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Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XL

12 de março de 2010, às 15:00h

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

(Orbi et Homo)

40º CAPÍTULO

Nas décadas de 1950 a 1970, a Itália se reorganizava do caos deixado pela derrota na Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, financiada pelo Plano Marshall, a direita dirigia o país sob a égide de três forças políticas principais: a ICR, através da Democracia Cristã, a CIA e a Máfia Siciliana, sem falar da Camorra. A corrupção econômica tornara-se um câncer nacional, inclusive dentro da própria Igreja através do IOR, e a violência física e moral se mostrava na repressão aos movimentos progressistas.

O troco da esquerda, aliás, viria, com mais violência ainda, a partir da década de 1980.

Não era de estranhar, pois, que a ICR, apesar de ter abolido a sagrada fogueira, perseguisse aqueles que considerava hereges, dentro e fora da Itália. Aqui mesmo, no Brasil, o Congresso Eucarístico Nacional do Recife, em 1950, proclamava que “quem não crê (na ICR), brasileiro não é”.

Não me surpreendi, pois, com o rapto de que fora vítima nem tampouco o violento interrogatório que sofrera. Mas, como dizia um filósofo, “nem toda confissão é uma vitória da tortura; porque, às vezes, a pior tortura é ter a voz silenciada”. E nesse sentido, o Santo Ofício jamais me venceria.

Depois de um pequeno lanche, do qual não participei (apenas deram-me um pouco d’água), o padre Von Hartz começou a delirar pronunciando uma sapientíssima aula de Teologia Cristã, repetindo, como me parecia evidente, os teólogos antigos, especialmente os medievais.

De repente, calou-se e, olhando-me fixamente, falou:

─ Padre Von Tsé! Chegou sua hora de confessar todas as heresias que vem pregando dentro de nossa Santa Igreja.

Mais descansado e aproveitando-me da vaidade do padre alemão, respondi, com toda a coragem que aprendera em nossa Comunidade, que só falaria se ele retirasse o arame farpado em volta do meu corpo, que me impedia de respirar direito. Para minha surpresa, Von Hartz concordou prontamente tal a sua curiosidade pseudointelectual no debate teológico que, segundo ele pensava, se seguiria com a vitória certa dos ensinamentos sagrados da ICR.

─ Em suma, padre Von Tsé! O senhor acredita que Deus criou os céus e a terra? ─ Perguntou-me, como se estivesse em plena aula de catecismo.

─ Não! ─ Respondi.

─ Como assim? ─ Exclamou Von Hartz, atônito.

─ Ora, padre Von Hartz! No princípio, havia apenas os quatro elementos: terra, água, fogo e ar. Eles formavam uma gigantesca massa amarronzada que se movia caoticamente pelo espaço. No meio dela, surgiu Nosso Senhor Todo-Poderoso, também feito dos quatro elementos, e não entendeu nada do que estava ocorrendo. Ele queria, mas não podia e não adiantava ter o “querer” sem o “poder”. Foi, então, que surgiu um “Assopro” de nome feminino, que chamo de Espírito Santo, segundo as Sagradas Escrituras, e inoculou no Todo-Poderoso o intelecto que, além do “querer, forneceu-lhe, enfim, o “poder”.

─ Estranho! Estranho! Quer dizer que a mulher já existia antes do próprio Deus? ─ Exclamou o padre alemão.

─ Não disse nada parecido, Senhor Vigário. Esclareci apenas que, em aramaico, o Espírito Santo tem nome feminino. Parecia mais como “um bater de asas”. Nada mais! Se era mulher, fica por sua conta. ─ Acrescentei.

E de onde veio todo o conhecimento de Deus? ─ Murmurou Von Hartz.

─ Do Caos! Da massa primordial cor de…, cor de…como direi…enfim, cor de merda. Mas, acontece que o Todo-Poderoso estava sozinho e não podia conversar com ninguém. Como já “podia”, resolveu criar o Filho e daí por diante começou o diálogo universal. Primeiramente, Eles não gostaram da cor do Universo e resolveram transformar tudo em leite do mais branco que pudessem. E esse branco leitoso é o que chamamos ainda hoje de Via Láctea. Porém, os dois falavam, falavam e nada criavam além de se moverem através do leite derramado. Para não se afogarem, aproveitaram o eterno movimento da massa original, e transformaram o rio de leite num imenso queijo, mais sólido e consistente sobre o qual podiam andar, correr e até patinar.

─ Heresia, heresia! ─ Murmurou Von Hartz assustado com minhas palavras. Nem liguei e continuei a falar. Quanto mais falasse, pensava, mais rápido o padre alemão se cansaria e deixaria de me atormentar.

─ No entanto, as conversas entre o Pai e o Filho, às vezes traduzidas pelo Espírito, não levavam a nada. Ora, naquelas alturas, passado muito tempo, o queijo universal começou a apodrecer e dos seus buracos surgiram inúmeros vermes, parecidos com tapurus, que o Filho chamou de Anjos, todos eles subordinados ao Pai, ao Filho e ao Assopro. Foi, então, que o Pai teve uma ideia das mais desastrosas. Resolveu criar o mundo e mandou que os Anjos fizessem um boneco, feito também dos quatro elementos. Depois, pediu ao Assopro que fuçasse nas suas narinas algo que prestasse. E foi assim que surgiram o homem e a mulher para reinarem no mundo e para o destruírem também como quase conseguiu seu chefe supremo, padre Von Hartz. Eis a ideia mais estrambólica que Nosso Senhor já tivera: a criação de nossa espécie.

─ Não acredito! Não acredito! Além disso, nosso Líder só perdeu a guerra por causa da incompetência dos generais e do dinheiro dos judeus americanos. ─ Gritou histericamente o padre alemão.

─ Mentira desgraçada! ─ Exclamei com moderação. E continuei:

─ Depois disso, o casal botou pra quebrar e teve milhares de filhos que povoaram a terra, até que surgiu um desgraçado e louco bárbaro germânico que queria acabar com a raça primordial. E quase conseguiu se não fossem a vitórias brasileiras em Monte Castelo e Monte Cassino.

─ Mas vamos deixar de blá-blá-blá pseudo-histórico, padre Von Tsé. ─ Interrompeu-me o Vigário Inquisidor cheio de irritação. ─ Voltemos à Santa Teologia. Ora, se não houvesse existido essa tal massa amarronzada, Deus Todo-Poderoso teria podido fazer sozinho todas as coisas? E a luz de onde veio, padre Von Tsé?

─ Padre Von Hartz! Eu acredito que não se possa fazer nada sem matéria e Deus, nosso Pai, ficaria somente com o “querer”. Quanto à luz, é óbvio; veio dos tapurus, como a gente vê nas velas de uma procissão.

─ E aquele Assopro, que o senhor chama de Espírito Santo, é da mesma natureza e essência de Deus?

─ É! Assim como o Filho, os anjos e os homens, isto é, tudo feito da mesma porcaria: terra, água, fogo e ar. O resto não passa de mentira dos padres e dos pastores para enganar o povo. ─ Respondi atrevidamente. Von Hartz, em troca, começou a cutucar meu fígado com o cabo do seu chicote até que não pude mais respirar.

─ Chamando-me de mentiroso, padre Tsé? Comparando-me com esses infiéis da Nova Seita? E Deus, Nosso Senhor, foi produzido por quem? ─ Interrogou o padre alemão.

─ Não sei! E deixe de apertar meu fígado, pelo amor de Nossa Senhora. Mas, todos, inclusive o Pai, o Filho e o Espírito Santo, recebem a vida do movimento e da mudança do Caos e caminham da imperfeição à perfeição.

─ É! Depois, voltaremos à Santa Virgem Mãe de Deus. E o Caos, quem o criou e quem o move?

─ Ele sempre existiu e se move sozinho. ─ Respondi.

O padre Von Hartz, embora vidrado na minha Cosmogonia, parecia cansado e começou a bocejar.

─ Padre Von Tsé! Vamos parar um pouco por aqui. Voltaremos depois de fazer um lanche do qual, por minha exclusiva bondade, o senhor vai participar. Daremos um bom cochilo e continuaremos essa interessante e imaginosa conversa duas horas mais tarde.

Comemorei a decisão de Von Hartz. Teria mais tempo para melhorar minha história.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV
Capítulo XXXVI
Capítulo XXXVII
Capítulo XXXVIII
Capítulo XXXIX

Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXIX

19 de fevereiro de 2010, às 21:28h

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

Fotografia de Joel-Peter Witkin

(In nomine Pater et Filli et Spiritum Sanctum)

39º CAPÍTULO

Não sei se deveria publicar este Capítulo e o próximo, cheios de tão más recordações. Às vezes, penso que o mal se resolve por si mesmo, preso na rede do tempo e da memória. Contudo, fiel à verdade, espero não chocar ninguém pelos momentos indescritíveis por que passei. A verdade! Meu único compromisso com a vida e para com o próximo.

A viagem até à fazenda do Cardeal deveria durar apenas duas horas. Porém, a limusine americana emperrou no meio do caminho. Nada grave! O chofer foi até o posto de gasolina mais próximo, e um mecânico desentupiu e limpou o carburador do carro. Assim, chegamos à mansão cardinalícia à noite, depois de umas três horas encalhados na estrada.

Tomei um banho, jantei e, cansado, fui dormir bem cedo. Pela manhã, cheguei atrasado ao café, servido pela Irmã Genoveva, auxiliar e dona da casa de Ferrughi. Avisou-me de que o Cardeal saíra bem cedo para inspecionar suas vacas holandesas. De tanta comida, fiquei empanzinado. Aproveitei para completar o sono e deitei-me numa rede, à la brasileira, na varanda toda fechada com vidro fumê.

Não tardei a dormir de barriga pra cima como fazem os índios, os sertanejos e os habitantes de nossa Comunidade.

Em doces sonhos, fui de repente acordado por dois homens encapuçados que taparam meu nariz com um lenço embebido de alguma substância desmaiante. Não sei o que aconteceu e quanto tempo durou meu desmaio até acordar dentro de um furgão que balançava por cima de uma rua ou estrada de paralelepípedos. Estava amarrado nos tornozelos e nos punhos. Minha boca fora fechada com um esparadrapo e um lenço tapava meus olhos. Imobilidade e escuridão totais.

De repente, o furgão parou e ouvi o ranger de um velho portão de ferro. A viatura avançou mais um pouco e, com os tornozelos desamarrados, fui arrastado por um longo corredor até uma escada descendente. Contei 45 degraus e entramos numa ampla sala fria e soturna. Certamente, um dos famosos Subterrâneos do Vaticano. Tiraram a venda dos meus olhos e pude perceber a vastidão do ambiente. Despiram-me de meu traje civil, ficando totalmente nu. Fui forçado a sentar numa incômoda cadeira e amarraram meus braços nela. Depois, arrancaram o esparadrapo de minha boca de uma só vez, o que doeu bastante. Em seguida, passaram um arame farpado pelo meu tronco fixando-me à cadeira. Logo percebi a função do arame; qualquer movimento brusco, como me virar para os lados, gritar ou respirar mais fundo, faziam com que as farpas se enterrassem no meu corpo, logo acima do meu estômago. Pra meu alívio, cobriram minhas vergonhas com um pano imundo. Não sei! Talvez alguém ficasse impressionado com minhas belíssimas e desejáveis ferramentas de baixo.

Mesmo assim, percebi um padre sentado num birô em frente de minha cadeira, olhando para elas com um sorriso meio lúbrico. Louro, de olhos verdes, um rosto meio gordinho, usando uns óculos de aros finos e lentes redondas. Ao seu lado, outro padre estava com uma máquina de escrever.

