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Bento XVI e a Tamarineira

22 de março de 2010, às 8:51h

Perrusi, Pai

De médico e louco, cada um tem um pouco. A novidade, no entanto, é que Bento XVI acaba de decretar a ressurreição do diabo, do demônio, de satanás. Em suma, do Coisa Ruim que, de uma forma insidiosa, mandou seus filhotes infestarem a maioria dos padres pedófilos da ICR. O Papa, humildemente, pediu desculpas.

Uai! Por que ele pediu desculpas? Será que ele também? Sopra no meu ouvido alguma entidade maléfica.

Não! Não quero, não posso, nem devo acreditar. Vade retro, filhote de Belzebu!

Depois dos avanços da Psiquiatria, da Psicologia, da Neurologia e, até mesmo, da Psicanálise, acreditava-se que os demônios não passavam de crendices populares, embora a prática do exorcismo ainda exista em certos meios católicos e protestantes.

Assim, as chamadas manifestações demoníacas começaram a desaparecer sob o crivo daquelas especialidades que classificavam as diabruras do capeta como doenças mentais perfeitamente identificáveis, algumas até mesmo curáveis.

Porém, Bento acredita em satanás e, para isso, está incentivando a formação de exorcistas que são capazes de lutar contra as forças do mal, expulsando-as das pessoas, exceto, como de praxe, dos corrutos de nossa república.

Por acaso, não foi o próprio Cristo que expulsava demônios e, pelo menos uma vez, os jogou contra uma manada de porcos, em Gedara?

O novo Arcebispo de Olinda e Recife, fiel ao chefe supremo, também deve acreditar nas forças demoníacas que atacam, certamente, os internos do Hospital da Tamarineira. Mas, ao contrário de Bento, o Arcebispo resolveu ser mais objetivo e prático; promete transferir os doentes mentais para umas casinhas (sic), construídas pela Arquidiocese, ficando, é claro, esgoto e água sob a responsabilidade da Compesa (quando?) e a luz, da Celpe (quando?). Afinal de contas, ninguém é de ferro!

No belíssimo local do Hospital, o Arcebispo anuncia que vai mandar construir um shopping e outras coisitas mais, sem mesmo se dar ao cuidado de provar, legal e publicamente, que a Tamarineira pertence, de fato e de direito, à Arquidiocese.

Historiadores contestam a legalidade do caso; jornalistas, ambientalistas e os moradores da área protestam contra o crime que a Arquidiocese pretende praticar, mesmo que o terreno lhe pertença, o que é duvidoso.

Ora, não seria o caso de Bento XVI mandar seus exorcistas ao Recife para examinarem tanto o caso dos doentes mentais da Tamarineira como os próprios mentores do empreendimento imobiliário anunciado?

Não seria o caso de se pensar que não se trata de “doença mental” mas, sim, de possessão demoníaca, tanto de uns como de outros?

Tempestade no Cerrado

12 de março de 2010, às 10:10h

Repercuto, aqui, um artigo de Mauro Carrara.

Às armas, camaradas! Às armas!

Afinal, este es um gobierno de mierda, pero es nuestro gobierno!

Guardei foices, lanças, panelas e garfos. É só pedir que mando pelo pombo-correio. Deixem os banqueiros comigo!

Operação “Tempestade no Cerrado”: o que fazer? – por Mauro Carrara

O PT é um partido sem mídia…
O PSDB é uma mídia com partido.

“Tempestade no Cerrado”: é o apelido que ganhou nas redações a operação de bombardeio midiático sobre o governo Lula, deflagrada nesta primeira quinzena de Março, após o convescote promovido pelo Instituto Millenium.

A expressão é inspirada na operação “Tempestade no Deserto”, realizada em fevereiro de 1991, durante a Guerra do Golfo.

Liderada pelo general norte-americano Norman Schwarzkopf, a ação militar destruiu parcela significativa das forças iraquianas. Estima-se que 70 mil pessoas morreram em decorrência da ofensiva.

A ordem nas redações da Editora Abril, de O Globo, do Estadão e da Folha de S. Paulo é disparar sem piedade, dia e noite, sem pausas, contra o presidente, contra Dilma Roussef e contra o Partido dos Trabalhadores.

