Arquivos para ‘Artigo’ Categoria

150 anos da Teoria da Evolução

17 de julho de 2008, às 8:06h


O que é a Teoria da Evolução?

Por Perrusi Pai

Em 1º de Julho de 1858, Charles Darwin e Alfred Russel Wallace, de comum acordo, leram duas comunicações, praticamente idênticas, na Sociedade Lineana de Londres. Ambos os naturalistas chegaram à conclusão de que a vida na terra evoluíra, do simples para o complexo, através do mecanismo da “seleção natural”. 

 

Na verdade, a idéia de evolução já permeava quase todo o pensamento científico do século XIX. Faltava precisar o conceito e definir os mecanismos naturais que a permitiam. É justamente sobre tais assuntos que os dois naturalistas, já famosos no Velho Mundo, escreveram. 

 

É ainda controverso quem primeiro formulou a teoria da Evolução, se Darwin ou se Wallace. Este último preocupava-se mais com viagens exploratórias, enquanto Darwin, depois de sua célebre viagem ao redor do mundo, a bordo do Beagle, juntava fatos, experimentava com pombos e consultava uma ampla bibliografia.

 

Contudo, é a publicação (1859) do célebre livro de  Charles Darwin “A Origem das Espécies”, fruto de mais de dez anos de pesquisas, que marca o ponto revolucionário no estudo da natureza vivente.

 

Daí em diante, embora incompleta, a Evolução derrubou, de uma só vez, quase todos os mitos criacionistas, explicando com uma simples idéia, que pode ser testada (como de fato vem se fazendo em todos os laboratórios do mundo, inclusive no Brasil), como a vida teria surgido de um ancestral comum. Não se precisava mais da intervenção sobrenatural divina para saber como a enorme variedade de animais e vegetais e, principalmente, a espécie humana teriam surgido no planeta.

 

Idéia simples, porém altamente perigosa para a ortodoxia religiosa, a Evolução, pouco a pouco, foi conquistando as academias e a mente das pessoas cultivadas, embora muitas vezes não chegasse a destruir a crença em divindades intervencionistas. De fato, a Evolução não explica como a vida surgiu. Nem tenta! Ela simplesmente procura explicar como a vida, já formada, evoluiu de formas simples para formas complexas ao longo de milhões de anos. 

 

O mecanismo descoberto por Darwin e Wallace, em síntese, pode ser descrito como uma adaptação dos mais aptos e, não, necessariamente dos mais fortes (como às vezes se pensa), aos nichos ambientais em que viviam e que variavam ao longo do tempo. Isso quer dizer simplesmente que as espécies que, por acaso ou por necessidade, se adaptavam melhor ao meio ambiente seriam mais capazes de se reproduzir em detrimento daquelas que, incapazes de adaptação, extinguiam-se com mais facilidade.

 

A poderosa idéia de Darwin, como a denominou Dennet, tornou claro o que estava envolto num manto obscuro de mitos, especialmente, os bíblicos com a célebre estória de Adão e Eva. Se pensarmos um pouco mais, chegaremos a ver que a Teoria da Evolução derruba, igualmente, o mito do “pecado original”, sob o qual se ergue, a partir de Saulo de Tarso e, principalmente, de Santo Agostinho, a própria idéia da salvação cristã.

 

Por outro lado, tornando legítima, cientificamente, o conceito de Evolução, o darwinismo penetrou em outras ciências, como a Paleontologia, a Paleoantropologia, a Cosmologia e, em conseqüência, a Física e a Química, a Psicologia, a História, entre outras e, especialmente, a Biologia que se completa depois da descoberta dos genes por Mendel. 

 

Sem a Evolução, praticamente a Biologia não subsiste como ciência experimental aceitável, por exemplo.

 

Mas, o caminho da Evolução foi lento e controverso até a década de 1950, quando Ernst Mayr realizou a “grande síntese” das diversas e díspares correntes evolucionistas. Depois disso, com muitas modificações, a Teoria da Evolução passou a ser aceita entre a esmagadora maioria dos pesquisadores, salvo, é claro pelos fundamentalistas criacionistas, hoje aformozados com o seu “design inteligente” que se pretende passar como ciência tanto quanto o evolucionismo biológico.

Na verdade, a Teoria da Evolução suportou a crítica ferrenha da ortodoxia religiosa durante os últimos 150 anos e, contudo, até hoje, continua gozando de excelente saúde.

 

O medo primordial

5 de julho de 2008, às 12:02h

Quando pequeno, era um assassino de lagartixas. Confesso minha crueldade, pois, além de matá-las, antes divertia-me fazendo vivissecções com as coitadas. Procurava sinais de dor de forma compulsiva. As lagartixas não gritam, e tal fato deixava-me maluco. Queria bater no peito e dizer:

_saibam que torturei uma lagartixa, e ela gritava de dor!

Um belo dia, inventei de assá-las lentamente. Foi, nesse momento, que fui pego por minha mãe quando mordiscava uma lagartixa. Ela olhava hipnotizada o rabo do bicho pendente na minha boca. Acho que o rabo ainda mexia, o que era muito engraçado. Ela quase que desmaia quando lhe ofereci, em forma de torresmo, as patas traseiras do bicho (_ali, quase virava infanticida — confessou, muito tempo depois). Minha família ficou escandalizada, seja com minha crueldade, seja com meu gosto culinário. Meu pai, preocupado com o meu destino, levou-me a um psicanalista. Depois de várias sessões, o vatícinio do seguidor de Freud foi a repetição da acusação tradicional:

_o problema é a Mãe!

Bem… er… talvez, esse especialista da alma tenha razão.

Eu me lembro da paixão por minha mãe. Nessa época, tinha entre três e cinco anos de idade e estava, segundo Sigmund, na fase fálica de meu desenvolvimento libidinoso. Em virtude desse sentimento devastador, cujo movimento levava-me à deriva pelos caminhos dos arquétipos primevos, queria cometer o parricídio para livrar-me de meu pai, ser horrendo e rival eterno que barrava-me o caminho à realização de meu desejo incestuoso.

Eu queria minha mãe e a queria falicamente, isto é, meu pênis, antes apenas um objeto assexuado, era agora um objeto fálico. Nessa época, investia no meu pênis-falo um formidável valor narcíseo: tal apêndice era o eixo de minha atividade sexual, o fulcro de meu orgulho egocêntrico e de minha afirmação de onipotência e completitude.

A paixão por minha mãe deixava-me completamente exausto, pois mobilizava todo um elenco de sentimentos horripilantes, oriundos das camadas mais arcaicas do psiquê humano: ciúme, inveja, ódio parricida, culpa, tremor e temor, etc. Além disso, tal situação confundia-me muito, pois sempre acreditara, até então, que existia um sexo, o masculino. Para mim, todos os humanos eram portadores de um pênis-falo, mas comecei a notar, no processo passional materno, que minha mãe e as meninas não tinham pênis-falo. Como era incapaz de distinguir a diferença sexual entre um homem e uma mulher, simplesmente permaneci fiel à minha teoria de que todos os humanos tinham pênis-falo, mas que alguns, por infelicidade, e para a minha extrema perplexidade, tinham-no perdido.

A angústia — esse estado arcaico, cósmico, que tanto Heidegger valorizou — tomou conta de mim, tirando-me o sono, uma vez que estava possuído dos mais escabrosos pesadelos, todos com apenas uma temática: a perda do pênis-falo. Eu tinha medo de perdê-lo, pois tinha descoberto que o poderia perder. Tal descoberta foi crucial e passou a ser o fundamento da minha vida. Eu vivia na perspectiva aterrorizante de ser castrado, visto ter notado que meu pai não tinha perdido o seu pênis-falo, inclusive, muito maior que o meu, e que, provavelmente, ao saber da minha paixão, infligir-me-ia retaliações terríveis, como a castração.

Depois de tudo isso, eu desisti, é claro, do meu furor passional por minha mãe. Meu pai tinha ganho, mas eu, pelo menos, tinha conseguido preservar intacto o meu pênis-falo. Contudo, toda desistência passional tem o seu preço e o meu foi adquirir um medo do feminino.

Lembro-me bem como era um patinho indefeso, protegido nas asas da pata-mãe. Sentia-me particularmente frágil naqueles dias nos quais ia comprar, por algum motivo materno insondável, roupas novas e era arrastado, dando gritos bestiais, ao cadafalso. Não existe coisa mais terrível, para um menino, do que comprar roupas com a mãe. Ela chega na loja e fica fuxicando com a atendente, olhando pra gente e dando risotas de escárnio, veste-nos mil vezes e nos deixa, horribile dictu, de cueca na frente de todas as mulheres da loja. E quando ensaiava alguma autonomia, mamãe-ganso prontamente assumia o controle, bloqueando-me toda iniciativa semântica e moral.

