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Na rua, em Intermares…

3 de maio de 2008, às 8:00h

Na rua, em Intermares, uma professa aborda os pedestres.

_Você é contra ou a favor do aborto?
_Contra – dizem todos.
_Você conhece alguém que já fez aborto?
_Sim.
_Você acha que essa pessoa deveria ser presa?

Todos emudecem.

Alguém grita:

_o papa Bento XVI disse que “aborto é culpa grave”!

A professa corre, pula um muro e desaparece. Ao longe, escuta-se o latido de cachorros.

Junto do supermercado, uma mulher olha o céu azul e diz:

_Eu fiz aborto. Não me orgulho, nem me arrependo.

O céu permanece da mesma cor. Não há raios, nem trovoadas.

(baseado na resenha, escrita por Ruth de Aquino, na edição 517 (12/04/08) da revista Época, sobre o filme O Aborto dos Outros)

Bilhetes amorosos

29 de março de 2008, às 19:45h

bilhete.jpg

Curioso, remexia no Baú de Freud, lá no sótão de minha casa, e encontrei alguns bilhetes um tanto enigmáticos. Aparentemente, não são de Freud. De quem são?! Sua cunhada? Lou Salomé? Jung?

Aí vão seis bilhetes:

Bilhete nº 1: “… Ao mesmo tempo, entretanto, a mulher é diferente do homem - é um contrário semelhante. A relação entre ambos precisa da diferença para existir. Mas precisa também da experiência de não deixar que a imagem continue sendo apenas uma imagem, ou seja, de também se aventurar no real. Assim na identificação imaginária homem-mulher, primeiro aparece a diferença, mas para logo ser abolida. O prazer, o gozo regridem na abolição da diferença, na morte dos termos de sujeito e objeto: homem e mulher reafirmam o poder de se assemelhar, de buscar o duplo imaginário de si mesmo, de espreitar a morte, esse outro radical, objeto fascinante, do sujeito”

Bilhete nº2: “A gente não possui um ao outro por meio do corpo, mas apesar do corpo, que, como todo mundo sabe, não se identifica jamais completamente com o todo da pessoa, mas aparece sempre como uma parte dela e resiste à dominação mais viva”

Bilhete nº3: “O ato sexual é o meio pelo qual a vida nos fala, como se o amante não fosse apenas ele mesmo, mas também a folha que treme sobre a árvore, o raio que cintila sobre a água - mágico da metamorfose de todas as coisas, uma imagem explodida na dimensão do todo, de tal modo que nos sentimos em casa onde estivermos”

Bilhete nº4: “… o amor que não tem finalidade, não tem fim, não se destina, enorme vão livre, monolito, monumento no nada, afirmação e desejo (que permanece, mas não tem onde se apoiar senão em si mesmo). Fragmentos, passagens dessa relação entre vida e morte, trabalhada de novas formas, na tradição da paixão e sua metafísica (que diz respeito a uma comcepção de sujeito constituído sobre a falta), mas revertendo num salto mortal a dimensão de aniquilamento que o amor contém: ‘Quem poderá fazer aquele amor morrer/ se o amor é como um grão/ morre e nasce trigo/ vivo e morre pão’ “

Bilhete nº5: “A alegria é passagem de uma perfeição menor a outra maior, sentimento de que nossa capacidade ou aptidão para existir e agir aumentam em decorrência de uma causa externa, na paixão, e de uma causa interna, na ação”

Bilhete nº6: “O desejo, longe de perder de vista a carne que lhe deu à luz, tende em definitivo a erotizar o universo!”

Os esquemas

27 de março de 2008, às 18:00h

:twisted: Mais um crônica picante de Camargo, o Gil:

 trocadecasaisi.jpgO Marcelo e a Laura faziam parte da turma há muito tempo sem nunca terem participado do que os outros chamavam de “esquema”. Não pela Laura, que até tinha vontade. Mas o Marcelo não aceitava de jeito nenhum.

“Ainda mais porque você pode cair com o Renato”.

A implicância era antiga, culpa daquela vez que ela deixou escapar em uma festa de final de ano que, antes de namorar o Marcelo, tinha ficado com o Renato. E falou, segundo o marido, “toda animadinha”.

Nem a mulher do Renato viu problema nisso, mas o Marcelo não gostou. E, daí pra frente, a chance deles participarem diminuiu.

O esquema era um segredo guardado pela turma, um grupo de 5 casais, a sete chaves. Somente eles sabiam do que se tratava. Isso era levado muito a sério por todos tanto para se preservarem como para aumentar o prazer. Só conversavam sobre o assunto quando não havia mais ninguém por perto.

Tinha começado há uns 5 anos, depois que o Renato comprou uma antiga fazenda no interior e reformou a casa principal. Uma bela reforma, por sinal, que deixou de saldo 5 suítes, no andar de cima, e duas salas imensas, além de piscina e churrasqueira, na parte de baixo.

Ninguém lembra muito bem quem deu a sugestão, parece que foi o próprio Renato. O fato é que as regras foram criadas e o esquema já tinha funcionado várias vezes. E tinha dado certo, apesar da sentida ausência do Marcelo e da Laura.