A meta é produzir uma onda de fogo tão intensa que seja impossível ao governo responder pontualmente às denúncias e provocações.

As conversas tensas nos “aquários” do editores terminam com o repasse verbal da cartilha de ataque.

  1. Manter permanentemente uma denúncia (qualquer que seja) contra o governo Lula nos portais informativos na Internet.
  2. Produzir manchetes impactantes nas versões impressas. Utilizar fotos que ridicularizem o presidente e sua candidata.
  3. Ressuscitar o caso “Mensalão”, de 2005, e explorá-lo ao máximo. Associar Lula a supostas arbitrariedades cometidas em Cuba, na Venezuela e no Irã.
  4. Elevar o tom de voz nos editoriais.
  5. Provocar o governo, de forma que qualquer reação possa ser qualificada como tentativa de “censura”.
  6. Selecionar dados supostamente negativos na Economia e isolá-los do contexto.
  7. Trabalhar os ataques de maneira coordenada com a militância paga dos partidos de direita e com a banda alugada das promotorias.
  8. Utilizar ao máximo o poder de fogo dos articulistas.

Quem está por trás

Parte da estratégia tucano-midiática foi traçada por Drew Westen, norte-americano que se diz neurocientista e costuma prestar serviços de cunho eleitoral.

É autor do livro The Political Brain, que andou pela escrivaninha de José Serra no primeiro semestre do ano passado.

A tropicalização do projeto golpista vem sendo desenvolvida pelo “cientista político” Alberto Carlos Almeida, contratado a peso de ouro para formular diariamente a tática de combate ao governo.

Almeida escreveu Por que Lula? e A cabeça do brasileiro, livros que o governador de São Paulo afirma ter lido em suas madrugadas insones.

O conteúdo

As manchetes dos últimos dias, revelam a carga dos explosivos lançados sobre o território da esquerda.

Acusam Lula, por exemplo, de inaugurar uma obra inacabada e “vetada” pelo TCU.

Produzem alarde sobre a retração do PIB brasileiro em 2009.

Criam deturpações numéricas.

A Folha de S. Paulo, por exemplo, num espetacular malabarismo de ideias, tenta passar a impressão de que o projeto “Minha Casa, Minha Vida” está fadado ao fracasso.

Durante horas, seu portal na Internet afirmou que somente 0,6% das moradias previstas na meta tinham sido concluídas.

O jornal embaralha as informações para forjar a ideia de que havia alguma data definida para a entrega dos imóveis.

Na verdade, estipulou-se um número de moradias a serem financiadas, mas não um prazo para conclusão das obras. Vale lembrar que o governo é apenas parceiro num sistema tocado pela iniciativa privada.

A mesma Folha utilizou seu portal para afirmar que o preço dos alimentos tinha dobrado em um ano, ou seja, calculou uma inflação de 100% em 12 meses.

A leitura da matéria, porém, mostra algo totalmente diferente. Dobrou foi a taxa de inflação nos dois períodos pinçados pelo repórter, de 1,02% para 2,10%.

Além dos deturpadores de números, a Folha recorre aos colunistas do apocalipse e aos ratos da pena.

É o caso do repórter Kennedy Alencar. Esse, por incrível que pareça, chegou a fazer parte da assessoria de imprensa de Lula, nos anos 90.

Hoje, se utiliza da relação com petistas ingênuos e ex-petistas para obter informações privilegiadas. Obviamente, o material  é sempre moldado e amplificado de forma a constituir uma nova denúncia.

É o caso da “bomba” requentada neste março. Segundo Alencar, Lula vai “admitir” (em tom de confissão, logicamente) que foi avisado por Roberto Jefferson da existência do Mensalão.

Crimes anônimos na Internet

Todo o trabalho midiático diário é ecoado pelos hoaxes distribuídos no território virtual pelos exércitos contratados pelos dois partidos conservadores.

Três deles merecem destaque…

  1. O “Bolsa Bandido”. Refere-se a uma lei aprovada na Constituição de 1988 e regulamentada pela última vez durante o governo de FHC. Esses fatos são, evidentemente, omitidos. O auxílio aos familiares de apenados é atribuído a Lula. Para completar, distorce-se a regra para a concessão do benefício.
  2. Dilma “terrorista”. Segundo esse hoax, além de assaltar bancos, a candidata do PT teria prazer em torturar e matar pacatos pais de família. A versão mais recente do texto agrega a seguinte informação: “Dilma agia como garota de programa nos acampamentos dos terroristas”.
  3. O filho encrenqueiro. De acordo com a narração, um dos filhos de Lula teria xingado e agredido indefesas famílias de classe média numa apresentação do Cirque du Soleil.

O que fazer

Sabe-se da incapacidade dos comunicadores oficiais. Como vivem cercados de outros governistas, jamais sentem a ameaça. Pensam com o umbigo.

Raramente respondem à injúria, à difamação e à calúnia. Quando o fazem, são lentos, pouco enfáticos e frequentemente confusos.

Por conta dessa realidade, faz-se necessário que cada mente honesta e articulada ofereça sua contribuição à defesa da democracia e da verdade.

São cinco as tarefas imediatas…

  1. Cada cidadão deve estabelecer uma rede com um mínimo de 50 contatos e, por meio deles, distribuir as versões limpas dos fatos. Nesse grupo, não adianda incluir outros engajados. É preciso que essas mensagens sejam enviadas à Tia Gertrudes, ao dentista, ao dono da padaria, à cabeleireira, ao amigo peladeiro de fim de semana. Não o entupa de informação. Envie apenas o básico, de vez em quando, contextualizando os fatos.
  2. Escreva diariamente nos espaços midiáticos públicos. É o caso das áreas de comentários da Folha, do Estadão, de O Globo e de Veja. Faça isso diariamente. Não precisa escrever muito. Seja claro, destaque o essencial da calúnia e da distorção. Proceda da mesma maneira nas comunidades virtuais, como Facebook e Orkut. Mas não adianta postar somente nas comunidades de política. Faça isso, sem alarde e fanatismo, nas comunidades de artes, comportamento, futebol, etc. Tome cuidado para não desagradar os outros participantes com seu proselitismo. Seja elegante e sutil.
  3. Converse com as pessoas sobre a deturpação midiática. No ponto de ônibus, na padaria, na banca de jornal. Parta sempre de uma concordância com o interlocutor, validando suas queixas e motivos, para em seguida apresentar a outra versão dos fatos.
  4. Em caso de matérias com graves deturpações, escreva diretamente para a redação do veículo, especialmente para o ombudsman e ouvidores. Repasse aos amigos sua bronca.
  5. Se você escreve, um pouquinho que seja, crie um blog. É mais fácil do que você pensa. Cole lá as informações limpas colhidas em bons sites, como aqueles de Azenha, PHA,Grupo Beatrice, entre outros. Mesmo que pouca gente o leia, vai fazer volume nas indicações dos motores de busca, como o Google. Monte agora o seu.

A guerra começou. Não seja um desertor.

“Mauro Carrara é jornalista, nascido em 1939, no Brás, em São Paulo. É o segundo filho de Giuseppe Carrara, professor de Filosofia em Bologna, e de Grazia Benedetti, uma operária e militante comunista de Nápoli. O casal chegou ao Brasil em 1934, fugindo da perseguição fascista. Mauro foi para a Itália em 1959, por sugestão do amigo dramaturgo G. Guarnieri. Em Firenze, estudou arte, ciências sociais e comunicação. De volta ao Brasil, passou dois anos na Amazônia. Ao atuar na defesa dos povos indígenas, foi preso pelo regime militar. Libertado, voltou à Itália. Como free-lancer, produziu reportagens para jornais como L’Unita e Il Manifesto. Com o primo Antonino, esteve no Vietnã, no início da década de 70. Em 1973, no Chile, juntou-se à resistência ao golpe contra Allende. No Brasil, como clandestino, aproximou-se do cartunista Henfil, cujos trabalhos traduziu para uma revista alternativa italiana. Na década de 80, prestou serviços para a ONU em países como China, Iraque e Marrocos. Nos anos 90, assessorou ONGs brasileiras, especialmente na área de Direitos Humanos. Ainda atua na área de comunicação e relações internacionais”

