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Comida rara e cerveja

12 de março de 2010, às 10:15h

O alemão olhava sua cerveja. Estava com a cara vermelha de tanto beber. Bateu com sua caneca na mesa e esbravejou:

_Já comi tudo o que podia ser comido!

E alisou sua enorme pança, olhando todo amostrado para o biólogo.

_Já comi urubu, timbu e morcego de Intermares.
_E esses troços tinham gosto de quê?

O biólogo estava alto. Beber com o alemão não era fácil. Além do mais, embebedava-se rápido. E duvidava um pouco das histórias do alemão.

_O urubu tem gosto de faisão podre. O timbu, de molusco de carniça…
_Não é o contrário, não?! Nunca ouvi falar de molusco de carniça.
_Biólogo de merda.
_Alemão mentiroso.
_O morcego de Intermares parece com porquinho-da-índia, só que doce.
_Tá com a porra!
_Pois comi o papagaio norturno da Nova Zelândia, um lêmure raro de Madagascar e panda gigante. A bisteca de panda é uma coisa!
_Sei… E mamute? E preguiça gigante?
_Sim — depois de descongelar, é claro. Como você adivinhou?
_Não adivinhei. Deduzi.
_Tudo bem… agora, melhor do que mamute é mastodonte — carne boa. Comi lemingues, tigre da Tasmânia, tartaruga gigante, rinoceronte de Sumatra.
_Lemingues suicidas?
_São os melhores. É só esperar embaixo de uma falésia. Eles caem, praticamente, direto no prato.
_Lemingue suicida é lenda.
_Biólogo de Discovery.
_Alemão mitômano.

O biólogo já enjoava de tanta comida. Mas perguntou:

_E besouro?
_Comi vários, mas você me pegou. Não comi todos. Se comesse sete espécies por dia, levaria mais de vinte anos para comer um representante de cada tipo de besouro.
_É muito besouro.
_Oh, si.
_Dizem que o besouro é a imagem e a semelhança de Deus.
_É papo. O besouro é imagem e semelhança de Tammuzteca, um deus asteca.
_Ele não é uma vespa?
_Não.

O alemão tomou um gole de sua cerveja e limpou seu bigode.

_Cerveja alemã. É uma cerveja boa. E é antiga.
_Mas a mais antiga é a egípcia. Há cinco mil anos, os egípcios já faziam cerveja.
_É mesmo?
_Pois é… Só que não tinham lúpulo e, assim, aromatizavam a cerveja com cardamomo e coentro. Ficava encorpada, saborosa e refrescante. Só começavam a carregar as pedras para a construção de alguma pirâmide, depois de uma cervejinha. Tradição milenar.
_Tem lógica.

O alemão não estava gostando da direção da conversa. Pensou em falar sobre colegiais peitudas. Não tinha disso na Paraíba. Mas resolveu encarar a provocação do biólogo.

_Mas fomos nós que inventamos a lata de cerveja.
_Que nada, foram também os egípcios.
_A lata é uma invenção alemã e relativamente moderna.
_Pois os egípcios faziam lata, usando um amálgama de cobre e latão, muitas vezes com um toque de prata. Com isso, a cerveja aguentava o calor. Pense, alemão, onde os antigos egípcios guardariam sua cerveja?

O alemão ficou calado. Aparentemente, não quis mais falar, pelo menos sobre cerveja. Continuou bebendo, em silêncio. O biólogo resolveu quebrar o gelo.

_Você torce pelo Bayern de Munique?
_Não, torço pelo Schalke 04. O clube mais popular da Alemanha.
_Não é o Bayern?
_Não.

E retomaram a conversa.

A espera do cara

12 de março de 2010, às 10:05h

Cruzes, que sol! Pensou o cara, na praia, enquanto esperava. Estava sem dinheiro. Já bebera duas águas de coco na base do fiado. O barraqueiro desconfiava, mas aceitou o pedido. O cara tinha consciência de que as dívidas cresciam na praia, mais do que cogumelos em dias de chuva. Mas ele esperava. Na espera, tinha esperança. Se o mundo fosse absolutamente determinado, a esperança seria um ato de desespero; por isso, tinha esperança de que, no mundo, existisse uma brecha, isto é, antes da pura determinação, houvesse um acaso fundador — a repetição do acaso criaria a necessidade, filosofou, antes de terminar o coco. Sua esperança, naquele momento, era apenas uma manifestação de uma esperança primordial.

O cara ficou noiado com a possibilidade de que a metafísica da esperança fosse uma ilusão. Se fosse uma ilusão, sabia que esperava em vão.

O mundo podia ser aberto, mas o calor fechava tudo. Havia qualquer coisa de demente naquela temperatura. Inclusive, aos poucos, o cara esquecia do que, afinal, esperava.

_Esperar o que ou quem?! Perguntou ao barraqueiro
_Eu só espero meu dinheiro.
_Pelo menos, você sabe o que esperar.
_Pois é…

O cara tomou mais uma água de coco, enquanto esperava. O barraqueiro, intuitivamente,  descobria que caía numa armadilha.

_A espera, no fundo, é uma promessa — disse o cara ao barraqueiro.
_Tenho medo de sua promessa. Você está apenas diminuindo o peso da imprevisibilidade. Você promete pagar o que deve, mas o futuro é totalmente incerto; por isso, tentando corrigir essa incerteza fundamental, você promete.

O cara meneou a cabeça. O barraqueiro sabia do que falava. Em alemão, promessa é versprechen, que também significa lapso…

_Prometer é um ato falho — completou magistralmente o pensamento do narrador, o barraqueiro.

O cara achou muito estranho o narrador entrar assim no meio da estória. Não gostou.

_Você completou o narrador.
_Completei, uma ova! E os cocos?

O cara estava achando esquisito o vocabulário do barraqueiro — ele era um outro. O cara, também, não falava desse jeito. Ele era outro. A conversa era para ser banal, completamente prosaica. Não era pra ser esse lodo filosófico. Toda conversa é um exílio, no fundo, mas toda compreensão implica a responsabilidade…

_Porra, pára com isso, narrador!
_Não sou “narrador”. Sou um barraqueiro, que vende cocos e que, ainda, não foi pago.
_Não falo com você, rapaz.
_Fala com quem, então?! Pode endoidar à vontade, contanto que pague meus cocos.
_Os cocos são da Natureza, da Deusa Gaia, avatar, avatar!

_Porra, tá vendo?! Eu não disse essa idiotice! Foi o narrador.
_Esse tal de narrador vai pagar meus cocos, por acaso?

O cara olhou o barraqueiro. Ali, com narrador ou sem narrador, para o bem ou para o mal, ali houve…

Ops!

_Vá, vá, continue, já tomei mesmo a decisão… — disse o cara, meio desanimado.

… esse fiat lux que é a decisão, esse ato de vontade que mata toda discussão, a pura prática…

O cara olhou pra cima, mandou uma dedada e saiu correndo, pegando o narrador  de surpresa. Sem o cara não tinha estória, não tinha espera, não tinha nada. O que escrever, agora?! O constrangimento literário foi grande. Além do mais, como acabar a estória?

O barraqueiro se arretou, olhou pra cima e disse:

_Ô, meu chapa, você vai pagar meus cocos?!

Ninguém respondeu.

_E meus cocos, carai?!

De repente, o céu inteiro começou a tremer, e o barraqueiro escutou uma voz tonitruante:

_Ah, vá se danar!

O céu tremia e estava vermelho. De toda parte, começou a cair uma chuva de meteoritos radioativos. Não sobrou nada, apenas um buraco fumegante. Não ficou vestígio algum do barraqueiro.

O narrador sabia que não era a melhor forma de acabar a estória. O ato final fora vulgar. Apelara, enfim. E já sentia os efeitos colaterais da resolução. Começara a existir, desde a fuga do cara, um narrador do narrador. Era um efeito de linguagem impossível de se evitar.  O narrador, estando na narrativa, cria um outro narrador. O perigo é uma cadeia infinita de narradores, assustando os personagens. A infinitude do comentário sem fim e do comentário do comentário, esse duplo que, na interpretação do Talmud…

CABROOM!

(…)

Os Marcadores

11 de março de 2010, às 22:35h

Os gays venceram. Sei, é uma frase retumbante e, admito, um tanto exagerada. Mas venceram — o que posso fazer, senão reconhecer o fato?! Numa linguagem gramsciana, impuseram sua hegemonia. Marcaram posição em todos os campos da masculinidade; aliás, a masculinidade é, agora, uma circunstância indefinível que existe de forma ambígua. O espaço da virilidade é um campo minado por minas cor-de-rosa. Um passo em falso, principalmente para trás, meu chapa, pode ser fatal. Não marque bobeira, pois bobo, você já é, e muito! O perigo de sofrer gozações extremas é alto. A autoestima pode baixar de vez, durante muito tempo.

Reparem no venerável bigode, símbolo máximo de todos os simbolismos homínidas. É gay! Hoje, um ostrogodo, um godo do leste, seria confundido com um visigodo, um godo do oeste – para um bom entendedor, basta. Digo mais: atualmente, é comum confundir o brado de reconhecimento de um chefe corso com um… javali! A confusão é grande, sem dúvida. Por isso, tentei alertar Perrusi Pai sobre a ambiguidade contemporânea do bigode:

_Rapaz, cuidado com o bigode.
_Bigode?! Quem é bigode?!
_Os pêlos que nascem sobre o lábio superior, meu pai.
_Ah, pensei que fosse Bigode, da seleção de 50.
_Não, não…
_E daí, o bigode?
_Sabe como é que é, né?!
_Não, não sei como é que é.
_Freddie Mercury matou o bigode.
_Matou?!
_Não, não é isso. Quero dizer que Freddie Mercury usava um baita de um bigode.
_O que é que tem?
_Nada, só estou dizendo.
_E quem é Freddie Mercury?!
_Deixa pra lá…

Meu pai não sabe do perigo, coitado.

Os gays tomaram conta do corpo masculino. O corpo, deles e ninguém tasca, porque viram por último. A virilidade foi desconstruída, ou melhor, desmilinguiu-se a tal ponto que virou um atributo… gay. A situação ficou paradoxal, pois ser efeminado também é… gay. O que nos restou? Gordura, muita gordura; um gosto pronunciado pela fritura; uma barriga imensa de cerveja; muita vulgaridade e insensibilidade; uma inhaca entranhada; muito peido e muito arroto. Sim, notei que peidar e arrotar muito é o cúmulo da heterossexualidade.

Atualmente, por exemplo, comprar uma roupa tornou-se uma demarcação de território. Depois de um tempão sem comprar roupas, mas preocupado com a minha imagem — o que, convenhamos, é uma preocupação sujeita a questionamentos — pedi a um amigo, que é um entendido da teoria queer, que fizesse uma lista de marcadores. O que é um marcador? Ora, é um sinal qualquer na roupa, esbravejando sua condição gay. É um termo da moda, muito importante, no momento, nas classificações sociais. Sendo uma construção social, o marcador muda o tempo todo.

Daí a noia, tá ligado?! Tem que ficar antenado nas mudanças. Mas, na hora da compra, não se pode relativizar um marcador. Há um marcador na roupa? Decida-se, meu chapa, ou saia do armário de vez ou não leve a roupa.

Assim, muito gentil, meu amigo me deu uma exaustiva lista de 150 marcadores.

_150?! Como, 150?! – gritei, surpreso.
_E olhe que fui comedido – disse meu amigo, dando uma rápida piscadela.
_Mas é impossível encontrar uma roupa que não tenha pelo menos um desses marcadores!
_Quase impossível. Fique sem roupa, queridinho, ande nu – deu mais outra piscadela.
_Veja, pare com essas piscadelas, que você me deixa nervoso. Fiz um pedido de amigo. Não me complique.
_Tá certo. Mas roupa agora é assim. Aliás, roupa boa é assim. Se quiser sem marcador, vá na Renner, na Riachuelo ou C&A.
_Eu sempre compro lá mesmo. Só que, agora, queria uma roupa um pouco mais cara e boa. Que tal a Seaway?
_Nossa, totalmente gay!
_Roupa cara ou a Seaway?!
_As duas…
_Certo, certo, não quero mais roupa cara, só uma um pouco melhor. Mas a Seaway não é uma loja de surfista?
_Surf agora é moda gay. Aquela prancha, aqueles corpos… – e, sem querer, deu uma piscadela.
_Cacetada! Antigamente, surfista, no máximo, era maconheiro.
_Maconha é bi!
_Aaah…

Fiquei pensando. Onde comprar roupas, afinal?! Roupas sem um dos 150 marcadores. De repente, encontrei o lugar, a loja onde compraria minhas camisas:

_E a Hering?

Ele pensou, pensou, fez beicinho, e disse:

_Huum, e aqueles dois peixinhos? Peixinho é tão gay…
_Os peixinhos são HTs. Um casal HT. E não têm marcadores, naquelas camisas básicas.
_Tem baby-look.
_Não compro baby-look.
_Ah, então, pode. Compre aquelas camisas “polo”, horrorosas e sem graça.
_Isso, camisa polo. Adoro camisa polo.
_Cuidado com a cor.
_Quais são as cores que não são marcadores?
_Preto ou cinza. Ou bege.
_Adoro essas cores.
_Gostar de cor é gay, e bege, queria te enganar, é HSH – e deu uma risadinha.
_Detesto cores.

No fundo, ele parecia desapontado. A hegemonia parava ali na Hering e seus peixinhos HTs. Ele sabia que tinha perdido uma batalha. Eu esperava que ele esquecesse da guerra.

Antes de ir embora, soltei um pum barulhento e fedegoso.

Ele detesta quando faço isso…

Conversa oca

8 de março de 2010, às 14:03h

Umas das minhas crônicas favoritas de Dimas.

Por Dimas Lins

Ela levantou da rede e foi em direção à cozinha buscar outra garrafa de vinho, enquanto eu permaneci jogado no sofá perdido em nenhum pensamento. Ao retornar desta vez, trouxe à mão um vinho francês com uma composição de uvas cabernet sauvignon-syrah, bastante popular nos supermercados brasileiros. Observei quando ela derramou na minha taça um líquido de cor púrpura muito escuro, quase roxo, com pouca transparência. Depois, encheu também a sua taça e me deu um beijo na boca. Parou alguns segundos e, ainda em pé, ela me olhou de cima e me perguntou em quê eu estava pensando.

- Em nada – respondi.

(Um amigo me disse certa vez que o homem, e só ele, conhece a metafísica do vazio, a nulidade do ser. Ele diz que as mulheres costumam nos apontar o dedo e perguntar “o que você está pensando?”. Elas não acreditam na capacidade masculina de pensar em absolutamente nada. Esta é a sua tese. E a minha também.)

- Ninguém pensa em nada, pois o cérebro não pára. E como ele é o órgão do pensamento e da coordenação neural, você, com certeza, devia estar pensando em alguma coisa.

- Se você entende o pensamento como uma atividade química, eu concordo. Mas há uma grande diferença entre isso e uma atividade psíquica consciente e organizada. No exato momento em que você me perguntou, posso lhe assegurar, meu cérebro agia de maneira livre, independente e incondicionada. Ou seja, ele estava oco, como a touca de um bebê sem cabeça.

E eu ri à beça.

- Toda essa conversa sem pé nem cabeça para ocultar um pensamento?

- Querida, o fato é que mulher nenhuma acredita na intersecção nula, no vão, no oco, no vácuo, no nada.

- Acredito na nulidade de ação dos homens, não do pensamento. O homem existe, logo pensa… Ainda que sejam apenas tolices.

E ela riu e riu e ria. E continuou:

- O nada é a negação da existência ou a não-existência! Então, segundo a sua teoria, se você pensa em nada, logo você não existe. Neste caso, você seria apenas a conseqüência do vazio da minha taça ou o resultado da antimatéria do vinho que eu tomei.

Eu gaguejei e disse sim, mas sim, mas não, nem isso.

- Pensar em nada não nega ao ser a sua existência, embora, nessas circunstâncias, os impulsos elétricos do sistema nervoso central se aproximem de zero tendendo ao infinitivo. É como atingir o Nirvana! Pensar em nada é a supressão da consciência individual!

Ela não respondeu e caímos no silêncio. Tomei minha taça nas mãos e olhei-a como se fosse um filósofo e tivesse criado a frase definitiva do conhecimento humano: “pensar em nada é suprimir a consciência individual!”. Tomei um gole do vinho e abri um leve, mas enigmático sorriso.

- De quê você está rindo?

- De nada – respondi.

- Pensar em nada, eu já nem consigo engolir, mas ri de nada? Impossível! Como a supressão da consciência pode causar espasmo nos músculos faciais?!

- Desta vez o nada não foi absoluto, mas relativo. Não pensava em nada, mas algo que não significava nada. Na gradação do valor do pensamento, o que acabei de pensar não tinha relevância.

- Irrelevante, mas capaz de causar um espasmo muscular?!

Fiquei em silêncio, mas ela manteve-se na ofensiva.

- Você está apaixonado?

- Eu sempre estou apaixonado.

- Por quem?

- Por você, por uma música, por um livro, por um verso… Por muitas coisas.

-Você está apaixonado por outra pessoa?

- Por que essa pergunta oca agora?!

- Quando um homem ri assim e está com a cabeça distante é por que está apaixonado por alguma mulher!

- Meu bem, você está ansiosa e a ansiedade é a expectativa da dúvida.

Sorri, valorizando, por causa do vinho, a frase que acabara de dizer: “a ansiedade é a expectativa da dúvida!”.

- Basta de filosofia! – ela gritou, deixando o nada de lado e partindo para o tudo.

Retrocedi, pois sabia que aquela conversa oca ia dar em nada. Respirei fundo, bebi um pouco de vinho e dei-lhe um beijo na boca. E ela correspondeu aquele beijo.

Especulação

1 de março de 2010, às 8:41h

Tomando uma cervejinha com um amigo petista…

E querendo chatear…

_E se Serra desiste?!
_Aí, meu chapa, será a nossa glória e a humilhação dos tucanos!
_E se, com a desistência de Serra, Aécio topa sair candidato a presidente?

Houve um silêncio. O amigo tomou lentamente a cerveja. Colocou mais no copo. Disse que a cerveja estava meio quente.

_Por que você diz isso?
_É só uma especulação. Estamos num bar, lugar de especulação.
_Não gosto de especulação. Não faço como você, revoluções num bar.
_Não seja agressivo. E eu nem mais faço revoluções num bar. Desde 89, aliás… É um tempão. Só gosto de especular.
_Detesto especulações. Sou é pragmático! Pra mim, política é pão-pão, queijo-queijo!
_Justamente, se o pão e o queijo de Minas se candidatar e colocar Ciro como vice?

O amigo ficou verde. Afastou as batatinhas de si.

_Essa cerveja tá uma merda!
_Tá meio quente, né?! Mas tudo tá quente, aqui, em Recife.
_Não aguento mais esse calor. Tô me sentindo mal. Acho que foi aquele bolinho de bacalhau…
_Aécio, como candidato a presidente, e Ciro, como vice: é pauleira, hein?!

O amigo levantou-se da mesa. Olhou-me com uma cara meio de choro. No seu semblante, parecia dizer: _por que você faz isso comigo? Eu ia responder que faço porque sou mau feito um pica-pau. Mas ele  estava verde-escuro e, antes que esboçasse qualquer ação,  saiu correndo direto ao banheiro.

Era a terceira vez que acontecia tal fato; o terceiro petista consecutivo que corria ao banheiro diante de meras especulações. Ou era a especulação ou o bolinho de bacalhou do bar era, com efeito, uma porcaria.

Continuei a beber, sozinho. A cerveja, realmente, estava quente.

Calor medonho

27 de fevereiro de 2010, às 13:15h

Todo mundo sabe que faz um calor danado em Recife. É oleoso, pegajoso, opressor. Por isso, morando perto do rio, junto da água, portanto, coloquei um calção de banho, minhas sandálias havaianas e fui andar na avenida. As pessoas me olhavam, alguns de maneira curiosa, outros mais inquisidores — as velhinhas, aparentemente, constrangidas. É um lugar de exercício e de passeio, a avenida Beira-Rio. Voltei ainda com mais calor.

Tinha que ir à cidade, ali no final da Boa Vista, perto da ponte e do rio. Com tamanho calor, fui como estava, isto é, de calção de banho e de sandálias, mais uma bolsa com meus pertences. Fui de ônibus, já que estava sem carro. Achei estranhas as olhadas insistentes das pessoas na parada. Era um ponto de ônibus perto do rio. Quando subi para o ônibus, não fui barrado pelo cobrador, porque ele ficou, aparentemente, surpreendido demais comigo. Não entendi bem o motivo, mas não me importei e deixei pra lá. Consegui um assento e fiquei sozinho, ostensivamente sozinho. Ninguém queria, vá lá saber, sentar do meu lado. Tudo bem, sou solitário mesmo e detesto conversar com o vizinho num ônibus. O inimigo é o Vizinho. Eles sempre conversam sobre tudo e sobre nada. Fiquei na minha.

Saltei do ônibus nas imediações do rio e do cinema São Luís. O calor estava insuportável; o sol, de lascar. Ainda bem que pusera protetor solar, antes de sair. Notei que as pessoas me olhavam, algumas crianças apontavam, e eu continuava a não entender a razão. Fui numa lojinha perto do cinema, o único lugar do planeta que tinha a pilha de meu relógio. O funcionário me atendeu friamente. Uma mulher, ao meu lado, parecia mal-humorada e se abanava toda. Praticamente, não fui notado. Comprei minha pilha.

Atravessei o rio. Uma cidade com rio e mar tem seus privilégios. Recife podia ser linda, pensei. Não é. Mas, na ponte, apreciava a possibilidade de sua beleza. Sentia, também, seu cheiro real de mijo. Nunca entendi bem por que esse cheiro é tão presente. Os recifenses, no centro da cidade, mijam sem parar? Provavelmente, séculos de mijadas causaram essa impregnação. Talvez, os culpados tenham sido os holandeses. Amsterdam tem cheiro de mijo? Não me lembrava mais, infelizmente. Como fazia muito calor e um sol de rachar, a beleza potencial desmilinguiu-se como uma maquiagem num rosto cheio de suor.

Andei até o Paço da Alfândega. Ali, no xópi center, começaram os problemas. A segurança me barrou. Estava sem camisa. Achei justa a proibição. As regras eram claras. Fazia parte do jogo. Mesmo assim, insisti:

_Veja, eu compro uma camisa ali naquela loja.
_Não pode. Não pode entrar sem camisa. Pra comprar tem que entrar.
_Mas está um calor danado aqui fora. Andar de camisa nesse clima é maluquice.
_Aqui, não sinto calor.
_Claro, o senhor está num ambiente climatizado.
_Pois é…
_Não posso entrar?…
_Não.

Fui embora. Notei que o segurança falava no seu comunicador. Não me apontava, mas acho que falava de mim. Sem muito o que fazer, fui andando até o Marco Zero, lá junto do mar. Foi aí que percebi, aproximando-se, um carro de polícia. Os policiais saíram do veículo e pediram meus documentos. Tinha todos, inclusive meu passaporte, pois queria ir até a polícia federal, ali no cais do porto.

_Passaporte?! Perguntou um policial, o mais velho e com cara de experiente.
_Sim, vou à polícia federal.
_Seu passaporte está irregular?
_Não propriamente. Quero só atualizá-lo.
_O senhor pretende ir à polícia federal de calção de banho e sem camisa?

Comecei a me irritar com a pergunta impertinente e sem lógica.

_Faz um calor medonho, não acha?
_Com calor ou sem calor, não pode andar nu pela cidade.
_Não estou nu.
_Quase.
_E estou perto do mar.
_Não entendi a relação.
_Mar é água, assim como rio. Na praia, andamos de calção de banho. E ainda tem o calor…
_Não estamos na praia.
_Mas estamos pertíssimo do mar.
_O senhor não pode andar desse jeito no centro da cidade.

Comecei, de fato, a ficar irritado.

_Onde está escrito que não posso andar de calção de banho? Qual lei me impede de andar assim no Marco Zero?
_O título VI do Código Penal trata dos crimes contra os costumes.

Opa! Não é possível que tenha encontrado um policial inteligente e que conhece as leis. É muito azar.

_Você está me dizendo que andar de calção de banho, nesse calor infernal, é um atentado ao pudor?
_Mais do que isso: minha dúvida, agora, é saber se haveria um atentado ao pudor sem violência.
_Violência?! Qual é a violência que estou cometendo?
_Ao pudor das pessoas, meu senhor.
_Mas, por exemplo, o atentado ao pudor mediante fraude exclui a violência!
_Pode ser… O senhor, então, confessa o atentado ao pudor e, ao mesmo tempo, que está fazendo uma fraude?
_Confesso nada. Só tentei dizer que tem atentado ao pudor sem violência.
_Estou, assim, diante de um atentado ao pudor sem violência?
_Você quer me empulhar. Eu não quis dizer isso.
_O senhor quer dizer o quê, afinal de contas?
_Quero dizer que tenho direito a andar de calção de banho no Marco Zero.
_Não tem. O senhor atentou ao pudor do segurança do xópi e daquela senhora ali.

De fato, tinha uma velhinha no outro lado da calçada. Quando me viu olhando, gritou:

_Tarado!!!
_Viu, só!? A senhora ali está indignada com o senhor. Por falar nisso, o senhor é um tarado?!
_De jeito nenhum! Não me ofenda. Essa senhora deve ser da Opus Dei!
_Aquela senhora acusou o senhor de tarado. Tenho que interrogá-lo. Gosta de meninas ou de meninos?

Fiquei fulo de raiva. Tentei ser irônico e desafiei, de vez, a autoridade e os bons costumes.

_Menininhas. Não gosto de velhinhas, certamente.
_De que idade?
_Nove anos. Pode ser de dez, onze, doze, no máximo. Quando aparecem os peitinhos e os pentelhos, não acho mais graça, meu pau já não fica duro.

O policial abriu bem os olhos, olhou o colega e disse:

_Chico, algema esse fdp aqui. Esse tarado!
_Não, não, estou brincando! Veja, tenha calma, por favor. O calor está infernal. Saio de casa de calção de banho, estou junto do mar e da água, e me chamam de tarado.
_Não se brinca com autoridade, meu senhor.
_Tudo bem, mil desculpas. Estou estressado. Sinto-me injustiçado.
_Não é o senhor que decide sobre a justiça nesse mundo. Vamos levá-lo à delegacia.

Fiquei com medo; na verdade, apavorado. Eu, na delegacia, preso numa cela com outros presos, e de calção de banho! Ia me lascar, com certeza. Decidi apelar. E lancei uma última cartada.

_Veja, a gente podia discutir melhor. Sabe como é que é, né? O preço da justiça… E fiz a minha melhor cara de jeitinho.
_A justiça é incorruptível, senhor, seus agentes, não. O senhor está muito encrencado.
_A gente podia se acertar. Juro que volto, agora, pra casa.
_Se acertar? Isso é uma cantada?
_Não, não! Não é isso…
_Estou brincando.
_Aaah…
_O senhor volta de táxi.
_Tudo bem, de táxi. Quanto?
_Cem reais.
_Mas isso é um roubo!
_O senhor está me chamando de ladrão?
_Não, não, estou achando caro, só isso.
_É o preço da liberdade para um tarado.
_Não sou tarado. Estou só de calção de banho e…
_150.
_Tá certo, tá certo! Mas só tenho 120.
_Fechado. E se manda daqui, senão aumento o preço.