─ Heil! Declaro aberta a sessão do Interrogatório Formal e Preliminar do Padre Ambrósio Von Tsé-Tsé, acusado, por testemunhas idôneas, de heresias e de ter assassinado o Padre Francisco Javier e ocultado o seu cadáver. O penitente chegou até nós de livre e espontânea vontade e declara que está disposto a dizer a verdade e toda a verdade sobre o processo de investigação.

Esperou que o datilógrafo terminasse e continuou:

─ Padre Von Tsé-Tsé Não Sei Das Quantas! Eu sou o Cônego Von Hartz, Vigário Geral do Santo Ofício, encarregado de interrogá-lo sobre o lamentável homicídio e de outras heresias apontadas pelas testemunhas.

─ Estamos num país democrático e exijo a presença de um advogado. ─ Limitei-me a dizer ainda espantado com tudo aquilo.

─ Tem razão! Mas lembre-se de que o Vaticano não é uma democracia. Nada de liberdades comigo, portanto. ─ Disse o Vigário, com uma voz mansa, baixa e suave, embora esganiçada. E perigosa! Chamou o frade Bhormanide que estava junto a uma parede soprando as brasas de uma churrasqueira. Não o vira quando cheguei. Tratava-se de um monge corpulento que se aproximou da mesa, dizendo:

─ Ham, hem, him, hom, hum! ─ Coitado! Notei de pronto que haviam cortado sua língua. Punição de pecados horríveis, decerto. Mas, para que me servia um advogado que não podia falar? Respirei fundo, o que não deveria ter feito, e senti as farpas do arame se enterrarem na minha pele. Gritei e foi pior. Filetes de sangue escorriam pela minha barriga.

─ Mas, sem delongas, vamos aos fatos. Confesse Padre Tsé-Tsé! ─ Gritou o Vigário do Santo Ofício.

─ Sou inocente! Fui raptado e não sei o que se passa nessa porcaria de sala. ─ Afirmei sem hesitação.

O Vigário Von Hartz levantou-se e, portando uma espécie de chicote, feriu-me no braço, deixando uma profunda marca vermelha.

─ Isso é para começar, Von Tsé. ─ Disse meu agressor.

Já percebera, pela primeira saudação e pelo sotaque germânico, de que se tratava do temido padre alemão de que me falara Javier. E, com toda a razão, comecei a acreditar no mexicano.

─ Examine sua consciência, Tsé! Separe o bem do mal e só nos conte sobre o último. O corpo não nos interessa. Ele morre e volta ao pó de onde veio, segundo as Sagradas Escrituras. Queremos apenas salvar sua alma dos seus crimes e heresias que somente serão redimidos com sua confissão completa e um arrependimento eterno. O corpo e a alma de Javier já se foram. Que Deus o tenha! O que nos importa é o amor de Nosso Senhor Jesus Cristo pela sua alma, Von Tsé. Você sabe que Nosso Salvador entregou de mão beijada seu corpo aos judeus. Mas, sua alma, pura e imaculada, juntou-se ao Pai Eterno. Não me julgue pela chicotada, mas pelo amor cristão que lhe devoto. À salvação de sua alma, é claro. Você tem cinco minutos para decidir. Ou confessa ou será entregue ao Sagrado Tribunal da Inquisição.

O Padre alemão era reconhecidamente um exibicionista em matéria de Teologia Cristã. Corria o boato no Vaticano de que ele iria longe na carreira eclesiástica. Aproveitei os momentos de sua vaidade para refletir um pouco sobre minha situação.

Desde criança, o Monsenhor Braguinha, meu pai, o venerável Dr. Quim e a doce Vó Dé haviam me ensinado a não transigir com a agressão gratuita. Deveria sempre responder à altura. Numa agressão física, se fossem mais fortes, corresse, pois não haveria nenhuma vergonha nisso. Mas, como correr, amarrado numa cadeira e cercado por brutamontes? A solução teria de ser mais flexível. Falar, falar e falar. E nisso, eu era bom até demais. Aproveitaria, pois, a vaidade teológica do padre alemão. A fogueira estava perto, mas, certamente, não me matariam ali. Ameaças, algumas pauladas, uns ferimentos, tortura física e mental. Tentaria aguentar.

Depois de um longo silêncio, Hartz voltou à carga.

─ Então, Von Tsé-Tsé! Comecemos pelo mais leve, suas heresias.

Resolvi, então, testar meu torturador pra ver até aonde ele iria.

─ Não sou herético. Apenas penso diferente dos negócios teológicos dos quais o Vigário é, notoriamente e com justiça, um dos mais bem informados do Vaticano. ─ Respondi com uma sutil bajulação.

─ Sou! E por isso afirmo que você é um heresiarca dos piores. E heresia, desde os primórdios do Cristianismo, se combate com porrada. De minha parte, sigo os passos de Nosso Senhor e da Virgem Maria, conforme os ensinamentos da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. E você, Von Tsé, acredita em Deus, o Todo-Poderoso, criador dos céus e da terra? Acredita que Jesus Cristo é o Filho de Deus e que é o nosso Salvador? Que o Espírito Santo nos ilumina e guia? Que a Virgem Maria é a Mãe de Deus e a Rainha dos céus? Que nossa alma é eterna?

O Vigário do Santo Ofício falava diante de mim com o chicote em riste pronto para desferir algum dos seus golpes.

─ Acredito em quase tudo o que o senhor disse, mas de uma maneira diferente que acho ser a verdade verdadeira ─ Respondi.

─ Padre Bhormanide! Prepare uma brasa bem assanhada e venha esquentar o olho direito do penitente. Se quiser, ponha tudo olho a dentro.

─ Não! Não! No olho direito, não! ─ Gritei, morrendo de dor com as farpas do arame na minha barriga.

─ E por que não no olho direito?

─ Ora, senhor Vigário, porque é com ele que leio o Breviário que vai salvar minha alma. ─ Respondi cinicamente.

─ Tudo bem! Bhormanide! Enterre uma brasa no olho esquerdo desse padre vagabundo.

─ Não! Não! O olho esquerdo serve para ajudar o direito na leitura do Breviário.

─ Senhor Vigário! ─ Falou o datilógrafo ─ Por que não enfiar um espeto quente no terceiro olho do herege?

─ Não pode! Não pode! É pecado! O terceiro foi feito por Deus, Nosso Senhor, somente como saída. ─ Disse com a maior pressa do mundo.

─ E que tal assar suas duas lindas ferramentas arredondadas? Bhonamide! Traga uma brasa bem quentinha para fazer uma omelete.

─ Não pode! São a fonte da vida criada pelo Todo-poderoso. Pecado maior ainda! ─ Exclamei aflito.

─ E esse espeto lindo que você tem, Von Tsé? Estou com fome e podemos transformá-lo numa gostosa salchicha. Afinal de contas, você já fez seu voto de castidade, não é mesmo?

─ Não, não e não! ─ Gritei, levando mais uma ferroada do arame farpado.

─ Brincadeirrrrinha! ─ Falou Hartz dando-me uma tapa forte e eficiente no meu rosto. Um filete de sangue escorreu dos meus lábios. Anotei o fato. Quando, e se pudesse, daria o troco àquele covarde, como são todos os torturadores. Em praça pública, na frente de todo o mundo.

─ Mas, Von Tsé, o senhor não respondeu às minhas perguntas. Estou muito curioso de saber em pormenores suas fantasias eróticas, digo, heréticas. Sou doido por heresias! Para combatê-las, é claro.

O interrogatório já durava umas duas horas e eu me sentia fraco, combalido e desanimado. Mas, pela minha cabeça, soaram as palavras de Vó Dé:

“Resista, meu filho, resista até o fim. Um dia, os arquivos serão abertos e a Comissão da Verdade publicará tudo nos jornais”.

Mas, estimados leitores, a cada frase que escrevo, vomito duas vezes. Vou parar. Quem sabe se poderei continuar no próximo Capítulo?

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV
Capítulo XXXVI
Capítulo XXXVII
Capítulo XXXIX

Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXVIII

8 de fevereiro de 2010, às 23:32h

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

(Quod erant demonstrandum)

38º CAPÍTULO

Depois de toda aquela estória, de todo aquele blablablá, da decisão de deserção, bem, depois de tudo isso, o padre Javier me pareceu em pleno surto psicótico paranoico. Por isso mesmo, resolvi atender a todos os seus pedidos, inclusive segui-lo disfarçado até o aeroporto, como uma espécie de proteção para ele e a irmã Consuelo. Segundo Javier, a Companhia de Jesus não tolerava deserções e a formação militar dos jesuítas implicava em perseguições para toda a vida. Nem sempre torturas físicas para os desertores capturados, é verdade. Mas a destruição moral, psicológica e social era inevitável.

Claro! Vendo o peixe como o comprei!

Javier botou um traje civil com uma gravata escandalosamente colorida, cheia de animais e flores, à maneira mexicana. Colou um bigodão artificial e acrescentou um sombreiro à cabeça. Dramalhão dos piores, de fato.

Meu disfarce era mais simples. Como em Roma costumam circular milhares de urubus vestidos de preto, andando pelas calçadas, praças e bosques pra lá e pra cá em busca não sei do quê ─ da carniça das almas, talvez! ─ vesti-me mesmo de padre secular. Na verdade, o melhor disfarce para uma cidade totalmente dominada pelos negros agentes 666, segundo o Pastor da Assembleia lá da esquina.

Em silêncio, segui o casal a uns quarenta metros de distância até o aeroporto. Vi-os entrarem no avião e somente voltei para o Albergue quando o bicho voador perdeu-se nas nuvens bem distantes em direção a Ciudad de Mexico.

No outro dia, um Sábado, Roma amanheceu friorenta e chuvosa. Aproveitei para ler o último romance de Pitigrilli, então em moda, sobre os amores de uma condessa e seu copeiro, em plena barba do marido. Divertido! Ainda mais, sabendo-se que os dois não eram de nada.

O Domingo foi a mesma coisa; frio e chuva fina. Outro Pitigrilli e inúmeras fantasias eróticas, fazendo-me subir pelas paredes. Que horror! À tarde, recebi um telegrama cifrado de Javier, avisando-me de que chegara ao México e já estava a caminho da Sierra Madre com uma caravana de tropeiros, protegida por cinquenta guerreiros de sua tribo asteca. No dia seguinte, haveria o seu casamento e sua entronização como xamã, nomeado pelo próprio pai que se tornara o chefe da aldeia. Relembrou meu juramento de ficar calado até ao meio-dia da Segunda-feira. Nada mais!

Cheguei preguiçoso e atrasado na Biblioteca, lá para as onze da manhã. Fiquei na minha mesa, um pouco escondida no canto da imensa sala, junto a uma estante de livros antigos. Com o tédio do trabalho, abri um livro de fotografias eróticas, presente do padre Javier. Oitenta posições para se fazer uma criança! A maioria dedicada a atletas olímpicos. Eu, pelo menos, sabia fazer a mesma coisa de uma maneira mais simples. Mas, enfim!

De repente, uma sombra gigantesca cobriu a minha mesa. Era o padre chinês, Ching Ling Ling.

─ Padre Tsé! Monsenhor chama irmão conversa gabinete. ─ Disse o coitado. Guardei apressadamente o livro de fotografias na gaveta de documentos sagrados e tranquei-a com a chave.

Não dispensei o toc-toc cerimonial e entrei. Pra minha surpresa, numa poltrona bem grande, estava refestelado o gorducho Cardeal Ferrughi.

─ Sente-se, Padre Tsé. ─ Ordenou-me o Monsenhor Lippi, numa voz seca e desagradável, antes mesmo que os pudesse cumprimentar.

─ Já viu a tese do padre Javier? ─ Perguntou-me de chofre o Cardeal.