(Inclusive, passei a usar regularmente cuecas depois de uma dessas idas às compras. A cena é traumática: ao tirar as calças, descobri estarrecido que esquecera as malditas. As mulheres olharam-me com ironia, provavelmente para o meu diminuto pênis-falo, e tive, pela primeira vez, aquela vontade de desaparecer desse mundo velho e enfadado)

Com um passado desses nas costas, imaginem a situação de pânico diante da aproximação sedutora de uma fêmea voraz!

Não causa surpresa, pois, que até os 17 anos desconhecesse os rudimentos básicos de comunicação com leoas famintas. Uma vez, por exemplo, na época do científico, uma menina cobiçadíssima, como que por um milagre, escolheu-me como vítima. Não sabia o que fazer, estava nervoso, pensava humildemente só nuns “amassos” e pronto, retornando glorioso com a minha conquista. Qual o quê! Ela queria muito mais do que uns simples esfregões no canto do muro. Seu desejo transcendia, e muito, as minhas necessidades ingênuas. Ela queria algo que faria Torquemada condená-la à fogueira.

De fato, o demônio ficava me olhando com aquele sorriso voluptuoso de entrega total, bem como na sua testa aparecia, piscando em neon, a palavra “sexo”. Eu ria - no fundo de pavor - com um sorriso, digamos assim, não muito inteligente. Sempre, de alguma forma, escapulia. Insuflava-me, então, de coragem e dizia para mim mesmo, de forma retumbante: “da próxima vez, sim, claro, da próxima vez, quem sabe!”.

Nunca encostei uma unha nela.

Hoje em dia, a coisa melhorou um pouco, mas continua: tenho medo principalmente das psicanalistas. Tais criaturas pensam o óbvio quando reconhecem os desejos animais como o leitmotiv humano. Racionalizam e se apropriam teoricamente dessas pulsões e não param mais de fornicar. Nem sequer aceitam a possibilidade de, nesta ou naquela noite, não terem vontade de copular. Comumente, gabam-se em público de terem experimentado tudo em termos de sexo: “Já fiz de tudo. Nada do que é genital me é estranho” - dizem. Sem dúvida, são de causar arrepios…

Diante disso e como não acredito muito na psicanálise, procurei um método mais eficaz e, talvez, bem mais selvagem: busquei a ajuda do Reverendo Tsé-Tsé.

Tive uma conversa interessante…

_Reverendo, o senhor acredita que meu medo tem causas psicológicas?
_Que nada, menino, o medo do feminino é um troço de fundo antropológico. Você apenas retoma, de forma pessoal, esse pavor primevo.
_E mulher mete medo mesmo?!
_
Sem dúvida, a Mulher mete medo, sim; afinal, é um bicho esquisito, todo mês sangra e, além do mais, possui um catálogo de odores e secreções, líquido amniótico que, convenhamos, deixa qualquer um confuso. Aliás, o Papa, quando era chefe do Santo Ofício, perguntava ao seu guarda-costa grego: “não é do seu arsenal de perfumes lascivos que se utiliza a serpente da corrupção“?
_Não sei… Por que a corrupção? Ele falava de decomposição? E a ligação do feminino com a vida, com a fertilidade?
_O Papa é sabido. Uma vez, ele explicou ao seu guarda-costa marroquino que, a
pesar de anunciar no seu ventre a luminosidade da vida, ao mesmo tempo a mulher prenuncia, no preço pago à maternidade, a escuridão da morte. Não é à toa que ela é o símbolo da fertilidade, mas também símbolo do fim da existência. O que é a deusa Hela, da mitologia nórdica, rainha do reino dos mortos? O que são os diversos monstros femininos existentes nas crenças antigas, como mães ogras, como Medéia? Se ela representa a terra-mãe, não esqueçamos, contudo, que essa mesma terra é o solo onde enterramos os nossos mortos.
_ A morte é feminina? Exagero!
_Não, não, o negócio é mesmo confuso.
O próprio Sigmund reconhecia, quando fumava o seu charuto-falo, que na sexualidade feminina “tudo é obscuro (…) e bastante difícil de estudar de maneira analítica“. Um dia, ele desabafou e confessou que não sabia, afinal, o que as elas queriam. Nunca soube, aliás. A própria Simone de Beauvoir admitia que “o sexo feminino é misterioso para a própria mulher…“.

O Reverendo parou de falar, respirou fundo, procurando alento nalgum lugar da alma, e citou Duby (”A história do medo”):

Tal enigma, para os homens, aparece de forma um tanto ambígua. Nós a veneramos e, ao mesmo tempo, morremos de medo. Karen Horney, por exemplo, sugere como a fonte do nosso terror o fenômeno da Maternidade. Talvez isso seja verdade, visto que a maternidade remete à Natureza e os seus mistérios. A maternidade, assim, seria a fonte de tantos tabus, que ligaria a Mulher ao mundo natural e a informaria dos seus segredos mais recônditos. Tal ligação faria o elemento feminino representante da Natureza, ao contrário do masculino, representante da Cultura. Somos, então, “apolíneo e racional por oposição à Mulher dionisíaca e instintiva“, mais penetrada pela obscuridade, pelo inconsciente e pelo sonho.

_Veja, meu caro, o medo masculino da Mulher não pode ser reduzido, como queria Sigmund, ao temor da castração, pois vai além dele. Pra você ver, estudos antropológicos descobriram mais de trezentas versões do mito da vagina dentata entre os índios da América do Norte. Tudo bem, pode-se dizer que isso é estória de índio; no entanto, na Índia, encontrou-se o mesmo mito, só que numa versão um pouco diferente: a vagina não tem dentes, mas sim pavorosas serpentes.
_Cacetada! — exclamei.

Vaginas dentadas, pensei, não posso sonhar com isso, não posso sonhar com isso, fiquei repetindo para mim mesmo…

_Dá medo mesmo, né?! Depois que conheci Marocas, fiquei com medo é da libido feminina. Confesso a você que tenho pesadelos com a terrível deusa hindu, Kali, mãe do mundo, destruidora e criadora num só tempo, sorvendo minhas energias seminíferas e sacrificando todos os anos litros e litros de minha seiva vital. Já sonhei com uma Amazonas devoradora de carne humana; uma “Parca” cortando o fio da vida; uma “Erínea” assustadora, louca e vingadora, tão terrível que os gregos antigos “não ousavam pronunciar seu nome“.
_Não, não posso sonhar com isso! Tô lascado!
_Sonhou, lascou, meu filho. Seria no sonho que você é pego. Uma vez, quase que morro de tanto sonho erótico. No início, foi bom, depois virou uma maldição. Não aguentava mais. Vivia morto de cansado, acabado, deprimido… Além do mais, Marocas
é espantosamente insaciável, “comparável a um fogo que é preciso alimentar incessantemente, devoradora como o louva-deus“. Vou te dizer um segredo: acho que ela foi a inventora do sexo. Não sou ingênuo, pois sei muito bem que “o homem jamais é vencedor no duelo sexual“. Elas são, isto sim, os juizes de nossa sexualidade, impedindo de nós sermos nós mesmos e de encontrarmos a nossa salvação. Resisto bravamente, pois a Mulher é a carcereira do homem. Sou Ulysses, resistindo às seduções, pois sucumbir “ao fascínio de Circe é perder a identidade“.
_Ulysses?!
_Sim, Ulysses. Fiz minha genealogia e descobri que descendo de Penélope!
_É cada uma!
_Pois acredite. Só isso explica minha resistência e minha capacidade em dar conta de Marocas. Mas não tenho ilusão alguma sobre quem manda realmente na cama.

O Reverendo parou, novamente. Pigarreou, baixou a cabeça, puxou-me um pouco para baixo, como se quissesse contar um segredo.

_Uma vez, Zeus e Hera estavam discutindo sobre quem, o homem ou a mulher, tinha mais prazer no coito. Chamaram Tirésias (aquele cujo erro foi flagrar Atena no banho, ficando assim cego), que sabia o segredo de uma Ninfa, e lhe pediram uma resposta. Tirésias prontamente colocou que o prazer tinha dez partes, nove estavam com a mulher e apenas uma respondia pelo homem. Hera ficou fula e quis punir Tirésias, porque isso era o segredo dos segredos, do tipo que os videntes devem menos falar do que custodiar.

Arregalei os olhos. A conversa estava ficando muito estranha.

_Não acredita em mim? A verdade dói? Ora, vamos então comprovar essas teses com a ajuda dos clássicos, fonte de toda a sabedoria! Vejamos o que Ovídio, poeta romano, tinha a dizer sobre esse bicho bizarro, já em 20/10 a.C:

O amor furtivo agrada tanto aos homens como às mulheres; o homem dissimula mal, a mulher esconde o que deseja. Se ficasse combinado que nós não tomássemos a iniciativa, a mulher vencida assumiria aquele papel. Nos verdejantes prados, é a fêmea que relincha chamando o cavalo. Entre nós, o desejo não é tão furioso: o ardor dos homens respeita os limites da lei. (…) Em verdade, será mais fácil os pássaros deixarem de cantar na primavera e as cigarras no verão, será mais fácil o Cão da Menália voltar as costas à lebre, do que a mulher resistir às delicadas insinuações de um jovem.

_Meu Deus, o Cão da Menália — disse, desconsolado…
_Presta atenção. Ovídio é ingênuo ao pensar que a Mulher é passiva, ao ponto de esperar a nosso abiscoitamento para, então, tomar a iniciativa. Na verdade, a Mulher dissimula e finge passividade, pois como disse o nosso poeta, ela esconde o que deseja. Assim, Bernard Shaw via a passividade feminina na da aranha, que ocupa toda a rota do mosquito com a teia e espera que o mesmo caia e “insinue” que possa devorá-lo.
_Rapaz…
_Pois é…
Creio, assim, que o teu medo do feminino é bem fundamentado.
_Realmente, é pra ter medo mesmo…

O Reverendo fechou os olhos. Abriu a boca lentamente. Queria dizer algo? Pegou na garganta, como se quissesse puxar as palavras de dentro. Fitou-me bem sério e sussurou, olhando os lados:

_Eu nunca entendi a necessidade da sexualidade. É muito estranho. A nossa reprodução é feita por um órgão que só existe pela metade, fazendo-nos gastar muita energia e tempo à procura da outra metade. Por que é necessário juntar dois para gerar um terceiro e não apenas um gerando dois? Pergunta primordial.

Balançou a cabeça e eu, sem querer, balancei a minha mais ainda. Aumentou o tom da voz:

_Pense bem, a sexualidade não é uma condição necessária à vida. Existem numerosos organismos que não tem sexo e que, contudo, parecem bastante felizes. Reproduzem-se por cissiparidade ou gemulação. E por que não sucede o mesmo conosco? E por que dois sexos e não três? Imagine um mundo onde houvesse a necessidade de três indivíduos para a produção de um ser humano. Imagine as conseqüências de tal situação nos roteiros de cinema, na clínica psiquiátrica e para os juristas! Mas, talvez fosse demasiado; talvez não agüentássemos tantas delícias e tormentos.

Comecei a rir. Os psiquiatras ficariam ricos!

_Não ria. Isso é sério. Estive estudando alguns mitos e descobri que alguns consideravam a dualidade sexual como um fenômeno secundário. O que foi criado era um; somente depois se tornou dois. Mas quem quebrou então a unidade original? Para os Upanishads é o Deus que, querendo fugir à sua solidão, transforma-se em duas metades, dando origem à Humanidade. Em Zaratustra, Yima, o ser criado pelo demiurgo, representa uma espécie de monstro bissexual, que é cindido em dois. Aristófanes, no Banquete de Platão, descreve uma humanidade ainda no estado de androginia. Ah, era um tempo que só existia putaria entre os deuses e as deusas no Olimpo - profundos conhecedores do sexo! Nós éramos organismos esféricos e tínhamos uma cabeça de duas caras, quatro pés, quatro mãos, quatro orelhas e uma dose dupla de “partes vergonhosas”. Zeus, diante de tão descabidos seres, resolveu cortá-los em dois — “como se corta um ovo com uma crina“, precisaria, depois, Platão. Apolo foi encarregado da cirurgia estética, deixando-nos mais modestos, mas não menos apresentáveis.

Os olhos do Reverendo estavam rútilos. Já esbravejava. Ficou em pé. Apontou o dedo na minha direção e disse:

_Leia, seu ateuzinho, seu ímpio, o Velho Testamento. Tá tudo lá! O culpado da perdição de Adão, que era feliz apenas como um, mas infelizmente se tornou dois, foi a Serpente, que através de sua persuasão feminina, induziu Deus, esse pobre eunuco, a retirar Eva do nosso valoroso antepassado. O que é a vileza rastejante senão a personificação profana e terrestre da Mulher? A Serpente, que há muito tempo dominava Deus, queria dominar o Homem, criatura ainda indomável à maldade; assim, transmudou-se em Mulher e, desde então, o homem é apenas um reles animal servil. A Mulher e a Serpente são a expressão de uma mesma natureza e seu poder advém do sexo.

Houve um momento de silêncio. As palavras do Reverendo causavam tempestades na minha alma. Não quero sonhar, não quero sonhar, repetia, repetia… Quando parecia que o Reverendo retomaria o fôlego e, para o bem ou para o mal, a conversa, não mais do que de repente, Marocas entra na sala. Pensei que o pior aconteceria naquele momento. Tudo indicava que o Reverendo jogaria o Velho Testamento na cabeça de Marocas e a chamaria de Serpente vil e rastejante; mas, qual o quê, para minha surpresa, o Reverendo deu um sorriso quase celestial, seu rosto iluminou-se e disse meio encabulado, meio reverente:

_Môzinho, você chegou! Que bom! Tava com saudade! Você quer que eu faça um cafezinho, quer?!

(…)

Já de noite, escovava os dentes e olhava o espelho do banheiro. Pensava muito, o que é contraproducente quando se escova os dentes. Não queria dormir. Não queria sonhar com vaginas dentadas.

_Os homens são covardes…

Foi meu último pensamento inteligível, antes de ser devorado por gigantescas vulvas de caninos afiados.

1958

30 de junho de 2008, às 20:19h

Artigo muito legal de Alberto Helena Jr. sobre os jogadores campeões do mundo de 1958. Aliás, querendo assistir ao vídeo completo do jogo, cliquem aqui. Digo logo que vi o jogo inteiro. No início, até que a Suécia resistiu, mas depois… Curiosamente, o jogador que mais me impresionou não foi Pelé, nem mesmo Garrincha, mas sim… Didi! Que classe, que altivez! Incrível sua capacidade em dar um passe sempre bonito e certeiro. Outro que me surpreendeu foi Vavá. Não esperava que fosse habilidoso, achando que era um centroavante mais rompedor, qualquer coisa do gênero — ele voltava, inclusive, muito ao meio-campo para recuperar a bola.

Lá vai o texto:

1958: HERÓI POR HERÓI

Convido o jovem amigo, que não teve a felicidade de ver em ação os craques do Esquadrão de Ouro, aquele que nos deu a primeira Copa do Mundo, em 58, a uma breve e superficial incursão á história e ao estilo de cada um dos heróis inesquecíveis que entraram em campo na Suécia.

Gilmar dos Santos Neves, de talhe esbelto, tipo Van der Saar, embora mais baixo - alto, porém, para a média de sua geração (a turma cresceu, meu amigo, neste meio século passado) - era uma pluma flutuando diante do arco. Reflexos apuradíssimos, elástico, elegante em seus vôos de um canto ao outro de sua meta, era dono de forte personalidade e líder nato.

Surgiu no Jabaquara de Santos, no início dos 50, e transferiu-se para o Corinthians, como contrapeso, dizia-se, de Ciciá, volante de toque refinado que não deu certo no Parque. Gilmar disputava posição com Cabeção, egresso do Maria Zélia, glorioso time de várzea paulistano, e sofreu seu primeiro grande revés naquele célebre 7 a 3 da Portuguesa de Julinho, Renato, Nininho, Pinga e Simão. Afastado do time, perdeu para Cabeção a chance de ir à Copa da Suiça, em 54, mas se recuperou numa excursão vitoriosa do Corinthians pela Turquia e cercanias.

Outra excursão, desta vez á Europa, consolidou sua posição, em 1956, na Seleção Brasileira. Apesar das tragédias de San Siro e Wembley, quando o Brasil caiu fragorosamente diante de Itália e Inglaterra, Gilmar pegou dois pênaltis cobrados pelos ingleses.

Pra mim, o melhor da posição em todos os tempos. Em 59, transferiu-se para o Santos e formou na maior equipe de futebol de todos os tempos e quadrantes. Foi bicampeão mundial em 62, pela Seleção, e, no ano seguinte, pelo Santos.