Sessão FC

8 de fevereiro de 2010, às 8:30h

Outro grande final de filme de ficção científica (?):

Imagem de Amostra do You Tube

Continuando a pegada do Planeta dos Macacos, mais um filme com Charlton Heston:

omega man trailer

Imagem de Amostra do You Tube

Mais outro:

Soylent green trailer

Imagem de Amostra do You Tube

Ainda o caso da UniBan

8 de novembro de 2009, às 20:49h

Através do Hermenauta, fui parar num blog ultraconservador (ah, se existisse um fascismo cristão… Mas não existiu um desses na Espanha de Franco?). O tal blog responde positivamente à minha preocupação de que o ovo da serpente existe e pode eclodir. O post faz uma defesa dos alunos da UNIBAN no caso já comentado, aqui, sobre a aluna Geisy Arruda, que usou uma minissaia, foi esculhambada pelos alunos e expulsa da e pela universidade. Pincei partes do post.

Primeiro, tentei compreender a intenção do autor, que intitulou seu post com o sugestivo título:

Precisamos de mais alunos como os da UniBAN

O título acima já prova que não estou tentando ser popular e principalmente ser agradável ao mainstream, não gosto do comportamento de manada nem da opinião induzida, por isso fui buscar provas com sinceridade em duvidar nas absurdas e não provadas acusações de que os alunos da UniBan vem sofrendo em nome da moral de puteiro, no qual toda moça tem o direito de usar mini-saia onde bem entende.

A dúvida nasceu da própria assertiva de que os alunos a quiseram estuprar em público pela moça estar provocando eles. Sim, ao contrário do que se entende, vários depoimentos (Que irei citar sem retoques) mostram que ela provocou diretamente o caso…

Claro, a culpa é da aluna. Mas o interessante aqui, nessa elucidativa lição sobre o fascio tupiniquim, são os depoimentos arrolados pelo blogueiro (crianças, saiam da frente do blog, vão dormir, porque o conteúdo é impróprio para seres inocentes):

Desculpe, mas a noticia está errada. Uma colega minha estuda na UNIBAN, na sala ao lado da garota, e ela afirmou que não houve “tentativa de estupro”, oq houve foi um bando de marmanjos xingando a menina pela forma que ela estava vestida. E afirmou também que a menina ficava se insinuando na frente das outras salas.

A culpa, como sempre, é da aluna…

Aqui, é muita mentira esta onda de q os alunos iam estuprar a garota. Isto não existiu… Eu estava lá!!!! Estávamos gritando PUTA! PUTA! PUTA!, e ESTUPRA!, ESTUPRA!, ESTUPRA! só de ZOAÇÃO, só de GOZAÇÃO!! Até parece q alguém iria estuprar uma mina no meio de uma universidade com todo mundo vendo!!! Até parece!! Fazer isto seria certeza de ser preso e destruir sua vida!! Ninguém iria fazer isto só porque uma destrambelhada resolveu ir pra aula com uma roupa inadequada. Destruir sua própria vida apenas porque uma mina resolveu ir pra aula mostrando sua bunda e outras partes íntimas seria demais!!!
E esta mina já é conhecida na UNIBAN de outros carnavais… Não é nenhuma santinha q de repente resolveu vestir uma roupa mais ousada!!! Ela sempre se veste de forma a provocar os outros!!
Aquela velha lição q nossa vó nos ensinou vale aqui: se queremos ser respeitados, devemos nos respeitar primeiro. E não foi isto q aconteceu, a mina não se respeitava, então os outros não a respeitaram!!!

Sim, sim, era só zoação, só gozação. Se era pra estuprar, como ninguém é burro, estuprava num descampado, num lugar mais adequado. Estupro precisa de um mínimo de estratégia e de inteligência. Lugar público? Nem pensar. Além do mais, a mina, que não se respeita, merecia a lição.

A posição dá calafrios. Uma atitude que é vista como uma provocação moral leva, invariavelmente, a uma reação violenta — uma violência provocada e, por isso, legítima. A situação tornou-se um problema moral insustentável: um problema de gênero e de dominação masculina. Lembra o filme “Acusados“, com Jodie Foster.

