Arquivos para ‘Contos’ Categoria

Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXV

9 de dezembro de 2009, às 10:05h

ENFIM!!! :-D

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

Travessia_do_mar_vermelho

(O Mar Vermelho é verde!)

35º CAPÍTULO

O último mês de Outubro foi terrível para mim. Vivia sonhando com N.S. de Fátima, Aparecida e o Frei Galvão. Este, então, convidava-me todas as noites para levitar por sobre o Capibaribe, cheio de soluções malucas para despoluir nosso rio.

Atormentado, contei meus sonhos ao Dr. Quim, Jr. Ele riu e me disse, com a maior cara de pau, que me vira voando com o santo e não achava nada demais. Segundo Quimzinho, eu próprio havia lhe contado que Frei Galvão amava os peixes, pra fazer contraste com São Francisco que tinha uma criação de canários. E deu a maior gargalhada:

▬ É, Tsé! Você está ficando velho!

Tudo isso me fez esquecer dos meus tempos em Roma. Infelizmente, pra meu desagrado, o início do curso de Doutorado fora adiado novamente por causa da morte do Cardeal Francesco Giardini, Professor de Cosmologia da Gregoriana.

Mais um mês de espera, portanto. Já estava de saco cheio de tanto trabalho na Biblioteca. De graça, porque a bolsa que recebia mal dava pra comprar duas ou três bolachas. Já visitara Roma de frente pra trás e vice-versa, e a saudade de minha família palafiteira aumentava, danadamente. Chorava quando recebia cartas de minha terra e respondia chorando mais ainda.

Meu único consolo era conversar com o Monsenhor Lippi e, raras vezes, com o Cardeal Ferrughi, sempre ocupado com seus bois e vacas, além dos anjos medievais.

Desculpem, caros leitores! Havia mais alguma coisa. Assim como ensinara ao padre Javier, eu também paquerava as freiras do Convento de Santa Maria Maggiore. Pelo menos três freirinhas se encantaram comigo. Mas só fazia aquilo com a irmãzinha Giovana do Santo Sepulcro por quem me apaixonara. Frequentávamos, com uma certa regularidade, o Sagrado Bordel da Vila Borghesi, construído especialmente pela ICR para desafogar o alto clero romano. Oficialmente, aliás, era denominado de “Casa de Convivência dos Santos do Senhor”.

Mas, nessas férias forçadas, houve outro tormento. Javier, o jesuíta mexicano, preparava-se para defender sua tese sobre a estadia da Sagrada Família no Egito e me pedira para ler o seu calhamaço de 754 páginas, apontando críticas e erros no manuscrito para não ser surpreendido perante a banca de exame.

O Padre Javier descobrira, perdido em nossos Arquivos, um extenso papiro copta sobre o assunto e dele fizera seu objeto de tese. Ora, de tanto estudá-lo e, por mais estranhos que fossem os episódios contidos no antigo documento, Javier terminou por acreditar em tudo que lia.

De saída, disse-lhe, com toda a franqueza que me é peculiar, que não acreditava em nada daquilo. Segundo as melhores opiniões eruditas, o povo copta não passava de uma das tribos perdidas de Israel que se convertera ao deus Ptah, um dos principais do Antigo Egito. Além disso, era famoso pelo seu espírito gozador, sendo responsável pela palavra “cooptar”, ainda hoje em uso, como a ICR, aliás, aplica com raro brilhantismo.

352 autores citados, além de 87 manuscritos da época, traduzidos para o latim, o grego e o aramaico. Pra nada! No entanto, havia histórias engraçadíssimas e que valem a pena serem contadas.

O jesuíta Javier começa descrevendo a viagem da Sagrada Família, por causa, como todos sabemos, do assassinato das criancinhas atribuído a Herodes.

A Virgem montava um camelo, carregando no colo Nosso Senhor. José ia na frente segurando as rédeas do animal, enquanto um velho manco, apoiado num cajado, seguia atrás. Javier acreditava que se tratava de São Joaquim, o eventual avô de Jesus Cristo.

Para não decepcionar o padre Javier, achei melhor entrar pelo terreno de uma sutil galhofa desde o início, embora fizesse meus comentários com muita seriedade.

▬ Irmão Javier! Encontro, logo na página 54, uma ambiguidade e uma questão teológica das mais sérias. É bom se prevenir.

▬ Pelo amor da Santa Virgem! Diga logo, padre Tsé.

▬ Ora! Veja bem, irmão Javier. O texto não diz com clareza quem mancava; o camelo ou São Joaquim. Além disso, segundo consta nos Evangelhos, o pai de Nosso Senhor foi o Espírito Santo, atestado pela conversa entre o Arcanjo Rafael e Maria, gravada clandestinamente por um dos agentes de Herodes. De onde se conclui, pelo que o irmão escreve, que São Joaquim teria sido o pai da Terceira Pessoa da Trindade, o que não passa de uma grande blasfêmia. Afinal de contas, a eternidade não é pra todo mundo.

camelo1

Abraão Zacuto, o camelo manco da Santíssima Trindade

▬ Ora, Tsé! Essa eu tiro de letra. Realmente, o manuscrito copta não diz com clareza quem mancava. Isso é pura dedução de minha parte. Veja bem! Se o camelo mancasse, ninguém chegaria ao Egito. Logo, o manco era São Joaquim. Quanto à outra questão, é bom dizer que, segundo consta, José era apenas o pai de mentirinha de Nosso Senhor e, portanto, São Joaquim era apenas o avô adotivo.

O padre Javier afirmava que não houve necessidade de levar mantimentos para tão longa viagem. Além de fugirem apressados, não tinham dinheiro para comprar coisa alguma.

O camelo não precisava, claro. A Virgem tampouco desde que fora abençoada desde o início através da Anunciação. Nosso Senhor, acomodado nos seios de sua mãe, mamava o tempo todo. São Joaquim e São José comiam gafanhotos do deserto, como o sobrinho João Batista faria mais tarde, além do mel das abelhas. Como sobremesa, havia sempre o maná que caía do céu. O padre não esclarecia o problema da água, mas um manuscrito egípcio da época afirmava que, naquele tempo, chovia bastante em pleno deserto.

E foi assim que a Sagrada Família chegou ao delta do Nilo, hospedando-se na casa de um trabalhador judeu que, aliás, ajudara a construir uma das enormes pirâmides de Gisé, ficando obscuro no texto de qual das três se tratava.

Desculpem meus caros leitores, mas, de tanto levitar na companhia de Frei Galvão, estou insone e cansado. Contente, no entanto, por saber que o Santinha acaba de ser Campeão de Pernambuco. Assim, deixo para outra vez a continuação dessa história empolgante, contada pelo Padre jesuíta Javier de la Concepción.

PS: pergunta curiosa que apareceu em Bel-O-Kan: com o Flamengo campeão e o Inter, vice, haverá enfim um quadrangular com a Coisa e o Bugre?!

PS2: nova campanha jurídica na palafita: “me processa, Coisa!”

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV

A Coisa no Livro dos Recordes

18 de novembro de 2009, às 9:13h

monstro-lixo

Duas horas da manhã! Dormia a sono solto quando, sobressaltado, acordei sob intenso tiroteio de fogos de artifício vindo das Palafitas do outro lado do rio. Mandei chamar Zé Medonho, nosso Chefe de Segurança:

─ Zé! Por Nossa Senhora do Arruda, Frei Galvão e Frei Damião, o que está havendo?

─ Reverendo! Trata-se da comemoração dos torcedores da Coisa. ─ Respondeu o neto de Zé Malandro.

─ Ora, ora, Zé! Comemoração de que se eles empataram com o Porco e ainda foram pra Segundona?

─ Como o senhor vê, Reverendo! Comemoração é assim mesmo. Caíram, mas estão comemorando. Complexo de qualquer coisa, acho eu.

─ De ruindade, só pode ser. Cores malditas que envergonham e poluem a cidade. ─ Respondi.

Ocorre que, naquele momento, chegou o Dr. Quim meio aborrecido com o barulho, embora sabendo do que se tratava.

─ Desculpe, Tsé, mas não sabia que você havia acordado também.

─ E você sabe do que se trata, Quinmzinho? ─ Exclamei, limpando meus olhos ramelentos.

─ Sei! E é o troço mais esquisito do mundo.

─ Bom! Vindo da Coisa, tudo é esquisito. Mas diga logo o que foi, que estou morrendo de sono.

─ Ora, Tsé! Os torcedores da Coisa estão comemorando porque entraram no Livro dos Recordes.

─ E como pode? E que Livro safado é esse que nem o Santinha conseguiu entrar? ─ Interroguei o sábio e bem informado Dr. Quim.

Era uma pergunta muito sábia e, durante um momento, todos meditaram sobre o assunto. Afinal, todos sabiam que o Santinha era o recordista de todas as desgraças possíveis e impossíveis que acontecem e não acontecem nesse mundo velho e enfadado. Dr. Quim quebrou o encanto da meditação e perguntou:

─ Não assistiu ao jogo da Coisa contra o Porco?

─ Não! Salvo o Santinha, não assisto a futebol. Só jogo dominó com as meninas do meu clã. Explique-me isso direitinho, Dr. Quim. ─ Respondi mais furioso do que já estava.

─ Pois bem, Tsé! A Coisa é o único time do mundo que levou um gol com dois apitos. ─ Explicou nosso Curandeiro.

─ Ôxente! E quantos apitos tem esse tal de campeonato? ─ Perguntei.

─ Um! Apenas um! ─ Disse Zé Medonho, antecipando-se ao Dr. Quim.

─ Então, não entendi nada. No Dominó, a gente nem precisa de apito. Apenas de uns berros para intimidar o adversário. ─ Respondi.

─ Vou explicar, e você, Zé Medonho, fique calado. O jogador porquento preparava-se para fazer o gol de empate, absolutamente legal, aliás. Aí, houve o primeiro apito para reforçar a legalidade da posição. O jogador chutou e a bola entrou no gol. O árbitro apitou novamente validando o lance, apontando para o centro do gramado. Um gol e dois apitos! Recorde absoluto, portanto. Não acha, Tsé?

─ Acho até mais! Como houve dois apitos, o tal árbitro devia ter dado dois gols. Não acha Zé Medonho? ─ Observei com muita propriedade.

─ Não pode, Reverendo! Por mais respeito que tenha pelo senhor, se a bola só entrou uma vez, só vale um gol. ─ Respondeu nosso chefe de segurança.

─ Sei não! Dizem que, no futebol, nada é impossível! ─ Filosofei, mandando todo mundo dormir novamente.

Mesmo assim, Dr. Quim ficou pensativo na proposta filosófica: dois apitos, dois gols. Decidiu enviar um memorando à Máfia dos 13 e à CBF, expondo a ideia. Poderia, quem sabe, ganhar até um dinheirinho. O futebol brasileiro é pródigo em casuismo. Enfim, bocejou e resolveu dormir.

Zé Medonho, no entanto, disse que só iria dormir depois de soltar uns traques em homenagem à Coisa. Traques bem fedorentos, daqueles que causam pavor em qualquer coisento. Era assim que mantinha Bel-O-Kan completamente imune aos poderes maléficos da Coisa. Flatos angelicais, como dizia o Reverendo. Zé Medonho não sabia o que era “flatos”, mas gostava muito do nome…

Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXIV

9 de novembro de 2009, às 19:56h

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

monje levitando

(Homo sapiens sanctus braziliensis)

34º CAPÍTULO

Estive ausente deste Blog, porque fora convidado a uma manifestação na Praça de São Pedro, em Roma. A Comunidade judaica, sabendo de minhas convicções liberais, pagou minha passagem para que eu discursasse contra a canonização de Pio XII, ansiosamente desejada por Bento XVI.

Como todos sabemos, e a ICR também, aquele papa foi conivente com o Nazismo e colaborou ativamente para a fuga de muitos criminosos de guerra.

Ocorre que Bento XVI tem uma mania recorrente; ele adora transformar em santo gente que nem mereceria um lugarzinho na Academia de Letras local. Tenho a leve impressão de que ele prepara sua própria santificação, tomando como precedente Pio XII, desde que Bento, ele próprio, fora membro da Juventude Nazista, com direito a foto na Internet e tudo.

Meu discurso foi aplaudido pela multidão de, talvez, dois a três milhões de pessoas. Atordoado com minhas condenações ao Nazismo, o Vaticano adiou sine die a canonização prevista.

Isso me lembra de outra ocasião em que estive em Roma, logo no início da minha primeira eleição como líder da Comunidade. Quando voltei a Bel-O-Kan, tomei conhecimento de que grassava uma epidemia de prisão de ventre em nosso meio o que, apesar do sofrimento das pessoas, provocava uma gigantesca economia de papel higiênico. Afinal de contas, tudo tem o seu lado bom!

Chamei o Dr. Quim em segredo e lhe perguntei o que se passava.

─ Reverendo! Nosso estoque de chá de flor do mangue está esgotado e ninguém frequenta mais o vaso. Em compensação, nossa horta está meio sem graça, sem adubo orgânico nem nada. Na feirinha orgânica da Beira-Rio, nossos produtos estão caindo de preço.

─ E que curandeiro diplomado é você, Quinzinho, que não diagnostica logo esse mal da latrina ausente? ─ Indaguei.

─ Já fizemos tudo, mas ainda não descobrimos de onde vem tal abstinência.

─ Talvez, da Uniban! ─ Explodi de indignação.

Mandei chamar Zé Malandro, nosso chefe de segurança, acompanhado do seu filho Zé Medonho, executivo dos melhores que já tivemos por aqui (uma bala só e era o bastante).

Ordenei uma investigação oficial do caso, apesar da resistência do velho companheiro:

─ Reverendo! Não vê que se trata de um assunto médico e, não, de segurança?

─ Não acredito! Pura sabotagem do Arcebispo. Algum sortilégio medieval que prende a barriga de nossos irmãos. Investigue o agente inimigo.

No outro dia, Zé Malandro acompanhou até a minha palafita (com muito carinho, aliás) a beata Alzira, do clã de Joca do Bode, e que entrara em nossa República dois anos atrás.

─ Reverendo! Desculpe, desculpe! Acho que foi minha culpa. ─ Disse a menina bonitinha e bem feitinha que usava uma minissaia que nem a outra da Uniban. Para a alegria de todos, é bom dizer. Marocas, por exemplo, usava uma mais curtinha e todo mundo gostava.

─ Como assim, Alzirinha? ─ Perguntei.

─ Reverendo! Moro na periferia das palafitas e não aguentava mais o fedor. Aí, ouvi falar de umas pílulas milagrosas que curam todos os males, inclusive a incontinência da barriga. Comprei e distribui pra todo mundo e deu no que deu.

─ Ah, já sei! Vem num pacotinho, não é mesmo? Trata-se do papelote do Frei Galvão. Jogue tudo no rio que, amanhã, todo mundo já pode se desamarrar.

Alzira, que não tivera nenhuma má intenção, obedeceu minha ordem e tudo voltou ao normal na Comunidade. Na semana seguinte, os preços de nossos produtos orgânicos voltaram a subir e ninguém falou mais disso.

Contudo, examinei alguns exemplares da pílula de papel. Não havia nada de excepcional por dentro do pacote, mas notei que os fabricantes haviam usado papel picado da revista Veja, o que provavelmente teria sido a causa do mal.

Mas, afinal de contas, quem seria esse tal de Frei Galvão que alguns confundem com Frei Damião? Este aí, por exemplo, só cura pereba do tipo Collor de Melo. Por enquanto!

A história é extraordinária, e eu conto apenas por causa de Bento, como exemplo de conduta que ele próprio deveria ter para conseguir sua futura canonização.

Houve, de fato, um frade da “Ordem dos Frades Menores Descalços”, nascido em Guaratinguetá – SP (carinhosamente chamada de Guará), em 1739. Ele gostava de brincar com seus fiéis operando inúmeros milagres, desses que estamos acostumados a ver realizados pela Igreja Universal do bispo Macedo, em quem ninguém acredita mais, ao contrário da fama cada vez mais crescente de Frei Galvão que acaba de se tornar o primeiro santo, nascido no Brasil.

Todos os testemunhos apontam para a santidade do Frei e ninguém duvida de suas qualidades excepcionais que qualquer mortal gostaria de ter. Basta dizer que ele possuía o dom da bilocação. Não se trata de “biloca”, mas de se estar em dois lugares ao mesmo tempo, como faz, aliás, nosso Líder a bordo do seu brinquedinho aéreo.

Se ele quisesse, aliás, poderia trilocar-se ou, até mais, plurilocar-se, como ele próprio confessava. Trata-se, claro, de uma antecipação milagrosa da Mecânica Quântica que, segundo acreditam os físicos, é capaz de fazer um elétron estar em dois lugares ao mesmo tempo, não importa a distância.

Contudo, o Brasil Colônia daqueles tempos não permitia tamanha rapidez. Além do que, possuidor do talento da telepatia, não precisava de tanto. Foi o primeiro santo que dispensava a sagrada confissão, pois sabia tudo de antemão dos fiéis que o procuravam.

Além dos poderes de premonição, clarividência e telepercepção (isto é, adquirir conhecimento de fatos ocorridos a grandes distâncias e, por isso, antecipando os modernos satélites de comunicação), Frei Galvão (por favor, não confundir com Frei Damião!) nos lembra um ex-prefeito de uma cidade vizinha a Bel-O-Kan.

Com efeito, o tal ex-prefeito possuía o mesmo dom da levitação do santo oitocentista. Com uma diferença apenas. O religioso levitava para alcançar mais rapidamente as glórias do céu, o que é uma causa justa, enquanto o tal prefeito preferia se exibir perante as menininhas de Boa Viagem. Não sei com quais intenções!

Entretanto, a fama merecida de Frei Galvão advém de sua maravilhosa invenção das pílulas de papel que provocaram, sem querer, a epidemia em nossa Comunidade, já mencionada. Com efeito, talvez cansado de tanto andar descalço pelas ruas pedregosas de Guará, em vez de visitar todos os doentes que lhe pediam ajuda, o Frei lhes enviava pílulas de papel picado, devidamente embrulhadas num discreto pacotinho.

Como já sabia qual a doença do fiel, através de suas capacidades citadas, era tiro e queda. Uma pílula ao deitar e outra ao se levantar. Em dois dias, o doente era curado totalmente. Mas, sempre ficava com prisão de ventre, um mal menor certamente.

Hoje, as pílulas ainda fazem efeito e, nos fundos da Catedral de Santo Antônio (em Guará), numa pequena sala, 15 beatas de 65 anos de idade (o número e a idade delas não podem ser menor nem maior, a sucessão sendo feita na mesma família), cortam, picam e colam papeizinhos com precisão milimétrica, ou nanométrica, ou piedosa, como se diz, chegando a produzir 90 mil pílulas mensalmente.

Todos elas levam o carimbo da Anvisa e já se fala da extinção do SUS por sua inutilidade e alto custo. O preço varia, conforme a doença. É mais caro quando o paciente solicita o envio pelo Sedex. A propaganda, em torno da simpática Guará, afirma que “pague três e leve cinco”. Os atravessadores, que aumentam os preços, são acometidos, em geral, de doenças vitalícias e, com isso, são alijados do mercado. Claro que também, de vez em quando, as beatas se enganam quanto à qualidade do papel. Um dos que examinei, por exemplo, era feito de papel higiênico.

Quando relatei tudo isso a Dr. Quim, ele apenas exclamou:

─ Cuma? Esse Frei pode até ser santo, mas tem um cérebro de cupim!

Além dos papelotes, os milagres de Frei Galvão são copiosos e não vejo como duvidar de todos eles. Cito, aqui, apenas um, “ O frango do Diabo”, para a edificação de meus leitores e do papa Bento XVI.

Um escravo liberto que, ficando doente, fez promessa de levar a Frei Galvão “uma vara de frangos”, caso sarasse, o que de fato aconteceu. Por essa razão, amarrando as aves em uma vara, pôs-se a caminho. Aconteceu que, ao meio da jornada, três frangos lhe escaparam. Recolheu facilmente dois. O terceiro, um carijó, fugiu velozmente, irritando o velho, que gritou impaciente: “volta aqui, frango do diabo!” Nesse momento, entrando em uma moita de espinhos, o frango se deixou apanhar. Após a caminhada, o liberto foi alegremente entregar seu presente ao Frade, que aceitou todas as aves, menos a carijó: “Porque este frango, já o deste ao diabo!” ─ Disse-lhe o religioso.

Bonitinho, não é verdade? Mas intrigam-me o preconceito contra o carijó e a demora do Vaticano em santificar Frei Galvão, quando se apressa no caso de Pio XII e de João Paulo II, que nem de longe possuíam as virtudes de nosso compatriota.

Em suma: a Virgem Maria recusa-se a aparecer no Brasil e nosso santo patrício demorou pra caramba a ser reconhecido.

Mas, como diz a ICR, “ quem não crê, brasileiro não é”. E priu!

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII

Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXIII

26 de outubro de 2009, às 12:07h

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

aparecida

(Il secondo miracolo di pesci)

33º CAPÍTULO

Monsenhor Braguinha, meu Pai, costumava dizer que o Brasil é o país das falsificações. Não sei de onde ele tirou isso, mas dizia e repetia que somos réplicas de nós mesmos para enganar os estrangeiros.

Coisa de velho, seguramente!

Certa vez, visitei-o na Casa Paroquial, e ele estava em sua antiga cadeira de balanço Gerdau fazendo palavras cruzadas, hábito que adquirira recentemente. Peguei uma suculenta manga espada do quintal e lhe disse:

─ Monsenhor, meu Pai! Preciso de sua ajuda. As crianças estão com febre, encatarradas e com uma tosse danada. O chá do Dr. Quim não resolve.

Ele levantou-se, abriu um armário e me deu um vidro cheio de pílulas brancas.

─ Não deixe de administrar o chá para não magoar o velho Quim. Mas, de quatro em quatro horas, dê uma pílula dessas. Amanhã, as crianças estarão curadas. ─ Disse-me o Monsenhor. E acrescentou:

─ E volte logo, pois tenho um sério problema, aqui, com um conceito nas palavras cruzadas.

Meia hora depois, estava de volta deixando meus filhos devidamente medicados, recomendando a Socorrinho e a Madalena que não esquecessem do remédio.

Sentei-me numa velha poltrona, presente de uma beata, e interroguei Braguinha:

─ De onde vem esse vício de fazer palavras cruzadas, meu Pai?

─ Ora, Tsézinho! É para afugentar o alemão. ─ Respondeu o ilustre Pároco da Torre.

─ Ora, meu Pai! Que alemão é esse? Afinal de contas a Guerra já acabou. ─ Observei, maliciosamente.

─ Alzheimer! Alzheimer! Manter uma boa memória é um excelente remédio contra as falsificações. ─ Exclamou Braguinha, enigmaticamente. Enfim, cada doido com sua mania!

─ E qual é esse grande problema conceitual de suas palavras cruzadas? ─ Perguntei.

─ Tsé! Está escrito, aqui: “Como se chama uma pessoa que aparece de repente?”

Chupei mais uma manga e refleti bastante quando senti um clique na memória:

─ Ora, meu Pai! Quem aparece de repente é uma “pessoa aparecida”.

─ A-pa-re-ci-da! Com um ou dois pês, Tsé? Certinho! Enfim, a grade está resolvida. ─ Exclamou, alegremente, o vetusto sacerdote.

Daí em diante, tornei-me também viciado em fazer palavras cruzadas. Mas esse lance me traz à memória o início do mês de Outubro quando se comemora no Brasil o dia de Nossa Senhora Aparecida.

Lembrei-me, então, de minhas pesquisas para meu primeiro livro em aramáico sobre a revisão da História do Cristianismo, especialmente da ICR.

Na Introdução, dei-me ao trabalho de contar quantas aparições de santos e santas ocorreram nesses dois mil e tantos anos. Antes da fundação da ICR, no Concílio de Nicéia, por Decreto Imperial de Constantino, o Grande (grande assassino também), a santa mais popular do Império era Ísis, belíssima deusa egípcia que dominava o coração dos soldados romanos. Deusa do amor e da magia, Mãe de todo o Egito. Não havia um lar romano em que não houvesse uma estatueta ou imagem em seu louvor.

Foram 32.452 aparições comprovadas e mais de cinco mil milagres operados por Ísis.

No entanto, depois que seu culto foi proibido por Constantino, em 325 d.C., os soldados, que não eram bestas, elegeram a Virgem Maria para substituir Ísis como santa milagreira.

Contei 155.367 aparições da Virgem que tomava o nome dos lugares em que aparecia como, por exemplo, em Fátima e em Lourdes, ou dos bons e maus momentos que atingem a humanidade, como as Dores, os Remédios, o Bom Parto, os Aflitos, os Afogados, os Navegantes e vai por aí. Curiosamente, os milagres eram muito semelhantes aos de Ísis. Mas isso não importa. A Santíssima Mãe de Nosso Senhor era, seguramente, a recordista de aparições.

Contudo, não encontrei em nenhum lugar o registro de uma aparição da Virgem Santíssima no Brasil, o que muito me decepcionou na época em que escrevia meu livro, desde que, como diz a ICR, o Brasil é o maior país católico romano do planeta. A Virgem não apareceu, é verdade, mas ocorreu um fato interessantíssimo, nos meados do ano de 1717, duzentos anos antes de sua aparição em Fátima.

Domingos Garcia, Filipe Pedroso e João Alves eram pescadores do rio Paraíba do Sul e conseguiram, à falta de peixes, pescar uma imagem de terracota (cerâmica amarronzada) da Virgem que chamaram, no início, de Nossa Senhora das Águas. Na verdade, a imagem estava sem cabeça e, talvez, devesse ser chamada, pelo menos no momento da pescaria, de Nossa Senhora Degolada ou, melhor ainda, dos Degolados.

Aliás, havia na ICR um grande precedente quando Denis, o decapitado, foi alçado à condição de Mártir e Santo, chegando a ser o Padroeiro da França.

Na belíssima Catedral gótica, em sua homenagem, vê-se Saint-Denis em pé e vivo, segurando sua própria cabeça numa das mãos. A mesma imagem surrealista pode ser vista, também, na fachada da própria Notre Dame de Paris. A sua devoção era tão importante que muitos dos reis da França (especialmente os Capetos) eram enterrados naquela Catedral.

No entanto, para maior glória do Brasil, Domingos Garcia lançou novamente sua rede no rio e, milagrosamente, em vez de peixes, veio enganchada a cabeça da Santa, que faltava. Depois de inúmeras restaurações e adulterações, Nossa Senhora Aparecida assumiu o seu perfil atual, embora conservando o rosto negro, produto da oxidação da terracota, rica em ferro.

No dia 12 deste mês de Outubro, o pároco da Igreja de Nossa Senhora Aparecida, no Ibura, talvez empolgado pela simpática visita à sua diocese do novo Arcebispo da cidade vizinha a Bel-O-Kan, afirmou na TV Globo, com a maior cara de pau, que o rosto negro da Santa significava “o Protesto de Nossa Senhora contra a escravidão no Brasil” (sic).

Em 1717!

Mentira? Ingenuidade? Hipocrisia, como diria o português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura?

Não! A ICR sempre foi contra a injustiça da escravidão, tanto de africanos como de índios. É verdade que não há nenhum documento que o prove. Muito pelo contrário, aliás. Mas, que importa? Se o padre disse, tá dito e ninguém é besta para desmenti-lo.

O importante é que, logo depois de colarem a cabeça de Nossa Senhora no seu devido lugar, começaram a ocorrer os milagres da Santa como, até hoje, vêm ocorrendo. Nessa última peregrinação, uma senhora chegou a afirmar que sua neta havia passado no ENEM, graças à sua milagrosa intercessão.

O importante, porém, foi o primeiro milagre, o chamado “Segundo Milagre dos Peixes”. Ora, eufórico com o achado, o pescador Domingos Garcia, que não pescava nada há vários dias, lançou pela terceira vez sua tarrafa no rio. Eis que ela voltou abarrotada dos mais belos peixes da região, inclusive alguns estrangeiros.

É bem verdade que estávamos em Outubro, época da piracema dos rios do Sudeste brasileiro. No entanto, na época, o Ibama ainda não havia proibido a pesca durante tal período. E o milagre valeu. Tanto assim que, hoje, Aparecida é uma das cidades mais visitadas por turistas.

O outro milagre significativo ocorreu numa noite serena, sem ventania, quando as velas do altar se apagaram. Logo depois, elas se acenderam espontaneamente. No meu último aniversário, meus trinetos me pregaram uma peça semelhante. Pediram-me que apagasse as muitas velas do bolo. Fui apagando e elas foram se acendendo novamente. Umas cinco vezes! Até que, impaciente, peguei todas elas e as joguei no mangue. Não tenho fôlego para tanto. Voltei rindo da brincadeira e comi uma grande fatia do delicioso bolo, preparado, aliás, pelo padeiro da esquina.

Mais interessante, talvez, seja o terceiro milagre de Nossa Senhora Aparecida. Um homem estava voltando para sua casa quando, de repente, deparou-se com uma enorme onça. Ele se viu encurralado, e a onça estava prestes a atacá-lo. Então, o homem pediu desesperado a N.S. Aparecida por sua vida, e a onça virou-se e foi-se embora.

Aliás, não sei quem ficou mais assustado, se o homem ou se a pobre onça.

Em 1930, o fundador do Estado do Vaticano, o fascista Pio XI, proclamou Nossa Senhora Aparecida como “a Rainha do Brasil e sua Padroeira Oficial”.

Até aí, tudo bem! Os católicos romanos brasileiros têm o direito de acreditar no que bem quiserem. Em suma, sem querer ofender ninguém e para não ser grosseiro, a Padroeira católica romana do Brasil não passa de um simulacro. Em linguagem mais forte, como diria o Monsenhor Braguinha, meu Pai, tudo não passa de mais uma falsificação da ICR.

Mas, em 1980, através da Lei Nº 6.802, de 30/06/1980, a Ditadura Militar reconheceu oficialmente N.S. Aparecida como Padroeira do Brasil, estabelecendo o dia 12 de Outubro como feriado nacional.

Até aí, tudo mal! É certo que Nossa Senhora é a “Mãe de Deus” e a “Rainha dos Céus e da Terra”, segundo a ICR.

Mas, porém, contudo, todavia…Segundo consta na Constituição Federal, o Brasil é um país laico e o Estado não pode impor, com lei ou sem lei, nenhum estatuto religioso aos cidadãos brasileiros. Ou pode?

Enfim, como dizia o refrão do hino oficial do Congresso Eucarístico Nacional, realizado no Recife em 1950: “Quem não crê, brasileiro não é”.

Além disso, um feriadão ensolarado é sempre bem-vindo, não é mesmo?

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII

33º CAPÍTULO

(Il secondo miracolo di pesci)

Monsenhor Braguinha, meu Pai, costumava dizer que o Brasil é o país das falsificações. Não sei de onde ele tirou isso, mas dizia e repetia que somos réplicas de nós mesmos para enganar os estrangeiros.

Coisa de velho, seguramente!

Certa vez, visitei-o na Casa Paroquial, e ele estava em sua antiga cadeira de balanço Gerdau fazendo palavras cruzadas, hábito que adquirira recentemente. Peguei uma suculenta manga espada do quintal e lhe disse:

─ Monsenhor, meu Pai! Preciso de sua ajuda. As crianças estão com febre, encatarradas e com uma tosse danada. O chá do Dr. Quim não resolve.

Ele levantou-se, abriu um armário e me deu um vidro cheio de pílulas brancas.

─ Não deixe de administrar o chá para não magoar o velho Quim. Mas, de quatro em quatro horas, dê uma pílula dessas. Amanhã, as crianças estarão curadas. ─ Disse-me o Monsenhor. E acrescentou:

─ E volte logo pois tenho um sério problema aqui com um conceito nas palavras cruzadas.

Meia hora depois, estava de volta deixando meus filhos devidamente medicados, recomendando a Socorrinho e a Madalena que não esquecessem do remédio.

Sentei-me numa velha poltrona, presente de uma beata, e interroguei Braguinha:

─ De onde vem esse vício de fazer palavras cruzadas, meu Pai?

─ Ora, Tsézinho! É para afugentar o alemão. ─ Respondeu o ilustre Pároco da Torre.

─ Ora, meu Pai! Que alemão é esse? Afinal de contas a Guerra já acabou. ─ Observei maliciosamente.

─ Alzheimer! Alzheimer! Manter uma boa memória é um excelente remédio contra as falsificações. ─ Exclamou Braguinha enigmaticamente. Enfim, cada doido com sua mania!

─ E qual é esse grande problema conceitual de suas palavras cruzadas? ─ Perguntei.

─ Tsé! Está escrito, aqui: “Como se chama uma pessoa que aparece de repente?”

Chupei mais uma manga e refleti bastante quando senti um clique na memória:

─ Ora, meu Pai! Quem aparece de repente é uma “pessoa aparecida”.

─ A-pa-re-ci-da! Com um ou dois pês, Tsé? Certinho! Enfim, a grade está resolvida. ─ Exclamou alegremente o vetusto sacerdote.

Daí em diante, tornei-me também viciado em fazer palavras cruzadas. Mas, esse lance me traz á memória o início do mês de Outubro quando se comemora no Brasil o dia de Nossa Senhora Aparecida.

Lembrei-me, então de minhas pesquisas para meu primeiro livro em aramáico sobre a revisão da História do Cristianismo, especialmente da ICR.

Na Introdução, dei-me ao trabalho de contar quantas aparições de santos e santas ocorreram nesses dois mil e tantos anos. Antes da fundação da ICR, por Decreto Imperial de Constantino, o Grande (grande assassino também), durante o Concílio de Nicéia, a santa mais popular do Império era Ísis, belíssima deusa egípcia que dominava o coração dos soldados romanos. Deusa do amor e da magia, Mãe de todo o Egito. Não havia um lar romano em que não houvesse uma estatueta ou imagem em seu louvor.

Foram 32.452 aparições comprovadas e mais de cinco mil milagres operados por Ísis.

No entanto, depois que seu culto foi proibido por Constantino, em 325 d.C., os soldados, que não eram bestas, elegeram a Virgem Maria para substituir Ísis como santa milagreira.

Contei 155.367 aparições da Virgem que tomava o nome dos lugares em que aparecia como, por exemplo, em Fátima e em Lourdes, ou dos bons e maus momentos que atingem a humanidade, como as Dores, os Remédios, o Bom Parto, os Aflitos, os Afogados, os Navegantes e vai por aí. Curiosamente, os milagres eram muito semelhantes aos de Ísis. Mas, isso não importa. A Santíssima Mãe de Nosso Senhor era, seguramente, a recordista de aparições.

Contudo, não encontrei em nenhum lugar o registro de uma aparição da Virgem Santíssima no Brasil, o que muito me decepcionou na época em que escrevia meu livro, desde que, como diz a ICR, o Brasil é o maior país católico romano do planeta. A Virgem não apareceu, é verdade, mas ocorreu um fato interessantíssimo, nos meados do ano de 1717, duzentos anos antes de sua aparição em Fátima.

Domingos Garcia, Filipe Pedroso e João Alves eram pescadores do rio Paraíba do Sul e conseguiram, à falta de peixes, pescar uma imagem de terracota (cerâmica amarronzada) da Virgem que chamaram, no início, de Nossa Senhora das Águas. Na verdade, a imagem estava sem cabeça e, talvez, devesse ser chamada, pelo menos no momento da pescaria, de Nossa Senhora Degolada ou, melhor ainda, dos Degolados.

Aliás, havia na ICR um grande precedente quando Denis, o decapitado, foi alçado à condição de Mártir e Santo, chegando a ser o Padroeiro da França.

Na belíssima Catedral gótica, em sua homenagem, vê-se Saint-Denis em pé e vivo, segurando sua própria cabeça numa das mãos. A mesma imagem surrealista pode ser vista, também, na fachada da própria Notre Dame de Paris. A sua devoção era tão importante que muitos dos reis da França (especialmente os Capetos) eram enterrados naquela Catedral.

No entanto, para maior glória do Brasil, Domingos Garcia lançou novamente sua rede no rio e, milagrosamente, em vez de peixes, veio enganchada a cabeça da Santa, que faltava. Depois de inúmeras restaurações e adulterações, Nossa senhora Aparecida assumiu o seu perfil atual, embora conservando o rosto negro, produto da oxidação da terracota, rica em ferro.

No dia 12 deste mês de Outubro, o pároco da Igreja de Nossa senhora Aparecida, no Ibura, talvez empolgado pela simpática visita à sua diocese do novo Arcebispo da cidade vizinha a Bel-O-Kan, afirmou na TV Globo, com a maior cara de pau, que o rosto negro da Santa significava “o Protesto de Nossa Senhora contra a escravidão no Brasil” (sic).

Em 1717!

Mentira? Ingenuidade? Hipocrisia, como diria o português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura?

Não! A ICR sempre foi contra a injustiça da escravidão, tanto de africanos como de índios. É verdade que não há nenhum documento que o prove. Muito pelo contrário, aliás. Mas, que importa? Se o padre disse, tá dito e ninguém é besta para desmenti-lo.

O importante é que, logo depois de colarem a cabeça de Nossa Senhora no seu devido lugar, começaram a ocorrer os milagres da Santa como, até hoje, vêm ocorrendo. Nessa última peregrinação, uma senhora chegou a afirmar que sua neta havia passado no ENEM, graças à sua milagrosa intercessão.

O importante, porém, foi o primeiro milagre, o chamado “Segundo Milagre dos Peixes”. Ora, eufórico com o achado, o pescador Domingos Garcia, que não pescava nada há vários dias, lançou pela terceira vez sua tarrafa no rio. Eis que ela voltou abarrotada dos mais belos peixes da região, inclusive alguns estrangeiros.

É bem verdade que estávamos em Outubro, época da piracema dos rios do Sudeste brasileiro. No entanto, na época, o Ibama ainda não havia proibido a pesca durante tal período. E o milagre valeu. Tanto assim que, hoje, Aparecida é uma das cidades mais visitadas por turistas.

O outro milagre significativo ocorreu numa noite serena, sem ventania, quando as velas do altar se apagaram. Logo depois, elas se acenderam espontaneamente. No meu último aniversário, meus trinetos me pregaram uma peça semelhante. Pediram-me que apagasse as muitas velas do bolo. Fui apagando e elas foram se acendendo novamente. Umas cinco vezes! Até que, impaciente, peguei todas elas e as joguei no mangue. Não tenho fôlego para tanto. Voltei rindo da brincadeira e comi uma grande fatia do delicioso bolo, preparado, aliás, pelo padeiro da esquina.

Mais interessante, talvez, seja o terceiro milagre de Nossa Senhora Aparecida. Um homem estava voltando para sua casa quando, de repente, se deparou com uma enorme onça. Ele se viu encurralado e a onça estava prestes a atacá-lo. Então, o homem pediu desesperado a N.S. Aparecida por sua vida e a onça virou-se e foi se embora.

Aliás, não sei quem ficou mais assustado, se o homem ou se a pobre onça.

Em 1930, o fundador do Estado do Vaticano, o fascista Pio XI, proclamou Nossa Senhora Aparecida como “a Rainha do Brasil e sua Padroeira Oficial”.

Até aí, tudo bem! Os católicos romanos brasileiros têm o direito de acreditar no que bem quiserem. Em suma, sem querer ofender ninguém e para não ser grosseiro, a Padroeira católico romana do Brasil não passa de um simulacro. Em linguagem mais forte, como diria o Monsenhor Braguinha, meu Pai, tudo não passa de mais uma falsificação da ICR.

Mas, em 1980, através da Lei Nº 6.802, de 30/06/1980, a Ditadura Militar reconheceu oficialmente N.S. Aparecida como Padroeira do Brasil, estabelecendo o dia 12 de Outubro como feriado nacional.

Até aí, tudo mal! É certo que Nossa Senhora é a “Mãe de Deus” e a “Rainha dos Céus e da Terra”, segundo a ICR.

Mas, porém, contudo, todavia…Segundo consta na Constituição Federal, o Brasil é um país laico e o Estado não pode impor, com lei ou sem lei, nenhum estatuto religioso aos cidadãos brasileiros. Ou pode?

Enfim, como dizia o refrão do hino oficial do Congresso Eucarístico Nacional, realizado no Recife em 1950: “Quem não crê, brasileiro não é”.

Além disso, um feriadão ensolarado é sempre bem-vindo, não é mesmo?

Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXII

20 de outubro de 2009, às 18:21h

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

A Virgem, Klimt

(I virgo segreti)

32º CAPÍTULO

Depois da conversa sobre Nossa Senhora de Fátima, dormi mal. Muito mal, mesmo. Sonhei com a Virgem Santíssima reclamando de minha incredulidade. Disse-lhe que não era bem assim. Apenas duvidava das crianças e do padre da aldeia.

─ E esse negócio de escrever que eu era analfabeta? Pois saiba que falo fluentemente todas as línguas da terra. ─ Reprovou-me a Jovem Senhora.

─ Até mesmo a última flor do Lácio? ─ Perguntei.

─ Dessa, nunca ouvi falar. E existe mesmo? Será que já não arrancaram a coitada dessa planta de que você fala? ─ Retrucou a Virgem.

E foi por aí até que um imenso suor me acordou de vez. Era tarde, lá pras dez da manhã. Cheguei atrasado na Biblioteca e me disseram de cara que Monsenhor Lippi estava puto da vida com o novo estagiário, um jesuíta idiota, que deixara cair no chão um lote de documentos medievais que se transformaram numa farinha de papel.

Fiquei na minha, trabalhando na catalogação dos novos livros. Foi quando Lippi mandou me chamar para almoçar com ele.

─ Sente-se por aí, Tsé, enquanto acabo de assinar essa requisição. Trata-se de cinquenta rolos de papel higiênico. A água foi cortada e ninguém sabe como se limpar.

Chamou o padre chinês, entregou-lhe o ofício e disse que não queria ser incomodado no segundo expediente. Trancou a porta por dentro e me disse:

─ Vamos lá, Tsé! Tenho um coelho assado no forno e a tarde será nossa. Há coisas que você precisa saber antes de começar esse seu famigerado Doutorado.

─ E os segredos de N.S. de Fátima, Monsenhor? ─ Perguntei ansioso.

─ Ah! Deixa pra lá, Tsé. O aramáico da Santa era muito ruim e o texto é mais ambíguo do que a própria ICR. Pura enganação! ─ Respondeu Lippi.

─ Promessa é dívida, Monsenhor. Se não disser, vou comer na cantina do albergue e deixo seu coelho mofando.

─ Pois bem, Tsé! Monsenhor Braguinha, seu pai, me avisou que você era ranhento e chato. ─ Mas, finalmente, Lippi soltou o verbo.

Em primeiro lugar, devo dizer que há muita confusão no texto. Má gramática, palavras erradas e conceitos estapafúrdios. Mas, vamos ao primeiro segredo:

1º Segredo:

“Em pátio sagrado, nascerá uma minhoca preta e branca que se transformará em cobra colorida e venenosa. Engolirá todos os adversários até que os anjos de Satanás a transformarão novamente em minhoca”.

─ Veja bem, Tsé! O tal segredo não junta coisa com coisa. Além disso, a palavra “minhoca” é de tradução controversa. Pode ser uma “lombriga”, um “tapuru” ou, até mesmo, um “ muçum sem cabelo”. No entanto, em dialeto galileu, minhoca é mais provável. É claro que não entendemos nada, pois cobra e minhoca são espécies diferentes e uma não pode se transformar na outra.

─ Puxa! Isso me parece mais uma charada do que um segredo. ─ Exclamei.

─ Pois é! Sir Rudoph Bates, prêmio Nobel de Biologia, tio de minha sagrada Susan, e membro de nosso Comitê Curador, resolveu fazer algumas experiências no seu Laboratório, em Oxford. Afinal de contas, nunca vira a Santa Virgem contar mentiras. No seu Relatório final, ele afirmava:

“Para uma minhoca se transformar em cobra colorida e venenosa, precisaríamos de dois milhões de anos. Como não dá tempo, meu Assistente sugeriu uma experiência. Tiramos uma cobra do serpentário com o peso de um quilo e meio e a colocamos numa caixa de papelão inviolável. Os estudantes foram caçar minhocas no gramado da Universidade e separamos um lote do mesmo peso da cobra. Botamos as duas espécies juntas. Se a Virgem tivesse razão, as minhocas se transformariam em cobra no dia seguinte, pois a eternidade é assim mesmo, segundo nossos filósofos. Tanto faz um dia quanto dois milhões de anos. Depois, fui a uma recepção no Palácio da Rainha e bebi tanto vinho que me esqueci do experimento. No dia seguinte, cheguei ao Laboratório de ressaca quando, alvoroçado, um Assistente invadiu meu gabinete.

─ Sir! É preciso ver o que ocorreu na caixa experimental.

Pensei logo que encontraria duas cobras ou mais. No entanto, pra minha decepção, não havia cobra nenhuma. As minhocas comeram a bichinha, cujo veneno era minha esperança de enviar o maldito Reitor para o Hospital Universitário. Afinal de contas, ele andava me perseguindo, só porque levei sua filha para passear no bosque. Tenho dito!”

─ Ora, Monsenhor! Esse Sir não é de nada. Como ganhou o Nobel, ninguém deve saber. Bastava pintar as minhocas e tudo estaria resolvido.

─ Vá pro inferno, Tsé! Vamos ao segundo segredo da Santa:

2º Segredo

“Da poeira, surgirá um que como Filho de Sapo. Enganará todo mundo, desviando um rio sagrado, e os poderosos da Terra o chamarão de O Cara de Pau”.

─ Um baita segredo! ─ Exclamei.

─ Que nada, Tsé! Pura imitação do livro de Daniel. E o pior! Dessa vez, ninguém se atreveu a fazer nenhuma experiência. Já pensou desviar o Tibre só pra enganar os pobres italianos? Ficamos nas nuvens. Mas o terceiro segredo parecia mais fácil:

3º Segredo

“ Um Papa será assassinado”.

─ Assim mesmo, curto e grosso? ─ Perguntei.

─ Mais do que isso, Tsé! Fácil e agourento. Afinal de contas, quantos Papas já foram assassinados? Nosso historiador-antropólogo afirmou que a História registra inúmeros assassinatos de personalidades importantes. É esperar pra ver!

Décadas depois, já como Líder de minha Comunidade, cheguei à conclusão, como já escrevi no Capítulo anterior, de que a Santa de Fátima dissera a verdade. Nós, infiéis, que sempre combatemos as imposturas da ICR, é que estávamos enganados.

Com a ajuda do Dr. Quim, Jr., redigimos um relatório circunstanciado para a SBV, expondo nossas razões e esclarecendo todos os segredos de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

Infelizmente, a bandeira do Santinha continua a meio pau. Mas Nossa senhora Aparecida nos dará uma forcinha e voltaremos com um veneno redobrado. Os agentes do demônio não perdem por esperar?

Desculpem, mas o esforço foi tão grande que tive uma violenta dor de barriga e não saio do banheiro há dias. Depois, transcrevo nosso Relatório final sobre Fátima.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI

Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXI

6 de outubro de 2009, às 20:25h

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

Oração à Nossa Senhora de Fátima

(Virgo Portucalensis)

31º CAPÍTULO

*Em homenagem a Outubro, mês do Rosário da ICR.

A coisa que eu mais respeito nesse mundo é assombração. Contei a Perrusi Filho uma delas e ele, irresponsavelmente, a publicou em forma de conto como se fosse uma anedota de “non sense”. Chamei-o à Comunidade e tivemos uma discussão bastante séria. Levei-o ao cemitério local e lhe mostrei a cova de Romeu, o covarde assassino de Luíza e do magrelo.

Com minha autoridade de sacerdote, chamei o coveiro de plantão e lhe perguntei, apontando para o túmulo de Romeu:

─ Irmão coveiro! Tem visto alguma coisa de estranho por aqui?

─ Cruz, credo! Meu bom padre! Abençoe esse amaldiçoado. Na lua cheia, um rapaz de bigode e óculos de tartaruga, todo vestido de preto, sai por aí atravessando o portão. Mas, parece ser de paz, pois volta sempre antes da meia-noite. ─ Respondeu o amedrontado funcionário.

Perrusi Filho estava amarelo e suando em bicas, apoiando-se na minha bengala de nogueira legítima. Fiz o sinal da cruz invertido, cuspi na cova de Romeu e disse baixinho:

─ Corno safado! Vai ficar assim por toda a eternidade. Luíza era minha bisneta e o consolo de minha velhice.

Voltamos para o bar da Comunidade e pedi uma cerveja bem gelada, enquanto Perrusi Filho se acalmava.

─ E então? ─ Perguntei-lhe.

─ Desculpe, Reverendo! Não devia ter brincado com coisa séria. As provas objetivas do seu relato são incontestáveis. Estou convencido, mas me deixe voltar pra casa que estou com uma dor de barriga infernal. ─ Respondeu o menino.

Isso me lembra uma história que ouvi do Monsenhor Lippi e que, de certa forma, eu já sabia por alto. Trata-se da aparição de Nossa Senhora de Fátima, na Estremadura, em Portugal, no ano de 1917.

Quando voltei à Comunidade, depois de concluído meu Doutorado, debrucei-me sobre o caso e cheguei, com a ajuda dos inúmeros detalhes contados por Lippi, a uma conclusão.

E a uma só! Foi tudo verdadeiro!

Como se sabe, Nossa Senhora do Rosário apareceu a três crianças: Lúcia Santos e seus dois primos, Francisco e Jacinta Marto, todos com dez anos de idade. A Sagrada Virgem que, depois, começou a ser chamada de N.S. de Fátima, entregou-lhes três segredos que somente poderiam ser divulgados no ano 2000. O Papa João Paulo II, autorizado pelo Espírito Santo, realizou parcialmente a vontade da Virgem, anunciando apenas um dos segredos.

Mas… percorramos o episódio histórico. Entre 13 de Maio e 13 de Outubro de 1917, as três crianças juraram por tudo o que é sagrado que a Virgem lhes apareceu por seis vezes nos campos ao redor da aldeia de Fátima, onde residiam. Juraram também que a Virgem era, com certeza, a mesma “Virgem do Rosário” que aparecera, em 1208, na Igreja de Prouille, no sul da França.

Além disso, 70 mil pessoas viram na oportunidade o Sol despencar do céu e se abater sobre elas. Ninguém sabe, é claro, de onde veio tanta gente desde que a aldeia de Fátima tinha menos de cinco mil habitantes. Pouco importa! Quanto ao Sol, pouco importa também desde que ele é nosso astro rei e, como tal, pode tudo e muito mais.

O que importa, e muito, pelo menos para a ICR, é que não se pode nem se deve duvidar do juramento de crianças de dez anos de idade. Eu, pelo menos, com essa idade, jamais disse qualquer mentira, apesar de ter uma imaginação galopante.

Ainda descrente, estava comentando o episódio de Fátima com o Monsenhor Lippi, quando ele me disse:

─ Mas, Tsé, você não sabe dos detalhes mais curiosos disso tudo. Um deles é que nossa SBV já conhece há muito tempo os segredos da Virgem.

─ Como assim? ─ Exclamei, espantado.

─ Ora, Tsé, quando Pio XI me nomeou chefe da Biblioteca, encontrei-o bastante excitado com sua nova missão. Talvez por vaidade ou, quem sabe, para se exibir perante o amigo, ele tirou de um cofre o envelope lacrado que continha os três segredos.

─ Que pena, Lippi! Não serei eu a saber a verdade. Paciência! Nem tudo é perfeito! ─ Disse-me o Santo Padre.

Fui ao gabinete de Pio XI munido de uma câmara fotográfica em infra-violeta com o intuito de registrar tudo para exame de nosso Conselho Curador. Aproveitei uma distração do Papa e fotografei o envelope.

─ E daí? ─ Perguntei curioso.

─ Lemos e traduzimos o documento, uma simples folha de papel, escrito em aramáico antigo. Coisas do outro mundo, certamente. Mas a história é mais complexa do que parece. ─ Disse Lippi.

─ É! Estranho esse aramáico. Que eu saiba, em Fátima, falava-se português. ─ Observei.

─ Veja bem, Tsé! E não me interrompa que hoje estou muito cansado, como já lhe disse. ─ E continuou:

Lúcia, Francisco e Jacinta eram analfabetos como, aliás, a maioria da população lusitana da época. Além disso, é fato notório que a Sagrada Mãe de Nosso Senhor só falava em dialeto aramáico-galileu e, provavelmente, como quase todas as mulheres na Antiguidade, também era analfabeta. As crianças ficaram perplexas diante da língua estranha da Santa, quando, então, Lúcia teve a brilhante ideia de voltar à aldeia e chamar o cura para que ele traduzisse o que a Virgem estava lhes dizendo. Tratava-se de um velho padre beberrão e mulherengo, mas extremamente erudito e bem versado no aramáico.

A contragosto, o sacerdote pegou um lápis e um caderno e seguiu as crianças. Ajoelhou-se perante a Santa e escreveu o que ela dizia. Infelizmente, o que nos deu um trabalho danado, o padre escreveu da esquerda para a direita, quando todo mundo sabe que as línguas semitas são grafadas ao contrário. Colocou a folha de papel num envelope e, seguindo as instruções da Virgem, endereçou-a ao papa da época com a recomendação explícita de que o documento somente fosse aberto no ano 2000, isto é, na virada do milênio.

Dois anos depois, em 1919, Francisco e Jacinta morreram, vítimas da Gripe Espanhola. Acredita-se que Nossa Senhora do Rosário de Fátima estava, naquela altura, muito ocupada com o término da Primeira Guerra Mundial e não pôde socorrer seus pequenos discípulos.

Restou Lúcia que se tornou freira, sempre repetindo a mesma história do aparecimento da Virgem.

(Nota do Reverendo Tsé-Tsé: Na verdade, Lúcia foi uma freira quase ambulante, desde que mudava constantemente de ordens e de conventos, morrendo, em 2005, aos 97 anos de idade. Como repetia obsessivamente sua história, acrescentando que a mesma Virgem a visitava diariamente em sua clausura, o Cardeal Ratzinger, então chefe da Inquisição, mandou lacrar sua cela para posteriores investigações visando uma futura beatificação da freira portuguesa, já que, por via das dúvidas, as visitas da Virgem, segundo o Cardeal, não repugnavam a razão. Dele, é claro!).

O mais notável, Tsé, ─ continuou Lippi ─ é que, no mesmo ano da morte dos primos de Lúcia, duas missões inglesas e, portanto, protestantes e contrárias à ICR, provaram a Teoria da Relatividade de Einstein, em Sobral, no Ceará, e nas Ilhas Maurício que ficam não sei aonde. Observaram que o Sol puxa a luz que passa por ele ou, tanto faz como tanto fez, nossa estrela avança um pouco do local onde deveria estar.

Isso, claro, nos remete ao fato de que mais de 70 mil pessoas viram, em 1917, o Sol se mover em direção a elas, o que, talvez, seja um exagero justificável de uma multidão emocionalmente excitada.

Infelizmente, Tsé, os Psiquiatras atuais ─ esses médicos chatos e irritantes ─ quando se deparam com uma pessoa que diz ter visões, ouvir vozes e falar com gente do outro mundo, fazem duas coisas: ou encharcam o paciente de psicofármacos ou, talvez por preguiça, o internam no manicômio.

─ Monsenhor Lippi! E os segredos da Virgem do Rosário de Fátima? Quais são? ─ Perguntei ansioso.

─ Ora, Tsé! Não vê que estou muito cansado? Compareça ao expediente de amanhã na Biblioteca que lhe conto. ─ Terminou Lippi com nossa conversa.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX

Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXX

28 de setembro de 2009, às 20:27h

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

- Honduras e a seriedade

tratado-vaticano-mussolini

(“Mussolini é o homem enviado pela Providência” – Pio XI (1922 – 1939); “Roma, onde Cristo é romano” – Benito Mussolini (Ditador italiano, aliado de Hitler).

30º CAPÍTULO

Dormi no quarto de hóspedes do Monsenhor Lippi. Às três da manhã, as ruas de Roma, mal iluminadas, tornavam-se muito perigosas, mesmo para um simples padre. Constanza tornara-se uma irmã espiritual. Nada mais! Nunca mais a vi. Minhas atribulações em Roma impediram novo encontro.

Dias depois, voltei a jantar no apartamento de Lippi. Ele queria, antes do começo do meu curso de Doutorado, contar algumas coisas sobre a ICR.

─ Monsenhor! Por que, depois da obra nefasta de Pio XI, o senhor continuou como seu amigo? ─ Perguntei-lhe, logo de saída.

─ Não foi bem assim, Tsé. Enquanto Cardeal, Ratti tomou muitas iniciativas reformistas; modernizou a Biblioteca e os Arquivos do Vaticano dos quais era o chefe, e eu, o subchefe. Além disso, como protetor das ciências, ele fundou o Instituto Cristão de Arqueologia, a Academia de Ciências e o Observatório Vaticano em Castelgandolfo, isso já como Papa. Mas, depois, a coisa embolou.

─ Como assim? ─ Insisti.

─ Veja bem, Tsé! Quinze dias depois de Ratti ter sido eleito Papa, fui chamado ao seu gabinete e tivemos uma conversa histórica. Ele mostrou uma Bula que me nomeava como seu substituto na Biblioteca.

─ Santidade! Não mereço tal distinção. ─ Respondi.

─ Bobagem, Lippi! Além de meu amigo, você é o maior arquivólogo da Europa. E minhas ordens são irrevogáveis. E, por favor, continue a me chamar de Ratti. Detesto esses Pios da vida. Obedeci apenas a uma tradição, nada mais. ─ Disse-me o então Pio XI.

─ Cardeal! Eu posso atrapalhar seu reinado, pois sou casado e tenho uma filha na Inglaterra. Além disso, não acredito nessas bobagens da ICR.

─ Nem eu Lippi, nem eu! Quanto ao seu casamento informal, já sabia de tudo. Segundo São Paulo, é melhor casar do que abrasar. Não conheço um cardeal ou alto dignitário da Igreja que não tenha tido algum caso, em geral com alguma freira. Somente tenho nojo de alguns que vivem seduzindo nossos soldados da Guarda Suiça. Lindos, é verdade, mas não precisava tanto. Um dia, isso vai dar um bode danado. ─ Disse-me o Santo Padre.

Mas, Tsé, o reacionarismo e a paranoia de Pio XI foram nos afastando, especialmente sua aliança com Mussolini. Segundo o Papa, a ICR estava falida financeiramente e ameaçada pelo comunismo, encabeçado pela União Soviética e pelo PCI. Por outro lado, Mussolini, ateu e anticlerical convicto, percebeu que não poderia governar a Itália sem o apoio do Vaticano.

A fome, pois, aliava-se ao prato de comida, como se diz lá na sua Comunidade.

Assim, em 11 de Fevereiro de 1929, foi assinado o Tratado de Latrão entre a ICR e o Governo de Mussolini. A Igreja receberia uma subvenção anual de 90 milhões de dólares, como suposto ressarcimento pela perda dos chamados “Estados Vaticanos” durante a unificação italiana, terminada em 1870, além de outros privilégios como, por exemplo, a isenção de todos os impostos, o ensino obrigatório do catolicismo nas escolas públicas e o banimento de qualquer outro rito religioso na Itália.

Em contrapartida, Pio XI apoiava integralmente o fascismo, extinguindo o Partido Católico, o único partido legal que se opunha a Mussolini, e ordenando aos bispos fazerem propaganda do fascismo nas igrejas.

O PCI nem se fala; clandestino estava, clandestino ficou.

Pio XI aliava-se, pois, a quem ele próprio chamava intramuros de “Filho do Diabo”, embora o chamasse, publicamente, de “enviado da Providência”. O Tratado de Latrão foi chamado por muitos como um verdadeiro “Pacto com o Diabo”. E não passou disso mesmo. A religião, especialmente a romana, sempre foi um grande balcão de negócios. Enfim…

Mas, Tsé, além de rica, especialmente com as contribuições da Máfia Siciliana, a Igreja de Pio XI e Mussolini criaram o “Estado da Cidade do Vaticano” ─ de 44 hectares! ─ verdadeira excrescência política, aceito depois da Guerra pela ONU, tornando o Papa num “Rei Deus” ou vice-versa, se você preferir, desde que o dogma da Infalibilidade ainda estava em vigor.

Já em 1215, o Papa Inocêncio III declarava que

“o Senhor concedeu a Pedro não só o governo da Igreja, mas o governo do mundo. Agora, podeis ver quem é o servidor que é colocado sobre a família do Senhor; verdadeiramente, é o Vigário de Jesus Cristo, o sucessor de Pedro, o Cristo do Senhor; colocado entre Deus e o homem, deste lado de Deus, mais além do homem; menos que Deus, porém mais que o homem; que julga a todos, mas, não é julgado por ninguém”.

Estevam V já dissera que

“os papas, como Jesus, são concebidos por suas mães ao serem engravidadas pelo Espírito Santo. Todos os papas são uma espécie de homens deuses, com o propósito de serem mais capazes de servir de mediadores entre Deus e a humanidade. Todos os poderes do céu e da terra lhes serão concedidos”.

Portanto, meu caro Tsé, Pio XI apenas seguia a tradição da ICR como, aliás, o seu sucessor com seus indecorosos namoros com o Nazismo de Hitler. Pior! O Vaticano é o único estado do mundo que não tem cidadãos natos, desde que os sacerdotes e freiras são proibidos de procriar e jamais nasceu qualquer criança dentro daqueles 44 hectares. Estado teísta, machista e que, segundo os papas, pretende governar o mundo.

─ Quer dizer, Monsenhor, que os Piu-Pius da vida acreditavam nisso mesmo? ─ Interrompi Lippi.

─ Claro, Tsé! Não somente acreditavam. Faziam exatamente, e ainda fazem, o que suas vozes interiores, supostamente inspiradas pelo Espírito Santo, ordenavam-lhes. E pare de chamá-los de “Piu-pius”. Isso é falta de respeito. ─ Respondeu Lippi com um sorriso malicioso.

─ Ora, Monsenhor! É assim que Zé Malandro os chama na Comunidade e ninguém se incomoda.

─ Pois bem! ─ Continuou Lippi. ─ Quando a Guerra se tornou inevitável, a ICR se fez de sonsa, ignorando toda a anterior colaboração com o Fascismo e o Nazismo, embora, diplomaticamente, mantendo relações com eles. Mas estava milionária, com a criação do IOR (Instituto per le Opere di Religione), o maior, mais fechado e mais secreto Banco do mundo, do qual o Papa é o único e exclusivo operador. Na verdade, um grande centro de “lavagem de dinheiro”.

Foi, justamente, durante a Guerra que conheci o então Arcebispo Ferrughi, seu Orientador, Tsé. Ele era nosso contato com os “partigiani” e pudemos salvar muita gente do terror fascista, enquanto o Papa namorava com Mussolini e com Hitler.

Mas, hoje, estou cansado de tanto trabalho. Ainda falta lhe contar as façanhas de Pio XII. Como embaixador do primeiro “piu-piu” na Alemanha; depois, como Secretário de Estado do Vaticano e, finalmente, como Papa, tornou-se uma figura chave tanto no desenrolar da Guerra quanto no seu final. O Cardeal Eugênio Pacelli, aliás, era o candidato preferido de Hitler ao trono papal quando Pio XI morreu em 10-02-1939.

Engraçado, meus caros leitores! Apesar da colaboração com os nazistas, ouvi dizer que Pio XII está na bica para ser “santificado” pela ICR. A comunidade judaica, aliás, já vem protestando há muito tempo contra tal absurdo.

Mas, isso é outra história! O Santinha, enfim, voltou a vencer.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX

Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXVIII

7 de setembro de 2009, às 13:57h

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

DorianGrey

(Sogno o realtà)

28º CAPÍTULO

O expediente da tarde havia terminado, e eu estava exausto. Cinco ou dez minutos antes, Lippi me chamou ao seu gabinete.

─ Tsé! Não sei por que, estou doido pra cozinhar novamente. Tenho um lombo de porco em casa, e você está convidado para saboreá-lo comigo. Amanhã, pretendo tirar uma folga do trabalho e poderemos conversar bastante. Chegue às oito em ponto.

Em Roma, Monsenhor Lippi morava num amplo apartamento de três quartos e sala. Por fora, era pintado de ocre como todos os prédios da cidade, aliás. Roma, cidade amarelada! Por dentro, contudo, tratava-se de uma obra-prima de bom gosto, cheio de obras de arte e tapetes orientais. No seu escritório, uma coleção preciosa de livros e um birô de mogno. Duas poltronas e uma mesa de chá.

Depois do excelente jantar, fomos degustar um licor artesanal produzido na villa de Lippi. Foi quando ele começou a falar, continuando a conversa do almoço na Biblioteca.

─ Sabe, Tsé! Eu e Susan saímos andando da Universidade em direção da estação ferroviária. Não sabia o que dizer. Fazia um frio danado e caminhávamos muito rápido pelas ruas estreitas de Oxford. Foi Susan quem falou primeiro:

─ Doutor, Professor, Monsenhor…sei lá o quê. Desculpe-me, mas quando o vi se dirigindo à mesa de debates, só pensei numa coisa: eis aí um homem, apenas um homem e nada mais do que um homem. Quando os debates terminaram, acrescentei: um homem charmoso, inteligente e erudito. Se você concordar, prefiro que nos tratemos pelos nossos prenomes, Susan e Giorgio. Sou livre-pensadora, feminista, embora não radical, e detesto essas frescuras acadêmicas.

─ Claro, Susan! Concordo inteiramente. Pra que perdermos tempo com tantas mesuras, não é? ─ Respondi ruborizado.

─ Mas, não entendo uma coisa, Giorgio. Como um intelectual tão inteligente e culto pode acreditar nessas besteiras da ICR?

─ Ora, Susan! Quem disse que eu acredito. Sou tão livre-pensador quanto você. Talvez até mais do que você possa imaginar. ─ Respondi.

─ Como assim? ─ Exclamou Susan.

Mas, o barulho do trem nos deixou calados. Descemos na pequena estação de Pen Gold e tomamos o Bentley de Susan que ficara, como de hábito, estacionado no pátio. Daí em diante, foi um imenso pavor. Susan dirigia como uma louca, serpenteando e cantando os pneus nas inúmeras curvas da pequena estrada.

─ Susan! Não está dirigindo muito veloz? ─ Disse assustado.

─ Que nada, Giorgio. Adoro a velocidade. Sinto-me como se estivesse nas nuvens, voando em plena liberdade.

Felizmente, entramos na porteira da herdade e paramos defronte de uma bela mansão estilo georgiano, arrodeada de árvores cinza e desfolhadas, como se fossem magros e esguios soldados guardando a casa. À porta, esperava-nos Helga, ex-babá de Susan. Guardei meu sobretudo e o chapéu no cabide perto da porta de entrada e Susan disse para Helga:

─ Almoço daqui a meia hora, minha querida.

Fomos para perto da lareira acesa da grande sala de jantar e Susan me ofereceu um Porto como aperitivo. Logo depois, almoçamos com bastante frugalidade. Uma salada de folhas, bem temperada e, depois, fatias de carne de ovelha ao molho de champignon com arroz branco. Um bom vinho tinto, embora encorpado. Uma sobremesa de morangos com chantilly.

Embora o frio apertasse, Susan convidou-me para um passeio na propriedade.

─ Sabe, Giorgio! Eu e minha irmã, médica em Londres, herdamos alguma coisa de nossos pais. Meg preferiu alguns imóveis urbanos. Eu sempre fui apegada ao campo e preferi ficar por aqui mesmo. Adoro as paisagens campestres inglesas, talvez as mais belas da Europa. Mas, você falou alguma coisa sobre ser um livre-pensador. Fale-me sobre isso. Se desejar, claro.

─ Susan! Meu pai era um capo menor da máfia siciliana e foi assassinado quando eu tinha doze anos. Filho único e órfão. Não tinha muita escolha. Ou entrava na máfia ou na ICR, o que, de fato, não fazia muita diferença. Os métodos são quase os mesmos. Detestava a violência e já era um furioso leitor. Preferi o Colégio dos Beneditinos, perto de Palermo. Lá aprendi a me defender da corrupção dos padres, especialmente no terreno sexual. Logo depois, entrei no Seminário. A coisa era pior do que no Colégio, salvo pela maioridade dos litigantes. O resto fazia parte da marginália. Eu era um dos poucos marginais, é bom dizer logo pra você. Desde a adolescência, no entanto, não acreditava mais em nada. O sobrenatural que se danasse, se é que ele existe. Como vê, Susan, já era ateu desde os doze anos e continuei assim até hoje. Mas, a ICR era um bom emprego e me protegia da máfia, sua irmã. Além disso, com meu Doutorado e a amizade do Cardeal Ratti, meu Orientador, fui trabalhar na Biblioteca e no Arquivo do Vaticano. Jamais oficiei uma missa, salvo nos ensaios no seminário, no meio da maior gaiatice. Tampouco usei batina, mesmo na Gregoriana. Minha vocação era a pesquisa e nada mais. E, agora, conheci você, a primeira mulher com quem converso mais longamente. É isso aí!

─ Verdade, Monsenhor! Alegristas e gemistas! É por isso que a Igreja se diz universal ou católica. As sacanagens continuam as mesmas. ─ Interrompi Lippi.

Sem ligar para minha observação, o Monsenhor continuou.

─ Pois é, Tsé! Foi quando Susan me fez uma pergunta embaraçosa

─ Estranho, Giorgio! E você nunca se relacionou com uma mulher? ─ Perguntou ousadamente Susan.

Ora, Tsé, se o vento frio já avermelhava meu rosto, imagine como fiquei naquele momento.

─ Bobagem, Monsenhor! Uma labareda, embora não apenas no rosto. ─ Respondi.

─ Mais respeito, Tsé! Por favor! É a primeira vez que falo dessas coisas. Respondi a Susan vaga e suavemente. Disse-lhe que não tivera tempo. Era um fanático pelo trabalho. Salvo numa das vezes em que fui ajudar as freiras do Convento de Santa Madalena do Calvário a organizar o arquivo local. Uma das freirinhas, com um rosto muito suave, me auxiliava e me olhava de um modo insistente e inusitado. Num certo dia, convidou-me para uma quermesse em prol das obras piedosas. Poderíamos, segundo ela, passear no bosque que arrodeava o convento. Não fui! Não pretendia desencaminhar ninguém. Preferi ficar no meu escritório trabalhando. Somente isso! ─ Respondeu o Monsenhor à minha insinuação. E continuou o seu relato.

Flocos de neve começaram a cair e, logo, transformavam-se pouco a pouco numa verdadeira nevasca. Voltamos correndo para dentro de casa e ficamos bebericando um vinho ao pé da lareira. Olhei para fora preocupado. A neve aumentava de volume, cobrindo tudo com seu manto branco e frio. Meu trem de volta saía às sete da noite. Às cinco em ponto, Helga nos serviu o tradicional chá inglês. Susan ligou o rádio e as notícias não eram boas. A nevasca cobria toda a região e a linha férrea havia sido interditada. Aflito, perguntava-me como voltar para meu hotel.

─ Noto um pouco de angústia no seu rosto, Giorgio. ─ Disse-me, maliciosamente, Susan.

─ Pode ser! Pode ser! Mas não imagino como voltarei a Oxford. ─ Respondi-lhe ofegante.

Susan levantou-se com o copo em uma de suas mãos e ficou de frente para o grande espelho sobre a lareira. Por trás, percebia o lindo perfil do seu corpo. Seu rosto, refletido no espelho, sorria misteriosamente. Voltou-se e me disse:

─ Giorgio! Gostaria de brindar nosso encontro. Não é todo dia que isso me acontece. ─ Aproximou-se e, praticamente, com os rostos colados, Susan tomou a iniciativa que já considerava inevitável. Abraçou-me e nos beijamos longamente na boca.

─ Ora, Giorgio! Você pode dormir aqui em casa. Temos três quartos de hóspedes. Helga vai preparar um deles pra você.

Depois do jantar, continuamos a tomar vinho junto à lareira. Nunca havia conversado tanto com uma mulher e já estava tonto por causa do vinho. Olhei o relógio e disse a Susan:

─ Minha querida! Precisamos nos recolher.

Subimos a escadaria e Susan levou-me ao quarto, mostrando-me os detalhes. Desejou-me um bom sono. Por gentileza, acompanhei-a ao seu próprio quarto. Ela abriu a porta e voltou-se para mim. Abraçamo-nos e nos beijamos novamente.

Não sei o que realmente aconteceu, Tsé. Surpreso, acordei na cama de Susan com sua linda cabecinha aninhada no meu peito. Sentia-me emocionado e uma névoa mágica parecia me envolver. Tratava-se de um sonho, certamente. Lá fora, o sol começava a derreter a neve.

─ Mas, eu sei o que aconteceu, Monsenhor! ─ Intrometi-me novamente na história de Lippi.

─ Se sabe, Tsé, fique calado. Há coisas que somente o silêncio pode e deve guardar. ─ Terminou Lippi.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII

Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXVII

31 de agosto de 2009, às 17:28h

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

shakira2

Dra. Susan Bates, usando vestimenta de freira

(Prologo a una storia d’amore)

27º CAPÍTULO

Recebi a medalha das mãos do Monsenhor Lippi e guardei-a até hoje, em memória de Constanza. O crucificado parecia com certo padre de um país longínquo e sem importância. Apenas, perguntei:

─ Como assim? Ela não era uma freira romena exilada?

─ Não, Tsé! Isso é uma história muito longa. Constanza é uma pesquisadora de Oxford. Quando vem à Itália, gosta de se vestir de freira, apenas por gozação. ─ Respondeu Lippi, acrescentando:

─ Puxa! Que longa conversa! Quer almoçar comigo, Tsé? Preparei uma receita especial de pizza e estou doido para experimentar.

Enquanto preparava seu novo prato, Lippi continuou a falar.

─ Sabe, Tsé! Há muita coisa desconhecida para um jovem como você. Monsenhor Braguinha, seu pai, pediu-me que lhe instruísse o máximo possível. Como se estivesse completando sua educação emocional. Intelectualmente, você já está maduro e não me compete fazer nada. Deixo tal tarefa pra Ferrughi, seu Orientador. Mas, do ponto de vista do coração, talvez eu possa lhe ajudar.

─ E começou muito bem, Monsenhor, mandando Constanza de volta para a Inglaterra sem nem sequer se despedir de mim. ─ Respondi cheio de amargura, mastigando, aliás, um pedaço da excelente pizza que acabara de sair do forno.

─ Pois é, Tsé! Conversei bastante com ela e lhe disse que o momento não era favorável para vocês passarem uma semana juntos na minha villa. Quem sabe, depois, em suas próximas férias? ─ Disse Lippi com muita seriedade.

─ Mas, afinal de contas, quem é Constanza? ─ Insisti.

─ Tenha paciência, Tsé. Vou lhe contar.

Em seu Doutorado, Monsenhor Lippi fora estudante do Cardeal Ratti, futuro Pio XI. Eram ligados pelo interesse pela Arquivologia e sempre que Ratti era acometido por uma crise epiléptica, Lippi era o primeiro e único a socorrê-lo. Naquela época, não havia medicamentos nem se entendia muito bem a doença. O principal era proteger a cabeça do paciente para que os espasmos não a deixassem bater em qualquer coisa mais dura. O preconceito era generalizado e Lippi, com seu habitual sentido de generosidade, acompanhava Ratti até o fim da crise. Por isso mesmo, o Cardeal nutria uma infinita gratidão por seu orientando.

Ratti era um intelectual de peso com renomada reputação nos meios científicos europeus. Assinaram diversos ensaios juntos para algumas revistas especializadas e, pouco a pouco, a parceria estreitava ainda mais os laços de amizade recíproca.

Após uma de suas crises, o enfraquecido Ratti indicou Lippi para substituí-lo num Congresso em Oxford, onde se discutiria uma descoberta da Dra. Suzan Bates sobre os cálculos de probabilidade aplicados em pesquisas agrícolas em mosteiros e conventos medievais. Tratava-se, na verdade, do uso de um novo logaritmo de controle que revolucionava o assim chamado “mundo dos papéis antigos”.

O Monsenhor Lippi acabara de defender sua tese e estudara com Ratti a chamada “equação Bates”. E, por acaso, descobrira uma derivação que, por assim dizer, era “o avesso do avesso” dos cálculos da pesquisadora de Oxford. Não que a superasse, claro, mas fornecia uma função de generalização, ausente na equação original. Modesto, como sempre, Lippi teria preferido publicar antes seu “achado” do que confrontá-lo na presença da autora inglesa. Mas, Ratti, autoritário e imperativo, como sempre, obrigara-o a ir ao Colóquio oxfordiano.

Havia cerca de quinhentas pessoas no grande anfiteatro de Oxford, todos especialistas ou estudantes de doutorado. Na mesa, estavam a Dra. Susan Bates e o matemático francês Jean Berbère, da Sorbonne.

Lippi, um pouco atrasado, dirigiu-se para a mesa e, pouco a pouco, seu coração ia disparando ao olhar para Susan. Seguramente não se tratava de uma mulher, mas, sim, de um raio de sol em começo de primavera, pensou. Gaguejou uma desculpa quase inaudível pelo atraso.

Susan Bates apresentou em cinco minutos a mais nova versão do seu trabalho. Praticamente não abandonou o quadro negro atrás da mesa. Depois, sentou-se debaixo de um grande aplauso da platéia.

Berbère, então, levantou-se e também em silêncio colocou um sinal de menos na equação que Susan havia esquecido. Sentou-se novamente e disse apenas:

─ Parfait!

Lippi, totalmente intimidado, começou hesitante sua comunicação. Citou e elogiou todos os trabalhos de Susan e concentrou-se em sua mais nova equação. Com o rosto avermelhado e embaraçado, disse:

─ Mas…─ O que provocou um grande burburinho no auditório, talvez de reprovação.

No quadro negro, Lippi sugeriu a introdução da função f(pe), que, segundo ele, alargaria o quadro de generalização a todos os arquivos europeus até então pesquisados. Acrescentou que o “pe” significava “dias de penitência”, mais comum no continente do que na Inglaterra, onde foram esquecidos desde o século XV.

Susan cochichava com Berbère que acenou a cabeça como aprovação. Ela, então, levantou-se novamente e foi ao quadro negro. Por cerca de dez minutos, examinou sua equação e, depois, a derivação formulada por Lippi. Voltou a sentar-se e olhou para Lippi como se estivesse vendo um verdadeiro fantasma. Mas, não era medo e, sim, admiração, que seus belos e grandes olhos verdes exprimiam. Disse, laconicamente, debaixo do maior silêncio que Lippi já presenciara:

─ Proponho que, a partir de agora, minha equação seja denominada de “equação Bates-Lippi”. Não vejo como deixar de me curvar à tão pertinente descoberta do ilustre enviado do Vaticano.

Enquanto os aplausos se demoravam, Susan ergueu-se e apertou a mão de Lippi. O rápido contato físico provocou no italiano um grande aperto no coração e um sorriso de agradecimento.

A sessão estava terminada e Lippi não sabia bem o que deveria fazer, quando Susan, uma mulher de seus trinta anos, disse-lhe:

─ Dr. Lippi! Não há nada de importante hoje à tarde no Congresso. Gostaria de convidá-lo para almoçar comigo. Temos muito que conversar. Moro a cerca de vinte minutos de Oxford, por trem, e podemos passar a tarde na minha herdade, numa cidadezinha chamada de Pen Gold. E não admito nenhuma recusa de sua parte. ─ Terminou sorrindo com um certo charme.

─ Ora, Tsé! Não havia como recusar um convite de uma cientista do quilate de Bates nem tampouco de uma das mulheres mais lindas que já conhecera. ─ Terminou Lippi, abocanhando o último pedaço de pizza.

Terminaram o almoço e se prepararam para o segundo expediente. Lippi nada mais disse.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI

In Memoriam: Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXV

14 de julho de 2009, às 19:34h

OBITUÁRIO

tumulo

Cumprimos o doloroso dever de comunicar aos leitores deste Blog o falecimento do Ilustre Reverendo Tsé-Tsé. Por uma fatalidade do destino, o Líder da Comunidade Telemista do bairro da Torre sofreu um letal acidente quando voltava de um evento esportivo no qual o Santa Cruz não conseguiu vencer o fraco Central de Caruaru.

Ao voltar do jogo em sua velha Lambretta (modelo 1960), o Reverendo, que já sofria de muitos lapsos de memória, esqueceu-se de que pilotava o veículo. Lembrando-se da horrenda peleja, ergueu suas mãos para o céu, maldizendo a sorte de torcedor de um time pessimamente dirigido.

O resultado, como seria de se esperar, foi a Lambretta cair num buraco. O pneu dianteiro, totalmente careca, estourou e o veículo desgovernado lançou o Reverendo contra uma jamanta que vinha em sentido contrário.

O corpo do insigne prelado foi empalhado e se encontra à visitação do público na entrada da Comunidade, como exemplo de honestidade e de fidelidade aos seus princípios éticos e filosóficos.

A Comunidade chora, mas se reconforta com o exemplo do seu Líder, convidando todos os habitantes de Bel-O-Kan para prestar sua última homenagem ao ilustre desaparecido.

O Reverendo Tsé-Tsé deixa cinco filhos, vinte netos e doze bisnetos, além de uma substantiva obra escrita em aramáico.

Infelizmente, como parece óbvio, deixamos de publicar suas Falsas Memórias, salvo o 25º e último Capítulo que nos havia sido enviado, antes do infausto acontecimento.

Enviamos nossas condolências à família enlutada, sabendo que este Blog perdeu um dos seus melhores e assíduos colaboradores.

aa) Perrusi Pai e Filho.

Snif, snif, tristeza sem fim… Aí vai o derradeiro capítulo das Falsas Memórias:

assinatura

(Non sequitor)

25º CAPÍTULO

Antes de chegar à Biblioteca, virei numa esquina e me deparei com um ceguinho sentado na calçada e com uma cuia diante de si. Algumas moedas e nada mais. Tirei do bolso o troco do meu café da manhã e joguei tudo lá dentro. Dez passos adiante, porém, parei atônito. Aquele ceguinho era o mesmo tesoureiro do Vaticano que estava na Praça da Biblioteca.

Voltei e parei diante dele.

─ Meu filho! Por que tamanha desgraça? ─ Perguntei ao falso cego.

─ Meu bom Padre! Foi uma bala perdida durante a Guerra. ─ Respondeu o sem vergonha.

Levantei a batina da Gregoriana, botei minhas ferramentas pra fora e me preparei para dar-lhe um banho matutino. O safado levantou-se e saiu correndo aos berros, esquecendo a cuia de moedas.

─ Virgem Santa! Já tomei meu banho na semana passada. ─ Gritava correndo, em plena rua.

A que ponto chegou a ICR, pensei. Recolhi as moedas da cuia abandonada e as escondi no bolso da batina. Afinal de contas, eu também fazia parte da Cúria e as moedas, mais cedo ou mais tarde, iriam financiar fins escusos da Igreja. Como as moedas da Máfia e da CIA, por exemplo. Pelo menos aquelas poucas seriam destinadas ao fundo para a restauração de documentos antigos, mantido por Lippi.

Apressado, entrei sem bater no Gabinete do Monsenhor Lippi. Ele estava examinando a célebre Pasta Verde com as Atas do Julgamento do Papa Formoso. Levantou sua vista pra mim com uma cara de poucos amigos. Cuidadosamente, colocou na Pasta os antigos documentos e os guardou num cofre atrás do seu birô.

─ Engraçado, né Tsé! Bem que Braguinha me falou que, na sua Comunidade, as palafitas não têm portas. E que moedas são essas? ─ Disse Lippi.

Dei-me conta, então, da grosseria e lhe pedi mil desculpas. Expliquei o caso das moedas e Lippi comentou secamente:

─ Muito bem! São poucas, obtidas ilicitamente, mas os papéis antigos merecem. ─ E guardou no cofre as moedas mixurucas que me dera tanto trabalho.

─ É que estou muito angustiado pelo mistério do hamster de Irenia. Mas, isso, não justifica entrar no seu Gabinete sem o toc-toc tradicional.

─ Tudo bem, Tsé! Mas, lembre-se de que eu recebo personalidades ilustres na Biblioteca e, até mesmo, o Santo Padre que me fez uma visita. Imagine eu estar conversando com um Cardeal ou um cientista qualquer e, de repente, entrar um padreco sem eira nem beira sem se anunciar.

─ Desculpe novamente, Monsenhor! Mas é que o padre chinês me disse que o senhor quer falar comigo com urgência. ─ Acrescentei para amenizar a situação.

─ Mas, não com tanta urgência assim. Tenho uma novidade desde que você também está envolvido nesse negócio dos ratos. ─ Disse Lippi.

─ Pelo amor de Nossa Senhora dos Ratos, Monsenhor! Hoje mesmo, tive um pesadelo com eles. Mas, há um mistério que quero lhe contar. ─ Respondi pensando que o Monsenhor voltara ao seu bom humor habitual.

─ Tudo bem, Tsé! Mas sou eu que quero lhe falar. Por favor, deixe o tal pesadelo pra depois que os meus são cotidianos e nem por isso vivo chateando ninguém. ─ Respondeu Lippi carrancudo.

─ Desculpe, novamente, Monsenhor. ─ Respondi com mais cuidado. Parece que o homem não estava pra brincadeiras.

─ Padre Tsé! O Laudo da Gregoriana é falso. ─ Disparou o Chefe da Biblioteca.

─ Como assim? E como o senhor descobriu? ─ Exclamei assustado.

O Cardeal Ferrughi havia deixado o Laudo sobre a mesa e Lippi, como bom arquivista, preparava-se para guardá-lo quando teve curiosidade de rever o documento. Embora não entendesse nada do ponto de vista técnico, essas coisas de mecânica quântica, ondas sonoras etc, fixou-se na assinatura do redator do Laudo. E de assinaturas, ele entendia muito bem. Achou-a estranha, como se já tivesse visto alguma coisa parecida. Levantou-se, tomou um café bem quente e voltou a examinar o documento.

─ Tirei a pasta de documentos de minha villa e lá estava. ─ Terminou Lippi.

─ Lá estava o quê, Monsenhor? ─ Perguntei, já esperando novo carão.

─ A mesma assinatura estava numa receita de vermífugos para uma de minhas vacas holandesas. ─ Respondeu Lippi.

─ Bem, Monsenhor! Pra dizer a verdade, eu mesmo já desconfiava daquele Laudo. Mas o senhor tem certeza?

─ Claro, Padre Tsé! Ferrugi me fizera a gentileza de mandar seu veterinário examinar minha vaca e foi ele, sim, que assinou a receita. A mesma que consta no Laudo. Lembra-se de que o Cardeal passou quase uma hora ao telefone, depois de suas informações sobre o arco e o violino? Pois bem! Foi naquela hora que ele ditou o Laudo para o seu veterinário. ─ Concluiu Lippi.

─ E agora, Monsenhor? Em vez de um, temos dois mistérios, contando com o meu pesadelo. ─ Comentei doido pra contar o que se passara comigo.

─ Por telefone, dei o maior esporro em Ferrughi. Como sempre, ele deu a maior gargalhada. De qualquer maneira, ponderou que o Laudo era só pra limpar nossa cara. Tanto assim que os jornais engoliram direitinho a história. Mas sugeriu uma coisa interessante. Vamos reunir o Conselho Curador de nossa Sociedade para estudar o caso. Afinal de contas, são vinte e um membros especialistas em várias disciplinas. Dois terços são de religiosos, entre os quais três Madres. Um terço é de leigos, que nos ajudam, entre os quais há quatro detentores do Prêmio Nobel.

─ E eu posso assistir à reunião, Monsenhor? ─ Perguntei desastradamente.

─ Ora, Tsé! Cresça e apareça. Todos são Doutores em suas disciplinas e você não passa de um pré-estudante. Mas, agora que você já sabe da falsidade do Laudo, qual é o tal mistério que você está ansioso pra me contar.

Falei, então, sobre o mistério do hamster de Irenia e do pesadelo que tivera. Desejava apenas discutir com Lippi a solução que eu mesmo encontrara.

─ Lamento, Tsé! Mas não há nenhum mistério com a mascote da menina. Não sabia que você era tão impressionável assim.

Lippi levantou-se e foi até a mesinha de sua cama. Lá, vestiu uma luva cirúrgica, e pegou qualquer coisa. Voltou com uma das mãos fechadas e me disse:

─ Está aqui o mistério que lhe atormenta, Tsé. Adivinhe o que está dentro de minha mão direita.

Foi quando ouvimos um toc-toc na porta de entrada e Lippi mandou entrar. Era o padre chinês com um telegrama pra mim. Resposta do Dr. Quim às minhas questões sobre os ratos. Estendi o telegrama para o Monsenhor na esperança de que ele abrisse a mão e deixasse à mostra os troços que ele pegara na mesinha de cabeceira.

─ Ora, Tsé! Um dos defeitos da juventude é pensar que sabe tudo e pode enganar todo mundo. O telegrama não é pra mim. Leia-o você mesmo que eu estou morto de curiosidade. ─ Disse o Monsenhor na sua primeira risada daquela manhã, recusando-se, é claro, a abrir sua mão.

Eis o texto do telegrama do Dr. Quim que ainda guardo até hoje:

“Dudulaidadá encontra-se muito longe e quase não ouvi sua voz. Está tentando evitar choque entre gigantesca galáxia Andrômeda com nossa mixuruca Via Láctea, por causa de erro matemático de seu filhote Jeová, nascido numa montanha do Oriente Médio. A menina do violino e sua mascote são abençoadas e, portanto, imunes a qualquer malefício. Quanto aos ratos, favor perguntar ao Vice-Rei do Maranhão e Amapá que entende do assunto melhor do que ele. Por favor, mande uma dúzia de hamsters que eu adoro coxinha assada na brasa. a) Dr. Quim.”

Dessa vez, a gargalhada de Lippi foi maior ainda.

─ É, Tsé! Na minha visita à Paróquia da Torre, conheci também o Dr. Quim. Um dos homens mais sábios e amáveis que já encontrei na minha vida. E dos mais irônicos, também.

(…)

Infelizmente, não dá pra continuar. O meu choro é grande e minha piedade é do tamanho da Galáxia Andrômeda. A Coisa perdeu novamente. Se continuar assim, vou terminar virando cronista de futebol.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV