
Andava pela praia de Intermares. Se existe uma terapia, estava diante dela. A praia é o desemprego dos psicoterapeutas, pensei, principalmente dos lacanianos – por quê? Não sei, o pensamento veio assim, sem motivo específico e sem lógica. Aliás, nada contra os lacanianos; mas, associação livre acontece e devemos respeitá-la. De todo modo, a beleza ali era sideral. Vi passarinhos com cantos complexos e faisões com cores soberbas, beija-flores iridescentes, pousando em flores inimagináveis; insetos com carapaças douradas, cor de safira e de rubi; orquídeas enigmáticas; papagaios estridentes; borboletas que parecem duas mãos azuis batendo palmas; macacos com caras vermelhas, pretas e castanhas.
Lembro-me de um dia no qual recolhi ali, nada mais, nada menos, do que 68 espécies de besouros para a coleção de Tsé-Tsé. O cabra é fascinado por besouros. Defende uma tese teológica de que Deus é um besouro.
_Um besouro onipotente, onisciente e onipresente? – perguntei, uma vez.
_Sim, isso mesmo.
Não discuto com Tsé-Tsé, só pergunto. É uma atitude que preserva a minha razão. Discutir produz efeitos colaterais na alma. É uma plataforma para um surto psicótico, com delírios místicos e persecutórios.
Bem, como dizia, passeava na praia paradisíaca de Intermares. Meus pés afundavam naquele areia cor de açafrão, única no planeta. O vento levantava a areia, e eu sentia, no ar, o cheiro aromático da praia. Olhei o céu, depois olhei o chão, pensei num frevo qualquer, mas desisti, porque não tinha nada a ver, imagine, fazer um frevo agora, quando reparei algo diferente na areia. Aparentemente, era uma criatura que jamais vira em Intermares. Tinha uma forma fantástica; na verdade, medonha. Ajoelhei-me para examiná-la melhor e a toquei com relutância. Com o toque, retirei minha mão imediatamente. Tinha a consistência de uma cobra. Olhei bem e percebi que era um animal mutilado: uma tartaruga. A coitada sofrera algum acidente. Estava sem casco, e suas costas estavam rasgadas numa espécie de incisão em forma de V, cujo vértice estava logo abaixo da cabeça. A barriga estava meio aberta e o couro fora puxado com tanta força que as patas traseiras, praticamente, foram arrancadas. Senti que o animal, de alguma forma, respirava. Era um movimento quase imperceptível, mas, prestando atenção, dava para notar. O monstro que fizera tal atrocidade tivera o cuidado de deixar a tartaruga viva e em agonia.
Intermares é um lugar pacífico. Se não fosse, talvez não ficasse tão chocado com a cena. Foi uma tapa na cara. Não, não, não fora uma tapa — pior do que isso. Parecia aquela dor na região do fígado, que desengana qualquer um, apesar de o médico dizer que não sabe o que é, que fará exames, etc. e tal, mas já intuímos a condenação. Parecia a primeira mentira de sua amada, vinda de uma boca, que até então, fora incapaz de imposturas…
O vento morno como leite que soprava do mar dourado, com todas aquelas tonalidades exuberantes, os azuis, os prateados e os verdes da mata atlântica, o próprio céu… nada disso impedia o pequeno horror que jazia aos meus pés. Encontrava-me, naquele momento, num estado de emoção raro na minha vida. Uma pena cavalar – estava com dó. Torci para que tartarugas não sentissem dor. Porém, não era uma suposta dor que me deixava naquele estado. A cena toda era intolerável, era obscena.
Resolvi acabar com o sofrimento do bicho – ou o sofrimento que gerava meu sofrimento, pensei, tentando culpabilizar-me de alguma maneira, o que é muito comum, diante do sofrimento alheio, mesmo de uma tartaruga. Mas como matá-la? Estava apenas com minhas sandálias japonesas e não encontrei nenhuma pedra ao redor. Assim, foi na base da chinelada que comecei a empreitada mortal. E a criatura mostrou-se notavelmente difícil de matar. Bati, bati, bati muito – cansei de tanto bater. O corpo do bicho virou uma papa vermelha, mas, mesmo assim, parecia vivo. E continuei a bater. Eu era um tolo, já que estava causando mais dores na coitada do que, provavelmente, ela sentira antes – se é que tartaruga sente dor. Passei quase uma hora para fazer o serviço. Terminei exausto e fui me lavar no mar.
Retomei a caminhada. De repente, tive um sobressalto. Olhei o chão e parei. Apressei o passo, parei novamente e fiquei imóvel feito uma estátua. Cobri meu rosto com as mãos, olhei o céu e pedi para parar aquele pesadelo. O que acontecia? Havia um rastro de tartarugas mutiladas que se estendia bem longe na praia de Intermares, até a Curva do Ticão. Nauseado, segui o rastro até o fim. Contei uns trinta corpos de tartaruga. Ainda bem que não gritam. Não aguentaria seus gritos.
