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O chifrudo olímpico

15 de agosto de 2008, às 20:55h

Hehe…

Demais essa crônica de Xico Sá (aqui, no original).

Lá no final, num outro assunto, ele reconhece a dimensão da tragédia.

Lá vai:

XICO SÁ

O brilhante ouro da vingança


Quis o destino que Pedro Dias e João Derly tirassem as suas diferenças em Pequim, no maior espetáculo da terra


AMIGO TORCEDOR , que Michael Phelps que nada, o grande personagem destes de Pequim é o gajo e valente Pedro Dias, a quem no trágico e inevitável tatame da existência coube o papel de um confesso chifrudo olímpico.
Não ria, amigo, é doloroso e bonito, ponha um fado, aumente o volume, todos nós, mais cedo ou mais tarde, vestimos a mesma carapuça, somos todos Bentinhos na vida.
Ai, Mouraria, ai Tejo que carrega todas as dores do mundo, coube ao judoca português, numa estupenda sinceridade d’alma, dizer de onde vinha a sua fúria de indomável touro: “Questão de saias”. Havia sido traído, confessou, pelo oponente e favoritíssimo brasileiro João Derly, na categoria meio-leve -se é que pode existir leveza em tais circunstâncias.
Quis o destino, esse mascarado trocista, que o gajo encontrasse justo o Derly pela frente. Não em um beco escuro, não em uma taberna esquecida do Alentejo, não no largo dos Aflitos, bastante estreito a essa altura, caro amigo Antônio José, esse gênio de Irará e derredores, bastante estreito para caber tanta aflição e orgulho de macho ferido.
Quis o destino, essa mão que manipula as assombrações internas de um homem como quem balança mamulengos e fantoches, que Pedro e João tirassem as suas diferenças no maior espetáculo da terra. O que poderia ser uma meia dúzia de tabefes e sopapos, sob as vistas de inflamados bebuns da rua Augusta, virou uma contenda olímpica.
O certo é que o ressentido gajo derrotou impiedosamente o bicampeão mundial, o favoritíssimo “canalha” brasileiro, no maldizer do judoca português. Coube, então, ao jornal “A Bola”, um matutino lisboeta, cravar a melhor e imbatível manchete destes Jogos até agora: “Matar o traidor e depois morrer”.
Sim, depois de lavar a alma com a peixeira moral que todo corno traz na bota ou na cintura, Pedro perdeu duas lutas e a chance de medalhas.
Naquele momento, a sua vingança brilhava mais do que o sol alentejano, do que todo o ouro de Phelps.
É, amigo, o gajo provou que um homem sem um chifre é mesmo um animal indefeso. Se o humilde e sedentário cronista fizesse parte do COB, iria escalar apenas atletas com dores de amor e outros objetos pontiagudos parafusados à testa, como diria o escriba Marçal Aquino.

D de Deus e do Diabo
Para não dizer que não falei do futiba, esporte de macho por excelência, um jogo no domingo decide a sorte de um dos maiores clubes brasileiros de todos os tempos, o Santa Cruz, o Santinha, o tricolor do Arruda, o time de Nunes, Joãozinho e Fumanchu. Dos meus amigos Evaldo Costa, Samarone Lima e Inácio França, o Santinha de Elói, de Fred Jordão, Fábio Trummer e Rogério Bonsucesso Samba Clube. Pena é que joga justamente contra o meu Icasa, o Verdão do Cariri, que segue forte rumo à Série B. O duelo decide a sorte na Série C e a possível e mortal descida ao inferno da quarta divisão, a Série D, D de Deus, D de Dante e D também do Diabo. Então que a justiça seja feita, que vença o melhor no plano terreno, no caso o estádio Romeirão, o colosso do Pirajá, o gigante da Meca do Cariri, como a religiosa cidade de Juazeiro é conhecida.

Sinal no espelho

14 de agosto de 2008, às 23:02h

Curioso, falo muito de espelho, ultimamente, até nas crônicas de futebol, por exemplo, lá no Torcedor Coral (aqui). Procuro algum sinal no espelho? Essa procura pode ser, isto sim, um sinal esquizofrênico, embora seja tarde demais, para o bem ou para o mal, eu endoidecer. Uma explicação mais prosaica seria relacionar o espelho com a percepção do meu envelhecimento. Umberto Eco, no seu livro: Sobre os espelhos e outros ensaios, escreve o seguinte:

O espelho registra aquilo que o atinge da forma como o atinge. Ele diz a verdade de modo desumano, como bem sabe quem — diante do espelho — perde toda e qualquer ilusão sobre a juventude.

