Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.
Laura Reed & Deep Pocket — Prodigy
Casamento
Beleza Pura
Política & Itália

(Arts longa, vita brevis)
29º CAPÍTULO
Tadinho do Monsenhor Lippi! Aos trinta anos, dorme com uma linda mulher e não sabe o que teria ocorrido. Mas… os tempos mudaram!
─ Sabe, Tsé! Somente me dei conta do que ocorreu quando voltei para Roma.
E, assim, Lippi continuou o relato de sua viagem a Oxford.
Voltamos, eu e Susan, à Universidade, em completo silêncio. Cada um foi assistir a conferências diferentes, com a promessa mútua de um encontro na hora do almoço. Mas eu estava tão inquieto e perturbado que não resisti. Saí do auditório e fui ao meu hotel. Arrumei a mala e voltei a Roma sem avisar a ninguém, correndo o risco evidente de jamais reencontrar Susan.
Foi uma semana desastrada. Não trabalhei absolutamente nada, os papéis escorregavam de minhas mãos, os livros pareciam vazios, sem letras; papel branco e nada mais. Mal conseguia dormir. Susan tornara-se proprietária de minhas emoções, do meu corpo e de minha alma, se alma existe.
Na tarde da sexta-feira seguinte, o porteiro da Biblioteca avisou-me que uma pesquisadora estrangeira queria falar comigo. Mandei-a entrar. Era a Dra. Susan Bates com uma valise de viagem. O abraço foi longo e o beijo mais terno ainda. Nem precisei pedir desculpas.
Susan colocou em cima do meu birô duas passagens de ida e volta a Konstanz, na Alemanha, e uma reserva num chalé à beira do lago. O destino não bate à nossa porta por duas vezes. Telefonei para o Cardeal Ratti, meu chefe, e pedi-lhe uma semana de férias sob o pretexto de que estava exausto.
Passamos à noite celebrando nosso novo encontro, passeando pelas ruas de Roma, parando em algum bistrô para tomarmos uma taça de vinho.
─ Giorgio! Adoro fujões! Entendo perfeitamente seu estado de espírito. Mas não queria perdê-lo ─ Disse-me Susan.
No dia seguinte, insones pela noite de confidências e de paixão, partimos de trem para Konstanz. Foi minha primeira e única lua-de-mel. Esquiamos no lago congelado, passeamos e, sobretudo, fizemos amor. Não sabia o que era ter uma mulher amada nos braços. E ainda não sei completamente, tal a plenitude do que vivemos.
Daí em diante, e durante três meses, alternávamos os fins de semana, ora em Pen Gold, ora na Itália, neste apartamento ou na minha villa.
No quarto mês, recebi um telegrama de Susan pedindo-me que fosse com urgência à Inglaterra.
Esperava-me na pequena estação de trem. Na direção do seu Bentley, era a mesma louca do volante de sempre. Subimos para nosso quarto na companhia de Meg, sua irmã médica que clinicava em Londres. Como sempre, Susan era direta e clara em seus assuntos:
─ Giorgio! Estou grávida e quero ter minha criança. Pouco me importo com o que vão dizer na Universidade. Desejo apenas sua opinião.
Não posso, Tsé, descrever a emoção que senti. Não sabia se chorava, ria, dançava ou ficava calado. Mas respondi a Susan:
─ Eu quero, também, nossa criança e jamais admitiria perdê-la.
Combinamos todos os detalhes. Meg acompanharia clinicamente a gravidez da irmã. Enquanto ela pôde, continuamos a nos visitar. Mas, quando a hora da délivrance se aproximou, tirei nova licença e fiquei junto de Susan. As dores começaram e o parto foi perfeito. Ouvi o choro da criança e subi rapidamente a escadaria.
Um bebê estava envolto em panos, apressado, já sugando o leite materno. Era uma menina. Acho que não tive em toda a minha vida, uma alegria tão grande como aquela. Na mesma tarde, fomos, eu e Meg, ao cartório de Oxford e registramos a criança com o nome de Constanza Bates Lippi. No dia seguinte, fui a Londres e registrei Constanza na embaixada italiana. Dupla nacionalidade e uma deliciosa mistura anglo-italiana. Constanza cresceu e habituou-se a ver o pai italiano nos fins de semana ou, então, a passar as férias comigo na Itália, algumas vezes, acompanhada de Susan.
Nossa paixão crescia e crescia. Quis deixar a ICR, atendendo a um convite de Oxford. Eu e Susan nos casaríamos na Inglaterra. Mas ela preferia viver sozinha em sua herdade na companhia de Constanza. Detestava o casamento e sempre argumentou que nosso amor fora construído com o Canal da Mancha entre a gente. Besteira de sua mentalidade feminista, que sempre, aliás, respeitei. Bobagem minha! O importante era nosso amor e, principalmente, nossa filha.
Quando Constanza estava perto de completar dez anos, novo telegrama me assustou. E dessa vez para sempre. A velocidade e a imprudência venceram Susan. Na direção do seu novo Bentley, chocara-se numa das curvas com um caminhão carregado de feno que entrava na pequena estrada em direção da estação ferroviária.

Na cerimônia fúnebre, na Universidade de Oxford, eu e Constanza ficamos abraçados, enquanto o Capelão recitava um breve e inócuo salmo. Perdera Susan, mas ela me deixava uma preciosa pérola como herança. Nada mais!
Voltamos a Pen Gold em silêncio num rigoroso inverno. As mesmas árvores cinzas e desgalhadas guardavam a casa. Inútil paisagem! Deserta! Árida! Como sentia meu coração. Pequenos flocos de neve caíam sobre o gramado. Mas Susan não poderia mais apreciá-los!
Na sala de jantar, houve uma pequena reunião familiar: eu, Constanza, Meg, o marido e o casal de filhos.
─ Filha! Vamos para Roma? ─ Perguntei a Constanza.
─ Não, Papi! Já conversei com tia Meg. Prefiro ficar com eles. Você me visita, e eu vou à Itália visitar você.
Constanza herdara a mesma lucidez e determinação de sua mãe. Mas as negras nuvens sobre a Europa começavam a desabar. Minha filha estava em segurança em Pen Gold. Eu, também, embora prisioneiro no Vaticano. E foi assim que passamos a Guerra. Os demônios se soltaram e muitas coisas aconteceram. Voltamos a nos ver cinco anos depois, embora sempre tenhamos mantido uma intensa correspondência através da Nunciatura, único corredor aberto entre mim e Constanza.
Aos vinte e um anos, ela tomou posse de sua propriedade e, logo depois, como bolsista, começou seu Doutorado em Biologia em Oxford.
Ao longo de todo esse tempo, construímos uma amizade filial inabalável. Mais, muito mais, do que pai e filha. Antes, temos sido companheiros e cúmplices em tudo. Mesmo quando, depois de alguns anos, voltei a me casar com uma prima siciliana. Conheci-a, justamente, no velório de minha mãe, quando toda a famiglia se reuniu. Valentina era uma jovem viúva com dois filhos. O cerco dos familiares foi imenso e chegara o tempo de povoar minha fazenda, aqui perto de Roma.
─ Tsé! Você mesmo a conheceu quando nos visitou logo de sua chegada. Mas não era paixão. Sempre foi uma terna amizade, um doce companheirismo. Constanza e Valentina se deram tão bem que ambas se visitam, ora em Pen Gold, ora na villa. Enfim, eis aí, Tsé, quem é Constanza, como você me perguntou.
─ É! Não deixa de ser uma belíssima história de amor. ─ Exclamei.
Uma furtiva lágrima banhava o rosto de Lippi.
A Dra. Susan Bates jamais seria esquecida.
Toda a Memória (Falsa?!):
Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI
Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII