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Conversa oca

8 de março de 2010, às 14:03h

Umas das minhas crônicas favoritas de Dimas.

Por Dimas Lins

Ela levantou da rede e foi em direção à cozinha buscar outra garrafa de vinho, enquanto eu permaneci jogado no sofá perdido em nenhum pensamento. Ao retornar desta vez, trouxe à mão um vinho francês com uma composição de uvas cabernet sauvignon-syrah, bastante popular nos supermercados brasileiros. Observei quando ela derramou na minha taça um líquido de cor púrpura muito escuro, quase roxo, com pouca transparência. Depois, encheu também a sua taça e me deu um beijo na boca. Parou alguns segundos e, ainda em pé, ela me olhou de cima e me perguntou em quê eu estava pensando.

- Em nada – respondi.

(Um amigo me disse certa vez que o homem, e só ele, conhece a metafísica do vazio, a nulidade do ser. Ele diz que as mulheres costumam nos apontar o dedo e perguntar “o que você está pensando?”. Elas não acreditam na capacidade masculina de pensar em absolutamente nada. Esta é a sua tese. E a minha também.)

- Ninguém pensa em nada, pois o cérebro não pára. E como ele é o órgão do pensamento e da coordenação neural, você, com certeza, devia estar pensando em alguma coisa.

- Se você entende o pensamento como uma atividade química, eu concordo. Mas há uma grande diferença entre isso e uma atividade psíquica consciente e organizada. No exato momento em que você me perguntou, posso lhe assegurar, meu cérebro agia de maneira livre, independente e incondicionada. Ou seja, ele estava oco, como a touca de um bebê sem cabeça.

E eu ri à beça.

- Toda essa conversa sem pé nem cabeça para ocultar um pensamento?

- Querida, o fato é que mulher nenhuma acredita na intersecção nula, no vão, no oco, no vácuo, no nada.

- Acredito na nulidade de ação dos homens, não do pensamento. O homem existe, logo pensa… Ainda que sejam apenas tolices.

E ela riu e riu e ria. E continuou:

- O nada é a negação da existência ou a não-existência! Então, segundo a sua teoria, se você pensa em nada, logo você não existe. Neste caso, você seria apenas a conseqüência do vazio da minha taça ou o resultado da antimatéria do vinho que eu tomei.

Eu gaguejei e disse sim, mas sim, mas não, nem isso.

- Pensar em nada não nega ao ser a sua existência, embora, nessas circunstâncias, os impulsos elétricos do sistema nervoso central se aproximem de zero tendendo ao infinitivo. É como atingir o Nirvana! Pensar em nada é a supressão da consciência individual!

Ela não respondeu e caímos no silêncio. Tomei minha taça nas mãos e olhei-a como se fosse um filósofo e tivesse criado a frase definitiva do conhecimento humano: “pensar em nada é suprimir a consciência individual!”. Tomei um gole do vinho e abri um leve, mas enigmático sorriso.

- De quê você está rindo?

- De nada – respondi.

- Pensar em nada, eu já nem consigo engolir, mas ri de nada? Impossível! Como a supressão da consciência pode causar espasmo nos músculos faciais?!

- Desta vez o nada não foi absoluto, mas relativo. Não pensava em nada, mas algo que não significava nada. Na gradação do valor do pensamento, o que acabei de pensar não tinha relevância.

- Irrelevante, mas capaz de causar um espasmo muscular?!

Fiquei em silêncio, mas ela manteve-se na ofensiva.

- Você está apaixonado?

- Eu sempre estou apaixonado.

- Por quem?

- Por você, por uma música, por um livro, por um verso… Por muitas coisas.

-Você está apaixonado por outra pessoa?

- Por que essa pergunta oca agora?!

- Quando um homem ri assim e está com a cabeça distante é por que está apaixonado por alguma mulher!

- Meu bem, você está ansiosa e a ansiedade é a expectativa da dúvida.

Sorri, valorizando, por causa do vinho, a frase que acabara de dizer: “a ansiedade é a expectativa da dúvida!”.

- Basta de filosofia! – ela gritou, deixando o nada de lado e partindo para o tudo.

Retrocedi, pois sabia que aquela conversa oca ia dar em nada. Respirei fundo, bebi um pouco de vinho e dei-lhe um beijo na boca. E ela correspondeu aquele beijo.

Especulação

1 de março de 2010, às 8:41h

Tomando uma cervejinha com um amigo petista…

E querendo chatear…

_E se Serra desiste?!
_Aí, meu chapa, será a nossa glória e a humilhação dos tucanos!
_E se, com a desistência de Serra, Aécio topa sair candidato a presidente?

Houve um silêncio. O amigo tomou lentamente a cerveja. Colocou mais no copo. Disse que a cerveja estava meio quente.

_Por que você diz isso?
_É só uma especulação. Estamos num bar, lugar de especulação.
_Não gosto de especulação. Não faço como você, revoluções num bar.
_Não seja agressivo. E eu nem mais faço revoluções num bar. Desde 89, aliás… É um tempão. Só gosto de especular.
_Detesto especulações. Sou é pragmático! Pra mim, política é pão-pão, queijo-queijo!
_Justamente, se o pão e o queijo de Minas se candidatar e colocar Ciro como vice?

O amigo ficou verde. Afastou as batatinhas de si.

_Essa cerveja tá uma merda!
_Tá meio quente, né?! Mas tudo tá quente, aqui, em Recife.
_Não aguento mais esse calor. Tô me sentindo mal. Acho que foi aquele bolinho de bacalhau…
_Aécio, como candidato a presidente, e Ciro, como vice: é pauleira, hein?!

O amigo levantou-se da mesa. Olhou-me com uma cara meio de choro. No seu semblante, parecia dizer: _por que você faz isso comigo? Eu ia responder que faço porque sou mau feito um pica-pau. Mas ele  estava verde-escuro e, antes que esboçasse qualquer ação,  saiu correndo direto ao banheiro.

Era a terceira vez que acontecia tal fato; o terceiro petista consecutivo que corria ao banheiro diante de meras especulações. Ou era a especulação ou o bolinho de bacalhou do bar era, com efeito, uma porcaria.

Continuei a beber, sozinho. A cerveja, realmente, estava quente.

Calor medonho

27 de fevereiro de 2010, às 13:15h

Todo mundo sabe que faz um calor danado em Recife. É oleoso, pegajoso, opressor. Por isso, morando perto do rio, junto da água, portanto, coloquei um calção de banho, minhas sandálias havaianas e fui andar na avenida. As pessoas me olhavam, alguns de maneira curiosa, outros mais inquisidores — as velhinhas, aparentemente, constrangidas. É um lugar de exercício e de passeio, a avenida Beira-Rio. Voltei ainda com mais calor.

Tinha que ir à cidade, ali no final da Boa Vista, perto da ponte e do rio. Com tamanho calor, fui como estava, isto é, de calção de banho e de sandálias, mais uma bolsa com meus pertences. Fui de ônibus, já que estava sem carro. Achei estranhas as olhadas insistentes das pessoas na parada. Era um ponto de ônibus perto do rio. Quando subi para o ônibus, não fui barrado pelo cobrador, porque ele ficou, aparentemente, surpreendido demais comigo. Não entendi bem o motivo, mas não me importei e deixei pra lá. Consegui um assento e fiquei sozinho, ostensivamente sozinho. Ninguém queria, vá lá saber, sentar do meu lado. Tudo bem, sou solitário mesmo e detesto conversar com o vizinho num ônibus. O inimigo é o Vizinho. Eles sempre conversam sobre tudo e sobre nada. Fiquei na minha.

Saltei do ônibus nas imediações do rio e do cinema São Luís. O calor estava insuportável; o sol, de lascar. Ainda bem que pusera protetor solar, antes de sair. Notei que as pessoas me olhavam, algumas crianças apontavam, e eu continuava a não entender a razão. Fui numa lojinha perto do cinema, o único lugar do planeta que tinha a pilha de meu relógio. O funcionário me atendeu friamente. Uma mulher, ao meu lado, parecia mal-humorada e se abanava toda. Praticamente, não fui notado. Comprei minha pilha.

Atravessei o rio. Uma cidade com rio e mar tem seus privilégios. Recife podia ser linda, pensei. Não é. Mas, na ponte, apreciava a possibilidade de sua beleza. Sentia, também, seu cheiro real de mijo. Nunca entendi bem por que esse cheiro é tão presente. Os recifenses, no centro da cidade, mijam sem parar? Provavelmente, séculos de mijadas causaram essa impregnação. Talvez, os culpados tenham sido os holandeses. Amsterdam tem cheiro de mijo? Não me lembrava mais, infelizmente. Como fazia muito calor e um sol de rachar, a beleza potencial desmilinguiu-se como uma maquiagem num rosto cheio de suor.

Andei até o Paço da Alfândega. Ali, no xópi center, começaram os problemas. A segurança me barrou. Estava sem camisa. Achei justa a proibição. As regras eram claras. Fazia parte do jogo. Mesmo assim, insisti:

_Veja, eu compro uma camisa ali naquela loja.
_Não pode. Não pode entrar sem camisa. Pra comprar tem que entrar.
_Mas está um calor danado aqui fora. Andar de camisa nesse clima é maluquice.
_Aqui, não sinto calor.
_Claro, o senhor está num ambiente climatizado.
_Pois é…
_Não posso entrar?…
_Não.

Fui embora. Notei que o segurança falava no seu comunicador. Não me apontava, mas acho que falava de mim. Sem muito o que fazer, fui andando até o Marco Zero, lá junto do mar. Foi aí que percebi, aproximando-se, um carro de polícia. Os policiais saíram do veículo e pediram meus documentos. Tinha todos, inclusive meu passaporte, pois queria ir até a polícia federal, ali no cais do porto.

_Passaporte?! Perguntou um policial, o mais velho e com cara de experiente.
_Sim, vou à polícia federal.
_Seu passaporte está irregular?
_Não propriamente. Quero só atualizá-lo.
_O senhor pretende ir à polícia federal de calção de banho e sem camisa?

Comecei a me irritar com a pergunta impertinente e sem lógica.

_Faz um calor medonho, não acha?
_Com calor ou sem calor, não pode andar nu pela cidade.
_Não estou nu.
_Quase.
_E estou perto do mar.
_Não entendi a relação.
_Mar é água, assim como rio. Na praia, andamos de calção de banho. E ainda tem o calor…
_Não estamos na praia.
_Mas estamos pertíssimo do mar.
_O senhor não pode andar desse jeito no centro da cidade.

Comecei, de fato, a ficar irritado.

_Onde está escrito que não posso andar de calção de banho? Qual lei me impede de andar assim no Marco Zero?
_O título VI do Código Penal trata dos crimes contra os costumes.

Opa! Não é possível que tenha encontrado um policial inteligente e que conhece as leis. É muito azar.

_Você está me dizendo que andar de calção de banho, nesse calor infernal, é um atentado ao pudor?
_Mais do que isso: minha dúvida, agora, é saber se haveria um atentado ao pudor sem violência.
_Violência?! Qual é a violência que estou cometendo?
_Ao pudor das pessoas, meu senhor.
_Mas, por exemplo, o atentado ao pudor mediante fraude exclui a violência!
_Pode ser… O senhor, então, confessa o atentado ao pudor e, ao mesmo tempo, que está fazendo uma fraude?
_Confesso nada. Só tentei dizer que tem atentado ao pudor sem violência.
_Estou, assim, diante de um atentado ao pudor sem violência?
_Você quer me empulhar. Eu não quis dizer isso.
_O senhor quer dizer o quê, afinal de contas?
_Quero dizer que tenho direito a andar de calção de banho no Marco Zero.
_Não tem. O senhor atentou ao pudor do segurança do xópi e daquela senhora ali.

De fato, tinha uma velhinha no outro lado da calçada. Quando me viu olhando, gritou:

_Tarado!!!
_Viu, só!? A senhora ali está indignada com o senhor. Por falar nisso, o senhor é um tarado?!
_De jeito nenhum! Não me ofenda. Essa senhora deve ser da Opus Dei!
_Aquela senhora acusou o senhor de tarado. Tenho que interrogá-lo. Gosta de meninas ou de meninos?

Fiquei fulo de raiva. Tentei ser irônico e desafiei, de vez, a autoridade e os bons costumes.

_Menininhas. Não gosto de velhinhas, certamente.
_De que idade?
_Nove anos. Pode ser de dez, onze, doze, no máximo. Quando aparecem os peitinhos e os pentelhos, não acho mais graça, meu pau já não fica duro.

O policial abriu bem os olhos, olhou o colega e disse:

_Chico, algema esse fdp aqui. Esse tarado!
_Não, não, estou brincando! Veja, tenha calma, por favor. O calor está infernal. Saio de casa de calção de banho, estou junto do mar e da água, e me chamam de tarado.
_Não se brinca com autoridade, meu senhor.
_Tudo bem, mil desculpas. Estou estressado. Sinto-me injustiçado.
_Não é o senhor que decide sobre a justiça nesse mundo. Vamos levá-lo à delegacia.

Fiquei com medo; na verdade, apavorado. Eu, na delegacia, preso numa cela com outros presos, e de calção de banho! Ia me lascar, com certeza. Decidi apelar. E lancei uma última cartada.

_Veja, a gente podia discutir melhor. Sabe como é que é, né? O preço da justiça… E fiz a minha melhor cara de jeitinho.
_A justiça é incorruptível, senhor, seus agentes, não. O senhor está muito encrencado.
_A gente podia se acertar. Juro que volto, agora, pra casa.
_Se acertar? Isso é uma cantada?
_Não, não! Não é isso…
_Estou brincando.
_Aaah…
_O senhor volta de táxi.
_Tudo bem, de táxi. Quanto?
_Cem reais.
_Mas isso é um roubo!
_O senhor está me chamando de ladrão?
_Não, não, estou achando caro, só isso.
_É o preço da liberdade para um tarado.
_Não sou tarado. Estou só de calção de banho e…
_150.
_Tá certo, tá certo! Mas só tenho 120.
_Fechado. E se manda daqui, senão aumento o preço.

Eu me mandei. Com toda essa confusão, senti-me completamente nu. Estava envergonhado e com um pudor digno de Madre Teresa de Calcutá.

Consegui apenas o quarto táxi. Todos passavam e aceleravam quando me viam. O taxista me perguntou:

_O senhor foi assaltado?
_Fui. Só me deixaram o calção de banho.
_Pensei que fosse uma sunga.
_Pois é…

Cheguei, enfim, em casa.

Fui direto ao chuveiro e tomei um baita de um banho.

Fazia um calor medonho.

Os filhos dos outros

19 de fevereiro de 2010, às 19:00h

Algo me incomoda nos filhos dos outros, independentemente da faixa etária. Eles são tirânicos, mas de uma tirania diferente, uma tirania do fraco. Conheci um bebê, por exemplo, que manipulava seus pais do berço. Aquele ser pequenino parecia tão frágil… e era, sem dúvida; no entanto, massacrava os parentes da forma mais cruel possível. Os coitados, de tanto servi-lo, estavam só o bagaço. Não eram gente; eram escravos – pior ainda: personificavam o exemplo mais abjeto da servidão voluntária. Estavam sem dormir, cansadíssimos e paranoicos, desconfiando de todos, principalmente da babá — projetavam na babá sua paranoia e, no fundo, seu preconceito de classe. Seus olhos fundos de cansaço tornavam-se rútilos de raiva quando se tentava, racionalmente, jogar a culpa no bebê. Chamá-lo de cínico, por exemplo, deixaria qualquer um próximo do linchamento.

Preocupado, tentei até falar com o bebê. Não adiantou. Era tão egoísta, que não estava nem aí para minha tentativa de diálogo. Foi aí que o bicho ofereceu-me aquele sorriso amoroso. Quase fui seduzido pelo farsante. Dei-lhe um beliscão e disse baixinho: _comigo, não, violão. Vá manipular os bestas dos teus pais! Saquei, contudo, uma coisa: ele utilizava uma tonalidade de choro que deixa os pais absolutamente malucos. É um choro sacana, um chorar por chorar, uma espécie de som que atrai, irresistivelmente, os pais ao berço, sempre preocupados e paranoicos. O choro não significa nada. Não é fome, não é dor, nem é incômodo, muito menos alguma necessidade fisiológica – é prazer sádico.

Os filhos dos outros não são apenas bebês – há os adolescentes dos outros. Morro de medo de tais criaturas. Posso estrangular um bebê, colocá-lo num micro-ondas, mas, com os adolescentes, a empreitada é bem difícil. São criaturas mil vezes mais ardilosas do que um bebê. E são orgulhosas de seu poder. Os pais dos adolescente dos outros já não são servos voluntários, e sim escravos com intensa consciência crítica. É uma crítica desesperada, sem esperança, que entra num beco sem saída e bate num muro. Desejam uma liberdade impossível. Ruminam a expectativa de que os adolescentes tornar-se-ão um dia, afinal, jovens e adultos, embora esqueçam que tais seres não sairão necessariamente de casa, mesmo já grandes. Ledo engano. Além do mais, atualmente, a adolescência pode durar até os 30 anos de idade – conheço adolescentes de até 40 anos, mas isso é outro papo. Somente tornam-se adultos quando, enfim, já de saco cheio, levam os pais ao merecido descanso no asilo de velhos. É um visível sinal de maturidade a expulsão dos pais de suas casas — das casas dos pais, claro. Não é mais o mercado de trabalho, nem a filiação, o começo da passagem à vida adulta, e sim a ida dos velhos ao asilo.

Os adolescentes dos outros levaram o igualitarismo moderno ao seu paroxismo. Todos são iguais perante a educação. Sua ideologia é o construtivismo pedagógico. Um adolescente é tratado como um indivíduo autônomo, um produto do iluminismo doméstico, mesmo por pais pós-estruturalistas, que negam qualquer tipo de filosofia do sujeito. Tudo é contrato, tudo tem que ser discutido, tudo é construção.

_Teus filhos batem em você, Márcio?
_Batem, e com força.
_E Bruna?
_Apanha, também, mas menos.
_Vai prestar queixa?

Ele choramingou, mas ficou com raiva.

_Aonde, seu maluco?! Não, só quero conversar. Mas sobre outro assunto.
_Futebol?
_Tá certo, futebol.

