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	<title>Blog dos Perrusi &#187; Entrevista</title>
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	<description>Crônica, política, doidice, o escambau!</description>
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    <title>Blog dos Perrusi</title>
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		<item>
		<title>Política científica</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Jan 2011 22:01:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[ciência]]></category>
		<category><![CDATA[CNPq]]></category>
		<category><![CDATA[Homo lattes]]></category>
		<category><![CDATA[Lattes]]></category>
		<category><![CDATA[Miguel Nicolelis]]></category>
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		<category><![CDATA[política científica]]></category>

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		<description><![CDATA[Mais uma entrevista do neurocientista Miguel Nicolelis. Concordo no atacado, discordo no varejo, mas é uma posição importante, vindo de quem vindo.
Selecionei a parte da entrevista que se refere à política científica brasileira. Não deixa de ser uma crítica ao Homo lattes (termo cunhado por dona Cynthia, num momento de grande inspiração).
Uma frase de Nicolelis [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mais uma entrevista do neurocientista Miguel Nicolelis. Concordo no atacado, discordo no varejo, mas é uma posição importante, vindo de quem vindo.</p>
<p>Selecionei a parte da entrevista que se refere à política científica brasileira. Não deixa de ser uma crítica ao<em> Homo lattes </em>(termo cunhado por dona <a href="http://quecazzo.blogspot.com/" target="_blank">Cynthia</a>, num momento de grande inspiração).</p>
<p>Uma frase de Nicolelis diz tudo:</p>
<blockquote><p>Com um físico da UFPE,  cheguei à  conclusão de que Albert Einstein não seria pesquisador 1A do  CNPq,  porque ele não preenche todos os pré-requisitos – número de  orientandos  de mestrado, de doutorado… Se Einstein não poderia estar  no topo, há  algo errado.</p></blockquote>
<p>Além do mais, a universidades federal, onde se produz ciência no Brasil, organiza-se ainda como uma repartição pública (não me refiro aos gestores e aos administradores, e sim à regulação normativa da universidade). Sua forma de organização é incompatível com a produção científica. Eu mesmo virei um empreendedor de atalhos burocráticos. Antes de ser pesquisador, sou um dos maiores especialistas em memos e ofícios, além de conhecer todos os caminhos e descaminhos da reitoria de minha universidade. Fiz amizade com inúmeros carimbos e vários protocolos, além de tomar cervejinha com muitos processos pelos bares da burocracia. Teve até uma autentificação muito da gostosa que&#8230; deixa pra lá.</p>
<p>Quem quiser ler a entrevista completa clique <a href="http://planobrasil.com/2011/01/10/integracao-entre-cerebro-e-maquinas-vai-influenciar-evolucao/" target="_blank">aqui</a>.</p>
<blockquote><p><strong>O que você acha da política científica brasileira?</strong></p>
<p>Está  ultrapassada. Principalmente, a gestão científica. Foi por isso  que eu  escrevi o Manifesto da Ciência Tropical (mais informações nesta   página). O mais importante nós temos: o talento humano. Mas ele é   rapidamente sufocado por normas absurdas dentro das universidades. Não   podemos mais fazer pesquisa de forma amadora. Devemos ter uma carreira   para pesquisadores em tempo integral e oferecer um suporte   administrativo profissional aos cientistas. Visitei um dos melhores   institutos de física do País, na Universidade Federal de Pernambuco   (UFPE), e o pessoal não tem suporte nenhum. Se um americano do Instituto   de Física da Universidade Duke visitar os pesquisadores brasileiros,   não vai acreditar. Eles tomam conta do auditório, fazem os cheques e   compram as coisas, porque não é permitido ter gestores científicos com   formação específica para este trabalho. Nós preferimos tirar cientistas   que despontaram da academia. Aqui no Brasil há a cultura de que,  subindo  na carreira científica, o último passo de glória é virar um   administrador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e   Tecnológico (CNPq), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) ou da   Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). É uma   tragédia. Esses caras não tem formação para administrar nada. Nem a casa   deles. Não temos quadros de gestores. A gente gasta muito dinheiro e   presta muita atenção em besteira e não investe naquilo que é   fundamental.</p>
<p><strong>Qual é a diferença nos mecanismos de financiamento e gestão científica nos EUA e no Brasil?</strong></p>
<p>O  investimento privado e público americano – sem contar os gastos do   Pentágono que, em parte, são sigilosos – é equiparável: cerca de US$   250 bilhões anuais cada um (o equivalente a R$ 425 bilhões). Eles também   enfrentam o problema de que as empresas privadas não costumam investir   em pesquisa pura, meio de cultura de onde saem as ideias aplicadas.   Contudo, o governo não investe só em universidades. Ele também coloca   dinheiro em empresas e em institutos de pesquisa privados. Este é o   segredo. No Brasil, a grande maioria dos mecanismos públicos de   financiamento está voltado para universidades públicas. Sendo assim,   você não contrata cientistas e técnicos para um projeto, pois depende   dos quadros da universidade. Mas esses quadros estão dando 300 horas de   aula por semestre. Não dá para competir com um chinês que está em   Berkeley pesquisando o dia inteiro e recebendo milhões de dólares para   contratar quem ele quiser. Como fazer ciência sem gente? Na realidade,   os americanos não contam com pessoas mais capazes lá. O que eles têm de   diferente é um número muito maior de pesquisadores, processos   eficientes, gestão científica profissional – a melhor jamais inventada –   e dinheiro. Nos Estados Unidos, sou visto como um pequeno  empreendedor.  Recebo dinheiro do governo americano e uma parcela menor  de  investimento privado. Tenho assim uma “padaria” que faz ciência:  posso  contratar o padeiro, o faxineiro e a atendente de acordo com as   necessidades do projeto. Esse empreendedorismo não é permitido pelas   leis brasileiras. As mesmas regras que regem o gasto de quaisquer dez   mil réis que um cientista ganha do governo federal servem para controlar   licitações de centenas de milhões de reais para a construção de   estradas, hidrelétricas… Achar que um cientista vai desviar dinheiro   para fazer fortuna pessoal é absurdo. O processo de financiamento deve   ser mais aberto, com mecanismos simples de auditoria. Além disso,   deveria ser mais fácil importar insumos e, com o tempo, precisaríamos   atrair empresas para produzi-los aqui. É um absurdo ver anticorpos   apodrecerem no aeroporto de Guarulhos por causa da burocracia. Alguém no   topo da pirâmide – o presidente da República ou o ministro da Ciência e   Tecnologia – precisa dizer: “Chega. Acabou a brincadeira.” É um   desperdício gigantesco de talento e de dinheiro. A China está   recuperando pesquisadores que emigraram para os EUA oferecendo condições   de trabalho ainda melhores que as americanas. Milhares de brasileiros   voltariam ao Brasil se tivessem melhores condições para trabalhar. Mas o   sujeito vem para uma universidade federal e é obrigado a dar 300 horas   de aula por semestre. Perdemos o talento. Além disso, ele conquista a   estabilidade de forma quase automática. Que motivação vai ter para   crescer? Há talentos, mas os processos são medievais. E o cientista   brasileiro tem muito receito de bater de frente com as autoridades para   reivindicar o que ele realmente precisa.</p>
<p><strong>Quanto o Brasil deveria investir em ciência?</strong></p>
<p>O  Brasil precisa investir de 4% a 5% do seu Produto Interno Bruto  (PIB)  em ciência e tecnologia para encarar a China, a Índia, a Rússia,  os  Estados Unidos, a Coreia do Sul… esses são os jogadores com quem   devemos nos equiparar. É o mesmo porcentual que já investimos em   educação. É essencial realizar os dois investimentos: por um lado, para   formar gente e iniciar a revolução educacional que o País precisa; por   outro, para usar o potencial intelectual dessas pessoas na produção de   algo para o País. Atualmente, investimos 1,3% do PIB. No Japão, é quase   4%. Isso explica muita coisa.</p>
<p><strong>Você afirmou diversas vezes que a ciência precisa ser democratizada no País.</strong></p>
<p>Sem  dúvida. É uma atividade extremamente elitizada. Não temos a  penetração  popular adequada nas universidades. Quantos doutores são  índios ou  negros? A ciência deve ir ao encontro da sociedade brasileira.  Essa foi  uma das razões que me motivaram a escrever o manifesto. Até  bem pouco  tempo, a ciência era uma atividade da aristocracia brasileira.  Há 30 ou  40 anos só a classe mais alta tinha acesso à universidade. Não   precisavam de financiamento porque tinham dinheiro próprio. Hoje, nós   precisamos de cientista que joga futebol na praia de Boa Viagem.   Precisamos do moleque que está na escola pública. As crianças precisam   ter acesso à educação científica, à iniciação científica. O que também   implica uma democratização na distribuição de oportunidades e recursos   em todo o País. Estamos trabalhando com 21 crianças da periferia de   Natal. Elas nem mesmo entraram no ensino médio e já estão sendo   incorporadas às linhas de produção de ciência do nosso instituto. Quatro   participaram de um projeto piloto em que aprenderam a usar ressonância   nuclear magnética de bancada para medir o volume de óleo nas sementes  do  pinhão-manso do semi-árido nordestino. E classificaram as diferentes   sementes de acordo com a quantidade de óleo. Duvido que exista algum   técnico na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) melhor   do que essas crianças. Não precisamos mais de caciques. Precisamos de   índios. Devemos investir na massificação dos talentos. Esses moleques   vão decidir o que vai ser a nossa ciência. Se chega um jovem muito   talentoso que quer investigar besouro, devemos responder: “Está bom,   filho. Vai pesquisar besouro.” Eu não investiria em tópicos, em áreas   específicas. Eu investiria primordialmente em gente. Porque se você   investir em pessoas talentosas, elas encontrarão nichos em que o Brasil   terá benefícios tremendos. Nós temos uma das maiores olimpíadas de   matemática do mundo, o que comprova que nosso talento matemático é   enorme. Mas não dá frutos porque faltam caminhos, oportunidades,   veículos… Acreditamos que devemos escolher o melhor menino. Mas e os   outros cem mil que quase ganharam? Precisam de incentivo para continuar.   Por isso, eu proponho o bolsa-ciência. É um bolsa-família para garoto   que tem talento científico. Não precisa ser gênio. Estou fazendo isso   com esses 21 meninos. Os quatro garotos do pinhão-manso recebem mais   dinheiro do que o pai e a mãe: uma bolsa de R$ 520 paga por doadores   privados. Precisamos investir no caos que é o sistema nervoso. Desta   forma, encontraremos caminhos imprevistos, surpresas agradáveis.</p>
<p><strong>Como avaliar mérito na academia?</strong></p>
<p>Nós  publicamos mais do que a Suíça. Mas o impacto da ciência suíça é  muito  maior. Basta ver o número de prêmios Nobel lá. E eles têm apenas  cinco  milhões de habitantes. Na academia brasileira, as recompensas  dependem  do que eu chamo de “índice gravitacional de publicação”: quanto  mais  pesado o currículo, melhor. Ou seja, o cientista precisa  colecionar o  maior número de publicações – sem importar tanto seu  conteúdo. Não pode  ser assim. O mérito tem de ser julgado pelo impacto  nacional ou  internacional de uma pesquisa. Não podemos dizer: quem  publica mais,  leva o bolo. Porque aí o sujeito começa a publicar em  qualquer revista.  Não é difícil. A publicação científica é um negócio  como qualquer  outro. Mesmo se você considerar as revistas de maior  impacto. Também  não adianta criar e usar um índice numérico de citações  (que mede o  número de citações dos artigos de um determinado cientista).  Talento  não está no número de citações: é imponderável. Meu  departamento na  Universidade Duke nunca pediu meu índice de citação.  Também nunca  calculei. Quando sai do Brasil, achei que estava deixando  um mundo de  lordes da ciência. Fui perguntando nome por nome lá fora.  Ninguém  conhecia. Ninguém sabia quem era. Críamos uma bolha provinciana  que  deve ser estourada agora se o Brasil quer dar um salto quântico. Mas  as  pessoas têm receio de falar com medo de perder o financiamento. Há   outras formas de medir o impacto científico: ver o que cara está fazendo   e consultar a opinião de pessoas que importam no mundo, dos líderes de   cada área. Sob este ponto de vista, o impacto da ciência brasileira é   muito baixo. E precisamos dizer isso sem medo. Não dá para esconder o   sol com a peneira. Quando decidem criar um Instituto Nacional (de   Ciência e Tecnologia), em vez de dividir o dinheiro entre 30 ou 40   pesquisadores promissores, preferem pulverizar o dinheiro entre 120   cientistas, muitos deles com propostas que não vão chegar a lugar   nenhum. Cada um recebe um R$ 1 milhão, uma quantia considerável na   opinião de muita gente mas que não paga nem a conta de luz de um projeto   bem feito. Não podemos ter receio de selecionar os melhores. Você   precisa escolher os bons jogadores, não os pernas-de-pau. Outra coisa:   só o Brasil ainda admite cientista por concurso público. Cientista tem   de ser admitido por mérito, por julgamento de pares, por entrevista, por   compromisso, por plano de trabalho.</p>
<p><strong>Como você se vê na Academia?</strong></p>
<p>Sou  um pária. Não tenho o menor receio de falar isso. Sou tolerado.  Ninguém  chega para mim de frente e fala qualquer coisa. Mas, nos  bastidores, é  inacreditável a sabotagem de que fomos vítimas aqui em  Natal nos  últimos oito anos. Mas sobrevivemos. O Brasil é uma obsessão  para mim.  Há muita gente que não faz e não quer que ninguém faça, pois o  status  quo está bem. Tenho excelentes amigos na academia do País,  respeito  profundamente a ciência brasileira. Sou cria de um dos  fundadores da  neurociência no Brasil, o professor César Timo-Iaria, e  neto científico  de um prêmio Nobel argentino – Bernardo Alberto Houssay.  Por isso, foi  uma triste surpresa os anticorpos que senti quando eu  voltei. Algumas  pessoas ficaram ofendidas porque não fiz o beija-mão  pedindo permissão  para fazer ciência na periferia de Natal. Este ano, na  avaliação dos  Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs),  tivemos um dos  melhores pareceres técnicos da área de biomedicina. E o  nosso orçamento  foi misteriosamente cortado em 75%. Pedi R$ 7 milhões.  Recebemos R$  1,5 milhão. Operamos com um sexto do nosso orçamento. As  pessoas têm  medo de abrir a boca, porque você é engolido pelos pares.  Então, eu  fico imaginando um pesquisador que volta para o Brasil depois  de  estudar lá fora. De qualquer forma, o pessoal precisa entender que   voltar para o Brasil é assumir um tipo especial de compromisso. Não é ir   para Harvard, Yale… Você deve estar disposto a dar seu quinhão para o   País porque ele ainda está em construção. Nem tudo vai funcionar como a   gente quer. Vejo muita gente egoísta voltando para o Brasil. Os jovens   precisam olhar menos para o umbigo e mais para a sociedade.</p>
<p><strong>Qual é o futuro dos jovens pesquisadores no País?</strong></p>
<p>Atualmente,  eles têm uma dificuldade tremenda de conseguir dinheiro  porque não são  pesquisadores 1A do CNPq. Você precisa ser um cardeal da  academia para  conseguir dinheiro e sobressair. Com um físico da UFPE,  cheguei à  conclusão de que Albert Einstein não seria pesquisador 1A do  CNPq,  porque ele não preenche todos os pré-requisitos – número de  orientandos  de mestrado, de doutorado… Se Einstein não poderia estar  no topo, há  algo errado. Minha esperança é que o futuro ministro ataque  isso de  frente pois, até agora, ninguém teve coragem de bater de frente  com o  establishment da ciência brasileira. Ninguém teve coragem de  chegar lá e  dizer: “Chega! Não é assim! A ciência não está devolvendo ao  povo  brasileiro o investimento do povo na ciência.” Os cientistas  brilhantes  jovens não têm acesso às benesses que os grandes cardeais –   pesquisadores A1 do CNPq – têm, muitos deles sem ter feito muita coisa   que valha. Além disso, veja a situação do Conselho Nacional de Ciência e   Tecnologia (CCT, que assessora o presidente da República nas decisões   relacionadas à política científica). O presidente da Academia  Brasileira  de Ciências (ABC) – agora, um grande matemático – me perdoe,  mas ele  não deveria ter cadeira cativa nesse conselho. O Brasil  deveria ter um  conselho de gente que está fazendo ciência mundo afora. E  não pessoas  que ocupam cargos burocráticos em associações de classe.  Deveria ser  gente com impacto no mundo. E pessoas jovens com a cabeça  aberta. Mas as  pessoas têm muita dificuldade de quebrar esses rituais.  Para entender a  que me refiro, basta participar de reuniões científicas  e acompanhar a  composição de uma mesa. Não há nada semelhante em lugar  nenhum do mundo:  perder três minutos anunciando autoridades e nomeando  quem está na  mesa. É coisa de cartório português da Idade Média.  Cientista é um  cidadão comum. Ele não tem de fazer toda essa firula  para apresentar o  que está fazendo. É um desperdício de energia, uma  pompa completamente  desnecessária. Muitas vezes, os pesquisadores  jovens não podem abrir a  boca diante dos cientistas mais velhos. Eu  ouço isso em todo o Brasil.  No meu departamento nos Estados Unidos, sou  professor titular há quase  doze anos. Minha voz não vale mais que a de  qualquer outro que acabou de  chegar. Qualquer um pode me interpelar a  qualquer momento. Qualquer um  pode reclamar de qualquer coisa. Qualquer  um pode fazer qualquer  pergunta. E ninguém me chama de professor  Nicolelis. Meu nome lá é  Miguel. Por quê? Porque o cientista é algo  comum na sociedade. O meu  estado (a Carolina do Norte) possui uma das  maiores densidades de PhD na  população dos EUA. Se você se comportar  como um pavão lá, vai se dar  mal. Todo mundo tem pelo menos um PhD.  Aqui, precisamos colocar a  molecada da periferia de Natal, de Rio  Branco e de Macapá na ABC, por  mérito. Às vezes, parece que existe uma  igreja chamada Ciência no País.  Se você não é um membro certificado,  ela é impenetrável. Minhas críticas  não são pessoais. Quero que o  Brasil seja uma potência científica para o  bem da humanidade. As  pessoas precisam ver que a juventude científica  brasileira está de mãos  atadas. Precisamos libertar este povo. Já estou  no terço final da  minha carreira científica. O que me resta é ajudar  essa molecada a  fazer o melhor.</p>
<p><strong>Você  tem uma opinião bastante crítica sobre a política  científica no País.  Mas, na eleição, manifestou apoio publicamente à  Dilma. Por quê?</strong></p>
<p>Porque  a outra opção era trágica. Basta olhar para o Estado de São  Paulo:  para a educação, a saúde e as universidades públicas. Não preciso  falar  mais nada. Eu adoro a USP, onde me formei. Mas a liderança que  temos  hoje na USP é terrível. O reitor da USP (João Grandino Rodas) é  uma  pessoa de pouca visão. Não chega nem perto da tradição das pessoas  que  passaram por aquele lugar. São Paulo acabou de perder um  investimento  de 150 milhões de francos suíços (cerca de R$ 270 milhões)  porque o  reitor da USP não tinha tempo para receber a delegação de mais  alto  nível já enviada pelo governo suíço ao Brasil. Mandaram o  pró-reitor de  pesquisa da universidade (Marco Antônio Zago) fazer uma  apresentação  para eles. Ninguém agradeceu a visita. Manifestei  oficialmente ao  professor Zago minha indignação como ex-aluno da USP. Um  dos  integrantes da delegação suíça doou um super-computador de US$ 20   milhões de dólares (cerca de R$ 34 milhões) para nosso instituto em   Natal. Chegou na semana passada e será um dos mais velozes do Brasil.   Não pagamos um centavo. Não há mais espaço para provincianismo na   ciência mundial. Nas reuniões que eu presenciei com comitês e comissões   de outros países, a tônica da Fapesp sempre foi assim: “Fora de São   Paulo não existe ciência que valha a pena investir”. Esse tipo de coisa é   muito mal visto pelos estrangeiros. Não há mais lugar para   regionalismo, preconceito… É ótimo para São Paulo ser responsável por   70% da produção científica do País, mas é muito ruim para o País, que   precisa democratizar o acesso à ciência. Não adianta dizer em reuniões   com emissários internacionais que São Paulo tem uma “relação amistosa”   com o Brasil, este outro País fora das fronteiras do Estado. Este   bairrismo não ajuda em nada. A Fapesp é uma jóia, um ícone nacional,   reconhecida no mundo inteiro. Mas isso não quer dizer que as últimas   administrações foram boas. Temos de ser críticos. Esta última   administração, em especial, foi muito ruim. A Fapesp está perdendo   importância. Veja só: a Science (no artigo publicado há algumas semanas   sobre a ciência no Brasil) não dedicou uma linha à Fapesp. Que  surpresas  você vê saindo da ciência de São Paulo? Acho que a matéria da  Science  foi uma boa chamada para acordar, para sair dos louros, descer  do salto  alto e ver o que podemos fazer com os R$ 500 milhões anuais  da Fapesp.  Ah, se eu tivesse um orçamento assim! Temos muito menos e  posso dizer  para o diretor-científico da Fapesp (Carlos Henrique de  Brito Cruz) que  nós saímos na Science. E ele tem condição de investir  nos melhores  centros de pesquisa do País.</p>
<p><strong>Como você avalia o governo Lula?</strong></p>
<p>Apoiei  e apoio incondicionalmente o presidente Lula porque vivemos  hoje o  melhor momento da história do País. A proposta global de inclusão  do  governo Lula – e espero que será a mesma com a Dilma – é aquela que  eu  acredito. Contudo, os detalhes devem ser corrigidos. Admiro   profundamente o ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende.   Tivemos grandes avanços como a criação dos INCTs e dos fundos setoriais.   Mas o ministro não enfrentou a estrutura. Talvez não pudesse… por não   ter condições práticas ou por fazer parte dela, por ter crescido nela.   Em oito anos, nunca fui chamado para dar uma opinião no MCT ou para   apresentar os resultados do projeto de Natal. Sei que outros cientistas,   melhores do que eu, também não foram chamados. É curioso. Mas fui   chamado pelo Ministério da Educação. O ministro (Fernando Haddad) é o   melhor já tivemos na história da República. Ele criou a infraestrutura   que será lembrada daqui a 50 anos como a reviravolta da educação   brasileira. Com o Haddad eu consigo conversar e nossa parceria está   dando resultados.</p>
<p><strong>O que você achou da escolha de Aloizio Mercadante para o MCT?</strong></p>
<p>Estou  curioso para saber qual é o currículo dele para gestão  científica.  Fiquei surpreso com a indicação, mas não o conheço. Não  tenho a mínima  ideia do seu grau de competência. Mas não fica bem para a  ciência  brasileira – um ministério tão importante – virar prêmio de  consolação  para quem perdeu a eleição. Não é uma boa mensagem. Mas  talvez seja bom  que o futuro ministro não seja um cientista de bancada,  alguém ligado à  comunidade científica. Assim, se ele tiver determinação  política,  poderá quebrar os vícios. O primeiro ministro da Ciência e  Tecnologia  (Renato Archer, que permaneceu no cargo de 1985 a 1987) não  era  cientista e foi talvez um dos melhores gestores que já tivemos. Ele   tinha consciência de que seu ministério era estratégico. O MCT   estabelece parcerias e tem impacto na ação de outros ministérios:   Educação, Saúde, Indústria e Comércio, Relações Exteriores, Agricultura,   Meio Ambiente… Hoje, boa parte do orçamento do ministério não é nem   executado. As agências de financiamento não têm uma rotina de chamadas.   Não podemos continuar como está.</p></blockquote>
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		<title>Entrevista sobre o crime no Rio</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2010/11/23/entrevista-sobre-o-crime-no-rio/</link>
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		<pubDate>Tue, 23 Nov 2010 17:00:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[corrupção]]></category>
		<category><![CDATA[José Cláudio Alves]]></category>
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		<description><![CDATA[Cacetada, entrevista radical sobre o tráfico no Rio. Muitas vezes, o pessimismo da inteligência chega a ser embrutecedor. Caso seja verdade, sei não&#8230; Lendo o que o Tio Rei está escrevendo, as posições convergem &#8212; estamos diante do velho caso &#8220;os extremos tocam-se nalguma esquina ideológica&#8221;?
