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Questão de sorte - II

23 de dezembro de 2007, às 10:30h

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Por Gadiel Perrusi

II 

No princípio, pensei que tudo ia dar certo. A paixão era muito grande e nem me incomodava de chegar cansada em casa. As mãos de Pedro, apesar de calejadas, eram maravilhosas e me curavam de todo o enfado. Esquecera Caruaru, Madá e a vida de cachorro na zona. Menos meu pai, batendo uma prosa no posto rodoviário.

O deputado emprestara um dinheirinho e a gente comprou um barraco melhor. Pedro botou água encanada de uma pena d’água clandestina e puxou a luz do barraco do vizinho. Não faltava nada. No inverno é que ficava com medo da barreira, mas a Prefeitura tinha prometido fazer um muro de arrimo.

Somente depois que engravidei duas vezes e não deu certo é que Pedro virou a cabeça. Não que ele gostasse tanto assim de criança, mas pensava que eu havia abortado de propósito, principalmente na segunda vez. Pedro ficou com ciúme besta, dizendo que a criança não era dele. Não adiantava mostrar o certificado da maternidade. Era hiper-tensa com gravidez de alto risco. Por isso, não podia beber muito também. Na última vez, ligaram as trompas com medo de que engravidasse de novo e, então, começou o inferno.

A cada dia, Pedro se tornava mais chato e agressivo. Começara a beber e tomava meu dinheiro. Jogava e passava muitas noites fora de casa. A vizinhança sabia das brigas, mas ninguém dizia nada. Chegava tão cansada do trabalho que nem dava pra conversar. Nos domingos, pegava a feira e depois a missa. Cuidava bem do barraco que comprara com o empréstimo do Doutor Farias. Pagara tudo direitinho, mesmo sendo roubada pelo companheiro quase todo dia.

Uma madrugada, o Boneco, como o pessoal da rua chamava Pedro, chegou mais do que bêbedo. Tinha fumado também. Rasgou todas as minhas roupas, quebrou a louça e, ainda, furou o colchão de dormir que a patroa me dera de presente. Só não me bateu por que consegui fugir para o barraco de um vizinho.

Pior foi a mudança do Deputado para Brasília. Fiquei desempregada e a vida não estava nada fácil. Queria botar a indenização na poupança, mas Pedro tomou o dinheiro e gastou tudo numa farra. Aí, não agüentei. Ameacei botar o Boneco na rua. Ele passou uns tempos quietinho, sem sair de casa. Foi quase uma segunda lua de mel. Me dava banho e fazia massagem nas minhas costas, parecido como meu pai. Não adiantou muito porque, depois, a coisa piorou de vez.

O dinheiro acabou todinho e Dedé me chamou de novo pra vida. Não dava mais pra fazer programa por que ninguém mais queria. Dedé envelhecera muito rápido pra essas coisas. Nessa época, ela já morava numa pensão da Rua do Bom Jesus  e se transformara em puta de rua mesmo. Era o jeito.

Mas Boneco não podia saber por que eu ainda adorava ele. Meia noite, já estava em casa. Pedro só chegava depois. No princípio, não houve nenhum problema. O Boneco até que estava melhor e eu, às vezes, tinha que ficar em casa de noite. Depois, recuperava tudo. A gente ainda se gostava e, nos domingos, depois da missa, íamos à praia. De tarde, pegava um cinema. Na segunda-feira, os dois sumiam de novo. Cada um pra seu lado.

Evitava, como antes, os locais de ponto de minha irmã Madá. Não tinha ódio nem nada, mas não queria vê-la nunca mais. Uma noite, quase cruzava com ela quando descia de uma pensão no Recife. Estava escuro e consegui disfarçar.

Agora, Miriam parecia doente e cansada. Ofegante, pediu para continuar noutro dia. Podia ouvir, se a jornalista quisesse falar.

Lúcia não tinha mesmo nada para dizer. A história do cavalinho estava nos livros de Psicologia, pensou. Masturbação infantil, totalmente inocente. Homem que vai e volta, ela também já conhecia. Fora noiva de um colega de Faculdade. Acabara e renovara umas três vezes. Desistira. Preferia mesmo ouvir Miriam. No final, talvez, dissesse alguma coisa. No início, achara monótono saber tudo pelo processo e ouvir, de novo, na entrevista. Mas, não era bem assim. O processo, peça fria de papel, escondia os detalhes. Só tinha o essencial para a definição de culpa da acusada. Nada mais. Faltava vida e sobrava português ruim.

Lúcia tivera que viajar para fazer uma reportagem, e somente no mês seguinte retomou a entrevista com Miriam, que parecia mais abatida e frágil do que antes. Hiper-tensão maligna e complicações renais, segundo o laudo da prisão. Tinha que se apressar e terminar com tudo aquilo. Já começava a se identificar tanto com Miriam que, às vezes, duvidava de que lado realmente estava. Perigoso! Começava a sonhar com cenas de sua infância e adolescência, há muito esquecidas. Questão de sorte, como repetia sua entrevistada.

_E, então, onde estava? - Perguntou Miriam.
_Acho que você ainda vivia com Pedro Boneco e havia se cruzado com Madá, descendo uma escada no escuro.
_É verdade! - continuou Miriam - mas não foi um simples encontro disfarçado. Havia um homem com ela. O meu já tinha ido embora. E o cara de Madá era o Boneco. Por isso, quando cheguei em casa, quase tive um ataque. Fiquei tonta e comecei a vomitar.

Pedro só chegou de madrugada mais bêbedo do que um gambá. Não disse nada e fingi que estava dormindo. Aí, ele arrancou o meu lençol, querendo me bater. Me acusou de tudo. Madá tinha contado o que eu fazia e o que eu não fazia e ele disse que estava passando por idiota. Só não me chamou de santa. A discussão foi a pior  de todas. Também já estava cansada de tudo aquilo. Sustentava Boneco e ele ainda saía com minha irmã.

Mas não deu pra me controlar, quando ele falou que eu dormia com meu pai. Tive vontade de matá-lo, bem devagar, arrancando cabelo por cabelo, rasgando sua pele, furando o coração ruim, libertando aquela alma de cão danado. Mas fiquei calada, porque não podia falar de meu pai. De manhã, iria embora de vez.

Boneco, então, pegou uma garrafa e me ameaçou. Fugi do quarto, mas, na porta, ele me deu um pontapé. Fui bater na sala e me apoiei na máquina de costura que a mulher do Doutor Farias me dera. Encontrei uma tesoura e parti pra cima do Boneco. Foi um golpe muito leve mas ele morria de medo de sangue. Correu prá cama e disse que estava morrendo, somente porque a tesoura havia furado a mão dele. Mas, aí, não sei o que me deu. Tive vontade de pepinar Boneco todinho. Não sei quantos furos ele levou, mas só parei quando não tinha mais fôlego. Ele ficou na cama estirado, sangrando e gemendo o tempo todo.

Minha raiva passara e não sabia o que fazer. Resolvi chamar a irmã dele que ainda morava com a avó, perto do meu barraco. Ela se acovardou e mandou que fosse chamar a mãe do Boneco. Mas a verdade é que ninguém queria se meter na história, com medo de complicação. Nem mesmo a mãe quis saber de nada. Quando amanhecesse, passava por lá.

Fiquei o resto da noite na cama, afastada de Pedro, que, de vez em quando, pedia água. Mas eu tinha medo de sair dali. Ele podia se levantar e querer me matar de novo. De manhãzinha, ele bateu de leve na minha barriga e me acordou. Pedia água, mas nem liguei.

A mãe e a irmã de Pedro chegaram quando já dera oito da manhã. Não quis abrir a porta porque pensei que, àquela altura, o Boneco já tinha morrido. Eu mesma dizia baixinho pra ele: “Olha, Boneco, não brinca, não faz que está dormindo que eu te conheço”. Aí, foi a polícia que arrombou a porta. Me prenderam e levaram Pedro para o hospital. Acho que ele não morreu, porque eu só peguei uns quatro anos e meio de cadeia.

_Como lhe disse, Doutora, foi meu pedaço bom da vida que terminou ruim. De ruim, emendou pra pior, mas quando me lembro de tudo isso quero vomitar e fico tonta. Acho melhor até a gente parar por aqui. Depois a senhora volta. Preciso descansar um pouco, senão o bordado não vai render quase nada.

Lúcia leu de novo todo o processo. O Boneco, de fato, não havia morrido por pouco, mas ficara com seqüelas para o resto da vida. A mãe do Boneco testemunhara que Miriam fora à sua casa, na madrugada do crime, gritando que o próprio pai estava morrendo na sua cama. Achara aquilo muito louco e preferiu ficar dormindo. Depois ia conferir. Se tivesse desconfiado da verdade, teria chamado logo a polícia pra socorrer o filho.

Depois de presa, segundo o Promotor, Miriam se comportara com muita frieza, desligada, confessando todos os detalhes embora narrando o crime na terceira pessoa, como se estivesse olhando para si mesma num espelho, ela mesma dentro dele. Observara o crime, ela própria empunhara a tesoura, vira o sangue sair do Boneco, ficara com medo, saíra para pedir socorro, mas não achara nada demais na cena. Apenas, uma mulher que se defendia. Nem tanto do Boneco, como parecia, mas de todos os homens que a machucaram.

Não negava nem afirmava. Contava somente. Tinha pena do Boneco. Tão jovem, tão atrapalhado na vida e, agora, no hospital! De sua parte, tudo bem! Se cometera um crime, como estavam dizendo, achava que era assim mesmo, não tinha nada pra esconder. Preferia que não fosse ela, mas foi. Falta de sorte de se meter com homem.

Quando Lúcia voltou à Colônia Penal, Miriam estava internada na enfermaria. Contudo, insistiu em continuar contando sua história. Talvez fosse desumano, mas Lúcia achou que não poderia perder tempo. Miriam não duraria muito com o tratamento precário na prisão. Resolveu não arriscar e aceitou concluir a entrevista.

Depois que saí da prisão, continuou Miriam, com menos de dois anos de pena por bom comportamento, fui procurar Dedé de novo. Disseram, na pensão, que ela tinha morrido de tanto beber, mas não foi assim não. Um elemento desconhecido lhe dera uma facada dentro do quarto e só descobriram na manhã do outro dia.

Estava faltando uma mulher, que adoecera, e me deixaram ficar. Fui ficando e a vida continuou. Não podia beber e bebia. Precisava dormir e não dormia. Precisava de tudo e não havia nada.

Depois, preferi morar longe da pensão. Aluguei um barraco em Afogados e o ônibus era direto. Não precisava andar muito pra ir ao trabalho. Um dia, minha irmã Madá apareceu lá em casa. Há anos que não sabia por onde ela andava, mas parece que me vigiava o tempo todo. Não errou uma casa. Foi direto parar na minha. Queria porque queria ficar uns dias comigo pra esconder o amante da polícia, um tal de Felizardo. Só permiti se fosse uma semana. Não queria, também, nenhuma complicação comigo.

Depois, numa noite de pouco trabalho, encontrei Felizardo num bar do Recife. Me fez muita festa, disse que fora inocentado e não precisava mais se esconder. Me agradecia muito. Ele até que era simpático. Havia despachado Madá por que ela era muito briguenta. Começamos a beber e a jogar baralho.

Por azar, por destino, não sei por quê, Madá passou em frente do bar. Começou logo a me ofender, dizendo que eu estava, como sempre, roubando o homem dela. Disse pra Felizardo que eu era amasiada com a dona da pensão e que lhe dava todo o dinheiro apurado.

Em vez de me defender, Felizardo ficou danado comigo por causa da história da dona da pensão, o que era, claro, pura mentira de Madá. Bateu na minha cara e me chamou de puta, como se eu já não fosse. Acho que fiquei mais revoltada com ele do que com Madá. Ele não era nada meu, a não ser antigo protegido, quando fugia da polícia. Eu acho é que ele e Madá só tinham brigado, mas ainda continuavam juntos. Daí aquela reação, talvez pra disfarçar.

Fiquei sozinha no bar, quando chegaram os Cosme e Damião pra me revistar. Madá dissera a eles que eu estava com maconha, olhando pra mim como se eu fosse sua pior inimiga. Mas eu não tinha nada e eles me deixaram em paz. Não sei por que Madá me perseguia tanto.

Resolvi, então, ir para outro bar, bem longe dali, onde encontrei Gisa com um rapaz a tiracolo. Adalgisa era antiga colega de antes de minha prisão. Boa gente! O menino dela também. Continuamos a beber e, uma hora depois, Madá chegou de novo.

Decidi, naquele momento, voltar pra casa. Aquela noite só podia dar confusão mesmo. Parei um táxi. Gisa e o rapaz quiseram vir também. Quando ia fechar a porta, Madá entrou no banco traseiro e começou a me xingar. Eu lhe disse, ali mesmo, que se viesse com a gente ia se arrepender. Não tinha nada na cabeça, não. Era só pra assustar, mas ela não quis descer do carro e o motorista deu a partida.

No meio do caminho, pensei em deixar minha amiga em casa, pois vi logo que o rapaz dela era um frouxo. Ficava calado o tempo todo e não me defendia. Perto da Rua Imperial pediu pra descer, e foi melhor porque dava mais espaço no carro. Também tinha medo de envolver minha amiga na briga com Madá, mas ela insistiu em continuar comigo.

Preferi ficar calada o tempo todo. Madá me destratava de tudo. Dizia aos berros que eu era a puta mais conhecida de Caruaru, que tinha roubado todos os homens dela, de Germano, o soldado da Rodoviária, passando por Bob até Felizardo. Coisas que, até, já havia esquecido, pois saíra do interior com menos de dezoito anos, como lhe contei no início.

Chegamos em casa e eu estava muito tonta. Sabia que não podia beber muito. Mas não era a bebida. Era o cheiro ruim da presença de minha irmã. Parecia um demônio fugido do inferno, querendo arrasar com minha vida. Dentro de casa, a briga continuou. Não sei mesmo se era briga por que eu não dizia nada. Apenas sentia que meu corpo estava inchando, minha cabeça doía, meu coração batia revoltado.

Madá parou um pouco de gritar e pegou uma cerveja, como se fosse dona da casa. Depois, virou-se pra Gisa e disse, de novo, que eu não prestava, só trazia desgraça. Até dormia com meu pai quando ele era vivo. Aí, me esquentei mesmo e comecei também a gritar.

Madá dizia que meu pai não havia sido atropelado, não. Tinha se jogado debaixo de um caminhão com vergonha de mim. O próprio Germano ouvira dizer, no Posto, que toda noite eu ficava dormindo abraçada entre ele e minha mãe. Até meu pai, marido de minha própria mãe, eu queria tirar, quanto mais os homens das colegas. Madá não respeitava nem sequer a memória do próprio pai.

Fiquei tão roxa de raiva que não agüentei. Além da mentira, Madá me desmoralizava diante dos amigos, como Gisa e o amiguinho covarde dela. Não queria matar ninguém, mas a faca estava na mesa me tentando. De tanto tentar, segurei-a bem firme e avancei. Entramos numa luta e eu furei não sei quantas vezes aquela peste de irmã. Minha colega Gisa fugiu com medo da briga, mas eu acho que ela estava certa.