A relação entre pais e filhos é nivelada pela igualdade. As pessoas desconfiam das hierarquias e das assimetrias abusivas, mas também da autoridade. Nesse mundo pós-pós, depois do fim da autoridade do sagrado, das instituições e, enfim, da escola e dos professores, o último bastião ruiu: a obediência aos pais. Curiosamente, o fim da autoridade trouxe, em geral, menos liberdade do que autoritarismo. Os adolescentes dos outros são igualitários, porém são autoritários. Detestam autonomia, porque exige muito esforço e deveres. Preferem a independência, e uma bem especial que signifique apenas direitos e benesses. São independentes, seguindo as vantagens, e são dependentes, fugindo das obrigações. Veem tal situação como absolutamente natural.

_É verdade que, na tua casa, todas as decisões são votadas e discutidas?
_Hum-hum…
_Danou-se…
_Vivo num regime assembleísta.
__As crianças de hoje são tiranas. Elas contradizem seus pais, cospem suas comidas e maltratam seus professores.
_Bem atual a frase. É tua?
_Não é não. A frase é de Sócrates.
_Aaah…
_Pelo menos, teu problema parece ser antigo.

_O pior é Neco…
_Mas ele só tem cinco anos!
_É o pior de todos.
_O curioso é que todos os teus filhos são conservadores.
_E sou de esquerda, e já fui comunista.
_Talvez, por isso: pais de esquerda, filhos reaças, eis a ironia.
_É preciso estimular a formação de pais conservadores para termos novamente filhos de esquerda.

Seus olhos brilhavam com a ideia.

_Então, há esperança: teus netos serão de extrema-esquerda.
_Pois é…

Os filhos dos outros assumem as vantagens da igualdade, mas não aguentam o peso da liberdade. Impõe um tipo de opressão que não se parece com nada antes visto no mundo. Qual o nome dessa nova dominação? As velhas palavras despotismo e tirania não são adequadas. O fenômeno é novo. É o futuro.

O celular toca.

_Eita, é Mano. Preciso pegá-lo numa festa.
_Ele não pega táxi?
_Não. Temos medo da violência.
_Por isso que ele não anda de ônibus?
_Ônibus é um perigo.
_Tudo bem. Mas bora ficar mais um pouco; ainda uma cervejinha, rapaz!
_Ele ficará com raiva.
_Diga que foi minha culpa. Ele tem medo do tio.
_Tá certo… só mais uma.

Ele colocou a mão no rosto e suspirou.

_Acho melhor sonhar a vida do que vivê-la.
_Mas viver ainda é sonhar, meu caro Proust.

Ele olhou de lado, bebeu dois copos seguidos e disse:

_Encontrei esse poema no bolso da calça de Sandra.
_Você vasculha as calças de Sandrinha? De tua própria filha?
_Eu me garanto.
_Qual é o poema?
_Leia, olha aqui:

Teu pai e mãe fodem contigo.
Que não o queiram, tanto faz.
Legam-te cada podre antigo,
além de uns novos, especiais.

Mas de cartola e fraque outrora
os sacaneou do mesmo modo,
gente ora austero-piegas, ora
se engalfinhando cega de ódio.

Passa-se a dor adiante: fossas
num mar que só fica mais fundo.
Dá o fora, pois, tão logo possas
sem pôr nenhum filho no mundo.

_Cacetada… É Philip Larkin. Sandrinha tá ligada!
_Ligada, uma ova. Isso é assustador!
_Não exagere…
_Eita, o celular, de novo.
_Tudo bem, eu te acompanho. Depois, a gente bebe mais uma na tua casa. Futebol é resultado, o resto é crônica esportiva.
_O quê?!
_Nada não. Você paga a conta, viu?!

Amor de Carnaval

17 de fevereiro de 2010, às 10:15h

Cacetada, muito boa essa crônica de Xico Sá…

Transa-miojo foi genial…

Lá vai:

    Xico Sá

    Por Xico Sá . 17.02.10 – 09h48

    [Xico Sá no Carnaval] O amor eterno e a transa-miojo

    Quanto tempo dura uma paixão de carnaval? Algumas aguentam apenas uma subida ou descida de ladeira em Olinda, uma passagem de um trio na Bahia, um giro por uma quadra em Ipanema do bloco “Simpatia é quase amor” etc.
    Outras, raríssimas, dão em casamento. Como a de um amigo, o fotógrafo paulista Egberto Nogueira, que fez questão de casar na mesma data e local do crime, um ano depois do encontro: em pleno sábado de Zé Pereira, em uma igreja olindense. Palmas!
    O bom e confortável é que, ao contrário da vida dura e normal, não temos muito o que choramingar sobre as delirantes paixões momescas. Nada de esperar aquele torpedo ou telefonema do dia seguinte. O day after simplesmente não existe. É tudo aqui e agora. A generosa arte zen do desapego.
    Mais do que uma chance para os amadores – aqueles que deixam todas as sacanagens do mundo para o período carnavalesco – extravasarem, a folia da carne é uma aventura sem ego. Pelo menos para um feio e mal-diagramado como este cronista.
    Você leva um fora e nem liga; a dor é instantânea e o pé-na-bunda é sempre com a maciez de umas delicadas pantufas, pés de amigo(a) urso(a), no pasa nada.
    Esquema lava-jato de existência, lavou tá novo; a fila anda e segue a comédia. Assim deveria ser levada a vida, mas quem diz que conseguimos no bafo de onça da rotina?
    O sexo carnavalesco, então, nem se fala. Se o cara já tem ejaculação precoce, aí é que o mundo o apressa mais ainda. Só transa-miojo: esquentou, ferveu, adeus.
    É tempo de álibi para qualquer humaníssimo fracasso, como as nossas brochadas, por exemplo. Infinitamente mais perdoável. Nesse caso, nem queremos o segundo turno, uma nova chance, como acontece. Nem precisamos depois provar que não somos mesmo essa coisa toda. Simplesmente esquecemos. Que boa sorte.
    O carnaval é uma lição de desencanamento. Vale por mil manuais de auto-ajuda, vale por todas as lições otimistas de Pollyana, moça. Que tal aplicar a técnica momesca no nosso dia a dia, depois das cinzas, quando voltarmos a São Paulo? Seria perfeito.
    Para que tanto desgosto inventado? Tratemos o próximo como um folião permanente, o(a) namorado(a) como um(a) passante/ficante, levemos menos a sério a vida. Evoé Baco, evoé Momo!
    Com licença que vou ali gastar o resto do corpinho no Recife Antigo. Quem sabe dou sorte e encontro o amor da vida, digo, o amor da quinzena, o amor da semana, o amor de hoje à noite, o amor eterno enquanto dura o show do Cidadão Instigado no Rec Beat, o amor possível que mereça esse nome. Afinal de contas, assim como a fama para Andy Wahrol, no carnaval amamos e somos amados pelo menos por 15 minutos.