Outro depoimento:

Eu estudo lá. A mina ia subindo a rampa e os caras mexiam, daí ela olhava pra trás, jogava o cabelo pro lado, ajeitava o vestido, e ia caminhando rebolando. Subiu, e lá de cima provocava. E não é a 1ª vez isso, só q da outra vez (1 dia antes) não chamaram a polícia, pq ela estava mais comportada.

A mina era temerária. Antes, tinha até provocado. No fundo, pedia, implorava — o quê? Teve sorte, pois chamaram a polícia. Nada como a PM para resolver, no Brasil, questões morais e políticas.

Já no final, o autor do post, diante dos magníficos depoimentos, arremata sua conclusão:

Os alunos podem ter errado? Sim… eles admitem isso, admitem também que pouco estavam se importando que esse assunto ia parar na internet e nas mãos dos politicamentes corretos sentirem-se com a consciência mais leve acusando terceiros. Mas se não ocorreu estupro como baseio-me acima para não acreditar nesse absurdo, parabéns aos alunos da UniBAN, que não permite que seu ambiente de ensino seja maculado com as vicitudes de outros ambientes, e isso não é apenas institucional que não pode controlar tudo, é na raíz da UniBAN, os alunos realmente estavam engajados em expulsar a moça de lá independente de uma autoridade universitária, nada mais libertário que não necessitar da aprovação de terceiros para se fazer o que é certo. Eles entenderam o que significa ser um watchdog, um vigia da liberdade que só pode existir com uma moral responsável e madura não imposta, e ninguém impôs moral a esses alunos, exceto o #mimimi da internet. Meu amigo católico dizia que se pode ser conservador e conservar qualquer coisa, ele estava certo. O que há no Brasil são conservadores dos maus costumes e da imoralidade.

Sabe-se, afinal, o que é o bom conservadorismo e a defesa da verdadeira moral. Quando a política vira polícia e a liberdade, vigilância moral, estamos ferrrados. Liberdade é a liberdade de bem vigiar, o resto é “politicamente correto”. Se o acontecimento acima é um problema moral e de gênero, como já disse, seria também profundamente político.

Gosto de monitorar, na blogosfera, os blogs de extrema-direita e de extrema-esquerda. Essa posição, nos blogs de extrema-direita, não é incomum. Por enquanto, são posições minoritárias. Para eclodir, precisam de uma voz forte, com bigodinho ou histrionismo, com bota ou quepe — precisam de um símbolo; sim, precisam urgentemente de um símbolo.

Uma centelha basta, daí o perigo.

Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXIX

13 de setembro de 2009, às 20:51h

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

Laura Reed & Deep Pocket — Prodigy
Casamento
Beleza Pura
Política & Itália


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(Arts longa, vita brevis)

29º CAPÍTULO

Tadinho do Monsenhor Lippi! Aos trinta anos, dorme com uma linda mulher e não sabe o que teria ocorrido. Mas… os tempos mudaram!

─ Sabe, Tsé! Somente me dei conta do que ocorreu quando voltei para Roma.

E, assim, Lippi continuou o relato de sua viagem a Oxford.

Voltamos, eu e Susan, à Universidade, em completo silêncio. Cada um foi assistir a conferências diferentes, com a promessa mútua de um encontro na hora do almoço. Mas eu estava tão inquieto e perturbado que não resisti. Saí do auditório e fui ao meu hotel. Arrumei a mala e voltei a Roma sem avisar a ninguém, correndo o risco evidente de jamais reencontrar Susan.

Foi uma semana desastrada. Não trabalhei absolutamente nada, os papéis escorregavam de minhas mãos, os livros pareciam vazios, sem letras; papel branco e nada mais. Mal conseguia dormir. Susan tornara-se proprietária de minhas emoções, do meu corpo e de minha alma, se alma existe.

Na tarde da sexta-feira seguinte, o porteiro da Biblioteca avisou-me que uma pesquisadora estrangeira queria falar comigo. Mandei-a entrar. Era a Dra. Susan Bates com uma valise de viagem. O abraço foi longo e o beijo mais terno ainda. Nem precisei pedir desculpas.