Fugi também, porque achava que Madá não merecia socorro nenhum. Nem sabia se ela estava morta ou não. Fui para o Recife novamente e fiquei andando pra me acalmar. Depois, voltei pra Afogados e tinha muita gente defronte da minha porta. A polícia havia chegado e falavam que tinha morrido gente dentro de casa. Como já era de madrugada, ninguém me reconheceu.

Somente fui presa dois meses depois, em Caruaru, por que a dona da pensão informou à polícia que eu era de lá. Estava num sítio de uns primos e, quando vi os soldados chegando, me aprontei e não ofereci a mínima resistência. Depois, foram dizer que meus primos atiraram na polícia porque plantavam maconha no sítio. Tudo mentira.

Até hoje, não sei por que Madá me odiava tanto. Acho que era por que meu pai gostava mais de mim. Ainda me lembro de quando a gente fazia cavalinho e ele me dava banho de bacia, no quintal de casa. As mãos de meu pai eram mais macias do que as do Boneco, o único homem com quem vivi de meu próprio gosto e, assim mesmo, deu no que deu.

Quando o doido atropelou meu pai, quem sofreu mais fui eu. Todo mundo chorou, a Prefeitura pagou o enterro, mas todo dia era eu que botava uma flor no seu túmulo.

Na polícia, uma testemunha disse que ainda encontrara Madá com vida, pedindo pra ser enterrada junto do meu pai. Não pude fazer nada porque estava fugida e, quando soube, já era tarde. Estava presa. Achei um verdadeiro sacrilégio. Parece que Madá esqueceu de que, um dia, quando eu era ainda pequena, surpreendi os dois se beijando no quarto de minha mãe.

Até perguntei a uma Assistente Social, aqui da prisão, se eu tinha direito de separar os dois no cemitério, mas ela não sabia de nada, que eu perguntasse ao Advogado.

Deitada na enfermaria, Miriam começava a chorar pela primeira vez, desde o início da entrevista. Lúcia achou que não precisava dizer nem ouvir mais nada. Limitou-se a chamar a enfermeira. Parecia que tudo já estava escrito nas lágrimas de Miriam.

Mas, discordava dos tais pedaços de vida. Na verdade, pensava, era somente um. Questão de sorte, como costumava repetir sua entrevistada.

Questão de sorte

22 de dezembro de 2007, às 8:25h

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Por Gadiel Perrusi

I

 _Que adianta, Moça? A senhora não vai acreditar mesmo. É melhor ficar com o que está escrito no processo. Li, aprovei e  assinei. Só tive três pedaços de vida. Dois de desgraça e um de alegria no meio, que não durou nem três anos.

_Tudo bem! - Respondeu Maria Lúcia, que entrevistava mulheres condenadas para uma série de artigos no jornal onde trabalhava como estagiária. 
_Mesmo assim, -continuou - gostaria de ouvir, nem que fosse pra esquecer tudo depois. Quem sabe, o pedaço do meio não me ajude um pouco? Só queria entender, sei lá, talvez até me entender também.
_Ah, mas o pedaço do meio tem muito a ver com as pontas - respondeu Miriam, um pouco enigmática.
_Está bem, eu conto. Esqueça as pontas e leve o meio embora. Fico mais sossegada. Dói menos quando a desgraça é uma só. Saber que a gente foi feliz e não pode mais dá a impressão de que tudo é um pesadelo só. Prefiro assim, é mais inteiro. Tenho trinta e cinco anos. Deles todos, só uns poucos foram alegres. Impressão minha. Acho que foi tudo triste mesmo. Aí, a gente olha pra frente com mais coragem, já sabendo que tudo vai continuar na mesma.
_ Começo por onde? Pelo bom ou pelo ruim? - Perguntou Miriam.
_Não sei. Prefiro que você mesma diga o que é e o que não é - Respondeu Lúcia.

É difícil dizer - começou Miriam. Parece tudo igual. Um pai que morre. Um padrasto que estupra. Um pai que se encarrega de fazer o serviço e, depois, expulsa a filha de casa. Nem pai, nem padrasto, nem nada. Destino, sorte, ninguém sabe.

No meu caso, vivia direitinho em Caruaru. Casa, comida e roupa. Namorado, pai e mãe. A desgraça é que tinha irmã também. A gente não era pobre nem rico. Tinha cinema, namoro na praça, passeio a Recife. Tudo certinho. Até aí, não tinham começado os pedaços de minha vida. Era igual, nem bom, nem ruim.

Na entrada da cidade, havia uma barreira da Polícia Rodoviária. Sempre que a gente ia a Bezerros, meu pai, que era Coletor da Prefeitura, cumprimentava os guardas e tinha um dedo de prosa. Germano, soldado do Posto,  é que era muito calado. Respondia pouco, sempre olhando pra mim.

Eu tinha somente quinze anos. Achava o guarda muito bonito, igual a um artista de Rock que vira na TV. Madá, minha irmã mais velha, também. Ficava tentando Germano o tempo todo, mas ele só olhava pra mim.

Faltando pouco para meus dezesseis anos, meu pai foi atropelado, bem defronte do Posto, por um doido que rompeu a barreira. Germano foi dar a notícia e saiu com Madá pra ir ao necrotério. Eu estava na escola e minha mãe foi me buscar.

Gostava de meu pai, ele gostava de mim e Madá morria de ciúmes. Depois que ouço essas histórias de pai dormir com filha, começo a pensar que se fosse comigo teria sido muito natural. Acho que nem ele nem eu veríamos nada de mais. A gente apenas se abraçava e se beijava. Gostava também de ficar no colo dele fazendo cavalinho, mas isso quando era pequena.

Depois da missa do trigésimo, Madá desapareceu com Germano. Soube que fora transferido para o Recife e a levara com ele. Nem liguei. Minha mãe é que não parava de chorar. Afinal de contas, perdera o marido e a filha mais velha.

Continuei a estudar e a namorar com Cláudio, filho de um ex-colega de meu pai, até que recebemos uma carta de Madá. Isso depois de um ano de ter fugido. Queria que eu fosse estudar no Recife. Estava ganhando bem. Em Caruaru, a pensão da Prefeitura era uma ninharia, não dava pra nada. Eu era primeira de classe e as freiras me deixavam estudar de graça. Mamãe é que não queria que eu viajasse. Eu nem me incomodava. Cláudio só queria bolinar mesmo e eu duvidava que fosse casar um dia. Também, pra que casar!

De tanto insistir, mamãe deixou e cheguei ao Recife com menos de dezoito anos. Madá me esperava na estação de ônibus, mas não era Germano que estava ao seu lado. Era outro cara, mais velho, de bigode e até bem vestido. Não desconfiei de nada. Fomos de carro para um apartamento no Espinheiro e me deram um quarto todo mobiliado. Madá me disse que, na outra semana, ia providenciar escola pra mim. Tudo bem. Enquanto isso, pensei, vou aproveitar o tempo e ver todos os filmes da cidade. À noite, ficava sozinha. Madá saía com Bob, que parecia ser namorado, e só voltava de madrugada quando eu já estava dormindo.

Uma noite, depois da novela, um cara entrou em casa sem bater, abrindo a porta com a chave. Fiquei com medo, mas ele disse que era amigo de Madá. Acho que já conhecia o apartamento porque foi logo na geladeira e tirou uma garrafa de Vodca e uns limões.

Eu mesmo não bebia, mas o cara insistiu tanto que tomei uns goles. Fiquei tontinha. Depois, não sei o que aconteceu. Quando acordei, o rapaz estava nu, ainda dormindo, na minha cama. Eu também estava sem roupa e sentia muitas dores em baixo. Foi por isso que acordei primeiro.

Gritei por Madá e ela saiu do quarto, ao lado, morrendo de rir. Disse que assistiu tudo por um buraco na parede e que eu havia transado com o cara sem nenhuma resistência. Agora, era continuar transando. Isso dava dinheiro. Morri de vergonha e botei pra chorar.

Madá continuava rindo e disse que sabia que eu transava com meu pai. Foi Germano que lhe contara quando vieram pro Recife. Ele ficava me olhando, no posto policial, pra ver, também, se tinha uma chance comigo. Tudo mentira. Fiquei vermelha de raiva. Quis fugir, mesmo somente de camisola, mas Bob saiu do quarto e me agarrou.

Ele e o rapaz abusaram de mim até de tarde. Quando saíram, Madá me disse que a vida, dali por diante, ia ser assim mesmo. Tinha que ganhar meu dinheiro pra ajudar na casa. Nem podia me levantar direito. Me deu um banho, tomei um copo de leite e um comprimido pra dor de cabeça. Dormi de novo, prometendo fugir no outro dia.

Eles saíam e me deixavam trancada. Tudo em vão. Uma semana depois, eles chegaram bêbedos demais e esqueceram de fechar a porta. Aproveitei e fugi.

_Foi quando começaram os três pedaços -  finalizou Miriam, dizendo que estava muito cansada para continuar. Que a Doutora voltasse noutro dia.
_E, então, Miriam? Como está passando? - Perguntou a jornalista, voltando para continuar a entrevista, uma semana depois.
_A mesma coisa. Rezar, ler, trabalhar na oficina de bordado. Nada de novo. E a senhora?
_Não sei. Estive pensando muito em você. Também brincava de cavalinho com meu pai. Classe média como vocês. Acho mesmo que é aquilo que você disse, questão de sorte, de destino. Talvez os dois lados sejam a mesma coisa. E, então, podemos conversar?

Depois que fugi, continuou Miriam, fui procurar Dedé, minha ex-colega do colégio das freiras de Caruaru. A gente se correspondia de vez em quando. Deixou que ficasse por lá, uns dias, mas eu tinha que anotar todos os telefonemas que chegassem. Depois me diria por quê. Anotei uns dez e deixei o resto pra lá. Toda noite, ela saía e voltava tarde.

Durante o dia, eu procurava emprego mas era difícil, até que lembrei onde morava o Doutor Farias, deputado por Sairé e antigo amigo do meu pai. Fui até lá e não consegui nada. Mas ele me prometeu que, dali a uns meses, ia precisar de uma babá para sua filha. Que voltasse.

Uma noite, saí pra passear com Dedé. Depois do cinema, fomos a um bar. Foi muita cerveja e terminamos no bairro do Recife. Não sabia que Dedé fazia a vida. Mas ela me disse que não era bem assim. Estava apenas curiosa pra saber como era. Só fazia alguns programas e perguntou se eu não tinha desconfiado dos telefonemas que recebia. No meio da bebedeira, lhe contei o que Madá me fizera.

E daí? Dedé resmungou um pouco e disse que parecia que somente eu mesma não sabia o pedaço de coisa ruim que era Madá.  Mas  não precisava fazer a zona. Bastava ter um apartamento e um telefone. Bonita como eu era, ia chover programa e daria pra viver muito bem. Era só querer. Eu não queria! Mas, pouco a pouco, comecei a dividir os clientes com Dedé. Numa boa, porque ela própria não dava vencimento, nem era de ferro.

Comecei a ganhar dinheiro e me mudei. Continuamos amigas e, às vezes, fazíamos programas juntas. Era até divertido. A gente só aceitava gente direita. Mas era também arriscado. De vez em quando, a coisa não dava certo e a gente se estrepava. Já começava a ficar conhecida. O problema é que tinha que beber diariamente e sempre fui fraca de estômago. Vomitava muito e só vivia com dor de cabeça.

Dois anos depois, não estava mais agüentando. Recusava clientes e, com isso, perdia dinheiro. Tive de deixar o apartamento alugado e fui procurar emprego de novo. Ainda era muito jeitosa, mas o estrago já começara. Não encontrava nada  porque não tinha terminado ainda o segundo grau e não havia trabalho decente mesmo.

O dinheiro estava acabando e fui morar perto do Vasco da Gama. Um dia, depois de andar por todo canto à procura de trabalho, cansei. De noite, atravessei a ponte e fiquei bebendo num bar do Recife, apesar de saber que ia passar mal no dia seguinte.

O primeiro cara que chamou, eu fui. Depois, me viciei de novo. Pelo menos, podia comer e me vestir direito. Ainda era jovem e todo mundo gostava. Eu não! Mas era o jeito. Foram cinco anos de zona. Tudo comigo era certinho e não houve problema nem com a polícia nem com os clientes. Vomitava durante o dia e, de noite, recomeçava tudo. Não sentia mais nada. Só saudade de meu pai.

_Mas se a senhora deixasse pra depois, eu até agradecia - interrompeu Miriam.  Fico tremendo toda vez que me lembro do pedaço do meio, como já disse noutro dia.

Na outra semana, Miriam retomou a história. Parecia mais triste e cansada do que de costume.

_A partir de agora, se a Senhora quiser, pode escrever. É como se estivesse dando adeus ao pedaço do meio - disse baixinho para Lúcia, que preferiu gravar para não perder uma palavra sequer do relato.

Como falei, morava no Vasco da Gama. Conheci Pedro no Morro da Conceição. Paixão à primeira vista, que só em novela. Dia de festa da Santa e pensei que ela ia abençoar meu romance. Pedro morava com a Vó e era ainda muito menino, comparando comigo. Acho que não sabia nada da vida. Sua mãe morava um pouco adiante com o amante e, por isso, ele e sua irmã ficavam no barraco da avó para não atrapalhar a vida de ninguém.

Depois, me mudei novamente pra ir viver com Pedro. Ele fazia biscate de encanador e não ganhava quase nada. Só uns trocados. Procurei, de novo, o Doutor Farias e comecei como empregada doméstica.

Fui muito sincera e falei com Dedé que estava abandonando a vida e lhe pedi pra não dizer nada ao meu rapaz. O grosso do dinheiro vinha mesmo do meu emprego. Até que Dona Iracema, minha patroa, não gostava de explorar. Pagava o salário direitinho e, de vez em quando, me deixava levar alguma coisa pra casa; comida e roupa usada. Na Semana Santa, ganhava o peixe; no São João, o milho; no Natal, o décimo terceiro e mais algum prás festas. Pagava o INPS e não cobrava nada pela comida. Não podia reclamar. Nem queria!

(continua)

Pauline - II

15 de dezembro de 2007, às 23:00h

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Por Gadiel Perrusi

II

Hilda foi a pé pela mesma estrada enlameada de antigamente. Perguntou por Severino, o homem da mandioca, e disseram que estava na beira do riacho. Ele falou que Pauline era gente que não prestava, pinta brava, e morava com o amante num barraco perto dali. Vivia roubando sua mandioca, mas o trabalho dela era a zona de Prazeres. Tinha que vigiar seu roçado; ladrão era que não faltava. Pediu desculpa e apontou para o lado da pista. O riacho vinha de lá, onde Pauline dizia que morava. Tudo era igual, não tinha cor pra dizer qual era o barraco. Ela que perguntasse.

Ao lado da pista, havia muitos. Hilda andou por quase todos, antes de encontrar Pauline se balançando numa cadeira, no meio da calçada. Crescera mais um pouco, engordara. Ainda tinha cabelos louros e estava sozinha.