Até esse ano quando o Marcelo finalmente topou participar.

O esquema tinhas regras rigorosas que foram repetidas, por precaução, ao casal de novatos. No final de semana marcado eles chegaram, no sábado pela manhã, e foram deixando as coisas espalhadas pelo andar de baixo.

Passaram o dia bebendo e conversando.

No começo da noite, descontraídos pela bebida e até excitados pelo que viria, tomaram banho, arrumaram-se e se reuniram na sala maior. Conforme uma das regras, o Renato já tinha colocado uma fita de cada cor na porta das 5 suítes. Era a identificação.

O esquema começava com as mulheres pegando roupas e pertences e subindo, uma de cada vez, pra escolher um dos quartos, qualquer um, começando pela mais nova do jogo. Naquela noite, a Laura.

Depois desciam e contavam apenas para os respectivos maridos a cor onde estavam hospedadas, justamente para que eles não escolhessem o quarto delas. Afinal, perderia a graça cair com a própria mulher.

Naquele sábado, depois do ritual feminino completado, voltaram para o quarto ali pelas dez da noite e ficaram esperando.

Então os homens fizeram a mesma coisa, pegando o que quiseram levar e escolhendo uma chave sobre a mesa, simbólica, com uma fita colorida amarrada apenas para ter certeza, antes de subir, que ninguém “sobraria” no quarto da própria mulher.

Depois subiram, em intervalos de 5 minutos, para o quarto correspondente a chave escolhida. O esquema era esse. Passar a noite com alguém do grupo, sem saber quem seria até entrar no quarto.

A partir desse momento as regras ficavam ainda mais rigorosas:

Ninguém podia sair do quarto até as 11 da manhã seguinte, de novo em intervalos de 5 minutos e na mesma ordem da subida. As 11:30 as mulheres desceriam e, reunidos na sala maior, tomariam café.

Não era permitido, até que se separassem, alguém contar com quem estivera. Esse era o segredo que fazia o esquema ficar mais interessante a cada ano. Depois, a caminho de casa, ficava por conta de cada casal revelar ou não o que tinha acontecido.

Depois que todos tinham escolhido a chave, Marcelo, o novato entre os homens, subiu até o andar de cima. Guardou o sorriso antes de abrir a porta e entrou.

– Vermelho! Eu falei vermelho, seu idiota!

– Verde, Laura, verde. Você falou verde. Não põe a culpa em mim, cacete! Não sou débil mental, você falou verde!

– Você é um desastre, Marcelo, desastre total! Quanto tempo a gente ficou ensaiando de entrar nessa porra desse esquema? Cinco anos! Você nunca queria, tinha ciúmes do Renato, essa babaquice toda. Aí, de repente, se encheu de coragem e decidiu que íamos entrar de cabeça.

– E não entramos?

– Entramos? Entramos? Vai se fuder, Marcelo! Depois de passar o dia inteiro esperando a hora do jogo vou trepar com você? Só porque você é surdo? Eu falei vermelho! E o pior é que essa maldita regra não deixa a gente melar o jogo. Deve estar todo mundo se divertindo enquanto a gente fica aqui feito dois idiotas!

Dito isso, Laura entrou no banheiro batendo a porta com força e se trancou.

Marcelo apagou a luz e ficou quieto no seu canto lembrando a cara de puto que o Renato, segundo da fila na escolha das chaves, fez quando ele escolheu a vermelha. Fora salvo pela regra e estava aliviado.

No quarto da fitinha azul Renato tentava explicar para uma decepcionada morena que a culpa não era dela não, ele é que não estava bem.

“Não sei, acho que exagerei na bebida…”.

A Promessa

17 de março de 2008, às 16:45h

promessa-vela.jpg

Por Josias de Paula Jr., vulgo Géo, primo poeta de Benito Di Paula. Sabe tocar como ninguém “Charlie Brown” - emocional e passional, não segura o choro… (crônica publicada originalmente no famoso blog  inscritosempedra — visitem!)

Quando sua avó se referiu à promessa feita em seu nome, aludindo para a necessidade de cumpri-la, não deu muita importância ao fato. Não que tivesse a pretensão de desrespeitar o rito e descurar do Eterno, mas porque supunha que a dívida com o divino seria resgatada com algo simples, a participação numa missa, por exemplo.

Eduardo andava feliz da vida e de bem com o mundo. Acabara de prestar vestibular, com êxito, para o curso de medicina. Seria um médico. Era jovem, disposto e otimista. Militante comunista, se imaginava um rematado revolucionário e trilhava sua vida fazendo da mesma uma ferramenta para alcançar o mundo onde todos seriam iguais…

Dentro do partido era considerado um dos quadros mais bem preparados. Discorria com desenvoltura sobre todas as minúcias da doutrina, tinha o dom de fazer crer que era porta-voz da mais autêntica pureza ideológica, cuja posse lhe dava a chave para os segredos da tática e estratégia insurreta.

Certo dia, em conversa com um companheiro, sentencia:

- Não dá mais! Amanhã mesmo levo a questão à direção partidária. Esse Jonatas é um pelego molenga….
- Na verdade - diz o amigo - ele é o próprio pequeno burguês.
- Não só isso. Ele é cristão! Totalmente cristão. Se há uma coisa nociva à postura revolucionária é essa baboseira, essa cretinice católica…

E Eduardo passou mais de meia hora atacando Deus, a igreja e quejandos.

Mas eis que, de súbito, Eduardo desaparece aos olhos dos companheiros de ideologia. Ninguém sabe de seu destino. Alguns especularam sobre uma provável morte; os tempos continuavam quentes, ainda havia gente que desaparecia. Outros ainda, tocados pelo medo ou por um caráter mesquinho, lançaram dúvidas sobre sua integridade - seria um espião? Um infiltrado? Efetivamente, ninguém sabia realmente dos motivos de sua desaparição.

Parte do mistério foi desvelada passado alguns meses. Por acaso, um dia, a esposa de um militante avistou Eduardo ao longe, andando apressado sobre uma ponte. Ele não morrera. Então, todos se perguntavam, o que dera nele para sumir assim? Não faltaram teorias sobre o tema. Contudo nada chegava perto da verdade…

Faltava aos antigos companheiros o conhecimento de um acontecimento vital, transcendental. Quando estava já próxima a formação em psiquiatria - especialidade que escolhera dentro do vasto campo da medicina - Eduardo é intimado por sua avó. Basta de adiar! O momento para pagar a promessa era agora!

- Tudo bem vó. Mas, qual é mesma a promessa?
- Você tem de lançar flores no rio.
- Flores no rio? - perguntou surpreso.
- Sim.
- Mas vó, todo mundo vai me ver! Já pensou se alguém do partido me vê?!
- Eduardo, Eduardo! Eu não quero saber de partido. Promessa é promessa! Quando você quis passar no vestibular não fez restrição a tipos de promessa…
- Mas vó, eu pensava que era uma missa, ou algumas orações. Não pode ser uma doação para um instituto de caridade?
- Não, Eduardo. Já disse: você tem de lançar flores no rio.

Deixou-se ficar quieto. Concedeu. Gostava e tinha muito respeito por sua avó.

No dia marcado, já foram eles. A avó fez o favor de carregar a coroa de flores enquanto chegavam ao cume da ponte; Eduardo se recusava. Viera quase disfarçado. Tinha o olhar agitado. “Agora lance, meu filho”, diz a velha.

No alto da ponte, Eduardo estático. Mira o horizonte triste, tal como vivenciasse as exéquias, e sacode a oferenda. Azar! O vento forte de agosto fez com que as flores descrevessem uma estranha parábola e, ao invés de tocarem as plácidas águas do Capibaribe, foram dar nas terras sujas das margens. Eduardo pressente o pior.

- Mas, meu filho, tem que ser na água! - disse meigamente sua avó.

Eduardo pensou em deserdar sua ascendência. Julgou que, se tivera sorte até agora de não ser visto por nenhum companheiro, a repetição do santo gesto era chance demais ao mau presságio: dessa vez teria testemunhos desagradáveis. Alguns curiosos já reparavam no acontecido; houve quem parasse para assistir.

Ligeiramente esverdeado ele vai em busca das flores fujonas, atola-se na lama, colhe-as novamente em seus braços. Sobe a ponte de cabeça baixa. Não queria olhar ninguém. Mas mesmo de cabeça baixa podia jurar que Carlão, melhor amigo seu no partido, observava-o com desprezo. Enfim, lança novamente as flores, dessa vez com sucesso.

Foi daí em diante que Eduardo abandonou as atividades sediciosas e guardou o socialismo no compartimento das memórias sensíveis. Anos depois, abandonaria também a medicina. Atualmente trabalha no comércio.

E sua avó? Sua avó dá palestras em um centro espírita e afirma a todos, sob juramento, que seu neto é médium.

A horda primitiva

8 de março de 2008, às 12:01h

loucos.jpg 

Muitos anos atrás… 

Talvez, não fosse um bom pai, mas certamente sou um neto legal. Minha avó paterna, que tem um zelo religioso pela Assembléia de Deus, teve um troço e foi parar no hospital. Chamaram-me às pressas, pensando que ainda eu era médico. Quando chego no hospital, está toda reunida a família Perrusi. Freud, diante dos meus parentes, com certeza fugiria gritando: “Socorro, a Horda Primitiva, a Horda Primitiva!”.

Eita família esquisita! O pior é que ninguém conhece ninguém, pois os Perrusi são seres que cultivam um tipo especial de aversão social: a misantropia familiar. Assim, todos os primos foram se apresentando, sempre dizendo: “ah, bom, você é filho de fulano?”. Os meus tios foram fáceis de reconhecer, pois todos são sósias de Perrusi Pai, cagados e cuspidos — inclusive, as minhas tias, o que não é um espetáculo dos mais agradáveis. Ora, imaginem Perrusi Pai como uma mulher! Olhava-as siderado. Faltam bigodes, pensei. Aproximei-me de uma delas que insistia na tese de que a esquizofrenia era uma possessão demoníaca.