Eu me mandei. Com toda essa confusão, senti-me completamente nu. Estava envergonhado e com um pudor digno de Madre Teresa de Calcutá.

Consegui apenas o quarto táxi. Todos passavam e aceleravam quando me viam. O taxista me perguntou:

_O senhor foi assaltado?
_Fui. Só me deixaram o calção de banho.
_Pensei que fosse uma sunga.
_Pois é…

Cheguei, enfim, em casa.

Fui direto ao chuveiro e tomei um baita de um banho.

Fazia um calor medonho.

Os filhos dos outros

19 de fevereiro de 2010, às 19:00h

Algo me incomoda nos filhos dos outros, independentemente da faixa etária. Eles são tirânicos, mas de uma tirania diferente, uma tirania do fraco. Conheci um bebê, por exemplo, que manipulava seus pais do berço. Aquele ser pequenino parecia tão frágil… e era, sem dúvida; no entanto, massacrava os parentes da forma mais cruel possível. Os coitados, de tanto servi-lo, estavam só o bagaço. Não eram gente; eram escravos – pior ainda: personificavam o exemplo mais abjeto da servidão voluntária. Estavam sem dormir, cansadíssimos e paranoicos, desconfiando de todos, principalmente da babá — projetavam na babá sua paranoia e, no fundo, seu preconceito de classe. Seus olhos fundos de cansaço tornavam-se rútilos de raiva quando se tentava, racionalmente, jogar a culpa no bebê. Chamá-lo de cínico, por exemplo, deixaria qualquer um próximo do linchamento.

Preocupado, tentei até falar com o bebê. Não adiantou. Era tão egoísta, que não estava nem aí para minha tentativa de diálogo. Foi aí que o bicho ofereceu-me aquele sorriso amoroso. Quase fui seduzido pelo farsante. Dei-lhe um beliscão e disse baixinho: _comigo, não, violão. Vá manipular os bestas dos teus pais! Saquei, contudo, uma coisa: ele utilizava uma tonalidade de choro que deixa os pais absolutamente malucos. É um choro sacana, um chorar por chorar, uma espécie de som que atrai, irresistivelmente, os pais ao berço, sempre preocupados e paranoicos. O choro não significa nada. Não é fome, não é dor, nem é incômodo, muito menos alguma necessidade fisiológica – é prazer sádico.

Os filhos dos outros não são apenas bebês – há os adolescentes dos outros. Morro de medo de tais criaturas. Posso estrangular um bebê, colocá-lo num micro-ondas, mas, com os adolescentes, a empreitada é bem difícil. São criaturas mil vezes mais ardilosas do que um bebê. E são orgulhosas de seu poder. Os pais dos adolescente dos outros já não são servos voluntários, e sim escravos com intensa consciência crítica. É uma crítica desesperada, sem esperança, que entra num beco sem saída e bate num muro. Desejam uma liberdade impossível. Ruminam a expectativa de que os adolescentes tornar-se-ão um dia, afinal, jovens e adultos, embora esqueçam que tais seres não sairão necessariamente de casa, mesmo já grandes. Ledo engano. Além do mais, atualmente, a adolescência pode durar até os 30 anos de idade – conheço adolescentes de até 40 anos, mas isso é outro papo. Somente tornam-se adultos quando, enfim, já de saco cheio, levam os pais ao merecido descanso no asilo de velhos. É um visível sinal de maturidade a expulsão dos pais de suas casas — das casas dos pais, claro. Não é mais o mercado de trabalho, nem a filiação, o começo da passagem à vida adulta, e sim a ida dos velhos ao asilo.

Os adolescentes dos outros levaram o igualitarismo moderno ao seu paroxismo. Todos são iguais perante a educação. Sua ideologia é o construtivismo pedagógico. Um adolescente é tratado como um indivíduo autônomo, um produto do iluminismo doméstico, mesmo por pais pós-estruturalistas, que negam qualquer tipo de filosofia do sujeito. Tudo é contrato, tudo tem que ser discutido, tudo é construção.

_Teus filhos batem em você, Márcio?
_Batem, e com força.
_E Bruna?
_Apanha, também, mas menos.
_Vai prestar queixa?

Ele choramingou, mas ficou com raiva.

_Aonde, seu maluco?! Não, só quero conversar. Mas sobre outro assunto.
_Futebol?
_Tá certo, futebol.

A relação entre pais e filhos é nivelada pela igualdade. As pessoas desconfiam das hierarquias e das assimetrias abusivas, mas também da autoridade. Nesse mundo pós-pós, depois do fim da autoridade do sagrado, das instituições e, enfim, da escola e dos professores, o último bastião ruiu: a obediência aos pais. Curiosamente, o fim da autoridade trouxe, em geral, menos liberdade do que autoritarismo. Os adolescentes dos outros são igualitários, porém são autoritários. Detestam autonomia, porque exige muito esforço e deveres. Preferem a independência, e uma bem especial que signifique apenas direitos e benesses. São independentes, seguindo as vantagens, e são dependentes, fugindo das obrigações. Veem tal situação como absolutamente natural.

_É verdade que, na tua casa, todas as decisões são votadas e discutidas?
_Hum-hum…
_Danou-se…
_Vivo num regime assembleísta.
__As crianças de hoje são tiranas. Elas contradizem seus pais, cospem suas comidas e maltratam seus professores.
_Bem atual a frase. É tua?
_Não é não. A frase é de Sócrates.
_Aaah…
_Pelo menos, teu problema parece ser antigo.

_O pior é Neco…
_Mas ele só tem cinco anos!
_É o pior de todos.
_O curioso é que todos os teus filhos são conservadores.
_E sou de esquerda, e já fui comunista.
_Talvez, por isso: pais de esquerda, filhos reaças, eis a ironia.
_É preciso estimular a formação de pais conservadores para termos novamente filhos de esquerda.

Seus olhos brilhavam com a ideia.

_Então, há esperança: teus netos serão de extrema-esquerda.
_Pois é…

Os filhos dos outros assumem as vantagens da igualdade, mas não aguentam o peso da liberdade. Impõe um tipo de opressão que não se parece com nada antes visto no mundo. Qual o nome dessa nova dominação? As velhas palavras despotismo e tirania não são adequadas. O fenômeno é novo. É o futuro.

O celular toca.

_Eita, é Mano. Preciso pegá-lo numa festa.
_Ele não pega táxi?
_Não. Temos medo da violência.
_Por isso que ele não anda de ônibus?
_Ônibus é um perigo.
_Tudo bem. Mas bora ficar mais um pouco; ainda uma cervejinha, rapaz!
_Ele ficará com raiva.
_Diga que foi minha culpa. Ele tem medo do tio.
_Tá certo… só mais uma.

Ele colocou a mão no rosto e suspirou.

_Acho melhor sonhar a vida do que vivê-la.
_Mas viver ainda é sonhar, meu caro Proust.

Ele olhou de lado, bebeu dois copos seguidos e disse:

_Encontrei esse poema no bolso da calça de Sandra.
_Você vasculha as calças de Sandrinha? De tua própria filha?
_Eu me garanto.
_Qual é o poema?
_Leia, olha aqui:

Teu pai e mãe fodem contigo.
Que não o queiram, tanto faz.
Legam-te cada podre antigo,
além de uns novos, especiais.

Mas de cartola e fraque outrora
os sacaneou do mesmo modo,
gente ora austero-piegas, ora
se engalfinhando cega de ódio.

Passa-se a dor adiante: fossas
num mar que só fica mais fundo.
Dá o fora, pois, tão logo possas
sem pôr nenhum filho no mundo.

_Cacetada… É Philip Larkin. Sandrinha tá ligada!
_Ligada, uma ova. Isso é assustador!
_Não exagere…
_Eita, o celular, de novo.
_Tudo bem, eu te acompanho. Depois, a gente bebe mais uma na tua casa. Futebol é resultado, o resto é crônica esportiva.
_O quê?!
_Nada não. Você paga a conta, viu?!

Amor de Carnaval

17 de fevereiro de 2010, às 10:15h

Cacetada, muito boa essa crônica de Xico Sá…

Transa-miojo foi genial…

Lá vai:

    Xico Sá

    Por Xico Sá . 17.02.10 – 09h48

    [Xico Sá no Carnaval] O amor eterno e a transa-miojo

    Quanto tempo dura uma paixão de carnaval? Algumas aguentam apenas uma subida ou descida de ladeira em Olinda, uma passagem de um trio na Bahia, um giro por uma quadra em Ipanema do bloco “Simpatia é quase amor” etc.
    Outras, raríssimas, dão em casamento. Como a de um amigo, o fotógrafo paulista Egberto Nogueira, que fez questão de casar na mesma data e local do crime, um ano depois do encontro: em pleno sábado de Zé Pereira, em uma igreja olindense. Palmas!
    O bom e confortável é que, ao contrário da vida dura e normal, não temos muito o que choramingar sobre as delirantes paixões momescas. Nada de esperar aquele torpedo ou telefonema do dia seguinte. O day after simplesmente não existe. É tudo aqui e agora. A generosa arte zen do desapego.
    Mais do que uma chance para os amadores – aqueles que deixam todas as sacanagens do mundo para o período carnavalesco – extravasarem, a folia da carne é uma aventura sem ego. Pelo menos para um feio e mal-diagramado como este cronista.
    Você leva um fora e nem liga; a dor é instantânea e o pé-na-bunda é sempre com a maciez de umas delicadas pantufas, pés de amigo(a) urso(a), no pasa nada.
    Esquema lava-jato de existência, lavou tá novo; a fila anda e segue a comédia. Assim deveria ser levada a vida, mas quem diz que conseguimos no bafo de onça da rotina?
    O sexo carnavalesco, então, nem se fala. Se o cara já tem ejaculação precoce, aí é que o mundo o apressa mais ainda. Só transa-miojo: esquentou, ferveu, adeus.
    É tempo de álibi para qualquer humaníssimo fracasso, como as nossas brochadas, por exemplo. Infinitamente mais perdoável. Nesse caso, nem queremos o segundo turno, uma nova chance, como acontece. Nem precisamos depois provar que não somos mesmo essa coisa toda. Simplesmente esquecemos. Que boa sorte.
    O carnaval é uma lição de desencanamento. Vale por mil manuais de auto-ajuda, vale por todas as lições otimistas de Pollyana, moça. Que tal aplicar a técnica momesca no nosso dia a dia, depois das cinzas, quando voltarmos a São Paulo? Seria perfeito.
    Para que tanto desgosto inventado? Tratemos o próximo como um folião permanente, o(a) namorado(a) como um(a) passante/ficante, levemos menos a sério a vida. Evoé Baco, evoé Momo!
    Com licença que vou ali gastar o resto do corpinho no Recife Antigo. Quem sabe dou sorte e encontro o amor da vida, digo, o amor da quinzena, o amor da semana, o amor de hoje à noite, o amor eterno enquanto dura o show do Cidadão Instigado no Rec Beat, o amor possível que mereça esse nome. Afinal de contas, assim como a fama para Andy Wahrol, no carnaval amamos e somos amados pelo menos por 15 minutos.

    Ataque abominável

    16 de fevereiro de 2010, às 14:29h

    O Blog dos Perrusi sofreu um ataque impedioso de hackers. Na minha opinião, tal fato revela a infiltração de espiões em redes vitais à segurança da família Perrusi. Os alarmes acenderam-se lá no Galo da Madrugada. Aliás, serei sincero: já sabia que sofreria um ataque. Os espiões são espertos, pois sabem que, durante o carnaval, fica completamente vulnerável o sistema de segurança dos Perrusi. Foi um vírus troiano — mais um. No entanto, esse era diferentes de todos os outros. O bicho alojou-se no BDP durante dias, trabalhando silenciosamente e incansavelmente (claro, os vírus não se cansam). E foi fundo na coleta de informações, indo até ao processo helicoidal que nutre a imaginação dos Perrusi. Sem o helicóide básico, não há imaginação, não há nada na vida virtual dos Perrusi.

    Do Galo mesmo, aos berros, telefonei a um engenheiro chinês lá de Pequim. Os engenheiros chineses são os únicos capazes de acabar com os vírus troianos — não sei por que, mas é um fato e não o discutirei aqui. Quando passou a Frevioca, o chinês ligou e me disse que o troiano era o Hydraq. O bicho enganou Perrusi Pai, o bestinha cibernético, escondendo-se num link anexado a um e-mail. O link tinha a foto de Meg Ryan, o ponto fraco do velho. Foi inevitável clicá-lo. Os hackers sabiam exatamente como nos atacar e roubar secretamente as valiosas informações. E a foto de Meg era verdadeira! Tudo é verossímil nesse mundo virtual. É difícil não ser enganado.

    Através de uma falha do Internet Explorer, os hackers causaram uma profunda brecha no BDP. O troiano dominou o blog e, logo, a consciência dos Perrusi. Controlando o processo helicoidal, podia acessar nossa vida, nossos desejos, nossas entranhas — pior, pois poderiam vender as imagens de nossas vísceras para quem quisesse. Há um mercado asiático florescente de entranhas. Só de pensar que alguém poderia olhá-las, assim sem mais, nem menos, tenho náuseas. Por isso, queria saber para onde o Hydraq enviara as informações capturadas no BDP. Meu amigo chinês rastreou seis endereços, com nomes como yahooo.8866.org ou ftp2.homeunix.com. Todos estão localizados em Taiwan; todos, propriedade da empresa local Era Digital Media. Mas, até aí tudo bem, o terrível foi descobrir que tal empresa tinha como proprietário um Reverendo, lá de Bel-O-Kan. Pior ainda: o BDP não foi o único atacado; na verdade, 33 companhias sofreram ataques do troiano. Exemplo: a empresa química Dow Chemical e a produtora dos caças B-2 Spirit, Northrop Grumman, contratada pelo Pentágono.

    Diante da gravidade da situação, pensei, ponderei e deduzi que o Reverendo estava aliado ao governo chinês; afinal, os endereços IP, encontrados na investigação, foram usados, no passado, por hackers associados ao governo da China. Falei isso claramente ao meu amigo chinês, agora suspeito de ser um agente duplo de Bel-O-Kan. Enviei, assim, como representante do BDP, um protesto diplomático ao governo chinês e ao Reverendo. Inclusive, relacionei tais ataques a outros que aconteceram em abril do ano passado, procedentes da Rússia e do Irã. Aparentemente, o BDP estava imerso numa guerra virtual perigosíssima. Preocupado, telefonei a Rob Knake, analista de ciber-segurança no Conselho de Relações Internacionais de Washington, que me disse, de forma sigilosa:

    _A espionagem do futuro será assim; aliás, o futuro já é o presente.
    _E Bel-O-Kan nisso tudo?
    _Bel-O-Kan tem todas as capacidades necessárias para armar uma operação dessa escala, disso não há dúvida, embora por enquanto tudo sejam suposições. E tem os recursos humanos e a disciplina necessária para executá-lo, algo que uma organização privada não poderia fazer. Isso demonstra como se pode estar efetuando a espionagem, qualquer tipo de espionagem. Trata-se de operações realizadas através da rede, com muito pouco custo para os que as fazem, e, se derem certo, elevados benefícios.
    _ Mas… por que o BDP?
    _Por causa do processo helicoidal e das suas entranhas.
    _Aaah…
    _Lembre-se que, na China e na Rússia — talvez, no Irã — existe uma população abundante de jovens que são muito dedicados à causa de Bel-O-Kan. São jovens com conhecimentos de informática e com sentimentos indubitavelmente belokanistas. E para alguns deles
    uma operação assim seria um triunfo, uma medalha, um reconhecimento…
    _Mas não entendi ainda o interesse pelas nossas entranhas.
    _As vísceras dos Perrusi não têm qualquer valor monetário, como números de cartões de créditos ou informações sobre contas bancárias…
    _Sim, sim, isso eu sei…
    _Deixe-me completar: suas vísceras, após passarem pelo liquificador, podem trazer informações técnicas de engenharia de defesa, informação relativa aos exércitos americanos…
    _Minhas vísceras?!
    _Sim, claro, por que não?! Não as subestime! Teu intestino grosso, por exemplo, é um excelente material de análise política. Qual Estado-Nação não gostaria de tais informações?
    _Certo… Mas vou lhe dizer uma coisa: meu intestino grosso tem uma segurança fortíssima. Não tem só uma rede. Ele trabalha com diversas redes que não estão conectadas entre si, para salvaguardar a informação.
    _Se você diz… só estou lhe avisando do perigo. Não superestime a segurança de tuas entranhas. É só isso. Fique atento.
    _Ficarei.

    E ficarei mesmo. Se o Reverendo está, de fato, envolvido no ataque, ele se verá comigo. Esperarei o final do carnaval, porque ninguém é de ferro. Além do mais, no carnaval, só tem cerveja nas minhas entranhas.

    A Carnificina

    12 de fevereiro de 2010, às 11:39h

    Andava pela praia de Intermares. Se existe uma terapia, estava diante dela. A praia é o desemprego dos psicoterapeutas, pensei, principalmente dos lacanianos – por quê? Não sei, o pensamento veio assim, sem motivo específico e sem lógica. Aliás, nada contra os lacanianos; mas, associação livre acontece e devemos respeitá-la. De todo modo, a beleza ali era sideral. Vi passarinhos com cantos complexos e faisões com cores soberbas, beija-flores iridescentes, pousando em flores inimagináveis; insetos com carapaças douradas, cor de safira e de rubi; orquídeas enigmáticas; papagaios estridentes; borboletas que parecem duas mãos azuis batendo palmas; macacos com caras vermelhas, pretas e castanhas.

    Lembro-me de um dia no qual recolhi ali, nada mais, nada menos, do que 68 espécies de besouros para a coleção de Tsé-Tsé. O cabra é fascinado por besouros. Defende uma tese teológica de que Deus é um besouro.

    _Um besouro onipotente, onisciente e onipresente? – perguntei, uma vez.
    _Sim, isso mesmo.

    Não discuto com Tsé-Tsé, só pergunto. É uma atitude que preserva a minha razão. Discutir produz efeitos colaterais na alma. É uma plataforma para um surto psicótico, com delírios místicos e persecutórios.

    Bem, como dizia, passeava na praia paradisíaca de Intermares. Meus pés afundavam naquele areia cor de açafrão, única no planeta. O vento levantava a areia, e eu sentia, no ar, o cheiro aromático da praia. Olhei o céu, depois olhei o chão, pensei num frevo qualquer, mas desisti, porque não tinha nada a ver, imagine, fazer um frevo agora, quando reparei algo diferente na areia. Aparentemente, era uma criatura que jamais vira em Intermares. Tinha uma forma fantástica; na verdade, medonha. Ajoelhei-me para examiná-la melhor e a toquei com relutância. Com o toque, retirei minha mão imediatamente. Tinha a consistência de uma cobra. Olhei bem e percebi que era um animal mutilado: uma tartaruga. A coitada sofrera algum acidente. Estava sem casco, e suas costas estavam rasgadas numa espécie de incisão em forma de V, cujo vértice estava logo abaixo da cabeça. A barriga estava meio aberta e o couro fora puxado com tanta força que as patas traseiras, praticamente, foram arrancadas. Senti que o animal, de alguma forma, respirava. Era um movimento quase imperceptível, mas, prestando atenção, dava para notar. O monstro que fizera tal atrocidade tivera o cuidado de deixar a tartaruga viva e em agonia.

    Intermares é um lugar pacífico. Se não fosse, talvez não ficasse tão chocado com a cena. Foi uma tapa na cara. Não, não, não fora uma tapa — pior do que isso. Parecia aquela dor na região do fígado, que desengana qualquer um, apesar de o médico dizer que não sabe o que é, que fará exames, etc. e tal, mas já intuímos a condenação. Parecia a primeira mentira de sua amada, vinda de uma boca, que até então, fora incapaz de imposturas…

    O vento morno como leite que soprava do mar dourado, com todas aquelas tonalidades exuberantes, os azuis, os prateados e os verdes da mata atlântica, o próprio céu… nada disso impedia o pequeno horror que jazia aos meus pés. Encontrava-me, naquele momento, num estado de emoção raro na minha vida. Uma pena cavalar – estava com dó. Torci para que tartarugas não sentissem dor. Porém, não era uma suposta dor que me deixava naquele estado. A cena toda era intolerável, era obscena.

    Resolvi acabar com o sofrimento do bicho – ou o sofrimento que gerava meu sofrimento, pensei, tentando culpabilizar-me de alguma maneira, o que é muito comum, diante do sofrimento alheio, mesmo de uma tartaruga. Mas como matá-la? Estava apenas com minhas sandálias japonesas e não encontrei nenhuma pedra ao redor. Assim, foi na base da chinelada que comecei a empreitada mortal. E a criatura mostrou-se notavelmente difícil de matar. Bati, bati, bati muito – cansei de tanto bater. O corpo do bicho virou uma papa vermelha, mas, mesmo assim, parecia vivo. E continuei a bater. Eu era um tolo, já que estava causando mais dores na coitada do que, provavelmente, ela sentira antes – se é que tartaruga sente dor. Passei quase uma hora para fazer o serviço. Terminei exausto e fui me lavar no mar.

    Retomei a caminhada. De repente, tive um sobressalto. Olhei o chão e parei. Apressei o passo, parei novamente e fiquei imóvel feito uma estátua. Cobri meu rosto com as mãos, olhei o céu e pedi para parar aquele pesadelo. O que acontecia? Havia um rastro de tartarugas mutiladas que se estendia bem longe na praia de Intermares, até a Curva do Ticão. Nauseado, segui o rastro até o fim. Contei uns trinta corpos de tartaruga. Ainda bem que não gritam. Não aguentaria seus gritos.

    Depois da Curva do Ticão, tinha um mangue e, dentro dele, uma pequena clareira. O rastro terminava ali. Estaquei e arregalei os olhos. Tsé-Tsé, vestido de monge, estava a cerca de trinta metros de onde eu estava. Fiquei obervando. Ele estraçalhava, naquele momento, uma tartaruga. Colocava o dedo indicador junto do pescoço e arrancava o casco; depois, com a unha (jamais notara que o Reverendo tinha unhas tão notáveis), fazia a incisão em forma de V; enfim, virava a tartaruga e arrancava, com a mão em forma de cunha, a barriga do animal. Fazia o serviço de uma maneira cirúrgica. Havia um silêncio opressor na clareira.

    Não conseguia falar. Olhava, apenas. Tsé-Tsé não parecia doente, se deduzirmos sua saúde do uso poderoso que acabara de fazer dos dedos. Via um homem que era certamente Tsé-Tsé: altura, constituição, cor, feições — era reconhecível. Contudo, o supremo horror vinha também do fato de estar irreconhecível. Não parecia um homem doente, e sim um homem imensamente morto. Seu rosto tinha aquele terrível poder que tem, por vezes, a face de um cadáver, aquele poder de simplesmente repelir toda atitude humana concebível, como se qualquer atitude fosse tarde demais — a boca sem expressão, a fixidez sem tremor dos olhos, qualquer coisa de pesado e inorgânico nas dobras da face…

    Tsé-Tsé, enfim, notou minha presença e sorriu. Pensei que imaginava o que fosse um sorriso diabólico. Já lera várias descrições na literatura e pensava que sabia. Mas me enganara: eu não sabia. O sorriso de Tsé-Tsé não era amargo, nem de fúria, nem mesmo sinistro, nem sequer era trocista. Parecia me convidar a participar da carnificina como se fosse o gesto mais natural do mundo. _Venha comer um guaiamum, parecia dizer. O sorriso não era furtivo, não era envergonhado, nem um pouco conspiratório. Não desafiava a bondade, ignorava-a simplesmente até o ponto da aniquilação. Tsé-Tsé era o mal. Eu, até então, só vira tentativas infrutíferas e desleixadas de praticar o mal. Estava diante de um mal de cor. Mostrava uma horrível semelhança com a inocência. Estava além do vício – não era humano. E dava medo. Comecei a feder de medo. Um suor oleoso saía dos meus poros.

    (houve uma pequena pausa no terror quando pensei em limão e em povilho Granado, como formas eficazes de combater a minha inhaca. No fundo, sempre fedi. O fedor fazia parte da minha previsibilidade. O devaneio foi rápido e voltei à cena dantesca)

    Foi aí que gritei:

    _Por quê?!

    Tsé-Tsé não respondeu. Não sorria mais. Jogou a tartaruga mutilada no chão.

    De repende, à minha esquerda, apareceu Maroca com uma enorme rede de pescar. Fiquei aliviado com sua presença. Quase que choro. Diante do mal, chegara o bem.

    Perguntei:

    _O que aconteceu?!
    _Tsé-Tsé assistiu a “Lula, o filho do Brasil” e, depois disso, perdeu a cabeça.
    _Ele ficou assim por causa de um filme?
    _Você viu o filme?
    _Não, não…
    _Pois é…
    _E agora, o que fazemos?
    _Siga minhas instruções!

    Maroca me deu um lado da rede. Esticamo-la por inteiro. Ela jogou um pedaço de tartaruga a Tsé-Tsé, que o pegou com avidez. Aproveitamos o momento de distração, demos uma volta pela clareira e, quando ficamos atrás de Tsé-Tsé, Maroca gritou um “já!” e jogamos a rede no Reverendo. Ele se debateu como se fosse um animal. Dava urros de possesso. Cometi o erro de tentar segurá-lo e levei um chute que me deixou no chão, completamente atordoado. Maroca me chamou de burro e me mostrou uma injeção. Sorrindo, disse: _não tem demônio que aguente uma injeção como essa aqui! E a aplicou na bunda de Tsé-Tsé. Cinco minutos depois, o doido dormia o sono dos justos.

    Arrastamos Tsé-Tsé até a praia. Já nos esperava uma jangada. Maroca trouxera também alguns ajudantes, que recolhiam as tartarugas mutiladas, matavam-nas rapidamente e as jogavam numa fogueira. Tudo era feito de forma limpa e organizada. No final, não sobrara nada da carnificina.

    Na jangada, olhava o mar calmo e pensava sobre os últimos acontecimentos. Olhei Maroca, o corpo de Tsé-Tsé, que roncava horrores, e fiz uma pergunta retórica:

    _Tudo isso por causa de um filme?
    _Pra você ver…

    Olhei o mar e senti o vento. Intermares voltara à sua tranquilidade habitual. Era só uma questão de esquecer. Queria esquecer. Há estórias que precisam ser esquecidas, pois não cabem na memória das pessoas. Comecei a pensar noutro assunto. O silêncio ajudava. Tudo levava a isso. Paz, enfim.

    Junto da jangada, vi uma tainha pulando e achei bonito.

    (esqueci-me de colocar: a crônica acima tem, literalmente, passagens do romance de ficção científica de C.S Lewis, “Perelandra: viagem a Vênus”. Faz parte de uma trilogia. Num dos livros, li o mais assombroso diálogo com o diabo de que tenho notícia; inclusive, já utilizei várias vezes tal diálogo para ilustrar algumas crônicas)