De Sordi, que jogou todas as partidas da Suécia, até Djalma Santos substituí-lo na final, veio do XV de Piracicaba para o São Paulo, em 1952, e logo recebeu o apelido de Tourinho: baixinho, taludo, era um lateral-direito quase intransponível, que atacava pouco, mas bem. Canhoto, no entanto, capaz de trabalhar com a destra sem maiores problemas, tinha grande impulsão para o cabeceio e era aquele pau pra toda obra.

Já Djalma Santos era um monstro sagrado, desde a Copa de 54, quando foi eleito o melhor lateral-direito daquele campeonato pela imprensa mundial. Negrão forte, veloz, marcador implacável, gostava de atacar muito, e era exato nos cruzamentos. Foi titular em 62 e chegou até a disputar a Copa do Mundo de 66, já veteraníssimo,

Bellini, que mais tarde veio para o São Paulo, fez nome no Vasco, formando com Orlando, duro, mas mais técnico, a parelha de zaga do Brasil na Suécia. Bellini, alto, forte, era o que hoje se chama de Deus da Raça. Perfeito pelo alto. Já Orlando, mais atarracado, tocava melhor a bola e tinha um senso de colocação invejável. Jogou também na Itália e no Boca Juniors, onde até hoje é lembrado.

Na lateral-esquerda, Nilton Santos, a Enciclopédia, e isso resume tudo. Embora destro, dominou aquele espaço na esquerda durante quase vinte anos, com uma elegância de gestos sem par, uma inteligência luminosa e um domínio de bola diabólico, senão angelical. Foi Botafogo a vida toda e outras mais.

Dino Sani, que começou como titular, era um meia-armador que foi recuado para a posição de volante, o que lhe permitia, vindo de trás, explorar suas melhores qualidades: fôlego, centro de gravidade incrível (derrubar Dino era tarefa para mestre Bimba, rei da capoeira), visão de jogo, passe correto e chute de longa e média distâncias primoroso. Dino jogou no Comercial da Capital, no Palmeiras, no São Paulo, no Milan, no Boca e no Corinthians, que eu me lembre.

Zito, que entrou em seu lugar no jogo contra a União Soviética, foi do Taubaté para o Santos onde entregou sua vida, por quase vinte anos. Eclético, podia jogar, como jogou, de meia, volante, quarto-zagueiro e até de lateral, esquerdo ou direito. Veloz, hábil (driblava fácil na corrida, marcador firme, quando não maldoso, e incansável, era ali como médio apoiador, o volante atual, que ele se sentia mais à vontade. Líder por excelência, Zito foi fundamental não apenas na conquista de 58 como também em 62, quando encerrou sua participação com um gol de cabeça na decisão com a Checoslováquia.

Ao lado de Zito, na armação, Didi. Mestre Didi. Um dos maiores jogadores de futebol que já vi. Fala-se muito nos dribles de Garrincha, na genialidade de Pelé, nos gols de Vavá, na solidariedade de Zagallo, mas o grande arquiteto do título foi Didi, eleito o melhor jogador da Copa de 58.

Foi do Madureira para o Fluminense, e acabou sendo execrado na Copa de 54. Diziam que era um cai-cai. Frio, calculista, Didi, porém, jamais deixou de suar a camisa. No início, era um meia que esbanjava habilidade, driblador, sem nunca perder a pose: tronco reto, fronte erguida, olhar agudo para descobrir espaços onde só havia congestionamento.

Com o tempo, Didi, já no Botafogo, reduziu a velocidade em campo e conteve seus dribles ao essencial, afiando o passe, o lançamento mágico e o posicionamento em campo, que lhe permitia ser um extraordinário ladrão de bola a partir de sua própria intermediária.

Joel, ponta-direita veloz e cumpridor, embora não fosse brilhante, era de uma utilidade sem par, inclusive na volta para combater o lateral-esquerdo que avançasse (já avançavam, sim, naquele tempo, ao contrário do que muitos supõem hoje em dia). Trocou o Botafogo pelo Flamengo, numa transação tumultuada, e na Gávea construiu sua legenda.

Garrincha, ora, Garrincha. Garrincha era o gênio intuitivo. Pernas tortas (os dois joelhos confluíam para a esquerda), cabeça de passarinho, conseguia o prodígio de praticar, ano após ano, o mesmo drible pela direita, e ninguém o alcançava naquele arranque curto e fatal. Cruzava com maestria e batia bem na bola tanto com a direita como com a sinistra. Foi Botafogo até começar a definhar no Corinthians, no Flamengo…

Vavá, pernambucano de boa cepa, começou como meia-esquerda, ponta-de-lança, o que lhe conferia nível suficiente de habilidade. Mas, era, basicamente, o Peito de Aço, o artilheiro por natureza e vocação, rompedor, destemido, rápido na conclusão da jogada de área e bom de cabeça. Jogou no Vasco, foi para a Itália, e voltou ao Brasil para encerrar seu ciclo superior na Academia do Palmeiras dos anos 60.

Já Mazzola, cujo apelido foi herdado do grande meia italiano dos anos 30/40, era um tipo encorpado, loiro, rosto quadrado, parecia um tanto desajeitado quando começou a dar seus rushes num Palmeiras em baixa, nos meados dos anos 50. Ainda menino, chegou ao Parque Antártica em meados dos anos 50, e logo ganhou fama com suas arrancadas a partir do meio-de-campo e gols em penca. Tanto podia ser meia ponta-de-lança como centroavante. Transferiu-se naquele mesmo ano, depois da Copa para a Itália, onde até hoje é reverenciado como o Grande Altafini.

Dida explodiu como artilheiro daquele Flamengo tricampeão carioca, sob o comando de Fleitas Solich. Rápido na conclusão das jogadas, era um meia ofensivo, pela esquerda, que muito se aproveitou da genialidade do outro meia, Rubens, o Dr. Rúbis, que lhe enfiava bolas mágicas, jogo após jogo. Depois, Dida veio para a Portuguesa, onde também fez sucesso ao lado de Henrique, o centroavante que o acompanhou em muitas jornadas anteriores do Fla.

Pelé, passo. Nada a acrescentar a todos os compêndios que tratam desse verdadeiro fenômeno do século XX e seculorum. Aos 17 anos de idade, dado como impossibilitado de disputar a Copa pela grave lesão sofrida no jogo de despedida do Brasil, contra o Corinthians, entrar em campo contra a União Soviética e, no jogo seguinte, com o País de Gales, meter aquele gol salvador com dois chapéus sobre os beques dentro da área, o silêncio é mais eloquente.

Por fim, Zagallo, um prodígio de sorte e competência. O preferido de Feola era Canhoteiro, o Garrincha da esquerda, que jogava pelo São Paulo. Mas, boêmio, Canhoteiro escapou de uma concentração e levou o cartão vermelho da comissão técnica. A vaga, pois, seria de Pepe, o Canhão da Vila, ponta-esquerda lépido e fulminante nos chutes a gol. Pepe, porém, às vésperas da Copa, ao sair do chuveiro, pisa mal no tamanco e torce o tornozelo. Deu Zagallo, o Formiguinha, que começou no América como um meia-esquerda driblador, para se transformar num ponta-esquerda solidário, tanto no Flamengo quanto no Botafogo. E, com direito, a gol na decisão da Copa de 58.

Com disse, amigo, uma breve e superficial incursão na história e nos estilos dos nossos heróis de 58. Mas, para seu governo, eles foram mais, muito mais.

Momento filosófico

25 de junho de 2008, às 7:00h

Comte-Sponville:

Ética = conhecimento do desejo. O topo do mundo é a sabedoria.

Moral = conhecimento do dever. O topo do ser é a santidade.

Ética = ame, e faça o que quiser.

Moral = aja como se amasse, e faça o que se deve.

Ética + Moral: ame, ou faça o que se deve.  O topo da pessoa é a autonomia.

A “judicialização” dos inocentes

22 de junho de 2008, às 12:08h

Cacetada, hein?! Tempão ausente, hein?! Sem tempo para escrever. Resultado: os 2,8 leitores desse blog passaram a ser 1,7… Mas, mesmo assim, volto aos poucos. Não posso prometer nada. Condição estranha essa: a impossibilidade da promessa. Como controlar ou corrigir a imprevisibilidade, sem prometer? Sem a promessa, o futuro continuará incerto, certo?! Peço assim perdão, essa retificação da irreversibilidade — sem perdão, não há como mudar o passado, anulando as forças que pusemos em movimento. Sim, toda essa desculpa retumbante é apenas para dizer que continuarei um tanto ausente.

Porém, deixemos de delongas. Escrevo agora por um motivo premente. Escrevo para falar um pouco sobre a sacanagem que estão fazendo com Samarone, blogueiro e escritor do Estuário. Na verdade, escrevo apenas para dar a voz ao grande tricolor e fundador do Blog do Santinha. Nosso amigo está sendo processado por uma entidade lendária — sim, segundo as superstições que, feito um vento frio, assombram o Arruda, a criatura sai da sepultura na calada da noite para sugar o sangue dos tricolores. É uma figura notável da política pernambucana. É poderoso. Utiliza, contra Samarone, essa nova forma de calar a crítica e a liberdade de expressão: a “judicialização” da discussão e do debate. Criticou, meu chapa, tome processo! Não ouse utilizar a verve da crítica contra minha pessoa pública, pois utilizarei a arma da Lei! Critique, e lhe mando direto ao Anibal Bruno! Ora, é muito fácil quem tem poder e dinheiro processar quem não os tem — seria preciso ser muito crente nas ilusões da toga para acreditar na neutralidade da justiça brasileira.

Ah, o Direito… Jonathan Swift, nas Viagens de Gulliver, já falava dessa arte da persuasão, que maliciosamente convence o incauto de que o branco é preto e o preto é branco. Os advogados transformaram a velha arte da retórica num discurso de poder e de manipulação. O velho Marx denunciava esse universalismo abstrato do Direito que, concretamente, apenas reproduz a dominação de classe. Sem falar de toda uma tradição política que aponta o dedo para o verdadeiro fundador do Direito: a violência! A Lei é lavada todo dia com Omo Total, mas os pingos de sangue continuam manchando a toga branca de toda a justiça desse mundo.

Claro, claro, não concordo muito com essa visão do Direito, mas quando olho o Brasil, quando vejo nossos advogados, nossos tribunais, nossas (in) justiças… Sei não!

Quando leio abaixo a crônica de Samarone…

Anotações de um querelado

20 de junho de 2008, às 0:42h por Samarone Lima

justica.jpg

Eu sabia, por meio de amigos do meio jurídico, que corria uma ação cível contra mim e meu amigo Inácio França, também jornalista, por “difamação”. Ou seja, desacreditei publicamente de alguém, em algum dos meus muitos escritos. Fiquei quieto, aguardando o desenrolar dos fatos.

O “Mandado de Intimação” chegou na semana passada. A ação era bem mais grave: a de “calúnia”, na Oitava Vara Criminal da Capital. Neste caso, uma ação específica contra mim. Teria eu, em algum momento, jogado uma falsa imputação a alguém de fato definido como crime. Sou agora um “querelado” do Poder Judiciário.

Meu “querelante” se chama José Cavalcanti Neves Filho, ex-vereador da Cidade do Recife por quatro mandatos consecutivos e ex-presidente do Santa Cruz Futebol Clube, meu clube de coração.

Nesta quinta-feira, cheguei ao Fórum Desembargador Rodolfo Aureliano, que todo mundo conhece como o “Fórum da Joana Bezerra”. Usei pela quarta vez um terno bonito e calorentíssimo, comprado numa das pulgas de Paris, por três dólares. Rapidamente encontrei a Oitava Vara, que fica no final do corredor do primeiro andar. Sentei e fiquei à espera do meu advogado, o também tricolor Diego Galdino, amigo de comemorações cada vez mais raras nas arquibancadas do Arruda, nosso estádio. Então, inicio minhas anotações. As anotações de um querelado.

Sento em uma das cadeiras. São 13h30. Os advogados passam, com seus ternos pretos, alguns com pastas 007. Ao meu lado, três mulheres negras, possivelmente duas irmãs e a mãe. Todas as varas deste corredor são criminais. Elas conversam, desanimadas. “Está demorando, né?”. Uma sai, a outra vai atrás. A que fica, liga para alguém. “Oi, amor, botasse crédito no meu celular?”. Silêncio. “Não acredito. Pois vou tomar o dinheiro todinho de cachaça”. Escuto em silêncio e tomo notas.

Um advogado, bem moço, alto, limpíssimo, organizado, com um terno claro impecável, passa para a Oitava Vara. Tudo nele é polido. Ele volta, espera por algo, até sua paciência é polida. A rádio do corredor toca uma música norte-americana dos anos 80, uma daquelas românticas que dancei em alguma festa no Monte Castelo, em Fortaleza. Falava das coisas de sempre: “loving”, “hand”, “alone”, “anymore”. Faltou o “you”, mas deve ter sido distração minha. Toda canção de amor tem o “me and you”.

Olho novamente o mandado de intimação. Percebo que o nome do meu querelante saiu errado. A palavra “Neves” está escrita duas vezes. “José Neve Neves Filho”. Algum escrivão, escutando essas músicas românticas, repetiu o nome do querelante, dando-lhe uma certa redundância. Olho meu nome: Samarone Lima. Faltou o “de Oliveira”, que é meu nome completo. Sinto que comecei com uma leve desvantagem de palavras. Meu querelante tem um nome a mais, e toda a minha linhagem paterna, os “Oliveiras” foi subitamente excluída. Tudo bem, é só o começo.

As duas mulheres voltam. Falam de crédito do celular, alguma fatura para pagar do “Comprebem”. Passa uma moça excessivamente bonita, alta, com o nariz avermelhado. Está chorando, um choro contido, sem alarde, sem soluço, escondendo as lágrimas entre os dedos finos, para ocultar alguma dor. Será uma querelada? Ela entra na Nona Vara, mas deixemos a moça em paz.

Aguardo olhando, escutando. Ao meu lado, os diálogos continuam. “Alô, Diz. Nada? Ôx, vamos sair daqui cinco horas da tarde? É de que horas isso? Ôx!”. Minhas amigas estão indignadas. “O Cabra disse que vai ser lá para três e meia”.

Olho para o relógio. São 13h43.

Olho para o mandado novamente.

“Audiência de tentativa de reconciliação, nos termos do art. 520, do CPP”.

Descubro que preciso de um Código de Processo Penal. Aceito doações.

“… ficando ciente que o não comparecimento do querelante importará em extinção da punibilidade por perempção (art. 107, inc.IV, do CP e art 60. inc III, do CPP) e a ausência injustificada do querelado será interpretada como recusa em conciliar”.

“Ele disse que era de meio dia. Vai levar um baile”, diz uma das mulheres, a dona do celular, a mais exaltada, interrompendo minha leitura jurídica.

De repente, o fluxo da memória abre um clarão. Lembro de maio de 2004, quando fui acusado de “Resistência” (artigo 329 do CPB) por um sargento da Polícia Militar. Meu crime foi avisar ao chefe da guarnição policial, que os torcedores não deviam ser agredidos gratuitamente por policiais, ao final de um jogo no Arruda. Minutos depois, eu estava dentro de um camburão.

Foram três audiências no Juizado Especial Criminal do Recife, mas o sargento nunca compareceu, e a ação foi extinta.

Descubro que meu clube de coração tem me causado problemas, mas não é propriamente o clube, é uma cultura de violência, de confronto. Até a última audiência, esperei encontrar o sargento. Queria saber se ele já estava mais tranqüilo, se ele tinha revisto sua atitude profissional, dizer que aquilo tudo poderia ser de outra forma, e que no fundo, poderíamos ser amigos, tomar uma cerveja e apertar as mãos. Nunca mais o vi, mas lembro sua expressão de ódio, quando me recusei a retirar a ocorrência na delegacia. O ódio, especialmente o gratuito, sempre me deixa assombrado.

Meu advogado chega. Somos informados que o querelante não compareceu, mas justificou a ausência (caso contrário, haveria a extinção da punibilidade por perempção). A delicada atendente, Rosana, remarcou a audiência para 6 de agosto. Recebi uma cópia da queixa-crime ou “as iniciais”, como bem me avisou uma amiga advogada. São 15 páginas, redigidas e assinadas por quatro advogados. Ao final, requerem que eu seja interrogado, que sejam solicitados meus antecedentes criminais, e que terei violado os artigos 138, 139 e 140 do CPB.

O último parágrafo:

“Ao final, REQUER-SE se seja a ação julgada procedente, condenando-se o QUERELADO nas penas previstas no art. 138, 139 e 140, do CBP, designando-se o Presídio Aníbal Bruno para o cumprimento da pena”. As palavras estão escritas assim mesmo, com letra maiúsculas, o que me parece um grito.

Era uma coisa que eu nem sabia, que o querelante pode até escolher onde o querelado vai cumprir a pena.

Dali, saímos para outra Vara Criminal, onde tramita a ação contra a dupla Inácio e Samarone. É um processo gigantesco, com cinco volumes. Uma despachada funcionária traz os volumes, para nossa apreciação. Fiquei imaginando o quanto isso custa ao País. Há inúmeros Sedex com meu endereço antigo, com intimações, centenas, talvez milhares de páginas escritas,fotocópias de textos, alegações, despachos de funcionários do Poder Judiciário, carimbos, novas intimações.