_E os micróbios? Perguntei, tentando entrar no papo.
_O que é que tem os micróbios?!
_Não são agentes do demônio? Falei, certo que seguia a lógica da doutrina.
_Tem nada a ver! Micróbio é um organismo unicelular, ou bacteriano, ou vegetal (fungo minúsculo) ou animal (protozoário)! Disse, um tanto indignada com a minha lógica.
_Aaah…

As conversas eram sempre sem pé nem cabeça. Do tipo daquela que tive com um dos meus tios. O dito-cujo chega ao hospital e se apresenta como o meu tio Gamaliel. Embora estivesse acostumado com o segundo nome mais engraçado do mundo, o nome de Perrusi Pai: Gadiel, surpreendi-me com a potência semântica do primeiro nome mais engraçado do planeta. Meu cérebro explodiu numa gargalhada histérica e, para evitar uma desintegração cerebral, comecei a falar besteiras sobre a vida, o Santinha, etc; então, de repente, surge o seu filho, meu primo, que se apresenta como… Gamaliel Júnior. Sinto o golpe, envergo-me todo, contendo o meu esôfago que queria sair, procurando ar.

Gamaliel primo fala qualquer coisa, depois sai. Fico de novo com Gamaliel tio, que me olha e pergunta sobre a minha avó. Provavelmente, devido ao meu esôfago ou a um ato falho, respondo:

_Vovó? Ah, vovó vai muito bem, a sua saúde está firme.

Meu tio olha-me desconfiado e me indaga:

_Mas por que então ela está internada?
_Não, ela não está internada. Ela está em casa direitinha, toda serelepe.
_Ah é? Serelepe? — exclama o meu tio — Eu jurava que ela estava internada! E fizeram um escândalo danado para eu estar aqui. Oh, Gamaliel Júnior! — meu duodeno rompe-se dando gaitadas homéricas —  Por que diabos você me chamou ao hospital? Vamos logo pra casa de mamãe!

Foi aí que entendi a minha gafe: acostumei-me com a minha avó materna e respondi pensando nela e não nessa outra avó, a mãe do meu pai. Como diriam as psicólogas: “falou em avó, pensou em vovó”! Eita inconsciente da bexiga lixa!

Envergonhado, explico-lhe a minha confusão, mas ele não fica lá muito satisfeito. Disfarçamos um pouco o constrangimento e decidimos ir ao quarto, onde minha avó paterna estava internada. No caminho, meu tio me interroga:

_E sua avó, como ela está?
_O quadro está estável - começo a responder - acredito que seja apenas um pico hipertensivo…
_Não, eu estou perguntando pela mãe de sua mãe!

Fico boquiaberto, teorizo um pouco sobre a comunicação paradoxal, bem como sobre um mundo maravilhoso onde existiria apenas uma avó — imaginem um mundo com várias avós, ia ser um caos —, começo a balbuciar, mas sou salvo a tempo pela aparição de Perrusi Pai que, traidor, pergunta-me:

- Você tem alguma notícia de sua avó?

Fico pensando se há um complô dos Perrusi para me endoidar. Tergiverso e saio de fininho, entrando no quarto da minha avó (qual delas?). Foi pior, pois encontrei uma cena dantesca: duas primas e duas esposas de primos ajoelhadas cantando salmos da Bíblia. Tenho vontade de chorar e olho desesperado para Perrusi Pai; este, impassível, fita-me com o seu pátrio poder e entendo o seu recado: é pra ficar! Penso na possibilidade de ele me obrigar a cantar uns salmos. Aí não, penso, aí não! De repente, uma prima puxa-me pelo braço e força a me ajoelhar (eu juro que chorei); mas, Deus existe, já que o puxão era só para cochichar que aquela mise-en-scène acalmava vovó. E, realmente, ela estava serena.

Bem, vovó parece uma pequena Gadiel, e confesso que fiquei hipnotizado olhando aquele pequeno ser, encolhido pela idade, que partilhava comigo, no frigir dos ovos, um quarto dos seus genes. Parte daquilo ali rodava todo dia na minha circulação. Achei que exagerava, fiquei com medo de começar a delirar e emudeci o meu pensamento. Mas tudo aquilo era delirante! Estava diante de um espetáculo antropológico. Eu era um etnólogo em plena Assembléia de Deus!

De repente, vovó me chama - ela quer que eu me sente junto dela. Olho desesperado ao redor, procurando o seu filho. Cadê Perrusi Pai, vulgo Gadiel? Não o encontro no quarto. O miserável abandonara-me, deixando-me sozinho com cristãos devoradores de leões. Que pai eu tenho que abandona o filho nesse coliseu? Imaginei-o gargalhando fora do quarto. Meu pai é assim, adora pregar peças nos filhos. Diz que só desse jeito aguenta o peso da paternidade.

Minha prima olha-me com um olhar pontiagudo. Entendo a mensagem. Devo me sentar ao lado de vovó, mãe de meu pai. Levanto-me e escuto o recrudescimento sonoro dos salmos. Escuto até vários “aleluias”. Por incrível que pareça, sinto-me bem, até uma certa paz celestial, e entendo, enfim, o efeito placebo das salmodias. De fato, diminuem a ansiedade e a angústia, podendo até ser vermicida, dizem os especialistas.