Susan colocou em cima do meu birô duas passagens de ida e volta a Konstanz, na Alemanha, e uma reserva num chalé à beira do lago. O destino não bate à nossa porta por duas vezes. Telefonei para o Cardeal Ratti, meu chefe, e pedi-lhe uma semana de férias sob o pretexto de que estava exausto.

Passamos à noite celebrando nosso novo encontro, passeando pelas ruas de Roma, parando em algum bistrô para tomarmos uma taça de vinho.

─ Giorgio! Adoro fujões! Entendo perfeitamente seu estado de espírito. Mas não queria perdê-lo ─ Disse-me Susan.

No dia seguinte, insones pela noite de confidências e de paixão, partimos de trem para Konstanz. Foi minha primeira e única lua-de-mel. Esquiamos no lago congelado, passeamos e, sobretudo, fizemos amor. Não sabia o que era ter uma mulher amada nos braços. E ainda não sei completamente, tal a plenitude do que vivemos.

Daí em diante, e durante três meses, alternávamos os fins de semana, ora em Pen Gold, ora na Itália, neste apartamento ou na minha villa.

No quarto mês, recebi um telegrama de Susan pedindo-me que fosse com urgência à Inglaterra.

Esperava-me na pequena estação de trem. Na direção do seu Bentley, era a mesma louca do volante de sempre. Subimos para nosso quarto na companhia de Meg, sua irmã médica que clinicava em Londres. Como sempre, Susan era direta e clara em seus assuntos:

─ Giorgio! Estou grávida e quero ter minha criança. Pouco me importo com o que vão dizer na Universidade. Desejo apenas sua opinião.

Não posso, Tsé, descrever a emoção que senti. Não sabia se chorava, ria, dançava ou ficava calado. Mas respondi a Susan:

─ Eu quero, também, nossa criança e jamais admitiria perdê-la.

Combinamos todos os detalhes. Meg acompanharia clinicamente a gravidez da irmã. Enquanto ela pôde, continuamos a nos visitar. Mas, quando a hora da délivrance se aproximou, tirei nova licença e fiquei junto de Susan. As dores começaram e o parto foi perfeito. Ouvi o choro da criança e subi rapidamente a escadaria.

Um bebê estava envolto em panos, apressado, já sugando o leite materno. Era uma menina. Acho que não tive em toda a minha vida, uma alegria tão grande como aquela. Na mesma tarde, fomos, eu e Meg, ao cartório de Oxford e registramos a criança com o nome de Constanza Bates Lippi. No dia seguinte, fui a Londres e registrei Constanza na embaixada italiana. Dupla nacionalidade e uma deliciosa mistura anglo-italiana. Constanza cresceu e habituou-se a ver o pai italiano nos fins de semana ou, então, a passar as férias comigo na Itália, algumas vezes, acompanhada de Susan.

Nossa paixão crescia e crescia. Quis deixar a ICR, atendendo a um convite de Oxford. Eu e Susan nos casaríamos na Inglaterra. Mas ela preferia viver sozinha em sua herdade na companhia de Constanza. Detestava o casamento e sempre argumentou que nosso amor fora construído com o Canal da Mancha entre a gente. Besteira de sua mentalidade feminista, que sempre, aliás, respeitei. Bobagem minha! O importante era nosso amor e, principalmente, nossa filha.

Quando Constanza estava perto de completar dez anos, novo telegrama me assustou. E dessa vez para sempre. A velocidade e a imprudência venceram Susan. Na direção do seu novo Bentley, chocara-se numa das curvas com um caminhão carregado de feno que entrava na pequena estrada em direção da estação ferroviária.

acidente+richarlyson

Na cerimônia fúnebre, na Universidade de Oxford, eu e Constanza ficamos abraçados, enquanto o Capelão recitava um breve e inócuo salmo. Perdera Susan, mas ela me deixava uma preciosa pérola como herança. Nada mais!

Voltamos a Pen Gold em silêncio num rigoroso inverno. As mesmas árvores cinzas e desgalhadas guardavam a casa. Inútil paisagem! Deserta! Árida! Como sentia meu coração. Pequenos flocos de neve caíam sobre o gramado. Mas Susan não poderia mais apreciá-los!

Na sala de jantar, houve uma pequena reunião familiar: eu, Constanza, Meg, o marido e o casal de filhos.

─ Filha! Vamos para Roma? ─ Perguntei a Constanza.

─ Não, Papi! Já conversei com tia Meg. Prefiro ficar com eles. Você me visita, e eu vou à Itália visitar você.

Constanza herdara a mesma lucidez e determinação de sua mãe. Mas as negras nuvens sobre a Europa começavam a desabar. Minha filha estava em segurança em Pen Gold. Eu, também, embora prisioneiro no Vaticano. E foi assim que passamos a Guerra. Os demônios se soltaram e muitas coisas aconteceram. Voltamos a nos ver cinco anos depois, embora sempre tenhamos mantido uma intensa correspondência através da Nunciatura, único corredor aberto entre mim e Constanza.

Aos vinte e um anos, ela tomou posse de sua propriedade e, logo depois, como bolsista, começou seu Doutorado em Biologia em Oxford.

Ao longo de todo esse tempo, construímos uma amizade filial inabalável. Mais, muito mais, do que pai e filha. Antes, temos sido companheiros e cúmplices em tudo. Mesmo quando, depois de alguns anos, voltei a me casar com uma prima siciliana. Conheci-a, justamente, no velório de minha mãe, quando toda a famiglia se reuniu. Valentina era uma jovem viúva com dois filhos. O cerco dos familiares foi imenso e chegara o tempo de povoar minha fazenda, aqui perto de Roma.

─ Tsé! Você mesmo a conheceu quando nos visitou logo de sua chegada. Mas não era paixão. Sempre foi uma terna amizade, um doce companheirismo. Constanza e Valentina se deram tão bem que ambas se visitam, ora em Pen Gold, ora na villa. Enfim, eis aí, Tsé, quem é Constanza, como você me perguntou.

─ É! Não deixa de ser uma belíssima história de amor. ─ Exclamei.

Uma furtiva lágrima banhava o rosto de Lippi.

A Dra. Susan Bates jamais seria esquecida.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII

Política & Itália

8 de setembro de 2009, às 0:10h

A realidade política italiana:

Imagem de Amostra do You Tube

Casamento

7 de setembro de 2009, às 13:05h

A idéia mais perfeita de casamento… :mrgreen:

Imagem de Amostra do You Tube

Duas atitudes

7 de setembro de 2009, às 12:37h

Lula combinou duas atitudes diante do pré-sal. A primeira, a mais mesquinha e ardilosa possível, foi tornar o pré-sal uma questão político-partidária, visando as eleições de 2010. Foi tão ardiloso que a oposição vem caindo feito um patinho. Continuando assim, as eleições serão favas contadas para Lula, logo, para Dilma. Fazendo isso, isto é, tornando um projeto nacional uma querela partidária, Lula apequenou-se, mas foi extremamente eficiente. Pessoalmente, não simpatizo com essa postura. Acho o pré-sal importante demais para ser reduzido a uma conjuntura eleitoral. Porém, vá lá, faz parte do jogo sujo da política brasileira. Afinal, quando a oposição chama o marco regulatório, defendido pelo governo, de “nacionalista” merece todas as sacanagens possíveis, pois está sendo mais sacana do que o governo.

E sou paranóico com o entreguismo do conservadorismo tupiniquim. Nossa direita é muito sensível ao mundo verde do dólar.

A segunda atitude de Lula é de estadista. Compreendeu imediatamente a importância do pré-sal e o tornou uma questão nacional. Mais ainda: conectou o pré-sal à soberania nacional quando afiançou o maior pacto militar da história recente brasileira: a compra bilionária de submarinos franceses e a necessária transferência tecnológica para a construção de submarinos nucleares. A defesa do pré-sal exige tal investimento, pois implica projeto e soberania nacionais, um imbricado no outro.

O governo Lula estuda a regulação do pré-sal faz dois anos. Como projeto nacional, a regulação precisa escapar da armadilha da “doença holandesa” (aqui), que acabaria, dada a abundância de um recurso natural como o petróleo, com a manufatura nacional. Sem manufatura, seria dar adeus a um mercado interno com um mínimo de autonomia em relação às injunções da globalização.   Acho que o governo conseguiu esse objetivo fundamental ao fundar o marco regulatório em três  eixos: o sistema de partilha, a criação da Petro-Sal e a criação de um fundo soberano para receber os recursoso da partilha.

O sistema de partilha permite ao estado brasileiro apossar-se da renda do petróleo, isto é, da exploração de um recurso natural, ficando para as empresas exploradoras os lucros, que serão muitos e darão retorno ao investimento privado. O sistema de concessão seria muito mais ambíguo, permitindo uma privatização crescente de um recurso natural que, como tal,  é nacional.

Já a criação do Petro-Sal não tem nada de “estatizante” (outra acusação boba da oposição), pois será uma empresa proprietária das reservas e não será operacional, como é a Petrobras, por exemplo. Ela é fundamental para tornar eficiente o sistema de partilha. Aliás, sem uma proprietária estatal das reservas, a privatização do petróleo, inclusive multinacional, seria inevitável.

Voltando à conjuntura eleitoral, acho que Serra, com seu atual mutismo sobre o pré-sal, compreendeu a armadilha que Lula prepara para a oposição. Mas precisa avisar o seu partido e, principalmente, neutralizar a vocação entreguista do DEM — senão está lascado. Lula fará o possível para colar o pré-sal, como projeto nacional, em Dilma. Fará o possível para a oposição ter a mesma conduta que o PT teve diante do Real e, principalmente, diante das privatizações. Naquela época, os petistas, com exceção de Genoíno, embarcaram numa defesa visceral do estatismo, abdicando de discutir modelos de privatização. Os tucanos deitaram e rolaram e, com isso, tornaram seu modelo de privatização o único possível e existente (um modelo, aliás, com muitos furos e sem-vergonhices). Nesse sentido, Lula está fazendo com que a oposição, ao defender um privatismo ululante, torne o modelo regulatório do governo o único que consegue vincular a exploração de um recurso natural à soberania nacional.

Já era…

31 de agosto de 2009, às 10:50h

O pré-sal acabou com os tucanos. Lascaram-se. O grude do “entreguismo” nas suas costas eleitorais será inevitável. E piora mais ainda a situação quando  Serra, ao falar como presidente já eleito,  diz que mudará o marco regulatório do pré-sal ou quando Alvaro Dias, tucano parananense, confessa que pediu ajuda a uma empresa de Houston, nos Estados Unidos, para auxiliar seu trabalho na CPI da Petrobras.

A Petrobras encarna o ethos nacional. É transparente, democrática e embuída de vocação patriótica. Seu interesse vai de encontro a qualquer tipo de corporativismo mesquinho. É  uma tecnoburocracia completamente desinvestida de interesses particulares. Acredito piamente nisso.

Dilma ganhou. Por isso, no primeiro turno, votarei nulo ou em Marina ;-)

A voz de Tsé-Tsé

31 de agosto de 2009, às 10:05h

Um arqueólogo do Vaticano, de nome Paul Pereiri, encontrou uma gravação de uma pregação de Tsé-Tsé. Estava enterrada debaixo de uma palafita, ali na Esquina da Cana, a Oeste de Bel-O-Kan. Recebi o material, hoje, pelo correio. Bem, a voz é bem parecida. Parece uma gravação antiga, muito antiga. Lembrou-me uma antiga possessão do Reverendo: Melek Taus, um antigo demônio yesidi. O dito-cujo, de vez em quando, baixava em Tsé-Tsé, e o coitado deixava, por um momento, o ateísmo de lado. Pregava, pregava e pregava, e tanto, que caía no chão de exaustão. Depois, dormia três dias e três noites e acordava completamente amnésico. Sempre tentava lembrá-lo do ocorrido, mas ele negava veementemente a simples possibilidade de tal acontecimento. Achava que era invenção de minha parte. Uma vil invenção. Achava-se uma fortaleza inexpugnável, um espírito tão cínico que nenhum demônio dos quintos do inferno conseguiria tal proeza.

_Meu cinismo é um exorcismo — afirmava o Reverendo.

E pumba! baixavam demônios, e nosso Tsé-Tsé saía pelas palafitas de Bel-O-Kan, pregando e temente a Deus.

Coloquei legendas para tornar a fala intelegível.

Imagem de Amostra do You Tube