Será isso? O espelho significa o conta-gotas do tempo, pingando inexoravelmente todo dia na hora de escovar os dentes? Não sei… Contudo, não tenho repulsa à velhice, tipo a de Beauvoir, na sua obra: La force des choses, quando tinha 55 anos. Sua descrição é pesada e, confesso, não me identifico — provavelmente, reproduzo um modelo de masculinidade. De todo modo, se pensasse assim, estaria apavorado:

No fundo deste espelho, a velhice me espreita [...]. Ela me tem. Muitas vezes me detenho, ofuscada, diante desta incrível coisa que é o meu rosto. Compreendo Castiglione que tinha quebrado todos os espelhos [...]. Vejo meu antigo rosto onde se instalou uma doença da qual não vou me curar. [...] A velhice me infecta também o coração [...]. A morte não é mais, na distância, uma aventura brutal; ela obceca meu sono; acordada, sinto sua sombra entre o mundo e mim mesma: ela já começou.

Outra feminista parece ter uma relação forte com o espelho: Swain, num artigo bem interessante, Velha? Eu? Autoretrato de uma feminista (pesquei a citação duma tese de doutorado), diz o seguinte:

Seria eu a outra de mim mesma? Minha imagem no espelho é de uma estrangeira, renovada cada dia, aqui uma dobra, ali uma ruga, uma expressão nos olhos, esta tristeza que se acumula na experiência, a neve que, cada vez mais, possui meus cabelos.

Na verdade, o espelho me incomoda, geralmente, quando estou ensimesmado; nesse momento, o que sinto é uma espécie de descentramento, acompanhado de cinismo. Não falo do sentido usual do termo, como se fosse descarado comigo mesmo ao olhar o espelho. Não, não é isso. Falo do cinismo antigo. Falo de uma necessidade de arrancar a minha máscara, de denunciar as pequenas chantagens que fiz comigo mesmo, de destruir algumas microscópicas mitologias necessárias ao meu cotidiano, enfim, falo da necessidade de acabar de vez com certas ilusões que alimento em relação à minha pessoa. Infelizmente, esse momento é passageiro e não aproveito seu aporte purificador, pois me torno, logo imediatamente, cínico no sentdo habitual. Mas não é um momento muito feliz.

Parodiando Oscar Wilde, ao olhar o espelho, descubro que meu verdadeiro mistério é o visível e não o invisível. Por isso, nunca fiz psicanálise (hehe).

Faz tempo…

14 de agosto de 2008, às 10:18h

A vida, a gente vive, depois esquece…

Um dueto.
Dois duetos.
Suspensão.

Escutem:

Mozart: Sonata in D major K.381- II. Andante

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Mozart: Sonata in B flat major K.358- II. Adagio

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Álcool e seleção natural

14 de agosto de 2008, às 9:13h

Leiam essa notícia. A ciência é infalível. Ela deveria ser nosso código moral, e não a Bíblia, por exemplo. Confio cegamente na ciência.

Álcool deixa gente bonita, diz estudo

DA REDAÇÃO

Uma pesquisa acaba de confirmar que, depois de uns goles de bebida, não existem pessoas feias.
Psicólogos da Universidade de Bristol, no Reino Unido, pediram a 84 alunos heterossexuais que consumissem uma bebida não-alcoólica com sabor de limão ou uma bebida alcoólica de sabor semelhante. Depois, eles viram fotografias de pessoas da sua idade. Homens e mulheres que consumiram álcool tendiam a avaliar as pessoas retratadas -de ambos os sexos- como mais atraentes. O mesmo não aconteceu com os voluntários que ficaram “sóbrios” no experimento.

A Lei Seca trará problemas evolutivos graves. A bebida servia, principalmente no Brasil, para “arranjar” casamentos. A conjugalidade nordestina, por exemplo, depende da cachaça. Sem aguardente, muitos casais não se formarão, filhos ficarão esperando eternamente no Limbo (perdidos e isolados, pois o Papa aboliu o lugar) e muitas genealogias não existirão. Milhares de feios não casarão, eis o preço da Lei Seca. Ela é uma máquina que reproduz um modelo esteticista e dominante de beleza .

Como política reprodutiva, a Lei Seca será pior do que a camisinha. Espero que a Igreja perceba a relação entre bebida e reprodução. Beber não é pecado e casa os feios, induzindo o nascimento de mais almas cristãs no mundo.

Em suma, a Lei Seca trará problemas estéticos insolúveis. Sabem qual é a primeira víitima da estética? A ética.

Comentário

14 de agosto de 2008, às 7:03h

Curiosa, a Grande Mídia. Lendo o Estadão e a Folha, pensa-se que Dantas é um coitado que se defende de algozes de um Estado Totalitário. Ninguém critica o cabra? Dantas, agora, é o acusador? Cadê as ações ilegais do banqueiro? Não há reportagem dando furos e investigando as falcatruas. A decisão editorial da Folha é menos julgar o banqueiro do que o delegado e o juiz. Entre as informações do banqueiro e as informações do delegado e do juiz, a Folha prefere as das finanças.

Já em relação a De Sanctis, a conduta é diferente. Tira-se do contexto suas afirmações para melhor criticá-lo. A coluna de Clóvis Rossi (incrível, o que aconteceu com esse jornalista? Virou um trânsfuga?) é um exemplo (aqui – para assinantes). Pegou uma afirmação absolutamente anódina e fez toda a sua coluna em torno de uma besteira.

Na CPI, Carlos Wilson cumprimenta efusivamente Dantas. Diz que o coitado é “vítma”.

Raul Jungman, duro contra Protógenes e De Sanctis, não compareceu à audiência com Dantas; talvez, por uma questão de pudor, já que o coitado do banqueiro financiou sua campanha.

A observação de Paulo Henrique Amorim (aquele que chama a Grande Mídia de PIG — partido da imprensa golpista) até que é engraçada:

Em tempo: vamos imaginar que Elliot Ness, da Polícia Federal, tenha prendido Al Capone. Finalmente, depois de todo mundo saber – a Polícia estadual, o Judiciário, o Legislativo – que Al Capone contrabandeava uísque falsificado do Canadá para vender nos speakeasy de Chicago. Mas, Elliot Ness era corajoso e honesto. Resistiu a todas as pressões. E conseguiu pôr algemas em Capone. Aí, o Congresso americano montou uma CPI para tratar da Lei Seca. Chama Al Capone para depor, como suspeito de ser o maior contrabandista de uísque dos Estados Unidos. O deputado Joseph Kennedy, que distribuía uísque de Al Capone no mercado de Boston, presidente da CPI, fez uma pergunta de bandeja para Al Capone. Al Capone acusa Elliot Ness. Diz que ele era um policial desonesto, movido por interesses subalternos quando decidiu, por fim, colocar as algemas nele. Caro leitor, você acha que o Chicago Tribune, o principal jornal de Chicago, seria capaz de dar credibilidade a Al Capone e colocar na manchete essa “suposta” acusação a Elliot Ness ? ? Nem pensar, não é isso, caro leitor ? Pois foi o que a Folha fez: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cp14082008.htm.


Nenhum colunista da grande mídia falará sobre a derrota de todas as direitas bolivianas na vitória de Evo Morales, o macaco, segundo o dito racista do governador cruceño, de Santa Cruz, Rubén Costas? Nem Tio Rei?


Piadinha vil de um tricolor desesperado (aqui):

Pergunta: Você está num quarto com Galeguinho do Coque, Mordido do Poico e Edinho. Você tem um revólver, mas só tem duas balas. Nos quais você atira?

R: Dou os dois tiros em Edinho.

Amazônia

13 de agosto de 2008, às 15:38h

Sim, eu como ovos de tartaruga de Intermares. Sim, pedi a Cynthia (a todo-poderosa do Cazzo), quando de sua ida recente ao Canadá, carne de bebê foca (ela não trouxe, o que é estranho. Desconfio que a gulosa não resistiu e comeu todo o pedaço). Certo, acredito mais na Era do Gelo do que no Aquecimento Global, mas não sou tão politicamente incorreto assim. A prova?! Publico esse vídeo que trata das sacanagens que acontecem na Amazônia. Vejam como a elite latifundiária trata indígenas, ambientalistas e jornalistas. Nosso latifúndio é uma herança direta das capitanias hereditárias.

Lá vai:

Guernica

13 de agosto de 2008, às 9:16h

Pesquei no Sítio do Sergio Leo (aqui). Belo, mui belo — um vídeo, apresentando Guernica de forma trimendisional. Em tempo de guerra, é um bom alerta.

Lá vai:

A versão orginal está abaixo:

Guernica em Tri-D

Comentário

13 de agosto de 2008, às 8:32h

Toda vez que aparece algum país com reivindicações territoriais baseadas em minorias étnicas fico desconfiado. É o caso da Rússia em relação à Geórgia. A Ossétia do Sul tem russos, logo, a Rússia está de olho, etc e tal.

E acho que a Geórgia tem toda a legitimidade em afirmar: a Ossétia do Sul é nosso território.

Contudo, a política da Geórgia em afrontar a Rússia foi um desastre. Cometeram o erro crasso, praticamente, um suicídio, em atacar primeiro a Ossétia do Sul. Deram de bandeja o motivo moral da invasão russa. Não se oferece uma guerra de graça ao urso. Não se esmurra assim o nariz de um urso. Lições zoológicas óbvias.

O urso está de volta. E não foi só a Geórgia a derrotada — coloquem a Comunidade Européia no bolo.

Humor e impaciência

12 de agosto de 2008, às 8:37h


Não suporto esse símbolo. Não tenho paciência.

Rápido, muito rápido…

Não me lembro bem, mas acho que foi o doido do Nietzcshe, o autor da seguinte sentença moral:

Odeio tanto seguir quanto guiar.

Não, o filósofo da lucidez moderna não se referia ao trânsito. É uma frase com consequências existenciais, digamos assim. Acho fundamental aceitar tal aforismo na juventude, tipo aos 17 anos. É um ensinamento, uma espécie de filosofia política, que livrará o jovem de várias ilusões. Terrível é assumi-lo somente depois dos quarenta. Quando acontece, é sinal de ranzinzice. É meu caso. Já tive tantas ilusões que, mais uma, não será mais uma, mas sim uma forma de niilismo. Ou de autocomiseração, como me disse o espelho, quando escovava os dentes.

Assim, através da rabugice, a autoridade tornou-se insuportável, a dependência, algo desprezível, e a submissão, impossível — não, pensando bem, não chego a tanto, pois meu lado comiserativo, segundo o espelho, leva-me à sutileza das submissões involuntárias. De todo modo, passei a detestar ordens, até mesmo convites. Sim, nego sistematicamente os convites, perdendo incríveis oportunidades. E não suporto conselhos — aconselhou, vira inimigo, imediatamente. Um conselho é sempre uma forma travestida de intervenção do outro e, como tal, uma forma de sujeição. Como posso orientar alunos, se não admito o aconselhamento? Meus orientandos fazem do meu idealismo uma contradição performativa. Por isso, gostava da psiquiatria, porque não existia essa desgraça dos psicólogos, essa bondade na forma de assistência ao outro, destinada à solução de desajustamentos de conduta — não há espaço para conselhos na psicoterapia perrusiana. Pediu um conselho, eu passava um supositório.

Enfim, odeio particularmente as exigências, pois são, muitas vezes, independentes de minha vontade. Sua externalidade corrompe minha autonomia. Ela é coercitiva. Ela é moral. Já as injunções, as diretrizes e as proposições dão-me dor de barriga, cólicas num anarquista tardio.

Claro, tudo é muito constrangedor, pois perdi a capacidade de trabalhar em equipe. E meu trabalho exige o trabalho coletivo. E odeio trabalhar com grupos de pessoas, principalmente as sorridentes, inclusive as mal-humoradas. A equipe é o cúmulo da civilização. Exige a virtude típica do convívio e da tolerância: a paciência.

Convenhamos, depois dos quarenta, perder a paciência é patético.

PS: será que o escrito acima implica, necessariamente, uma posição hedonista? E uma posição hedonista implica, necessariamente, um individualismo extremado? Creio que, aqui, o hedonismo remete menos a uma mentalidade do que a um corpo. Assim, o hedonismo implica uma corporalidade que lembra de sua história. Não é um corpo que oculta ou esquece de seu tempo — o corpo ascético que sofre para, justamente, esquecer. O hedonismo, dessa forma, seria uma filosofia do corpo reconciliado consigo mesmo, soberano, livre, autônomo, independente, em júbilo, e por aí vai.

Bem… er… ser hedonista depois dos quarenta, sinceramente, é o cúmulo da putaria.

E escrevi esse “PS” por causa da Lei Seca; sim, depois da sua instituição, bebo mais, embora em casa ou no bairro, não importa, bebo mais — conhecem-me, todas as sarjetas do quarteirão; os vira-latas, também. Ir ao bar de carro era, na verdade, um ritual que controlava o consumo alcoólico. Destruindo o ritual, desaparece o controle da bebida. Diante de mim, agora, só há uma cerveja, uma cerveja, uma cerveja! A Lei Seca é a apologia do alcoolismo. É o Estado ou o Biopoder enquadrando o corpo na bebedeira total. A Lei Seca, consequentemente, induz-me a escrever besteiras inomináveis. Hic!

Adolescência

9 de agosto de 2008, às 21:01h

Por algum motivo esquecido, ele procurava alguma informação sobre Santos Dumont no Google. Encontrou o nome “14 Bis”. Foi uma madeleine de Proust. Lembrou de tudo.

Tinha entre 16 e 17 anos e namorava Geneviève. Ganhara um disco e teve que engolir em seco. Ele era rockeiro e recebera como presente um disco do 14 Bis, aquele conjunto comandado por Flávio Venturini. Sorriu amarelo. Fez um esforço imenso. Tudo por amor.

Colocou pra tocar. Escutou “Todo azul do mar”. Descobria, sem querer, que a paixão era um processo intenso de abiscoitamento. Adorou a música. A letra era abestalhada, mas se derretia todo quando a ouvia. Passou a pensar que a paixão era um mar. Dizia a Geneviève que ela era seu mar. Ela se derretia toda. Ele começava a perceber que as palavras causam prazer e tempestade. Era tudo uma questão de forma. Antes de ser uma ética, a paixão é uma estética. Muito tempo depois, descobriu que o amor é que era uma imensidão, do tamanho do universo. Hoje, sabia que era a coisa mais importante do mundo. Mas, pensou, tudo continuava sendo uma questão de forma.

Ele ria muito quando adolescente. Ria por rir, e nunca ria de si mesmo. Geneviève e sua mãe adoravam seu sorriso. Oferecia o seu melhor e recebia, em troca, fatias de bolo de chocolate. Mas, apesar do chocolate, algo não estava bem naquela relação. Todo dia, ele andava 15 km de bicicleta até sua amada. Descobria, a cada dia, que sua paixão tinha sérios limites – 15 mil metros, para ser mais preciso. Não aguentava mais. A cada pedalada, um naco de sentimento escafedia-se pelo caminho. Chegava esbaforido na casa de Geneviève e já não achava graça alguma nas fatias de bolo de chocolate.

Começou a pensar seriamente em terminar o romance. Não tinha ainda a inteligência suficiente para imaginar uma solução um tanto óbvia: por que não, ao invés de todo dia, três dias de namoro? E ainda mais espaçados? Não, a mentalidade adolescente adora extremos: ou era o martírio cotidiano ou era o fim. De todo modo, pela primeira vez, entrava em contato com o supremo dilema masculino: como acabar uma relação?

Era um cartesiano. Tinha que fazer um plano. A situação era muito complexa: quando chegava de bicicleta, namorava um pouquinho no portão da casa de Geneviève; depois, atravessava a sala, falava com os pais, que assistiam à novela, e ia namorar mais um pouco no quintal. Assim, a logística era a seguinte: não podia acabar o namoro no quintal. Diante da conversa derradeira, Geneviève debulharia, certamente, em pranto. E, convenhamos, não podia passar de volta na sala com a coitada, ainda mais soluçando horrores, porque os pais desconfiariam do trágico final. Como acabar? A solução encontrada foi genial: namoraria no portão, passaria pela sala, sorrindo como de costume, namoraria no quintal, passaria na sala, novamente, rindo muito para ninguém suspeitar, e acabaria o namoro no portão, justamente na hora da despedida. A solução era mecânica e eficiente. De fato, era um cartesiano.

No dia, o plano funcionou, acabou o namoro na hora da despedida, mas não deu sequer um sorriso. Não conseguira. Ainda disse um clichê, que decorara no caminho, durante as pedaladas: _Geneviève, vc conseguirá superar tudo. Não se preocupe. Tenho certeza.

Tempos depois, Geneviève disse-lhe que sentiu um aperto gigantesco no coração, assim que o viu, pois soube, de alguma maneira, o que ia acontecer. Só não entendera por que a conversa final fora no portão. Ela reteria o choro para não constrangê-lo diante dos pais. Era óbvio que faria isso. Soubera, da pior maneira possível, que ele não lhe tinha confiança.

Ele sabe, agora, o quanto Geneviève sofreu, o quanto ele desconhecera seu sofrimento, o quanto fora insensível. Um dia, quando a encontrou, pediu desculpa, mas sem perdão. Sempre existe a melhor forma de se acabar uma relação, mesmo um namoro.

Tudo é uma questão de forma.