Depois da Curva do Ticão, tinha um mangue e, dentro dele, uma pequena clareira. O rastro terminava ali. Estaquei e arregalei os olhos. Tsé-Tsé, vestido de monge, estava a cerca de trinta metros de onde eu estava. Fiquei obervando. Ele estraçalhava, naquele momento, uma tartaruga. Colocava o dedo indicador junto do pescoço e arrancava o casco; depois, com a unha (jamais notara que o Reverendo tinha unhas tão notáveis), fazia a incisão em forma de V; enfim, virava a tartaruga e arrancava, com a mão em forma de cunha, a barriga do animal. Fazia o serviço de uma maneira cirúrgica. Havia um silêncio opressor na clareira.
Não conseguia falar. Olhava, apenas. Tsé-Tsé não parecia doente, se deduzirmos sua saúde do uso poderoso que acabara de fazer dos dedos. Via um homem que era certamente Tsé-Tsé: altura, constituição, cor, feições — era reconhecível. Contudo, o supremo horror vinha também do fato de estar irreconhecível. Não parecia um homem doente, e sim um homem imensamente morto. Seu rosto tinha aquele terrível poder que tem, por vezes, a face de um cadáver, aquele poder de simplesmente repelir toda atitude humana concebível, como se qualquer atitude fosse tarde demais — a boca sem expressão, a fixidez sem tremor dos olhos, qualquer coisa de pesado e inorgânico nas dobras da face…
Tsé-Tsé, enfim, notou minha presença e sorriu. Pensei que imaginava o que fosse um sorriso diabólico. Já lera várias descrições na literatura e pensava que sabia. Mas me enganara: eu não sabia. O sorriso de Tsé-Tsé não era amargo, nem de fúria, nem mesmo sinistro, nem sequer era trocista. Parecia me convidar a participar da carnificina como se fosse o gesto mais natural do mundo. _Venha comer um guaiamum, parecia dizer. O sorriso não era furtivo, não era envergonhado, nem um pouco conspiratório. Não desafiava a bondade, ignorava-a simplesmente até o ponto da aniquilação. Tsé-Tsé era o mal. Eu, até então, só vira tentativas infrutíferas e desleixadas de praticar o mal. Estava diante de um mal de cor. Mostrava uma horrível semelhança com a inocência. Estava além do vício – não era humano. E dava medo. Comecei a feder de medo. Um suor oleoso saía dos meus poros.
(houve uma pequena pausa no terror quando pensei em limão e em povilho Granado, como formas eficazes de combater a minha inhaca. No fundo, sempre fedi. O fedor fazia parte da minha previsibilidade. O devaneio foi rápido e voltei à cena dantesca)
Foi aí que gritei:
_Por quê?!
Tsé-Tsé não respondeu. Não sorria mais. Jogou a tartaruga mutilada no chão.
De repende, à minha esquerda, apareceu Maroca com uma enorme rede de pescar. Fiquei aliviado com sua presença. Quase que choro. Diante do mal, chegara o bem.
Perguntei:
_O que aconteceu?!
_Tsé-Tsé assistiu a “Lula, o filho do Brasil” e, depois disso, perdeu a cabeça.
_Ele ficou assim por causa de um filme?
_Você viu o filme?
_Não, não…
_Pois é…
_E agora, o que fazemos?
_Siga minhas instruções!
Maroca me deu um lado da rede. Esticamo-la por inteiro. Ela jogou um pedaço de tartaruga a Tsé-Tsé, que o pegou com avidez. Aproveitamos o momento de distração, demos uma volta pela clareira e, quando ficamos atrás de Tsé-Tsé, Maroca gritou um “já!” e jogamos a rede no Reverendo. Ele se debateu como se fosse um animal. Dava urros de possesso. Cometi o erro de tentar segurá-lo e levei um chute que me deixou no chão, completamente atordoado. Maroca me chamou de burro e me mostrou uma injeção. Sorrindo, disse: _não tem demônio que aguente uma injeção como essa aqui! E a aplicou na bunda de Tsé-Tsé. Cinco minutos depois, o doido dormia o sono dos justos.
Arrastamos Tsé-Tsé até a praia. Já nos esperava uma jangada. Maroca trouxera também alguns ajudantes, que recolhiam as tartarugas mutiladas, matavam-nas rapidamente e as jogavam numa fogueira. Tudo era feito de forma limpa e organizada. No final, não sobrara nada da carnificina.
Na jangada, olhava o mar calmo e pensava sobre os últimos acontecimentos. Olhei Maroca, o corpo de Tsé-Tsé, que roncava horrores, e fiz uma pergunta retórica:
_Tudo isso por causa de um filme?
_Pra você ver…
Olhei o mar e senti o vento. Intermares voltara à sua tranquilidade habitual. Era só uma questão de esquecer. Queria esquecer. Há estórias que precisam ser esquecidas, pois não cabem na memória das pessoas. Comecei a pensar noutro assunto. O silêncio ajudava. Tudo levava a isso. Paz, enfim.
Junto da jangada, vi uma tainha pulando e achei bonito.
(esqueci-me de colocar: a crônica acima tem, literalmente, passagens do romance de ficção científica de C.S Lewis, “Perelandra: viagem a Vênus”. Faz parte de uma trilogia. Num dos livros, li o mais assombroso diálogo com o diabo de que tenho notícia; inclusive, já utilizei várias vezes tal diálogo para ilustrar algumas crônicas)