─ Claro! Assisti à defesa. ─ Respondi, surpreso.

─ E por que não nos disse que se tratava de uma porcaria? ─ Continuou Ferrughi.

─ Nem tanto! Acho-a um belo romance histórico religioso baseado num manuscrito copta antigo. Aliás, irmão Cardeal, por que tanto interesse em Javier? ─ Contra-ataquei, já sentindo o clima pesado da reunião. Desconfiei, por instinto, de que a fuga mexicano-rocambolesca de Javier já se tornara um fato notório no Vaticano.

─ Você viu o tal manuscrito? ─ Rosnou meu irado Orientador.

─ Não! Apenas a tradução em espanhol, feita pelo próprio Javier. E se tivesse visto, de nada adiantaria. Não entendo bulufas de copta. ─ Respondi.

─ Acontece que esse manuscrito não existe. ─ Disse com bastante seriedade o burocrata Lippi.

─ Como assim? ─ Exclamei.

─ Tudo inventado! Uma fraude acadêmica das piores. ─ Afirmou Lippi.

─ E os outros numerosos manuscritos antigos? E a copiosa bibliografia? ─ Ainda tentei argumentar.

─ Salvo alguns poucos teólogos conhecidos, as citações são falsas porque tais livros tampouco existem. ─ Concluiu o Monsenhor.

─ E você, padre Tsé, colaborou com essa fraude. ─ Rosnou o Cardeal.

─ Mentira de quem disse. Apenas, fiz alguns reparos de gramática latina. Nada mais! Além disso, não fui professor, orientador nem examinador de ninguém. ─ Respondi cada vez mais espantado com o interrogatório.

─ Por favor, Padre Tsé! Confesse! Estão cochichando que você e Javier formavam um parzinho romântico. ─ Concluiu Ferrughi ironicamente.

─ Protesto! Protesto! ─ Levantei-me vermelho de raiva. ─ Vou processá-lo, Cardeal! Vou processá-lo por infâmia, calúnia e difamação. ─ Gritei.

─ Calma, Tsé! Calma! Sente-se, por favor. ─ Ouvi a voz de Lippi mais suave e afetiva como nos tempos de outrora. E continuou:

─ Estamos aqui apenas para defendê-lo.

─ Recuso ser defendido por traidores. É isso ai! De tanto ficarem nessa porcaria de ICR, vocês terminaram pegando o vírus fedorento romano. Traidores e delatores! ─ Berrei com toda a força de meus pulmões.

Fiquei atordoado com o imenso barulho do Cardeal que segurava sua enorme pança de tanto rir.

─ Ora, Tsé! É que o padre Javier desapareceu e você é o principal suspeito. ─ Disse Lippi, num tom sério, embora cordial.

Olhei para meu relógio. Faltavam quinze minutos para o meio-dia.

─ E onde escondeu o cadáver, Tsé? ─ Falou o cardeal entre as lágrimas de tanto rizo.

─ Porra, Cardeal! Que cadáver? ─ Olhei novamente para o relógio. Faltavam ainda dez minutos para o meio-dia.

Tenso, quase como se tivesse adquirido um súbito tique nervoso, pregara o olho no relógio, cujos ponteiros teimavam em não andar.

─ E pare de ficar olhando pra esse maldito relógio. ─ Rosnou novamente o Cardeal.

─ Rolex legítmo! ─ Exclamei para ganhar tempo.

─ E comprado no Camelódromo de Roma! ─ Acrescentou Lippi, rindo de minha ingenuidade.

─ Mas, vamos falar sério, Tsé. ─ Continuou o Monsenhor. ─ Ocorre que o Superior dos Jesuítas, o Papa Negro, quer convocá-lo para um Interrogatório Oficial. E tememos pela sua integridade física.

─ Não pode! Sou padre secular e ele não tem jurisdição sobre mim. ─ Respondi.

─ Ele sabe disso, Tsé. Por isso, formulou uma queixa ao Santo Ofício e você pode parar na Santa Inquisição. ─ Explicou o Cardeal.

─ E na Santa Fogueira! Não! Não posso cair nas garras do Assistente da Inquisição. Ele é um padre alemão que foi da Juventude Nazista. ─ Disse, morrendo de medo.

Faltavam cinco minutos para o meio-dia. Pedi, então, um copo-d’água a Lippi que se apressou em buscá-lo na copa. Bebi o sagrado líquido, gota a gota. Mas, ainda faltavam dois minutos para o término do meu juramento a Javier. Pedi para ir ao banheiro.

─ É na porta à esquerda, como você bem sabe, Tsé. ─ Disse Lippi.

Entrei no WC, dei duas ou três descargas e ouvi a primeira badalada do sino da Igreja de Santa Madalena, defronte da Biblioteca. Quando soou a décima segunda, sai do banheiro, sentei-me inteiramente calmo e comecei a contar tudo o que ocorrera na Sexta-feira anterior.

─ Já sabíamos de tudo, Tsé. Apenas, queríamos fazer uma prévia do tal Interrogatório Canônico para ver como você iria reagir. ─ Disse amavelmente Ferrughi. ─ E acrescentou:

─ Como o ofício só chega amanhã, eu e você vamos, agora mesmo, pegar minha limusine oficial, em direção da fazenda. O pretexto é que, como já estava previsto, precisávamos discutir o Curso de Doutorado que começa na próxima semana. Assim, teremos tempo de neutralizar o padre alemão.

─ Mas não trouxe roupa nem nada e estou morrendo de fome. ─ Ainda tentei argumentar.

─ A gente se arranja na fazenda, Tsé. No caminho, come-se uma pizza num restaurante de beira de estrada. ─ Disse o Cardeal, conduzindo-me para os fundos da Biblioteca, onde embarcamos para uma viagem de umas duas horas de carro.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV
Capítulo XXXVI
Capítulo XXXVII

Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXVII

22 de janeiro de 2010, às 17:59h

Abandonei o blog. Sim, abandonei. Foi um caso de Filho abandonando o Pai, o que é, convenhamos, um absurdo. Filho que abandona o Pai, mesmo num blog, vira porco, diz a cultura popular. Não quero virar porco, mas que merecia, ah, como merecia. Sim, porque Filho não abandona Pai, embora este já o tenha abandonado, um dia, lá na cruz.

(talvez, tenha sido o maior Abandono de todos os tempos. Inclusive, foi matéria de artigos de Tsé-Tsé)

E não abandonei apenas este blog. Na verdade, foi um abandono geral e radical, pois deixei o Torcedor Coral (lá, inclusive, já voltei) e o Que Cazzo (aqui, só nas férias) ao léu! Tenho vergonha e admito. Entretanto, tenho desculpa pronta na língua: a universidade virou uma fábrica fordista. Não paro mais de trabalhar, e o tempo deixou de existir, virando uma utopia qualquer.

Mas, na passagem do ano, fiz aquelas promessas que nunca são cumpridas, embora funcionem como uma espécie de meta inatingível durante o ano. Uma delas foi a seguinte: voltarei aos blogs. Além disso, é ano de 2010 da Graça de Nosso Senhor. Ano no qual a direita faz-se reação e está agitada, inventando crise em cima de crises. Uma direita que tem uma visão hondurenha da democracia. Quero acompanhar, no blog, um ano tão delicado.

Por enquanto, continuamos com as memórias (?) do Reverendo…

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

(Bona et felicitatis in novum annum)

37º CAPÍTULO

Ufa! A defesa de tese do padre Javier terminou às seis horas da noite, depois de um dia de intensas discussões acadêmicas, entremeadas de lanches, orações, novenas e terços rezados. Um ritual litúrgico dos mais pesados para examinar uma simples tese de Doutorado; mas, a ICR é assim mesmo. Mera imitação das cerimônias do extinto Império Romano, no qual, até para se dar um peido, eram invocados os deuses do Olimpo.

No caso, predominavam os louvores à Santa Virgem.

A Banca era composta pelo Orientador de Javier, um cardeal mexicano de uns 85 anos que, praticamente, dormiu o tempo inteiro. Mais dois cardeais carcomidos pela idade que babavam enquanto rezavam as Ave-Marias. E dois jesuítas mais jovens que, como urubus, caíram de pau e pedra em cima da carniça do coitado do Javier.

No final, para minha surpresa, a tese foi aprovada com a nota máxima, com pedido de publicação como sempre se faz numa Universidade pertinho de nossa Comunidade.

Na porta de saída, feita de mogno extraído ilegalmente da Amazônia pela ICR, o irmão Javier me deu um caloroso abraço, dizendo-me que fora aprovado graças à minha ajuda. Neguei, claro, respondendo-lhe que o brilhantismo literário do seu trabalho valia muito mais do que a nota máxima.

Contudo, bem baixinho no meu ouvido, Javier pediu-me, pelo amor de todos os santos da ICR, que o esperasse no Albergue, enquanto ele iria receber a medalha de honra da inefável Companhia de Jesus, ADMDG (ou nefanda? Não sei mais. Tô ficando velho! Vou olhar no Dicionário.). Tinha revelações secretas a me comunicar e sua aflição era grande.

Demais até!

Fiquei impressionado com a agitação emocional do irmão mexicano e me dirigi ao albergue da Gregoriana. A cama de Javier estava toda revirada, as gavetas do seu armário abertas e vazias e, em cima da mesa de trabalho, havia uma mala de viagem enorme e cheia de roupas bem arrumadas. Possivelmente, um rito sagrado jesuítico, pensei.

Com uma leve dor de cabeça, por causa da xaropada da defesa de Tese, deitei-me e refleti um pouco à espera de Javier. Afinal de contas, a maioria das teses vaticanas não passavam de lana caprina, sem um objeto científico determinado. Bastava citar dois ou três teólogos conhecidos, contar uma boa história, repetir algumas lendas cristãs primitivas e medievais como se fossem verdades eternas e pronto. Mais uma tese que ninguém iria ler.

Contudo, achara o “Evangelho da Infância e Adolescência de Nosso Senhor”, título da tese de Javier, muito interessante como peça literária. De fato, um verdadeiro romance histórico religioso recheado de acurada e sincera piedade. Claro! A matança das criancinhas e a viagem e estadia da Sagrada Família no Egito, apesar de improváveis, comovem qualquer coração empedernido, como o deste escriba, por exemplo. Invenções piedosas? Não sei, embora baseadas num manuscrito copta de legítima antiguidade.

O irmão Javier chegou mais calmo e com uma medalha de ouro plantada no peito.

Ajoelhou-se e pediu-me que o ouvisse em confissão. Depois dos parrapapás litúrgicos, botou pra falar, contando-me uma história do arco da velha.

Começou dizendo que eu, padre Tsé-Tsé, havia salvo sua vida, o que não passava de um grande e descabido exagero. Deixara de se masturbar em nome da Virgem Sagrada e seguira meus conselhos de paquerar as irmãs do Convento de Santa Maria Maggiore. Num dos passeios, junto às grades do Convento, teve a maior surpresa quando encontrou a irmã Consuelo Popocatepetl, sua prima e conterrânea da aldeia indígena, onde nasceram, em plena Sierra Madre.

Na verdade, depois de um terremoto, todas as crianças sadias da aldeia, com a idade de doze anos, haviam sido raptadas por homens de preto com uma enorme cruz pendurada no pescoço. Quando deu fé, Javier acordou num Convento jesuíta onde ficara interno até se consagrar como padre. De tanto rezar Ave Marias, acabou esquecendo suas antigas tradições astecas, tornando-se devoto fanático da Virgem.

Daí, aliás, suas incursões noturnas ao banheiro do Albergue.

Mas as grades do Santa Maria Maggiore separavam irremediavelmente os primos reencontrados em Roma. De conversa em conversa, terminaram se apaixonando. Mal podiam tocar nos dedos um do outro. Daí em diante, sua vida mudara.