Do quarto andar daquele imenso prédio, vi o Coque, e lembrei imediatamente do Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis (MABI), criado pelos jovens da comunidade, que lutam contra a violência e pela cultura no bairro. Na minha cabeça, passou o filme dos encontros na Biblioteca Popular do Coque, que funciona a 500 metros dali, mantida pela raça e resistência da comunidade. Me veio o sentimento de que o Brasil é um país onde mundos não dialogam, e por isso, tanta violência, tanta dor, tanto sofrimento, tanta raiva e tanto rancor. Tantos querelantes e querelados.

Descemos, tiramos cópia de tudo. Fui conversando com meu advogado, o Diego Galdino, uma pessoa de uma extrema gentileza e educação, um homem afável, de gestos tranqüilos e voz serena. Desconfio que ganhei um novo amigo.

Lá pelas tantas, com nossas cópias todas em mãos, já saindo do fórum, falamos do dia 6 de julho, quando o Santinha estréia na Série C, em Campina Grande, contra o Campinense. Descobrimos que estamos no mesmo ônibus, um dos 15, que vai levar a torcida ao jogo.

Meu espírito quimérico entendeu que atravessarei com serenidade mais uma querela. Aguardemos, meus amigos, aguardemos.

Para o Diego Galdino, tornado amigo.

A pernambucanidade

22 de junho de 2008, às 9:02h

Terra dos Altos Paranormais!

_É claro que somos superiores - disse a um gaúcho. Era um amigo meu, autêntico representante de um povo viciado em chimarrão, droga tão perigosa, que é impossível contê-la, mesmo através de uma política de redução de danos.

Sou pernambucano, um ser superior. Todos, aqui, na terrinha, nascem com poderes paranormais. E sabemos disso, sim. Temos plena consciência de nossos poderes. Tanto é que a Constituição de Pernambuco, nossa constituição, da qual me orgulho muito, reconhece a assistência à paranormalidade. A única que faz isso no planeta, vale dizer. De Pernambuco para o mundo!

DA ASSISTÊNCIA SOCIAL

Art. 174 - O Estado e os Municípios, diretamente ou através do auxílio de entidades privadas de caráter assistencial, regularmente constituídas, em funcionamento e sem fins lucrativos, prestarão assistência aos necessitados, ao menor abandonado ou desvalido, ao superdotado, ao paranormal e à velhice desamparada.

Claro, ainda falta o reconhecimento assistencial aos mutantes - nós, os membros da família Perrusi: meu pai, com seu magnetismo, quebra qualquer objeto eletrônico, principalmente computadores. É um matricida: destrói toda e qualquer carta-mãe.

Minha mãe é capaz de perder todo objeto na sua frente, principalmente quando o coloca na sua bolsa, que é, segundo cientistas da Nasa, um pequeno buraco negro. Inclusive, um deles, coitado, um americano todo cheio de boa vontade, foi olhar a bolsa por dentro e desapareceu para sempre.

Minha irmã é capaz de confundir qualquer pessoa quando discute - pode ser um gênio, possuir uma integridade cognitiva impressionante, mas discutiu um pouquinho de nada com minha queridinha… pumba!, não tem jeito, o efeito é imediato: dias na maior confusão mental, ciscando feito uma galinha. E eu?! Bem… er… vamos mudar de assunto!

NONSENSE

22 de junho de 2008, às 8:00h

Benjamim já alertava: “o momento é de perigo”. Mas nossa situação, por enquanto, está mais para o nonsense. No fundo, nada de novo no front, apenas o contumaz. Olha-se, olha-se e não se vê nada e ninguém. O Brasil parece aquele diálogo entre Alice e o Rei:

_Ninguém está na estrada - disse Alice.
_Ah se eu tivesse olhos assim - o rei observou num tom irritado. _Ser capaz de ver Ninguém! E, além disso, a uma tal distância! Ora, o máximo que consigo com essa luz é ver pessoas de verdade!

É esse o nosso problema: estamos rodeados de pessoas de verdade…

Queimar a rodinha

21 de junho de 2008, às 14:15h

Não gosto muito de São João. Desde pequeno, aliás. As comidas são primitivas, o forró é uma música absolutamente repetitiva e sua dança não tem muita graça. Forró só não é pior do que o frevo, e este só perde para a pernambucanidade. Além disso, na festa junina, há milênios, anunciando os novos tempos, queima-se a rodinha. A liberdade é total: todo mundo pode queimar a rodinha à vontade, sem constrangimentos, sem repressões, sem ninguém pra ficar dando pitaco. Claro, nos outros meses, é estranho fazer tal coisa, mas queimar a rodinha, em Junho, esteve sempre liberado! Agora compreendo por que fulano sempre afirmou que a melhor festa do Brasil era o São João.

- Ah, Artur, queimar a rodinha tem a ver com liberdade, sei lá… Liberdade é a liberdade de queimar a rodinha. É uma sensação tão agradável, super gratificante, arrepiante. Entre a poesia de Borges e a prosa de Lautréamont, sempre dou um jeito de queimar a rodinha - dizia o ninfeto.

(rodinha: peça pirotécnica que gira ao acender-se o rastilho de pólvora enrolado a um disco de papelão ou a uma rodinha de madeira - daí o nome. Para queimá-la, pega-se um cabo de vassoura, bota-se um prego na ponta e a rodinha na ponta do pau (ops!). Então acende-se o fogo na beirinha da rodinha, com muita paciência e cuidado, e pronto!, ela gira feito louca, soltando faíscas e fazendo uma zoada da bexiga. O espetáculo é intenso, e todo mundo nota que você está queimando a rodinha)

Tsé-Tsé na UTI

11 de junho de 2008, às 16:51h

Por Perrusi Pai

Na última carta do Reverendo, ele afirma que viu o Psiquiatra de Intermares na porta da UTI, fato que me pareceu estranho, por demais até. Questionado por mim, aquele seguidor de Hipócrates confirmou o fato, embora, segundo ele, tenha sido por mero acaso desde que lá estava pra socorrer um velhinho que, na UTI, havia tido um “surto de infantilidade”. Pura hipocrisia psiquiátrica, a meu ver (não é por acaso que a palavra “hipócrita” deriva do nome do antigo médico grego), hehehe…

Em suma, Perrusi Filho sabia das condições do Reverendo e não avisou a ninguém. Além disso, ficou gozando o sacerdote o tempo todo no seu Blog por causa de uma ausência forçada pela doença.

Mais ainda. Tsé-Tsé me afirmou que o Psiquiatra visitara várias vezes sua palafita, sempre lhe aplicando drogas estranhas que retardaram a sua recuperação, deixando-o no estado lamentável em que o encontrei.

Por isso mesmo, sempre advoguei que os Psiquiatras deveriam ser extintos, como os dinossauros, ou, então, se converterem ao eco-turismo como, por exemplo, face à miséria do futebol nacional e por conta própria, o Santa Cruz decidiu fazer.

Eis o resumo da Segunda Epístola do Reverendo Tse-Tsé:

“Irmãos:

Depois de passar pelo irmão Psiquiatra à velocidade da luz, o maqueiro me jogou numa pequena cama de campanha na UTI do Ambulatório “O Brasil para Cristo”, mantido pela Universal do Bispo EdMac.

Em seguida, chegaram dois irmãos enfermeiros que amarraram minhas pernas com arame farpado sob o pretexto de que estava proibido de mexê-las por vinte e quatro horas. Medida preventiva, desde que sofro da “síndrome das pernas inquietas”, doença descoberta, aliás, pelo próprio Bispo em sua esplêndida residência de Miami.

A UTI era mais um pardieiro que abrigava cerca de cem pacientes, uns dormindo, uma boa porção em plena agonia, alguns já cobertos até o rosto com lençóis imundos, prontos para o necrotério, poucos, muito poucos, lúcidos como eu. Na parede dos fundos, os pedreiros estavam colocando massa de gesso numa das paredes, o que provocava uma poeira infernal na sala.

Chamei a plantonista, uma velha senhora que estava sentada no meio da sala. Todos, inclusive os que já haviam embarcado para o Reino do Senhor, estavam de máscaras de proteção contra a poeira. Menos eu, menos eu. Por quê?

— Desculpe, Reverendo! O Ambulatório só tem cento e duas máscaras e o senhor foi o último a chegar. Ocorre que uma delas quebrou e o jeito é o senhor se virar. Use o método da Doutora Wilma. Um minuto sem respirar, outro respirando. Assim, o senhor economiza 50% de poeira. Ou, então, um minuto respirando, dois sem respirar. Muito melhor porque seu índice chegará a 25%, segundo os cálculos de nosso Bispo.