    Ataque abominável

    16 de fevereiro de 2010, às 14:29h

    O Blog dos Perrusi sofreu um ataque impedioso de hackers. Na minha opinião, tal fato revela a infiltração de espiões em redes vitais à segurança da família Perrusi. Os alarmes acenderam-se lá no Galo da Madrugada. Aliás, serei sincero: já sabia que sofreria um ataque. Os espiões são espertos, pois sabem que, durante o carnaval, fica completamente vulnerável o sistema de segurança dos Perrusi. Foi um vírus troiano — mais um. No entanto, esse era diferentes de todos os outros. O bicho alojou-se no BDP durante dias, trabalhando silenciosamente e incansavelmente (claro, os vírus não se cansam). E foi fundo na coleta de informações, indo até ao processo helicoidal que nutre a imaginação dos Perrusi. Sem o helicóide básico, não há imaginação, não há nada na vida virtual dos Perrusi.

    Do Galo mesmo, aos berros, telefonei a um engenheiro chinês lá de Pequim. Os engenheiros chineses são os únicos capazes de acabar com os vírus troianos — não sei por que, mas é um fato e não o discutirei aqui. Quando passou a Frevioca, o chinês ligou e me disse que o troiano era o Hydraq. O bicho enganou Perrusi Pai, o bestinha cibernético, escondendo-se num link anexado a um e-mail. O link tinha a foto de Meg Ryan, o ponto fraco do velho. Foi inevitável clicá-lo. Os hackers sabiam exatamente como nos atacar e roubar secretamente as valiosas informações. E a foto de Meg era verdadeira! Tudo é verossímil nesse mundo virtual. É difícil não ser enganado.

    Através de uma falha do Internet Explorer, os hackers causaram uma profunda brecha no BDP. O troiano dominou o blog e, logo, a consciência dos Perrusi. Controlando o processo helicoidal, podia acessar nossa vida, nossos desejos, nossas entranhas — pior, pois poderiam vender as imagens de nossas vísceras para quem quisesse. Há um mercado asiático florescente de entranhas. Só de pensar que alguém poderia olhá-las, assim sem mais, nem menos, tenho náuseas. Por isso, queria saber para onde o Hydraq enviara as informações capturadas no BDP. Meu amigo chinês rastreou seis endereços, com nomes como yahooo.8866.org ou ftp2.homeunix.com. Todos estão localizados em Taiwan; todos, propriedade da empresa local Era Digital Media. Mas, até aí tudo bem, o terrível foi descobrir que tal empresa tinha como proprietário um Reverendo, lá de Bel-O-Kan. Pior ainda: o BDP não foi o único atacado; na verdade, 33 companhias sofreram ataques do troiano. Exemplo: a empresa química Dow Chemical e a produtora dos caças B-2 Spirit, Northrop Grumman, contratada pelo Pentágono.

    Diante da gravidade da situação, pensei, ponderei e deduzi que o Reverendo estava aliado ao governo chinês; afinal, os endereços IP, encontrados na investigação, foram usados, no passado, por hackers associados ao governo da China. Falei isso claramente ao meu amigo chinês, agora suspeito de ser um agente duplo de Bel-O-Kan. Enviei, assim, como representante do BDP, um protesto diplomático ao governo chinês e ao Reverendo. Inclusive, relacionei tais ataques a outros que aconteceram em abril do ano passado, procedentes da Rússia e do Irã. Aparentemente, o BDP estava imerso numa guerra virtual perigosíssima. Preocupado, telefonei a Rob Knake, analista de ciber-segurança no Conselho de Relações Internacionais de Washington, que me disse, de forma sigilosa:

    _A espionagem do futuro será assim; aliás, o futuro já é o presente.
    _E Bel-O-Kan nisso tudo?
    _Bel-O-Kan tem todas as capacidades necessárias para armar uma operação dessa escala, disso não há dúvida, embora por enquanto tudo sejam suposições. E tem os recursos humanos e a disciplina necessária para executá-lo, algo que uma organização privada não poderia fazer. Isso demonstra como se pode estar efetuando a espionagem, qualquer tipo de espionagem. Trata-se de operações realizadas através da rede, com muito pouco custo para os que as fazem, e, se derem certo, elevados benefícios.
    _ Mas… por que o BDP?
    _Por causa do processo helicoidal e das suas entranhas.
    _Aaah…
    _Lembre-se que, na China e na Rússia — talvez, no Irã — existe uma população abundante de jovens que são muito dedicados à causa de Bel-O-Kan. São jovens com conhecimentos de informática e com sentimentos indubitavelmente belokanistas. E para alguns deles
    uma operação assim seria um triunfo, uma medalha, um reconhecimento…
    _Mas não entendi ainda o interesse pelas nossas entranhas.
    _As vísceras dos Perrusi não têm qualquer valor monetário, como números de cartões de créditos ou informações sobre contas bancárias…
    _Sim, sim, isso eu sei…
    _Deixe-me completar: suas vísceras, após passarem pelo liquificador, podem trazer informações técnicas de engenharia de defesa, informação relativa aos exércitos americanos…
    _Minhas vísceras?!
    _Sim, claro, por que não?! Não as subestime! Teu intestino grosso, por exemplo, é um excelente material de análise política. Qual Estado-Nação não gostaria de tais informações?
    _Certo… Mas vou lhe dizer uma coisa: meu intestino grosso tem uma segurança fortíssima. Não tem só uma rede. Ele trabalha com diversas redes que não estão conectadas entre si, para salvaguardar a informação.
    _Se você diz… só estou lhe avisando do perigo. Não superestime a segurança de tuas entranhas. É só isso. Fique atento.
    _Ficarei.

    E ficarei mesmo. Se o Reverendo está, de fato, envolvido no ataque, ele se verá comigo. Esperarei o final do carnaval, porque ninguém é de ferro. Além do mais, no carnaval, só tem cerveja nas minhas entranhas.