Perguntou logo de saída por que a mãe estava por ali. Ofereceu uma batida de limão, mas avisou que não havia lugar no barraco. Uma colega de zona lhe dissera que Hilda morava na pensão da Magra. Nem ligara. O Pina já era ruim, imagine perto do Recife. Prazeres tampouco. Somente na praia, nos domingos, arranjava alguém. Assim mesmo, era muito barato e tinha que roubar mandioca pra vender na feira.

Hilda escutava tudo em silêncio. Viera somente pra saber como Pauline estava. Não queria nada. Disse que Pinheiro havia morrido e que não fora mais visitar Pauline na prisão por causa do trabalho, muito duro. Apenas, queria ver a neta, inventou sem saber por quê.

_As freiras da creche deram Amélia para um casal criar. - Respondeu Pauline, sem muito interesse.

Não podia ficar com a menina na prisão. Depois disso, não sabia mais de nada. Se a mãe prometesse sair no outro dia, podia dormir no barraco. Estendia uma rede e dava café com macaxeira de manhã. Mas tinha de sair bem cedo porque Floriano ia chegar logo. Não sabia o que ele fazia, mas, todo fim de semana, passava fora. Quando chegava, era bêbedo e dando alteração.

No mês seguinte, Hilda encontrou um barraco vazio, próximo à Estrada da Batalha. Precisava ficar perto da filha embora não dissesse nada a Pauline. Todo dia, pegava o trem e, da Estação Central para a Camboa do Carmo, era um pulo; de madrugada, voltava de ônibus. A Magra ainda insistiu pra que ela ficasse, mas ficou satisfeita com a mudança. Hilda envelhecia rápido e gastava mais do que recebia. Todo domingo de tarde, Hilda se aproximava do barraco de Pauline e a via de longe. Pelo menos, ficava sabendo como estava e, se precisasse, poderia socorrê-la.

Numa noite de chuva, foi chamada pelo Comissário de Muribeca. Tinha uma mulher da vida dizendo que era filha dela. Falavam que matara o amante e só fazia chorar, chamando por seu nome.

Hilda chegou na cadeia e viu Pauline toda suja de lama. Teve uma pena infinita de tudo e de si mesma. Sentia-se culpada pela desgraça de Pauline. Devia ter matado Pinheiro, anos atrás,  e ficado com a filha. Tão bonita que se casaria, logo, com um homem de bem. Culpa sua que fazia a vida e morava com um bêbedo velho e inútil.

Pauline, quase histérica, falava tudo o que lhe vinha na cabeça, mas negava ter matado alguém. No seu delírio, fora Pinheiro, seu padrasto, já morto e enterrado, que tentara cruzar de novo com ela e, na briga, ele caíra desmaiado, perto do riacho. Depois, contou outra história, depois outra. Tudo sem fio nem pavio.

A filha estava suja e embriagada. Apanhara no Comissariado e falava sem parar, como se tivesse enlouquecido. Como não havia provas nem testemunhas, foi solta. O comissário pensou que era doida. Noutro dia, ouviria de novo o depoimento. Hilda levou a filha para sua casa e deixou que ela dormisse pra curar a bebedeira.

No dia seguinte, quando acordou, Pauline contou a Hilda mais uma história sem pé nem cabeça.

Fora ver um taco de roça que trocara por uma radiola estragada. Pretendia moer farinha e perguntou ao companheiro se ele queria ir. Era um homem muito doente, epilético, que já passara um ano internado no Santo Amaro. Até a São Severino dos Ramos já levara. Mas não dera jeito. Toda semana, ele tinha um ataque. Não sabia o que fazer.

Caminhara sozinha prá roça, em Muribeca, pertinho dali. Ao meio dia, Floriano chegou trazendo o almoço que nem pedira. Comeram juntos e, às duas horas da tarde, pediu a um motorista, que passava na pista, que a levasse até Prazeres. Mais tarde, voltou pra terminar a farinhada. Deu catorze cuias, cada uma de dois quilos e meio. Mas não queria voltar à feira. Estava cansada. Entregou a farinha a um compadre, dizendo-lhe  pra pagar como pudesse. Foi beber cachaça com caju.

Já passava das dez da noite, quando chegou em casa. Perguntou pelo companheiro e soube, por um menino na frente da Igreja, que ele estava morto dentro do mato, no fim do córrego.

Ali, encontrou Floriano caído de bruços, perto do riacho. Revirou-o, não viu sangue e pensou que tinha sido um ataque de epilepsia. Depois, soube que o haviam morto com um espeto. Ainda não acreditava. Achava que fora mesmo uma crise. Já estava roxo quando o encontrou. Desemborcou-o, limpou a baba de sua camisa e trocou sua roupa. Que morresse pelo menos de uma maneira decente. Ele bem sabia que não podia beber por causa dos remédios que lhe passaram no Santo Amaro. E, agora, ali estava , babado e morto, sem saber o que fazer. Por isso, trocou sua roupa. Estava ainda com seu rádio de pilha, o relógio vagabundo, que ela própria havia roubado na feira de Prazeres e lhe dera de presente, um anel de bronze e mais duzentos e quinze cruzeiros no bolso.

No Comissariado, disseram que uma prostituta de uma pensão de Prazeres havia sido a causa. Estava embeiçada por Floriano. Enquanto Pauline estava na roça, a mulher entrara no seu barraco e, com ciúmes, matara Floriano em plena crise epiléptica, levando o corpo para o riacho. Uma vez, Pauline encontrou a tal mulher da vida escondida na sua casa, debaixo da cama, e muito assustada. Floriano disse que a moça fugia do amante, que estava bêbedo e queria furá-la.

Depois, ouviu dizer que tinha sido o próprio amante daquela mulher que, por ciúmes, matara seu rival, o coitado do Floriano que não podia fazer nada. Vivia tendo crises o tempo todo. Mas não acreditava nisso porque, na noite do crime, a menina estava na zona em sua própria companhia.

Ninguém soube mais de nada. Pauline vendeu o barraco que já estava anunciado, aliás, com uma tabuleta pregada na porta. Com o dinheiro apurado, fez um enterro muito bonito para Floriano. Ela própria vestiu e preparou o defunto porque gostava muito dele, apesar da doença. Por isso, vieram dizer que o corpo de Floriano estava todo marcado com suas impressões digitais. Acusação besta.

A própria polícia, no dia da morte de Floriano, compareceu ao local, mas não disse nada. Era o aniversário do Delegado, todos tinham bebido bastante e, por isso, fizeram muita confusão. O próprio Floriano estava no caixão direitinho e o enterro era de manhã. À tarde, tinha que entregar o barraco ao novo dono.

Soube que haviam prendido a tal prostituta, que foi solta, logo em seguida, porque era amante do Delegado. Ele tivera boa vontade com ela, recebendo um rádio e dinheiro pra não pegar cadeia. Foi no sábado, logo após o enterro, que a colega fora solta pelo Delegado e, depois, dera no pé com o amante. Família de prostitutas e de ladrões de que até a polícia tinha medo. É claro que sua colega mentira muito na polícia, além da ajuda do Comissário.

Na terça-feira seguinte, estava lavando roupa em Muribeca quando a polícia veio prendê-la. Foi empurrada e caiu no riacho. Bateram nela até que confessasse tudo. Daí em diante, nem o juiz quis ouvi-la. Pauline fugira e ficava dormindo debaixo do pé de pau, perto do córrego onde encontrara Floriano. Gostava dele. Coitado! Nem queria acreditar que tinha morrido. Por nada. Nem tinha inimigos. Ela lhe dava tudo, dinheiro, casa, roupa e comida. Às vezes, sonhava com Floriano. Pensava que ainda estava vivo e guardara, com carinho, todos os seus pertences.

Outro dia, estava debaixo de uma  árvore e ficara com raiva; desejava matar a mentirosa e traidora. Estava bebendo sozinha, quando foi presa de novo. Reagiu como pôde, mas ninguém queria acreditar na sua história e, por isso, baixaram o cacete no Comissariado.

Depois de ouvir tudo isso, Hilda não se conteve. Botou pra chorar, abraçando a filha com todo o calor de que ainda era capaz. A culpa era dela. Sabia que Floriano não era nenhum santo. Mas o fato, pensou, é que ele morrera com cinco peixeiradas, ainda dormindo, embora ninguém tivesse visto. O cara bem que merecera. Explorador de mulher dos piores. O culpado era Pinheiro que violentara e expulsara sua filha de casa, mais de dez anos atrás. Pauline já estava mais calma. Tomou café e foi dormir de novo.

Carinhosamente, Hilda cobriu a filha com um lençol velho e rasgado. Botou seu melhor vestido, se penteou com cuidado, pintou os lábios com batom e se apresentou ao Comissário de Muribeca para contar a mesma história, que repetiria, meses depois, ao Juiz.

Disse que saíra da pensão da Magra e fora viver em Prazeres, pra ficar junto de Pauline. Era puta de rua, como a filha, mas não se deixava explorar por ninguém, muito menos por um desclassificado como Floriano.

No dia seis de Santana, por volta das oito horas da noite, se dirigia para Muribeca, onde agora ganhava a vida. No Córrego da Batalha, se deparara com o homem de sua filha agarrado com outra mulher, talvez a pior da redondeza.

Estava cansada daquela vida. Homem só prestava pra mentir e explorar. Como estava armada de uma faca-peixeira, com medo de ladrão, e vendo que Floriano estava traindo sua filha, escondeu-se numa árvore, sacou da arma e, de surpresa, desferiu-lhe um golpe nas costas. O homem cambaleou e ela se aproveitou pra completar o serviço. Ele ficou lá, estirado na beira do córrego. Queria matar, também, a mulher que estava com ele, mas ela saiu correndo e se livrou.

Depois, foi avisar Pauline da morte de Floriano, mas não a encontrou em casa. Passou pela Igreja e disse a um menino pra dar o recado. Foi dormir e jamais pensou que sua filha pudesse ser acusada. Mas, agora, era o jeito. Não podia deixar ninguém pagar por um crime que era somente dela.

Hilda pegou o 121, com doze anos de cadeia. Já cumprira nove e, dali a um mês, sairia por bom comportamento. No presídio, era muito respeitada e não tinha motivo para se revoltar. Era muito melhor do que na rua. Fazer a vida dentro do Bom Pastor era comer bem, dormir a noite toda e catar botão, durante o dia. Ninguém mexera com ela, no início, mesmo depois do período do isolamento. Cinco peixeiradas impunham respeito a qualquer uma.

Hilda estava se sentindo muito velha e se preocupava com o fim da pena. Não sabia nada de Pauline, que nem sequer a visitara durante todo esse tempo. Só aprendera a separar botão ruim dos enormes sacos que a fábrica mandava. Ganhava pouco. Se, pelo menos, arranjasse um emprego na fábrica. Mas, como dizia a Assistente Social, catar botão era só pra explorar as presas. Depois, jogavam todas no lixo de onde vieram.

Hilda entrara com quarenta anos de idade. Mais nove, quatro meses e cinco dias, completaria cinqüenta em breve. Nos primeiros tempos, ouvira muita missa e rezara muita ladainha. Depois, apareceu um homem da Assembléia e Hilda achou melhor cantar os hinos do pastor do que rezar tanto como exigiam as freiras.

Procuraria a Assembléia quando saísse. Sabia tudo direitinho e o pastor bem que poderia lhe arranjar um emprego, nem que fosse de cozinheira. Depois ia procurar Pauline. Às vezes, sonhava com ela saindo da Igreja, toda de branco, segurando um buquê de rosas. De repente, a filha se virava e atacava o pastor com as flores que viravam um pedaço de cano preto. Nunca via o noivo. Pinheiro aparecia de vez em quando junto dela, sentado num banco, dormindo como se estivesse ainda bêbedo.

Faltava somente um mês para sair. Sabia de cor seu tempo de prisão. Ano a ano, dia a dia, minuto a minuto. Uma estudante de Direito, até bonitinha, lhe perguntara sobre um tal de relógio carcerário. Não sabia, não. Tinha um no refeitório que sempre vivia atrasado. Sabia, apenas, que sairia do presídio no dia quinze de Santana, quase no mesmo dia em que fora presa, e não tinha para onde ir somente com uma passagem no bolso. Para a esquerda ou para direita do portão? Resolveria na hora.

Já quase dormindo, a lembrança da novata voltou com força. Parecia com Pauline, mas não podia, era ainda uma menina bem mocinha. Dormiu com a sensação de ter achado alguma coisa.

Em quinze de Agosto, Hilda se vestira para ir embora. No dia anterior, houvera uma festa e as freiras fizeram um bolo, lhe entregaram o pecúlio pelo trabalho com os botões, um santinho, que ela guardou na Bíblia, e lhe desejaram felicidades. Nada mais. Precisava era de um emprego, de uma casa pra ficar.

Na secretaria, antes de sair, perguntou à Madre quem era a novata que chegara, desaparecera, chegara de novo e nunca mais tinha voltado.

Madre Tereza estranhou a pergunta. Por que Hilda queria se meter naquilo? Por nada. Parecia com alguém que conhecia, mas que não era ninguém, pois não pudera mesmo conhecer ninguém na prisão. Nunca recebera visita, exceto do pastor da Assembléia. Mas a moça tinha um jeito parecido com não sei quem.

A Madre riu um pouco, mas foi buscar a ficha da moça para satisfazer a curiosidade de Hilda. Que levasse uma boa impressão do Bom Pastor. E todo o cuidado pra não voltar! Boa presa, melhor em liberdade! A Madre é que não sairia mais dali. Por isso, Hilda devia se considerar uma pessoa de sorte.

Era coisa de política. A menina era suspeita e fora internada, mas tivera que sair muitas vezes para depor. Em pouco tempo, a família descobriu onde ela estava. Era filha adotiva de um coronel da Aeronáutica. Foi solta por isso. Amélia Sampaio de Albuquerque, filha do Coronel Albuquerque e de Dona Luzia Sampaio de Albuquerque. Dezoito anos, estudante universitária, suspeita de distribuição de panfletos contra o Governo. Nome de guerra: Pauline.

Quando chegara, fizera questão de registrar o nome da mãe de maneira diferente. A mulher do Coronel era Dona Luzia, mas Amélia escrevera que sua mãe se chamava Pauline, sem sobrenome. Coisa dessa juventude maluca de hoje em dia, como disse a Madre.

O portão se abriu para dar passagem a Hilda. Resolveu pegar o lado direito da calçada. Como se lembrava, a rua ia bater na Caxangá. O dinheiro do pecúlio não fora tão pequeno assim. Daria para passar uma semana se encontrasse uma pensão barata para ficar.

Pauline - I

14 de dezembro de 2007, às 23:30h

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Por Gadiel Perrusi

  

I

No pátio do presídio, o banho de sol fora interrompido por uma discussão acirrada. Uma nova presa havia chegado naquela manhã e as líderes de cela discutiam em que pedaço ela poderia circular, antes do período de adaptação. Não queriam mistura por enquanto, como de costume. Precisavam observar a novata, tomar informações, inquiri-la. Depois, quem sabe, poderia haver maior aproximação. Concordaram, enfim, que ela deveria passear somente perto da entrada da capela. Conversando com as freiras, a novata se habituaria ao banho de sol, enquanto, passando de vez em quando pelo local, poderiam, até mesmo, ouvir algum pedaço de conversa.