O fogo se espalhara e Javier sugeriu à irmã que pedisse para sair do Convento, de quinze em quinze dias, para visitar uma senhora mexicana que supostamente sofria de um câncer.

Sagrada mentira!

Dessa forma, clandestinamente, dirigiam-se à Villa Borghesi e se entregavam aos prazeres da carne na Mansão da ICR. Não aguentavam mais os rigores eclesiásticos e resolveram fugir de volta ao México. Mas, antes, tinha que defender sua tese para que os jesuítas não o perseguissem com as chamas da Inquisição. Segundo Javier, havia um bispo alemão, que pertencera à Juventude Nazista, e que se tornaria o próximo Chefe do Santo Ofício. Javier não queria ser queimado em nenhuma fogueira!

─ Mas, Javier! Os nazistas foram derrotados e não há mais fogueiras. ─ Interrompi o atormentado jesuíta.

─ Irmão Tsé! Isso é que o senhor pensa. Mês passado, passei no prédio da Companha e senti um cheiro esquisito de churrasco. ─ Respondeu-me.

─ Tudo bem! Mas em que posso lhe ajudar, logo agora que o irmão se tornou Doutor? ─ Perguntei.

─ Doutor que nada, Padre Tsé! Foi tudo combinado. Nosso Superior enviou-me por escrito as críticas e tive tempo para estudá-las.

─ Mas, Javier! Isso não passa de sacanagem acadêmica! ─ Exclamei.

─ Bobagem, irmão Tsé! Todas as teses, aqui na Gregoriana, são assim. Ninguém as lê. Por isso mesmo, resolvi escrever um romance sacro sobre a vida de Nosso Senhor.

─ E de inegável valor literário! Aliás, dei boas rizadas com os híbridos criados por Nosso Senhor. Geniais, sem dúvida! ─ Acrescentei.

─ Ora Tsé! Inspirei-me nos políticos mexicanos e no alto clero romano. Nada mais! Já havia publicado dois livros de contos piedosos no México. Pra mim, foi fácil. Mas tudo isso é passado. O problema é outro. Preciso de sua ajuda e quero que o irmão jure que, até pelo menos ao meio dia da próxima segunda-feira, não dirá nada a ninguém. Nem mesmo à Inquisição.

Achei a história de Javier tão babaca que jurei que guardaria segredo eterno. Aliás, terrível equívoco de minha parte. Mal sabia o que me esperava na semana seguinte.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV
Capítulo XXXVI

Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXVI

17 de dezembro de 2009, às 18:55h

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

bizarro

(Natura mutantis)

36º CAPÍTULO

E nada de Herodes morrer. O assassino de criancinhas continuava com uma saúde invejável, realizando suas bacanais em pleno Templo, inclusive com a cumplicidade de alguns sacerdotes.

Assim, o primeiro Natal da História foi celebrado no Egito com apenas uma novidade: eis que Maria estava grávida de Thiago, um dos irmãos de Nosso Senhor e que seria, mais tarde, bispo de Cafarnaum. Enquanto isso, os egípcios e romanos trocavam presentes entre si, pois também se comemorava, na mesma data, o Dia do Deus Sol, Amon-Ra, para os nativos.

Ao lado do texto copta, havia uma anotação, seguramente interpolada ao original e com todos os sinais de falsidade. O padre Javier, no entanto, com toda a sua honestidade acadêmica, não deixou de transcrevê-la, embora deixando claro de que se tratava de uma blasfêmia.

Na verdade, eu concordava com o jesuíta mexicano por razões de civilidade e não dogmáticas:

“Cumpridos os tempos da primeira gravidez de Maria ─ isto é, depois do nascimento de Josué, o primogênito ─ eis que São José, temendo nova visita em sonhos do Anjo, abriu sua caixa de ferramentas e veio a conhecer sua esposa”.

No caso, Maria teria deixado de ser Virgem, derrubando o dogma sagrado da ICR que, depois de sua assunção, decretada pelo Papa Paulo VI, em 1950, deveria ficar eternamente virgem, embora ninguém saiba por quê.

Mas não é bem isso que me preocupava na discussão da Tese do irmão Javier. Ocorre que, como dizem os Evangelhos, o Menino crescia em “inteligência e sabedoria” e já era conhecido nas redondezas pela sua mania de pregar o fim do mundo. No entanto, sendo criança, gostava também de brincar e suas brincadeiras não eram nada ortodoxas.

A primeira delas, tida como milagre, ocorreu no canteiro de obras das pirâmides. O bondoso anfitrião da Sagrada Família convidou, certo dia, os amigos para assistirem a colocação da cúpula piramidal, um colosso de pedra que pesava mais de cem toneladas. O Pretor romano do Egito e o próprio Faraó de plantão estavam presentes ao grande acontecimento. Mas, infelizmente, os operários, em grande parte escravos, não conseguiram erguer tão pesado fardo. Muitos deles, aliás, ficaram aleijados com tanto esforço.

O Sagrado Menino, então, vendo a aflição do povo, piscou o olho esquerdo em direção da imensa rocha e, pouco a pouco, ela foi se erguendo até que se colocou exatamente no lugar projetado pelo Arquiteto Real, sem esquecer, claro, de curar os operários estropiados.

A multidão ajoelhou-se perante o Menino dando glórias a Amon, Ptah, Osiries e a sua esposa Ísis, esquecendo-se, ou não sabendo, que o prodígio deveria ser atribuído a Javé, o Deus da Montanha dos antigos judeus.

Maria sentiu um aperto de júbilo no coração ao lembrar-se das palavras do Arcanjo, quando da Anunciação, dizendo-lhe que seu filho Josué ─ em parceria com Espírito Santo, é bom lembrar ─ seria o Salvador da humanidade, embora as pirâmides não tivessem nada a ver com a história.

Entretanto, havia outras brincadeiras mais perturbadoras. Solitariamente, Josué ─ depois, mais conhecido como Jesus pelos falantes de língua grega ─ enfurnava-se no vasto quintal de sua casa, à beira de um dos canais do Nilo, e ficava esculpindo, em barro e em restos de madeira da oficina de carpintaria de seu pai adotivo, pequenos animais de que gostava, em especial passarinhos. Assoprava-lhes, como fizera seu Pai Jeová, e os bichinhos saiam vivos, ora voando, arrastando-se ou mesmo correndo em direção aos pântanos mais próximos…

Bem, até aí, tudo bem!

Contudo, na véspera de um shabbath, Josué chamou seus dois outros irmãos ─ o Casal Sagrado, na ocasião, já trabalhava a pleno vapor ─ para brincarem de Arca de Noé. É bom que se diga que, apesar de terem sido alfabetizados na língua egípcia, todos os filhos guardavam as tradições judaicas, inclusive, claro, sua língua de origem, o aramáico.

Thiago e Judas, que desconheciam as habilidades do irmão mais velho, ficaram temerosos, pois estavam proibidos de passear de barco pelo perigoso Nilo, cheio de crocodilos. Josué, no entanto, aclamou-os e apenas lhes pediu que amassassem o barro em forma de bichinhos pra que eles vissem o que ocorreria. Mais ainda! Como se tratava da Arca de Noé, pediu-lhes também que fizessem casais de bichinhos, como diziam as Escrituras .

De repente, entretanto, o fogo divino encheu seu espírito e, cansado de imitar a natureza, resolveu misturar tudo, como faziam os egípcios com seus hieróglifos, isto é, corpo de uma coisa e cabeça de outra e vice-versa. Como, aliás, os gregos também gostavam de fazer.

O resultado foi espantoso! Não posso enumerar, aqui, todos os híbridos nascidos da inspiração divina de Josué, pois nosso Blog tem os seus limites de espaço. Citarei apenas alguns, cujos nomes os três meninos iam enunciando à medida que eles recebiam vida do assopro do Sagrado Menino.

Assim, por exemplo, surgiram casais de:

Rãcaco (cabeça de rã com o corpo de macaco);

Crocopato (corpo de crocodilo com bico e asas de pato);

Cãopótamo (cabeça de cão e corpo de hipopótamo);

Elefanzé (cabeça de elefante com corpo de chimpanzé);

Cangurata (canguru com perninhas de barata);

Baratixa (barata com rabo e cabeça de lagartixa);

Marigato (mariposa com corpo de gato);

Polvardo (polvo com corpo de leopardo);

Guarázana (lobo guará com corpo de ratazana, sobreviventes, aliás, em nosso Planalto Central).

Semanas depois, no entanto, as autoridades tomaram conhecimento, através dos seus espiões, da rápida proliferação dos sagrados híbridos que nada mais faziam do que obedecer a ordem divina do “crescei e multiplicai-vos”. O povo se espantava e se amedrontava com os inocentes frutos da brincadeira dos três irmãos. Ora, ocorre que, segundo o Manuscrito copta, Herodes finalmente batera as botas, e a Sagrada Família estava arrumando suas coisas para a viagem de retorno à Galileia. Antes da partida, todavia, o Pretor romano chamou-os em seu gabinete no Palácio do Faraó e lhes pediu explicações, já sabendo que se tratava das artes do primogênito da família.

São José, inocente em quase tudo, especialmente em matéria de sonhos, ficou estarrecido e pediu desculpas pela “desordem” natural provocada pelos filhos. Foi, então, que Josué, sempre o mais falante dos três, afirmou, com sua autoridade espiritual já comprovada, que o Pretor podia ficar sossegado. Retirou-se para um quarto ao lado e, em segredo, orou a Jeová, pedindo-lhe que anulasse a bizarra e recém-criada forma da natureza. E tudo voltou ao normal, embora a Sagrada Família tivesse que pagar uma pesada multa por ter violado o equilíbrio ecológico da região. Multa, diga-se de passagem, que jamais foi paga como ocorre num certo país, bem longe do Egito.

E, assim, a Sagrada Família finalmente retornou a Nazaré, onde o mundo, quase trinta anos depois,virou de cabeça pra baixo.

(Nota do Dr. Quim, Jr: excepcionalmente, o Reverendo Tsé-Tsé deu-me a honra de ler previamente este artigo. Não entendi patavina, mas aconselho aos visitantes deste Blog a leitura urgente do excelente e maravilhoso livro de Richard DAWKINS: “O Maior Espetáculo da Terra: As Evidências da Evolução”. São Paulo, Companhia das Letras, 2009. Trata-se de um verdadeiro xeque-mate contra o Criacionismo. Como sempre, o estilo do Autor é brilhante e sua erudição é sólida. Um livro gostoso de ser lido, no qual o Reverendo se inspirou para os nomes da fauna citada).

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV

Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXV

9 de dezembro de 2009, às 10:05h

ENFIM!!! :-D

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

Travessia_do_mar_vermelho

(O Mar Vermelho é verde!)

35º CAPÍTULO

O último mês de Outubro foi terrível para mim. Vivia sonhando com N.S. de Fátima, Aparecida e o Frei Galvão. Este, então, convidava-me todas as noites para levitar por sobre o Capibaribe, cheio de soluções malucas para despoluir nosso rio.

Atormentado, contei meus sonhos ao Dr. Quim, Jr. Ele riu e me disse, com a maior cara de pau, que me vira voando com o santo e não achava nada demais. Segundo Quimzinho, eu próprio havia lhe contado que Frei Galvão amava os peixes, pra fazer contraste com São Francisco que tinha uma criação de canários. E deu a maior gargalhada:

▬ É, Tsé! Você está ficando velho!

Tudo isso me fez esquecer dos meus tempos em Roma. Infelizmente, pra meu desagrado, o início do curso de Doutorado fora adiado novamente por causa da morte do Cardeal Francesco Giardini, Professor de Cosmologia da Gregoriana.

Mais um mês de espera, portanto. Já estava de saco cheio de tanto trabalho na Biblioteca. De graça, porque a bolsa que recebia mal dava pra comprar duas ou três bolachas. Já visitara Roma de frente pra trás e vice-versa, e a saudade de minha família palafiteira aumentava, danadamente. Chorava quando recebia cartas de minha terra e respondia chorando mais ainda.

Meu único consolo era conversar com o Monsenhor Lippi e, raras vezes, com o Cardeal Ferrughi, sempre ocupado com seus bois e vacas, além dos anjos medievais.

Desculpem, caros leitores! Havia mais alguma coisa. Assim como ensinara ao padre Javier, eu também paquerava as freiras do Convento de Santa Maria Maggiore. Pelo menos três freirinhas se encantaram comigo. Mas só fazia aquilo com a irmãzinha Giovana do Santo Sepulcro por quem me apaixonara. Frequentávamos, com uma certa regularidade, o Sagrado Bordel da Vila Borghesi, construído especialmente pela ICR para desafogar o alto clero romano. Oficialmente, aliás, era denominado de “Casa de Convivência dos Santos do Senhor”.

Mas, nessas férias forçadas, houve outro tormento. Javier, o jesuíta mexicano, preparava-se para defender sua tese sobre a estadia da Sagrada Família no Egito e me pedira para ler o seu calhamaço de 754 páginas, apontando críticas e erros no manuscrito para não ser surpreendido perante a banca de exame.

O Padre Javier descobrira, perdido em nossos Arquivos, um extenso papiro copta sobre o assunto e dele fizera seu objeto de tese. Ora, de tanto estudá-lo e, por mais estranhos que fossem os episódios contidos no antigo documento, Javier terminou por acreditar em tudo que lia.

De saída, disse-lhe, com toda a franqueza que me é peculiar, que não acreditava em nada daquilo. Segundo as melhores opiniões eruditas, o povo copta não passava de uma das tribos perdidas de Israel que se convertera ao deus Ptah, um dos principais do Antigo Egito. Além disso, era famoso pelo seu espírito gozador, sendo responsável pela palavra “cooptar”, ainda hoje em uso, como a ICR, aliás, aplica com raro brilhantismo.

352 autores citados, além de 87 manuscritos da época, traduzidos para o latim, o grego e o aramaico. Pra nada! No entanto, havia histórias engraçadíssimas e que valem a pena serem contadas.

O jesuíta Javier começa descrevendo a viagem da Sagrada Família, por causa, como todos sabemos, do assassinato das criancinhas atribuído a Herodes.

A Virgem montava um camelo, carregando no colo Nosso Senhor. José ia na frente segurando as rédeas do animal, enquanto um velho manco, apoiado num cajado, seguia atrás. Javier acreditava que se tratava de São Joaquim, o eventual avô de Jesus Cristo.

Para não decepcionar o padre Javier, achei melhor entrar pelo terreno de uma sutil galhofa desde o início, embora fizesse meus comentários com muita seriedade.

▬ Irmão Javier! Encontro, logo na página 54, uma ambiguidade e uma questão teológica das mais sérias. É bom se prevenir.

▬ Pelo amor da Santa Virgem! Diga logo, padre Tsé.

▬ Ora! Veja bem, irmão Javier. O texto não diz com clareza quem mancava; o camelo ou São Joaquim. Além disso, segundo consta nos Evangelhos, o pai de Nosso Senhor foi o Espírito Santo, atestado pela conversa entre o Arcanjo Rafael e Maria, gravada clandestinamente por um dos agentes de Herodes. De onde se conclui, pelo que o irmão escreve, que São Joaquim teria sido o pai da Terceira Pessoa da Trindade, o que não passa de uma grande blasfêmia. Afinal de contas, a eternidade não é pra todo mundo.

camelo1

Abraão Zacuto, o camelo manco da Santíssima Trindade

▬ Ora, Tsé! Essa eu tiro de letra. Realmente, o manuscrito copta não diz com clareza quem mancava. Isso é pura dedução de minha parte. Veja bem! Se o camelo mancasse, ninguém chegaria ao Egito. Logo, o manco era São Joaquim. Quanto à outra questão, é bom dizer que, segundo consta, José era apenas o pai de mentirinha de Nosso Senhor e, portanto, São Joaquim era apenas o avô adotivo.

O padre Javier afirmava que não houve necessidade de levar mantimentos para tão longa viagem. Além de fugirem apressados, não tinham dinheiro para comprar coisa alguma.

O camelo não precisava, claro. A Virgem tampouco desde que fora abençoada desde o início através da Anunciação. Nosso Senhor, acomodado nos seios de sua mãe, mamava o tempo todo. São Joaquim e São José comiam gafanhotos do deserto, como o sobrinho João Batista faria mais tarde, além do mel das abelhas. Como sobremesa, havia sempre o maná que caía do céu. O padre não esclarecia o problema da água, mas um manuscrito egípcio da época afirmava que, naquele tempo, chovia bastante em pleno deserto.

E foi assim que a Sagrada Família chegou ao delta do Nilo, hospedando-se na casa de um trabalhador judeu que, aliás, ajudara a construir uma das enormes pirâmides de Gisé, ficando obscuro no texto de qual das três se tratava.

Desculpem meus caros leitores, mas, de tanto levitar na companhia de Frei Galvão, estou insone e cansado. Contente, no entanto, por saber que o Santinha acaba de ser Campeão de Pernambuco. Assim, deixo para outra vez a continuação dessa história empolgante, contada pelo Padre jesuíta Javier de la Concepción.

PS: pergunta curiosa que apareceu em Bel-O-Kan: com o Flamengo campeão e o Inter, vice, haverá enfim um quadrangular com a Coisa e o Bugre?!

PS2: nova campanha jurídica na palafita: “me processa, Coisa!”

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV

A Coisa no Livro dos Recordes

18 de novembro de 2009, às 9:13h

monstro-lixo

Duas horas da manhã! Dormia a sono solto quando, sobressaltado, acordei sob intenso tiroteio de fogos de artifício vindo das Palafitas do outro lado do rio. Mandei chamar Zé Medonho, nosso Chefe de Segurança:

─ Zé! Por Nossa Senhora do Arruda, Frei Galvão e Frei Damião, o que está havendo?

─ Reverendo! Trata-se da comemoração dos torcedores da Coisa. ─ Respondeu o neto de Zé Malandro.

─ Ora, ora, Zé! Comemoração de que se eles empataram com o Porco e ainda foram pra Segundona?

─ Como o senhor vê, Reverendo! Comemoração é assim mesmo. Caíram, mas estão comemorando. Complexo de qualquer coisa, acho eu.

─ De ruindade, só pode ser. Cores malditas que envergonham e poluem a cidade. ─ Respondi.

Ocorre que, naquele momento, chegou o Dr. Quim meio aborrecido com o barulho, embora sabendo do que se tratava.

─ Desculpe, Tsé, mas não sabia que você havia acordado também.

─ E você sabe do que se trata, Quinmzinho? ─ Exclamei, limpando meus olhos ramelentos.

─ Sei! E é o troço mais esquisito do mundo.

─ Bom! Vindo da Coisa, tudo é esquisito. Mas diga logo o que foi, que estou morrendo de sono.

─ Ora, Tsé! Os torcedores da Coisa estão comemorando porque entraram no Livro dos Recordes.

─ E como pode? E que Livro safado é esse que nem o Santinha conseguiu entrar? ─ Interroguei o sábio e bem informado Dr. Quim.

Era uma pergunta muito sábia e, durante um momento, todos meditaram sobre o assunto. Afinal, todos sabiam que o Santinha era o recordista de todas as desgraças possíveis e impossíveis que acontecem e não acontecem nesse mundo velho e enfadado. Dr. Quim quebrou o encanto da meditação e perguntou:

─ Não assistiu ao jogo da Coisa contra o Porco?

─ Não! Salvo o Santinha, não assisto a futebol. Só jogo dominó com as meninas do meu clã. Explique-me isso direitinho, Dr. Quim. ─ Respondi mais furioso do que já estava.

─ Pois bem, Tsé! A Coisa é o único time do mundo que levou um gol com dois apitos. ─ Explicou nosso Curandeiro.

─ Ôxente! E quantos apitos tem esse tal de campeonato? ─ Perguntei.

─ Um! Apenas um! ─ Disse Zé Medonho, antecipando-se ao Dr. Quim.

─ Então, não entendi nada. No Dominó, a gente nem precisa de apito. Apenas de uns berros para intimidar o adversário. ─ Respondi.

─ Vou explicar, e você, Zé Medonho, fique calado. O jogador porquento preparava-se para fazer o gol de empate, absolutamente legal, aliás. Aí, houve o primeiro apito para reforçar a legalidade da posição. O jogador chutou e a bola entrou no gol. O árbitro apitou novamente validando o lance, apontando para o centro do gramado. Um gol e dois apitos! Recorde absoluto, portanto. Não acha, Tsé?

─ Acho até mais! Como houve dois apitos, o tal árbitro devia ter dado dois gols. Não acha Zé Medonho? ─ Observei com muita propriedade.

─ Não pode, Reverendo! Por mais respeito que tenha pelo senhor, se a bola só entrou uma vez, só vale um gol. ─ Respondeu nosso chefe de segurança.

─ Sei não! Dizem que, no futebol, nada é impossível! ─ Filosofei, mandando todo mundo dormir novamente.

Mesmo assim, Dr. Quim ficou pensativo na proposta filosófica: dois apitos, dois gols. Decidiu enviar um memorando à Máfia dos 13 e à CBF, expondo a ideia. Poderia, quem sabe, ganhar até um dinheirinho. O futebol brasileiro é pródigo em casuismo. Enfim, bocejou e resolveu dormir.

Zé Medonho, no entanto, disse que só iria dormir depois de soltar uns traques em homenagem à Coisa. Traques bem fedorentos, daqueles que causam pavor em qualquer coisento. Era assim que mantinha Bel-O-Kan completamente imune aos poderes maléficos da Coisa. Flatos angelicais, como dizia o Reverendo. Zé Medonho não sabia o que era “flatos”, mas gostava muito do nome…

Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXIV

9 de novembro de 2009, às 19:56h

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

monje levitando

(Homo sapiens sanctus braziliensis)

34º CAPÍTULO

Estive ausente deste Blog, porque fora convidado a uma manifestação na Praça de São Pedro, em Roma. A Comunidade judaica, sabendo de minhas convicções liberais, pagou minha passagem para que eu discursasse contra a canonização de Pio XII, ansiosamente desejada por Bento XVI.

Como todos sabemos, e a ICR também, aquele papa foi conivente com o Nazismo e colaborou ativamente para a fuga de muitos criminosos de guerra.

Ocorre que Bento XVI tem uma mania recorrente; ele adora transformar em santo gente que nem mereceria um lugarzinho na Academia de Letras local. Tenho a leve impressão de que ele prepara sua própria santificação, tomando como precedente Pio XII, desde que Bento, ele próprio, fora membro da Juventude Nazista, com direito a foto na Internet e tudo.

Meu discurso foi aplaudido pela multidão de, talvez, dois a três milhões de pessoas. Atordoado com minhas condenações ao Nazismo, o Vaticano adiou sine die a canonização prevista.

Isso me lembra de outra ocasião em que estive em Roma, logo no início da minha primeira eleição como líder da Comunidade. Quando voltei a Bel-O-Kan, tomei conhecimento de que grassava uma epidemia de prisão de ventre em nosso meio o que, apesar do sofrimento das pessoas, provocava uma gigantesca economia de papel higiênico. Afinal de contas, tudo tem o seu lado bom!