    A Carnificina

    12 de fevereiro de 2010, às 11:39h

    Andava pela praia de Intermares. Se existe uma terapia, estava diante dela. A praia é o desemprego dos psicoterapeutas, pensei, principalmente dos lacanianos – por quê? Não sei, o pensamento veio assim, sem motivo específico e sem lógica. Aliás, nada contra os lacanianos; mas, associação livre acontece e devemos respeitá-la. De todo modo, a beleza ali era sideral. Vi passarinhos com cantos complexos e faisões com cores soberbas, beija-flores iridescentes, pousando em flores inimagináveis; insetos com carapaças douradas, cor de safira e de rubi; orquídeas enigmáticas; papagaios estridentes; borboletas que parecem duas mãos azuis batendo palmas; macacos com caras vermelhas, pretas e castanhas.

    Lembro-me de um dia no qual recolhi ali, nada mais, nada menos, do que 68 espécies de besouros para a coleção de Tsé-Tsé. O cabra é fascinado por besouros. Defende uma tese teológica de que Deus é um besouro.

    _Um besouro onipotente, onisciente e onipresente? – perguntei, uma vez.
    _Sim, isso mesmo.

    Não discuto com Tsé-Tsé, só pergunto. É uma atitude que preserva a minha razão. Discutir produz efeitos colaterais na alma. É uma plataforma para um surto psicótico, com delírios místicos e persecutórios.

    Bem, como dizia, passeava na praia paradisíaca de Intermares. Meus pés afundavam naquele areia cor de açafrão, única no planeta. O vento levantava a areia, e eu sentia, no ar, o cheiro aromático da praia. Olhei o céu, depois olhei o chão, pensei num frevo qualquer, mas desisti, porque não tinha nada a ver, imagine, fazer um frevo agora, quando reparei algo diferente na areia. Aparentemente, era uma criatura que jamais vira em Intermares. Tinha uma forma fantástica; na verdade, medonha. Ajoelhei-me para examiná-la melhor e a toquei com relutância. Com o toque, retirei minha mão imediatamente. Tinha a consistência de uma cobra. Olhei bem e percebi que era um animal mutilado: uma tartaruga. A coitada sofrera algum acidente. Estava sem casco, e suas costas estavam rasgadas numa espécie de incisão em forma de V, cujo vértice estava logo abaixo da cabeça. A barriga estava meio aberta e o couro fora puxado com tanta força que as patas traseiras, praticamente, foram arrancadas. Senti que o animal, de alguma forma, respirava. Era um movimento quase imperceptível, mas, prestando atenção, dava para notar. O monstro que fizera tal atrocidade tivera o cuidado de deixar a tartaruga viva e em agonia.

    Intermares é um lugar pacífico. Se não fosse, talvez não ficasse tão chocado com a cena. Foi uma tapa na cara. Não, não, não fora uma tapa — pior do que isso. Parecia aquela dor na região do fígado, que desengana qualquer um, apesar de o médico dizer que não sabe o que é, que fará exames, etc. e tal, mas já intuímos a condenação. Parecia a primeira mentira de sua amada, vinda de uma boca, que até então, fora incapaz de imposturas…

    O vento morno como leite que soprava do mar dourado, com todas aquelas tonalidades exuberantes, os azuis, os prateados e os verdes da mata atlântica, o próprio céu… nada disso impedia o pequeno horror que jazia aos meus pés. Encontrava-me, naquele momento, num estado de emoção raro na minha vida. Uma pena cavalar – estava com dó. Torci para que tartarugas não sentissem dor. Porém, não era uma suposta dor que me deixava naquele estado. A cena toda era intolerável, era obscena.

    Resolvi acabar com o sofrimento do bicho – ou o sofrimento que gerava meu sofrimento, pensei, tentando culpabilizar-me de alguma maneira, o que é muito comum, diante do sofrimento alheio, mesmo de uma tartaruga. Mas como matá-la? Estava apenas com minhas sandálias japonesas e não encontrei nenhuma pedra ao redor. Assim, foi na base da chinelada que comecei a empreitada mortal. E a criatura mostrou-se notavelmente difícil de matar. Bati, bati, bati muito – cansei de tanto bater. O corpo do bicho virou uma papa vermelha, mas, mesmo assim, parecia vivo. E continuei a bater. Eu era um tolo, já que estava causando mais dores na coitada do que, provavelmente, ela sentira antes – se é que tartaruga sente dor. Passei quase uma hora para fazer o serviço. Terminei exausto e fui me lavar no mar.

    Retomei a caminhada. De repente, tive um sobressalto. Olhei o chão e parei. Apressei o passo, parei novamente e fiquei imóvel feito uma estátua. Cobri meu rosto com as mãos, olhei o céu e pedi para parar aquele pesadelo. O que acontecia? Havia um rastro de tartarugas mutiladas que se estendia bem longe na praia de Intermares, até a Curva do Ticão. Nauseado, segui o rastro até o fim. Contei uns trinta corpos de tartaruga. Ainda bem que não gritam. Não aguentaria seus gritos.

    Depois da Curva do Ticão, tinha um mangue e, dentro dele, uma pequena clareira. O rastro terminava ali. Estaquei e arregalei os olhos. Tsé-Tsé, vestido de monge, estava a cerca de trinta metros de onde eu estava. Fiquei obervando. Ele estraçalhava, naquele momento, uma tartaruga. Colocava o dedo indicador junto do pescoço e arrancava o casco; depois, com a unha (jamais notara que o Reverendo tinha unhas tão notáveis), fazia a incisão em forma de V; enfim, virava a tartaruga e arrancava, com a mão em forma de cunha, a barriga do animal. Fazia o serviço de uma maneira cirúrgica. Havia um silêncio opressor na clareira.