Ninguém avisara nada. No dia anterior, pela tardinha, abriram uma cela e colocaram a mulher. O costume era ficar uns dias fechada sem sair, exceto, se necessário, para a enfermaria. Aquele caso fora diferente, no entanto.

Hilda, a mais idosa e respeitada liderança da Colônia Penal, estranhara logo aquele tipo de tratamento. Era melhor isolar a novata embora não temessem nenhuma informante. A prisão era pacífica, pra gente bem comportada, em fim de pena e não havia motivos para a Diretoria se preocupar. Por que então a novata?

Pouco sol para tanto cuidado. A mulher desapareceu por uns dias e, quando voltou ao pátio, ficou novamente sozinha perto da capela. Desapareceu de novo e somente foi vista um mês depois, no mesmo lugar, vestida com roupa de saída. Era como se estivesse cumprindo pena a conta-gotas. Entrava e saía e ninguém sabia porquê. Nem as freiras nem as guardas e, muito menos, os vigilantes da Polícia Militar disseram nada. Ninguém parecia saber de coisa alguma. Apenas, uma figura solitária na pequena escadaria da Igreja, como ordenaram as próprias líderes de cela, no primeiro dia.

Na última vez em que a viram, ela estava falando com um homem de paletó e gravata que anotava tudo o que dizia. Possivelmente, um advogado. Terminou o banho de sol e ainda continuava por lá. Até que sumiu de vez. Hilda coçou a cabeça e disse às companheiras que, afinal de contas, não tinham nada com o caso. Era melhor esquecer.

Na cela, sem poder dormir, depois da hora de apagar a luz, Hilda achou que havia qualquer coisa com a novata. Algum pedaço de recordação, um pequeno formigão no pescoço. Achava que conhecia a mulher solitária, apesar de tê-la visto apenas de longe. Era possível. Estava há tanto tempo presa que a imagem do lado de fora lhe chegava em fragmentos, mas aquela maneira de gesticular ou de encolher as pernas não lhe parecia estranha. Num último momento, teve a impressão de que, discretamente,  o advogado e a novata lhe acenaram. Embora sua vista já estivesse muito cansada, um sentimento agudo de reconhecimento lhe feriu os olhos, mas fugiu tão rápido como chegou.

No outro dia, enquanto trabalhava na oficina, separando botões defeituosos de uma montanha enorme que a fábrica mandava todas as semanas, Hilda cismava sobre a vida e nos longos anos de prisão. Depois de tanto tempo, era a primeira vez que desconfiava de uma novata. Não sabia se era mesmo  desconfiança. Um mal estar, talvez. De longe, só percebera que a mulher era loura, magra e com uns gestos que lhe chamaram a atenção. Resolveu esquecer e se concentrar no trabalho. Faltava pouco tempo pra ganhar a liberdade e precisava pensar no que fazer quando saísse da Colônia.

Contudo, sua ansiedade aumentava. Não produziu quase nada e foi advertida pela chefe de secção, uma freirinha ainda jovem que gostava de mostrar serviço. Não respondeu. Estava mesmo distraída. Achava que conhecia aquela novata, mas não sabia de onde. Nem como, pois, há quase dez anos, estava presa sem conhecer ninguém.

De noite, antes de deitar, continuou a cismar. Como é que ela própria havia chegado na prisão? No princípio, tinha sido muito estranho. Fizeram milhões de perguntas que não sabia responder. Anos depois, quando trabalhara na secretaria,  vira sua ficha. A coisa mais esquisita do mundo. Estavam lá seus depoimentos na delegacia e em juízo, uma entrevista com uma Psicóloga e outra com uma Assistente Social. Mas, havia muitas palavras e sinais que, absolutamente, não conseguia saber. É certo que aprendera a ler e a escrever na prisão. Convertera-se à Assembléia de Deus e somente lia a Bíblia.

Mas, o que significava tudo aquilo? “Fator G - INI . 27 pontos no INV, equivalente a 20%. Fraca capacidade para A/C. CNA. O exame de personalidade permite sugerir RAT. Redução da A/S , apresentando primitivismo e traços de paranóia”.

Podia ser. Mas nunca tinha brigado na Colônia. O que seria paranóia? Hilda riu do seu começo. Fora melhor do que o tempo em que ficara na cadeia de Prazeres, esperando julgamento. Melhor ainda do que os dois dias sentada num banco duro no Tribunal, ouvindo as coisas malucas do Promotor e do Advogado de Ofício, que brigavam entre si, não sabia bem por quê. Já confessara o crime e não precisava tanta coisa pra pegar a pena.

Ouvira dizer que a Colônia era muito melhor do que morar na pensão de Maria Magra, no bairro de São José. Durante o júri, não dissera nada. Sempre fora muito calada, mas tivera vontade de pedir ao juiz que falasse logo quantos anos ia pegar. Para ela tanto fazia. Assim, teria mais tempo de pensar na vida. Quem sabe se na outra não seria tudo diferente? Esta mesmo que vivia não valeu nada. Foi tudo por água abaixo, desde o roçado em Bonito até o juiz mandar que ela se levantasse para ouvir a sentença. Depois, o camburão da PM entrando na Colônia.

Doze anos, talvez menos por bom comportamento. Até ali, tinha feito tudo de sua própria cabeça. Agora, só fazia o que mandavam pra poder comparar tudo direitinho, se ainda tivesse tempo.

Hilda achava que tudo havia começado num mês de março, não se lembrava do dia nem do ano. Pela tarde, caíra um aguaceiro, depois de um calor intenso. Não tivera tempo nem sequer de tirar as roupas do arame. A chuva parou, deixando o quintal encharcado. Durante o pé d’água, ficara apenas de combinação dentro de casa, ouvindo rádio. Depois, sem notar, saíra do mesmo jeito pra recolher as roupas. Não podia deixá-las dormir lá fora com medo de ladrão. Achava que nem mesmo o vizinho, um cabo da polícia enxerido, poderia lhe dar um flagra. Ainda era muito cedo e nem escurecera. Precisava tomar cuidado com o cabo. Era muito metido e tinha uma mulher grávida e arengueira demais para seu gosto.

Tampouco esperava que Pinheiro estivesse chegando do bar, onde ficava bebendo o tempo todo, dizendo que saía pra pegar serviço. A única coisa de que não gostava era do arame farpado em que pendurava as roupas. Toda semana, tinha de costurar algum rasgão provocado pelo vento ou por algum animal que atravessava o quintal.

Do outro lado da rua, havia um rolo danado. Não prestava atenção, mas discutiam em voz tão alta que não durou pra perceber alguma coisa. Sem saber dos motivos, aproximou-se mais um pouco. Afinal de contas, as brigas eram quase diárias, mas ela não podia assistir por causa do trabalho noturno. Uma briga durante o dia devia ser mais interessante.

O cabo e a mulher grávida, já com uma enorme barriga, gesticulavam contra uma menina de uns dezoito anos. Não é que estivessem armados, mas o cabo segurava um pedaço de pau de uma maneira ameaçadora e a moça escondia qualquer coisa atrás do vestido, talvez um pedaço de cano.

Hilda, de repente, percebeu que era Pauline, sua filha, que voltava à rua, depois de muito tempo. Ficou apavorada. Não via a filha há mais de cinco anos. Pinheiro não sabia de nada, dizendo que tinha saído para procurar emprego. Fugiu, talvez, acrescentou. Chorara o tempo todo sem saber nada de Pauline. Agora, ela estava se metendo numa confusão, bem diante de seus próprios olhos.

Procurara pela filha anos a fio. Até encontrá-la na mesma Rua da Guia onde Hilda trabalhava, desde mocinha, mal chegara do interior. Pauline não quisera falar com a mãe, que a perseguiu a noite inteira, desprezando todos os clientes que a abordavam.

Enfim, descobriu-a de novo,  bêbeda e sozinha num bar. O encontro não foi dos melhores. Continuaram a beber até o sol sair quando, então, Pauline se queixou de não ter pai nem mãe. Era sua primeira queixa e Hilda, apesar de exausta, ainda pôde lhe perguntar por que fugira de casa tão cedo. Que lhe tinha feito? Dava-lhe  de um tudo, comida, roupa e colégio. Uma menina de quinze anos, bonita, inteligente, pronta pra casar. Para Hilda, que carregava sua dor em silêncio, Pauline tinha fugido sem nenhuma explicação.

Agora, no amanhecer de um bar, Pauline, finalmente, se rendia. Não fugiu de casa porque quis. Pinheiro tentou violentá-la, rasgando seu vestido, mas não conseguira nada. Ela se trancou num quarto. Em seguida, expulsou-a, ameaçando-a de morte, com medo de que ela contasse a Hilda. Também ficara com vergonha. Sabia que a mãe fazia a zona e que era filha de um desconhecido, num dos enganos de Hilda.

Não era por isso. Não queria matar Pinheiro nem dar novo desgosto à mãe. Preferiu sumir de vez e fora morar no Pina com Neide, prima de uma amiga da escola. Tampouco sabia que o Pina, pouco a pouco, se tornava a zona mais freqüentada do Recife. Ficara sem fazer nada. A escola antiga era muito longe e Neide ganhava pouco. Somente tinha casa e comida.

Pauline ainda era virgem e muita gente que freqüentava a casa de Neide lhe fazia agrados, mas ela não queria nada com ninguém. Seu ódio por Pinheiro ainda era muito grande e vivia preocupada com a mãe, mas não podia voltar ao Caçote. Lembrava que o sonho de Hilda era vê-la casada virgem com alguém de respeito. Corpo e inteligência não lhe faltavam.

Um ano depois, se apaixonara por Zé Ronaldo, que lhe prometia casamento. No início, fora tudo muito bem. Iam ao cinema, tomavam banho de praia e namoravam no cassino perto de onde morava. Depois, Ronaldo desapareceu. Quando voltou, estava sem dinheiro, mas dois amigos lhe emprestariam algum, caso Pauline se deitasse com eles.

Pauline chorou. Ronaldo lhe prometeu que era só uma vez. Outros apareceram e  Ronaldo não segurava o dinheiro que Pauline conseguia. Era muito. Com apenas dezesseis anos, sempre passava por virgem, o que valorizava bastante o seu trabalho. Ronaldo só chegava de madrugada e, mesmo cansada, Pauline ficava alegre de se deitar com ele.

Até que um dia, ficou grávida. Ronaldo fez que não acreditava que o filho era dele. Antes de sumir, deu-lhe um pontapé na barriga. Pauline passou mal e quase perdia a criança. Trabalhou até completar oito meses. Depois, não agüentou mais e Neide deixou que ela ficasse no quarto dos fundos, onde nasceu Amélia, loura e magrinha como Pauline. De olhos pretos como Hilda.

Nunca mais quis se apaixonar por ninguém. Precisava sustentar a filha. Saíra da casa de Neide e fazia a vida em diversos locais. Preferia assim. Não ficava manjada, era jovem, nem completara dezoito anos, e podia continuar passando por virgem. Botara Amélia numa creche e todos os domingos a visitava. De noite, trabalhava; de manhã, tentava dormir e descansar. Somente isso. Mas, agora, sabia de tudo do ofício e não precisava de ajuda. Não tinha mais raiva de ninguém. Não aparecera para visitar, nem dera notícias, para não atrapalhar a vida de Hilda, mas sabia que, cedo ou tarde, as duas se encontrariam.

Terminaram bêbedas demais, chorando demais, para fazer qualquer plano para o futuro. Hilda dera uma esculhambação em Pinheiro, que nem ouvira de tão bêbedo que estava. Que adiantava botar o homem pra fora da casa que nem era dela? Fazia tanto tempo! Pelo menos, tinha ainda um homem embora ele não prestasse para grande coisa. Nem sequer pra dar bom exemplo a Pauline, quando ela era pequena. Duvidou um pouco, também, se Pinheiro tivera toda a culpa. Lembrava que Pauline, aos quinze anos, era namoradeira demais, apesar de seus conselhos. Era a vida. Nascera pra isso, carregara a filha para a vida. Enfim, Pauline não parecera tão mal assim.

Na rua, perto do seu portão, o cabo da polícia destratava Pauline, ameaçando-a com o pedaço de pau. Chamava-a de puta, rapariga, mulher de corno. Pauline revidava no xingamento, sempre escondendo o cano atrás do vestido. Hilda ficou aflita, temendo coisa pior, quando surgiu um rapaz, gritando.

_Repita, seu puto! Quem é corno aqui?
_Você e toda a sua raça, seu gigolô de merda! - Berrou o cabo, em resposta.

A mulher do vizinho atiçava ainda mais a briga e, antes que Hilda pudesse abrir o portão, os quatro entraram no corpo a corpo. Foi tudo muito rápido. O cano era mais forte e duro do que o pedaço de pau, além de um canivete que ninguém sabia de onde havia saído.

Quando a polícia chegou, o cabo sangrava na cabeça, sua mulher quebrara uma perna e tinha um corte profundo na barriga com risco de perder a criança. Pauline precisou, ainda, ser contida por três soldados pra se acalmar. O rapaz desaparecera e ninguém perguntou se uma mulher de vinte anos, franzina, poderia ter feito sozinha tanto estrago.

De nada adiantou o depoimento de Hilda a favor de Pauline, que, aos berros, continuava dizendo que era inocente e que só tinha ido visitar sua mãe. Mas ela sabia que havia insultado o homem primeiro. Aquele cara brochara com ela na zona e não quisera pagar. Nem sabia que era cabo da polícia e vizinho de sua mãe. Na esquina, topara com ele e o chamara de veado. Ele não a reconhecera e partiu logo prá agressão. Devia ser veado mesmo!

O Comissário de Areias não quis ouvir nada. O cano ensangüentado testemunhava mais forte contra ela. Além de Hilda, ninguém vira seu companheiro e o canivete fora achado por um investigador na bolsa de Pauline. No julgamento, ela pegara o 129, com cinco anos de cadeia.

Hilda envelhecera mais do que em toda a sua vida de zona. Visitara Pauline duas ou três vezes. Depois esquecera. Tinha que beber muito pra agüentar o trabalho. Somente lhe restava Pinheiro, que, cada dia, ficava mais inchado de tanto beber sem trabalhar. O bairro do Recife ficava cada vez mais fedorento e abandonado e todos estavam indo para o Pina.  O mundo começava a ficar de cabeça para baixo e Hilda não sabia viver fora da antiga zona. Beirando os quarenta anos, sentia-se um bagaço, quando Pinheiro fora assassinado em Areias. Quase tudo era dele e logo apareceu gente da família pra tomar a casa de quintal, perto do Caçote.

No Cais do Apolo, ainda pôde viver algum tempo, até  começar o aterro para construir o novo prédio da Prefeitura. Não tinha mais para onde ir. Pauline já devia estar solta, mas ela não sabia por onde andava. Achava que não tinha mais ninguém. Começara a fazer a zona na Camboa do Carmo, na pensão de Maria Magra. Poucos clientes, em geral bêbedos de fim de noite que não ligavam para sua velhice precoce. O trabalho era pouco e ruim, porém a Magra ainda lhe dava uma força.

De tanto falar de Pauline, uma noite lhe disseram que ela trabalhava para os lados de Muribeca, perto de Prazeres. Um dia iría por lá pra ver a filha. Sentia ainda muita culpa por Pinheiro ter estragado a vida de Pauline. E nem valeu a pena. O homem morreu como vivera. Bebendo sem saber quem lhe tinha plantado uma peixeira na barriga. A Polícia nem investigou. Não valia a pena se meter em briga de bêbedo. Menos um para dar alteração.

Num domingo de tarde, se vestira um pouco melhor porque era dia do seu santo. Estava no mês de Santana e tentava recobrar, talvez, um pouco de respeito por si mesma. Pegaria o trem pra Muribeca. Queria aproveitar o dia de folga que Maria Magra lhe dera pra ver se encontrava a filha.

Se morava mesmo naquele bairro, já devia ter voltado da praia de Piedade. Lembrava-se de que, quando fugira para o Recife, todo mundo de Prazeres freqüentava a praia nos domingos e feriados. Era o único divertimento que tinham. Morava, ainda, com um tio que vendia cerveja e peixe frito numa barraca,  até que caíra doente; as pernas incharam e, uma noite, foi levado ao posto de saúde. No outro dia, morreu. Não sabia para onde ir e fora morar no Caçote com Pinheiro, que conhecera numa farra.

Ainda se lembrava de algumas amigas de adolescência, perto da invasão, detrás da linha do trem. Foi até lá e só encontrou Creuza, que já criava cinco filhos e vendia frutas na feira. Disse quem era, mas a antiga amiga não a reconheceu, nem sabia quem era Pauline. Talvez o vizinho soubesse. Alugava uns terrenos para o lado de Muribeca, onde plantava mandioca pra vender na feira. Devia estar por lá colhendo alguma coisa.

(continua)

Aurora de róseos dedos - II

9 de dezembro de 2007, às 9:45h

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 Por Gadiel Perrusi  

 

II 

Meses depois de sua última viagem à Europa, Beatriz estava no Rio, aproveitando um intervalo letivo, para se encontrar com  Walter, namorado permanente, há mais de dois anos. Quarentão divorciado, de uma timidez excessiva, ainda conseguia chorar por namoradas perdidas e dois casamentos frustrados. Segundo contava a Beatriz, casara com  duas suicidas potenciais, a última chegando ao hospital depois de ter ingerido vinte comprimidos de Dalmadorm.

Gostava de consolar Walter, enquanto acariciava suas pernas ou mesmo beliscava suas orelhas, deleitando-se, quase sempre, com um vinho branco bem gelado.  Mas não se casaria, como Walter vinha insistindo nos últimos meses. Um cotidiano, permeado por um casal de filhos de mães diferentes e uma futura sogra refinada, mas invasiva, lhe fazia acender uma luzinha vermelha na cabeça, além do que detestava tranqüilizantes e soníferos. Muito menos ser visitada em hospitais, vítima de algum excesso ocasional! Preferia, como até então, manter uma transa sem fortes emoções, mais ou menos calma, ora no Recife ora no Rio, com alguns intervalos de férias conjugais.

Walter avisara que não poderia ir buscá-la no aeroporto, marcando encontro para a noite, em seu apartamento. Beatriz não gostou, mas manteve sua disposição de viajar. O avião, com os passageiros bem comportados, uma ou outra criança buliçosa, os tripulantes artificialmente gentis e muito cansados, deixava-a lânguida e preguiçosa.

Enquanto esperava por sua bagagem, o telefone de Carlinhos surgiu de repente na sua cabeça. Não como vingança, mas sob uma forte excitação. Quase o proibido, como se restassem ainda limites à sua liberdade. Enfim, antes de tudo, um bom papo e um gostoso drinque. O forfait de Walter mudara a qualidade do seu prazer, e disso não se arrependia. Sentia-se livre, ainda que desconfiada com os homens com quem saía. Poucos. Alguns, curiosos; outros, angustiados demais para o seu gosto.

Estar com Carlos dava-lhe, também, o mesmo gostinho de brincar de gato e rato. Não estava nem um pouco preocupada, mas a possibilidade de transar com dois homens tão diferentes, um seguido ao outro, afogueava-lhe  o coração, como já lhe acontecera, em Paris, com os rubis de Berta, selvagem guerreira saída de lagos e florestas indevassáveis.

Talvez, naquele momento, Walter estivesse procurando-a por todos os lados, acompanhado de sua indefectível mãezinha. Menos na cama de um hotel cinco estrelas, brincando de lamber corpo com outro homem, que lhe provocava uma tesão ocasional, através de buquês de flores e cartõesinhos postais de várias partes do mundo.

No quarto do hotel, a pirâmide refletia a luz fraca do abajur e pedacinhos do seu corpo nu dançavam entre os lençóis azuis da cama. Por vezes, lhe descobriam os seios, ainda firmes; entre as pernas, bem depiladas, os pêlos dourados que se espaçavam até se enrodilharem todos em trancinhas, como Berta lhe ensinara. Suas coxas, abertas e relaxadas, passeavam devagar pelo espelho, lembrando-lhe o nado de costas na piscina do clube.

O jogo de esconde-esconde com a pirâmide, colocada na mesinha de cabeceira, excitava-a terrivelmente. Lembrava-se de Berta, do paciente assalto aos seus pêlos, dos seus beijos, dos seus mamilos, antes de caírem em sono exausto. Mal percebera que as mãos de Carlinhos, um  pouco nodosas de motorista, pressionavam de leve os seus tornozelos.

Sua excitação, porém, vinha mais do reflexo da pirâmide e, não, da habitual chupada que se avizinhava com beijinhos macios em suas coxas. Sentia as mãos que se infiltravam com firmeza por entre suas nádegas, tocando ora em suas dobras, ora nas paredes de suas portas, como que preparando o caminho da boca, da língua, ou não sabia mais do quê.

Gostava de pensar na individualidade das partes do seu corpo, nomeando-as arbitrariamente e, às vezes, de forma engraçada, como que trazendo uma dose a mais de intimidade e de carinho. Ou, talvez, quem sabe, quebrando um pouco sua lógica cartesiana, estabelecendo uma cumplicidade entre elas. Isso lhe dava, também, um certo prazer maternal sobre si mesma. Eram seus filhotes queridos, permitindo-lhe, por assim dizer, dominá-los, controlá-los, acariciados por si própria, ou por quem ela desejasse, tornando sua sexualidade um jogo carinhoso e macio.

Melhor seria não pensar, esperando o orgasmo. Possessivamente, arrodeou com as pernas, um pouco sem sol, o pescoço longo e curtido do amiguinho. O contraste era bonito; pelinhos dourados tocando cabelos negros. Carlos, agora, acelerava seus movimentos de lábios e língua, à beira de um vulcão já totalmente inundado por uma forte excitação.

Recomeçava a pensar em tudo, olhando-se na pirâmide. Num passado recente, num bistrô de Paris, num sono alado nos braços de Berta, nos homens com quem transara; mais por necessidade do que por gosto, sabendo que mentia. No futuro imediato, seguramente engraçado, embora provisório, com Walter.

Carlos parecia ser um bom instrumentista. Tocava sua flauta com uma certa competência. No espelho, revia imagens. Seu corpo convulso ainda lhe prometia alguns prazeres. Não tantos, como pensava quando ainda menina de colégio. Preferia, às vezes, um bom livro do que uma trepada ocasional, embora não acreditasse mais em ciência. Palpites, nada mais.

A realidade jamais se deixaria capturar por tão pouco. O corpo era seu universo; a reflexão sobre ele, sua ciência. O acaso, o seu método. Por que se preocupar tanto, se as chuvas viriam, pontualmente, em Março? Às vezes, não vinham, é certo. Como o orgasmo, que nem sempre chegava.

Os livros eram fascinantes, contudo. Quantas vezes discorria sobre a última teoria aprendida, um conceito formal bem elaborado, enquanto Walter lhe acariciava os seios. Como eram lindos seus mamilos cor-de-rosa!

Aurora de róseos dedos, recitava para o companheiro, que mal escutava. Os homens são uns tolos. Não produzem som quando passeiam pelo corpo de uma mulher. Grunhidos de feras, de disco arranhado.

Um vigoroso movimento de língua, que a penetrava mais um pouco, trouxe, finalmente, o orgasmo. Seus pêlos, como pequenas agulhas douradas, se eriçaram, mesmo ainda molhados, enquanto a ciência se diluía no prazer do método, como um labirinto na construção de um absurdo prazer.

_Doce! Suco gostoso! - Murmurou seu amante.

Pouco a pouco, as mãos de Carlinhos foram subindo até ficarem levemente acariciando seus mamilos, num sinal evidente de missão cumprida.

Mais de meia hora se passara, desde os primeiros toques, a princípio, suaves, depois intensos, embora não selvagens. Sua xoxotinha, como sempre, reagia muito bem a tais carinhos e o orgasmo a tranqüilizava, distendendo todo o corpo. Ficara indecisa, no início, se teria preferido logo uma grande trepada, rasgante, arrasadora e profunda, ou se demoraria em preliminares, menos definitivos, apenas complementos de uma noite dançante.

A lembrança de Walter quase lhe provocava um frouxo de riso. Coitadinho! Tão sério, tão apaixonado, tão branquinho, parecia um bonequinho de neve com um chapéu esportivo que lhe cobria a calva. Parecia pedir licença quando a penetrava. Bebê chorão, com o seu pauzinho rosado e careca, provocando-lhe cócegas na bunda e nos pêlos.

Depois, - prometia a si mesma - repararia a injustiça daquela pequena traição na companhia de Carlinhos. Deixaria de ser a putinha safada e maliciosa de agora e voltaria com a sua postura de dama séria e compenetrada de quem Walter parecia gostar tanto. Sugaria Walter ao máximo, fazendo mistério, representando a ingênua e bem comportada professora imaginada por ele. No íntimo, gostava de Walter, mas, não sabia por que, não conseguia chamá-lo de Waltinho, usando diminutivos, como sempre fazia com seus namorados. Seu pauzinho sem chapéu, porém, lhe provocava muita excitação como a lhe despertar sensações atávicas. Rósea cabecinha. Como os mamilos de Berta?

Um rápido olhar à pirâmide lembrou-lhe de que pouco conversava sobre sexo com seus últimos parceiros, especialmente com Walter que, apesar de muito afetivo, lhe parecia um pouco burocrático, desprovido de grande imaginação. Sua tesão, por isso, talvez, estivesse em baixa, porém ainda suficiente para uma fêmea saudável, não de todo pudica, como gostava de representar.

Resolveu se concentrar mais na presença de Carlinhos, com quem fazia amor de vez em quando. Sua mesmice, longe de constrangê-la, excitava-a. Era mais leve, mais mundano, sem pretensões além de uma boa trepadinha com uma mulher bonita. Tinha, no entanto, uma certa classe e seus toques não eram nada desprezíveis. Escutara, com um sorriso meio cúmplice, sua aventura parisiense, desejando ser Curt.

Lembrava-se de que, quando o conheceu, ele olhara, discreta, mas incisivamente, para seus peitinhos. Estava sem sutiã e, talvez por desleixo, abrindo uma pequena janela, um botão de sua blusa havia saído de sua casa. Um olhar, apenas, e um súbito endurecimento dos seus mamilos.

Tomaram um pequeno drinque no bar do hotel, à beira mar, e ela não resistira ao desejo de caminhar pela praia, numa noite limpa de muitas estrelas. No passeio, enquanto molhava os pés, Carlos agarrara-a, de repente, e suas mãos, literalmente, lhe amassavam a bunda, pressionando suas margens, rígidos contornos de próximos manguezais.

Passara-lhe uma idéia engraçada pela cabeça. Por que não ali mesmo? Esse cara estava querendo, os bicos dos seus peitos estavam doendo de tesão. Treparam em pé e, na volta à festa, ninguém notara sua ausência.

Beatriz, no entanto, sentia uma leve brisa subindo por entre as coxas. Com um risinho safado, Carlos havia jogado sua calcinha no mar. Fato simples e sem importância, mas que lhe ficara na cabeça como um símbolo secreto do desejo.

_Para Iemanjá! - brincara Carlos, quando estavam ainda abraçados, no caminho de volta. Para Berta, rainha de todos os lagos e de meus pêlos, pensara Beatriz enquanto sorria.

Agora, Carlinhos demorava a lhe penetrar. A pirâmide mostrava seu amigo à espera de alguma coisa, como que indeciso  entre o mostrar e o pedir. Seu pau estava ereto e parecia duríssimo, mas o espelho o deformava um pouco, como se fora um espeto retorcido jogado na grama. Preferia não olhar para ele, mesmo porque esperava ser penetrada logo, já um pouco desinteressada pela transa, para, depois, poder dormir tranqüila.

Mesmo cansada, desde a pegação intensa na boate, quando sentira o pau endurecido de Carlos lhe tocando as coxas e se insinuando entre elas, pensou, agora, que teria de retribuir a chupada que recebera, coisa que, de fato, embora não detestasse, pelo menos não lhe agradava de todo. Preferia ser chupada, enquanto pensava e ria sobre o último desejo.

Ah! Seus deveres de amante! Sua mão esquerda ainda acariciava a fria pirâmide; a direita, devagar, deslizava à procura do pau de Carlos, escondido numa selva escura. Pegou-o pela base, subindo até o topo, lá na cabecinha lisa e macia. Um pau gostosamente quente, não muito grosso, permitindo-lhe arrodeá-lo com a palma da mão.

Pensava sempre - por que não deixava nunca de pensar? - que sua bocetinha, mesmo no diminutivo, era bastante larga para abrigar o pau mais duro, grosso e grande que pudesse existir na face da terra. Não que tivesse vontade, mas tal certeza lhe fazia mais segura de sua própria sexualidade. As mãos de Berta, quentes e decididas,  penetrando quase inteiras dentro de si, ofício mais sofisticado de múltiplos toques e sensações.

Na pirâmide, outros paus desfilavam, alguns selvagens, outros apenas engraçados e medrosos. Uns se escondiam em homens magros, esquálidos, mas que se revelavam enormes e gostosos quando a penetravam. Outros, muito tímidos, cujo único saber se reduzia a precárias entradas e saídas. Muito mais a excitação de trepar com homens inimagináveis do que mesmo o pleno prazer do jogo sexual.

Meu Deus! Pensava. Como esses machões se elogiam tanto, com seus pauzinhos tão hesitantes na hora de funcionar! Sorriu com os diminutivos, por vezes, bem reais.

De repente, teve curiosidade em olhar de perto o espetinho de Carlos. Moreno, quase negro - ela gostaria de trepar com um negro? - pela pouca luz do quarto, embora seu perfil fosse gracioso.

O pau de Carlinhos estava nervoso e difícil de controlar. Foi necessário prendê-lo firmemente com os lábios. Segurava-o apenas com uma das mãos, chupando-o desajeitada. Queria sentir o contraste com a fria pirâmide e comparar sensações opostas. Começara, novamente, a se excitar, enchendo a boca de músculo e umidade aquecida. Por vezes, deslizava os lábios, até sentir o contato com os ovos, mais escuros e pregueados, logo abaixo.

Deu-lhe, de súbito, uma louca vontade de mordê-los. Chegava-lhe uma sensação de poder, estranha penetração de si mesma. Os dentes faziam a diferença. O pau, ainda tenso, se imobilizava entre os seus dentes e nada mais natural do que mordê-lo, pensou. Eles o dominavam, como se desprendesse dela própria um absoluto controle sobre a sexualidade do parceiro.

Naquele exato momento, parou de sentir a pirâmide, como se a mão esquerda em nada mais tocasse.  Como se o poema de Berta sobre seus pêlos, dourados na brasa, como dissera, revoltos como crinas de éguas soltas na floresta, jamais tivesse existido.

Viu-se, então, um pouco ridícula, chupando um homem que começava a ressonar, quando um jato quente em sua boca anunciava o orgasmo de Carlinhos.

Um gosto de sal espesso. Ou, talvez, um resíduo de água sanitária. Nada mais!

Pensou em deixá-lo sozinho, adormecido. Sentou-se, fumou um cigarro, sem tragá-lo. Dez minutos, depois, estava num táxi ao encontro de Walter. O vento frio, por entre as pernas, provocou-lhe um imenso sorriso de prazer ao lembrar-lhe de que esquecera a calcinha na cama.

Achou que bem poderia ter sido a última. A primeira, de seda branca, ficara com Berta, chamando-a no mar de Olinda.

Aurora de róseos dedos - I

8 de dezembro de 2007, às 9:45h

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Por Gadiel Perrusi

I

Beatriz olhava intensamente a pirâmide de cristal que trouxera de sua última viagem, há menos de uma semana. Viagem insossa. Azar, talvez. Paris estava cinzenta e úmida, chuva fina, ventinho frio, calçadas molhadas. Perto da Pont Neuf, comprara algumas coisas mais ou menos exóticas. Nem tanto! Um leque indiano, um tarô de Marseille, um foulard de seda, a pirâmide. Pequena, cabia na palma de sua mão. Tornar-se-ia companheira inseparável, onde quer que estivesse, mesmo em viagens.

Lembrara-se do último fim de ano, vestida de branco, jogando escamas de peixe ao mar. Faltava a pirâmide de cristal, lhe dizia a manicure. Talvez tivesse exagerado. Não precisava ser tão cara. Os amuletos baratos, afinal de contas, servem do mesmo jeito, principalmente quando não se acredita neles. Mas a pirâmide, puríssima na transparência, vinha do Mali, terra de mistério, abençoada por impossíveis deuses africanos. Era feita de pedaços de luz que se transformavam em arco-íris, quando a chuva deixava. Como se pudesse, através dela, capturar o sol preguiçoso de Paris para, depois, guardá-lo na cabeceira de sua cama.

Ainda na calçada, viu a pirâmide faiscando sob a forte iluminação da vitrine, como se oferecendo à sua posse. Pensou que poderia confiar-lhe os segredos mais bem guardados e receber de volta a paz quase perdida no verão anterior. Ela refletia uma luz difusa, ao mesmo tempo sugando e expulsando os raios dos vários spots da loja, trazendo-lhe de volta a presença múltipla de Berta, mais de um ano depois.

Gostava de sentar num café parisiense, desses que invadem as calçadas,  observando o que pudesse; pessoas mas, principalmente, as coisas que levavam. Tudo a fascinava. Colecionara na memória centenas de bolsas femininas, guarda-chuvas, pastas, livros, bengalas, lenços, turbantes, casacos, um cachorrinho vestido de inverno, um homem que calculava ao seu lado, tomando um anis. Uma criança apressada, com seu cartable nas costas. Um rapaz de óculos se debatendo com um pacote enorme, na saída do métro. Tudo lhe interessava enquanto deixava o express esfriar, substituindo-o por uma perrier que mal tocava.

Uma semana sem graça. Com a chuva, as pessoas se apressavam, quase escondendo os seus objetos. Pior. Com tanta umidade, dificilmente poderia ficar numa praça, lendo um livro, tomando um sorvete. Sentar-se à beira do Sena, com as pernas à mostra, levando sol. Olhar, preguiçosamente, as vitrines do Boulemich, do Saint-Germain e da Rue de Rennes, mesmo esbarrando na multidão de turistas. Nos domingos, preguiçar no Luxembourg e, depois, ouvir o concerto de órgão na Notre Dame. Em tais momentos, queria ser observada, relaxando do seu inocente voyeurismo amador.

Gostava de receber um bonjour; bavarder um pouco, mesmo com um desconhecido. Nem queria, aliás, que fosse conhecido. Paris seria sempre aventura, nada de romantismo exagerado. Para isso, seus olhos bastavam, ainda que a maldita chuvinha do último verão não a deixasse sonhar. Não que estivesse à caça. Isso lhe fazia mal. Preferia provocar o acaso, mesmo que lhe trouxesse frustração quando nada acontecia.

No ano anterior, chegara, também, em pleno verão. Como sempre, dedicava a última etapa de viagem a Paris. Mas, então, fazia calor, os jardins estavam cheios, praças movimentadas, cinemas quase impossíveis, calçadas repletas.  Justamente por isso, sempre tinha companhia no restaurante, à noite, em Montparnasse, seu quartier preferido, partilhando mesas, a critério do maître.

Da primeira vez, fora um casal de jovens. Beijavam-se mais do que comiam. Talvez se comessem de verdade em algum grenier mal iluminado do Boulevard.

Uma noite, tivera companhia feminina, em mesa menor, à beira da calçada, num bistrô ao lado de La Coupole. Conversaram um pouco, mais por politesse, num francês razoável. Alemã, loura como Beatriz, mais jovem, visitando amigos. Sozinha como Beatriz. Querendo ser observada, também. Olhos negros da Baviera, profundos como os lagos da Floresta Negra. Fixou-os, perdidamente, para seu próprio espanto, tremendo e esquecida da sobremesa.

Após o café, sua companheira fumava em silêncio, como se esperasse qualquer coisa que Beatriz não ousava dizer. E se ousasse? Mas, o que dizer, já sentindo a batata da perna quase oca, como lhe ocorria quando ficava ansiosa demais.

Berta não tinha mais de trinta anos. Estava em Paris, fugindo do ar glacial da floresta. Como os bárbaros de antigamente, pensou Beatriz. Saia curta, pernas bem torneadas, blusa fina de seda, seios redondos. Nunca havia pensado nos seios de outra mulher. Notava-os, como o fazia desde o colégio, mas nunca pensara nisso. Não estava pensando, de fato, enquanto olhava para Berta. Apenas, talvez, curiosa em saber se os mamilos dela seriam, também, cor-de-rosa como os seus. Quase sem perceber, isso lhe provocara um grande desconforto. Por que tal curiosidade?

Berta mantinha um ar divertido e  não parecia,de modo algum, estar preocupada com o olhar fixo de Beatriz. Falou, apenas, da coincidência do encontro; duas louras, uma de olhos negros, outra de olhos verdes, saídas de mundos opostos. Os de Beatriz deveriam ser azuis, segundo Berta.

_E por que não cor-de-rosa? - Murmurou Beatriz, sem querer. Berta jogou o cigarro na calçada e  disse que os olhos só ficavam cor-de-rosa quando queriam descobrir alguma coisa.

E Beatriz nem queria tanto! Contudo,  seu mal estar aumentou quando percebeu o significado do que dissera Berta. Estivera falando, o tempo todo, com os olhos grudados nos seios da companheira de mesa, mal contidos pela blusa de seda branca.

Beatriz jamais desejara uma mulher. Apenas, achava curioso quando abordada algumas vezes. Nenhum desejo, nenhum toque além daquilo que as mulheres se permitiam, com maior liberdade do que os homens. Nenhuma amiga especial com quem tivesse tido intimidades, longamente.

Berta seria diferente? Suas mãos eram delicadas, dedos longos, unha amarelada de nicotina, cabelos curtos como somente, agora, começava a notar. O inesperado, a noite quente de Montparnasse; os possíveis mamilos cor-de-rosa de Berta não saíam de sua cabeça. Deveria lhe perguntar? Não seria  óbvio que louras tivessem bicos dos seios cor-de-rosa? Faria papel de boba, sendo a menos jovem das duas? E por que somente os seios? Já percebera suas pernas arredondadas, o rosto, os olhos, suas mãos. Por que, agora, somente os seios de Berta lhe interessavam?

Berta sorria para um homem que se aproximara da mesa. Falavam alemão e Beatriz se viu acometida por um violento ciúme. Aquele homem devia saber. Já os vira, já os tocara, já os beijara. Mordeu os lábios e disfarçou, com batom, o quase ferimento. Berta a olhava, desta vez muito séria.

_Curt quer saber se ficaremos juntas.

_Gostaria, se você quiser. - Respondeu, assustada pelo violento impulso de desejar acompanhá-los.

Berta e o amigo queriam tomar um  ballon de rouge na Bastille. Depois, ouviriam jazz no apartamento de Curt, perto da Place des Vosges. Seus dedos se tocaram levemente e um suor frio quase lhe escorria pelo pescoço. No caminho do métro, Berta acariciou levemente as costas de Beatriz, terminando por enlaçar, com firmeza, sua cintura.

No deux pièces de Curt, continuaram a bebericar enquanto conversavam, com frases intercaladas em alemão, seguidas de desculpas sorridentes. Beatriz sentia-se relaxada, sentada no tapete artesanal, com desenhos exóticos de motivos orientais. Berta deitou-se ao seu lado e Curt parecia cúmplice de um namoro não declarado. Aproveitando uma troca de disco, bocejou sonolento e, simplesmente, desapareceu.

Sozinhas, na segunda bouteille de vinho, quase sempre a decisiva, Beatriz não precisou pensar. Sentia a mão de Berta acariciando sua coxa, à procura de algo escondido. No bistrô, não percebeu se as mãos de Berta, longas e inquietas, seriam também macias. Eram mais quentes do que macias, certamente. Beatriz teve medo de tantos detalhes. Como se estivesse ainda indecisa sobre o que fazer. O desejo, no entanto, guiava suas mãos em direção dos seios de Berta, enquanto deixava, sem sentir, o caminho aberto dos seus pêlos.

A seda vestida por Berta lhe provocava uma euforia insana, ao mesmo tempo em que apertava suas coxas prendendo  mãos e dedos de sua amiga, como se temesse o toque já esperado. Como se os mamilos de Berta pudessem lhe fugir do alcance. Não ousava lhe pedir que parasse. As veredas se juntavam logo adiante e Berta já estava perto demais para recuar. Selvagem, quase bêbeda de luz, Beatriz descobriu os seios de Berta e, tomando-os como cálices, bebeu o néctar rosé de mamilos quentes e acolhedores, enquanto, enfim, sentia seu próprio açude invadido pelos dedos de Berta, provocando-lhe uma explosão incontrolável.

A pirâmide encerrava seus medos e impulsos. Insistia em produzir imagens, que Beatriz vivia quase em negativo. Na sala de aula, alunos costumavam baixar os olhos em sua direção e ela sabia que suas pernas ainda eram alvo de cobiça. Pouco ligava. Não havia semestre em que um deles não se declarasse apaixonado. Fogo de palha. No máximo, beberia um chopinho na saída da aula. Depois, um telefonema envergonhado, perguntando pelas notas, já entregues, aliás, na Secretaria. Um dia, pensava, viria sem calcinha somente para assustá-los.

A pirâmide, com seu fetiche cotidiano, lhe trazia a proximidade de Berta, como um espinho na carne, que a espantava e inquietava, deixando-a em compasso de espera. Sentia-se sozinha, num casulo tropical, sem prestar atenção às coisas da cidade ou do trabalho. O fantasma de Berta, como vampiro, sugava-lhe  o tempo, que brincava em rápidos lampejos.

Depois de tanto tempo, percebia, com clareza, que tinha voltado ao mesmo bistrô parisiense à procura de Berta, ignorando a unicidade do acaso, alheia até mesmo ao frio cortante deste outro verão. Très doux, como diziam os franceses.

Lembrava-se, agora, de que, quando acordara, ainda despida, Curt estava colado a Berta, que dormia. Cobrira as duas com um lençol durante a madrugada e deitara-se junto à amiga. Beatriz foi ao banheiro e, na volta, encontrara os dois já acordados se espreguiçando. Provavelmente, haviam transado, enquanto ela própria dormia.

Deitou-se, novamente, ficando entre eles, sem nenhuma idéia do que fazer; talvez apenas para isolar os seios de Berta daquele corpo masculino não desejado. Curt massageava suas costas. Berta sorria, incentivando o amigo, enquanto ela própria acariciava os pêlos de Beatriz. Começava a gostar de ser amada por todos os lados ao mesmo tempo, como se a totalidade das coisas se realizasse apenas num ato.

Não queria ser penetrada por trás, mas aquele parecia ser o preço que Berta lhe exigia. Naquele momento, pelo menos, sua paixão estava diante dos seus olhos, como a reencontrava, agora, olhando sua pirâmide. Curt, no entanto, apenas lhe tocava, passeando as mãos pelo seu dorso, provocando-lhe pequenas excitações, aqui e ali. Para se aquecer, talvez. Tempo de paixão em bares e cinemas; as madrugadas inteiramente gastas num quarto de hotel ou no apartamento de Curt.

Um ano sem notícias de Berta. Um solitário postal de Freiburg, prometendo vir ao Recife, se o frio da floresta apertasse novamente. Às vezes, relia trechos da carta que escrevera para Berta, logo após ter recebido o cartão postal.

“Não leio, não durmo e tudo se cala. Como se não existissem vento, nem chuva, nem onda, nem praia. Apenas o silêncio do tempo que morde e não fala. Escrevo em homenagem à tua improvável visita. Escrevo, pois, em homenagem ao abstrato do passado, quando seios e lábios se amaram. Escrevo para minha solidão que jamais será menor do que o imenso verde das águas defronte de minha janela (…)

Teu cheiro inundará esta cidade, devassando minhas portas. Teu cheiro apenas, carregado de todas as saudades sem romper o tecido do tempo. Estarei te esperando em vão, pois os signos já se foram e os códigos se apagaram. Como o fogo exaurido e que somente é fogo enquanto resta o segredo da chama. Do calor contido na  palavra enquanto escrevo, embora sua matéria tenha se transformado em pura bruma (…)

Não apagarei os sons capturados em corpos estendidos em tapete estranho, nem tampouco os acordarei para que não se tornem impuros (…)

No meu silêncio, vejo apenas teus olhos negros, teu sorriso longo, teus seios dançarinos, tuas mãos passeando e penetrando no meu corpo. Ponta de lábios, meu suave pouso em tua pele que, como brasa, me reduz à tua infindável presença”.

(continua)

O Galo da Madrugada - parte I

9 de outubro de 2007, às 19:22h

Por Perrusi Pai

Naquele sábado de carnaval, acordei inquieta e ansiosa sob a grossa coberta que me protege do ar condicionado. Na noite anterior, dormira ao embalo de um frevo antigo. A frase musical não me saía da cabeça: O Recife acordou de repente!

Nada pra fazer naquela manhã. Detestava carnaval. Odiava o pega-pega pegajoso, como dizia, sonorizando a expressão, como se fosse um frevo. Apesar disso, imaginava um sabor  misterioso, excitante e repugnante, de ser tocada e pegada, cheia de suor, por fulano, sicrano, ou por todo mundo que estivesse por perto, dentro de  uma arrepiante  multidão. E não era só isso! Havia o medo, especialmente, em ruas estreitas, sem nenhuma possibilidade de me esconder ou de fugir.

A lembrança do som, no entanto, continuava, puxando-me da cama. Contrariando meus hábitos, dormira sem calcinha. Como nos velhos tempos de casada! Sonhara com Leonardo acordando, me pegando e dizendo que gostava do contato com minha bundinha. Sua tesão parecia maior. Muitas vezes, por preguiça, recusava qualquer aproximação. Tinha que levantar, escovar os dentes, tomar café e sair correndo para o trabalho. Não era propriamente preguiça sexual, mas doméstica. Às vezes, dormia de pijama, mais protegida das suas investidas. A camisola era permissiva e ele atacava quando eu estava nos últimos e mais gostosos pingos de sono. Fingia estar com raiva, ter dormido mal, isso ou aquilo, mas era tudo preguiça mesmo.

Naquele sábado, acordei também preguiçosa, mas excitada com o sonho. Ainda não eram sete horas. Demorava-me na cama, aproveitando o friozinho do quarto  em contraste com o calor imenso represado no corpo. Algo diferente se desenhava. A possibilidade louca de sair anônima entre as centenas de milhares de pessoas do Galo da Madrugada, sem me preocupar muito com os bons costumes.

Os passarinhos começaram a cantar no ninho que, anualmente, construíam no lado de fora do ar condicionado. Por vezes, passava tempos escutando. Mas, agora, seus trinados competiam com o batuque dos blocos que já ensaiavam na minha rua.

Dia ensolarado no Recife! Na semana anterior, chovera bastante, antecipando as águas de Março. Carnaval molhado, pensara. Nem na praia, onde mantinha um apartamento, daria pra ficar.

Por que tanta aparência de seriedade num mundo cheio de incertezas? Hoje beija, amanhã não beija! Ontem choveu, hoje faz sol. Por que não aproveitar o agora? E por que a dúvida e o desejo apareciam juntos? Dei mais um cochilo. O barulho da rua me fez acordar novamente.

Levantei e preparei meu café, como todos os dias. A presença do sonho já estava diluída pelo calor da manhã, libertando-me de qualquer dúvida e deixando apenas o desejo, como pássaro que volteia em cima de uma árvore cheia de frutos.

O som, lá fora, me chamava! Recebera um convite especial pra ir olhar o desfile da sacada de um apartamento; apenas pra sentir o espetáculo.  Rejeitara, motivada, como sempre, pela minha antiga aversão carnavalesca.

Agora, a tentação voltava diferente. Ir sozinha e anônima, como uma aventura  em terra desconhecida. Sem nenhum preconceito! Se não gostasse, bastaria pegar um taxi de volta. O desejo estaria satisfeito, mesmo que não houvesse nenhuma história pra contar nem conseqüências a suportar.

Recusara, também, alguns convites para brincar na rua; em grupo ou com um amigo. Detestava grupos, o colega nem tanto. Mas não era lá muito animador sair acompanhada para, no dia seguinte, ter que enfrentar o disse-me-disse costumeiro. Se quisesse, seria mais discreta e mais direta. Transformaria o desejo em coisa privada como, aliás, fazia com tudo na vida.

Não! Naquele momento, queria misturar  o público e o privado no mesmo saco. Deixar, pelo menos uma vez na vida, cair a máscara  de séria e responsável que tanto me pesava. Um manto de chumbo espesso sobre o corpo e alma, sem mostrar nada mais do que o necessário, isto é, quase nada.

O café estava tomado, arrumadas a mesa e a cozinha. O desejo persistia. Ainda havia tempo para decidir. Seguramente, não iria ao Galo acompanhada. Os convites tinham sido recusados. Não seria, agora, que voltaria atrás.

Bem que poderia me fantasiar de nada e me divertir sozinha à toa, anônima mascarada,  como em Veneza. Mas que nada! Seria possível, mesmo, me esconder de  encontros ocasionais? Que fantasia poderia improvisar? Queria ficar irreconhecível ou, pelo menos, com uma identidade duvidosa.

Pensei que o melhor, talvez, fosse vestir um short velho, uma blusa opaca, sem nada por baixo. Enrolaria o cabelo dentro de um chapéu de praia, calçaria um tênis e sairia por aí. Que me vissem!

Deste modo, no entanto, perderia a tesão pelo desconhecido, o gosto pela aventura, com todo mundo me reconhecendo. Assim, não valia a pena enfrentar o suor, a bebida, o barulho e a fealdade do centro da cidade.

Minha dúvida continuava, acrescida, agora, de um quase desafio; de saber se resistiria à aventura. A oportunidade era ótima! Ainda sentia o rabinho quente de quando acordara!

Na verdade, nunca liguei muito para minha bunda. Leonardo  é que se dizia tarado por ela. Eu tinha uma certa curiosidade em ser comida por trás.  Vivia o tempo todo, quando bebia um pouquinho, desafiando Léo a comer minha bundinha, o que  lhe causava uma tesão danada. Às vezes, mesmo, chegava a me oferecer de verdade.  Seu pauzinho é que não ficava com nada!

Não que estivesse maluca, querendo dar pra qualquer um!  Tudo bem! Nem mesmo sabia, ainda, se sairia pra ver o Galo. De qualquer maneira, poderia dar tudo, menos a bundinha!

A preguiça era tanta, que voltei prá cama. Foi pior! A tesão parecia aumentar; estranha, abstrata, misteriosa.

Meia hora depois, não resisti e fui ver o Galo.

Pintei a cara, metade azul, a outra encarnada. Botei um short azulado. Justinho! Pro carnaval, decentíssimo. Vesti uma blusa de seda creme, sem mangas, que acentuava meus peitinhos, mas não deixava nada de fora. Pra que sutiã? Queria livrar meu corpo de qualquer restrição. Umas pulseiras de enfeite, um lenço vermelho e outro azul no pescoço, um chapéu branco, terminando com um par de tênis bicolor. Um pé azul e o outro vermelho, é claro!

Estava preparada pro que desse e viesse! Na porchete, havia dinheiro para táxis, cervejinhas e muito mais…

Desde a Rua do Riachuelo, estava tudo cheio de gente. Apesar do meu pavor de multidões, fui caminhando apertada, empurrando e sendo empurrada, até chegar aos Correios, pra ver o Galo mais de perto. Até então, morri de rir, cruzando ou ultrapassando colegas, alunos e parentes, sem ser reconhecida.

Sentia-me esfuziante, sozinha e livre. Ao contrário do que pensara, a multidão deixou de me incomodar. Percebia, pela primeira vez, que o anonimato me incorporava a ela. Não pensei mais em olhar ninguém ao redor, com medo de ser reconhecida.

Que me vissem! E daí? Eu era a DIANA, equilibrando-me entre a virtude e o pecado, saltando buracos nas calçadas, andando pelo meio da rua, me rebolando quando queria, sem nem perceber a sujeira e o mau cheiro do Recife.

Enfim, sós. Eu e a multidão!

Encostada numa pilastra do prédio dos Correios, tomei uma cerveja para abrandar a sede e o calor de quase  onze da manhã. Ao meu lado, ou melhor, por todos os lados, as pessoas corriam, paravam, se empurravam, se abraçavam. Eu me firmava de encontro à parede!

_ Oh, meu chapa! Aperta um pouquinho pra lá que eu quero ver  a festa!

Vi-me quase a gritar para um homem bem alto, que estacionara na minha frente. Percebi que minha posição não era das melhores. Poderia, no rush, ser esmagada de encontro à parede.

Mudei de lugar. Equilibrei-me na beira da calçada, em cima do meio-fio. O sol estava no auge e eu suava em bicas, me rebolando e cantando com a multidão.

Não sentia qualquer euforia erótica, nem me lembrava mais do que me fizera sair de casa. Apenas, a expectativa de ver surgir o Galo, me defendendo dos empurrões. Acho que o calor era tanto que, por mais que meu corpo estivesse quente, esquecera-me dele. Na verdade, tudo estava quente e sentia-me totalmente enredada e integrada na multidão.

De súbito, ouvi uma enorme gritaria. Um trovão de vozes!  O povão começava a se agitar na Rua do Sol, com o Galo, delirante, despontando com um ruído de fazer inveja a qualquer recreio de Jardim da Infância. Tentei me erguer um pouco na ponta dos pés, mas não conseguia vislumbrar praticamente nada.

Em suma, viera pra ver, mas apenas estava ouvindo o Galo passar!

Resmungando de frustração, senti algo macio encostando na minha bunda, exposta ao sol da Avenida. Encostando e começando a passear ao longo do meu rabinho. Para meu próprio espanto, não esbocei nenhuma reação, coisa impensável, dez minutos antes.

Ao contrário, compulsivamente, comecei a ajudar o vai-e-vem de algum cara que se postara por detrás de mim. O Galo da Madrugada entrara na Guararapes e duas mãos me enlaçaram pela cintura, pressionando, mais ainda, meu traseiro.

_ Desculpe! — Ouço uma voz meio grave - Não agüentei assistir o balanço do seu rabinho.

Parecia uma montanha russa, descendo e subindo. Numa direção horizontal, apenas: primeiro uma coxa, depois, um pau cheio e duro, a outra coxa, perpetuando o movimento.

Resolvi ignorar tudo e continuar, deixando o cara me bolinar à vontade. E daí? Nem sabia quem era, se preto ou branco, forte ou magro. Apenas uma voz agradável. Tudo bem! Que mal faria uma voz? Nem pau, nem pernas! Apenas uma voz acariciando minha bundinha! Comecei a achar gostoso. Tentei me concentrar no desfile, com uma certa dificuldade. Resolveria depois o que fazer. As mãos começaram a subir pela minha blusa, roçando as curvas de lado dos meus peitinhos.

O Galo, as mãos, o pau, a bunda! Diacho! Logo agora? A quentura começava a aumentar, trazendo-me as lembranças de quando acordara.  E aí? Parecia adivinhação! Daria ou não daria? Sairia correndo atrás do Galo ou ficaria me esfregando nos Correios?

Olhei para os braços que me cercavam. Eram morenos, curtidos de sol; as mãos enormes, segurando-me com firmeza, não pareciam brutais. O suor e o barulho me davam uma idéia meio turva da situação. Sabia apenas que minha bundinha não parava de remexer no mesmo ritmo do frevo.

Estávamos sós, ninguém nos via. Mas, já se percebiam alguns claros na Guararapes. Grupos esparsos  corriam em busca do som. Comecei a acordar um pouco, quando o cara cometeu seu único erro. Ofereceu-me uma cerveja!

Claro que queria! Ele foi logo buscá-la, pensando que o ato seguinte seria me enrabar num motel qualquer.

Rapidinha, pulei do meio-fio e me confundi com a multidão, tentando, pouco a pouco, baixar meu fogo ainda aceso. Não! Não daria minha bundinha para um desconhecido, mesmo que o chamego estivesse uma delícia, era forçoso reconhecer!

Que bom! Respirei com um certo alívio. Um pau sem nome, uma bunda anônima. Empate completo!

Na Pracinha do Diário, avistei Marquinhos, lá do Tribunal. Uma gracinha de rapaz, meio tímido, com fama de bicha. Gostava de sua delicadeza, dos gestos compassados e de sua voz bem pausada. Pra mim, ele não tinha nada de bicha. Apenas um rapaz bonito que não gostava de se exibir.

Já nos conhecíamos bem. Às vezes, conversávamos na Biblioteca do forum. Parecia um bom advogado e sempre estava a me perguntar sobre bibliografia jurídica. Tinha sido noivo e, no dia do casamento, segundo as más línguas, desaparecera sem dar explicações. Daí, talvez, sua fama. Sabia que ele não tinha namorada e, às vezes, achava-o insistente demais comigo. Convidara-me pra sair à noite, mas a tesão não era muito grande e minha preguiça sempre vencera os convites do rapaz. Muita mão-de-obra! Pensava.

Marquinhos estava de short, camisa e tênis, como todo mundo. Aproximei-me por trás e coloquei as mãos sobre seus olhos, perguntando-lhe quem eu era.

Ele demorou um pouco a me reconhecer e, quando o fez, quase derrubou a lata de cerveja que empunhava.

_ Uai! Você por aqui? Que idéia, Beatriz!

_ Engana-se, meu caro folião! — Disse, beijando-lhe o rosto — Não passo de uma DIANA que se perdeu. Como vi um Galo enorme na minha frente, pensei que era o meu povo.

Rimos bastante. Marquinhos me perguntou como ia no trabalho. Em pleno Carnaval, convenhamos, tal coisa somente poderia mesmo reforçar sua reputação! Resolvi provocá-lo.

_ Ah! Marquinhos! Não estou a trabalho, mas a jogo — Disse com ironia, repetindo a frase de um conto famoso - Que é que acha? Seguimos o bloco ou vamos para um bar discutir a última teoria sobre a sedução mediante fraude?

A DIANA ressurgiu fortemente em mim, pesquisando a timidez do rapaz. Será que ele conhece mesmo as mulheres? E se me desse vontade de tirar as dúvidas? Afinal, sou mais velha do que ele uns dez anos. Minha experiência não era tão pequena assim, embora não quisesse dar a mínima bandeira no trabalho.

Lembrei-me da intensa bolinação defronte dos Correios e um arrepio me percorreu o corpo. Não! Com Marquinhos, o jogo teria que ser claro e aberto. Nada de anonimatos! Ele era transparente demais!

_ Por que não almoçamos? Já são duas da tarde! - Propôs Marcos, com naturalidade.

Taí! Numa dessa eu poderia embarcar. Queria saber os motivos ocultos de tantas visitas à Biblioteca. O cansaço, o calor e a recente bolinação me provocavam uma fome irresistível. Escolhemos um restaurante razoável, à beira mar.

(continua)

Galo da Madrugada - parte II

12 de setembro de 2007, às 19:27h

Por Perrusi Pai 

Marquinhos era mesmo uma gracinha! Além de bonito, muito inteligente e, o que era mais importante, de uma sensibilidade fora do comum no ambiente impregnado de machismo e mau gosto do forum. No almoço, conversamos sobre tudo menos carnaval e Direito. Pra minha surpresa, Marquinhos começou a falar de algumas coisas de minha vida que eu própria já havia esquecido.

Ainda menino, segundo contava, me via sair para o trabalho, meio escondido no terraço de sua casa, nos Aflitos, bairro onde morei depois de casada e com filhos. A princípio, fiquei meio silenciosa, apenas comendo pedacinhos de camarão ao alho e óleo, intercalando com uns goles de cerveja. Achava tudo aquilo estranho e pensava na coincidência do momento, ouvindo confidências de um antigo admirador adolescente, ainda por cima voyeur.

Jamais havia percebido que, na casa defronte, se escondiam dois olhos atentos aos meus movimentos. Na época, vivia com Leonardo. Um casamento feliz e cheio das canseiras normais de um casal de classe média, meio intelectualizado, que trabalha, cria filhos, paga dívidas, estuda e, de vez em quando, faz uma pequena viagem de férias.

Comecei a me lembrar desses primeiros tempos. Do apartamento sem elevador, com falta d’água quase diária, dos conflitos com o proprietário, da rotina de compras no supermercado, da chatura do trabalho, das noites sem dormir direito por causa das crianças. Da cama, das brigas, dos ciúmes, dos sonhos com Léo…

_ Não está gostando do prato?  Ouvi a voz de Marquinhos, saindo quase do nada, talvez em resposta ao meu silêncio pensativo.

_ Não! Não é isso! Jamais pensei na casa defronte. Azulada, não é mesmo? 

Respondi, como se estivesse voltando de estranhas e longínquas paragens. De um passado quase morto, cuja única lembrança mais forte, talvez, fosse a constante falta d’água. E de sal! Sal? Por que sal? Pressão alta, quem sabe!

_ Estou sendo indiscreto, Beatriz?

_ Não! Acho que não! É que, de repente, no meio de todo esse alvoroço, depois de tanto tempo, você me faz lembrar coisas, pessoas, situações enterradas. Fantasmas! Nem todos desagradáveis, é claro. Às vezes, detesto nostalgia e você me provoca justamente isso. Logo agora, depois do Galo e  no meio de tanta brisa!

_ Tudo bem! ─ Continuei ─ Então, você era o menininho que ficava escondido me olhando? Por quê? Para quê?

Marquinhos mostrou-se confuso, engasgando-se um pouco.

_ Não é bem isso que você está pensando - gaguejou.

_ Não! Não era! Não é! Você não sabe o que estou pensando - respondi.

_ Puxa! Pelo seu olhar, me senti um verdadeiro espião da vida alheia. Você era a musa de minha adolescência. Nada mais! Apenas olhava você sair e voltar porque coincidia, às vezes, com minhas idas e vindas da escola. Somente isso!

_ Olha, Marquinhos! Apenas pensava nas coincidências da vida. Nada mais! Um pouco como  me sentir presa em flagrante. Eu vivia, você me olhava. Não sabia que era observada. Tudo bem! E que tal, agora, invertermos os papéis? Eu olho você. E sua vida, onde está?

_ Não entendi. Você quer saber como eu vivo, ou como  vivia?

_ Oh, não! Todos os adolescentes são iguais! Babacas que só pensam em sexo e aventuras. Quero saber quem é você, agora, neste exato momento de uma tarde de carnaval.

_ Olha, Beatriz! Para ser franco, eu não sei como vivo. Trabalhar o tempo todo e construir fantasias, em momentos de folga. Só isso!

_ Mas, pelo menos, você tem fantasias, o que já melhora um pouco. Pensava em você como uma maquinazinha de fazer dinheiro bem informada e com uma certa sensibilidade. Acho  que tenho uma certa culpa neste tipo de conversa. Afinal, fui eu quem achou você, no meio de tanta gente. É que, há muito tempo, eu queria saber quem era você e, agora, você se confessa um velho conhecido. Acho que a ironia de tudo está aí. Uma quase quarentona e um rapazola, defronte do mar, sem saberem o que fazer. De repente, me sinto a mocinha que você olhava do seu terraço…

_ Com uma condição! - Cortou, timidamente, Marquinhos.

_ Que condição? - Respondi, um pouco entediada.

_ Tudo bem! - Animou-se o rapaz - _Como estamos no Carnaval, suponha que o tempo parou pra você e acelerou pra mim. Admito, e até gosto, de ver a mocinha de antigamente. Mas, imagine, também, se quiser brincar um pouco, que eu cresci e, por um passe de mágica, emparelhei com você na idade. Em suma, somos dois jovenzinhos, saídos da Faculdade, e que se encontraram no Galo, por acaso. Continuemos a brincar, mesmo que, depois, a gente volte a ser o que a gente pensava que era. Que tal?

_ Ora, meu queridinho! O que você está querendo? - Disse, com um riso gaiato.

_ Nada, nada demais! - Sorriu Marquinhos, de um jeito entre irônico e, talvez, safado demais, para a idéia que eu fazia dele. Mas, enfim, por que não virar a DIANA pelo avesso? Quem sabe, o espelho não lhe faria bem naquela hora?

_ O.K., Dr. Marcos! - Falei um pouco solene de brincadeira. _ O que o senhor pretende de mim? Por favor, não me peça mais do que um dia de Carnaval possa proporcionar. Tá legal?

O almoço terminara e pagamos a conta, meio a meio. Um pouco tonta, pelo calor, pela cerveja e por uma intensa curiosidade sobre o que iria acontecer, se acontecesse, naquele fim de tarde.

Saímos do restaurante e Marquinhos me chamou para andar na praia, de pés descalços. O mar estava secando e havia uma boa fatia de areia, um pouco molhada e gostosa de pisar, depois de tanto sol. Meus pés estavam doloridos e a areia úmida me fazia bem. Minha cabeça se recusou, finalmente, a recuar no passado e a proposta de Marcos se tornava realidade, como se eu ainda tivesse meus vinte e poucos anos, acompanhada de um colega da mesma idade. No duro, no duro, não sabia, nem imaginava o que iria fazer, nem tampouco o que Marquinhos queria aprontar. Uma proposta vaga para um dia sem compromisso, depois de uma agitação que quase me enlouquecera.

Era como se, de volta à casa, me sentasse numa cadeira de balanço e começasse a imaginar um folhetim do século passado, em que, diante da imensidão da praia, duas pessoas subitamente sozinhas pudessem fazer tudo que desejassem, não prestando contas a ninguém. As pessoas, que passeavam na praia, se tornavam figuras de fumaça. Bruma leve e transparente.

Marcos me tomou a mão e ficamos a molhar os pés nas ondinhas que se quebravam preguiçosas, deixando espuma na areia. Suas mãos eram macias e firmes. Dar as mãos, lado a lado, num silêncio cheio de dúvidas.

_ Então, Marquinhos? - Provoquei, de novo, quebrando um pouco a vaga sensação de encanto que me envolvia.  Poderia voltar ao romantismo dos velhos tempos? Não sentia nenhuma vontade de fingimento, ali. Minha paz voltava! Aceitava que a proposta, meio sem pé nem cabeça, do amigo eventual, realizasse o dia diferente que senti nascer, desde que acordara.

Parecia que o Galo deixara de existir; que o pequeno episódio erótico dos Correios jamais tinha acontecido. Ali na praia, era outro mundo e, no entanto, cheirava mais próximo, mais real. Desejava que ocorresse alguma coisa. Qualquer coisa! E me senti tímida e retraída como nunca, dependente da vontade de meu companheiro de passeio e certa de que faria o que ele quisesse.

_ Não sei! Talvez, esteja sendo louco demais. O que pretendo de você? Hoje, aqui e agora? - Continuou Marcos. _ Imagino o meu futuro e esqueço meu passado. Olha, Beatriz! Eu queria ver você, olhar você, com meus olhos de adulto e, não, de adolescente. Não sei se aqui na praia eu posso fazer isso, sem que ninguém perceba. Gostaria que, somente eu, fosse o único a ver você!

Difícil saber o que Marquinhos queria dizer. Tantos rodeios a meia-voz, cabeça baixa, traindo sua proposta de confronto quase mágico.

_ Não sei o que você quer, Marcos. Mas, seja o que for, eu farei.

Mal escutava minha própria voz, subjugada por intenso desejo de me identificar com aquele momento. Precisava, talvez, de criar alguma coisa naquele mundo para que ele se fixasse, criasse raízes, confirmasse o real através da bruma imaginária dos meus sonhos. Certamente, Marquinhos não estava muito consciente do que se passava comigo. Agora, não mais provocadora, apenas querendo saber o que fazer, perguntei-lhe, baixinho, o que ele pretendia de mim.

_ Você topa ir ao meu apartamento? Agora? - Respondeu-me, mais forte.

Acho que hesitei, a ponto de tremer um pouco. Quase não respondi direito. Não sabia se queria, ou devia, voltar ao mundo que deixara ao sair do restaurante.

_ Por que na sua casa? Você pode me olhar, aqui, todo o tempo que quiser.

_ Por favor! Tanto faz na minha casa como em qualquer outro lugar. Mas você disse que faria o que eu quisesse e o que eu quero não pode ser feito aqui na praia.

Não queria ir ao apartamento de Marcos, estava certa disso, embora ainda estivesse disposta a cumprir minha promessa. Não sabia, tampouco, se sair de perto das ondas não terminaria por desfazer o feitiço. Onde, mais, poderia reproduzir ou manter minha bruma, recém-criada, sem ir à casa dele, mesmo não sabendo ao certo o que ele queria?

_ Não, Marquinhos! Outro dia, talvez. Hoje, não!

Marcos se abaixou, apanhando um pequeno marisco na areia. Estava visivelmente embaraçado, gaguejante de novo.

_ Não é bem isso que você está pensando! - Murmurou, sua voz confundindo-se com o ruído do mar.

_ Não estou pensando em nada! Absolutamente em nada! - Respondi.

Senti, de repente, que estava sendo injusta com Marcos, embora o encanto já não fosse o mesmo. Afinal, encontrei-o, provoquei-o, criei minhas fumaças e brumas, revivi meus fantasmas e, agora, parecia, estava dando uma marcha a ré. Contudo, não queria ir ao seu apartamento. E não iria! Mas poderia pensar numa alternativa que pudesse, em parte, recuperar o momento gostoso que estava vivendo.

_ Marcos! Você se incomoda de ir ao meu próprio apartamento? - Perguntei, sem pensar.

Na verdade, não seria na minha casa habitual, mas no meu apartamento de praia que surgira bem defronte, como num passe de mágica. Não percebera o quanto havíamos andado pela areia. Um bom pedaço, certamente. O apartamento era pequeno, usado apenas no verão ou em fins de semana. Mas era também minha própria casa, de fato e de direito.

É claro que o Galo, o feitiço do mar e, confesso, um pouco de minha alegria haviam desaparecido. No entanto, permanecia minha disposição de continuar na companhia de Marcos.

Enfim, quem sabe, até seria melhor subir no apartamento.  Precisava de um banho, trocar a roupa suada. O apartamento era absolutamente inviolável. Poder-se-ia estar à vontade, em plena segurança. Além disso, havia alguma bebida e música.  Pensei, também, que estaria no meu próprio terreno sem saber ainda o que Marquinhos queria de mim. Pelo menos, poderia me defender de qualquer exagero, sei lá… 

Subimos e, como sempre, por educação, mostrei o apartamento ao meu convidado, rindo com uma certa malícia quando chegamos ao quarto de dormir. Não era a primeira vez, é claro, que um homem entrava no meu refúgio de praia!

_ Apartamento legal! - Murmurou o boboca do Marquinhos. Endireitei um quadro meio troncho e coloquei, no som, o quarteto de Dissonâncias de Mozart, talvez mais apropriado para a situação, que corria um pouco diferente do que sonhara no início do passeio.

De qualquer maneira, me sentia, agora, pegajosa e suja. Deixei Marcos com uma cerveja, na sala, enquanto preparava meu banho. A água estava deliciosa e me demorei dentro dela, quando tive uma idéia, saída um pouco da frustração da poesia desfeita.

Tudo bem! Pensei, enquanto me ensaboava de novo. Ele quer me ver, me olhar! Pois, sim! Ele o fará em grande estilo. Ao meu estilo!

Num dos guarda-roupas, havia um blusão de seda transparente que me caía até os joelhos. Marquinhos não poderia dizer que eu não estava vestida apropriadamente, com o calor que fazia. Comecei a ficar mais viva e alegre com a peça que iria pregar no rapazola. Perfumei-me e fui ao quarto procurar o quase vestido. Sem nada por baixo, o blusão branco me lembrava a praia de brumas de onde acabara de vir, sem ter podido carregar minhas fantasias.

Estava curiosa e excitada, de novo. Uma DIANA, equilibrada num único e vaporoso vestido, esperando a cara de espanto do meu amiguinho, lá na sala ouvindo música. Havia, certamente, exagerado sua sensibilidade. Nem de longe, Marcos percebera o encantamento que eu vivera perto do mar.

Encontrei-o, no sofá, de cabeça baixa, copo na mão, como embevecido por algo que, talvez, não fosse a música. Quem sabe, o incômodo de estar num ambiente estranho! Voltaram-me as histórias em torno do rapaz. Sozinho com uma mulher madura, num apartamento deserto, noite fechada, sem poder fugir, se é que alguma vez fugira. Ri-me um pouco. Afinal, não se tratava de nenhuma cerimônia de casamento…

_ Marquinhos! - Falei, sussurrando, com medo de assustá-lo. _ O que você pretende de mim? - Repeti, com um ar meio lânguido, a pergunta que fizera antes.

O rapaz olhava o tapete e quase explodiu, com o rosto em chamas, ao levantar a vista em direção de minha voz.

_ Oh! Não! Você não me entendeu, Beatriz! - Dizia, enquanto pregava os olhos em meu corpo nu.

Oh! Não! Pensei, surpresa com a reação por demais patética do  amiguinho. Voltaram-me as dúvidas, mas não desistiria. O jogo estava feito e não tinha por que recuar. Resolveria, de vez, o tal mistério!

_ Olha, Beatriz! - Marcos continuou a falar, com visível esforço. _ Encontrei você nos Correios e colei atrás. Senti uma vibração imensa e, como você não me repeliu, continuei colado. Estava noutro mundo, bolinando o seu traseiro! Depois, você sumiu, quando fui buscar uma cerveja. Fiquei desesperado! Pensei que havia sido uma alucinação provocada pelo calor e pelo barulho…

_ Uai! Era você? - Interrompi, um pouco assustada pelo meu anonimato quebrado.

_ Era, sim! Levei algum tempo para me recuperar, sabendo que ignorava quem estivera atrás de você. Meu Deus! Eu morreria de vergonha, se você me identificasse. Depois de tantos anos de espera, não resisti ao impulso daquele momento!

Meu Deus!  Que cara de pau! Pensei, rapidamente.

_ Quando cresci, fui fazer Direito porque você era professora da Faculdade. Não devo ter sido bom aluno. Você jamais me notou. No Tribunal, eu lhe falei disso e você fez um ar de surpresa. Passava meu tempo pensando em você subindo e descendo as escadarias do prédio e já pensei, até, em raptá-la pra que ficasse subindo e descendo só pra mim.

_ Não precisa ter medo! - Continuou. _ Coisa mansa! Fantasias! Quando adolescente, ficava escondido no terraço de minha casa,  v