana de resistir a tragédias. Logo após, descobre que sua mãe fora morta nas primeiras semanas da invasão nazista na Ucrânia, assassinada em Berditchev, ela e alguns milhares de judeus soviéticos.</p>
<p>Retornando da guerra, Grossman volta “judeu”, horrorizado com o Holocausto, mas também com o tratamento dado às minorias étnicas pelos estalinistas. Começa a escrever textos críticos ao regime soviético; por isso, passa a ser hostilizado pela impressa oficial. A face antissemita do estalinismo fica clara durante a repressão ao dito “complô das batas brancas”, no qual foram acusados vários médicos soviéticos, quase todos judeus, que teriam assassinado dirigentes da cúpula do regime.</p>
<p>Em 1962, Grossman envia <em>Vie et Destin</em> à revista Znamia. Vadim Kojevnikov, o editor, percebeu logo que estava diante de uma bomba. Num regime totalitário, diante de uma situação de tal monta, o editor só tinha uma opção: lavar as mãos, evitando qualquer contaminação contra-revolucionária. Assim, enviou a obra para o famoso bairro <a href="http://fr.wikipedia.org/wiki/Loubianka_%28immeuble%29" target="_blank">Loubianka</a>, onde estava a sede da KGB. Mas não se pode lavar as mãos, numa ditadura, sem graves consequencias, pois o efeito é o mesmo da delação; logo, a delação, esse mecanismo implacável, desconstruído peça por peça pelo próprio Grossman. E foram essas mãos lavadas que produziram a cena cotidiana do totalitarismo: dois agentes do KGB apreendendo todo o material relacionado à feitura de Vie et Destin (cópias do livro e mesmo os rascunhos). Grossman não foi preso, e nem precisava, pois o golpe foi duro demais: morreria de câncer um ano depois. Era um sobrevivente, virou um espírito livre, mas não resistiu, no fundo, à apreensão da obra de sua vida. Foi degolado, como confessaria a um amigo. Há uma ironia no fim de sua resistência: sobrevive ao estalinismo, mas não ao<em> </em>degelo de Kruschev.</p>
<p>Confiscaram um romance. Medo de um romance? Há uma diferença, aqui: sua obra foi confiscada e não apenas censurada. A diferença diz muito. O confisco impede as mil formas de enganar a censura. Um Pasternak (<a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=111507&amp;sid=711223167121224412978120646&amp;k5=2EE19B5B&amp;uid=" target="_blank">Doutor Jivago</a>), por exemplo, tinha sido censurado e não confiscado. A censura não impediu a publicação do livro noutros lugares. Ela não elimina a obra, apenas a cala, muitas vezes provisoriamente. O confisco pode eliminar a obra e substituí-la pelo esquecimento. É mais grave. É difícil contorná-lo. Um exemplo é outro confisco famoso: Soljenítsin (Arquipélago Goulag), em 1973. Mas entendo o medo do Estado em relação ao Arquipélago: o romance é, na verdade, uma investigação literária, apresentando personagens reais, revelando nomes de vítimas e de carrascos. O romance de Soljenítsin é uma <em>exposição</em>. Sua ficção subordina-se ao real.</p>
<p>O romance de Grossman é uma ficção, mostrando raramente personagens reais. Ficções não derrubam regimes; no máximo, incomodam certo <em>status quo</em>. Dante não balançou, com seus poemas, o Papa, nem os Gibelinos, nem os Guelfos. Zola desestabilizou o Estado francês com o “Eu acuso” e não com seus romances. Ao confiscá-la, o Estado soviético colocou a obra literária de Grossman no mesmo nível dos segredos de Estado (o máximo de realidade de um regime totalitário). No totalitarismo, a realidade não pode revelar a verdade, donde a necessidade de se fazer da primeira uma ficção e da segunda, uma mentira. A censura e o confisco de uma obra são a suprema “homenagem” do Estado Absoluto.</p>
<p>Por que o medo? Porque a mística de Stalingrado poupa o regime soviético. Naquela batalha, estava em jogo a liberdade da humanidade. E o regime estava lá numa irmandade com o povo, lutando contra um inimigo comum. Qual é o significado de Stalingrado para Grossman? Continua apoteótico, mas revela uma tragédia: significa o encontro militar de dois monstros: o nazismo e o comunismo totalitário. São siameses, embora fratricidas. Entre as duas gigantescas pinças, está o povo – lutando pela liberdade? Sim, mas também pela sua sobrevivência. A tragédia do povo é a significação de Stalingrado: luta-se pela liberdade e pela vida, espremido entre duas encarnações da escravidão e da morte. Qual liberdade, afinal de contas? Não é a do soldado, nem da pessoa comum, mas é a do humano, abstração do Outro, que está lá como fantasma nas ruas destruídas, como potência do horror e dos escombros.</p>
<p>Não há evasão possível em Stalingrado.</p>
<p>No romance, aparece a relação louca entre Estado e indivíduo. A individualidade tem a leveza e a fragilidade da pluma. O Estado é uma máquina de moer gente. Talvez, a única vantagem da pessoa, em relação ao Estado, seja sua consciência absoluta de que vai morrer. A ditadura implacável não sabe que desaparecerá num dia prosaico ou glorioso. Pensa que é eterna. Não há vida na eternidade, muito menos esperança, essa mãe do desespero de morrer. Na luta pela sobrevivência, as pessoas, mesmo sem querer, preservam alguma esperança. A vida continua, justamente, nos gestos imperceptíveis que ocorrem no cotidiano da guerra. São atitudes que sustentam as pequenas bases da moral humana – a mais simples de todas: a bondade. Em Stalingrado, a sobrevivência amalgama solidariedade e bondade. Sobre-viver, nessa condição impossível, é um ato de heroísmo. E, como tal, é fazer o básico da resistência: ajudar os outros.</p>
<p>Entende-se, agora, o medo do regime soviético. Grossman produziu, no romance sobre Stalingrado, uma hipótese filosófica sobre a encarnação do Mal. Até então, ninguém tinha esfregado uma metafísica do Mal na cara da Besta, e de dentro do seu próprio ventre; além do mais, utilizando a mãe de todas as batalhas.</p>
<p>O que é uma metafísica do Mal encarnada num romance? Uma tragédia moderna.</p>
<p style="text-align: center;">(&#8230;)</p>
<p>Ainda Grossman, até como aperitivo de &#8220;Vie et destin&#8221;, transcrevo algumas observações feitas no seu  livro “Um escritor na guerra”:</p>
<blockquote><p><span style="font-size: medium;">“2 de maio.O dia da capitulação de Berlim. É difícil descrevê-lo. Uma  monstruosa concentração, impressões. Fogo e incêndios, fumaça, fumaça,  fumaça. [....] Este dia nublado, frio e chuvoso é sem dúvida o dia da  ruína da Alemanha.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">[...] Corpos esmagados e amassados como tubos.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">[...]O inimigo ofereceu sua rendição  durante a noite, pelo rádio. O general, comandante da guarnição (Helmuth  Weidling) deu a ordem.” Soldados! “Hitler, a quem vocês deram seu  juramento, cometeu suicídio.”</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">[...] Testemunhei os últimos disparos em Berlim. Grupos da SS em um  prédio às margens do Spree, não muito longe do Reichstag, recusaram-se a  se render.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Reichstag. Alto, poderoso. Soldados estão fazendo fogo no salão.[...]</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Pessoas dizem que ele (Goebbels) deu ordens para envenenar sua  família e se matou. Ontem ele se matou com um tiro. Seu corpo pequeno,  queimado, está estendido aqui também – a perna artificial, gravata  branca. [...]</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">O portão de Brandenburgo[...] No espaço( do arco), como em uma  moldura, pode-se ver o impressionante panorama de Berlim em chamas. Até  mesmo eu nunca vi uma imagem dessas, embora eu tenha visto milhares de  incêndios. [...]</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Foi na Alemanha, particularmente aqui em Berlim, que nossos soldados  realmente começaram a se perguntar por que os alemães nos atacaram tão  repentinamente. Por que os alemães precisavam dessa guerra terrível e  injusta? Milhões dos nossos homens viram agora as ricas fazendas do  leste da Prússia, agricultura altamente organizada, os galpões de  concreto para os animais, salas espaçosas, tapetes, armários cheios de  roupa.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Milhões dos nossos soldados viram estradas bem construídas ligando  uma vila a outra e as auto-estradas alemãs [...] Nossos soldados viram  nos subúrbios as casas de dois andares, com eletricidade, gás, banheiros  e jardins belamente cultivados. Nossa gente viu os palacetes da rica  burguesia de Berlim, o luxo inacreditável de castelos, propriedades e  mansões. E milhares de soldados repetem essas perguntas com raiva quando  olham a seu redor na Alemanha- “Mas por que vieram atrás de nós? O que  eles queriam?”</span></p></blockquote>
<p>Acho impressionante essa pergunta: o que eles queriam?</p>
<p><span style="font-size: medium;"><br />
</span></p>
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		<title>A Comédia dos Erros – Shakespeare</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Nov 2010 12:30:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Para aqueles que gostam de ler peças de teatro, ou para os que tem curiosidade pelo assunto, vai a dica da “Comedia dos Erros”, de Shakespeare. Uma leitura muito engraçada. Quem tiver a chance de ver no palco, vale a pena. Mas também é divertido ler a peça.
É uma história toda movida por qüiproquós, ou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/09/shakespeare.jpg"><img class="size-medium wp-image-4574 aligncenter" title="shakespeare" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/09/shakespeare-224x300.jpg" alt="" width="224" height="300" /></a></p>
<p>Para aqueles que gostam de ler peças de teatro, ou para os que tem curiosidade pelo assunto, vai a dica da “Comedia dos Erros”, de Shakespeare. Uma leitura muito engraçada. Quem tiver a chance de ver no palco, vale a pena. Mas também é divertido ler a peça.</p>
<p>É uma história toda movida por qüiproquós, ou seja, confusões. A figura do qüiproquó é um artifício dramático que acontece quando uma pessoa é confundida com a outra, isso não é esclarecido e a trama segue adiante a partir desse equívoco. Também se aplica a situações em que os personagens conversam coisas com sentidos diferentes e vão cultivando uma encrenca que cresce ao longo da história.</p>
<p>&#8220;A Comédia dos Erros&#8221; é sobre dois pares de gêmeos que foram separados na infância e se reencontram involuntariamente 25 anos depois. Dois vivem na cidade de Éfeso, patrão e criado. E os outros dois, também patrão e criado, chegam à cidade. Mas naquele lugar ninguém sabe da coincidência e começam a tratar e armar tramas tanto com a dupla que vive na cidade quanto com os recém chegados. E assim cresce a confusão.</p>
<p>“A Comédia dos Erros” é considerada a primeira peça de Shakespeare e estreou provavelmente em 1594. Sua trama é baseada na peça “Os Menecmos” (Os Gêmeos), escrita no ano de 195 a.C. pelo dramaturgo romano Plauto. Sim, Shakespeare era um grande plagiador. A pirataria era plenamente aceita naquele passado. Em muitas de suas peças, seu brilho está na recriação e no tratamento, e não na fábula que  conta, no caso dessas peças recriadas.  A trama de  “Romeu e Julieta”, por exemplo, é baseada (beirando o plágio mesmo) num conto italiano escrito em 1554 por Matteo Bandello.</p>
<p>Esta edição da LPM (coleção Pocquet) da &#8220;Comédia dos Erros&#8221;está muito bem traduzida e tem uma leitura agradável. Fica a dica.</p>
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		<title>Livro da Semana: Golpe na Alma</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2010/04/05/livro-da-semana-5/</link>
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		<pubDate>Mon, 05 Apr 2010 11:33:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Orelha de Livro]]></category>
		<category><![CDATA[aramaico]]></category>
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		<description><![CDATA[Fernando envia o livro da semana:
Li uns meses atrás e é muito legal. É  de um pernambucano chamado Marcius Cortez, o dono da editora Cortez, e se chama &#8220;Golpe na Alma&#8221;. É um relato biográfico, que começa por volta de 1960,  quando ele fazia parte da equipe de educadores de Paulo Freire; vem o  [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fernando envia o livro da semana:</p>
<blockquote><p>Li uns meses atrás e é muito legal. É  de um pernambucano chamado Marcius Cortez, o dono da editora Cortez, e se chama &#8220;Golpe na Alma&#8221;. É um relato biográfico, que começa por volta de 1960,  quando ele fazia parte da equipe de educadores de Paulo Freire; vem o  golpe, ele muda para São Paulo, vive a ditadura, é preso, torturado,  presencia os torturadores comentando que recebiam ajuda da Folha de São  Paulo, que lhes fornecia viaturas, até o presente momento de incertezas e  interrogações sobre o futuro.</p>
<p>É um relato muito bonito e, lá pelas tantas, até Gadiel é citado. Mas tem  uma figura que ele cita com um carinho e um respeito enorme: Dosa.  Isso, Dosa, a nossa professora.</p></blockquote>
<p>Dosa foi nossa lendária professora dos tempos de preparação para a seleção no Colégio de Aplicação da UFPE. Foi um tempo mítico, guardado nas memórias de infância.</p>
<p>Já Gadiel foi um combatente bíblico. Um príncipe fariseu, derrotado por Moisés, que abriu, durante o confronto, uma gigantesca cratera, e todo o exercito gadelino caiu no abismo sem fim. Parece que foi o primeiro, de uma galeria sem fim, a exclamar:</p>
<p><em>_Eloí</em>, <em>Eloí</em>, lamá sabactâni? (&#8220;Meu Deus! Meu Deus! Porque me abandonaste?&#8221; &#8212; traduzido do baixíssimo aramaico)</p>
<p>Muito tempo depois, fez parte de uma banda meio estranha (<a href="http://andygadiel.blogspot.com/" target="_blank">aqui</a> e <a href="http://64.233.163.132/search?q=cache:GEeQz7-cDEAJ:pt.wikipedia.org/wiki/Jam_band+origem+do+nome+gadiel&amp;cd=7&amp;hl=pt-BR&amp;ct=clnk&amp;gl=br&amp;client=firefox-a" target="_blank">aqui</a>):</p>
<p id="watch-headline-title"><strong>Gadiel &#8211; Puesto Pa&#8217; Ti</strong></p>
<p><a href="http://www.blogdosperrusi.com/2010/04/05/livro-da-semana-5/"><em>Clique aqui para assistir o vídeo inserido.</em></a></p>
<p>Atordoado com tais revelações e encafifado com nome tão estranho, procurei a vidente Ma-Ud (alguns dizem que é uma deusa) que passou dois dias com febre, mas achou, finalmente, o significado de Gadiel.</p>
<p>Enviou-me o seguinte relatório:</p>
<blockquote><p><em><strong>GADIEL</strong></em>:  variante de <em>GADI</em> -</p>
<p>Origem do Nome <strong>Gadiel: </strong>HEBRAICO &#8211;  Deus é a nossa Fortuna</p>
<p>Qual o significado  do nome <strong>Gadiel</strong>:  FELIZ, CONTENTE.</p>
<p>Significado e origem do nome <strong>gadiel</strong> &#8211; Analise da Primeira  Letra do Nome: G</p>
<p>Muito sério, e com grande honestidade no meio profissional, busca a perfeição em tudo e se aborrece quando as coisas não saem conforme o  planejado. Reflete muito antes de agir, e quando toma uma decisão é capaz de mergulhar de cabeça  no que está  fazendo e esquecer todo o resto à sua volta. Se atrai por  assuntos ligados a saúde, e se adaptaria muito bem ao trabalhar  nessa área. Sua impaciência, pode leva-lo a um estresse  facilmente.</p></blockquote>
<p><span style="color: #800000;"><em>Haha, desculpem-me, mas caí no chão de tanto rir&#8230;</em></span></p>
<blockquote><p>Significado do nome <strong>Gadiel</strong> &#8211; Sua marca no mundo!</p>
<p>RESERVADA, EQUILÍBRIO, CONFIABILIDADE, PERSPICÁCIA, ESPÍRITO ANALÍTICO</p>
<p>Passa a impressão de uma pessoa muito inteligente e  intuitiva, desde muito cedo é notória sua vocação por atividades  intelectuais. Não se atrai por atividades desgastantes e de esforço  fisico. Na maturidade  demonstra ter a vida sob controle. Alguém que  valoriza a espiritualidade. Sempre envolvida  com seus pensamentos pode passar a impressão de solitária. Séria, não  aceita intimidades ou brincadeiras inoportunas. Bastente  reservada, torna-se dificil ter sua confiança, e guarda seus segredos  sempre para si. Não se familiariza com encontros sociais, prefere sempre  atividades que exijam concentração. Fala pouco, e evita comentários  óbvios, nunca age com a intenção de impressionar, por isso só  participa de conversas quando está embasada de sua observação e  cuidadosa analise. Preocupa-se com o conteúdo e nunca com a forma. Esta  postura tende a isola-la do mundo, pois dificilmente confia na ajuda de  alguém, a maneira de ser bem compreendido e  aproveitar os aspectos positivos da personalidade é controlar o egoismo e  buscar abrir-se mais ao mundo.</p></blockquote>
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		</item>
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		<title>Livro da Semana</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2010/03/24/livro-da-semana-4/</link>
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		<pubDate>Wed, 24 Mar 2010 23:35:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Orelha de Livro]]></category>
		<category><![CDATA[Berlim]]></category>
		<category><![CDATA[Meyer]]></category>
		<category><![CDATA[Muro]]></category>
		<category><![CDATA[Zahar]]></category>

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		<description><![CDATA[Passei mais de ano contaminado pelo Livro dos Lobisomens. Enfim, desgrudei-me da maldição e troquei de livro.
1989 &#8211; O Ano Que Mudou O Mundo
A Verdadeira Historia Da Queda Do Muro De Berlim
Autor: MEYER, MICHAEL
Editora: JORGE ZAHAR
Segundo indicação de um amigo:
Li inteiro, e não só as  10 primeiras páginas. É um excelente relato dos bastidores [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Passei mais de ano contaminado pelo Livro dos Lobisomens. Enfim, desgrudei-me da maldição e troquei de livro.</p>
<p><span style="font-size: medium;"><strong>1989 &#8211; O Ano Que Mudou O Mundo</strong></span></p>
<p><span style="font-size: medium;"><strong>A Verdadeira Historia Da Queda Do Muro De Berlim</strong></span></p>
<p>Autor: <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/catalogo/busca.asp?parceiro=OGIJTA&amp;nautor=38583&amp;refino=1&amp;sid=182172174111214803242119825&amp;k5=1815A328&amp;uid=" target="_blank"><strong>MEYER, MICHAEL</strong></a><br />
Editora: <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/catalogo/busca.asp?parceiro=OGIJTA&amp;tipo_pesq=editora&amp;neditora=3&amp;refino=2&amp;sid=182172174111214803242119825&amp;k5=1815A328&amp;uid=" target="_blank"><strong>JORGE ZAHAR</strong></a></p>
<p>Segundo indicação de um amigo:</p>
<blockquote><p>Li inteiro, e não só as  10 primeiras páginas. É um excelente relato dos bastidores da queda do  muro e do papel que pequenos grupos de reformadores do sistema comunista  tiveram na queda da Cortina de Ferro.</p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		<title>Livro da Semana: o livro dos lobisomens</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Oct 2008 01:59:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Orelha de Livro]]></category>

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		<description><![CDATA[Livro muito curioso. Na verdade, já conhecia o escritor da obra, o Reverendo Sabine, através do não menos Reverendo Tsé-Tsé.
_É quase meu parente! &#8212; disse, orgulhoso.
_Mas você me disse que tinha sangue etrusco &#8212; retruquei.
_Etrusco inglês, meu caro.
_Peraí, e isso existe?!
_Fugimos dos romanos, fomos parar na Bretanha, fugimos dos celtas, chegamos nas Ilhas Britânicas e nos misturamos com os pictos.
_Aaah&#8230; Mas Sabine não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/10/wolfman031908.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-859" title="wolfman031908" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/10/wolfman031908-202x300.jpg" alt="" width="202" height="300" /></a>Livro muito curioso. Na verdade, já conhecia o escritor da obra, o Reverendo Sabine, através do não menos Reverendo Tsé-Tsé.</p>
<p>_É quase meu parente! &#8212; disse, orgulhoso.<br />
_Mas você me disse que tinha sangue etrusco &#8212; retruquei.<br />
_Etrusco inglês, meu caro.<br />
_Peraí, e isso existe?!<br />
_Fugimos dos romanos, fomos parar na Bretanha, fugimos dos celtas, chegamos nas Ilhas Britânicas e nos misturamos com os pictos.<br />
_Aaah&#8230; Mas Sabine não é etrusco, nem picto!<br />
_Mas é inglês! Sendo um descendente de etruscos ingleses, sou parente do clérigo.</p>
<p>Preferi não discutir mais. Pra quê, afinal?!</p>
<p>O Reverendo Tsé-Tsé é especialista em lendas urbanas. Defendeu, na Escola do Vaticano, uma tese sobre a perna cabeluda. Afirmou, mostrando dados empíricos irrefutáveis, inclusive fotos, que a tal perna era, na realidade, o membro tricogênico, compreendido entre o joelho e o tornozelo, de Teresa de Calcutá. O presidente da banca &#8212; que ironia &#8212; era Ratzinger. Ficou furioso. Depois da defesa, o futuro papa teve uma série de pesadelos com a Madre Beata, todos cabeludos (sei, sei, essa foi infame). Quase excomungou o Reverendo. Achou a lenda da perna cabeluda uma heresia que devia ser olvidada. Depois da defesa, o Reverendo só fala do assunto em privado; publicamente, somente empanturrado de vinho do Santo Ofício.</p>
<p>Inclusive, depois da quinta jarra, muitas vezes, aborda um tema estranho, sem relação com nada, um tanto extemporâneo: lobisomens brasileiros.</p>
<p>_Lobisomem brasileiro é uma onda!<br />
_Por quê? São surfistas?! &#8212; perguntei.<br />
_Bem que tua mãe diz que você é um abiscoitado!<br />
_(?!)<br />
_Lobisomem brasileiro não tem glamour, não tem direito à bala de prata, roupas de couro, nem mistério.<br />
_Ah, é?!<br />
_Ah, sim. O coitado vira lobisomem em encruzilhada, chiqueiro e até galinheiro.<br />
_Cacetada, galinheiro é humilhação.<br />
_Pois é, muitas vezes, sai todo sujo de titica de galinha&#8230; E não precisa de lua cheia, somente que seja sexta-feira.<br />
_Bem, sexta é melhor do que segunda-feira. Tem todo o final de semana para assombrar.<br />
_Que nada, sua rotina é de lascar: uma noite apenas para percorrer sete cidades, antes de voltar ao lugar donde se transformou em fera abominável. E, se não voltar antes do galo anunciar o dia, vira um pequinês!<br />
_Que horror!<br />
_O lobisomem brasileiro não é produto de feitiço e sim de maldição.<br />
_Convenhamos, isso é muito pior. Tirar feitiço é fácil &#8211; é só procurar uma benzedeira lá em Juazeiro do Norte. Maldição é outro papo!<br />
_Maldição é pra vida toda, meu filho.<br />
_E qual é a maldição?<br />
_É herança maldita: o último de uma série de sete filhos, o caçula de sete irmãos, filho de um incesto, ficar dez anos sem confissão, não fazer a comunhão, nascer com os dedos tortos, casar apenas no civil, deixar de receber batismo, ser do PT.<br />
_Deve ter muito lobisomem no Brasil.<br />
_Pra dedéu! Conheço vários. Mas, nem tudo são espinhos na vida de um lobisomem brasileiro, afinal, uma de suas funções é desvirginar donzelas inocentes que passeiam sozinhas pela praia de Intermares.<br />
_Taí uma bela função. Ele se alimenta, por acaso, de tartarugas?<br />
_Não, quem se alimenta disso é VanVan, o cientista cearense.<br />
_Será que Vancarder é um lobisomem?<br />
_Há, de fato, um boato a respeito. Nunca comprovado, aliás. Talvez seja um lobisomem ecochato, o que seria uma vergonha! Mas o lobisomem alimenta-se de fetos, crianças ainda pagãs, adultos, cadáveres, cachorros, bezerros e outros animais pequenos. Ele gosta também de cientista social.<br />
_É mesmo?!<br />
_Tem um gosto de plástico, mas dá pro gasto.<br />
_Como você sabe disso? &#8212; perguntei, desconfiado.<br />
_Deixa pra lá. Você não quer saber como se mata um lobisomem brasileiro?!<br />
_Não, quero saber é como você sabe que cientista social tem gosto de plástico.<br />
_Deixe de papo, isso não é importante. Veja, é preciso coragem para matar um lobisomem brasileiro: faz-se uma saudação com a cruz a seis metros do monstro, joga-se água benta nele e, depois, reza-se sete vezes, durante sete noites, com sete velas acessas. Além disso, pode-se dar um tiro certeiro na cabeça do bicho, sem antes esquecer, é claro, de untar a bala com a cera de uma vela queimada em três missas seguidas.<br />
_Não quero saber. Como você sabe que cientista social tem gosto de plástico?</p>
<p>O Reverendo quase rosnou. Deu medo. Não disse nada, mas gesticulou bastante. Saiu da sala esbravejando em baixo aramaico, uma mania antiga. Fiquei pensando&#8230; Será que o reverendo era um&#8230; Recalquei o pensamento. Algumas verdades precisam ser esquecidas, nem mesmo guardadas. Mas, depois disso, fiquei cabreiro.</p>
<p>Bem, lá vai a orelha do livro:</p>
<blockquote><p>O reverendo <strong>Sabine Baring-Gould</strong> é considerado um dos dez maiores escritores britãnicos do século XIX, embora seja mais conhecido por sua prolífica produção de hinos religiosos. O autor também é frequentemente citado como inspirador de <em>Pigmalião</em>, obra-prima de George Bernard Shaw, que, por sua vez, originou o clássico do cinema <em>My Fair Lady.</em></p>
<p>Mas <strong>Baring-Gould</strong> também escrevia em profusão, e sua obra literária chamou a atenção de H. P. Lovecraft, mestre do sobrenatural. E não é para menos. Em <em>O Livro dos Lobisomens</em>, o autor lança mão dos anos dedicados ao estudo do foclore bretão para construir um painel rico e detalhado da licantropia.</p>
<p>Abordando temas polêmicos e controversos, este é, até hoje, um dos mais completos e essenciais compêndios sobre os lobisomens e sua mitologia.</p></blockquote>
<p>PS: o diálogo com o Reverendo Tsé-Tsé inspirou-se do prefácio, escrito por Helena Gomes, do <em>Livro dos Lobisomens &#8212; </em>uma jornalista e professora universitária, versada sobre lobisomens e outros mitos fantásticos.</p>
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		<title>Livro da Semana: Giorgio Agamben &#8211; Homo Sacer</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Sep 2008 01:35:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Orelha de Livro]]></category>

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		<description><![CDATA[Agamben é conhecido como o Foucault italiano. Já li seu livro &#8220;Estado de Exceção&#8221; &#8212; posso dizer que provoca, por isso é interessante. Discuti suas posições num curso da pós-graduação e gerou muita polêmica.
Transcrevo abaixo a orelha do livro Homo Sacer, escrita por Raul Antelo (quem entendê-la é um Homo Estupendi ):
Jean-Luc Nancy define Giorgio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Agamben é conhecido como o Foucault italiano. Já li seu livro &#8220;Estado de Exceção&#8221; &#8212; posso dizer que provoca, por isso é interessante. Discuti suas posições num curso da pós-graduação e gerou muita polêmica.</p>
<p>Transcrevo abaixo a orelha do livro <em>Homo Sacer</em>, escrita por Raul Antelo (quem entendê-la é um <em>Homo Estupendi</em> ):</p>
<blockquote><p><strong><span style="font-size: small; color: #008080;">Jean-Luc Nancy define Giorgio Agamben como um agudo <em>flâneur </em>que atravessa, solitário, o campo do pensamento, reparando nos mínimos detalhes. Sua deriva significa <em>pasearse</em> no mundo das coisas.</span></strong></p>
<p><strong><span style="font-size: small; color: #008080;">O próprio Agamben lembra que uma única vez usou Spinoza o vernacular ladino. Foi em <em>Compendium grammatices linguae hebrae</em> para ilustrar que o verbo ativo reflexivo era uma expressão da causa imanente. <em>Pasearse</em> é a palavra espanhola que lhe vem à mente para mostrar uma relativa indecibilidade entre meios e fins, entre atualidade e potencialidade, entre sujeito e objeto. A vertigem da imanência é assim atualizada por um verbo que descreve o movimento infinito da autoconstituição e automanifestação do ser. A vida consiste em <em>pasearse</em>. Alguém muito próximo de Agamben, Guy Débord, fez dessa premissa uma doutrina, a deriva situacionista.</span></strong></p>
<p><strong><span style="font-size: small; color: #008080;">Em <em>Homo Sacer</em>, Agamben se passeia pela vida.  A seu ver, ela não pode mais ser tomada como noção médica ou científica. Os atributos da filosofia e da política (descontando os teológicos, herança benjaminiana muito viva em Agamben) lhe são muito mais específicos. Impossível, portanto, distinguir entre vida animal e humana, entre vida biológica e contemplativa. A vida e a teoria precisam ser pensadas em um novo plano de imanência, o da <em>nuda vita</em>.</span></strong></p>
<p><strong><span style="font-size: small; color: #008080;">Ser um filósofo da imanência, como Spinoza, Nietzsche, Foucault ou Deleuze (com quem aliás escreveu, a  quatro mãoss, um belo ensaio sobre Bartleby), torna Agamben um agudo perscrutador da indecibilidade. Seus ensaios sobre o fim do poema ou o cinema de Débord são eloquentes testemunhos dessa sensibilidade.</span></strong></p>
<p><strong><span style="font-size: small; color: #008080;"><em>Homo Sacer</em> integra uma trilogia com <em>Notas sobre a política </em>e  <em>O que resta de Auchwitz.</em> No segundo volume da série, o ato de <em>pasearse</em> não se detém nem mesmo perante o campo de concentração ou o conceito de povo. Define o povo como uma cisão biopolítica incontornável no mundo contemporâneo: ele é tanto aquilo que não pode ser incluído no todo de que faz parte quanto aquilo que não pode pertencer ao conjunto em que, mesmo assim, permanece, excluído e indesejado. Ettore Finazzi-Agrò viu essa definição de uma não deliberada leitura de <em>Os Sertões.</em> Por múltiplas razões, a imanência de Agamben implica <em>pasearse</em> através de nossa própria vida.</span></strong></p></blockquote>
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