    Não conseguia falar. Olhava, apenas. Tsé-Tsé não parecia doente, se deduzirmos sua saúde do uso poderoso que acabara de fazer dos dedos. Via um homem que era certamente Tsé-Tsé: altura, constituição, cor, feições — era reconhecível. Contudo, o supremo horror vinha também do fato de estar irreconhecível. Não parecia um homem doente, e sim um homem imensamente morto. Seu rosto tinha aquele terrível poder que tem, por vezes, a face de um cadáver, aquele poder de simplesmente repelir toda atitude humana concebível, como se qualquer atitude fosse tarde demais — a boca sem expressão, a fixidez sem tremor dos olhos, qualquer coisa de pesado e inorgânico nas dobras da face…

    Tsé-Tsé, enfim, notou minha presença e sorriu. Pensei que imaginava o que fosse um sorriso diabólico. Já lera várias descrições na literatura e pensava que sabia. Mas me enganara: eu não sabia. O sorriso de Tsé-Tsé não era amargo, nem de fúria, nem mesmo sinistro, nem sequer era trocista. Parecia me convidar a participar da carnificina como se fosse o gesto mais natural do mundo. _Venha comer um guaiamum, parecia dizer. O sorriso não era furtivo, não era envergonhado, nem um pouco conspiratório. Não desafiava a bondade, ignorava-a simplesmente até o ponto da aniquilação. Tsé-Tsé era o mal. Eu, até então, só vira tentativas infrutíferas e desleixadas de praticar o mal. Estava diante de um mal de cor. Mostrava uma horrível semelhança com a inocência. Estava além do vício – não era humano. E dava medo. Comecei a feder de medo. Um suor oleoso saía dos meus poros.

    (houve uma pequena pausa no terror quando pensei em limão e em povilho Granado, como formas eficazes de combater a minha inhaca. No fundo, sempre fedi. O fedor fazia parte da minha previsibilidade. O devaneio foi rápido e voltei à cena dantesca)

    Foi aí que gritei:

    _Por quê?!

    Tsé-Tsé não respondeu. Não sorria mais. Jogou a tartaruga mutilada no chão.

    De repende, à minha esquerda, apareceu Maroca com uma enorme rede de pescar. Fiquei aliviado com sua presença. Quase que choro. Diante do mal, chegara o bem.

    Perguntei:

    _O que aconteceu?!
    _Tsé-Tsé assistiu a “Lula, o filho do Brasil” e, depois disso, perdeu a cabeça.
    _Ele ficou assim por causa de um filme?
    _Você viu o filme?
    _Não, não…
    _Pois é…
    _E agora, o que fazemos?
    _Siga minhas instruções!

    Maroca me deu um lado da rede. Esticamo-la por inteiro. Ela jogou um pedaço de tartaruga a Tsé-Tsé, que o pegou com avidez. Aproveitamos o momento de distração, demos uma volta pela clareira e, quando ficamos atrás de Tsé-Tsé, Maroca gritou um “já!” e jogamos a rede no Reverendo. Ele se debateu como se fosse um animal. Dava urros de possesso. Cometi o erro de tentar segurá-lo e levei um chute que me deixou no chão, completamente atordoado. Maroca me chamou de burro e me mostrou uma injeção. Sorrindo, disse: _não tem demônio que aguente uma injeção como essa aqui! E a aplicou na bunda de Tsé-Tsé. Cinco minutos depois, o doido dormia o sono dos justos.

    Arrastamos Tsé-Tsé até a praia. Já nos esperava uma jangada. Maroca trouxera também alguns ajudantes, que recolhiam as tartarugas mutiladas, matavam-nas rapidamente e as jogavam numa fogueira. Tudo era feito de forma limpa e organizada. No final, não sobrara nada da carnificina.

    Na jangada, olhava o mar calmo e pensava sobre os últimos acontecimentos. Olhei Maroca, o corpo de Tsé-Tsé, que roncava horrores, e fiz uma pergunta retórica:

    _Tudo isso por causa de um filme?
    _Pra você ver…

    Olhei o mar e senti o vento. Intermares voltara à sua tranquilidade habitual. Era só uma questão de esquecer. Queria esquecer. Há estórias que precisam ser esquecidas, pois não cabem na memória das pessoas. Comecei a pensar noutro assunto. O silêncio ajudava. Tudo levava a isso. Paz, enfim.

    Junto da jangada, vi uma tainha pulando e achei bonito.

    (esqueci-me de colocar: a crônica acima tem, literalmente, passagens do romance de ficção científica de C.S Lewis, “Perelandra: viagem a Vênus”. Faz parte de uma trilogia. Num dos livros, li o mais assombroso diálogo com o diabo de que tenho notícia; inclusive, já utilizei várias vezes tal diálogo para ilustrar algumas crônicas)

    Palidroma

    24 de setembro de 2009, às 18:04h

    morte2


    Nonsense de Tsé-Tsé

    Estava este sacerdote ateu e irreverente assistindo, numa livraria da cidade vizinha, ao lançamento de um livro, quando ouvi uma voz atrás de mim.

    ─ Reverendo! Por aqui?

    ─ Oh! Romeu! Não sabia que gostava de livros. ─ Respondi.

    ─ Sempre detestei, Reverendo! Vim por causa de Luíza.

    ─ É! Parece que o livro é bom mesmo. Tanta gente, né?

    ─ Duvido! Nenhum livro presta, Reverendo.

    ─ Não diga besteira! Aliás, você anda desaparecido. Tem lido minhas Memórias? ─ Falei para o intruso.

    ─ Ora, Reverendo! Lia alguns Capítulos mas tive que parar por causa de Luíza. ─ Respondeu a voz que teimava em falar por trás de mim.

    ─ E o que é que ela fez? A propósito, onde está Luíza? Nunca mais a vi. ─ Perguntei.

    ─ Olhe à sua esquerda. Ela está na companhia de um rapaz magrelo.

    ─ Puxa! Como ela está pálida! Precisa de umas vitaminas feitas com nossas flores do mangue. Diga pra ela, por favor. ─ Observei.

    ─ O senhor não sabia? Ela morreu, três meses atrás.

    ─ Não diga! Coitadinha! Cheia de vida! E o rapaz está mais pálido do que ela. ─ Observei.

    ─ É verdade! Morreram juntos numa tragédia familiar.

    Voltei-me, então, para meu interlocutor e notei que sua palidez era infinitamente maior do que a do casal mencionado.

    ─ Bom, caro irmão! Pelo que vejo, sua palidez não fica por menos. ─ Disse-lhe um pouco assustado.

    ─ Ora, Reverendo! O senhor não sabia? Foram apenas três tiros. Os dois primeiros pegaram na cabeça dos dois. Luíza estava me traindo com o magrelo. O terceiro, deixei para mim mesmo. Morremos juntos, portanto.