Sento-me ao lado de vovó. Ela está estranha. Sua respiração está pesada, um ronco das profundezas. Seus olhos estão abertos e rútilos. Olha-me intensamente. Sinto um cheiro de enxofre. Não é vovó…

_Você não é vovó!
_Não, não sou.
_Quem é você?
_Eu sou.
_Aaah… E vovó?
_Está no limbo.
_Mas o limbo não existe.
_Não se acaba limbo por decreto.
_Aaah…
_Desde que nasceste, tenho te observado. Fica mais tranquilo.
_Tranquilo?! Em relação a quê?
_Com Ela.
_Ela, quem?!
_A Morte, Ela, a Morte.
_Eita, a Morte é uma mulher?
_Irrite-me mais um pouco e te levo ao Inferno.
_Aaah…
_A Morte não é Nada, nem para os vivos, já que estão dotados de vida e, obviamente, desconhecem-Na, nem para os mortos, já que estes não existem mais.
_Isso é ateísmo!
_Só tem ateu no Inferno. Ter medo da Morte é ter medo de Nada.
_Eu não tenho medo de Nada.
_Então, podes morrer tranquilo, pois o Nada acolher-te-á completamente.
_Mas não quero morrer!
_A vida te dá tão pouco e te pede tanto. Não é melhor morrer, antes que a vida te leve tudo?
_Não…
_Ganha força, motivação e energia para morrer. Evita ficar carcomido e gasto pela vida. Senão morrerás seco, sem nada, feito um mandacaru…
_Mas um mandacaru tem água…
_Esquece o mandacaru! Falo da tua liberdade. Luta contra a Natureza, pois ela é ciosa de seu poder. Ela te quer até o fim, sofrendo até o final, ela quer decidir no teu lugar. Luta contra a sociedade, pois ela determina tua morte. Inclusive, ela é mais sutil do que a Natureza. A sociedade envenena-te aos poucos e te joga num falso jogo de azar. Ela decide a data da tua morte, poluindo o ambiente, estressando o cotidiano, impondo-te o cúmulo da vida: o trabalho, criando acidentes de carro, alimentando-te com BigMac’s…
_Mas adoro McDonald’s!

Mostro-lhe uma foto minha comendo e adorando a existência do McDonald’s (noto que aparece um riso matreiro no seu rosto):

gordinhos.bmp

_Ai, ai, foi duro, mas estamos vencendo… Aliás, isso confirma o que estava dizendo.
_Confirma o quê?!
_Vê, não escolheste tua batata frita, teu pão, tua vida, tua língua, teu país, tua época, teus gostos — sem escolha, não há liberdade. Entende, só restou a suprema Liberdade: a Morte! Ser livre é morrer! Mata-te!
_Suicídio?!
_Sim, caminho direto à Liberdade e ao Inferno.
_Eu não quero ser livre.
_Er… bem… como assim?!
_Você escutou: eu não quero ser livre! Portanto, não quero morrer, entendeu?!
_Como assim?!
_”Como assim” nada! Detesto a liberdade, detesto escolher, detesto autonomia, detesto independência, detesto moda! Quero ser um Adão e viver sob o jugo totalitário de Deus, lá no Paraíso. E, principalmente, quero parar de pensar!

Vovó, ou quem quer que seja, deu um grito furibundo. Ficou em silêncio. Olhei-a e percebi que era, de fato, vovó. Parece que detestar pensamentos e reflexões, em suma, detestar a razão afugenta demônios. Ela cantava um salmo e parecia calma. Mas deu uma piscadela muito esquisita, e saí da cama rápido. Não aguentaria outra conversa. Antes de fechar a porta e sair do quarto, dei uma olhada no povo. Todos pareciam bem vivos. Não eram livres, deduzi. Rezar é viver, ponderei.

Já fora do quarto, encontrei Perrusi Pai, o traidor. Ele sorriu e perguntou:_como está tua avó?

Não respondi.

Homo Sapiens

1 de março de 2008, às 13:17h

Enquanto o blog ajeita-se, adaptando-se ao tempo exíguo, leiam uma crônica picante de Gil, o Camargo:

mulher-primitiva2.jpg 

O tempo que ela gastou para dar a volta na cama, entre pegar a cerveja na geladeira e apoiar-se no balcão, foi longo.

Ou foi o tempo correto, já que nenhum homem reclamaria daquilo.

A sensualidade era natural, quase sem estudo. A intenção era mesmo despir-se das roupas e do que ficou lá fora, deixando as provocações, se fosse o caso, para depois.

Ainda assim sabia que aquele que tivesse chance de conhecer esse momento jamais o esqueceria. Divertia-se e desfrutava desse poder mesmo sem intenções de tripudiar, ao menos naquele momento.

Não, o que buscava era prazer, nada mais.

Manteve o salto alto quando terminou de despir-se. Colocando a cerveja no copo deitado pra não fazer muita espuma, era a imagem de uma fêmea preparada. Nua e com os braços no balcão, provocava e alcançava um grau de excitação incrível: o tesão começava a escorrer por suas coxas.

Bebeu a cerveja de um gole só e moveu o celular de forma a fazer a ligação. Do outro lado da linha o marido atendeu.

Ela desandou a falar as mais loucas sacanagens. Primeiro disse que estava no cio. Depois, como se fizesse parte de algum ritual, passou a insinuar como gostaria de ser pega por trás.

Falou da posição em que se encontrava, com as pernas abertas e a bunda arrebitada, com os braços apoiados e empinada pelo sapato de salto alto. Comentou qualquer coisa sobre estar sozinha e perguntou se ele a pegaria do jeito que ela gostava.

Cada frase dita do outro lado da ligação era repetida por ela em voz alta, como que para confirmar os movimentos que o homem deveria fazer para deixá-la ainda mais tesuda. Enquanto falava e gemia, foi me guiando com o braço esquerdo para eu fazer o que ele faria, se estivesse mesmo lá, naquele quarto bonito de motel.

Excitada por um, trepava com outro.

- Puta que pariu, meu! Que mulher maluca! Que fodão!

- Não foi tudo isso não. Fiquei meio encanado, acabei não fazendo as coisas direito.

- Não é possível. Você começa a contar uma história dessas e na hora do melhor vem com essa conversa de que ficou encanado?  

- Diga uma coisa. Sua mulher nunca ligou no seu trabalho pra falar umas sacanagens pra você?

- Poucas vezes, mas já sim.

- Então, cara…

Uva moscatel

19 de fevereiro de 2008, às 16:00h

uvamoscatel.jpg 

Não sei… eu até que me acho pessimista, a ponto de querer assassinar qualquer ação, principalmente aquelas otimistas e recheadas de boas intenções — nesse mundo velho e enfadado, o otimismo é uma filosofia cruel. Faria, numa boa, uma emboscada para qualquer indivíduo metido a bonzinho. Os santos, comigo, morreriam apedrejados, e eu seria o primeiro e o último a jogar as pedras. Mas, apesar de tudo, admito que o mundo melhorou em alguns aspectos; ora, é inegável que um dos progressos antropológicos mais fundamentais está sendo a liberdade sexual. Vejam Jampa, por exemplo, ou até mesmo Recife ou, quem sabe, a formosa Cabedelo: são modelos de espaços urbanos onde qualquer cidadão ou cidadã pode assumir suas preferências sexuais. Certo, vá morar no mundo islâmico e tome na jaca, contentando-se apenas com as surubas nas mesquitas ou nos banhos turcos, isso se você for do gênero masculino, por que sendo mulher já sabe: lenço na cabeça e pano por todo lado.

Em suma, não deixa de ser interessante viver nesse mundo onde cabem todos os delirantes donjuanescos, os sodomitas sadomasoquistas, os voyeurs, os torcedores do Sport e outros quejandos que tais. Jóia. Sim, ao contrário dos papas da Idade Média, não sofremos mais de afania.

Atualmente, o cara pode ser feliz sexualmente qualquer que seja seu enfoque - ou, como diria Shakespeare, o seu enfuck (há, há, há - demais, demais…). Digo até que tudo isso deve-se ao doutor Freud. O cabra conseguiu reabilitar Édipo, justamente aquele que matou o pai e comeu a própria mãe! Se o Ocidente ainda tinha relutâncias morais contra a fornicação desenfreada, Freud deu o golpe de misericórdia: mostrou que as criaturas mais depravadas e pervertidas eram os noss@s pequerruch@s. Quando olho as filhinhas de alguns de meus amigos, pedindo ao pai um cavalinho, tenho vontade de fazer um vídeo pornô! Realmente, Sigmund liberou geral. Certo, as pessoas mais reprimidas são os psicanalistas, mas isso é outra estória. O que importa é que qualquer samaritano ou samaritana pode cair na putaria sem o temor de virar estátua de sal ou ser punido pela dengue hemorrágica ou afogado pelo estouro de Tapacurá. Qualquer sobrinho meu já conhece o felatio e o cunnilingus - na verdade, se não conhecem de nome, seria porque não estão ligando o nome à pessoa.

Na internet, soube de uma freira falofóbica, quer dizer, que sofria de manzapefobia, cuja virtude era só fazer amor com uva moscatel. Parecia estranho, impossível, e tive até pena de sua provável solidão, mas não é que mais adiante ela afirmava que tinha encontrado um búlgaro, um tal de Zarkov, o qual possuía a mesma concepção moscatel de amor!? Não duvido nada que, atualmente, o casal insólito tenha encontrado um japonês e um anão para misturarem no moscatel.

O que vocês acham de uvas moscatéis? Quando comerem uvas, pensem na freira. Essa é a lição e a praga do blog…

O sussurro final

19 de fevereiro de 2008, às 8:00h

Meu Deus… Vancarder, vulgo VanVan, o cientista de Intermares, especialista em omeletes de ovos de tartarugas, encontrou o susurro final! Lembro-me de dias doente, febril na cama, inquieto, inquieto, pensando no que foi dito no ouvidinho de Scarlett. Aqueles olhos (lindos) chorosos, aquela felicidade incontida depois do murmúrio…

Agora, eu sei e posso dormir, enfim, mais tranquilo:

 

Pequena Vingança

17 de fevereiro de 2008, às 12:00h

vinganca.jpg 

Por Gil Camargo do Tietê 

Faz dois bares que vou pra casa. Penso em você.

- Que puta frase, meu! Foi você que escreveu?

Divido as pessoas que conheço em dois grupos: um não precisa saber muito de mim. Outro não deve.

O Intec estava no segundo grupo, daí a minha preocupação dele ter chegado no bar justo quando eu ensaiava uma crônica nova e espiado meus escritos.

O apelido foi o Peninha quem arrumou. O nome dele era Pedro.

É que uma vez o Intec me apresentou para um grupo de amigos dele em um churrasco mais ou menos assim: “esse é o Gil, um dos raros amigos meus que não é intelectual”.

Duas surpresas de uma vez só. Pela apresentação, que me pareceu elitista, e porque, quem diria, intelectuais também faziam churrasco.

Resolvi contar a história pra nossa turma. De cara o Peninha fez valer seu humor e uma certa implicância com o cara e tascou o apelido de Intec. Nunca mais foi chamado pelo nome, ao menos desse lado de cá, a turma dos não intelectuais.

- Fui eu sim, mas é uma bobagem, não consigo sair da primeira frase.

- Tem a ver com você?

- Claro que não, Intec!

O Intec andava cismado que eu vivia um momento de tristeza e solidão. Em qualquer momento, qualquer frase ele enxergava alguma coisa acontecendo. E queria porque queria me ajudar.

Eu levava na boa, o Intec é um sujeito do bem. Complicado mesmo era quando ele estava com a bebida pra mais da metade. Quando ele ficava “do meio dia pra seis”.

Teve uma vez, durante a feijoada do sábado, que o Intec relembrou os tempos em que eu era apaixonado pela Chris Evert, do tênis. Como eu estava falando dos tempos que a Chris jogava e eu ficava babando com aquele uniforme dela, o Intec veio com uma típica de intelectual semibêbado.

- Você precisa desconstruir a Chris Evert.

Voltando ao boteco, resolvi não perder meu tempo explicando que aquilo era uma crônica sem musa. O Peninha já devia estar chegando e o melhor era beber minha cerveja em paz.

Quando o Peninha chegou, para nossa surpresa, veio acompanhado de três mulheres do trabalho dele lá no Sindicato. Moças simpáticas que eu já conhecia, boas de copo e de conversa.

O Intec, que nunca tinha visto as meninas, já foi levantando todo animado pra se enturmar quando o Peninha se antecipou:

- Esse é o Intec, um dos raros amigos nossos que é intelectual.

Levou vinte anos, mas eu estava vingado…

Seres de Carne

15 de fevereiro de 2008, às 16:00h

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Numa determinada época da minha vida, fui loser de uma frota de exploração interplanetária. Naquele tempo, era um tanto etéreo e não era feito de carne. Era feliz, principalmente quando a frota estava sozinha no meio da imensidão cósmica. Sentia uma solidão extrema, mas não sofria, justamente o contrário: sentia-me bem. Ali, olhando as galáxias, percebi a diferença entre a solidão e a solitude, pois o estar só expressa-se de duas formas. Digo rapidamente que a diferença é simples: a primeira caracteriza-se pelo sofrimento e pelo desamparo; a segunda, pela serenidade e pela sensação de completude. A solitude é um estado absoluto de serenidade. Necessita de uma catarse, tipo olhar galáxias de uma espaçonave na borda da Via Láctea, e de um tipo de maturidade, isto é, do controle voluntário, por isso livre e consciente, das manifestações instintivas e afetivas. Ali, era o único momento da minha vida no qual podia ser impiedosamente honesto comigo mesmo, revelando-me sem disfarces, sem medo de assumir minha própria loucura.

Claro, toda vez que vivia esse evento luminoso, tirava algumas conclusões. Tinha certeza de que, no fundo, o universo falava comigo. Contudo, sobrava um mistério: por que, na maior parte do tempo, eu não escutava nada? Acho que Horselover Fat, personagem de Philip K. Dick no livro “Valis”, explica esse problema com maestria:

Pensamentos do Cérebro são vivenciados por nós como arranjos e rearranjos — mudança — em um universo físico; mas o que realmente acontece é que substancializamos informações e processamento de informações. Não vemos meramente os pensamentos como objetos, mas como o movimento, ou, de modo mais preciso, a disposição de objetos: como eles são vinculados uns aos outros. Mas não conseguimos ler os padrões de disposição; não conseguimos extrair as informações que existem dentro dele — isto é, ele como informação, porque é exatamente o que ele é. A vinculação e a revinculação de objetos pelo Cérebro são, na verdade, uma linguagem, mas não uma linguagem como a nossa (já que ele está se dirigindo a si mesmo, e não a alguém ou alguma coisa fora de si mesmo).

Nós deveríamos ser capazes de ouvir essa informação, ou narrativa, como uma voz neutra dentro de nós. Mas alguma coisa deu errado. Toda criação é uma linguagem e nada senão linguagem, que por algum motivo inexplicável não conseguimos ler por fora e não conseguimos ouvir por dentro. Então eu digo isto: nós nos tornamos idiotas. Alguma coisa aconteceu com nossa inteligência. Meu raciocínio é o seguinte: o arranjo de partes do Cérebro é uma linguagem. Nós somos partes do Cérebro; logo, somos linguagem. Por que, então, não sabemos disso? Não sabemos sequer o que somos, quanto mais o que é a realidade exterior da qual somos partes. A origem da palavra “idiota” é a palavra “particular”. Cada um de nós se tornou particular, e não compartilha mais o pensamento comum do Cérebro, a não ser em um nível subliminar. Assim, nossa vida e objetivo reais são conduzidos abaixo de nosso limiar de consciência.

Olhando as estrelas, concordava com a afirmação: eu sou um idiota! Entretanto, naquele instante, não era, não. Alguns amigos criticam a minha mania, justamente num momento de profundidade, até mesmo de tragédia, de derrapar para a palhaçada. É que não consigo levar as estrelas comigo. Se levasse, juro que manteria a seriedade. Por isso, a vida inteira foi assim: quando chegava perto da seriedade, pensando que “sim, agora vai”, o gosto pela esculhambação tomava conta do espírito, e a seriedade esvaía-se como fumaça pela chaminé. Mas, naquela espaçonave, tinha outro porém: meu período comigo mesmo nunca durava muito, pois o meu comandante-em-chefe era Orravan, pessoa tecnicamente adepta do idealismo absoluto e descrente da materialidade das coisas, em suma, da inteligência alheia… Toda vez que estava chegando perto de Deus, Orravan gritava alguma ordem imbecil, e eu voltava à minha idiotia sempiterna.

Orravan gostava de explorar planetas a procura de seres sencientes. Adivinhem quem mandava observar e colher informações nos planetas por acaso descobertos? Num desses planetas, um bem azul, fiz diversas explorações, obtive alguns resultados e tive o seguinte diálogo com Orravan. No fundo, tal diálogo não deixa de ser uma boa referência ao misticismo e ao idealismo filosófico:

_Eles são feitos de carne! - disse, já sabendo dos problemas que causaria essa afirmação.
_Carne?! Você é um idiota! disse Orravan, completamente incrédulo.
_Eu sei que sou um idiota, não precisa repetir.
_Carne?! repetiu quase para si mesmo, Orravan.
_Não tenho dúvida. Escolhemos vários espécimes de diferentes partes do planeta, trouxemos a bordo de nossas naves de reconhecimento e cutucamos por toda parte. Eles são inteiramente de carne. Eles até sangram.
_Isso é impossível! E quanto aos sinais de rádio? As mensagens às estrelas?
_Eles usam as ondas de rádio para conversar, mas os sinais… bem, os sinais são gerados por máquinas.
_Então, quem fez as máquinas? É com esses que queremos entrar em contato.
_Eles fizeram as máquinas. É isso que tento dizer até agora: a carne fez as máquinas.
_Isso é ridículo. Como é que carne pode fazer máquina? Você está me pedindo para acreditar em carne senciente.
_Não estou pedindo, estou afirmando. Essas criaturas são a única raça senciente no setor e são feitas de carne.
_Talvez sejam iguais aos Mineiros. Você sabe, aquela inteligência de base carbônica que passa por um estágio de carne.
_Não. Eles nascem carne e morrem carne. Nós os estudamos em várias de suas durações de vida, que não são muito longas. Orravan, você tem alguma idéia da duração de vida da carne?
_Não me interessa. Tudo bem, talvez sejam apenas parcialmente de carne. Você sabe, como os Gaúchos: uma cabeça de carne, com um cérebro de plasma de elétrons em seu interior.
_Não, até pensamos nisso, já que, de fato, têm cabeças de carne como os Gaúchos. Mas eu lhe disse, nós os cutucamos: eles são de carne, totalmente de carne!
_Sem cérebro…
_Ah, existe um cérebro, sim. Só que é feito de carne!
_Então… o que é que pensa?
_Orravan, você não está compreendendo, não é mesmo? É o cérebro que pensa… a carne!
_Carne pensante! Você está me pedindo para acreditar em carne pensante?!
_Não peço nada, nunca pedi, não é mesmo?! Mas sim: carne pensante! Carne consciente! Carne que ama! Carne que sonha! A carne é tudo! Percebeu?

Não sei se meu comandante-em-chefe percebeu ou, simplesmente, não quis, por vontade própria, perceber e acreditar. Parecia um vegetariano, um comedor de alfaces. De qualquer forma, deu ordens para eliminar todas as informações a respeito da localização do planeta daquelas criaturas. A nave deu um salto aleatório no hiperespaço e, com isso, meus amigos ficaram sem saber onde realmente estava localizado o tal planeta. Já o senciente cintilante aqui, ah, eu fiquei. Escapuli antes da decolagem. Queria ser carne. Vivia uma fase romântica e cometi essa asneira. Arrependo-me até hoje. Não tenho mais catarse, nem solitude. Além do mais, tenho crises de furúnculos.

Eis a maldição da carne: a solidão!

PS: o diálogo é uma paródia de um conto de Isaac Asimov. Não sei qual é o conto; na verdade, nem sei se é de Asimov. Blog é desinformação.