Preferi meu próprio método e passei um minuto sem respirar e cinco respirando com poeira e tudo.

Enfim, o arame farpado nas minhas pernas já me dava preocupação mais do que suficiente. Respirar poeira talvez fosse mesmo o melhor para o embarque para o outro lado do rio, que me parecia próximo. Mas, enquanto o momento não chegava, chamei novamente a plantonista.

— Irmã Doutora Plantonista! Não deixe o Psiquiatra de Intermares se aproximar de mim. Ele quer me dar remédio de doido. Como dá pra perceber, aqui não é nenhum asilo. Esses malucos acham que todo o mundo é doido, quando eles é que o são. Já pensou, Irmã Doutora! No Brasil, existem cinco mil Psiquiatras, não contando com os amadores freudianos. O desejo deles é colocar nossos milhões de cidadãos no asilo e fundar uma República Para-Mental, governada por eles próprios. Vai ser uma desgraça e a Dra. Dilma não será mais nossa Rainha nem tampouco nosso amado Bispo será nosso Pontífice Máximo, sem contar que Nosso Líder será rebocado para Garanhuns, onde exercerá o cargo de “Garanhão Maximus”, criado por ele próprio.

— É verdade! Fiquei horrorizada com Nosso Líder porque sou de lá. Imagine como ficará minha reputação! Nunca vi uma coisa dessas. Mas, sossegue, Reverendo! Além da velhinha de foice, aqui não entra mais ninguém. — Respondeu a bondosa irmã.

Comecei, então, mais calmo e seguro da minha recuperação, a cubar o ambiente, apesar da poeira. Percebi, junto de minha cama de campanha, um velho se ultimando, repetindo umas coisas como se fosse um refrão:

— Gau, Gau! Querem roubar meu dinheiro.

— De quem se trata? — Perguntei.

— Esse talzinho é o Dr. Miguel, o avarento mais rico de Caetés. Tamos vendo se ele dura até amanhã pra assistir ao casamento da filha. Tem uma junta médica que vem visitá-lo. Na verdade, vem é cobrar os honorários que ele deve. Além disso, o filho mais velho tá querendo que ele assine um novo testamento pra ficar com todos os bens da família. Vigarista descarado!

— Gau, Gau! Querem roubar meu dinheiro. — Repetia o velhinho.

— Irmão Miguel! Tá sentindo alguma coisa? — Perguntei ao meu companheiro de poeira.

— Tô! Querem roubar meu dinheiro que ganhei com tanto sacrifício.

Cinco minutos depois, entrou um senhor todo de branco, gravata vermelha e sapatos pretos. Era o Clínico Geral do irmão Miguel. Mediu a febre e disse baixinho: Pôrra! 42º e esse sacana não morre. Já me deve 25 honorários e não quer pagar.

— Pago depois do casamento. Vá ao meu escritório receber seu cheque. — Respondeu o irmão Miguel.

Mais alguns minutos, chegou o Gastro. Examinou a barriga do paciente, deu umas pancadinhas no fígado, virou-se pra mim e disse:

— Cirrose das piores, além de hepatite C. Num tem jeito. Não passa desta noite.

— E quantos honorários ele lhe deve? — Perguntei.

— Todos! Sou seguidor do Bispo e não perdôo um centavo.

Chegou, então, o pneumologista.

— E, então, velho safado! Como vai o seu cancerzinho de pulmão? Do esquerdo, porque o direito já foi retirado há muito tempo.

O irmão Miguel tossiu devagar, piscou o olho pra mim e disse:

— Gau, Gau! Se tirou meu pulmão, o senhor é que me deve. Passe lá no meu escritório depois do casamento e entregue o dinheiro à secretária.

Finalmente, chegou o cardiologista. Mediu a pressão, botou o ouvido no peito do irmão Miguel e falou:

— Já mandou comprar o remédio que indiquei?

— Não! É muito caro. O Hospital devia dar de graça.

— Dr. Miguel! O senhor sabe que está lascado de vez. Esse coração pode não agüentar até o casamento de sua filha. Quanto aos honorários, já entrei na justiça. Não precisa se preocupar.

— Ótimo! O Desembargador é meu amigo e me deve uma nota preta. Lascado está é o senhor. — Respondeu o irmão Miguel.

Logo depois, veio a surpresa. Um rapaz bigodudo, de calça jeans, sapato de tênis e camisa da Coisa se aproximou.

— Dr. Miguel! Faço parte da Associação dos Médicos Voluntários da Paraíba e me disseram que o senhor está doente.

— Mentira! Tô bonzinho. Pergunte aí ao Reverendo.

— E esse tal de Gau, Gau?

— Antes do casamento, quero comer o mingau de minha vó.

— E eu quero um suco de tangerina tirada do pé. — Interferi no diálogo.

Virando-se pra mim, o falso bigode caiu no chão, desmascarando de vez o falso torcedor da Coisa. Era o Psiquiatra de Intermares, disfarçado. Sem a mínima vergonha na cara, falou:

— Reverendo! Trouxe uma injeçãozinha pro senhor, recomendada pela Dra. Dilma. É pra dormir melhor e só acordar no seio de Abraão.

— Dispenso, dispenso! — E comecei a gritar.

— Plantonista! Plantoniiiiiista!

O falso médico saiu correndo e já deveria estar perto de João Pessoa.

Enquanto isso, um padre católico romano dava a extrema unção a uma freira bem aproveitável, do outro lado de minha cama.

— Não adianta, Padre! Já conversei com ela. Disse-me que não acreditava mais em nada.

— Não se meta, seu herege! — Respondeu o Padre rispidamente.

— Olá, Reverendo! Como vai o senhor? Está se lembrando de mim? Sou a freirinha de Tamandaré. — E, voltando-se para o padre, disse:

— Adianta, sim, meu caro Padre. É melhor o senhor ir para a Rua do Caixa Prego que lá todo mundo acredita nessas baboseiras. De minha parte, cumpri minha missão. Dormi com a Madre Superiora e lhe ensinei foi coisas. Depois, comi o sacristão, o pároco de Tamandaré, o Bispo, o Arce - Bispo e só faltou Bento cair na minha sedução. Não deu tempo. No fim do ano, ia pra Roma justamente pra isso. Tsé-Tsé me ensinou tudinho. — Respondeu a freira, com um sorriso safado e quase final.

— E, então, irmã, já decidiu para quem torce, Assis ou Xavier? — Perguntei.

— Por nenhum dos dois. Aliás, depois daquela maravilhosa noite em sua palafita, não acredito mais em porra nenhuma. Deu o último suspiro e se foi para a cucuia.

Virei-me pro Dr. Miguel e só deu tempo de lhe dizer pra não assinar o novo testamento do desgraçado do filho.

— Gau, Gau! Jamais assinarei. Mas, vou lhe dizer onde está meu dinheiro, já que o senhor tampouco passa desta noite. Vá, se puder, a Caetés, e revire uma pedra branca que existe na montanha da “Caninha Branca”. Pode ficar com tudo que, agora mesmo, resolvi que era melhor descansar. Minha filha que se vire com o sacana do noivo.

Logo depois, chegaram dois enfermeiros que cobriram o corpo do irmão Miguel. Anotei o endereço da fortuna do falecido e, assim que pudesse, iria dar uma olhada. Se fosse verdade mesmo, empregaria todo aquele dinheirão na melhoria das palafitas.

Saí da UTI no dia seguinte com as pernas sangrando por causa do arame farpado. Mas, vivo e entusiasmado, embora com minha horta mutilada. Notei que ainda saía um pouco de gás butano, não sei por onde.

Nos primeiros meses de recuperação, recebi o Psiquiatra de Intermares na minha palafita, por mera cortesia para com seu honestíssimo pai. Ele sempre trazia uma injeção chamada Dra. Dilma e uns papelotes com propaganda eleitoral que me obrigava a engolir. Piorei pra dedéu. Caí em depressão profunda e se não fosse a bondade do Irmão Perrusi Pai não estaria escrevendo esta carta.

Minha bênção aquiabada,

a) Reverendo Tsé-Tsé.

A horta do Reverendo Tsé-Tsé: O Martírio do Reverendo

31 de maio de 2008, às 19:07h


Tsé-Tsé, tentando fugir de Marocas

 

Por Perrusi Pai, Mor, Mer, sei lá…

Exatamente um mês depois de minha visita, Tsé-Tsé me escreveu duas cartas, aparentemente amalucadas, com fortes pressões paranóides, embora com um estilo bastante elegante. Em primeiro lugar, ele reverbera contra o Blog que me chama de Perrusi Mor. Depois se emociona com a menina que pede sua volta e concorda com outra menininha, cujo nome esqueceu, que sugere que ele teria virado um crocodilo.

De fato, como ele afirma, era isso mesmo que sentia depois de tudo por que passou. Um crocodilo escondido debaixo da cama, sem rabo, sem dentes, com as patas cheias de rachaduras e com um mau hálito desgraçado. Finalmente, faz uma grave denúncia, acusando Perrusi Filho que, como Psiquiatra,  receitara-lhe alguns alucinógenos que o levaram a pesadelos indescritíveis. Tse-Tsé acusa Perrusi Filho de querer se vingar, porque ele afirmara, durante uma consulta noturna anterior, que o Santa Cruz estava sendo usado como adubo em sua horta comunitária.

Na verdade, já curado de tudo por efeito dos chás miraculosos do Dr. Quim, ele começa a carta falando de fatos, a meu ver, oníricos, sem juntar coisa com coisa. Depois, retoma a razão de sempre e reassume a presidência de sua ONG de Proteção aos Sapos. Não sei o que pensar disso tudo, exceto levantar uma pequena e, talvez, irrelevante hipótese de que nosso país enlouqueceu de vez. E com o país, o Blog, os Perrusis Mor e Mir e, até mesmo, o próprio Reverendo.

Transcrevo apenas os principais trechos das cartas para não encher o saco dos leitores.

Primeira Epístola Universal do Rev. Tsé-Tsé.

Irmãos:

Não sei se pesadelo ou realidade, o fato é que, depois de tomar umas pílulas trazidas pelo Psiquiatra de Intermares, ouvi, de repente, os gritos confusos de Marocas sobre o transatlântico “EMOÇÕES” de Roberto Carlos.

- Que saco! — Resmunguei.

Detesto a mania de Marocas por tal canastrão. De qualquer forma, corri para a varanda de nossa palafita e, por incrível que pareça, lá estava o grande navio ancorado na margem oposta do rio despoluído, todo brilhante e colorido.

Chamei Dr. Quim. Só podia ser miopia ou alucinação. Não era! Do navio, uma lanterna apagava e acendia em nossa direção. Nosso curandeiro interpretou como sinais de morse, perguntando sobre os quiabos de um metro e meio de nossa horta comunitária, plantada, com adubos naturais, no mangue bem abaixo das palafitas. Não sei por que apenas se interessavam pelos quiabos. E nossos maxixes de dois quilos e meio? E nossos tomates do tamanho de melancias? Explicaram que eram ordens de RC que queria comprar um quiabo gigante.

— Pra meter aonde, ninguém sabe…— Resmungou Zé malandro.

Segundo Quim, tratava-se de um agente da Vigilância Sanitária que viria no dia seguinte inspecionar nossa plantação. Que viesse! Esperava apenas não ter tonturas nem dores abdominais que, de vez em quando, me acometiam. Não que atrapalhassem meu trabalho assistencial, mas Quim insistia que eu fosse fazer exames no tal Hospital, onde doei minha vesícula e cujo diretor era muito amigo de Zé.

Na verdade, nem esperei que a Vigilância chegasse. De madrugada, fiquei tonto novamente e Quim me fez beber dois copos de chá de folhas do manguezal por causa das dores infernais de minha barriga.

Foi o jeito! Zé Malandro foi na frente pra falar com o Hospital. Logo depois, peguei minha Lambreta e fui com o Dr. Quim na garupa para uma consulta. E foi aí que tudo começou. Um drama desgraçado de ruim que só pode acontecer a um pobre sacerdote excomungado como eu.

Na rua do Hospital de gente rica, senti-me tonto de novo e cai da Lambreta bem no meio de uma poça de lama, defronte de um ambulatório da Igreja Universal do tal bispo de não sei quantos dias que ainda faltam.

Quando acordei, uma voz roufenha me disse:

— Reverendo! Acabamos! Cirurgia nota 10! Está curado pela graça de Deus! Aleluia, Glória a Deus!
— Quem é o senhor? E que diabo de cirurgia foi essa? — Perguntei.
— Sou o Pastor-Cirurgião. Colocamos uma peça de aço com um chip na sua barriga. Agora, o senhor não passa de um Cyborg.
— E quem mandou, e quem mandou? E pra que serve, e pra que serve?
— Uma longa história, Reverendo. Quem me contou foi o próprio Bispo EdMac, meu sacrossanto chefe e condutor das almas perdidas. Mas, acho que o senhor está muito fraco pra ouvir tudo isso agora. — Respondeu a voz cavernosa.
— Não tô fraco, porra nenhuma! Vou sair daqui correndo pra dar queixa ao Nosso Líder.
— Não pode! Aliás, não pode nem mesmo andar. Vai ficar com as pernas amarradas por vinte e quatro horas na UTI para consolidar a fixação do tubo de aço. Mas, já posso adiantar alguma coisa para não perturbar sua recuperação. Quando o senhor caiu na poça de lama, nossos seguranças o trouxeram direto para o Bloco Cirúrgico. Chamamos o Pastor da Clínica Geral, cujo diagnóstico, guiado pelo Espírito Santo, foi preciso. Sua horta tinha um neurismo do tamanho de um bonde e a cirurgia era urgente.
— É mentira! É mentira! Era só uma dorzinha de nada e umas tonturas. — Interrompi o auto denominado cirurgião.
— Bobagem de bobagens, Reverendo! Nosso ambulatório é o melhor do Brasil. Temos 2003, espalhados pelo país, através de um convênio com o PAC da Doutora Dilma e nosso Bispo. Nossa missão é transformar todos os líderes de comunidades rebeldes em Cyborgs que obedeçam, religiosamente, às ordens de nossa Ministra, pelo menos até 2010, quando ela será eleita nossa Rainha Dilma 1ª. Além disso, a partir de agora, se o senhor falar mal de Nosso Líder, futuro Primeiro Ministro do Reino, e de nossa futura rainha será punido com choques homeopáticos na barriga.
— Aquela víbora gorducha, ai, ai, ai… — Gritei, sentindo um choque elétrico bem acima do estômago.
— Já falei! E isso foi só uma advertência. Mas, o senhor devia estar nos agradecendo pela operação. Encontramos na sua horta um maxixi podre, três fiapos de quiabo amarelo e umas cinqüentas sementes de tomate gigante. Cortamos tudo e, com a Graça de Deus, emendamos sua horta com um pedaço de PVC.  O chip GPS está ligado ao Planalto, tô logo avisando. Como o senhor percebe, nosso ambulatório ainda está em acabamento e não tínhamos o material apropriado. Felizmente, no entanto, o seu acompanhante, o ilustre Dr. Quim, teve uma idéia genial. Foi na cozinha e roubou um pedaço da mangueira do bujão de gaz. Com isso, completamos o serviço e emendamos sua horta com cola-tudo, feito de veneno de cobra coral lá mesmo no Laboratório de vocês.

(Nota de PP: então era isso a coisa durona que PF notou  na barriga do Reverendo)

— E quanto vai durar esse troço? — Perguntei alarmado.
— Não se preocupe! O tubo dura uns trezentos anos. Pra alegrar sua vida, pintamos nele o escudo do Santa cruz. O time vai ficar escondido na sua barriga por uns vinte anos, quando a tinta começa a se dissolver. Idéia também do Dr. Quim.
— Tudo bem! Então já posso voltar pra casa?
— Já lhe disse que não. Se tentar, a barriga se rasga e aí a gente não garante nada.
— E, pelo menos, posso chorar? Tô com uma vontade danada.

O Pastor Cirurgião então começou a rir e me disse:

— Sossegue, meu caro Reverendo. Tava brincando com o tal chip GPS. Pode continuar a falar mal de quem quiser com sua língua de trapo venenosa. Já basta seu time de merda ter desaparecido do mapa. Posso lhe garantir que ninguém vai impedir a Doutora Vilma de ser nossa rainha. Eleita pelo povo, ainda mais.

Um maqueiro me levou para a UTI quase à velocidade da luz. Mandei a Doutora Wilma à merda e não senti mais nenhum choque. No caminho, passei por Marocas que usava uns óculos enormes.

— Tsézinho! Como foi, como foi?
— Limbo, Limbo! — Respondi.

Mais adiante, já na porta da UTI, estava Perrusi Filho, que queria me injetar uma droga alucinógena novamente.

— Reverendo! Tudo bem!
— Que nada! Roubaram meus anjinhos do Limbo.

                  (Fim da Primeira Carta de Tse-Tsé)