Do Vi o Mundo
José Cláudio Alves: A reorganização da estrutura [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cacetada, entrevista radical sobre o tráfico no Rio. Muitas vezes, o pessimismo da inteligência chega a ser embrutecedor. Caso seja verdade, sei não&#8230; Lendo o que o <a href="http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/" target="_blank">Tio Rei</a> está escrevendo, as posições convergem &#8212; estamos diante do velho caso &#8220;os extremos tocam-se nalguma esquina ideológica&#8221;?</p>
<blockquote><p><span style="font-size: medium;"><strong>Do Vi o Mundo</strong></span></p>
<p><span style="font-size: medium;"><strong><a href="http://www.viomundo.com.br/politica/jose-claudio-alves-a-reorganizacao-da-estrutura-do-crime.html" target="_blank">José Cláudio Alves: A reorganização da estrutura do crime</a></strong></span></p>
<p><span style="font-size: medium;"><strong><a href="http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=38721" target="_blank">Uma guerra pela regeografização do Rio de Janeiro. Entrevista especial com José Cláudio Alves</a></strong></span></p>
<p><span style="font-size: medium;">do site do Instituto Humanitas Unisinos</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">&#8220;O que está por trás desses conflitos urbanos é uma reconfiguração da  geopolítica do crime na cidade&#8221;. Assim descreve o sociólogo José  Cláudio Souza Alves a motivação principal dos conflitos que estão se  dando entre traficantes e a polícia do Rio de Janeiro. Na entrevista a  seguir, concedida à IHU On-Line por telefone, o professor analisa a  composição geográfica do conflito e reflete as estratégias de  reorganização das facções e milícias durante esses embates. &#8220;A mídia nos  faz crer – sobretudo a Rede Globo está empenhada nisso – que há uma  luta entre o bem e o mal. O bem é a segurança pública e a polícia do Rio  de Janeiro e o mal são os traficantes que estão sendo combatidos. Na  verdade, isso é uma falácia. Não existe essa realidade. O que existe é  essa reorganização da estrutura do crime&#8221;, explica.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Souza Alves é graduado em Estudos Sociais pela Fundação  Educacional de Brusque. É mestre em sociologia pela Pontifícia  Universidade Católica do Rio de Janeiro e doutor, na mesma área, pela  Universidade de São Paulo. Atualmente, é professor na Universidade  Federal Rural do Rio de Janeiro e membro do Iser Assessoria.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Confira a entrevista.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;"><a name="more"></a>IHU On-Line – O que está por trás desses conflitos atuais no Rio de Janeiro? </span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Alves – O que está por trás desses conflitos urbanos é  uma reconfiguração da geopolítica do crime na cidade. Isso já vem se  dando há algum tempo e culminou na situação que estamos vivendo  atualmente. Há elementos presentes nesse conflito que vêm de períodos  maiores da história do Rio de Janeiro, um deles é o surgimento das  milícias que nada mais são do que estruturas de violência construídas a  partir do aparato policial de forma mais explícita. Elas, portanto,  controlarão várias favelas do RJ e serão inseridas no processo de  expulsão do Comando Vermelho e pelo fortalecimento de uma outra facção  chamada Terceiro Comando. Há uma terceira facção chamada Ada, que é um  desdobramento do Comando Vermelho e que opera nos confrontos que vão  ocorrer junto a essa primeira facção em determinadas áreas. Na verdade, o  Comando Vermelho foi se transformando num segmento que está perdendo  sua hegemonia sobre a organização do crime no Rio de Janeiro. Quem está  avançando, ao longo do tempo, são as milícias em articulação com o  Terceiro Comando.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Um elemento determinante nessa reconfiguração foi o surgimento das  UPPs a partir de uma política de ocupação de determinadas favelas,  sobretudo da zona sul do RJ. Seus interesses estão voltados para a  questão do capital do turismo, industrial, comercial, terceiro setor, ou  seja, o capital que estará envolvido nas Olimpíadas. Então, a expulsão  das favelas cariocas feita pelas UPPs ocorre em cima do segmento do  Comando Vermelho. Por isso, o que está acontecendo agora é um rearranjo  dessa estrutura. O Comando Vermelho está indo agora para um confronto  que aterroriza a população para que um novo acordo se estabeleça em  relação a áreas e espaços para que esse segmento se estabeleça e  sobreviva.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">IHU On-Line – Mas, então, o que está em jogo?</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Alves – Não está em jogo a destruição da estrutura do  crime, ela está se rearranjando apenas. Nesse rearranjo quem vai se  sobressair são, sobretudo, as milícias, o Terceiro Comando – que vem  crescendo junto e operando com as milícias – e a política de segurança  do Estado calcada nas UPPs – que não alteraram a relação com o tráfico  de drogas. A mídia nos faz crer – sobretudo a Rede Globo está empenhada  nisso – que há uma luta entre o bem e o mal. O bem é a segurança pública  e a polícia do Rio de Janeiro e o mal são os traficantes que estão  sendo combatidos. Na verdade, isso é uma falácia. Não existe essa  realidade. O que existe é essa reorganização da estrutura do crime.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">A realidade do RJ exige hoje uma análise muito profunda e complexa e  não essa espetacularização midiática, que tem um objetivo: escorraçar um  segmento do crime organizado e favorecer a constelação de outra  composição hegemônica do crime no RJ.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">IHU On-Line – Por que esse confronto nasceu na Vila Cruzeiro?</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Alves – Porque a partir dessa reconfiguração que foi  sendo feita das milícias e das UPPs (Unidades de Policiamento  Pacificadoras), o Comando Vermelho começou a estabelecer uma base  operacional muito forte no Complexo do Alemão. Este lugar envolve um  conjunto de favelas com um conjunto de entradas e saídas. O centro desse  complexo é constituído de áreas abertas que são remanescentes de matas.  Essa estruturação geográfica e paisagística daquela região favoreceu  muito a presença do Comando Vermelho lá. Mas se observarmos todas as  operações, veremos que elas estão seguindo o eixo da Central do Brasil e  Leopoldina, que são dois eixos ferroviários que conectam o centro do RJ  ao subúrbio e à Baixada Fluminense. Todos os confrontos estão ocorrendo  nesse eixo.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">IHU On-Line – Por que nesse eixo, em específico?</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Alves – Porque, ao longo desse eixo, há várias  comunidades que ainda pertencem ao Comando Vermelho. Não tão fortemente  estruturadas, não de forma organizada como no Complexo do Alemão, mas  são comunidades que permanecem como núcleos que são facilmente  articulados. Por exemplo: a favela de Vigário Geral foi tomada pelo  Terceiro Comando porque hoje as milícias controlam essa favela e a de  Parada de Lucas a alugam para o Terceiro Comando. Mas ao lado, cerca de  dois quilômetros de distância dessa favela, existe uma menor que é a  favela de Furquim Mendes, controlada pelo Comando Vermelho. Logo, as  operações que estão ocorrendo agora em Vigário Geral, Jardim América e  em Duque de Caxias estão tendo um núcleo de operação a partir de Furquim  Mendes. O objetivo maior é, portanto, desmobilizar e rearranjar essa  configuração favorecendo novamente o Comando Vermelho.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Então, o combate no Complexo do Alemão é meramente simbólico nessa  disputa. Por isso, invadir o Complexo do Alemão não vai acabar com o  tráfico no Rio de Janeiro. Há vários pontos onde as milícias e as  diferentes facções estão instaladas. O mais drástico é que quem vai  morrer nesse confronto é a população civil e inocente, que não tem  acesso à comunicação, saúde, luz&#8230; Há todo um drama social que essa  população vai ser submetida de forma injusta, arbitrária, ignorante,  estúpida, meramente voltada aos interesses midiáticos, de venda de  imagens e para os interesses de um projeto de política de segurança  pública que ressalta a execução sumária. No Rio de Janeiro a execução  sumária foi elevada à categoria de política pública pelo atual governo.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">IHU On-Line – Em que contexto geográfico está localizado a Vila Cruzeiro?</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Alves – A Vila Cruzeiro está localizada no que nós  chamamos de zona da Leopoldina. Ela está ao pé do Complexo do Alemão, só  que na face que esse complexo tem voltada para a Penha. A Penha é um  bairro da Leopoldina. Essa região da Leopoldina se constituiu no eixo da  estrada de ferro Leopoldina, que começa na Central do Brasil, passa por  São Cristóvão e dali vai seguir por Bom Sucesso, Penha, Olaria, Vigário  Geral – que é onde eu moro e que é a última parada da Leopoldina e aí  se entra na Baixada Fluminense com a estação de Duque de Caxias.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Esse &#8220;corredor&#8221; foi um dos maiores eixos de favelização da cidade do  Rio de Janeiro. A favelização que, inicialmente, ocorre na zona sul não  encontra a possibilidade de adensamento maior. Ela fica restrita a  algumas favelas. Tirando a da Rocinha, que é a maior do Rio de Janeiro,  os outros complexos todos – como o da Maré e do Alemão – estão  localizados no eixo da zona da Leopoldina até Avenida Brasil. A  Leopoldina é de 1887-1888, já a Avenida Brasil é de 1946. É nesse prazo  de tempo que esse eixo se tornou o mais favelizado do RJ. Logo, a Vila  Cruzeiro é apenas uma das faces do Complexo do Alemão e é a de maior  facilidade para a entrada da polícia, onde se pode fazer operações de  grande porte como foi feita na quinta-feira, dia 25-11. No entanto, isso  não expressa o Complexo do Alemão em si.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">A Maré fica do outro lado da Avenida Brasil. Ela tem quase 200 mil  habitantes. Uma parte dela pertence ao Comando Vermelho, a outra parte é  do Terceiro Comando. Por que não se faz nenhuma operação num complexo  tão grande ou maior do que o do Alemão? Ninguém cita isso! Por que não  se entra nas favelas onde o Terceiro Comando está operando? Porque o  Terceiro Comando já tem acordo com as milícias e com a política de  segurança. Por isso, as atuações se dão em cima de uma das faces mais  frágeis do Complexo do Alemão, como se isso fosse alguma coisa  significativa.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">IHU On-Line – Estando a Vila Cruzeiro numa das faces do Complexo, por que o Alemão se tornou o reduto de fuga dos traficantes?</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Alves – A estrutura dele é muito mais complexa para que  se faça qualquer tipo de operação lá. Há facilidade de fuga, porque há  várias faces de saída. Não é uma favela que a polícia consegue cercar.  Mesmo juntando a polícia do RJ inteiro e o Exército Nacional jamais se  conseguiria cercar o complexo. O Alemão é muito maior do que se possa  imaginar. Então, é uma área que permite a reorganização e reestruturação  do Comando Vermelho. Mas existem várias outras bases do Comando  Vermelho pulverizadas em toda a área da Leopoldina e Central do Brasil  que estão também operando.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Mesmo que se consiga ocupar todo o Complexo do Alemão, o Comando  Vermelho ainda tem possibilidades de reestruturação em outras pequenas  áreas. Ninguém fala, por exemplo, da Baixada Fluminense, mas Duque de  Caxias, Nova Iguaçu, Mesquita, Belford Roxo são áreas que hoje estão  sendo reconfiguradas em termos de tráfico de drogas a partir da ida do  Comando Vermelho para lá.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">Por exemplo, um bairro de Duque de Caxias chamado Olavo Bilac é  próximo de uma comunidade chamada Mangueirinha, que é um morro. Essa  comunidade já é controlada pelo Comando Vermelho que está adensando a  elevação da Mangueirinha e Olavo Bilac já está sentindo os efeitos  diretos dessa reocupação. Mas ninguém está falando nada sobre isso.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">A realidade do Rio de Janeiro é muito mais complexa do que se possa  imaginar. O Comando Vermelho, assim como outras facções e milícias,  estabelece relação direta com o aparato de segurança pública do Rio de  Janeiro. Em todas essas áreas há tráfico de armas feito pela polícia, em  todas essas áreas o tráfico de drogas permanece em função de acordos  com o aparato policial.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">IHU On-Line – Podemos comparar esses traficantes que estão coordenando os conflitos no RJ com o PCC, de São Paulo?</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Alves – Só podemos analisar a história do Rio de  Janeiro, fazendo um retrospecto da história e da geografia. O PCC, em  São Paulo, tem uma trajetória muito diferente das facções do Rio de  Janeiro, tanto que a estrutura do PCC se dá dentro dos presídios. Quando  a mídia noticia que os traficantes no Rio de Janeiro presos estão  operando os conflitos, leia-se, por trás disso, que a estrutura  penitenciária do Estado se transformou na estrutura organizacional do  crime. Não estou dizendo que o Estado foi corrompido. Estou dizendo que o  próprio estado em si é o crime. O mercado e o Estado são os grandes  problemas da sociedade brasileira. O mercado de drogas, articulado com o  mercado de segurança pública, com o mercado de tráfico de drogas, de  roubo, com o próprio sistema financeiro brasileiro, é quem tem interesse  em perpetuar tudo isso.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">A articulação entre economia formal, economia criminosa e aparato  estatal se dá em São Paulo de uma forma diferente em relação ao Rio de  Janeiro. Expulsar o Comando Vermelho dessas áreas interessa à manutenção  econômica do capital. O que há de semelhança são as operações de  terror, operações de confronto aberto dentro da cidade para reestruturar  o crime e reorganizá-lo em patamares mais favoráveis ao segmento que  está ganhando ou perdendo.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">IHU On-Line – Como o senhor avalia essa política de instalação das  UPPs – Unidades de Policiamento Pacificadoras nas favelas do Rio de  Janeiro?</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Alves – É uma política midiática de visibilidade de  segurança no Rio de Janeiro e Brasil. A presidente eleita quase  transformou as UPPs na política de segurança pública do país e quer  reproduzir as UPPs em todo o Brasil. A UPP é uma grande farsa. Nas  favelas ocupadas pelas UPSs podem ser encontrados ex-traficantes que  continuam operando, mas com menos intensidade. A desigualdade social  permanece, assim como o não acesso à saúde, educação, propriedade da  terra, transporte. A polícia está lá para garantir o não tiroteio, mas  isso não garante a não existência de crimes. A meu ver, até agora, as  UPPs são apenas formas de fachada de uma política de segurança e  econômica de grupos de capitais dominantes na cidade para estabelecer um  novo projeto e reconfiguração dessa estrutura.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">IHU On-Line – A tensão no Rio de Janeiro, neste momento, é diferente de outros momentos de conflito entre polícia e traficantes?</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">José Cláudio Alves – Sim, porque a dimensão é mais ampla, mais  aberta. Dizer que eles estão operando de forma desarticulada,  desesperada, desorganizada é uma mentira. A estrutura que o Comando  Vermelho organiza vem sendo elaborada há mais de cinco anos e ela tem  sido, agora, colocada em prática de uma forma muito mais intensa do que  jamais foi visto.</span></p>
<p><span style="font-size: medium;">A grande questão é saber o que se opera no fundo imaginário e  simbólico que está sendo construído de quem são, de fato, os inimigos da  sociedade fluminense e brasileira. Essa questão vai ter efeitos muito  mais venenosos para a sociedade empobrecida e favelizada. É isso que  está em jogo agora.</span></p></blockquote>
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		<title>Descriminalização</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Oct 2010 12:06:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
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		<category><![CDATA[aborto]]></category>
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		<category><![CDATA[descriminalização]]></category>
		<category><![CDATA[hipocrisia]]></category>
		<category><![CDATA[ministério público]]></category>
		<category><![CDATA[promotoria]]></category>
		<category><![CDATA[Saint-Just]]></category>

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		<description><![CDATA[Sessão habitual no júri da Comarca de São Lourenço da Mata
A discussão do aborto é complexa e, sendo utilizada para fins eleitorais, torna-se rasa e redutora. Além do mais, foi capturada pelo que tem de mais atrasado no cristianismo. As posições da Igreja Católica não se reduzem, por exemplo, às posições oficiais do Vaticano. Existem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_5121" class="wp-caption alignnone" style="width: 490px"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/10/thermidor.jpg"><img class="size-full wp-image-5121" title="thermidor" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/10/thermidor.jpg" alt="" width="480" height="330" /></a><p class="wp-caption-text">Sessão habitual no júri da Comarca de São Lourenço da Mata</p></div>
<p>A discussão do aborto é complexa e, sendo utilizada para fins eleitorais, torna-se rasa e redutora. Além do mais, foi capturada pelo que tem de mais atrasado no cristianismo. As posições da Igreja Católica não se reduzem, por exemplo, às posições oficiais do Vaticano. Existem outras posições menos dogmáticas, sem a mania fundamentalista de ler a Bíblia de forma literal.</p>
<p>Não vejo problema de que, numa eleição, discuta-se sobre o aborto. O eleitor precisa conhecer as posições dos candidatos. O que lamento, na verdade, é a instrumentalização da discussão e sua captura pelo fundamentalismo cristão, somando-se à pusilanimidade dos candidatos, apavorados com a possível perda de votos, caso externassem sua verdadeira posição. Assim, todos rezam, todos beijam o crucifixo &#8212; hipocrisia.</p>
<p>Pesquisando no meu baú, procurava documentos contra a hipocrisia. De tanto procurar, achei uma velha entrevista da mãe de todas as mães, dos idos de 1987, concedida a um jornal do Ministério Público de Pernambuco. Uma entrevista bombástica, avançadíssima para a época, ainda mais num meio tão conservador como o Ministério Público. Transcrevi a parte relativa à querela do aborto &#8212; uma dia, transcrevo toda, porque é bastante atual, principalmente para os jovens carolas e reacionários dos dias de hoje.</p>
<p>Era o aniversário de 40 anos do jornal &#8220;Publicandum&#8221;. Tiveram a ideia de publicar, entre outras matérias, uma entrevista com um colega do ministério. Foi feito uma votação entre os pares e escolheram, logo quem, meu Deus, a Saint-Just da  Comarca de São Lourenço da Mata, onde as sessões de júri eram mais populares do que a missa de domingo e um jogo do Santinha.</p>
<p>No baú, encontrei histórias explosivas dessa época, quando a região queimava seus criminosos nas labaredas da Salvação Pública. Um dia, conto mais.</p>
<p>O espantoso da discussão abaixo é que, desde aquela época, a situação mudou muito pouco, quase nada.</p>
<p>Lá vai:</p>
<blockquote><p><strong>PUBLICANDUM, ANO II, Nº3 &#8211; ASSOCIAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE PERNAMBUCO, JULHO/DEZEMBRO 1987, EDIÇÃO 40 ANOS</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>CONHECENDO A COLEGA MAUD</strong></p>
<p>(Entrevista com Maud Fragoso de Albuquerque Perrusi, titular da 1ª Promotoria de Justiça da, Pernambuco, com exercício na Assessoria Técnica da Procuradoria Geral da Justiça).</p>
<p>1)&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</p>
<p><strong>14)  O aborto deve ser ou não descriminalizado?</strong></p>
<p><strong> </strong>A questão é muito complexa, pois, para melhor respondê-la, teríamos que buscar as razões da criminalização do aborto, sejam elas religiosas, econômicas, demográficas ou políticas.</p>
<p>Não podemos ignorar, por exemplo, a forte influência entre nós da Igreja Católica atual que, conservando a tradição cristã-judaica, condena o aborto sob o argumento de que o feto representa o testemunho de Deus, sendo, portanto, sua eliminação, um atentado à vida e a Deus, seu criador.</p>
<p>Por outro lado, a nossa política governamental, que se reflete na legislação penal, sempre foi repressiva a propósito do direito ao aborto. Em outros termos, a ideologia pequeno-burguesa, fortemente influenciada pela Igreja e cujos efeitos se fazem sentir na massa popular, envolve o aborto de toda a sorte de preconceitos da moral tradicional, a começar pelo sentimento de culpa e de pecado incutido pela Igreja na consciência feminina, se a mulher parte para a solução dramática do aborto.</p>
<p>O anteprojeto da parte especial do Código Penal traz algumas modificações a respeito do aborto. Ao invés de exclusão de punição, o “aborto necessário”, o “sentimental” e, agora o “piedoso” que, na verdade, é o aborto “eugênico”, passam a não constituírem crime.</p>
<p>Tendo em vista essas propostas de modificações a respeito da legislação do aborto, vemos que a tendência é no sentido de sua descriminalização. E não podemos ser contrários a esse fato, que reflete a nossa própria realidade.</p>
<p>Entretanto, isso não significa passar de repente a uma total descriminalização do aborto. Passaríamos, primeiramente, por uma política de conscientização da natalidade para que o aborto não seja visto como um meio contraceptivo. Em seguida, teríamos que cercar esse “direito ao aborto” de medidas prévias, como as que existem em países desenvolvidos, a exemplo da França, onde o “aborto precoce”, possível até a décima semana de gestação e somente praticado por médico, é precedido de estudos médico-psicológico e social que, se favoráveis, possibilitam a sua realização em hospital público ou privado, este, com autorização de funcionamento segundo o Código de Saúde Pública.</p>
<p>Essas modificações legislativas, no nosso país, visando a descriminalização do aborto, não implicarão no aumento do número de abortos realizados atualmente. Vale salientar que as práticas abortivas feitas, clandestinamente, somente favorecem a classe que tem meios econômicos para enfrentar o problema, em boas condições sanitárias.</p>
<p>A lei não pode, pois, ignorar esse fato e insistir nessa injustiça de classe. Ao contrário, a lei, para não se distanciar cada vez mais da realidade, deve tentar desmascarar essa hipocrisia.</p></blockquote>
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		<title>Liberdade de Expressão, segundo o Estadão</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Oct 2010 19:37:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[demissão]]></category>
		<category><![CDATA[Estadão]]></category>
		<category><![CDATA[expressão]]></category>
		<category><![CDATA[imprensa]]></category>
		<category><![CDATA[liberdade]]></category>
		<category><![CDATA[Maria Rita Kehl]]></category>
		<category><![CDATA[opinião]]></category>

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		<description><![CDATA[
Entrevista de Maria Rita Kehl a Bob Fernandes.
Depois, outra entrevista com com o Viomundo.
Maria Rita Kehl: &#8220;Fui demitida por um &#8216;delito&#8217; de opinião&#8221;
Bob Fernandes
A psicanalista Maria Rita Kehl foi demitida pelo Jornal O Estado de S. Paulo depois de ter escrito, no último sábado (2), artigo sobre a  &#8220;desqualificação&#8221; dos votos dos pobres. O [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/10/Maria-Rita-Kehl.jpg"><img class="size-full wp-image-5071 aligncenter" title="Maria Rita Kehl" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/10/Maria-Rita-Kehl.jpg" alt="" width="400" height="295" /></a></p>
<p>Entrevista de Maria Rita Kehl a <a href="http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4722228-EI6578,00-Maria+Rita+Kehl+Fui+demitida+por+um+delito+de+opiniao.html" target="_blank">Bob Fernandes</a>.</p>
<p>Depois, outra entrevista com com o <a href="http://www.viomundo.com.br/politica/maria-rita-kehl-os-bastidores-de-sua-demissao-pelo-estadao.html" target="_blank">Viomundo</a>.</p>
<blockquote><p><strong><span style="font-size: small;">Maria Rita Kehl: &#8220;Fui demitida por um &#8216;delito&#8217; de opinião&#8221;</span></strong></p>
<p>Bob Fernandes</p>
<p>A psicanalista Maria Rita Kehl foi demitida pelo Jornal <em>O Estado de S. Paulo</em> depois de ter escrito, no último sábado (2), artigo sobre a  &#8220;desqualificação&#8221; dos votos dos pobres. O texto, intitulado &#8220;Dois  pesos&#8230;&#8221;, gerou grande repercussão na internet e mídias sociais nos  últimos dias.</p>
<p>Nesta quinta-feira (7), ela falou a <strong>Terra Magazine</strong> sobre as consequências do seu artigo:<br />
- Fui demitida pelo jornal o Estado de S. Paulo pelo que consideraram um  &#8220;delito&#8221; de opinião (&#8230;) Como é que um jornal que anuncia estar sob  censura, pode demitir alguém só porque a opinião da pessoa é diferente  da sua?</p>
<p>Veja <a href="http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4722295-EI6578,00-Trechos+de+artigo+da+psicanalista+Maria+Rita+Kehl.html" target="_blank"> trechos do artigo</a> &#8220;Dois pesos&#8221;.</p>
<p>Leia abaixo a entrevista.</p>
<p><strong> Terra Magazine &#8211; Maria Rita, você escreveu um artigo no jornal O Estado  de S.Paulo que levou a uma grande polêmica, em especial na internet, nas  mídias sociais nos últimos dias. Em resumo, sobre a desqualificação dos  votos dos pobres. Ao que se diz, o artigo teria provocado conseqüências  para você&#8230;<br />
Maria Rita Kehl -</strong> E provocou, sim&#8230;</p>
<p><strong> &#8211; Quais?<br />
</strong> &#8211; Fui demitida pelo jornal O Estado de S.Paulo pelo que consideraram um &#8220;delito&#8221; de opinião.</p>
<p><strong> &#8211; Quando?<br />
</strong> &#8211; Fui comunicada ontem (quarta-feira, 6).</p>
<p><strong> &#8211; E por qual motivo?<br />
</strong> &#8211; O argumento é que eles estavam examinando o comportamento, as reações  ao que escrevi e escrevia, e que, por causa da repercussão (na  internet), a situação se tornou intolerável, insustentável, não me  lembro bem que expressão usaram.</p>
<p><strong> &#8211; Você chegou a argumentar algo?<br />
</strong> &#8211; Eu disse que a repercussão mostrava, revelava que, se tinha quem não  gostasse do que escrevo, tinha também quem goste. Se tem leitores que  são desfavoráveis, tem leitores que são a favor, o que é bom,  saudável&#8230;</p>
<p><strong> &#8211; Que sentimento fica para você?<br />
</strong> &#8211; É tudo tão absurdo&#8230; A imprensa que reclama, que alega ter o governo intenções de censura, de autoritarismo&#8230;</p>
<p><strong> &#8211; Você concorda com essa tese?<br />
</strong> &#8211; Não, acho que o presidente Lula e seus ministros cometem um erro  estratégico quando criticam, quando se queixam da imprensa, da mídia, um  erro porque isso, nesse ambiente eleitoral pode soar autoritário, mas  eu não conheço nenhuma medida, nenhuma ação concreta, nunca ouvi falar  de nenhuma ação concreta para cercear a imprensa. Não me refiro a  debates, frases  soltas, falo em ação concreta, concretizada.  Não  conheço nenhuma, e, por outro lado&#8230;</p>
<p><strong> &#8211; &#8230;Por outro lado&#8230;?<br />
</strong> &#8211; Por outro lado a imprensa que tem seus interesses econômicos,  partidários, demite alguém, demite a mim, pelo que considera um &#8220;delito&#8221;  de opinião. Acho absurdo, não concordo, que o dono do Maranhão (senador  José Sarney) consiga impor a medida que impôs ao jornal O Estado de  S.Paulo, mas como pode esse mesmo jornal demitir alguém apenas porque  expôs uma opinião?  Como é que um jornal que está, que anuncia estar sob  censura, pode demitir alguém só porque  a opinião da pessoa é diferente  da sua?</p>
<p><strong> &#8211; Você imagina que isso tenha algo a ver com as eleições?<br />
</strong> &#8211; Acho que sim. Isso se agravou com a eleição, pois, pelo que eles me  alegaram agora, já havia descontentamento com minhas  análises, minhas  opiniões políticas.</p></blockquote>
<blockquote><p>Em  entrevista ao <em>Viomundo</em>, Maria Rita detalha os bastidores.</p>
<p><strong>Viomundo – Na terça-feira, começou a circular na internet  boatos de sua demissão. Antes, em algum momento, você foi alertada sobre  “problemas” com os seus textos?</strong></p>
<p><strong>Maria Rita Kehl</strong> – Nunca. Foi o que eu argumentei com a editora do <em>Caderno 2</em>,  que me convidou para escrever a coluna.  Na verdade, ela me chamou para  escrever sobre psicanálise. Argumentei que só sobre psicanálise  conflitava com o meu consultório. De vez em quando, disse-lhe, poderia  escrever sobre o tema, mas eu gostaria mesmo era de escrever sobre tudo,  inclusive política, assunto que me interessa muito. Ela aceitou.</p>
<p><strong>Viomundo – Essa conversa foi…?</strong></p>
<p><strong>Maria Rita Kehl</strong> – No final do ano passado, mas eu só  comecei a escrever em fevereiro deste ano. Aí, fui escrevendo. Cada vez  mais sobre política, pois ficando cada vez mais apaixonante. Eu já fui  jornalista, tenho uma cabeça muito política também…</p>
<p>Após cada artigo, eu sempre perguntava: “E, aí, tudo bem?” Ela: “Tudo bem”.</p>
<p>Desta vez foi engraçado porque eu perguntei: “Tudo bem? Será que eles  não vão pedir a minha cabeça?”. A resposta que veio: “Não vão, pode  ficar tranqüila.” Eu fiquei. Imagino que a editora não iria me enganar…</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Viomundo – Quando soube dos “problemas” com os seus artigos?</strong></p>
<p><strong>Maria Rita Kehl –</strong> Na terça [5 de outubro]. Recebi um  telefonema muito constrangido  de que a coisa tinha ficado muito  feia…cartas de leitores estavam reclamando muito da minha presença no  jornal… tinha gente do Conselho Editorial muito enfurecida… a situação  estava muito difícil. Ela lembrou de que a ideia inicial era que eu  escrevesse sobre psicanálise…</p>
<p>“Bem, posso tentar escrever mais sobre psicanálise… Mas nunca mais  escrever sobre política, isso não, isso eu não aceito”.  Até porque o  período em que o tema é mais polêmico é agora, depois relaxa…</p>
<p>Ela disse que iria conversar novamente com o Gandour [Ricardo  Gandour, diretor de conteúdo do Grupo Estadão], que eu não conheço  pessoalmente.</p>
<p>Aí, aconteceu uma coisa que eu não sei explicar, é um mistério. Mas  acho que partiu de dentro do jornal, de alguém que ouviu essa conversa.  Uma hora depois já tinha gente me ligando, para saber se eu tinha sido  demitida.</p>
<p><strong>Viomundo – O que a leva a suspeitar de que alguém do Estadão tenha passado a informação adiante? </strong></p>
<p><strong>Maria Rita Kehl</strong> — Foi um detalhe da nossa conversa  [entre a editora e Maria Rita]. Só alguém de dentro do jornal, que tinha  ouvido a editora conversar comigo, tinha a informação… Tanto que o  boato foi de que eu “estava proibida de escrever sobre política, só  poderia escrever sobre psicanálise”.</p>
<p><strong>Viomundo – Você pensou em divulgar? </strong></p>
<p><strong>Maria Rita Kehl </strong>– Eu não tinha nenhum interesse em  começar a divulgar, enquanto não tivesse a resposta. Eu não poderia  criar um escândalo sem antes conhecê-la.</p>
<p>Acredito que ficou para eles [direção do jornal] a impressão de que  fui eu que fiz toda a movimentação na internet. Até quis tornar público.  Não fiz. E não porque sou boazinha. É porque não tinha nenhum interesse  em divulgar antes de ter a resposta final do jornal.</p>
<p>Nessa quarta [6], depois da reunião que a editora teve com o Gandour,  veio a resposta.  Gandour disse que por conta da repercussão, a minha  posição havia ficado insustentável, intolerável.</p>
<p><strong>Viomundo – A repercussão na rede da sua demissão foi apenas pretexto…</strong></p>
<p><strong>Maria Rita Kehl</strong> – É, a coisa já não estava boa. E  por ter tido muita repercussão, ficou, segundo o jornal, insustentável. É  como se eu tivesse organizado uma passeata petista na frente da redação  com bandeiras vermelhas, com ameaça de exigências.</p>
<p>A minha demissão virou top10 do twitter. Eu não esperava. Fiquei  atônita. Virou um acontecimento. A minha coluna era quinzenal… Eu não  sou Jânio de Freitas nem nada…O fato é que virou um acontecimento na  internet com muitas acusações contra o <em>Estadão</em>.</p>
<p><strong>Viomundo – O seu trabalho foi censurado, concorda? </strong></p>
<p><strong>Maria Rita Kehl</strong> – A palavra censura não é boa. No  meu conceito, censura seria você não pode escrever sobre isso ou aquilo,  corta uma linha aqui, outra ali…  O que o meu caso demonstrou é que o  jornal não permite uma visão diferente da do jornal nas suas páginas. É  isso. Essa é dita imprensa liberal.</p>
<p>As grandes empresas que controlam a informação no país estão nas mãos  de poucas famílias… Teoricamente seriam imparciais, dando voz ao outro  lado, só que elas têm um posicionamento muito claro de que não são  imparciais. Veja o meu caso. O meu artigo é assinado, não estou falando  pelo jornal. Mas nem isso cabe.</p>
<p><strong>Viomundo – Na verdade, os grandes veículos se dizem imparciais, alardeiam isso para a sociedade, só que a prática é oposta…</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Maria Rita Kehl</strong> — Eu acho honesto que o jornal  assuma uma posição. É pior dizer que é imparcial e dar a notícia só com  um lado. Isso confunde muito mais o leitor.</p>
<p>É pena que não tenha gente com dinheiro suficiente para apoiar outros  candidatos. …Um grande jornal que apóie a Dilma, um grande jornal que  apóie a Marina, um grande jornal que apóie o Plínio…</p>
<p>Na verdade, todos os jornais estão apoiando o mesmo candidato. Esse é  o problema da política brasileira, da burguesia brasileira, da  concentração do dinheiro na sociedade brasileira… Os donos dos jornais  são parciais, mesmo… Ninguém é imparcial. Mas, para que os leitores  sejam adequadamente informados e se posicionem, é fundamental ter o  outro lado. Infelizmente, o que os donos dos jornais revelam é que não  cabe voz a outra posição, nem mesmo em artigos assinados.  Que liberdade  de expressão é esta?</p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		<title>O favorito da esquerda</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/15/o-favorito-da-esquerda/</link>
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		<pubDate>Wed, 15 Sep 2010 18:00:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Bob Fernandes]]></category>
		<category><![CDATA[bola]]></category>
		<category><![CDATA[direita]]></category>
		<category><![CDATA[esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Lembo]]></category>
		<category><![CDATA[Lula]]></category>
		<category><![CDATA[onda]]></category>
		<category><![CDATA[oposição]]></category>
		<category><![CDATA[PT]]></category>

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		<description><![CDATA[

 
 
Cláudio Lembo é uma onda.
 
Entrevista interessante. No final, Lembo diz o que todo mundo sabe: a imprensa é serrista. 
 
 Bob Fernandes 


&#8220;Dramático será o dia 4 de outubro, porque não teremos mais partidos  políticos, só um movimento social coordenado pelo hoje presidente  Lula(&#8230;) A mídia está engajada e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="mceIEcenter">
<dl class="aligncenter">
<dt><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/09/lembo.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-4952" title="lembo" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/09/lembo.jpg" alt="" width="300" height="285" /></a> </dt>
<dt> </dt>
<dt style="text-align: left;">Cláudio Lembo é uma onda.</dt>
<dt style="text-align: left;"> </dt>
<dt style="text-align: left;">Entrevista interessante. No final, Lembo diz o que todo mundo sabe: a imprensa é serrista. </dt>
<dt> </dt>
<dt style="text-align: left;"> <strong><span style="color: #800000;">Bob Fernandes </span></strong></dt>
</dl>
</div>
<p><span style="color: #800000;">&#8220;Dramático será o dia 4 de outubro, porque não teremos mais partidos  políticos, só um movimento social coordenado pelo hoje presidente  Lula(&#8230;) A mídia está engajada e tem um candidato, o Serra, com isso se  perdeu o equilíbrio e é desse embate que nasce a intranquilidade, mas  ela é transitória&#8221;.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"> A análise é do ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, em conversa com o portal <strong>Terra</strong> na manhã desta quarta-feira (15). Atual secretário municipal dos  Negócios Jurídicos de São Paulo, Cláudio Lembo, do DEM, enfrentou uma  gravíssima crise: a dos ataques do PCC em maio de 2006, quando era o  governador do Estado.</span></p>
<p><span style="color: #800000;">Então, em meio ao embate com o Primeiro Comando da Capital, Lembo disse em entrevista ao <strong>Terra Magazine</strong> viver um momento de &#8220;catarse&#8221; depois de ter sido instado &#8220;pela  burguesia&#8221; &#8211; também &#8220;hipócrita&#8221; &#8211; a valer-se do &#8220;o olho por olho&#8221; na  reação aos ataques do PCC. Ainda à época desabafou com a colunista  Mônica Bergamo:</span></p>
<p><span style="color: #800000;">&#8220;Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa&#8221;.</span></p>
<p><span style="color: #800000;">Quatro anos depois, nova eleição presidencial e o ensaio de uma crise política.</span></p>
<p><span style="color: #800000;">Erenice Guerra, chefe da Casa Civil fustigada por denúncias, assina uma  nota oficial e chama José Serra, do PSDB, de &#8220;candidato aético e já  derrotado&#8221;. Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República, evoca  o líder fascista Mussolini ao referir-se ao presidente Lula como &#8220;chefe  de uma facção&#8221;. Lula, por seu lado, prega &#8220;extirpar o DEM&#8221; e os  Bornhausen, cujo chefe, Jorge, já defendeu um dia &#8220;acabar com essa  raça&#8221;, a do PT.</span></p>
<p><span style="color: #800000;">Diante desse cenário, o <strong>Terra</strong> ouviu o ex-governador de São Paulo.  Abaixo, a conversa.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> Terra &#8211; Nas últimas horas, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso  evocou Mussolini para se referir ao presidente Lula, o ex-dirigente do  DEM, Jorge Bornhausen, aconselhou o presidente Lula a &#8220;não ingerir  bebida alcoólica antes dos comícios&#8221;, palavras dele, sendo de Bornhausen  a famosa frase sobre o PT, &#8220;vamos acabar com essa raça&#8221;. O presidente  agora devolveu falando em &#8220;extirpar o DEM&#8221;, e a chefe da Casa Civil fez  uma nota oficial chamando o candidato da oposição de &#8220;aético e já  derrotado&#8221;. Como o senhor, experimentado também em crises, vê isso? </strong><br />
<strong> Cláudio Lembo &#8211; </strong></span> <span style="color: #800000;"> É interessante porque a campanha ocorria com  normalidade. E abruptamente aconteceram situações novas. Todas, quase  todas, nasceram no ventre do próprio governo. Não foi a oposição que  criou a complexidade da Casa Civil. Portanto, o que está se vivendo  nasce também de equívocos do próprio governo.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> Terra &#8211; Como o senhor interpreta o cenário todo? </strong><br />
<strong>Lembo &#8211; </strong></span> <span style="color: #800000;"> É transitório e próprio dos momentos que se aproximam da eleição&#8230;.mas o dramático será no dia 4 de outubro.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> Terra &#8211; Por quê? </strong><br />
<strong>Lembo &#8211; </strong></span> <span style="color: #800000;"> Porque não teremos mais partidos políticos, só um  movimento social coordenado pelo hoje presidente Lula, o que é ruim para  a democracia. Ou seja, o partido que é coordenado pelo presidente da  República sobreviverá muito mais como movimento social do que como  partido, porque ele não é orgânico.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> Terra &#8211; E a oposição? </strong></span> <span style="color: #800000;"><br />
<strong>Lembo &#8211; </strong></span> <span style="color: #800000;"> A oposição terá um resultado mau, muito ruim no pleito, e  sai sem voz, sem maior possibilidade de apontar os erros do governo, de  ser e fazer oposição. Também por erros da própria oposição.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> Terra &#8211; E o papel da mídia? Qual é, qual deveria ser? </strong></span> <span style="color: #800000;"><br />
<strong>Lembo &#8211; </strong></span> <span style="color: #800000;"> A mídia se engajou, a mídia tem um candidato&#8230;</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> Terra &#8211; Qual candidato? </strong><br />
<strong>Lembo &#8211; </strong></span> <span style="color: #800000;"> O candidato do PSDB, o Serra&#8230;</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> Terra &#8211; E qual a consequência disso? Isso esquenta a conversa de botequim das últimas horas, isso&#8230;? </strong><br />
<strong>Lembo &#8211; </strong></span> <span style="color: #800000;"> &#8230; A mída está engajada, tem um candidato que é o Serra  e com isso se perdeu o equilíbrio, vem o desequilíbrio, é desse embate  que nasce a intranquilidade&#8230; mas ela é transitória. Havendo só um  grande vencedor no pleito, que é o movimento social, e estando a mídia  engajada como que está&#8230; disso nasce essa intranquilidade.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> Terra &#8211; Quando se chega a termos como &#8220;Mussolini&#8221;, &#8220;candidato aético já derrotado&#8221; e &#8220;bêbado&#8230;&#8221; </strong><br />
<strong>Lembo &#8211; </strong></span> <span style="color: #800000;"> Isso está fora dos preceitos democráticos e muito além do tom&#8230;</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Ao cretino fundamental, nem água</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2010/07/03/ao-cretino-fundamental-nem-agua/</link>
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		<pubDate>Sun, 04 Jul 2010 01:00:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Futebol]]></category>
		<category><![CDATA[gênio]]></category>
		<category><![CDATA[genialidade]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Nélson Rodrigues]]></category>

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		<description><![CDATA[Encontrei essa antiga entrevista com Nélson Rodrigues no Observatório da Imprensa. Pode-se encontrá-la, também, no blog de Geneton Moraes.
Lá vai:



Por Geneton Moraes Neto em 1/7/2010
 Reproduzido do blog do autor, publicado  originalmente em 9/3/2004; entrevista feita em 1/5/1978





As incríveis cenas dos bastidores de um encontro com Nélson  Rodrigues, maior dramaturgo brasileiro, pernambucano exilado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Encontrei essa antiga entrevista com Nélson Rodrigues no <a href="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=596AZL005" target="_blank">Observatório da Imprensa</a>. Pode-se encontrá-la, também, no blog de <a href="http://www.geneton.com.br/" target="_blank">Geneton Moraes</a>.</p>
<p>Lá vai:</p>
<table border="0" cellspacing="0" cellpadding="0">
<tbody>
<tr>
<td width="475" valign="top"><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Por Geneton Moraes Neto em 1/7/2010</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;"> Reproduzido do <a onclick="NovaJanela(this.href);return false;" href="http://www.geneton.com.br/">blog do autor</a>, publicado  originalmente em 9/3/2004; entrevista feita em 1/5/1978</span></span></td>
</tr>
<tr>
<td colspan="2"><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;"><img src="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/images/transp.gif" alt="" width="5" height="15" /></span></span></td>
</tr>
<tr>
<td colspan="2"><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">As incríveis cenas dos bastidores de um encontro com Nélson  Rodrigues, maior dramaturgo brasileiro, pernambucano exilado no Rio,  estilista número um da crônica esportiva</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Meu primeiro, único e último encontro com o gênio Nélson Rodrigues  (1912-1980) começou com uma dúvida devastadora: por que diabos ele teria  marcado nossa entrevista justamente para a hora de um jogo da seleção  brasileira? Não é possível, deve ter havido algum engano – eu pensava  com meus botões, enquanto caminhava pelas calçadas do Leme, na  beira-mar, no Rio de Janeiro, em direção ao apartamento do homem.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Se Nélson Rodrigues escrevia aquelas crônicas geniais sobre futebol  no jornal O Globo, é óbvio que ele não iria dar uma entrevista a  um forasteiro pernambucano no exato momento em que a seleção brasileira  entrava em campo, no Maracanã, com transmissão ao vivo pela TV. Se  desse, como é que ele iria escrever sobre o jogo no jornal do dia  seguinte? Não, deve ter havido um grande equívoco. É melhor que eu  desista. Nélson não iria dar entrevista alguma num momento tão  inoportuno. Ou iria?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;"></span><span style="font-size: medium;">Mergulhado num poço de constrangimento, aperto a campainha. A  entrevista tinha sido marcada por telefone. Uma mulher abre a porta. Ao  fundo, vejo a imagem de Nélson Rodrigues esparramado numa poltrona. Os  pés estão fora dos sapatos. Não faz frio, mas ele veste um suéter sobre a  camisa de mangas curtas. Pende na parede da sala uma foto emoldurada de  Nélson Rodrigues em companhia de Sônia Braga e de Neville de Almeida –  atriz e diretor da versão cinematográfica de A Dama do Lotação.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Quando a mulher avisa em voz alta que&#8221;o repórter de Pernambuco&#8221;  estava na porta da sala, Nélson ergue os braços, agita as mãos, saúda o  ilustre desconhecido com uma exclamação calorosa, como se reencontrasse  um amigo de infância:&#8221;Conterrâneo! Conterrâneo!&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">O cumprimento efusivo não afasta o temor de que Nélson tenha cometido  um pequeno equívoco: ao marcar a entrevista para aquele horário, ele  bem que pode ter se esquecido de que a seleção brasileira iria entrar em  campo dentro de instantes. A hipótese pode parecer absurda, mas quem  sou eu para menosprezar as possíveis excentricidades de nosso herói?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Tento uma solução alternativa para escapar de um vexame: digo que  posso voltar depois para gravar a entrevista; não quero importuná-lo na  hora do jogo. Teatral, Nélson Rodrigues repousa a mão direita sobre o  peito, como se sugerisse uma pontada no coração. Olha para a televisão,  pede à mulher: &#8220;Tirem o som desse aparelho! Tirem o som desse aparelho! O  Brasil me faz mal! O Fluminense me faz mal!&#8221;. A mulher e a irmã de  Nélson riem da cena teatral. Hiperbólico, épico, exagerado, o homem é  uma fábrica de tiradas dramáticas. Desconfio de que acabo de me  transformar em solitário e privilegiadíssimo espectador de um espetáculo  teatral chamado Nélson Falcão Rodrigues, encenado pelo próprio autor.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">A ordem de Nélson – &#8220;tirem o som desse aparelho!&#8221; – é imediatamente  atendida. O aparelho de TV fica mudo. A seleção entra em campo: Leão;  Toninho, Oscar, Amaral e Edinho; Batista, Toninho Cerezo e Rivelino; Zé  Sérgio, Nunes e Zico. Assim, este forasteiro se vê de repente na  condição de coadjuvante de uma cena surrealista: diante de uma TV sem  som que transmitia o jogo da seleção brasileira contra o Peru, o autor  das mais brilhantes crônicas já escritas sobre o futebol brasileiro  simplesmente tira os olhos do vídeo para responder ao interrogatório de  um visitante que chegou em hora inconveniente, munido de um gravador e  um bloco de anotações. Improvisado como fotógrafo, o também pernambucano  Wilson Urquisa vai flagrando, com uma velha Olympus, as poses teatrais  de Nélson Rodrigues.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Complexidade shakespeariana</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Se houvesse justiça nesta República, uma lei deveria determinar que,  depois de Nélson Rodrigues, ninguém deveria escrever sobre futebol no  Brasil. Porque é extremamente improvável que um candidato a sucessor  consiga igualar o brilho do texto deste pernambucano que passou quase  toda a vida exilado no Rio de Janeiro.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">A coleção de pérolas rodrigueanas daria para encher uma enciclopédia.  Ruy Castro organizou, para a Editora Companhia das Letras, um volume  que reúne, sob o título de Flor de Obsessão, as &#8220;mil melhores  frases&#8221; do homem. Se quisesse, reuniria três mil, como estas vinte:</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;O brasileiro é um feriado&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;O Brasil é um elefante  geográfico. Falta-lhe, porém, um rajá, isto é, um líder que o monte&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;Sou a maior velhice da  América Latina. Já me confessei uma múmia, com todos os achaques das  múmias&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;Toda oração é linda. Duas  mãos postas são sempre tocantes, ainda que rezem pelo vampiro de  Dusseldorf&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;O grande acontecimento do  século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota&#8221;</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;Na vida, o importante é  fracassar&#8221;</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;A Europa é uma burrice  aparelhada de museus&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;Hoje, a reportagem de polícia  está mais árida do que uma paisagem lunar. O repórter mente pouco,  mente cada vez menos&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;Daqui a duzentos anos, os  historiadores vão chamar este final de século de&#8221;a mais cínica das  épocas&#8221;. O cinismo escorre por toda parte, como a água das paredes  infiltradas&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;Sexo é para operário&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;O socialismo ficará como um  pesadelo humorístico da História&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;A pior forma de solidão é a  companhia de um paulista&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;Suddesenvolvimento não se  improvisa. É obra de séculos&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;As grandes convivências estão  a um milímetro do tédio&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;Todo tímido é candidato a um  crime sexual&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;Todas as vaias são boas,  inclusive as más&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;O presidente que deixa o  poder passa a ser, automaticamente, um chato&#8221;</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;Não gosto de minha voz. Eu a  tenho sob protesto. Há, entre mim e minha voz, uma incompatibilidade  irreversível&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;Sou um suburbano. Acho que a  vida é mais profunda depois da praça Saenz Peña. O único lugar onde  ainda há o suicídio por amor, onde ainda se morre e se mata por amor, é  na Zona Norte&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">** &#8220;O adulto não existe. O homem é  um menino perene&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Fui testemunha ocular de uma verdade inapelável: Nélson Rodrigues era  um cronista tão perfeito que nem precisava ver o jogo. O resultado da  partida, as escaramuças dos jogadores, os esquemas táticos, todas essas  bobagens não passavam de detalhes secundários aos olhos do gênio. A  Nélson Rodrigues, importava a escalação do adjetivo certo na frase  certa. Pouco interessava a distribuição de beques ou atacantes no  retângulo verde. O relato dessas banalidades é tarefa que cabe aos  &#8220;idiotas da objetividade&#8221; – estes pobres seres que só são capazes de  enxergar a rala superfície dos fatos.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">A missão que Nélson Rodrigues outorgou a si mesmo era outra: traduzir  em palavras a dimensão épica da maior paixão brasileira – o futebol.  Para que, então, perder tempo com miudezas? Para que ouvir o narrador  descrever o jogo na TV? Para que saber os nomes dos jogadores do Peru?  Para que saber se o meio-de-campo do Brasil estava ou não estava  inspirado?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">– Em futebol , o pior cego é o que só vê a bola. A mais sórdida  pelada é de uma complexidade shakespeariana. Às vezes, num córner bem ou  mal batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural&#8221;, ele escreveu  uma vez.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Viva voz</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Nélson Rodrigues preferia se ocupar de questões metafísicas – como,  por exemplo, a inapetência de nossos escritores brasileiros em tratar do  futebol. Numa de suas tiradas clássicas, reclamou:</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">– Nossa literatura ignora o futebol – e repito: nossos escritores não  sabem cobrar um reles lateral.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">A frase é erradamente citada nove a cada dez vezes em que aparece em  textos publicados em nossos jornais. Virou lugar-comum dizer que Nélson  Rodrigues reclamava de que nossos escritores não sabem nem bater um  escanteio. É uma inexatidão. A implicância de Nélson era com literatos  incapazes de cobrar um lateral. Mas, a bem da verdade, os que deturpam a  queixa de Nélson não estão inteiramente errados: não apareceu ainda um  escritor brasileiro capaz de bater um escanteio ou um lateral&#8230;</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Alheio a esta fraqueza nacional, Nélson parece distante da disputa  que se desenrola, ali, diante de nós, no vídeo da TV, entre a seleção  brasileira e o escrete peruano. Faz ao repórter uma pergunta  incrível:&#8221;Quem é o nosso adversário hoje?&#8221;. Informo que é o Peru.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Fique registrado para a posteridade que o maior cronista do futebol  brasileiro não precisava necessariamente saber quem era nosso  adversário.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Quando Zico faz um a zero, aos trinta e quatro minutos do primeiro  tempo, Nélson interrompe a entrevista para inaugurar, aos brados, uma  nova expressão exclamativa:</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">– Que coisa beleza! Que coisa beleza!</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Depois, pede à família: &#8220;Pessoal, com licença dos nossos visitantes,  vamos fechar essa máquina porque já estou começando a ficar nervoso&#8221;.  Aos não iniciados nas sutilezas do dialeto rodrigueano, esclareça-se que  &#8220;fechar a máquina&#8221; significa desligar a televisão – o que, aliás, não  foi feito. Nélson dispara, então, um julgamento entusiasmado sobre o  escrete dirigido por Cláudio Coutinho:</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">– Mas esses rapazes são uns gênios! Uns gênios!</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">O repórter seria novamente surpreendido. Nélson já perguntara quem  era &#8220;nosso adversário&#8221;. Agora, ao ver o replay do gol  recém-marcado, toma um susto: &#8220;Mas já houve dois gols?&#8221;. Digo a ele que  não: é apenas a repetição do primeiro gol. O placar é um a zero. O gênio  da raça concorda com um &#8220;ah, sim!&#8221;. Teria dois outros motivos para  vibrar: o mineiro Reinaldo – que entraria no lugar de Nunes – faria dois  gols, aos 20 e aos 40 minutos do segundo tempo, para fechar o placar:  Brasil 3 x O Peru.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">(Corro à banca no dia seguinte para comprar o jornal. O que diabos  Nélson Rodrigues teria escrito sobre o jogo que eu não o deixara ver?  Eis:</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">– Vejam vocês como o futebol é estranho – às vezes maligno e feroz.  Mas não quero ter fantasias esplêndidas. O jogo Brasil x Peru, ontem, no  Mário Filho, não assustou a gente. Diz o nosso João Saldanha:&#8221;O Brasil  fez seu jogo, jogo brasileiro&#8221;. Vocês entendem? Não há mistério. O  brasileiro é assim. Quando um de nós se esquece da própria identidade,  ganha de qualquer um. Outra coisa formidável: na semana passada, um  craque nosso veio me dizer:&#8221;Nélson, é preciso que você não se esqueça:  ao cretino fundamental, nem água&#8221;. O jogo foi lindo&#8221;.)</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Penso com meus botões que Nélson não precisou esperar pelo início do  jogo para escrever a crônica. Com certeza, despachou o texto para o  jornal antes da chegada do repórter intruso. Os &#8220;idiotas da  objetividade&#8221; se encarregariam de registrar, nas páginas esportivas, o  jogo real. Porque o jogo de Nélson seria lindo de qualquer maneira. E  aos cretinos fundamentais? Aos cretinos fundamentais, nem água.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">A lista de surpresas nessa tarde no Leme não se esgotaria aí. Quando  deu por encerrada a entrevista, Nélson pergunta ao repórter: &#8220;E então,  você me achou muito reacionário?&#8221;. Não, claro que não. Em seguida, pega o  telefone, liga para a cozinha do Hotel Nacional, identifica-se e faz  uma pergunta a um maitre provavelmente atônito:</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">– Companheiro, aqui é Nélson Rodrigues. Qual é o prato do dia?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Ouve a resposta em silêncio, desliga o telefone. Recolhido ao sossego  do lar, no fim de tarde de um feriado, já parcialmente debilitado por  doenças que lhe encurtavam o fôlego, Nélson jamais se animaria a ir até o  Hotel Nacional para saborear o prato do dia. Mas fez questão de tirar a  dúvida com o maitre. Para quê?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">As cenas que Nélson Rodrigues protagonizou nesta tarde no Leme já  valiam por uma entrevista. Mas o interrogatório ainda iria começar. A  fera dispensa ao repórter um tratamento afetuoso: chama-me de &#8220;meu bem&#8221;.  Alheio ao eventual cansaço de Nélson, estico a conversa até o limite  máximo. Não quero desperdiçar a chance de ouvir de viva voz as tiradas  do cronista inigualável. A irmã do gênio é que, delicadamente,  interrompe o questionário no instante em que Nélson fez uma pausa para  engolir uns comprimidos. Ao autografar o exemplar do livro de crônicas O  Reacionário – consultado durante a entrevista – Nélson Rodrigues  oferece-me uma dedicatória dúbia: &#8220;A Geneton, amigo doce e truculento –  Nélson Falcão Rodrigues&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Diálogo improvável</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Quase um quarto de século depois (a entrevista foi gravada no dia 1  de maio de 1978) ouço novamente a fita, releio a transcrição da  entrevista. Confirmo que Nélson Rodrigues é um caso raríssimo de  escritor que falava como escrevia. Só há outro caso: Gilberto Freyre.  Transcritas, as entrevistas dos dois em certos momentos se assemelham  aos textos que escreviam, o que é uma façanha: a linguagem falada  normalmente é mais pobre que a linguagem escrita. Mas a regra –  guardadas as naturais diferenças entre o que se fala e o que se escreve –  nem sempre valia para os dois.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">A entrevista foi embalada por citações ao livro O Reacionário,  lançado por Nélson meses antes. Durante toda a entrevista, Nélson fez,  repetidas vezes, citações a histórias e personagens descritos em O  Reacionário. De vez em quando, entre uma resposta e outra, ele  mudava repentinamente de assunto; parecia afogado em divagações. Chegou a  reclamar: &#8220;Eu estou tendo lapsos lamentáveis&#8230;&#8221; Assim, frases de O  Reacionário complementam, nesta entrevista, as respostas gravadas  por Nélson Rodrigues.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Os melhores momentos do diálogo improvável entre Nélson Rodrigues – o  gênio que se intitulava &#8220;a flor da obsessão&#8221; – e o repórter intruso.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">***</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Quando foi que Nélson Rodrigues descobriu que nascera para  escrever? </span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Nélson Rodrigues – A coisa é a seguinte: escrever para  mim, muito mais do que uma decisão profissional, é um destino. Escrever é  o meu destino! Não é um caso de opção. Eu só tinha esta opção, uma vez  que nasci assim.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">O senhor se considera um escritor por vocação?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Digo que, no meu caso, eu nem precisava de vocação,  porque o negócio era o óbvio – o óbvio ululante! Eu tinha de ser  aquilo. Se você chagasse junto de mim e pedisse para eu ter outra  profissão, podia até dar dinheiro para que eu tivesse outro destino, não  seria absolutamente possível.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">O início foi com ficção ou com jornalismo?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Eu estava no quarto ano primário na Escola Prudente  de Morais. Uma dia, a professora – que mandava a gente desenhar e  colorir uma vaca de estampa, para que nós, alunos, fizéssemos em torno  da vaca toda uma história – disse: &#8220;Olhem aqui: Hoje, vocês vão ter de  escrever da próprio cabeça. Agora não é mais sobre a vaca pintada&#8221;. E  então deixou que cada um de nós fizesse o seu drama, o seu projeto  dramático.<br />
Duas histórias tiveram o primeiro lugar. A do meu  adversário era um a história de um daqueles magnatas que davam passeios.  Ele descrevia o passeio de um rajá no seu elefante favorito. E pronto. A  minha foi inteiramente diferente. Eu fiz a história de uma moça que era  uma fera. Quase uma dama do lotação. Um dia, o marido chega em casa  mais cedo e, quando empurra assim (imita o gesto de alguém forçando o  trinco de uma porta). Entra em casa, segura o amigo traidor e enfia nele  uma faca. Eu tive o primeiro lugar e empatamos. O prêmio ao rajá e ao  respectivo elefante era uma concessão ao convencional.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Isto foi a primeira vez em que eu era ficcionista. Todo o meu futuro  está aí. Era a história de uma pobre adúltera que morreu de maneira tão  melancólica. O traidor morreu também de maneira melancólica: direi, a  bem da verdade, que a minha história causou um horror deliciado. Eu era,  para todos os efeitos, um pequeno monstro.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Eu comecei com treze anos a trabalhar como jornalista profissional e  repórter: esse é o caso. Não teria jeito: eu teria de meter uma bala na  cabeça…</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Para o senhor – que é considerado um mestre nesse ofício – o  que é necessário para retratar, num texto teatral, o mundo desses  personagens suburbanos das nossas cidades?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Em primeiro lugar, o sujeito tem de ser  ficcionista. Precisa ser inteiramente sensível ao primeiro chamamento da  profissão. Não basta apenas o gosto. Não é apenas uma facilidade, mas  um destino (pronuncia em tom dramático esta palavra).</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">A inspiração é uma entidade que existe para o senhor?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – O negócio da inspiração é o seguinte: eu considero a  inspiração, ao contrário de Valèrie, que só via a máquina individual do  ficcionista. Aquilo é uma coisa que o ficcionista apura com o tempo,  desenvolve com a experiência.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Dentre as peças que escreveu, qual a que o senhor considera como  definitiva, como a obra acabada do dramaturgo Nélson Rodrigues?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – O mais importante para mim, até o momento, é o  dramaturgo. Volta e meia, me sinto muito perplexo diante de certas  manifestações que me induzem ao teatro, embora o teatro tenha um  defeito: tenho de vez em quando vontade de fazer certas experiências não  teatrais dentro da área de literatura, mas sem ter nada de dramático.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Dentre as peças já escritas, qual é a predileta?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Tenho várias prediletas. Eu diria mesmo que são  todas as prediletas. Não tenho prediletas (ri). Todas são favoritas. Já  pensei muito em querer discriminar qual a minha melhor peça, mas não  sei.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Que autores brasileiros de hoje o senhor considera como verdadeiros  artistas do teatro?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Vou pular esta, porque tenho autores que são  inimigos meus. Pior do que o inimigo é o amigo. Um autor que é um amigo  tem todos os defeitos&#8230;</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">O senhor diz sempre que &#8220;a admiração corrompe&#8221;. É o caso?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – É isso, é o caso. A admiração corrompe. O amigo que  é o nosso maior torcedor não é o maior coisa nenhuma, porque, ele  próprio, não consegue se prender. Então, começa a fazer insinuações e  etc…Como eu sinto, evidentemente, o nosso amigo, o inimigo, com a maior  facilidade, então eu prefiro o inimigo (ri).</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Se o senhor fosse levado a fazer uma hipotética opção entre o teatro e  o jornalismo, qual dos dois preferiria?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – O teatro! E não é um problema de qualidade  intelectual não&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">O jornalismo brasileiro continua padecendo de objetividade? – que o  senhor considera uma &#8220;doença grave&#8221;?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – O idiota da objetividade é o jornalista que tem  grande fama, todo mundo, quando fala dele, muda de flexão. Mas eu acho o  idiota da objetividade um fracasso. Isso num julgamento absoluto. O  idiota da objetividade é também um cretino fundamental.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Quais foram as causas da ocorrência desse culto à objetividade que,  no conceito do senhor, corresponde à falta de emoção?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Pois é, é esse o negócio (ri de novo). É a falta de  complexidade do sujeito que diz só a coisa certa ou aparentemente certa  e não vê que todo fato tem uma aura. A verdade é que o fato só, em si  mesmo, é uma boa droga. Olhe aí (e mostra a crônica &#8220;A desumanização da  manchete&#8221;). O Diário Carioca não pingou uma lágrima sobre o corpo  de Getúlio. Era a monstruosa e alienada objetividade. As duas coisas  pareciam não ter nenhuma conexão: o fato e a sua cobertura. Estava um  povo inteiro a se desgrenhar, a chorar lágrimas de pedra. E a  reportagem, sem entranhas, ignorava a pavorosa emoção da população.  Outro exemplo seria ainda o assassinato de Kennedy. Na velha imprensa,  as manchetes choravam com o leitor. A partir do copydesk, sumiu a  emoção de títulos e subtítulos. E que pobre cadáver foi Kennedy na  primeira página, por exemplo, do Jornal do Brasil. A manchete  humilhava a catástrofe. O mesmo e impessoal tom informativo. Estava lá o  cadáver, ainda quente. Uma bala arrancara o seu queixo forte, plástico,  vital. Nenhum espanto na manchete. Havia um abismo entre o&#8221;Jornal do  Brasil&#8221; e a cara mutilada. Pode-se falar na desumanização da manchete.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">A ausência de um ponto de exclamação numa manchete faz falta ao  leitor comum?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Faz. Eu digo o seguinte: na minha infância, havia  primeiro o&#8221;Correio da Manhã&#8221;, um jornalaço. E havia A Noite – que  vendia muito mais. E era um jornal muito mais amado pelo leitor. A  Noite era um jornal amado (acentua a voz, ergue os braços). O  sujeito comprava A Noite disposto a ler ou disposto a não ler.  Não fazia mal isto. Ler ou não ler era um detalhe insignificante. Mas o  povo gostava desse jornal. E esse antigo jornalismo permitia, por  exemplo, que você fosse fazer a cobertura de um incêndio e levasse na  mão uma casa de pássaro, uma gaiola e metesse a gaiola com um pássaro lá  num certo ponto da casa em chamas. E aí o repórter que não era idiota  da objetividade dizia que o nosso querido fotógrafo ouviu toda a  cantoria do canário. E terminava dizendo: &#8220;Morreu cantando&#8221; (a essa  altura, Nélson Rodrigues concede uma entonação teatral a esta frase). O  repórter fora cobrir um incêndio. Mas o fogo não matara ninguém. E a  mediocridade do sinistro irritara o repórter. Tratou de inventar um  passarinho: enquanto o pardieiro era lambido, o pássaro cantava,  cantava. Só parou de cantar para morrer.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">A história desse canário fez um sucesso tremendo. Um sujeito queria  uma vala especial para o canário, o nosso querido canário cantor. Era  lindo. O jornalismo de antigamente era mais ou menos assim. Hoje, a  reportagem de polícia está mais árida do que uma paisagem lunar. Lemos  jornais dominados pelos idiotas da objetividade. A geração criadora de  passarinhos parou em Castelar de Carvalho, o autor dessa reportagem  sobre o incêndio. Eis o drama: o passarinho foi substituído pela  veracidade que, como se sabe, canta muito menos. Daí porque a maioria  foge para a televisão. A novela dá de comer à nossa fome de mentira.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Que fatos ou situações brasileiras o senhor contemplaria com um ponto  de exclamação numa manchete de jornal?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – (pensativo, com olhar distante) Deixe-me ver&#8230; O  negócio é o seguinte: houve num desastre uma coisa atroz que foi uma  explosão. Morreram seiscentos sujeitos, segundo as manchetes da ocasião.  Todo mundo fazia coro&#8230; E outro caso de repórter que não era idiota da  objetividade: o sujeito foi fazer a cobertura de um desastre de trem.  Geralmente, em desastre de trem, morria gente pra burro. Agora, morre  muito menos, não sei por que.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Mas qual é o fato? Deixe-me ver&#8230; Ah, o suicídio de Getúlio Vargas  foi de uma brutalidade incrível. Uma coisa bonita é que foi uma coisa  misteriosa, aí é que não entrou objetividade nenhuma. Morreu, então o  cara passa a ser um deus. O que é que você pode fazer contra o cara? Deu  um tiro no peito, ia ser deposto. E só porque ia ser deposto ele se  mata.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Veja só: no princípio da minha infância havia o pacto de morte. Havia  sujeitos que se amavam tanto que já não suportavam mais o próprio amor.  Então, o que fazia ele? Propunha à pequena o suicídio, um pacto  suicida. Rara era a pequena que duvidava. O lindo era a vontade, o  encanto com que esse par de amorosos se matava e cumpria o seu destino.  Esse é que é o caso.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Quer dizer então que na história recente do Brasil o suicídio de  Getúlio Vargas seria o último grande fato que mereceria um ponto de  exclamação do senhor numa manchete de jornal?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Olhe: quando eu digo merecer a manchete de  jornal&#8230; (interrompe, olha para a televisão, comenta a iminência de um  gol da seleção brasileira, distrai-se, retoma a conversa de um ponto  anterior). Você compreendeu como é o caso? Antes de certo tempo aí,  achavam que era uma coisa gravíssima o sujeito se matar, era uma  covardia. E nem ele nem a menina acreditavam que isso fosse um defeito, o  defeito de se matar: alguém ter o direito de destruir o próprio amor e o  amor do outro. Mas os dois se destruíram. O sujeito achava que era uma  maneira de coroar o próprio amor.<br />
Agora, a nossa realidade está  realmente muito pobre, muito vazia, sem um certo apelo dramático.  Ninguém hoje quer morrer, ninguém quer se suicidar!. Ali o sujeito só  queria destruir o amor. E aí a sogra ia cuspir na morte do sujeito que  lhe matara a filha.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">O senhor lê a chamada imprensa alternativa?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Alternativa o quê?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">A imprensa alternativa, esses novos jornais que têm surgido, o senhor  lê?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Eu leio de vez em quando mas não faço questão,  porque jornal é uma coisa inquietante. O jornal não é o jornal do dia, é  o jornal da véspera. Há anos não leio um jornal que não seja  rigorosamente o jornal da véspera. Só sai o jornal da véspera e nunca o  jornal do próprio dia. São fatos da véspera , figuras da véspera. O fato  do dia não existe e ou só existe para rádio e as TVs. No passado, a  notícia e o fato eram simultâneos. O atropelado acabava de estrebuchar  na página do jornal. E assim o marido que matava a mulher e a mulher que  matava o marido. Tudo tinha a tensão, a magia, o dramatismo da própria  vida. Mas, como hoje só há jornal da véspera, cria-se uma distância  entre nós e a notícia, entre nós e o fato, entre nós e a calamidade  pública ou privada. Servem-nos a informação envelhecida. Nós,  jornalistas, é que estamos mais obsoletos, mais fora de moda do que  charleston, do que o tango.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Não há nenhum fato do dia&#8230;</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Pelo menos a gente tem essa impressão. O que nós  chamávamos antigamente de furo não existe mais. Todos hoje acham que  podem viver sem o furo, ao passo que, no meu tempo, quando eu era  garoto, um furo de reportagem era tudo. Era o grande momento da  carreira.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Agora, para falar de manchete, outro fato formidável foi o seguinte:  antigamente, o Largo do São Francisco era o local próprio para o sujeito  se manifestar. E quando havia muitos interessados em se manifestar,  havia o diabo, o diabo! Um dia, fizeram uma coisa qualquer com o chefe  de polícia. E o chefe de polícia – que era um santo – assinou uma  portaria proibindo os estudantes não sei de quê nem ninguém sabe. Tudo  que houve foi por conta da falta de bossa, da falta de inteligência dos  nossos queridos estudantes. E então os estudantes resolveram fazer um  &#8220;enterro&#8221; do chefe de polícia – que era um velho general, sujeito que  acreditava em honra, num tempo em que ninguém sabia o que era honra. O  general era um santo homem e então achou que aquilo era brincadeira de  estudante. E lá foi ele dizendo aos queridos investigadores que não  queria machucar ninguém. Nada de bala, nada de punhal, dizia o nosso  general. E no dia do &#8220;enterro&#8221;, os estudantes carregavam o caixão, todos  levando uma vela acesa. Era uma coisa só, com mil vozes cantando a  marcha fúnebre, dando vivas à morte. Dois ou três homens de polícia,  furiosos com a questão, simplesmente acharam de matar três estudantes.  Aí foi aquela coisa tremenda. Houve então uma manchete, a manchete  mortal da imprensa brasileira. Um jornal descobriu uma manchete  fantástica (muda a flexão de voz, entusiasmado). A manchete quase  derruba a presidência da República, a vice-presidência, o chefe de  polícia imediatamente se demitiu, foi embora, não quis mais nada,  achando-se culpado. Inventaram uma manchete que até hoje eu gosto de  ouvir&#8230;</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Qual foi?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Era assim: &#8220;Primavera de Sangue&#8221; (pronuncia cada  uma das sílabas devagar, como se saboreasse as palavras). A manchete  quase derruba o presidente da República, o ministro da Guerra, um  negócio terrível. E tudo isso pela beleza que se atribui à manchete.  Quero dizer que, se você quiser, com uma frase bem trabalhada, você  resolve o caso.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">De quando foi essa manchete?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Eu era garoto, tenho agora sessenta e cinco anos. E  foi na altura dos meus dez anos. Agora, eu sei disso tudo pelas  informações do pessoal. O cara que fez esta manchete ganhou uma fortuna,  quinhentos mil réis. Só o Rockfeller tinha esse dinheiro na ocasião  (ri).</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">O senhor se interessa por política partidária?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Eu não sou ninguém para dizer certas coisas, mas o  bom no brasileiro é que ele, sem saber de nada, diz coisas horrendas.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Quais são os políticos brasileiros que o fascinaram ou fascinam hoje?  Existe algum nome que o senhor queira citar?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – (Pausa de alguns minutos, ele está pensando) Num  desses momentos, quem é o sujeito? Já começo a ficar amargurado, porque  para achar um sujeito, poder dizer um político interessante&#8230; Eu acho  que só Napoleão Bonaparte! (ri).</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">O senhor já disse que um dos traços do caráter nacional é o fato de  que o brasileiro adere a qualquer passeata. Quais seriam os principais  traços do nosso caráter nacional?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – O brasileiro é um tipo gozadíssimo. O diabo é que o  brasileiro não pode se esforçar muito porque, senão, cai na chanchada  trágica. O brasileiro é um sujeito que gosta de fazer farra, é um desses  que, em pleno velório, põe a mão na viúva. E a viúva é também um caso  sério porque este negócio de viúva vocacional é um fato. Há realmente um  repertório sensacional de casos. O que atrapalha o brasileiro é o  próprio brasileiro. Que Brasil formidável seria o Brasil se o brasileiro  gostasse do brasileiro. Houve um tempo em que nem o Departamento de  Pesquisa do Jornal do Brasil sabia quem era o brasileiro. Mas se  um sujeito se apresentava como brasileiro, as pessoas de bem respondiam:  &#8220;Não te conheço!&#8221;. E muitos duvidavam que o Pão de Açúcar ou o poente  do Leblon fossem brasileiros.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Olhe: houve tempo em que a mulher mais séria do mundo, mais digna,  mais respeitável se deixava envolver por um poeta, se abandonava por um  soneto. Era outra vida. De repente eu fico olhando: era outra vida,  outro homem. E havia a figura do bêbado. Hoje, o bêbado é um sujeito que  a psicanálise cura depois de quinze anos de tratamento, quando, aliás, a  cura já não adianta mais nada. Eu tinha um tio que se enamorou da minha  tia Yayá. E se você perguntar &#8220;Qual foi o maior homem que você viu no  mundo?&#8221;, eu acho que esse tio está no segundo ou terceiro lugar, porque o  desgraçado, ele amava a minha tia Yayá. Ele já não precisava mais beber  para estar bêbado, de alto a baixo. E, com isso, fazia uma considerável  economia de dinheiro&#8230; Em minha família houve um bêbado indubitável,  foi este meu tio Chico. Como sujeito que bebe muito, ele durou pra  burro. Morreu com oitenta e tantos anos, sempre bêbado, rigorosamente.  Vem desse tio antigo o meu horror ao bêbado. Mas ele me ensinou também  uma série de coisas lindas. Por exemplo: o amor. Meu tio Chico me  ensinou a amar. Embriagou-se em cada minuto da lua-de-mel. Bebeu antes,  durante e depois. Yayá costurava para o casal não morrer de fome. Mas  eu, menino, queria amar e ser amado como esse alcoólatra enlouquecido.  Era um amor que hoje não existiria. A minha tia Yayá deu graças a Deus  que ele tivesse se apagado. Agora ninguém ama mais, eis o que comecei a  descobrir desde os treze anos de batalha. Você ponha aí: o meu tio Chico  e sua bem amada Yayá. Era um negócio impressionante.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Por que é que o senhor diz, desse jeito, que hoje ninguém ama mais?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Meu bem, se a evidência objetiva e espetacular vale  alguma coisa, o homem não ama mais. E não ama mais porque o nosso  cenário se povoa de sujeitos que são débeis mentais absolutos. O sujeito  já não acredita em amor, pra começo de conversa. Não acredita em amor. O  sujeito acha que todo mundo é a mesma coisa, e apesar disto, se diz  marxista. É uma coisa esterilizante que há na vida brasileira, sobretudo  carioca. O carioca é esse sujeito fascinante só na base dos defeitos  que tem. Arranja logo casamento e é uma besta. E todo mundo diz: &#8220;Oh,  que coisa, que amor!&#8221;.<br />
E eu me lembro de uma menina grã-fina  mesmo&#8230; Aliás, diga-se de passagem que eu não acredito na existência da  grã-fina nem do grã-fino. Dou-lhes este nome. Mas é incrível esse  negócio da mulher moderna (fala com a voz arrastada, como se entoasse um  lamento). Nunca ela foi tão infeliz e tão pouco feminina. Eu tive um  cachorro, o nosso querido Boogie-Woogie, que ficava diante da minha casa  amando sua querida cachorra. Ela ficava lá, digníssima, empinada,  recebendo as homenagens. Os carros passavam e achavam o cachorro louco. E  esse nosso amigo, o cachorro, era muito mais humano que a mulher dos  nossos tempos. Elas se meteram a bestas.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">O brasileiro continua sendo um &#8220;Narciso às avessas que cospe na  própria imagem&#8221;, como o senhor dizia?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Continua, continua!</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Qual é o remédio para isso?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – O remédio para isso? Nunca. Para isso não há  remédio. Veja que o Brasil ganhou três vezes o campeonato mundial. Se  ganhou três vezes, e se o brasileiro não fosse o otário que é, estava  tudo salvo, tudo salvo. Ganhou três vezes no futebol, feito como esse  ninguém teve e não se conhece isso.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">O brasileiro tem virtudes. É bom fazer uma ressalva nesses defeitos  que digo. Isso o torna extremamente simpático. Aquela volubilidade&#8230; O  sujeito ora ama aqui, ora ama ali&#8230; Vai lá pra chegada do trem  elétrico, vai arranjando os seus amores que, aliás, duram geralmente  vinte e um dias, quando duram. Há pessoas que casam e lá na sacristia  estão os convidados fazendo apostas sobre a duração daquele casamento. E  você pode ficar sossegado porque aquele casamento está inteiramente  liquidado antes do começo. Há amores, entendeu, que o sujeito traz  consigo e realmente são sinceros. Mas evidentemente, não existe este  amor, porque o nosso querido Brasil&#8230;</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Olhe: em 1958, quando o nosso querido Brasil voltou campeão da Copa,  foi o maior futebol que jamais se viu&#8230;</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Diga-se de passagem que eu considero o brasileiro o maior sujeito do  mundo. O europeu já está esgotado. O europeu tem na casa dele pires de  mil anos. Escadas de mil anos. Tudo é velho pra burro. Já com o  brasileiro é inteiramente diferente. É como se ele estivesse sempre há  quinze minutos do fato. Um negócio genial.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">(Nélson tinha mudado de assunto; volta ao futebol) Basta o sujeito  passar quinze minutos assistindo a um jogo importante desses camaradas.  Esses rapazes são uns gênios. Mas o sujeito pensa que isso não é  importante e sai, nem liga. Mas quando o negócio vai se transmitir em  forma de gorjeta, aí então o brasileiro é um feroz&#8230;</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">O senhor diz também que a paisagem dos países desenvolvidos é triste  sem imaginação&#8230;</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – É. Como se não bastasse a padronização de caras,  corpos, costumes, usos, idéias, valores, há também a estandardização da  paisagem. Tudo prodigiosamente igual. É trágica a falta de imaginação da  paisagem no país desenvolvido. O desenvolvimento é burro, ao passo que o  subdesenvolvimento pode tentar um livre, desesperado, exclusivo projeto  de vida.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">O diabo é que o Burle Marx, no Brasil, faz o que nem o europeu faria  lá. O nosso Burle Marx retira a flor da paisagem. Dizem que o Amazonas é  a coisa mais gigantesca do mundo. O nosso Burle Marx só usa uma cor, a  verde, e danem-se as outras cores. Fiz esta anotação e ele me disse numa  entrevista dele que o teatrólogo Nélson Rodrigues, com certeza, não  estava olhando para a paisagem, não viu outra cor, se não a verde. Fui  espiar lá e, realmente, o único paisagista do Aterro do Flamengo é o  Exército, porque acrescentou, ao Monumento dos Pracinhas, algumas  flores, umas dezessete flores. O paisagista foi o ministro da Guerra. O  nosso querido Burle Marx, a quem muito admiro, não pôs flores no Aterro,  e com a maior tranqüilidade do mundo. Não precisa prestar atenção&#8230; O  negócio das cores&#8230; (Nesta altura da conversa, ele ri e confessa: &#8220;Eu  estou tendo lapsos lamentáveis&#8230;&#8221;).</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Você sabe o que é o sujeito fazer uma bobagem e negar a verdade? Se  ele aceitar o erro, está bem. Agora, quando o sujeito fica impune&#8230; A  impunidade faz de um São Francisco de Assis um canalha. Ele comete um  ato e ninguém o prende, ninguém o ameaça, sequer.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">É este o caso de Burle Marx. Como ele está faturando cada vez mais,  não liga por ter feito um jardim onde só existe uma cor e onde não tem  uma violeta. Ele está cada vez faturando mais, e mais fiel aos seus  erros, porque descobriu que o erro está muito mais perto do êxito. Já  falei pra burro, agora você está satisfeito, não é? E vai querer  continuar…</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Agora, uma explicação para as causas do rancor e da ironia feroz que o  senhor cultiva diante de seus personagens, como por exemplo, &#8220;as  verdadeiras grã-finas&#8221;…</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – O que eu acho é que a gente diz &#8220;grã-finas&#8221; sem  achar que elas tenham obrigação de agir como grã-finas. E elas não agem  como deviam ser. Maria Antonieta podia dizer: &#8220;Ah, eu sou grã-fina&#8230;&#8221;.  Por isso, certa vez, o povo estava urrando de fome de fora do palácio e  ela disse: &#8220;Se não tem pão, comam brioche&#8221;. Então, a Maria Antonieta é  que poderia bradar: &#8220;E, portanto, eu posso dizer que sou grã-fina&#8221;. Ela  derrubou um erro, derrubou um regime horrendo. A única grã-fina do mundo  é a Maria Antonieta. De então para cá nunca mais vi uma grã-fina. E  muito menos uma grã-fina paulista que é gorducha, porque tem dinheiro à  beça para comer. E come. Mas não existe. A nossa querida grã-fina  precisa de dinheiro. Como precisa de dinheiro, e está furiosa porque não  tem, então assume diversas atitudes, como, por exemplo, dizer numa  mesa: &#8220;Na minha casa, só as criadas vêem televisão&#8221;. As grã-finas não  existem. A única descoberta que eu fiz com as grã-finas foi esta: elas  não existem. &#8220;</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">E as &#8220;estagiárias de calcanhar sujo&#8221;?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Já as estagiárias têm uma existência feroz&#8230; (ri,  acentua o tom de voz). Sobre nossa querida estagiária, eu vou te dizer o  seguinte: é incrível. Meninas que não serviriam para babá nem poderiam  entrar num cinema para ver filme francês ou meu próprio filme, a A  Dama do Lotação, fazem atitudes que os bocós consideram geniais.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">O que assombra na estagiária não é a sua graça pessoal, mais  discutível, menos discutível, segundo cada caso. O que me assombra são  as suas perguntas e repito: são as perguntas que tornam a estagiária um  ser tão misterioso e absurdo como certas imagens de aquário. Uma dessas  meninas irreais de redação é bem capaz de atropelar um presidente, um  rajá, um gangster ou um santo ou, simplesmente, uma dessas velhas  internacionais que embarcam em todos os aeroportos. E perguntar: &#8220;Que me  diz o senhor, ou a senhora, de Jesus Cristo do Nada Absoluto, do Todo  Universal ou da pílula?&#8221;</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Você veja: uma delas foi incumbida de entrevistar um milionário.  Ligou para a casa do milionário, disse: &#8220;Eu queria falar com o Dr.  Fulano&#8221;. Do outro lado, uma voz responde: &#8220;Dr. Fulano não está passando  bem&#8221;. E a menina insiste: &#8220;Então, pergunta a ele se…&#8221;. Desligam e a  estagiária disca novamente, não com o dedo, mas com o lápis: &#8220;Eu queria  falar com o Dr. Fulano&#8221;. A pessoa diz, desatinada: &#8220;Minha senhora, o Dr.  Fulano acaba de ter um enfarte. Enfarte, minha senhora, enfarte. A  senhora quer que eu diga mais do que estou dizendo?&#8221;. E a estagiária:  &#8220;Vai lá e pergunta a ele o que é que ele acha da pílula. Eu espero&#8221;.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">A família do enfartado toda se descabelando&#8230; o que, aliás, é raro,  porque, no nosso tempo, a família chora muito pouco. O inimigo da morte –  que é o clínico – dá logo um furioso calmante.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">A estagiária então liga novamente. Dá sinal de ocupado. Continuou,  com uma obstinação fatalista. E sempre ocupado. Uma hora depois,  atendem. Era uma mulher que ou estava gripada ou chorando. A estagiária  diz: &#8220;Por obséquio, eu queria falar com o Dr. Fulano&#8221;. Responde a voz  feminina: &#8220;O Dr. Fulano acaba de falecer&#8221;. E a estagiária: &#8220;A senhora  diz a ele que é só uma perguntinha&#8221;&#8230; e etc.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Agora, há um dado que me parece essencial. As entrevistas das  estagiárias têm uma virtude rara: nunca saem. Falo por experiência  própria. Quase todos os dias, uma estagiária me caça pelo telefone. E eu  falo sobre todos os temas e personalidades. Opinei sobre os Kennedy,  João XXIII, o Kaiser, Gandhi. No dia seguinte, abro o jornal e vejo que  não saiu uma linha. Mas uma coisa curiosa: não só as estagiárias.  Profissionais da melhor qualidade estão seguindo a mesma linha. Posso  dizer que a nossa imprensa criou o novo gênero de entrevistas que não  serão publicadas nem a tiro.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">O que é que o Recife significa para o senhor hoje?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Eu gosto do Recife pra burro. Vim de lá aos cinco  anos de idade. Fiquei lá até o ano de 1929. Você veja: me dá pena estar  pensando no Recife e nunca ir lá. Tenho, em minha memória profunda, um  apelo de pernambucano pelo Recife.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">O senhor não pensa em voltar?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – De vez em quando eu faço evocações&#8230; (Um dos  textos de O Reacionário traz lembranças da cidade.) Toda a minha  infância tem gosto de pitanga e de caju. Pitanga brava e caju de praia.  Ainda hoje, quando provo uma pitanga ou um caju contemporâneo, sou  arrebatado por um desses movimentos proustianos, por um desses processos  regressivos e fatais. E volto a 1913, ao mesmo Recife e ao mesmo  Pernambuco. Alguém me levou à praia e não sei se mordi primeiro uma  pitanga ou primeiro um caju. Só sei que a pitanga ardida ou o caju  amargoso foi a minha primeira relação com o universo. Ali eu começava a  existir.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">O senhor não volta ao Recife porque tem medo de avião?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Acho chato viajar de avião, não quero voar, a não  ser caso de vida ou morte. Tenho horror às viagens. A partir do Méier,  começo a ter saudades do Brasil.</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">Qual foi a última vez que o senhor esteve no Recife?</span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;">N.R. – Em 1929. Tenho um sadio horror de avião.</span></span></td>
</tr>
<tr>
<td colspan="2"><span style="color: #800000;"><span style="font-size: medium;"><img src="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/images/transp.gif" alt="" width="5" height="8" /></span></span></td>
</tr>
</tbody>
</table>
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		<title>Andrew Jennings e a Fifa</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Jun 2010 10:07:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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		<description><![CDATA[Entrevista bem interessante. Para quem acompanha o futebol, só corrobora o que sente nossas narinas: a FIFA fede e as confederações, em particular, a CBF, cheiram mal. Pesquei no blog de Juca Kfouri.
Lá vai:
Divulgação
O jornalista inglês Andrew Jennings relata em livro casos de  corrupção dentro da Fifa
Um dos escândalos relatados por ele em 2006, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Entrevista bem interessante. Para quem acompanha o futebol, só corrobora o que sente nossas narinas: a FIFA fede e as confederações, em particular, a CBF, cheiram mal. Pesquei no blog de Juca Kfouri.</p>
<p>Lá vai:</p>
<div><span style="color: #800000;">Divulgação</span></div>
<div><span style="color: #800000;">O jornalista inglês Andrew Jennings relata em livro casos de  corrupção dentro da Fifa</span></div>
<p><span style="color: #800000;">Um dos escândalos relatados por ele em 2006, no livro Foul! The  Secret World of Fifa (não traduzido no Brasil), teve um desfecho na  sexta-feira. Altos dirigentes da organização máxima do futebol receberam  propina, admitiu a Justiça suíça. Mas eles não serão punidos porque a  lei do país, que é sede da Fifa, permitia o “bicho” na época.</span></p>
<p><span style="color: #800000;">Os figurões pagarão apenas os custos legais e suas identidades não  serão reveladas. “É por isso que meu segundo livro sobre o tema será uma  comparação da Fifa com o crime organizado”, conta. Ele optou por  publicar a obra depois das eleições na entidade, em maio de 2011, embora  duvide que alguém vá enfrentar o dono da bola, Joseph Blatter. “Ninguém  ousa desafiar a Fifa porque eles controlam o dinheiro. E a imprensa  cala”, dispara Jennings.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>Em suas investigações sobre a Fifa, o que o senhor descobriu?<br />
</strong>A Fifa é comandada por um pequeno grupo de homens – não há  mulheres em altos postos da entidade e isso fala por si – que está lá há  muitos anos. São homens em quem não devemos confiar e contra quem temos  provas contundentes. Eles podem continuar no poder porque controlam o  dinheiro. E tornam a vida dos dirigentes das confederações nacionais  muito boa e fácil. Fico envergonhado porque ninguém se manifesta contra  esse poder.<br />
<strong>Como os dirigentes se manifestariam?<br />
</strong>Zurique, sede da Fifa, é uma Pyongyang do futebol. O líder fala  e os outros agradecem. Numa democracia é esperado que haja  discordância, oposição. Na Fifa, não há. Eles têm um congresso a que,  ironicamente, chamam de parlamento. São cerca de 600 delegados – acho  que são 2 ou 3 por país representado, e são 208 países. Se você chegasse  de Marte acharia que o mundo é perfeito, porque todos concordam. É  vergonhoso. Nisso, a CBF é tão culpada quanto todas as outras  confederações.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong><br />
Que instrumentos a Fifa usa para manter esse poder?<br />
</strong>A Fifa dá cerca de US$ 250 mil por ano para cada país investir  em futebol. Na Europa, não precisamos desse dinheiro. A indústria do  futebol fatura o suficiente para se alimentar. Mas é uma forma de a Fifa  se manter. Esse dinheiro nunca é auditado. Na Suíça, a propina  comercial não era ilegal até pouco tempo, apenas o suborno de oficiais  do governo. O caso que eu conto no meu livro é justamente sobre um  esquema de propinas pagas pela International Sport and Leisure (ISL),  empresa que negociava os direitos televisivos e de marketing da Fifa. A  história é cheia de detalhes, mas no final a ISL só foi responsabilizada  pelo fato de gerenciar mal seus negócios enquanto devia para outras  empresas.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>Não houve punição?<br />
</strong>Como eu disse, o pagamento de propina não era ilegal na Suíça.  Portanto, não havia crime a ser punido. As acusações contra a Fifa foram  retiradas e a entidade foi multada em 5,5 milhões de francos suíços  (cerca de US$ 5 milhões) para custos legais.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong><br />
Por que os governos não se envolvem ou a Justiça não faz algo?<br />
</strong>Porque a sede da Fifa é na Suíça e a lei lá é muito permissiva.  Para outros países, é inaceitável que esses homens se safem tão  facilmente e que os altos dirigentes riam da nossa cara desse jeito. O  que me deixa enojado é que os líderes dos países – o primeiro-ministro  britânico, o presidente Lula e todos os outros – façam negócio com essas  pessoas. Eles deveriam lhes negar vistos, deveriam dizer que não querem  se relacionar com dirigentes tão corruptos. E tenho certeza de que, se  os governantes se voltassem contra a corrupção da Fifa, teriam apoio  maciço dos torcedores/eleitores.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>Por que todos são tão complacentes?<br />
</strong>Suponhamos que você seja uma torcedora fanática pelo seu time.  Você vai à Copa do Mundo, mas como sempre há escassez de ingressos. Você  então compra suas entradas de cambistas, mesmo sabendo que parte desse  ágio vai voltar para o bolso da Fifa, já que ela é suspeita de liberar  esses ingressos para os ambulantes. Você não pode provar, claro, mas  você sabe. As pessoas não são estúpidas. Os governos menos ainda, eles  podem investigar o que quiserem. Mas não investigam a Fifa porque os  políticos simplesmente ignoram os torcedores. É o que já está  acontecendo com a Copa de 2014. Qualquer brasileiro com mais de 10 anos  sabe que a corrupção já está instalada. Por que ninguém faz nada?</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong><br />
Por quê?<br />
</strong>É difícil saber. Se um país relevante enfrentasse a Fifa ela  recuaria. Ou você acha ela excluiria o Brasil de uma Copa? Eles  conseguem enganar países pequenos, esquecidos pelo mundo. Mas, se o  Brasil dissesse não à corrupção, provavelmente a América Latina se  uniria a vocês. E você acha que esses líderes latino-americanos nunca  discutiram a possibilidade de um levante, de fazer o que os europeus já  deveriam ter feito há tempos? Acho que lhes falta coragem.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong><br />
O Brasil tentou fazer uma investigação, por meio de uma CPI.<br />
</strong>Tentou e foi ao mesmo tempo uma vitória para o país e uma  grande decepção, porque pararam de investigar no meio. O povo vai ter de  pressionar os políticos a fazer algo. É realmente uma pena que o Brasil  tenha chegado tão longe na investigação e tenha desistido no caminho.  Havia provas para seguir em frente, para tirar a CBF das mãos do Ricardo  Teixeira e, quem sabe, colocar auditores independentes lá dentro. A  Justiça também poderia ser mais ativa. Por mais que eles tenham comprado  alguns juízes, não compraram todos, certamente.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>Sabendo de tudo isso o senhor ainda consegue curtir o  futebol, se divertir com ele?<br />
</strong>Sim, porque a corrupção não está tão infiltrada nos jogos,  embora chegue a essa ponta também. Ela fica mais nos bastidores. Há  exceções, como na Copa de 2002, em que a Espanha e a Itália foram  roubadas grotescamente. Era importante para a Fifa que a Coreia do Sul  passasse adiante. Não foi culpa dos jogadores, mas as razões políticas e  econômicas se impuseram. Na Coreia, o beisebol é mais popular do que o  futebol. Se eles fossem desclassificados, os estádios se esvaziariam.  Neste ano, todos ficaram de olho nos jogos de times africanos. Blatter  também precisa de um time do continente nas oitavas. A questão é que,  quando assistimos às partidas, assistimos aos atletas, ao esporte,  então, é possível confiar. É fácil punir um árbitro corrupto e a maioria  não é corrompida.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong><br />
Então, a corrupção não interfere tanto no esporte?<br />
</strong>Cada centavo que os dirigentes tiram ilicitamente da Fifa ou  das organizações nacionais é dinheiro que eles tiram do esporte e de  investimentos. Portanto, estão desviando de nós, torcedores, e dos  atletas que jogam no chão batido em países subdesenvolvidos. Eles tiram  dos pobres.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong><br />
É possível para os jogadores, técnicos e dirigentes se manterem  distantes da corrupção no futebol?<br />
</strong>Bom, o dinheiro normalmente é tirado do orçamento do marketing,  não afeta jogadores e técnicos dos times nacionais. Uma coisa  interessante é o comitê de auditoria interna da Fifa. Um dos membros é  José Carlos Salim, que foi investigado muitas vezes no Brasil. Por que  você acha que ele está lá? Para fingir que não vê.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>A corrupção no futebol começa nos clubes e se espalha ou vem  de cima para baixo?<br />
</strong>Sempre haverá um nível de roubalheira em todas os escalões.  Para isso temos leis e, às vezes, conseguimos aplicá-las. Mas a pior  corrupção está na liderança mundial. Quase todos os países assinam  tratados internacionais anticorrupção, mas não fazem nada quanto aos  desmandos da Fifa e do COI. E, quando algum governante tenta ir atrás de  dirigentes de futebol corruptos, a Fifa ameaça suspender o país. Só que  ela faz isso com os pequenos. Fizeram isso com Antígua! Suspenderam o  país minúsculo que ousou processar o dirigente nacional. Ninguém falou  nada. Eu escrevi sobre isso porque tenho fãs lá que me avisaram do caso.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong><br />
O senhor se sente uma voz solitária na imprensa?<br />
</strong>Não confio na cobertura esportiva das agências internacionais.  Em outras áreas elas são ótimas. Não no esporte. É uma piada. Apresento  documentários com denúncias graves sobre a Fifa na BBC, num programa de  jornalismo investigativo chamado [ITALIC]Panorama[/ITALIC], e dias  depois a BBC Sport faz um programa inteiro em que Joseph Blatter  apresenta alegremente a nova sede da Fifa em Zurique.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>O senhor acompanhou a briga do técnico Dunga com a imprensa  brasileira?<br />
</strong>Não vou comentar o episódio porque não acompanhei de perto.  Posso dizer que a imprensa inglesa e a da maioria dos países é  puxa-saco. E sem razão para isso. A desculpa é que os editores têm medo  de perder o acesso às seleções e à Fifa. Bobagem. Ora, eu fui banido das  coletivas da Fifa sete anos atrás e ainda consegui escrever um livro e  fazer várias reportagens. A imprensa deve atribuir as responsabilidades  às autoridades. Se não fizer isso, é relações públicas. Tenho milhares  de documentos internos da Fifa que fontes me mandam e não param de  chegar. Por que só eu faço isso?</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>A cobertura se concentra mais no evento esportivo em si e nas  negociações de jogadores?<br />
</strong>Exato, também porque a chefia das redações tende a se  concentrar nos assuntos de política nacional, internacional e na  economia e deixar o esporte em segundo plano.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong><br />
O que o senhor espera da Copa no Brasil, em 2014?<br />
</strong>Há algumas semanas, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke,  deu um piti público cobrando o governo brasileiro para que acelerasse as  construções para a Copa. Estranhei muito, porque não imagino que o  governo brasileiro se recusaria a financiar uma Copa. Vocês são loucos  por futebol, estão desenvolvendo sua economia, têm recursos e podem  achar dinheiro para isso. Uma fonte havia me dito que Valcke e Ricardo  Teixeira tinham tirado férias juntos, estavam de bem. Então, o que está  por trás dessa gritaria? É pressão para o governo brasileiro colocar  mais dinheiro público nas mãos da CBF. Mundialmente, as empreiteiras têm  envolvimento com corrupção. Dá para sentir o cheiro daqui.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>Três de seus livros são sobre as Olimpíadas. As falcatruas  acontecem em qualquer esporte ou são predominantes no futebol?<br />
</strong>Sou cuidadoso ao falar disso. Sei que a liderança da Fifa é  muito corrupta – e venho publicando isso há mais de dez anos sem que  eles tenham me processado nem uma vez sequer, o que diz muito. O COI era  muito pior sob o comando de Juan Antonio Samaranch (morto em abril  deste ano), que presidiu a entidade de 1980 a 2001. Ele era um fascista e  o fascismo é, além de tudo, uma pirâmide de corrupção. Samaranch  trabalhou ao lado do generalíssimo Franco. Essa cultura franquista e  fascista se transformou em uma cultura gângster.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>A corrupção no COI diminuiu com a saída de Samaranch?<br />
</strong>Vou ilustrar com uma história. No meu site publiquei uma foto  de Blatter cumprimentando um mafioso russo, em 2006, em um encontro com  dirigentes do país. O russo foi quem fez o esquema em Salt Lake, na  Olimpíada de Inverno de 2002, para que os conterrâneos ganhassem o ouro  em patinação artística. Pois bem, Blatter, Havelange e muitos outros da  Fifa são parte do comitê do COI. Essa é a dica de como a Rússia está  agindo para sediar a Copa de 2018.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong><br />
Foi assim que o Brasil conseguiu a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016?<br />
</strong>Na votação em Copenhague, que deu a sede olímpica para o Rio de  Janeiro, o nível de investigação jornalística foi ridículo, só víamos a  praia de Copacabana com o povo feliz. Há um grupo no COI que já foi  denunciado por receber propina no escândalo da ISL – e quem acompanha a  entidade sabe quem eles são. Os dirigentes dos países só precisam pagar  umas seis ou sete pessoas para conseguir o voto. Existe, com certeza,  uma sobreposição entre os métodos da Fifa e do COI. Mas a cultura das  duas entidades não é tão estrita quanto à de uma máfia, é mais como se  fossem máfias associadas, apoiadas umas nas outras. Coca-Cola, redes de  fast-food, Adidas, você acha que essas companhias não sabem o que está  acontecendo? Eles não são estúpidos. A cara de pau é tamanha que Jacques  Rogue, presidente do COI, disse em Turim, em 2006, que o COI e o  McDonald’s compartilham os mesmos ideais. Será que ele não sabe quanto a  obesidade infantil é um problema gravíssimo em vários países? Ou faz  parte do jogo ceder a esses interesses?</span></p>
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		<title>Entrevista: Domenico Losurdo</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Jun 2010 10:20:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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		<description><![CDATA[Entrevista com o filósofo italiano Domenico Losurdo. Estudioso de Nietszche e Heidegger.
A meca da esquerda heideggeriana está na Itália &#8212; heideggeriana?! Sim, a  História, decididamente, é irônica e sacana com a coerência lógica,  filosófica e ideológica. Engels, inclusive, chamou Nietzsche de arqui-burguês (com boa dose de razão, aliás); nesse sentido, não deixa de ser [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Entrevista com o filósofo italiano Domenico Losurdo. <a href="http://mail.uol.com.br/compose?to=josias75@hotmail.com" target="_blank"></a>Estudioso de Nietszche e Heidegger.</p>
<p>A meca da esquerda heideggeriana está na Itália &#8212; heideggeriana?! Sim, a  História, decididamente, é irônica e sacana com a coerência lógica,  filosófica e ideológica. Engels, inclusive, chamou Nietzsche de arqui-burguês (com boa dose de razão, aliás); nesse sentido, não deixa de ser curioso a reviravolta filosófica de certa esquerda (de Marx a Nietzsche e Heidegger).  Mas é purismo de minha parte, pois,  na época de Marx, Hegel era a reação, e já existiam os hegelianos de esquerda.</p>
<p>A entrevista foi realizada pelo blog <a href="http://www.rodrigovianna.com.br/vasto-mundo/washington-quer-excomungar-quem-resiste" target="_blank">Escrevinhador</a>.</p>
<p>Lá vai:</p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>por Juliana  Sada</strong></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><img src="http://www.rodrigovianna.com.br/files/Image/losurdo.jpg" alt="" align="left" />“Os Estados Unidos não se caracterizam apenas pelo seu  grande poderio militar de destruição de massa, em certo sentido eles  possuem instrumentos de estupidificação de massa. Eu não posso nada  contra as armas de destruição de massa. Contra as armas de  estupidificação, escrevi esse livro”.  A afirmação é do <strong>filósofo  italiano Domenico Losurdo, estudioso de Heiddeger, Nietszche e crítico  do pensamento liberal.  Losurdo veio ao Brasil divulgar seu  mais recente trabalho </strong>“<em>A linguagem do Império – Léxico da  ideologia americana</em>” (Boitempo Editorial).</span></p>
<p><span style="color: #800000;">Nessa obra, Losurdo estuda o  discurso dos EUA, para expor a ideologia que esta por trás desse  discurso e para fazer a análise das categorias utilizadas &#8211; apontando as  distorções e as contradições entre discurso e prática. O filósofo  estudou a origem e as diferentes utilizações de termos como  fundamentalismo, terrorismo, antiamericanismo e antissemitismo.</span></p>
<p><span style="color: #800000;">O <strong><em>Escrevinhador </em></strong>conversou  com Domenico Losurdo sobre sua obra, uso da mídia pelos EUA e o  discurso fundamentalista estadunidense. Confira a entrevista a seguir.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong><em>Escrevinhador</em></strong><em> O seu livro  tem como objeto de estudo a linguagem do império, como o senhor iniciou  este trabalho? Quais foram as fontes de pesquisa?</em></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>Domenico  Losurdo</strong> Por algum tempo eu senti a necessidade de  trabalhar com esta situação inédita na história: a superpotência, que  sozinha abrange metade do orçamento militar mundial, atua como uma espécie de  Inquisição. Os inimigos, os rebeldes são acusados de heresia e pecado  imperdoável. Em seguida vem a excomunhão para quem fizer bombas. No meu  livro, eu queria analisar o plano de categorias históricas e conceitos  em que se pronuncia a excomunhão.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong><em>Escrevinhador</em></strong><em> Os termos e  categorias analisadas pelo senhor, quando usados pelo discurso oficial  imperialista, sofrem alguma modificação de significado?</em></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>Domenico  Losurdo</strong> A manipulação pode se dar por meio de diferentes  técnicas: 1) usando categorias unilateralmente: por exemplo, os Estados  Unidos condenam o terrorismo dos outros, mas nunca os seus próprios; 2) inventando novas categorias e “pecados”: por  exemplo, enquanto se considera legítima a crítica e inclusive a  condenação de países como Irã, Cuba ou China, crítica ou condenação dos  EUA são vistas como heresia; 3) distorcendo e utilizando de maneira  terrorista certas categorias, como acontece, por exemplo, com as  denúncias em relação ao expansionismo de Israel que é classificado como  “antissemitismo”!<img src="http://www.rodrigovianna.com.br/files/Image/Being_Muslim_in_US_by_Latuff2.jpg" alt="" width="300" height="241" align="right" /></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong><em>Escrevinhador</em></strong><em> O que leva a  estas alterações?</em></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>Domenico  Losurdo</strong> Com o intuito de combater as manipulações e  distorções feitas pela “linguagem do Império”, meu livro faz  simultaneamente a reconstrução histórica e a análise conceitual desta  linguagem. Ao  fazê-lo sigo uma estratégia dupla. Uma, obviamente, é comparar as  declarações feitas em Washington com a realidade de suas políticas  domésticas e internacionais. Em segundo lugar, minha estratégia é  comparar a situação concreta na qual tais fenômenos, como terrorismo e  fundamentalismo, emergem e as diversas formas que assumem. Da mesma  forma, gostaria de saber em que circunstâncias o conflito político tende  a assumir uma coloração racial? Emerge  assim a extrema miséria intelectual e o perigo político representado  pela ideologia da classe dominante.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong><em>Escrevinhador</em></strong><em> Qual a  relação da mídia com o discurso oficial? Em geral, vemos uma mera  reprodução. Faltam meios de comunicação críticos?</em></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>Domenico  Losurdo</strong> A potência de fogo do Império não é apenas  militar, é uma potência de fogo multimídia. Considere, por exemplo, a  acusação de “antissemitismo”. Depois dos horrores de Auschwitz, esta  acusação é equivalente, no plano ideológico, à bomba atômica. Então, de acordo com as  relações de poder que existem atualmente no plano ideológico e na mídia,  Tel Aviv e Washington, mesmo com as contradições entre eles, podem  facilmente construir a acusação de &#8220;antissemitismo&#8221; contra grandes  movimentos nacionais, como Hamas e Hezbollah ou contra países como Irã e  Venezuela. Mas poucos no Ocidente prestam  atenção ao sentimento anti árabe que se difunde em Israel, onde se torna  cada vez mais forte a deportação.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong><em>Escrevinhador</em></strong><em> Quais  categorias são centrais no discurso imperialista? É possível identificar  os termos fundamentais que explicitam a ideologia?</em></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>Domenico  Losurdo</strong> Sim, hoje Washington pretende excomungar aqueles que resistem ao  império como responsáveis ou cúmplices do  “terrorismo&#8221;,&#8221;fundamentalismo&#8221;,&#8221;anti-americanismo”, pró-islamismo&#8221;,  &#8220;ódio contra o Ocidente” e “antissemitismo” (e usa-se &#8220;antissionismo&#8221;  fraudulentamente como um sinônimo de antissemitismo). São estas  categorias que utilizadas de maneira unilateral, arbitrária e  distorcida, constituem o núcleo essencial da “linguagem do Império” e do  “léxico da ideologia estadunidense”.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong><em>Escrevinhador</em></strong><em> Em seu  livro, o senhor afirma que o termo “fundamentalismo” surge entre  protestantes e de maneira autodesignatória. Como nos EUA o termo perde  este sentido original e passa a ser utilizado para designar seus  inimigos?</em></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>Domenico  Losurdo</strong> O renomado cientista político  norte-americano Huntington relatou um cálculo feito na época pelo  Departamento de Defesa dos EUA: &#8220;em quinze anos (1980-1995), os EUA  estiveram envolvidos em 17 operações militares no Oriente Médio, todas  contra países muçulmanos&#8221;. Também houve a guerra contra o Iraque e a  ameaça velada de Obama de usar a bomba nuclear contra o Irã.</span></p>
<p><span style="color: #800000;">Toda guerra  tem sua ideologia: durante a Guerra Fria, Washington lançou a cruzada  contra o &#8220;totalitarismo&#8221;, mas isso não o impediu de apoiar ou impor  ferozes ditaduras militares na América Latina e em outras partes do  mundo. Hoje contra o Islamismo crítico ou hostil ao Império, Washington  anuncia uma cruzada contra o &#8220;fundamentalismo&#8221;, casualmente esquecendo a história deste  período e persistência do fundamentalismo americano.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong><em>Escrevinhador</em></strong><em> O senhor  relata a presença de elementos religiosos influindo na política,  contrapondo a lei de Deus e a lei dos homens, tanto no ocidente quanto  no oriente. Isso transforma questões geopolíticas em questão religiosas –  como bem descreve o senador americano James Inhofe  ao dizer “esta batalha não é de modo algum política, é uma controvérsia  sobre o fato de a palavra de Deus ser verdadeira ou não”, referindo-se  ao conflito de território entre Israel e Palestina. Qual a conseqüência  dessa influência religiosa no debate político e nas negociações?</em></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>Domenico  Losurdo</strong> É claro que o  fundamentalismo torna difícil ou impossível a mediação. De fato, o  fundamentalismo funciona como uma ideologia de guerra total, como no  caso do senador americano James Inhofe, os inimigos dos EUA e de Israel  se tornam inimigos de Deus. Pelas palavras de Bush Jr, e  outros numerosos presidentes, os EUA são “a nação escolhida” para  liderar o mundo.  O Irã não fez nenhuma declaração similar.  Todos podem compreender qual fundamentalismo é mais perigoso hoje.</span></p>
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		<title>Cientista ataca Big Bang e visão “estreita” dos físicos</title>
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		<pubDate>Sat, 29 May 2010 22:00:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Gostei muito da entrevista abaixo. É isso mesmo. Diz muito do que é fazer ciência, atualmente. O sistema favorece a vaidade e a arrogância, e não a produção de conhecimento. No campo das ciências sociais, tenho ojeriza à palavra &#8220;rede&#8221;. Quando alguém vem com o papo de &#8220;fazer rede&#8221;, tenho a certeza de que é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gostei muito da entrevista abaixo. É isso mesmo. Diz muito do que é fazer ciência, atualmente. O sistema favorece a vaidade e a arrogância, e não a produção de conhecimento. No campo das ciências sociais, tenho ojeriza à palavra &#8220;rede&#8221;. Quando alguém vem com o papo de &#8220;fazer rede&#8221;, tenho a certeza de que é eufemismo para a aquisição de distinção e poder.</p>
<p>_Ah, conheci um merda lá da USP. Tenho &#8220;rede&#8221;!<br />
_Fiz um jantar e convidei o sobrenome &#8220;sicrano&#8221;.<br />
_Uau, o sobrenome &#8220;sicrano&#8221;! Você tem &#8220;rede&#8221;, hein?!<br />
_Falei com fulano, que faz parte da minha &#8220;rede&#8221;, e consegui a publicação de um artigo na revista &#8220;Tempos de Rede&#8221;.<br />
_Mas o artigo é uma bosta!<br />
_O que importa? É &#8220;rede&#8221;!</p>
<p>Distinção e poder, eis o brasão dos cientistas sociais.</p>
<p>Lá vai (logo depois dessa entrevista, está uma reportagem bem mais ampla e detalhada sobre o <span id="__end">&#8220;Núcleo de Parapsicologia da UnB, onde disco voador e  astrologia têm status de ciência&#8221;. Somente a Folha, meu Deus, para ficar nesse equilíbrio esdrúxulo entre o sério e o ridículo &#8212; o último vencendo sempre, é claro; enfim, virou um factóide)</span>:</p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> <span style="color: #800000;">Para Mário Novello, muitos viraram apenas &#8220;técnicos muito competentes&#8221;.</span></strong><span style="color: #800000;"><strong><br />
Pesquisador critica a  preocupação excessiva  com carreira e prêmios;  para ele, dados poderão  provar Universo eterno </strong></span></span></p>
<p><span style="color: #800000;"> <span style="color: #800000;">DE SÃO PAULO </span></span></p>
<p><span style="color: #800000;">Para Mário Novello, físico  do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro, a  cosmologia virou,  com frequência, &#8220;uma coisa  trivial, simplesmente saber  qual porcentagem de matéria dessa categoria ou daquela tem no Universo&#8221;.<br />
Tão preocupante quanto  isso, diz, é o esnobismo dos  cientistas com a filosofia e a  metafísica, que os impede de  refletir sobre o que fazem.  São apenas &#8220;técnicos extremamente competentes&#8221;.<br />
Novello está lançando o livro &#8220;Do Big Bang ao Universo  Eterno&#8221; (Zahar), que resume  sua defesa da ideia de que o  Big Bang não foi o começo de  tudo. Segundo ele, essa interpretação está conquistando  cada vez mais físicos. Confira  a entrevista abaixo.<br />
<strong> (RICARDO MIOTO) </strong></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>Folha &#8211; A ideia de um universo eterno está conquistando  os físicos?<br />
Mário Novello</strong> &#8211; Ninguém  tem dúvidas de que o Universo esteve muito condensado  no passado. O problema foi a  identificação daquele momento, em que começa a expansão, como o começo  de  tudo. Sou contra definir o Big  Bang como o marco zero. Isso  é contra a atitude científica.  Mas o cenário está mudando.  Entre os cientistas há uma  tendência a aceitar que chegou o momento de ir além do  Big Bang como o começo.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>Mas, quando jovem, o sr. não  era partidário do Big Bang como o começo de tudo?<br />
</strong>Eu não era. Era uma questão de princípio. A ciência é a  tentativa de explicar racionalmente tudo que existe. Eu  sabia muito bem que a ideia  de singularidade [a concentração de toda a massa do  Universo em um único ponto  que teria dado origem a tudo  que se conhece] significava  abdicar de fazer ciência ao  longo de toda a história do  Universo, significava dizer  que a ciência tinha limite. Eu  não podia aceitar isso.<br />
Na minha época, havia  uma visão global do que era  atividade humana. Havia cadeira de filosofia, de sociologia, tínhamos  contato com o  mundo. Existe uma falta de  fundamentos, hoje, do que é  fazer ciência. Você pode ser  um técnico extremamente  competente, mas fora da  área técnica pode ser um ignorante completo, sem saber  o que está por trás do que você está fazendo na sua área.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> Mas aparentemente a maioria dos físicos ainda discorda  do sr. sobre o Big Bang&#8230;<br />
</strong>Se você entrevista cem físicos, 98 dizem que o Big Bang  é verdade e dois malucos dizem que não. É razoável que  a mídia fique em dúvida. Primeiro você precisa ver quem  são essas pessoas. Eu criei a  cosmologia no Brasil, tive  mais de 50 alunos de doutorado, você precisa ver que  não sou um bobo. Mudanças  são lentas. E você sabe que os  cientistas são extremamente  reacionários.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> Ser minoria não incomoda?<br />
</strong>Quando você faz ciência,  você precisa dialogar com a  natureza, e não com os seus  colegas. Se o seu objetivo é  ganhar uma bolsa, ganhar  fama, ganhar prêmio, isso  não é ciência. Pode ser no  mundo em que a gente vive.  Estou pouco me importando  com a opinião dos outros.  Mas isso não significa isolacionismo, porque publico em  revistas científicas.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> Mas o senhor já tem uma carreira estabelecida. Um doutorando não deveria  se preocupar com os pares?<br />
</strong>Não deveria. Se ele começa  a se preocupar lá, vai se preocupar a vida toda. Hoje em  dia a cosmologia virou uma  coisa trivial, ridícula, simplesmente saber qual porcentagem de matéria  dessa  categoria ou daquela tem no  Universo. Isso não tem interesse nenhum. Quando começa a entrar nesse  estágio,  é o momento de mudar.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> É possível fazer com que os  cientistas se preocupem menos com os pares?<br />
</strong>Ainda não conseguimos  controlar a vaidade. É um sistema todo de premiação, bolsa disso, prêmio  Nobel, tudo  valoriza o indivíduo. E dá impressão de que, se você não  valoriza o indivíduo, ele não  vai fazer nada. E o prazer em  fazer as coisas? O Garrincha  dava de dez a zero em qualquer um desses caras aí de  hoje em dia. E morreu com  dez mil réis no bolso.<br />
Você vai dizer que o exemplo que eu estou dando é de  um maluco, uma pessoa totalmente pirada, uma mentalidade que nunca saiu  dos 12  anos de idade. Tudo bem, é  um exemplo extremo. Mas  mostra que algo se perdeu.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> Mas a vaidade sempre existiu, não?<br />
</strong>Sim, claro, sempre existiu.  Nem estou dizendo que o sistema, antigamente, era diferente. O que estou  querendo  dizer é que a razão pela qual  Newton fazia aquilo não tinha nada ver com a razão pela qual um bolsista  faz as coisas hoje em dia.</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> No caso do Big Bang, há expectativa de que alguma observação possa dar  mais respostas sobre a sua legitimidade como marco zero?<br />
</strong>Sim. Já foi lançado o satélite Planck. Ele, nos próximos  anos, poderá ajudar a dizer,  observacionalmente, se houve uma fase anterior ao colapso. Existe uma  possibilidade de que o Universo esteja se acelerando. Ela surgiu  de uns dez anos para cá. Isso  não bate com as previsões do  Big Bang como singularidade, como começo de tudo. Se  o Universo estiver se acelerando, então aquilo que sustentou durante  mais de 25 ou  30 anos o Big Bang acabou.</span></p>
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		<title>Entrevista com Chico</title>
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		<pubDate>Sat, 01 May 2010 01:00:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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		<description><![CDATA[Pesquei essa ótima entrevista com Chico Buarque no blog Outras Palavras:
Por Daniel Cariello e Thiago Araújo, da revista Brazuca &#124; Foto:  Jorge Bispo

“Se tiver bola, eu dou a entrevista”. Essa foi a  única exigência do nosso companheiro de pelada, Chico Buarque, numa  caminhada entre o metrô e o campo. Uma bola. E [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p lang="pt-BR">Pesquei essa ótima entrevista com Chico Buarque no blog <a href="http://www.outraspalavras.net/?p=1175" target="_blank">Outras Palavras</a>:</p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong>Por Daniel Cariello e Thiago Araújo, da revista <a href="http://ww.brazucaonline.org/" target="_blank">Brazuca</a> | Foto:  Jorge Bispo<br />
</strong></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><em>“Se tiver bola, eu dou a entrevista”. Essa foi a  única exigência do nosso companheiro de pelada, Chico Buarque, numa  caminhada entre o metrô e o campo. Uma bola. E eu acabara de informar  que o dono da redonda não viria à pelada de quarta-feira. Éramos dez  amantes do futebol, órfãos.</em></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><em>Sem saber se esse era um gol de letra dele para  fugir da solicitação de seus parceiros jornalistas, ou uma última  esperança, em forma de pressão, de não perder a religiosa partida, eu,  que não creio, olhei para o céu e pedi a Deus: uma pelota!</em></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><em>Nada de enigma, oferenda ou golpe de Estado. Ele  estava ali, o cálice sagrado da cultura brasileira, que sucumbiu ao ver  não uma, mas duas bolas chegarem à quadra pelas mãos de Mauro Cardoso,  mais conhecido como Ganso. A partir daí, nada mais alterou o meu ânimo e  o da minha dupla de ataque-entrevista, Daniel Cariello. Apesar de  termos jogado no time adversário do ilustre entrevistado, tomado duas  goleadas consecutivas de 10 x 6 e 10 x 1, tínhamos a certeza de que ele  não iria trair dois dos principais craques do Paristheama, e sua palavra  seria honrada.</em></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><em>Mas o desafio maior não era convencer o camisa 10 do  time bordeaux-mostarda parisiense a ceder duas horas de sua tarde  ensolarada de sábado. O que você perguntaria ao artista ícone da  resistência à ditadura, parceiro de Tom Jobim, Vinicius de Morais e  Caetano Veloso, escritor dos </em><em>best sellers “</em><em>Estorvo”, “</em><em>Benjamin”, </em><em>“Budapeste” e “</em><em>Leite Derramado”, autor de “</em><em>A  banda”, </em><em>“Essa moça tá diferente”, </em><em>“O que será”, </em><em>“Construção”  e da canção de amor mais triste jamais escrita, “</em><em>Pedaço de  mim”?</em></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><em>Admirado e amado por todas as idades, estudado por  universitários, defendido por Chicólatras, oráculo no Facebook,  onipresente nas manifestações artísticas brasileiras – sua modéstia  diria “isso é um exagero”, mas sabemos que não é –, sua reação imediata  ao ser comparado a Deus foi “em primeiro lugar, não acredito em Deus. Em  segundo, não acredito em mim. Essa é a única coisa que pode nos ligar.  Então, pra começo de conversa, vamos tirar Deus da mesa e seguir em  frente”.</em></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><em>Enfim, ainda não creio que entrevistamos Deus, quase  sem falar de Deus. Mas foi com ele mesmo que aprendi uma lição, talvez  um mandamento: acreditar em coisas inacreditáveis. <strong>(Thiago  Araújo)<br />
</strong></em></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><em><strong><a href="http://www.outraspalavras.net/wp-content/uploads/2010/04/100429-Brazuca.jpg"><img title="100429-Brazuca" src="http://www.outraspalavras.net/wp-content/uploads/2010/04/100429-Brazuca.jpg" alt="" width="145" height="199" /></a><br />
</strong></em></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>Você assume que não acredita em Deus, mas existem trechos nas  suas músicas como “dias iguais, avareza de Deus” ou “eu, que não creio,  peço a Deus”. No Brasil, é complicado não acreditar em Deus?<br />
</strong></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;">Eu não tenho crença. Eu fui criado na Igreja Católica,  fui educado em colégio de padre. Eu simplesmente perdi a fé. Mas não  faço disso uma bandeira. Eu sou ateu como o meu tipo sanguíneo é esse.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;">Hoje há uma volta de certos valores religiosos muito  forte, acho que no mundo inteiro. O que é perigoso quando passa para  posições integristas e dá lugar ao fanatismo. O Brasil talvez seja o  pais mais católico do mundo, mas isso é um pouco de fachada. Conheço  muitos católicos que vão à umbanda, fazem despacho. E fica essa coisa de  Deus, que entra no vocabulário mais recente, que me incomoda um  pouquinho. Essa coisa de “vai com Deus”, “fica com Deus”. Escuta, eu não  posso ir com o diabo que me carregue? (Risos). Tem até um samba que  fala algo como “é Deus pra lá, Deus pra cá – e canta – Deus já está de  saco cheio” (risos).</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong>Você já foi em umbanda, candomblé, algo do tipo?</strong></span></p>
<p><span style="color: #800000;">Já, eu sou muito curioso. A mulher jogou umas pipocas na minha  cabeça, sangue, disse que eu estava cheio de encosto. Eu fui porque me  falaram “vai lá que vai ser bom”. Passei também por espíritas mais  ortodoxos, do tipo que encarnava um médico que me receitou um remédio  para o aparelho digestivo. Aí eu fui procurar o remédio e ele não  existia mais. O remédio era do tempo do médico que ele encarnava  (risos).</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;">Já tive também um bruxo de confiança, que fez coisas  incríveis. Aquela música do Caetano dizia isso muito bem, “quem é ateu, e  viu milagres como eu, sabe que os deuses sem Deus não cessam de  brotar.” Eu vi cirurgias com gilete suja, sem a menor assepsia, e a  pessoa saía curada. Estava com o joelho ferrado e saía andando. Eu fui  anestesista dessa cirurgia. A anestesia era a música. O próprio Tom  Jobim tocava durante as cirurgias. Eu toquei para uma dançarina que  estava com problema no joelho. Ela tinha uma estreia, mas o ortopedista  disse “você rompeu o menisco”.  Ela estreou na semana seguinte, e na  primeira fila estavam o ortopedista e o bruxo (risos).</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;">Uma vez, estava com um problema e fui ao médico. Ele me  tocou e não viu nada. Aí eu disse “olha, meu bruxo, meu feiticeiro,  quando ele apertava aqui, doía”. Ele começou a dizer “mas essa coisa de  feitiçaria…” e atrás dele tinha um crucifixo com o Cristo. Daí eu  perguntei “como você duvida da feitiçaria, mas acredita na ressurreição  de Cristo?”. Eu acho isso uma incongruência. Gosto de acreditar um pouco  nisso, um pouco naquilo, porque eu vejo coisas inacreditáveis. Eu não  acredito em Deus, acredito que há coisas inacreditáveis.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"> </span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong>De vez em quando você dá uma escapada do  Brasil e vem a Paris. Isso te permite respirar?</strong></span></p>
<p><span style="color: #800000;">Muito mais. Eu aqui não tenho preocupação nenhuma, tomo uma distância  do Brasil que me faz bem. Fico menos envolvido com coisas pequenas que  acabam tomando todo o meu tempo. Aqui, eu leio o <em>Le Monde</em> todos  os dias, e fico sabendo de questões como o Cáucaso, os enclaves da  antiga União Soviética, que no Brasil passam muito batidos. O Brasil,  nesse sentido, é muito provinciano, eu acho que o noticiário é cada vez  mais local.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;">Meu pai, que era um crítico literário e jornalista, foi  morar em Berlim no começo dos anos trinta. Foi lá, onde teve uma visão  de historiador, de fora do país, que ele começou a escrever <em>Raízes  do Brasil,</em> que se tornou um clássico. A possibilidade de ter esse  trânsito, de ir e voltar, eu acho boa. É como você mudar de óculos, um  para ver de longe e outro para ver de perto. </span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong>Nesse seu vai e vem Brasil-França, o que você traria do Brasil para a  França, e vice-versa?</strong></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> </strong>Eu traria pra cá um pouquinho da bagunça, da  desordem. Os nossos defeitos, que acabam sendo também nossas qualidades.  O tratamento informal, que gera tanta sujeira, ao mesmo tempo é uma  coisa bonita de se ver. Você tem uma camaradagem com um sujeito que você  não conhece. Aqui existe uma distância, uma impessoalidade que me  incomoda.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;">Para o Brasil, eu gostaria de levar também um pouco  dessa impessoalidade. Da seriedade, principalmente para as pessoas que  tratam da coisa pública. Não que não exista corrupção na França.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;">Outra coisa que eu levaria pra lá é o sentimento de  solidariedade, que existe entre os brasileiros que moram fora. Isso eu  conheci no tempo que eu morava fora, e vejo muito aqui através das  pessoas com as quais convivo. Eles se juntam. Como se dizia, “o  brasileiro só se junta na prisão”. Os brasileiros também se juntam no  exílio, na diáspora.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong>Falando em exílio, tem uma história curiosa de </strong><em><strong>Essa  moça tá diferente</strong></em><strong>, a sua música mais conhecida na  França.</strong></span></p>
<p><span style="color: #800000;">É. A coisa de trabalho (N.R.: na Itália, onde Chico estava em exílio  político, em 1968) estava só piorando e o que me salvou foi uma  gravadora, a Polygram, pois minha antiga se desinteressou. A Polygram me  contratou e me deu um adiantamento. E consegui ficar na Itália um pouco  melhor. Mas eu tinha que gravar o disco lá. Eu gravei tudo num gravador  pequenininho. Um produtor pegou essas músicas e levou para o Brasil,  onde o César Camargo Mariano escreveu os arranjos. Esses arranjos  chegaram de volta na Itália e eu botei minha voz em cima, sem que  falasse com o César Camargo. Falar por telefone era muito complicado e  caro. Então foi feito assim o disco. É um disco complicado esse.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong><br />
Você acabou de citar o </strong><em><strong>Le Monde</strong></em><strong>.  Para nós, que trabalhamos com comunicação, sempre existiu uma crítica  pesada contra os veículos de massa no Brasil. Você acha que existe um  plano cruel para imbecilizar o brasileiro?</strong></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> </strong>Não, não acredito em nenhuma teoria conspiratória e  nem sou paranoico. Agora, aí é a questão do ovo e da galinha. Você não  sabe exatamente. Os meios de comunicação vão dizer que a culpa é da  população, que quer ver esses programas. Bom, a TV Globo está instalada  no Brasil desde os anos 60. O fato de a Globo ser tão poderosa, isso sim  eu acho nocivo. Não se trata de monopólio, não estou querendo que  fechem a Globo. E a Globo levanta essa possibilidade comparando o  governo Lula ao governo Chavez. Esse exagero.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong><br />
Você acha que a mídia ataca o Lula injustamente? </strong></span></p>
<p><span style="color: #800000;">Nem sempre é injusto, não há uma caça às bruxas. Mas há uma má  vontade com o governo Lula que não existia no governo anterior.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong>E o que você acha da entrevista recente do  Caetano Veloso, onde ele falou mal do Lula e depois acabou sendo  desautorizado pela própria mãe?</strong></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> </strong>Nossas mães são muito mais lulistas que nós mesmos.  Mas não sou do PT, nunca fui ligado ao PT. Ligado de certa forma, sim,  pois conheço o Lula mesmo antes de existir o PT, na época do movimento  metalúrgico, das primeiras greves. Naquela época, nós tínhamos uma  participação política muito mais firme e necessária do que hoje. Eu  confesso, vou votar na Dilma porque é a candidata do Lula e eu gosto do  Lula. Mas, a Dilma ou o Serra, não haveria muita diferença.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong>O que você tem escutado?</strong></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;">Eu raramente paro para ouvir música. Já estou impregnado  de tanta música que eu acho que não entra mais nada. Na verdade, quando  estou doente eu ouço. Inclusive ouvi o disco do Terça Feira Trio, do  Fernando do Cavaco, e gostei. Nunca tinha visto ou ouvido formação  assim. Tem ao mesmo tempo muita delicadeza e senso de humor.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong>A música francesa te influenciou de alguma  maneira?</strong></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> </strong>Eu ouvi muito. Nos anos 50, quando comecei a ouvir  muita música, as rádios tocavam de tudo. Muita música brasileira,  americana, francesa, italiana, boleros latino americanos. Minha mãe  tinha loucura por Edith Piaf e não sei dizer se Piaf me influenciou. Mas  ouvi muito, como ouvi Aznavour.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;">O que me tocou muito foi Jacques Brel. Eu tinha uma tia  que morou a vida inteira em Paris. Ela me mandou um disquinho azul, um  compacto duplo com <em>Ne me quitte pas</em>, <em>La valse à mille temps</em>,  quatro canções. E eu ouvia aquilo adoidado. Foi pouco antes da bossa  nova, que me conquistou para a música e me fez tocar violão. As letras  dele ficaram marcadas para mim.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;">Eu encontrei o Jacques Brel depois, no Brasil. Estava  gravando <em>Carolina</em> e ele apareceu no estúdio, junto com meu  editor. Eu fiquei meio besta, não acreditei que era ele. Aí eu fui falar  pra ele essa história, que eu o conhecia desde aquele disco. Ele disse  “é, faz muito tempo”. Isso deve ter sido 1955 ou 56, esse disquinho  dele. Eu o encontrei em 67. Depois, muito mais tarde, eu assisti a <em>L’homme  de la mancha</em>, e um dia ele estava no café em frente ao teatro. Eu o  vi sentado, olhei pra ele, ele olhou pra mim, mas fiquei sem saber se  ele tinha olhado estranhamente ou se me reconheceu. Fiquei sem graça,  pois não o queria chatear. Ele estava ali sozinho, não queria aborrecer.  Mas ele foi uma figuraça. Eu gostava muito das canções dele. Conhecia  todas.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong>Falando de encontros geniais, você tem uma foto  com o Bob Marley. Como foi essa história?</strong></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> </strong>Foi futebol. Ele foi ao Brasil quando uma gravadora  chamada Ariola se estabeleceu lá e contratou uma porção de artistas  brasileiros, inclusive eu, e deram uma festa de fundação. O Bob Marley  foi lá. Não me lembro se houve show, não me lembro de nada. Só lembro  desse futebol. Eu já tinha um campinho e disseram “vamos fazer algo lá  para a gravadora”. Bater uma bola, fazer um churrasco, o Bob Marley  queria jogar. E jogamos, armamos um time de brasileiros e ele com os  músicos. Corriam à beça.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong><br />
Vocês fumaram um baseado juntos?</strong></span></p>
<p><span style="color: #800000;">Não. Dessa vez eu não fumei.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong><br />
E essa sua migração para escritor, isso é encarado como um momento da  sua vida, já era um objetivo?</strong></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> </strong>Isso não é atual. De vinte anos pra cá eu escrevi  quatro romances e não deixei de fazer música. Tenho conseguido alternar  os dois fazeres, sem que um interfira no outro.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;">Eu comecei a tentar escrever o meu primeiro livro porque  vinha de um ano de seca. Eu não fazia música, tive a impressão que não  iria mais fazer, então vamos tentar outra coisa. E foi bom, de alguma  forma me alimentou. Eu terminei o livro e fiquei com vontade de voltar à  musica. Fiquei com tesão, e o disco seguinte era todo uma declaração de  amor à música. Começava com <em>Paratodos</em>, que é uma homenagem à  minha genealogia musical. E tinha aquele samba (cantarola) “pensou, que  eu não vinha mais, pensou”. Eu voltei pra música, era uma alegria. Agora  que terminei de escrever um livro já faz um ano, minha vontade é de  escrever música. Demora, é complicado. Porque você não sai de um e vai  direto para outro. Você meio que esquece, tem um tempo de aprendizado e  um tempo de desaprendizado, para a música não ficar contaminada pela  literatura. Então eu reaprendo a tocar violão, praticamente. Eu fiquei  um tempão sem tocar, mas isso é bom. Quando vem, vem fresco. É uma  continuação do que estava fazendo antes. Isso é bom para as duas coisas.  Para a literatura e para a música.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong>Tanto em </strong><em><strong>Estorvo</strong></em><strong> quanto em </strong><em><strong>Leite derramado</strong></em><strong> o  leitor tem uma certa dificuldade em separar o real do imaginário. Você,  como seus personagens, derrapa entre essas duas realidades?<br />
</strong><br />
Eu? O tempo todo, agora mesmo eu não sei se você esta aí ou se eu estou  te imaginando (gargalhadas).</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;">Completamente. Eu fico vivendo aquele personagem o tempo  todo. Entrando no pensamento dele. Adquiro coisas dele. Você pode  discordar, mas chega uma hora que tem que criar uma empatia ou uma  simpatia. Você cria uma identificação. E alguma coisa no gene é roubado  mesmo de mim, algumas situações, um certo desconforto, não saber bem se  você é real, se você está vivendo ou sonhando aquilo. Por exemplo, agora  que ganhamos de 10 a 1 (referência à pelada que jogamos três dias  antes), eu saí da quadra e falei: “acho que eu sonhei. Não é possível  que tenha acontecido” (risos).<strong> </strong></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>Você é fanático por futebol?</strong></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> </strong>Não sou fanático por nada. Mas eu tenho muito  prazer em jogar futebol. Em assistir ao bom futebol, independentemente  de ser o meu time. Quando é o meu time jogando bem, é melhor ainda, pois  eu consigo torcer. Agora mesmo, no Brasil, tinha os jogos do Santos.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;">Mas eu vou menos aos estádios. Eu não me incomodo de  andar na rua, mas quando você vai a alguns lugares, tem que estar com o  cabelo penteado, tem que estar preparado para dar entrevistas. Aqui, eu  estou dando a minha última (risos). Aqui, é exclusiva. Fiz pra <em>Brazuca</em> e mais ninguém. Eu quero ver o pessoal jogar bola. Então eu vejo na  televisão. E quando não estou escrevendo, aí eu vejo bastante.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong><br />
É verdade que um dia o Pelé ligou na sua casa, lamentando os escândalos  políticos no Brasil, e disse “é, Chico, como diz aquela música sua: ‘se  gritar pega ladrão, não fica um meu irmão’”?<br />
</strong></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;">É verdade (risos). Eu falei “legal, Pelé, mas essa  música não é minha”. O Pelé é uma grande figura. Nós gravamos um  programa juntos. Brincamos muito. Conheci o Pelé quando eu fazia  televisão em São Paulo, na TV Record, e me mudei para o Rio. Os artistas  eram hospedados no Hotel Danúbio, em São Paulo. O mesmo onde o Santos  se concentrava. Então, eu conheci o Pelé no hotel. E sempre que a gente  se encontra é igual, porque eu só quero falar de futebol e ele só quer  saber de música. Ele adora fazer música, adora cantar, adora compor. Por  ele, o Pelé seria compositor.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong>E você, trocaria o seu passado de compositor por  um de jogador?<br />
</strong><br />
Trocaria, mas por um bom jogador, que pudesse participar da Copa do  Mundo. Um pacote completo. Um jogador mais ou menos, aí não.<br />
<strong><br />
Você ainda pretende pendurar as chuteiras aos 78 anos, como afirmou?</strong></span></p>
<p><span style="color: #800000;">Não. Já prorroguei. Tava muito cedo. Agora, eu deixei em aberto.  Podendo, vou até os 95 (risos).</span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong>O Niemeyer está com 102 anos e continua trabalhando. Aliás,  não só trabalhando como ainda continua com uma grande fama de tarado  (risos).</strong></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> </strong>Ele me falou isso. Eu fui à festa dele de 90 anos e  ele me disse: “o importante é trabalhar e ó (fez sinal com a mão,  referente a transar)”. Aí eu falei “é mesmo?” e ele respondeu “é mesmo”.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong>Falando nisso, o Vinícius foi casado nove vezes.  Você acha a paixão essencial para a criação?</strong></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> </strong> Sem dúvida. Quando a gente começa – isso é um caso  pessoal, não dá pra generalizar – faz música um pouco para arranjar  mulher. E hoje em dia você inventa amor para fazer música. Se não tiver  uma paixão, você inventa uma, para a partir daí ficar eufórico, ou  sofrer. Aí o Vinícius disse muito bem, né? “É melhor ser alegre que ser  triste… mas pra fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de  tristeza, é preciso um bocado de tristeza, senão não se faz um samba  não”.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;">Quando eu falo que você inventa amores, você também  sofre por eles. “E a moça da farmácia? Ela foi embora! <em>Elle est  partie en vacances, monsieur!</em>”. E você não vai vê-la nunca mais. Dá  uma solidão. Eu estou fazendo uma caricatura, mas essas coisas  acontecem. Você se encanta com uma pessoa que você viu na televisão, daí  você cria uma história e você sofre. E fica feliz e escreve músicas.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong>Pra finalizar. Se você fosse escrever uma carta  para o seu caro amigo hoje, o que você diria?</strong></span></p>
<p><span style="color: #800000;"><strong> </strong>Volta, que as coisas estão melhorando!</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"> <strong>MAIS</strong></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;">A entrevista foi publicada originalmente na revista <a href="http://www.brazucaonline.org/" target="_blank"><em>Brazuca</em></a>,  uma publicação bilíngue sobre cultura brasileira que circula em Paris e  Bruxelas. A partir de 3 de maio, a degravação completa estará  disponível no site de <em>Brazuca. </em>Também lá, é possível <a href="http://www.brazucaonline.org/images/magpdf/brazuca-magazine.pdf" target="_blank">baixar em pdf</a>, desde já, a edição completa de  março-abril (inclusive com as fotos de Chico…)</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong>Daniel Cariello</strong>, editor de <em>Brazuca</em> e co-autor da entrevista, é colaborador regular da <em>Biblioteca Diplô </em>/<em>Outras Palavras. </em>Escreve a coluna <em>Chéri à Paris, </em>uma  crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro.<em> </em>Os  textos publicados entre  março de 2008 e março de 2009 podem ser  acessados <a href="http://diplo.org.br/_Daniel-Cariello_" target="_blank">aqui</a>. A reestreia, em que Daniel fala sobre a  entrevista com Chico, <a href="http://www.outraspalavras.net/?p=1171" target="_blank">aqui</a>.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #800000;"><strong>Thiago Araújo </strong>é diretor de <em>Brazuca.</em></span></p>
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