    ─ Interessante! Ainda se mata por causa disso? ─ Observei sem muito interesse.

    ─ Desculpe, Reverendo! Mas, estou atrasado. Quer me acompanhar?

    Fui conversando sobre assuntos diversos com o pálido homem até o portão da Comunidade. Ele se despediu, dizendo-me:

    ─ Obrigado pela companhia, Reverendo Tsé-Tsé. Sempre admirei sua obra social nas palafitas. Recolho-me, agora, ao meu apartamento celestial.

    Atravessou uma das palafitas e sumiu no mangue.

    Olhei no meu relógio. Era meia-noite!

    Cruz, Credo! E ainda tem gente que acredita em alma penada!

    A prova da paixão

    6 de setembro de 2009, às 16:37h

    Psss… silêncio, pessoal… estou aqui, na surdina, lendo alguns manuscritos do baú secreto de Tsé-Tsé. O dito-cujo caiu, pela miléssima vez, no conto do chá de aruaxi.

    _Tome, Tsé-Tsé, esse chá lhe fará bem!
    _Você é muito escorregadio, Psi de Intermares.
    _Só lhe quero o bem.

    Apesar da desconfiança, ele tomou o chá. Dorme agora, profundamente. Aproveitei o ensejo e fui vasculhar seu baú. Há boatos de mapas de tesouro, fórmulas mágicas, remédios milagrosos. Quem encontrá-los ficará podre de rico. Eu quero ficar podre de rico. É o tipo de podridão que procuro na vida. Aliás, que eu caia de podre, mas rico!

    Bem, vasculho, vasculho e, até agora, não encontrei nada de importante, exceto…

    Exceto partes de um diário do Monsenhor Lippi. Partes explosivas, eu diria. Belas, até. Parece que houve um romance tórrido entre Susan Bates e Lippi. Inclusive, há sugestões de que planejaram viver juntos, imaginem só. Não sei como realizariam esse plano louco, mas as anotações do diário levam a essa conclusão. O plano era detalhado a ponto de nele aparecer a primeira compra da casa. Não era uma cama, nem uma geladeira, nem mesmo um sofá. Era um ficheiro! Sim, um móvel onde se guardam fichas, devidamente classificadas. Sendo dois intelectuais, amantes do conhecimento, a primeira coisa que pensaram, para o futuro lar, fora um ficheiro.

    Confesso que fiquei, inicialmente, encafifado com isso. Que casal estranho, pensei! Mas, quando li a ficha No 1 do ficheiro, mudei imediatamente de idéia. Na verdade, o ficheiro era a prova de uma paixão tão imensa, que o tempo parou para ler.

    Ficha No 1

    Feliz aniversário. Agora, nós podemos, realmente catalogar o que pensamos, ou melhor, o que somos. Antes de sermos qualquer coisa, precisamos ser o que somos. Isto somente poderemos conseguir pensando; e pensando organizadamente. Isto que agora é seu, constitui-se o princípio de nossa casa. Meus cincos sentidos estão abertos para você. Através disso vivamos, e entendamos bem o que o homem é, pois com tal entendimento teremos pago nossa dívida para com a humanidade.

    Susan, minha vida, FELIZ ANIVERSÁRIO!

    A primeira ficha coincidia com o aniversário de Susan. Não havia data. Procurei outras fichas, mas não as encontrei. Só tinha aquela. Lippi fazia uma interessante conexão entre  ser e pensar. Catalogar o que se pensa é catalogar o que se é. O ser do nosso ser é anterior a outros modos de ser. Para sê-lo, é preciso pensar. Pensando, somos — em suma. A dívida com a humanidade revela uma forma de iluminismo cristão? Lippi era um cartesiano?

    Ops!, chegou gente, preciso fechar o baú e me esconder…

    AC/DC

    31 de agosto de 2009, às 11:15h

    Lembro-me, perfeitamente, desse show. Fora organizado pelo ARA (Associação dos Reverendos Ateus — cujo secretário geral era, nada mais nada menos, do que Tsé-Tsé). Estudava na Universidade de Essex. Vivia na pindaíba, ganhando uma bolsa miserável. Naquela época, analisava a fauna e a flora do mundo dos planctônicos. Dizia sempre que o futuro estava no plancton. Ninguém acreditava, claro. Mas foi uma época grandiosa. Tudo era novidade. Parecia que o mundo iria mudar. Ledo engano.

    No vídeo, estou lá no fundo. Tinha um cabelo meio power, jeitão árabe. Hoje, seria preso em qualquer aeroporto ocidental. Então, era recebido de braços abertos. A Europa precisava de mão-de-obra barata. Parecia que o racismo desaparecera para sempre. Ledo engano.

    Gostava de rock pesado. Tinha muito show desse tipo na universidade. Foi aí que apareceu a banda australiana. Achei curiosíssimo uma banda de rock da terra do canguru. Fiquei impressionado. O guitarrista era completamente louco. Tudo bem, o ambiente era louco.

    Em cima de meus ombros, estava o futuro psi de Intermares, ainda uma criança.  Achava que um show do AC/ DC fazia parte de sua educação musical. Depois de fazê-lo decorar Stairway To Heaven do Led Zeppelin, achei que era necessário algo mais pesado, com o objetivo de relativizar a leveza de sua vida.  Inclusive, em 1979, um ano depois do show, o AC/DC faria Highway to Hell, uma paródia da música angelical do Led.

    Bebi tanto que, quando cheguei em casa, atinei que esquecera o coitadinho na universidade. Fui correndo buscá-lo. Não encontrei no salão. Fiquei desesperado. Foi aí que um segurança disse-me que o menino tinha sido recolhido e estava nos camarins da banda. Fui lá e o encontrei brincando com a guitarra de Angus Young. Ainda consegui uma camisa e um autógrafo da banda. Só fiquei decepcionado com uma coisa: a banda não fazia parte de nenhuma seita satânica, como apregoavam os boatos. Pena, pois fiz parte, naquele tempo, de uma seita de nome 666 e participei até de alguns sacrifícios humanos, tipo baby-beef, com rituais astecas, muito bem elaborados, por sinal.

    Tempo legal.

    Imagem de Amostra do You Tube