Chamei o Dr. Quim em segredo e lhe perguntei o que se passava.

─ Reverendo! Nosso estoque de chá de flor do mangue está esgotado e ninguém frequenta mais o vaso. Em compensação, nossa horta está meio sem graça, sem adubo orgânico nem nada. Na feirinha orgânica da Beira-Rio, nossos produtos estão caindo de preço.

─ E que curandeiro diplomado é você, Quinzinho, que não diagnostica logo esse mal da latrina ausente? ─ Indaguei.

─ Já fizemos tudo, mas ainda não descobrimos de onde vem tal abstinência.

─ Talvez, da Uniban! ─ Explodi de indignação.

Mandei chamar Zé Malandro, nosso chefe de segurança, acompanhado do seu filho Zé Medonho, executivo dos melhores que já tivemos por aqui (uma bala só e era o bastante).

Ordenei uma investigação oficial do caso, apesar da resistência do velho companheiro:

─ Reverendo! Não vê que se trata de um assunto médico e, não, de segurança?

─ Não acredito! Pura sabotagem do Arcebispo. Algum sortilégio medieval que prende a barriga de nossos irmãos. Investigue o agente inimigo.

No outro dia, Zé Malandro acompanhou até a minha palafita (com muito carinho, aliás) a beata Alzira, do clã de Joca do Bode, e que entrara em nossa República dois anos atrás.

─ Reverendo! Desculpe, desculpe! Acho que foi minha culpa. ─ Disse a menina bonitinha e bem feitinha que usava uma minissaia que nem a outra da Uniban. Para a alegria de todos, é bom dizer. Marocas, por exemplo, usava uma mais curtinha e todo mundo gostava.

─ Como assim, Alzirinha? ─ Perguntei.

─ Reverendo! Moro na periferia das palafitas e não aguentava mais o fedor. Aí, ouvi falar de umas pílulas milagrosas que curam todos os males, inclusive a incontinência da barriga. Comprei e distribui pra todo mundo e deu no que deu.

─ Ah, já sei! Vem num pacotinho, não é mesmo? Trata-se do papelote do Frei Galvão. Jogue tudo no rio que, amanhã, todo mundo já pode se desamarrar.

Alzira, que não tivera nenhuma má intenção, obedeceu minha ordem e tudo voltou ao normal na Comunidade. Na semana seguinte, os preços de nossos produtos orgânicos voltaram a subir e ninguém falou mais disso.

Contudo, examinei alguns exemplares da pílula de papel. Não havia nada de excepcional por dentro do pacote, mas notei que os fabricantes haviam usado papel picado da revista Veja, o que provavelmente teria sido a causa do mal.

Mas, afinal de contas, quem seria esse tal de Frei Galvão que alguns confundem com Frei Damião? Este aí, por exemplo, só cura pereba do tipo Collor de Melo. Por enquanto!

A história é extraordinária, e eu conto apenas por causa de Bento, como exemplo de conduta que ele próprio deveria ter para conseguir sua futura canonização.

Houve, de fato, um frade da “Ordem dos Frades Menores Descalços”, nascido em Guaratinguetá – SP (carinhosamente chamada de Guará), em 1739. Ele gostava de brincar com seus fiéis operando inúmeros milagres, desses que estamos acostumados a ver realizados pela Igreja Universal do bispo Macedo, em quem ninguém acredita mais, ao contrário da fama cada vez mais crescente de Frei Galvão que acaba de se tornar o primeiro santo, nascido no Brasil.

Todos os testemunhos apontam para a santidade do Frei e ninguém duvida de suas qualidades excepcionais que qualquer mortal gostaria de ter. Basta dizer que ele possuía o dom da bilocação. Não se trata de “biloca”, mas de se estar em dois lugares ao mesmo tempo, como faz, aliás, nosso Líder a bordo do seu brinquedinho aéreo.

Se ele quisesse, aliás, poderia trilocar-se ou, até mais, plurilocar-se, como ele próprio confessava. Trata-se, claro, de uma antecipação milagrosa da Mecânica Quântica que, segundo acreditam os físicos, é capaz de fazer um elétron estar em dois lugares ao mesmo tempo, não importa a distância.

Contudo, o Brasil Colônia daqueles tempos não permitia tamanha rapidez. Além do que, possuidor do talento da telepatia, não precisava de tanto. Foi o primeiro santo que dispensava a sagrada confissão, pois sabia tudo de antemão dos fiéis que o procuravam.

Além dos poderes de premonição, clarividência e telepercepção (isto é, adquirir conhecimento de fatos ocorridos a grandes distâncias e, por isso, antecipando os modernos satélites de comunicação), Frei Galvão (por favor, não confundir com Frei Damião!) nos lembra um ex-prefeito de uma cidade vizinha a Bel-O-Kan.

Com efeito, o tal ex-prefeito possuía o mesmo dom da levitação do santo oitocentista. Com uma diferença apenas. O religioso levitava para alcançar mais rapidamente as glórias do céu, o que é uma causa justa, enquanto o tal prefeito preferia se exibir perante as menininhas de Boa Viagem. Não sei com quais intenções!

Entretanto, a fama merecida de Frei Galvão advém de sua maravilhosa invenção das pílulas de papel que provocaram, sem querer, a epidemia em nossa Comunidade, já mencionada. Com efeito, talvez cansado de tanto andar descalço pelas ruas pedregosas de Guará, em vez de visitar todos os doentes que lhe pediam ajuda, o Frei lhes enviava pílulas de papel picado, devidamente embrulhadas num discreto pacotinho.

Como já sabia qual a doença do fiel, através de suas capacidades citadas, era tiro e queda. Uma pílula ao deitar e outra ao se levantar. Em dois dias, o doente era curado totalmente. Mas, sempre ficava com prisão de ventre, um mal menor certamente.

Hoje, as pílulas ainda fazem efeito e, nos fundos da Catedral de Santo Antônio (em Guará), numa pequena sala, 15 beatas de 65 anos de idade (o número e a idade delas não podem ser menor nem maior, a sucessão sendo feita na mesma família), cortam, picam e colam papeizinhos com precisão milimétrica, ou nanométrica, ou piedosa, como se diz, chegando a produzir 90 mil pílulas mensalmente.

Todos elas levam o carimbo da Anvisa e já se fala da extinção do SUS por sua inutilidade e alto custo. O preço varia, conforme a doença. É mais caro quando o paciente solicita o envio pelo Sedex. A propaganda, em torno da simpática Guará, afirma que “pague três e leve cinco”. Os atravessadores, que aumentam os preços, são acometidos, em geral, de doenças vitalícias e, com isso, são alijados do mercado. Claro que também, de vez em quando, as beatas se enganam quanto à qualidade do papel. Um dos que examinei, por exemplo, era feito de papel higiênico.

Quando relatei tudo isso a Dr. Quim, ele apenas exclamou:

─ Cuma? Esse Frei pode até ser santo, mas tem um cérebro de cupim!

Além dos papelotes, os milagres de Frei Galvão são copiosos e não vejo como duvidar de todos eles. Cito, aqui, apenas um, “ O frango do Diabo”, para a edificação de meus leitores e do papa Bento XVI.

Um escravo liberto que, ficando doente, fez promessa de levar a Frei Galvão “uma vara de frangos”, caso sarasse, o que de fato aconteceu. Por essa razão, amarrando as aves em uma vara, pôs-se a caminho. Aconteceu que, ao meio da jornada, três frangos lhe escaparam. Recolheu facilmente dois. O terceiro, um carijó, fugiu velozmente, irritando o velho, que gritou impaciente: “volta aqui, frango do diabo!” Nesse momento, entrando em uma moita de espinhos, o frango se deixou apanhar. Após a caminhada, o liberto foi alegremente entregar seu presente ao Frade, que aceitou todas as aves, menos a carijó: “Porque este frango, já o deste ao diabo!” ─ Disse-lhe o religioso.

Bonitinho, não é verdade? Mas intrigam-me o preconceito contra o carijó e a demora do Vaticano em santificar Frei Galvão, quando se apressa no caso de Pio XII e de João Paulo II, que nem de longe possuíam as virtudes de nosso compatriota.

Em suma: a Virgem Maria recusa-se a aparecer no Brasil e nosso santo patrício demorou pra caramba a ser reconhecido.

Mas, como diz a ICR, “ quem não crê, brasileiro não é”. E priu!

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII

Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXIII

26 de outubro de 2009, às 12:07h

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

aparecida

(Il secondo miracolo di pesci)

33º CAPÍTULO

Monsenhor Braguinha, meu Pai, costumava dizer que o Brasil é o país das falsificações. Não sei de onde ele tirou isso, mas dizia e repetia que somos réplicas de nós mesmos para enganar os estrangeiros.

Coisa de velho, seguramente!

Certa vez, visitei-o na Casa Paroquial, e ele estava em sua antiga cadeira de balanço Gerdau fazendo palavras cruzadas, hábito que adquirira recentemente. Peguei uma suculenta manga espada do quintal e lhe disse:

─ Monsenhor, meu Pai! Preciso de sua ajuda. As crianças estão com febre, encatarradas e com uma tosse danada. O chá do Dr. Quim não resolve.

Ele levantou-se, abriu um armário e me deu um vidro cheio de pílulas brancas.

─ Não deixe de administrar o chá para não magoar o velho Quim. Mas, de quatro em quatro horas, dê uma pílula dessas. Amanhã, as crianças estarão curadas. ─ Disse-me o Monsenhor. E acrescentou:

─ E volte logo, pois tenho um sério problema, aqui, com um conceito nas palavras cruzadas.

Meia hora depois, estava de volta deixando meus filhos devidamente medicados, recomendando a Socorrinho e a Madalena que não esquecessem do remédio.

Sentei-me numa velha poltrona, presente de uma beata, e interroguei Braguinha:

─ De onde vem esse vício de fazer palavras cruzadas, meu Pai?

─ Ora, Tsézinho! É para afugentar o alemão. ─ Respondeu o ilustre Pároco da Torre.

─ Ora, meu Pai! Que alemão é esse? Afinal de contas a Guerra já acabou. ─ Observei, maliciosamente.

─ Alzheimer! Alzheimer! Manter uma boa memória é um excelente remédio contra as falsificações. ─ Exclamou Braguinha, enigmaticamente. Enfim, cada doido com sua mania!

─ E qual é esse grande problema conceitual de suas palavras cruzadas? ─ Perguntei.

─ Tsé! Está escrito, aqui: “Como se chama uma pessoa que aparece de repente?”

Chupei mais uma manga e refleti bastante quando senti um clique na memória:

─ Ora, meu Pai! Quem aparece de repente é uma “pessoa aparecida”.

─ A-pa-re-ci-da! Com um ou dois pês, Tsé? Certinho! Enfim, a grade está resolvida. ─ Exclamou, alegremente, o vetusto sacerdote.

Daí em diante, tornei-me também viciado em fazer palavras cruzadas. Mas esse lance me traz à memória o início do mês de Outubro quando se comemora no Brasil o dia de Nossa Senhora Aparecida.

Lembrei-me, então, de minhas pesquisas para meu primeiro livro em aramáico sobre a revisão da História do Cristianismo, especialmente da ICR.

Na Introdução, dei-me ao trabalho de contar quantas aparições de santos e santas ocorreram nesses dois mil e tantos anos. Antes da fundação da ICR, no Concílio de Nicéia, por Decreto Imperial de Constantino, o Grande (grande assassino também), a santa mais popular do Império era Ísis, belíssima deusa egípcia que dominava o coração dos soldados romanos. Deusa do amor e da magia, Mãe de todo o Egito. Não havia um lar romano em que não houvesse uma estatueta ou imagem em seu louvor.

Foram 32.452 aparições comprovadas e mais de cinco mil milagres operados por Ísis.

No entanto, depois que seu culto foi proibido por Constantino, em 325 d.C., os soldados, que não eram bestas, elegeram a Virgem Maria para substituir Ísis como santa milagreira.

Contei 155.367 aparições da Virgem que tomava o nome dos lugares em que aparecia como, por exemplo, em Fátima e em Lourdes, ou dos bons e maus momentos que atingem a humanidade, como as Dores, os Remédios, o Bom Parto, os Aflitos, os Afogados, os Navegantes e vai por aí. Curiosamente, os milagres eram muito semelhantes aos de Ísis. Mas isso não importa. A Santíssima Mãe de Nosso Senhor era, seguramente, a recordista de aparições.

Contudo, não encontrei em nenhum lugar o registro de uma aparição da Virgem Santíssima no Brasil, o que muito me decepcionou na época em que escrevia meu livro, desde que, como diz a ICR, o Brasil é o maior país católico romano do planeta. A Virgem não apareceu, é verdade, mas ocorreu um fato interessantíssimo, nos meados do ano de 1717, duzentos anos antes de sua aparição em Fátima.

Domingos Garcia, Filipe Pedroso e João Alves eram pescadores do rio Paraíba do Sul e conseguiram, à falta de peixes, pescar uma imagem de terracota (cerâmica amarronzada) da Virgem que chamaram, no início, de Nossa Senhora das Águas. Na verdade, a imagem estava sem cabeça e, talvez, devesse ser chamada, pelo menos no momento da pescaria, de Nossa Senhora Degolada ou, melhor ainda, dos Degolados.

Aliás, havia na ICR um grande precedente quando Denis, o decapitado, foi alçado à condição de Mártir e Santo, chegando a ser o Padroeiro da França.

Na belíssima Catedral gótica, em sua homenagem, vê-se Saint-Denis em pé e vivo, segurando sua própria cabeça numa das mãos. A mesma imagem surrealista pode ser vista, também, na fachada da própria Notre Dame de Paris. A sua devoção era tão importante que muitos dos reis da França (especialmente os Capetos) eram enterrados naquela Catedral.

No entanto, para maior glória do Brasil, Domingos Garcia lançou novamente sua rede no rio e, milagrosamente, em vez de peixes, veio enganchada a cabeça da Santa, que faltava. Depois de inúmeras restaurações e adulterações, Nossa Senhora Aparecida assumiu o seu perfil atual, embora conservando o rosto negro, produto da oxidação da terracota, rica em ferro.

No dia 12 deste mês de Outubro, o pároco da Igreja de Nossa Senhora Aparecida, no Ibura, talvez empolgado pela simpática visita à sua diocese do novo Arcebispo da cidade vizinha a Bel-O-Kan, afirmou na TV Globo, com a maior cara de pau, que o rosto negro da Santa significava “o Protesto de Nossa Senhora contra a escravidão no Brasil” (sic).

Em 1717!

Mentira? Ingenuidade? Hipocrisia, como diria o português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura?

Não! A ICR sempre foi contra a injustiça da escravidão, tanto de africanos como de índios. É verdade que não há nenhum documento que o prove. Muito pelo contrário, aliás. Mas, que importa? Se o padre disse, tá dito e ninguém é besta para desmenti-lo.

O importante é que, logo depois de colarem a cabeça de Nossa Senhora no seu devido lugar, começaram a ocorrer os milagres da Santa como, até hoje, vêm ocorrendo. Nessa última peregrinação, uma senhora chegou a afirmar que sua neta havia passado no ENEM, graças à sua milagrosa intercessão.

O importante, porém, foi o primeiro milagre, o chamado “Segundo Milagre dos Peixes”. Ora, eufórico com o achado, o pescador Domingos Garcia, que não pescava nada há vários dias, lançou pela terceira vez sua tarrafa no rio. Eis que ela voltou abarrotada dos mais belos peixes da região, inclusive alguns estrangeiros.

É bem verdade que estávamos em Outubro, época da piracema dos rios do Sudeste brasileiro. No entanto, na época, o Ibama ainda não havia proibido a pesca durante tal período. E o milagre valeu. Tanto assim que, hoje, Aparecida é uma das cidades mais visitadas por turistas.

O outro milagre significativo ocorreu numa noite serena, sem ventania, quando as velas do altar se apagaram. Logo depois, elas se acenderam espontaneamente. No meu último aniversário, meus trinetos me pregaram uma peça semelhante. Pediram-me que apagasse as muitas velas do bolo. Fui apagando e elas foram se acendendo novamente. Umas cinco vezes! Até que, impaciente, peguei todas elas e as joguei no mangue. Não tenho fôlego para tanto. Voltei rindo da brincadeira e comi uma grande fatia do delicioso bolo, preparado, aliás, pelo padeiro da esquina.

Mais interessante, talvez, seja o terceiro milagre de Nossa Senhora Aparecida. Um homem estava voltando para sua casa quando, de repente, deparou-se com uma enorme onça. Ele se viu encurralado, e a onça estava prestes a atacá-lo. Então, o homem pediu desesperado a N.S. Aparecida por sua vida, e a onça virou-se e foi-se embora.

Aliás, não sei quem ficou mais assustado, se o homem ou se a pobre onça.

Em 1930, o fundador do Estado do Vaticano, o fascista Pio XI, proclamou Nossa Senhora Aparecida como “a Rainha do Brasil e sua Padroeira Oficial”.

Até aí, tudo bem! Os católicos romanos brasileiros têm o direito de acreditar no que bem quiserem. Em suma, sem querer ofender ninguém e para não ser grosseiro, a Padroeira católica romana do Brasil não passa de um simulacro. Em linguagem mais forte, como diria o Monsenhor Braguinha, meu Pai, tudo não passa de mais uma falsificação da ICR.

Mas, em 1980, através da Lei Nº 6.802, de 30/06/1980, a Ditadura Militar reconheceu oficialmente N.S. Aparecida como Padroeira do Brasil, estabelecendo o dia 12 de Outubro como feriado nacional.

Até aí, tudo mal! É certo que Nossa Senhora é a “Mãe de Deus” e a “Rainha dos Céus e da Terra”, segundo a ICR.

Mas, porém, contudo, todavia…Segundo consta na Constituição Federal, o Brasil é um país laico e o Estado não pode impor, com lei ou sem lei, nenhum estatuto religioso aos cidadãos brasileiros. Ou pode?

Enfim, como dizia o refrão do hino oficial do Congresso Eucarístico Nacional, realizado no Recife em 1950: “Quem não crê, brasileiro não é”.

Além disso, um feriadão ensolarado é sempre bem-vindo, não é mesmo?

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII

33º CAPÍTULO

(Il secondo miracolo di pesci)

Monsenhor Braguinha, meu Pai, costumava dizer que o Brasil é o país das falsificações. Não sei de onde ele tirou isso, mas dizia e repetia que somos réplicas de nós mesmos para enganar os estrangeiros.

Coisa de velho, seguramente!

Certa vez, visitei-o na Casa Paroquial, e ele estava em sua antiga cadeira de balanço Gerdau fazendo palavras cruzadas, hábito que adquirira recentemente. Peguei uma suculenta manga espada do quintal e lhe disse:

─ Monsenhor, meu Pai! Preciso de sua ajuda. As crianças estão com febre, encatarradas e com uma tosse danada. O chá do Dr. Quim não resolve.

Ele levantou-se, abriu um armário e me deu um vidro cheio de pílulas brancas.

─ Não deixe de administrar o chá para não magoar o velho Quim. Mas, de quatro em quatro horas, dê uma pílula dessas. Amanhã, as crianças estarão curadas. ─ Disse-me o Monsenhor. E acrescentou:

─ E volte logo pois tenho um sério problema aqui com um conceito nas palavras cruzadas.

Meia hora depois, estava de volta deixando meus filhos devidamente medicados, recomendando a Socorrinho e a Madalena que não esquecessem do remédio.

Sentei-me numa velha poltrona, presente de uma beata, e interroguei Braguinha:

─ De onde vem esse vício de fazer palavras cruzadas, meu Pai?

─ Ora, Tsézinho! É para afugentar o alemão. ─ Respondeu o ilustre Pároco da Torre.

─ Ora, meu Pai! Que alemão é esse? Afinal de contas a Guerra já acabou. ─ Observei maliciosamente.

─ Alzheimer! Alzheimer! Manter uma boa memória é um excelente remédio contra as falsificações. ─ Exclamou Braguinha enigmaticamente. Enfim, cada doido com sua mania!

─ E qual é esse grande problema conceitual de suas palavras cruzadas? ─ Perguntei.

─ Tsé! Está escrito, aqui: “Como se chama uma pessoa que aparece de repente?”

Chupei mais uma manga e refleti bastante quando senti um clique na memória:

─ Ora, meu Pai! Quem aparece de repente é uma “pessoa aparecida”.

─ A-pa-re-ci-da! Com um ou dois pês, Tsé? Certinho! Enfim, a grade está resolvida. ─ Exclamou alegremente o vetusto sacerdote.

Daí em diante, tornei-me também viciado em fazer palavras cruzadas. Mas, esse lance me traz á memória o início do mês de Outubro quando se comemora no Brasil o dia de Nossa Senhora Aparecida.

Lembrei-me, então de minhas pesquisas para meu primeiro livro em aramáico sobre a revisão da História do Cristianismo, especialmente da ICR.

Na Introdução, dei-me ao trabalho de contar quantas aparições de santos e santas ocorreram nesses dois mil e tantos anos. Antes da fundação da ICR, por Decreto Imperial de Constantino, o Grande (grande assassino também), durante o Concílio de Nicéia, a santa mais popular do Império era Ísis, belíssima deusa egípcia que dominava o coração dos soldados romanos. Deusa do amor e da magia, Mãe de todo o Egito. Não havia um lar romano em que não houvesse uma estatueta ou imagem em seu louvor.

Foram 32.452 aparições comprovadas e mais de cinco mil milagres operados por Ísis.

No entanto, depois que seu culto foi proibido por Constantino, em 325 d.C., os soldados, que não eram bestas, elegeram a Virgem Maria para substituir Ísis como santa milagreira.

Contei 155.367 aparições da Virgem que tomava o nome dos lugares em que aparecia como, por exemplo, em Fátima e em Lourdes, ou dos bons e maus momentos que atingem a humanidade, como as Dores, os Remédios, o Bom Parto, os Aflitos, os Afogados, os Navegantes e vai por aí. Curiosamente, os milagres eram muito semelhantes aos de Ísis. Mas, isso não importa. A Santíssima Mãe de Nosso Senhor era, seguramente, a recordista de aparições.

Contudo, não encontrei em nenhum lugar o registro de uma aparição da Virgem Santíssima no Brasil, o que muito me decepcionou na época em que escrevia meu livro, desde que, como diz a ICR, o Brasil é o maior país católico romano do planeta. A Virgem não apareceu, é verdade, mas ocorreu um fato interessantíssimo, nos meados do ano de 1717, duzentos anos antes de sua aparição em Fátima.

Domingos Garcia, Filipe Pedroso e João Alves eram pescadores do rio Paraíba do Sul e conseguiram, à falta de peixes, pescar uma imagem de terracota (cerâmica amarronzada) da Virgem que chamaram, no início, de Nossa Senhora das Águas. Na verdade, a imagem estava sem cabeça e, talvez, devesse ser chamada, pelo menos no momento da pescaria, de Nossa Senhora Degolada ou, melhor ainda, dos Degolados.

Aliás, havia na ICR um grande precedente quando Denis, o decapitado, foi alçado à condição de Mártir e Santo, chegando a ser o Padroeiro da França.

Na belíssima Catedral gótica, em sua homenagem, vê-se Saint-Denis em pé e vivo, segurando sua própria cabeça numa das mãos. A mesma imagem surrealista pode ser vista, também, na fachada da própria Notre Dame de Paris. A sua devoção era tão importante que muitos dos reis da França (especialmente os Capetos) eram enterrados naquela Catedral.

No entanto, para maior glória do Brasil, Domingos Garcia lançou novamente sua rede no rio e, milagrosamente, em vez de peixes, veio enganchada a cabeça da Santa, que faltava. Depois de inúmeras restaurações e adulterações, Nossa senhora Aparecida assumiu o seu perfil atual, embora conservando o rosto negro, produto da oxidação da terracota, rica em ferro.

No dia 12 deste mês de Outubro, o pároco da Igreja de Nossa senhora Aparecida, no Ibura, talvez empolgado pela simpática visita à sua diocese do novo Arcebispo da cidade vizinha a Bel-O-Kan, afirmou na TV Globo, com a maior cara de pau, que o rosto negro da Santa significava “o Protesto de Nossa Senhora contra a escravidão no Brasil” (sic).

Em 1717!

Mentira? Ingenuidade? Hipocrisia, como diria o português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura?

Não! A ICR sempre foi contra a injustiça da escravidão, tanto de africanos como de índios. É verdade que não há nenhum documento que o prove. Muito pelo contrário, aliás. Mas, que importa? Se o padre disse, tá dito e ninguém é besta para desmenti-lo.

O importante é que, logo depois de colarem a cabeça de Nossa Senhora no seu devido lugar, começaram a ocorrer os milagres da Santa como, até hoje, vêm ocorrendo. Nessa última peregrinação, uma senhora chegou a afirmar que sua neta havia passado no ENEM, graças à sua milagrosa intercessão.

O importante, porém, foi o primeiro milagre, o chamado “Segundo Milagre dos Peixes”. Ora, eufórico com o achado, o pescador Domingos Garcia, que não pescava nada há vários dias, lançou pela terceira vez sua tarrafa no rio. Eis que ela voltou abarrotada dos mais belos peixes da região, inclusive alguns estrangeiros.

É bem verdade que estávamos em Outubro, época da piracema dos rios do Sudeste brasileiro. No entanto, na época, o Ibama ainda não havia proibido a pesca durante tal período. E o milagre valeu. Tanto assim que, hoje, Aparecida é uma das cidades mais visitadas por turistas.

O outro milagre significativo ocorreu numa noite serena, sem ventania, quando as velas do altar se apagaram. Logo depois, elas se acenderam espontaneamente. No meu último aniversário, meus trinetos me pregaram uma peça semelhante. Pediram-me que apagasse as muitas velas do bolo. Fui apagando e elas foram se acendendo novamente. Umas cinco vezes! Até que, impaciente, peguei todas elas e as joguei no mangue. Não tenho fôlego para tanto. Voltei rindo da brincadeira e comi uma grande fatia do delicioso bolo, preparado, aliás, pelo padeiro da esquina.

Mais interessante, talvez, seja o terceiro milagre de Nossa Senhora Aparecida. Um homem estava voltando para sua casa quando, de repente, se deparou com uma enorme onça. Ele se viu encurralado e a onça estava prestes a atacá-lo. Então, o homem pediu desesperado a N.S. Aparecida por sua vida e a onça virou-se e foi se embora.

Aliás, não sei quem ficou mais assustado, se o homem ou se a pobre onça.

Em 1930, o fundador do Estado do Vaticano, o fascista Pio XI, proclamou Nossa Senhora Aparecida como “a Rainha do Brasil e sua Padroeira Oficial”.

Até aí, tudo bem! Os católicos romanos brasileiros têm o direito de acreditar no que bem quiserem. Em suma, sem querer ofender ninguém e para não ser grosseiro, a Padroeira católico romana do Brasil não passa de um simulacro. Em linguagem mais forte, como diria o Monsenhor Braguinha, meu Pai, tudo não passa de mais uma falsificação da ICR.

Mas, em 1980, através da Lei Nº 6.802, de 30/06/1980, a Ditadura Militar reconheceu oficialmente N.S. Aparecida como Padroeira do Brasil, estabelecendo o dia 12 de Outubro como feriado nacional.

Até aí, tudo mal! É certo que Nossa Senhora é a “Mãe de Deus” e a “Rainha dos Céus e da Terra”, segundo a ICR.

Mas, porém, contudo, todavia…Segundo consta na Constituição Federal, o Brasil é um país laico e o Estado não pode impor, com lei ou sem lei, nenhum estatuto religioso aos cidadãos brasileiros. Ou pode?

Enfim, como dizia o refrão do hino oficial do Congresso Eucarístico Nacional, realizado no Recife em 1950: “Quem não crê, brasileiro não é”.

Além disso, um feriadão ensolarado é sempre bem-vindo, não é mesmo?

Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXII

20 de outubro de 2009, às 18:21h

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

A Virgem, Klimt

(I virgo segreti)

32º CAPÍTULO

Depois da conversa sobre Nossa Senhora de Fátima, dormi mal. Muito mal, mesmo. Sonhei com a Virgem Santíssima reclamando de minha incredulidade. Disse-lhe que não era bem assim. Apenas duvidava das crianças e do padre da aldeia.

─ E esse negócio de escrever que eu era analfabeta? Pois saiba que falo fluentemente todas as línguas da terra. ─ Reprovou-me a Jovem Senhora.

─ Até mesmo a última flor do Lácio? ─ Perguntei.

─ Dessa, nunca ouvi falar. E existe mesmo? Será que já não arrancaram a coitada dessa planta de que você fala? ─ Retrucou a Virgem.

E foi por aí até que um imenso suor me acordou de vez. Era tarde, lá pras dez da manhã. Cheguei atrasado na Biblioteca e me disseram de cara que Monsenhor Lippi estava puto da vida com o novo estagiário, um jesuíta idiota, que deixara cair no chão um lote de documentos medievais que se transformaram numa farinha de papel.

Fiquei na minha, trabalhando na catalogação dos novos livros. Foi quando Lippi mandou me chamar para almoçar com ele.

─ Sente-se por aí, Tsé, enquanto acabo de assinar essa requisição. Trata-se de cinquenta rolos de papel higiênico. A água foi cortada e ninguém sabe como se limpar.

Chamou o padre chinês, entregou-lhe o ofício e disse que não queria ser incomodado no segundo expediente. Trancou a porta por dentro e me disse:

─ Vamos lá, Tsé! Tenho um coelho assado no forno e a tarde será nossa. Há coisas que você precisa saber antes de começar esse seu famigerado Doutorado.

─ E os segredos de N.S. de Fátima, Monsenhor? ─ Perguntei ansioso.

─ Ah! Deixa pra lá, Tsé. O aramáico da Santa era muito ruim e o texto é mais ambíguo do que a própria ICR. Pura enganação! ─ Respondeu Lippi.

─ Promessa é dívida, Monsenhor. Se não disser, vou comer na cantina do albergue e deixo seu coelho mofando.

─ Pois bem, Tsé! Monsenhor Braguinha, seu pai, me avisou que você era ranhento e chato. ─ Mas, finalmente, Lippi soltou o verbo.

Em primeiro lugar, devo dizer que há muita confusão no texto. Má gramática, palavras erradas e conceitos estapafúrdios. Mas, vamos ao primeiro segredo:

1º Segredo:

“Em pátio sagrado, nascerá uma minhoca preta e branca que se transformará em cobra colorida e venenosa. Engolirá todos os adversários até que os anjos de Satanás a transformarão novamente em minhoca”.

─ Veja bem, Tsé! O tal segredo não junta coisa com coisa. Além disso, a palavra “minhoca” é de tradução controversa. Pode ser uma “lombriga”, um “tapuru” ou, até mesmo, um “ muçum sem cabelo”. No entanto, em dialeto galileu, minhoca é mais provável. É claro que não entendemos nada, pois cobra e minhoca são espécies diferentes e uma não pode se transformar na outra.

─ Puxa! Isso me parece mais uma charada do que um segredo. ─ Exclamei.

─ Pois é! Sir Rudoph Bates, prêmio Nobel de Biologia, tio de minha sagrada Susan, e membro de nosso Comitê Curador, resolveu fazer algumas experiências no seu Laboratório, em Oxford. Afinal de contas, nunca vira a Santa Virgem contar mentiras. No seu Relatório final, ele afirmava:

“Para uma minhoca se transformar em cobra colorida e venenosa, precisaríamos de dois milhões de anos. Como não dá tempo, meu Assistente sugeriu uma experiência. Tiramos uma cobra do serpentário com o peso de um quilo e meio e a colocamos numa caixa de papelão inviolável. Os estudantes foram caçar minhocas no gramado da Universidade e separamos um lote do mesmo peso da cobra. Botamos as duas espécies juntas. Se a Virgem tivesse razão, as minhocas se transformariam em cobra no dia seguinte, pois a eternidade é assim mesmo, segundo nossos filósofos. Tanto faz um dia quanto dois milhões de anos. Depois, fui a uma recepção no Palácio da Rainha e bebi tanto vinho que me esqueci do experimento. No dia seguinte, cheguei ao Laboratório de ressaca quando, alvoroçado, um Assistente invadiu meu gabinete.

─ Sir! É preciso ver o que ocorreu na caixa experimental.

Pensei logo que encontraria duas cobras ou mais. No entanto, pra minha decepção, não havia cobra nenhuma. As minhocas comeram a bichinha, cujo veneno era minha esperança de enviar o maldito Reitor para o Hospital Universitário. Afinal de contas, ele andava me perseguindo, só porque levei sua filha para passear no bosque. Tenho dito!”

─ Ora, Monsenhor! Esse Sir não é de nada. Como ganhou o Nobel, ninguém deve saber. Bastava pintar as minhocas e tudo estaria resolvido.

─ Vá pro inferno, Tsé! Vamos ao segundo segredo da Santa:

2º Segredo

“Da poeira, surgirá um que como Filho de Sapo. Enganará todo mundo, desviando um rio sagrado, e os poderosos da Terra o chamarão de O Cara de Pau”.

─ Um baita segredo! ─ Exclamei.

─ Que nada, Tsé! Pura imitação do livro de Daniel. E o pior! Dessa vez, ninguém se atreveu a fazer nenhuma experiência. Já pensou desviar o Tibre só pra enganar os pobres italianos? Ficamos nas nuvens. Mas o terceiro segredo parecia mais fácil:

3º Segredo

“ Um Papa será assassinado”.

─ Assim mesmo, curto e grosso? ─ Perguntei.

─ Mais do que isso, Tsé! Fácil e agourento. Afinal de contas, quantos Papas já foram assassinados? Nosso historiador-antropólogo afirmou que a História registra inúmeros assassinatos de personalidades importantes. É esperar pra ver!

Décadas depois, já como Líder de minha Comunidade, cheguei à conclusão, como já escrevi no Capítulo anterior, de que a Santa de Fátima dissera a verdade. Nós, infiéis, que sempre combatemos as imposturas da ICR, é que estávamos enganados.

Com a ajuda do Dr. Quim, Jr., redigimos um relatório circunstanciado para a SBV, expondo nossas razões e esclarecendo todos os segredos de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

Infelizmente, a bandeira do Santinha continua a meio pau. Mas Nossa senhora Aparecida nos dará uma forcinha e voltaremos com um veneno redobrado. Os agentes do demônio não perdem por esperar?

Desculpem, mas o esforço foi tão grande que tive uma violenta dor de barriga e não saio do banheiro há dias. Depois, transcrevo nosso Relatório final sobre Fátima.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI