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	<title>Blog dos Perrusi &#187; Antigo</title>
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	<description>Crônica, política, doidice, o escambau!</description>
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    <title>Blog dos Perrusi</title>
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		<item>
		<title>Christopher Hitchens morreu</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Nov 2011 15:05:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antigo]]></category>
		<category><![CDATA[ética]]></category>
		<category><![CDATA[câncer]]></category>
		<category><![CDATA[Christopher Hitchens]]></category>
		<category><![CDATA[crítica]]></category>
		<category><![CDATA[jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
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		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[prosa ferina]]></category>
		<category><![CDATA[razão crítica]]></category>

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		<description><![CDATA[
Eita, morreu Christopher Hitchens. Pena.
Não nego minhas simpatias pelo ex-trotkista, mesmo depois de seu giro convervador. Sua prosa ferina era sedutora demais para me importar com suas opiniões sobre a Guerra do Iraque.
Abaixo, publico novamente o que escrevi sobre o cabra. Querem outras informações e uma avaliação bem interessante? Ora, que deem uma passadinha aqui.
Lá [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2011/12/Christopher-Hitchens-61-006.jpg"><img class="size-full wp-image-6855 aligncenter" title="Christopher-Hitchens-61-006" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2011/12/Christopher-Hitchens-61-006.jpg" alt="" width="460" height="276" /></a></p>
<p>Eita, morreu Christopher Hitchens. Pena.</p>
<p>Não nego minhas simpatias pelo ex-trotkista, mesmo depois de seu giro convervador. Sua prosa ferina era sedutora demais para me importar com suas opiniões sobre a Guerra do Iraque.</p>
<p>Abaixo, publico novamente o que escrevi sobre o cabra. Querem outras informações e uma avaliação bem interessante? Ora, que deem uma passadinha <a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/2011/12/16/foi-olo-christopher-hitchens-1949-2011-o-maior-polemista-do-nosso-tempo/" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>Lá vai&#8230;</p>
<p>06/09/2010</p>
<p>Descobri, agora, que Christopher Hitchens vai morrer, pois está com um câncer avançado de esófago. Seu pai morreu do mesmo mal, com 79 anos. Hitchens tem 61 e não se cuidou. Não estava nem aí. Preferiu encher a cara e fumar o tempo todo. Mas não se faz de vítima. Não fará o último gesto cristão diante da morte, isto é, não se arrependerá. Virará pó, e  pronto. Sempre foi um ateu rodeado de crentes por todos os lados &#8212; tem minha simpatia.</p>
<p>Viveu e arriscou. Provavelmente, detestava o tédio, essa mania de ser capturado por uma série interminável de insignificâncias. Preferia viver um breve período no mais alto gozo do que passar uma longa existência impregnada de indolência &#8212; mais vale uma última cachaça do que uma vida por nada.</p>
<p>Gosto muito de sua prosa corrosiva e ferina. Ele sabe que as palavras podem causar tempestades. Usa-as como um martelo.</p>
<p>Como lembrança, publico abaixo um post que fiz sobre o dito-cujo. Faz tempo.</p>
<p><a name="2007_08-27_19_56_00-4727257-0"></a>27/08/2007</p>
<p>Atualmente, meu livro de cabeceira (leitura breve, pois durmo, rapidamente, assim que me deito na cama) é &#8220;Amor, Pobreza e Guerra&#8221; do jornalista americano Christopher Hitchens. Ah, se tivéssemos um jornalismo desse naipe entre os jornalistas tupiniquins! Além de escrever muito bem e de mostrar uma verdadeira erudição, é uma martelada constante contra a hipocrisia. Sim, acho que é isso: seu alvo é a hipocrisia, tanto à esquerda, quanto à direita. Nesse sentido, guardando as proporções, lembra um George Orwell. Um exemplo dessa identidade é sua posição sobre o papel do jornalista crítico:</p>
<blockquote><p>uma disposição à resistência, por menor que seja, contra a autoridade arbitrária ou a opinião da massa inconsciente, ou ainda uma emoção de reconhecimento ao deparar com alguma frase bem construída de um livre pensador.</p></blockquote>
<p>A luta contra a hipocrisia, atualmente, é estratégica. Faz parte do desmonte dos discursos autoritários e totalitários. É fundamental para desmascarar microfascismos que ameaçam a democracia. Não é um combate propriamente ético, mas fundamentalmente político. Por isso, combater as imposturas, talvez, ajude a esclarecer a aparente contradição entre ética e política. Inclusive, no plano da ética política, desmascarar a hipocrisia diminuiria o abismo entre a responsabilidade e as convicções &#8212; abismo tão bem defendido por FHC, utilizando de forma hipócrita algumas análises de Weber.</p>
<p>Além do mais, o desmonte da hipocrisia acarreta alguns efeitos cognitivos: muitas vezes, é fundamental mostrar que o simples é o produto do complexo; outras vezes, o contrário é que é interessante: o fenômeno aparentemente complexo, na verdade, era pura complicação, isto é, as coisas são, vezes sem conta, simples e até banais. Por exemplo: Fidel é um ditador &#8212; uma frase tão simples, mas que só pode ser proferida após o desmonte da hipocrisia que a ignora solenemente.</p>
<p>Embora sua origem seja canhota, é difícil enquadrar Hitchens politicamente, pelo menos, nos esquemas toscos atuais que tentam delimitar o que seja, afinal de contas, esquerda e direita. Mas, depois do 11 de setembro, tornou-se um trânsfuga? Do tipo que, de Saulo a Paulo, trilhou o caminho do ópio até Damasco, feito Tio Rei (trotskista), Olavo de Carvalho (pecebão) e o paradigma de todos, Paulo Francis (trotskista &#8212; pelo menos, não se converteu à rezadeira geral)?! Stalin tinha razão, convenhamos, em desconfiar dos trotskistas. Como insistem em fazer omeletes sem quebrar os ovos, mudam constantemente de lado (hehe&#8230;).</p>
<p>(a direita brasileira é tão hipócrita, atualmente, que vive por meio de trânsfugas)</p>
<p>Enfim, Hitchens trânsfuga? Bem, creio que não, pelo menos quanto ao seu sectarismo religioso. Como o mesmo já afirmou, recentemente: &#8220;mesmo se eu acreditasse num redentor, não seria católico. Acho obsceno&#8221;.</p>
<p>Já sua fúria contra a esquerda americana, do tipo Chomsky, teve um fundamento simples, convenhamos: as posições hipócritas e doidivanas sobre o 11 de setembro. Chomsky quase diz: o imperialismo americano mereceu! A culpa, no fundo, é dos americanos e não dos terroristas. Ofereço, inclusive, um exemplo da terrinha para ilustrar a desmoralização da esquerda americana: um professor de esquerda, notório imbecil, saiu fantasiado de árabe no dia posterior à queda das Torres Gêmeas de Nova Yorque. Claro, a esquerda americana, que eu saiba, não fez a obscenidade de apoiar Bin Laden, como no exemplo tupiniquim citado, mas produziu uma série de tergiversações que, praticamente, desculpavam os terroristas.</p>
<p>Hitchens  não abandonou a esquerda; na verdade, apenas combateu mais uma hipocrisia. Seguindo nessa pegada, Hitchens desce, num dos artigos, o tacape na canhota estadunidense:</p>
<blockquote><p>Um dos grandes problemas com a esquerda norte-americana, de fato da esquerda norte-americana, tem sido sua imagem e auto-imagem como alguma coisa demasiadamente solene, sisuda, herbívora, enfadonha, monocromática, honrada e chata.</p></blockquote>
<p>Tirando o &#8220;herbívora&#8221; e o &#8220;honrada&#8221;, é a cara da esquerda brasileira. Na verdade, somos autofágicos e carnívoros &#8212; um esquerdista é 90% de água e o resto é de&#8230; carne &#8212; e tem o mensalão, né&#8230;</p>
<p>(o mensalão foi uma tática revolucionária de tomada do poder. Ao invés de assaltos a palácios ou de golpes políticos contra a burguesia, utilizou-se o que os conservadores mais gostam: dinheiro. Pena que se subestimou a voracidade de nossos representantes burgueses. O dinheiro, infelizmente, foi pouco. Petistas castristas não sabem mensurar o valor de um rebotalho do capital. Na próxima vez, proponho bilhões.)</p>
<p>Voltando ao livro, num outro artigo, &#8220;o diabo e madre Teresa&#8221;, Hitchens desce a tangapema em madre Teresa de Calcutá, afirmando que a beata gostava mais da pobreza do que dos pobres. Tal afirmação não me causou surpresa. Acrescentaria até que foi mania de vários santos esse esquecimento das pessoas &#8220;reais e vivas&#8221;, como dizia o marido de Jenny Von Westphalen. Muitos revolucionários, assim como os santos, são também desse jeito: adoram essa extravagância de personificar e adorar categorias sociais. Eu mesmo adorava a classe operária, sua missão histórica e sua objetividade revolucionária &#8212; a classe para si. Tinha uma dificuldade extrema em compreender os operários vivos e concretos, principalmente seus líderes, a classe em si. Por isso, passei a entender melhor a frase magistral de Proudhon, hoje um belo brasão anarquista: &#8220;depois dos opressores, o que mais odeio são os oprimidos&#8221;.</p>
<p>Mas, o mais acachapante foi sua crítica a Michael Moore e a seu filme &#8221;Fahrenheit 9/11 &#8220;: &#8220;Unfairenheit 9/11: as mentiras de Michael Moore&#8221;. Não sobra pedra sobre pedra, nem mesmo pequenos escombros:</p>
<blockquote><p>Descrever esse filme como desonesto e demagógico seria quase elevar esses termos a um patamar de respeitabilidade. Descrever esse filme como lixo seria correr o risco de um discurso que nunca mais sairia do escatológico. Descrevê-lo como um exercício de fácil satisfação das massas seria óbvio demais. Fahrenheit 9/11 é um exercício sinistro de frivolidade moral cruelmente disfarçado de exercício de seriedade. É também um espetáculo de abjeta covardia política que se disfarça de demonstração de bravura &#8216;discordantes.</p></blockquote>
<p>Mesmo que Hitchens esteja redondamente enganado, faz tempo que não leio uma análise tão corrosiva e implacável.</p>
<p>Pois é&#8230; a crítica é o tempo da razão ardente, parodiando Apolinaire.</p>
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		<title>O tacape e a hipocrisia</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2010/09/06/o-tacape-e-a-hipocrisia/</link>
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		<pubDate>Mon, 06 Sep 2010 13:52:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Descobri, agora, que Christopher Hitchens vai morrer, pois está com um câncer avançado de esófago.  Seu pai morreu do mesmo mal, com 79 anos. Hitchens tem 61 e não se cuidou. Não estava nem aí. Preferiu encher a cara e fumar o tempo todo. Mas não se faz de vítima. Não fará o último [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Descobri, agora, que Christopher Hitchens vai morrer, pois está com um câncer avançado de esófago.  Seu pai morreu do mesmo mal, com 79 anos. Hitchens tem 61 e não se cuidou. Não estava nem aí. Preferiu encher a cara e fumar o tempo todo. Mas não se faz de vítima. Não fará o último gesto cristão diante da morte, isto é, não se arrependerá. Virará pó, e  pronto. Sempre foi um ateu rodeado de crentes por todos os lados &#8212; tem minha simpatia.</p>
<p>Viveu e arriscou. Provavelmente, detestava o tédio, essa mania de ser capturado por uma série interminável de insignificâncias. Preferia viver um breve período no mais alto gozo do que passar uma longa existência impregnada de indolência &#8212; mais vale uma última cachaça do que uma vida por nada.</p>
<p>Gosto muito de sua prosa corrosiva e ferina. Ele sabe que as palavras podem causar tempestades. Usa-as como um martelo.</p>
<p>Como lembrança, publico abaixo um post que fiz sobre o dito-cujo. Faz tempo.</p>
<p><a name="2007_08-27_19_56_00-4727257-0"></a>27/08/2007</p>
<p>Atualmente, meu livro de cabeceira (leitura breve,  pois durmo, rapidamente, assim que me deito na cama) é &#8220;Amor, Pobreza e  Guerra&#8221; do jornalista americano Christopher Hitchens. Ah, se tivéssemos  um jornalismo desse naipe entre os jornalistas tupiniquins! Além de  escrever muito bem e de mostrar uma verdadeira erudição, é uma  martelada constante contra a hipocrisia. Sim, acho que é isso: seu alvo é  a hipocrisia, tanto à esquerda, quanto à direita. Nesse sentido,  guardando as proporções, lembra um George Orwell. Um exemplo dessa  identidade é sua posição sobre o papel do jornalista crítico:</p>
<blockquote><p>uma  disposição à resistência, por menor que seja, contra a autoridade  arbitrária ou a opinião da massa inconsciente, ou ainda uma emoção de  reconhecimento ao deparar com alguma frase bem construída de um livre  pensador.</p></blockquote>
<p>A luta contra a hipocrisia, atualmente, é estratégica.  Faz parte do desmonte dos discursos autoritários e totalitários. É  fundamental para desmascarar microfascismos que ameaçam a democracia.  Não é um combate propriamente ético, mas fundamentalmente político. Por  isso, combater as imposturas, talvez, ajude a esclarecer a aparente  contradição entre ética e política. Inclusive, no plano da ética  política, desmascarar a hipocrisia diminuiria o abismo entre a  responsabilidade e as convicções &#8212; abismo tão bem defendido por FHC,  utilizando de forma hipócrita algumas análises de Weber.</p>
<p>Além do mais, o desmonte da hipocrisia acarreta alguns  efeitos cognitivos: muitas vezes, é fundamental mostrar que o simples é  o produto do complexo; outras vezes, o contrário é que é interessante: o  fenômeno aparentemente complexo, na verdade, era pura complicação, isto  é, as coisas são, vezes sem conta, simples e até banais. Por exemplo:  Fidel é um ditador &#8212; uma frase tão simples, mas que só pode ser  proferida após o desmonte da hipocrisia que a ignora solenemente.</p>
<p>Embora sua origem seja canhota, é difícil enquadrar  Hitchens politicamente, pelo menos, nos esquemas toscos atuais que  tentam delimitar o que seja, afinal de contas, esquerda e direita. Mas,  depois do 11 de setembro, tornou-se um trânsfuga? Do tipo que,  de Saulo a Paulo, trilhou o caminho do ópio até Damasco, feito Tio Rei  (trotskista), Olavo de Carvalho (pecebão) e o paradigma de todos, Paulo  Francis (trotskista &#8212; pelo menos, não se converteu à rezadeira geral)?!  Stalin tinha razão, convenhamos, em desconfiar dos trotskistas. Como  insistem em fazer omeletes sem quebrar os ovos, mudam constantemente de  lado (hehe&#8230;).</p>
<p>(a direita brasileira é tão hipócrita, atualmente, que vive por meio de trânsfugas)</p>
<p>Enfim, Hitchens trânsfuga? Bem, creio que não, pelo  menos quanto ao seu sectarismo religioso. Como o mesmo já afirmou,  recentemente: &#8220;mesmo se eu acreditasse num redentor, não seria católico. Acho obsceno&#8221;.</p>
<p>Já sua fúria contra a esquerda americana, do tipo  Chomsky, teve um fundamento simples, convenhamos: as posições hipócritas  e doidivanas sobre o 11 de setembro. Chomsky quase diz: o imperialismo  americano mereceu! A culpa, no fundo, é dos americanos e não dos  terroristas. Ofereço, inclusive, um exemplo da terrinha para ilustrar a  desmoralização da esquerda americana: um professor de esquerda, notório  imbecil, saiu fantasiado de árabe no dia posterior à queda das Torres  Gêmeas de Nova Yorque. Claro, a esquerda americana, que eu saiba, não  fez a obscenidade de apoiar Bin Laden, como no exemplo tupiniquim  citado, mas produziu uma série de tergiversações que,  praticamente, desculpavam os terroristas.</p>
<p>Hitchens  não abandonou a esquerda; na verdade, apenas combateu mais uma hipocrisia. Seguindo nessa pegada, Hitchens desce, num dos artigos, o tacape na canhota estadunidense:</p>
<blockquote><p>Um dos grandes problemas com a esquerda norte-americana, de fato da esquerda norte-americana, tem sido sua imagem e auto-imagem como alguma  coisa demasiadamente solene, sisuda, herbívora, enfadonha,  monocromática, honrada e chata.</p></blockquote>
<p>Tirando o &#8220;herbívora&#8221; e o &#8220;honrada&#8221;, é a cara da  esquerda brasileira. Na verdade, somos autofágicos e carnívoros &#8212; um  esquerdista é 90% de água e o resto é de&#8230; carne &#8212; e tem o mensalão,  né&#8230;</p>
<p>(o mensalão foi uma tática revolucionária de tomada do  poder. Ao invés de assaltos a palácios ou de golpes políticos contra a  burguesia, utilizou-se o que os conservadores mais gostam: dinheiro.  Pena que se subestimou a voracidade de nossos representantes burgueses. O  dinheiro, infelizmente, foi pouco. Petistas castristas não sabem  mensurar o valor de um rebotalho do capital. Na próxima vez, proponho  bilhões.)</p>
<p>Voltando ao livro, num outro artigo, &#8220;o diabo e madre  Teresa&#8221;, Hitchens desce a tangapema em madre Teresa de Calcutá,  afirmando que a beata gostava mais da pobreza do que dos pobres. Tal  afirmação não me causou surpresa. Acrescentaria até que foi mania de  vários santos esse esquecimento das pessoas &#8220;reais e vivas&#8221;, como dizia o  marido de Jenny Von Westphalen. Muitos revolucionários, assim como os  santos, são também desse jeito: adoram essa extravagância  de personificar e adorar categorias sociais. Eu mesmo adorava a classe  operária, sua missão histórica e sua objetividade revolucionária &#8212; a  classe para si. Tinha uma dificuldade extrema em compreender os  operários vivos e concretos, principalmente seus líderes, a classe em  si. Por isso, passei a entender melhor a frase magistral de Proudhon,  hoje um belo brasão anarquista: &#8220;depois dos opressores, o que mais odeio  são os oprimidos&#8221;.</p>
<p>Mas, o mais acachapante foi sua crítica a Michael Moore e a seu filme &#8221;Fahrenheit 9/11 &#8220;: &#8220;Unfairenheit 9/11: as mentiras de Michael Moore&#8221;. Não sobra pedra sobre pedra, nem mesmo pequenos escombros:</p>
<blockquote><p>Descrever esse filme como  desonesto e demagógico seria quase elevar esses termos a um patamar de  respeitabilidade. Descrever esse filme como lixo seria correr o risco de  um discurso que nunca mais sairia do escatológico. Descrevê-lo como um  exercício de fácil satisfação das massas seria óbvio demais. Fahrenheit 9/11 é um exercício sinistro de frivolidade moral cruelmente disfarçado de  exercício de seriedade. É também um espetáculo de abjeta covardia  política que se disfarça de demonstração de bravura &#8216;discordantes.</p></blockquote>
<p>Mesmo que Hitchens esteja redondamente enganado, faz tempo que não leio uma análise tão corrosiva e implacável.</p>
<p>Pois é&#8230; a crítica é o tempo da razão ardente, parodiando Apolinaire.</p>
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		<title>A Troca</title>
		<link>http://www.blogdosperrusi.com/2010/07/28/a-troca/</link>
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		<pubDate>Wed, 28 Jul 2010 12:53:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antigo]]></category>
		<category><![CDATA[atração]]></category>
		<category><![CDATA[cópula]]></category>
		<category><![CDATA[erotismo]]></category>
		<category><![CDATA[espírito]]></category>
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		<category><![CDATA[viagem no tempo]]></category>

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		<description><![CDATA[Enquanto migramos, nessa viagem longa e mítica, na qual o tempo existe num compasso diferente, lanço mão de um conto antigo.
PS: sou a favor do monopólio da força contra os seres infantis. Depois de Freud, é provado que as crianças, além de taradas, já que desejam pai e mãe, são más por natureza. São perigosas. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Enquanto migramos, nessa viagem longa e mítica, na qual o tempo existe num compasso diferente, lanço mão de um conto antigo.</p>
<p>PS: sou a favor do monopólio da força contra os seres infantis. Depois de Freud, é provado que as crianças, além de taradas, já que desejam pai e mãe, são más por natureza. São perigosas. Arrancar unhas, por exemplo, constrói o caráter.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/07/casais.jpg"><img class="size-full wp-image-3858 aligncenter" title="casais" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2010/07/casais.jpg" alt="" width="239" height="235" /></a></p>
<p><span style="color: #ff0000;">O roteiro:</span></p>
<p>No futuro, os humanos viajarão no tempo como seres espirituais. Renan e Mirtes, por exemplo, gostam muito da nossa época, baixando aqui na terrinha e se incorporando em algumas pessoas. Freqüentemente, encontram-se numa casa em Casa Forte e batem longos papos sobre a vida e o universo. Nos colóquios, têm dois hospedeiros, Paulo e Bia, um charmoso e sensual casal de amigos, ainda que um tanto pudicos, cuja acolhida é sempre cordial e amiga. Embora sejam apenas dois corpos, a conversa é a quatro, pois todos dialogam, física e mentalmente. Os papos são agradáveis, embora abstratos, do tipo sobre o papel da metafísica na repressão sexual dos paraibanos. Vale dizer que os dois hospedeiros nutrem, um pelo outro, desejos contidos e nunca percorreram juntos os caminhos impudentes de Sade. Renan sabe o que acontece com Paulo e Bia; Mirtes finge não saber.</p>
<p><span style="font-size: medium;"></span><span style="color: #ff0000;">A estória:</span></p>
<p>Mesmo na forma de espírito, Mirtes era tímida. Gostava dessa aventura de sair vagando de corpo em corpo, pois até camuflava um pouco o seu pudor. Mas, agora, a situação estava se complicando, visto que Bia (sua hospedeira) nutria um desejo desenfreado por Paulo (hospedeiro de Renan), que parecia, por sua vez, corresponder plenamente. Era-lhe estranho conversar, dessa forma, sobre metafísica e as confissões de Santo Agostinho com Renan/Paulo, sentindo as (suas) bochechas de Bia ruborizarem-se, um <em>frisson</em> percorrendo os (seus) nervos à flor da pele, o (seu) coração em pleno <em>scherzo</em> e (seus) lábios úmidos de tanto desejo. Ela não mais sabia se confundia o sentimento de Bia por Paulo com o que poderia estar sentindo por Renan. Mirtes era a própria ambigüidade: uma dialética em repouso.</p>
<p>Já Bia ria da sua hóspede, achava-a engraçada, embora se incomodasse com a relutância de Mirtes em parar de discutir sobre a crise da literatura pernambucana, e por que diabos o pessoal da Ufpe gosta tanto de Gilberto Freyre. Ela queria era a poesia e a filosofia na ação. Sua ânsia era premente. Um coito, mesmo que nas nuvens da Pernambucanidade.</p>
<p>- <em>Que me arranquem o nariz, os lábios, as orelhas, o ventre, minhas pernas, mas não me deixem nesse estado de carência!</em> — sofria, Bia.</p>
<p>Mirtes vacilava, apesar de se manter inflexível. Tentou discorrer sobre o &#8220;Gênero e a Deusa Gaia&#8221;, assunto insosso por natureza, porém notou que, mesmo arrancando a cabeça da sua hospedeira, persistiria a flama do desejo. O dualismo entre o corpo e a alma dominava a atmosfera. Mas o problema não era o Céu, e sim a Terra.</p>
<p><span style="font-size: medium;"> </span>Renan era, há muito, cúmplice de Paulo, embora sempre adiasse a realização das necessidades amorosas deste último. O jovem implorava-lhe um momento de glória com Bia, mas ele era irredutível: &#8220;se, e somente se, nós quatro!&#8221;, dizia para Paulo.</p>
<p><em>- Mas como, se não sabemos se Mirtes quer ou não!?</em><br />
- Esse é o meu, aliás, o nosso problema! Você não quer todo mundo junto? Só Bia pra você? Está com ciúmes? — disse Renan pra si mesmo ou, melhor, pra Paulo.<br />
- <em>Eu!? De forma alguma! Sou liberal, sou flexível! Além do mais, Bia ama a nós dois!<br />
</em>- Acredito que Mirtes também. Por isso, seremos nós quatro ou nada! — E, assim, Renan finalizava a discussão.</p>
<p>No fundo, sentia pena de Paulo. Tentava abordar o assunto indiretamente, mas Mirtes teimava em discutir sobre a filosofia das formas simbólicas de Ariano Suassuna, tergiversando o tempo todo. Tinha até pensado que esses assuntos metafísicos iriam atiçar o seu desejo, mas até agora não adiantara muito. Assim, estava já desistindo de um memorável coito a quatro e quase pedindo à sua parceira espiritual um pouco de compaixão para com Bia e Paulo.</p>
<p>Um belo dia, Mirtes debatia sobre a possibilidade de aplicar a hermenêutica de Gadamer à sociologia compreensiva de Weber quando, subitamente, ela parou, hesitou um pouco e baixou os olhos.</p>
<p>- O que aconteceu, Mirtes? — disse Renan, apreensivo.<br />
- Heh&#8230; eu tenho uma coisa pra te dizer, e quero simplesmente exprimi-la da melhor forma possível, entende?<br />
- Sim, claro! Mas eu estava achando muito boa a sua explanação! Você realmente me convenceu de que hermenêutica e compreensão são os dois lados da mesma moeda!<br />
- Não&#8230; não é isso — disse Mirtes, dando um risinho nervoso.<br />
- Ah, é? E o que é, então?<br />
- Eu tive&#8230; heh &#8230; uma pequena conversa com Bia&#8230; — Mirtes continuava a hesitar.<br />
- e aí&#8230;<br />
- &#8230;e aí, eu acho injusto, da minha parte, persistir em negar a existência das suas necessidades físicas — Renan sentiu as mãos de Mirtes/Bia ficarem molhadas ao se aninharem nas suas.<br />
- O que isso quer dizer?<br />
- Ela te deseja&#8230; quer dizer&#8230; Paulo. Ela quer transar com&#8230; Paulo. E eu vou deixar que isso aconteça. Qual é o meu direito de impedir a consumação de uma paixão?</p>
<p><em>- Louvado seja Deus! Louvados sejam a poesia e a beleza! Louvada seja a compaixão feminina. Louvada toda a esperança desse mundo! </em>(gritava a alma de Paulo)</p>
<p>Renan largou gentilmente as mãos delicadas de Mirtes (?) e levantou o seu mento para olhá-la face a face. Suas bochechas estavam completamente rubras.</p>
<p>- E você, Mirtes? O que fará durante?</p>
<p>Ela baixou os olhos novamente.</p>
<p>- Eu&#8230; bem, eu me retirarei, evidentemente. Por quê?<br />
- Heh&#8230; nada, nada não, deixa pra lá! — disse Renan, gaguejando um pouco.<br />
- Nossa, estou aliviada por ter resolvido esse problema, cheguei a pensar que&#8230; — Mirtes engasgou e engoliu em seco.<br />
- Pensar em quê?<br />
- Heh, nada, nada não, deixa pra lá! — Mirtes mudou de assunto:<br />
- Quando faremos&#8230; heh&#8230; quando eles farão o&#8230;?</p>
<p><em>- Agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora</em> (clamava Paulo).<br />
- Calma, meu filho. Está nervoso?<br />
- <em>Quem&#8230; eu?<br />
- </em>Muito bem. Proponho então que seja agora — falou Renan, voltando-se para Bia/Mirtes:<br />
- Nada como fazer agora o que você pode fazer depois.</p>
<p>Mirtes olhou para Paulo e viu no brilho dos seus olhos o desejo de Renan; aliás, a soma de dois desejos cúmplices, irrompendo qual cera derretida, contaminando com um cheiro agridoce o ambiente, inebriando a sua alma que, largada, estava caindo e caindo, cada vez mais, no <em>maelström</em> produzido pela volúpia de Bia. Teve certeza, nesse momento, de que Renan a desejava, e tal idéia deixou-a perturbada, sendo invadida por um medo todo especial, o da tentação.</p>
<p>- Nec plus ultra! — disse, irônico, Renan.<br />
- <em>Mais insuportável do que a infelicidade, talvez seja a felicidade. Vamos rápido para o quarto!</em> — Foi na onda, Paulo.<br />
- <em>Mirtes —</em> disse Bia — <em>existe alguma coisa mais poderosa do que a vontade, este rio caudaloso que não espera enchente para ultrapassar as suas margens? A vontade é a superação dos nossos limites. Um ato de vontade é um sonho que se realiza em pleno dia</em>!</p>
<p>Bia tinha enlouquecido de vez. Mirtes estava surda. A tentação carcomia os seus grilhões, tornando pó séculos de cultura paraibana. E, como que em uníssono com a situação, a atmosfera tornou-se densa e suada, tal qual o carnaval de Olinda. Dois corpos e quatro almas estavam, definitivamente, delirando. Todos, embriagados de sensualidade, começaram a cantarolar uma ópera<a href="#_ftn1">[1]</a> de um mito moderno.</p>
<p><em>PAULO<br />
Ali, tu me darás a tua mão<br />
Ali, tu me dirás sim.<br />
Vê, não é muito longe.<br />
Partamos, tesouro, partamos daqui.</em></p>
<p>MIRTES<br />
Devo partir, devo ficar&#8230;<br />
Meu coração acelera&#8230;<br />
Vejo nele a felicidade?<br />
Ou o ardil?</p>
<p>RENAN<br />
Vem, meu amor!</p>
<p>MIRTES<br />
Tenho medo!</p>
<p><em>PAULO</em><br />
<em>Eu farei a tua felicidade!</em></p>
<p><em>BIA<br />
Rápido&#8230; o quarto!</em></p>
<p>RENAN<br />
Vem, oh! vem&#8230;</p>
<p>MIRTES<br />
Vem&#8230;</p>
<p><em>PAULO E BIA</em><br />
<em>Venham, oh! venham, meus amigos!<br />
Saboreemos as alegrias<br />
de um amor inocente!</em></p>
<p>E então&#8230;</p>
<p>Contudo (sempre existe um nessas estórias), um cheiro fedido de Recife entrou pela janela e gelou as pulsões de Mirtes. Renan, vendo que o feitiço estava desaparecendo, aproximou-se decisivo de Mirtes e tacou-lhe um beijo&#8230;</p>
<p>e foi correspondido!</p>
<p>- Eu&#8230; não sei! Eu&#8230; não tenho certeza! Eu não me sinto capaz! — falou Mirtes, distanciando-se um pouco. Seus lábios tremiam.<br />
- Esquece teus recalques, Mirtes. Sai do mato e não o tragas contigo. Escuta as ondas galopantes do desejo<em> </em>e surfa nelas como uma boêmia. Não fales e não penses. Sê Sol e Carne! — disse inspirado e um tanto piegas, Renan.<br />
- Vamos! — afirmou, com uma voz rouca, Mirtes.</p>
<p>Chegando ao quarto, Renan fechou a porta e trancou-a com a chave. Renan/Paulo abraçou e beijou avidamente Mirtes/Bia, caindo todos juntos em câmara lenta na cama. As duas retribuíram o beijo com sofreguidão. Toda idéia de fuga tinha sumido da mente de Mirtes. Ela entrava agora numa correnteza e estava pronta para se subsumir na cachoeira de pulsões que era o corpo de Bia. Os corpos estavam apertados, coxas contra coxas, num afã de se misturarem, de virarem um só e de se penetrarem. Apertaram-se tanto que doeu. A física não permitia a fusão completa, mas era a vontade conjunta de quatro almas, e o aperto continuou.</p>
<p>Renan estava estupefato com os seus sentimentos. Para ele, a transa era um embate, um assalto ao castelo, levar um combate no qual ganhador e perdedor estavam claramente definidos. Ora, o que ele queria, nesse momento, era comunhão e entrega. E, acima de tudo, não magoar Mirtes, velar pelo seu prazer, incorporá-lo ao seu&#8230; Renan era uma verdadeira pororoca passional<a href="#_ftn2">[2]</a>. Ele acariciou as costas de Mirtes/Bia e segurou sua bunda, levando-a a abrir ligeiramente as coxas, antes de ela ficar em <em>califourchon</em><a href="#_ftn3">[3]</a> e oscilar contra o seu membro pétreo.</p>
<p>- <em>Oh, Deus! Não sei se vou agüentar mais tempo sem&#8230;<br />
</em>- Coragem, Paulo! Pense em outra coisa!<br />
- <em>Estou tentando. Já recitei a tábua de multiplicação, mas não foi de grande socorro!<br />
- </em>Ora, pense então em Serra nos flagrando!</p>
<p>Renan levou suas mãos aos ombros de Bia, tirando a blusa e desnudando seios pontudos, com os bicos parecendo olhinhos de guaiamum<a href="#_ftn4">[4]</a>, e alvos como a areia de Intermares. Paulo pegou-os em suas mãos e os beijou delicadamente — seus sentidos eram preenchidos pelos gemidos de Mirtes. Seus lábios sedentos procuraram o ventre, enquanto suas mãos ajudavam outras a se desvencilharem da renda que cobria ainda a púbis. Então, ele embrenhou seu rosto entre as coxas, ao passo que mãos delicadas seguraram firme a sua nuca, pressionando-a mais ainda contra o corpo. Mirtes, com um lindo riso de cristal, levantou Paulo pelos cabelos e disse:</p>
<p>- tem uma coisa que quero fazer agora! — e derrubou Renan na cama. Bia tirou sua camisa, seu jeans e sua cueca preta (?!) e amparou nos seus lábios a potente ereção de Paulo.<br />
- <em>Oh, não agüento mais, vou explodir!<br />
</em>- Continue a contar, continue a contar!<br />
- <em>Duas vezes sessenta e quatro fazem cento e vinte oito, duas vezes cento e vinte oito fazem duzentos e cinqüenta e seis&#8230;</em></p>
<p>Era a vida em toda a sua complexidade e simplicidade. O mais puro egoísmo sendo o mais terno altruísmo para o outro. Amor e entrega.</p>
<p>- Ao diabo, Lula e o PT! Ainda existe esperança! — clamou Renan.<br />
- <em>Venha</em>&#8230; <em>agora, </em>não posso esperar&#8230; (Mirtes? <em>Bia</em>?)<br />
- <em>Duas vezes dois mil e quarenta e oito, </em>quatro mil e oitenta e seis<em>&#8230; (</em>Renan?<em> Paulo?)</em></p>
<p>Penetrou-se lentamente, devagar, cada milímetro sendo sentido e explorado. O movimento foi se tornando mais rápido, pulsante e olhos viris &#8211; de quem? &#8211; repararam embaixo a transformação do rosto feminino: a passagem da paixão serena e madura de Mirtes à exaltação <em>flamboyante</em> de Bia. Paulo perdeu o controle, e Renan sentiu na alma a detonação do amor, fumegante como lava e potente como a explosão de uma supernova, abarcando todo o horizonte cósmico. Mirtes gritou do rosto de Bia que clamou da alma de Mirtes. O gozo coletivo fundiu quatro espíritos e dois corpos numa ciranda em rodopio.</p>
<p>Abraçados estavam os corpos, mas abandonados e largados de lassidão estavam os espíritos. Paulo e Renan estavam quase dormitando, quando Mirtes segurou o rosto de Paulo e, sapeca, olhou os seus olhos, dirigindo-se diretamente a Renan.</p>
<p>- Eu quero de novo!<br />
- Mas&#8230; — disse Renan titubeante — isso leva algum tempo&#8230;<br />
- <em>Deus seja louvado</em>! — exclamou a alma de Paulo.</p>
<p>Mirtes já não escutava Renan. Bia pousou suavemente a sua língua na glande de Paulo, fez alguns rodopios em torno e, golpe fatal, enlaçou-o totalmente dentro da boca úmida. Como por um milagre ocorreu imediatamente a ereção.</p>
<p>- Ah, disse Renan, a exuberância da juventude!<br />
- <em>Ahá, </em>falou Paulo, <em>e agora eu não preciso da tábua de multiplicação.<br />
-</em> Ótimo, nunca fui mesmo lá essas coisas em matemática.</p>
<p>Paulo lançou-se pra cima de Bia, que o afastou, dizendo:</p>
<p>- <em>Eu quero ficar em cima</em>!<br />
<em>- Incrível!<br />
</em>- Genial!</p>
<p>Após o engate, quando o coito estava num crescendo, Mirtes exclamou:</p>
<p>- Mude de lugar comigo, Renan, agora!<br />
- Como&#8230;?<br />
- Venha para Bia!<br />
- Mas&#8230; eu não tenho certeza de&#8230;<br />
- Eu tenho certeza. Venha!</p>
<p>Ela se inclinou, pegou o rosto de Paulo e olhou os seus olhos. Renan sentiu uma brisa. Pensou que fosse Mirtes. E se foi. De repente, ele se viu, ou melhor, percebeu Paulo, que o olhava com um sorriso feminino.</p>
<p>- Renan? disse a voz de Paulo.<br />
- Sim, eu consegui. Como é estranho! falou a voz de Bia.<br />
- <em>Oi, Renan.<br />
-</em> Bia, é você! Meu Deus, você é ótima&#8230;<br />
- <em>E você também, Renan, mas fique mais calmo e não tenha medo, por favor, senão vou perder o fio da meada.<br />
</em>- Vou tentar!</p>
<p>(Renan jamais soubera o que poderia sentir uma mulher: o consentimento, diante da intrusão de um corpo estrangeiro, como última dádiva de si mesma. Enquanto subia e descia aquele talo maravilhoso, durante o torno, parando ali e acolá e, assim, estimulando o (seu) clitóris no momento do embalo para baixo, sentiu a entrega como uma coisa distinta da sensação sexual, embora tão forte quanto. Para o homem o sexo era conquista e recompensa, para Renan, agora, era uma oferenda emocional de si mesmo à delícia de um outro; o seu prazer não era apenas físico, mas também ligado ao ato essencial de abandono de qualquer resistência pelo meio da confiança. Confiança, palavra chave. A espécie humana não tem cio, cuja finalidade, para os outros mamíferos, é permitir um tempo de consentimento natural para o sexo. Como a questão do consentimento é resolvida numa espécie que não tem cio? Renan compreendia por que o estupro é um crime tão abominável. Que uma coisa assim tão profunda seja arrancada à força e não consentida livremente é a negação literal do humano e a prova de que o homem possui uma mancha obscura de ódio, conspurcando o seu caráter. O prazer feminino tem um fundamento ético baseado na entrega e no altruísmo. Renan sabia, agora, que quem inventou o amor foi a mulher, além&#8230; da safadeza, é claro. E o prazer&#8230; Ele sentiu uma luz quente percorrendo &#8220;seu&#8221; corpo. Como homem, seu prazer se concentrava basicamente no pênis, espécie de alfa e ômega do prazer masculino; nesse momento, sentia totalmente, &#8220;seu&#8221; corpo inteiro transbordava de excitação)</p>
<p>(Nota-se que Renan não leu Beauvoir e nunca ouviu falar da Teoria Queer; em suma, possui uma inocência intrínseca)</p>
<p>- Renan — disse Mirtes pela boca de Paulo — eu sei agora por que os homens amam tanto o futebol!</p>
<p>Mirtes metia e Renan arqueava. &#8211; Meu Deus, eu sei por que vocês arqueiam tanto! — pensou. A cada metida, o atrito dos púbis produzia centelhas de libido que queimavam as peles. Através do amor, entregavam-se e por esse dom recebiam à vontade. Renan ficou dormente, em lascívia, ao senti-lo entrandoentrandoentrando em Bia. Essa sensação rasgou todo o seu ser e contaminou todos os seus poros. Na hora da metida, Paulo e Mirtes investiram-se de um <em>je ne sais quoi</em> de comedor, perpassador, metedor-cafajeste que fez Renan (e Bia!) sentir-se cheia, <em>pleine</em>, acoplada, copulada, fêmea, mulher, animal, vaca. Ensandecida, Mirtes descreveu um arco viril no ar e envergou-se sobre Bia, talvez para poder fazer o melhor ângulo de metida&#8230;</p>
<p>Era perfeito,<br />
mais-que-perfeito,<br />
era absoluto.</p>
<p>O orgasmo navegava por ondas incontroláveis. O corpo de Bia agitava-se em sobressaltos e tentava enfiar dentro de si, até o impossível, o falo em pleno jorro de Paulo. Renan escutou um grito agudo e se percebeu rodeado de clarões brancos, sentindo-se desfalecido, beijando a morte e lhe dando adeus no retorno à vida. Ele foi aos poucos caindo sobre o tórax de Paulo, sentindo o membro enfiado emagrecer e sair de fininho do (seu) corpo. Como uma pilha, Bia foi se descarregando.</p>
<p>- Cacetada! Nunca pensei que fosse tão bom! — disse, extenuado, Renan</p>
<p>Destrocaram de corpos. Passaram um bom tempo calados. O silêncio inundava de sentido a atmosfera. As palavras não cabiam nesse ambiente. Talvez somente a poesia pudesse tudo abranger. A polissemia reinava ali. Mas o tempo foi retomando novamente os seus direitos e as cores retornaram ao normal. O verdadeiro mistério do mundo era o visível, e não o invisível. Todos sentiam, naquele momento, o martelar constante de um eterno instante.</p>
<p>- E então, meu querido — perguntou Mirtes, irônica — é melhor ser mulher ou homem? — E caiu na gargalhada.</p>
<p>Renan abraçou Bia e beijou-a ternamente. Não respondeu à pergunta e lhe ofereceu, como evasiva, o melhor sorriso de Paulo. Não estava preocupado com a resposta. Ela não tinha importância. Ele sabia, como Mirtes, Bia e Paulo, que o importante mesmo era&#8230; <em>le dur désir de durer</em>.</p>
<hr size="1" /><a href="#_ftnref1">[1]</a> Don Giovanni, de Mozart e Lorenzo da Ponte</p>
<p><a href="#_ftnref2">[2]</a> Creio que, aqui, atingi o supremo nível poético</p>
<p><a href="#_ftnref3">[3]</a> Blog é cultura. Palavra francesa de difícil tradução. Coxa de um lado, coxa de outro. Pense sentando-se num cavalo e talvez o leitor entenda o que estou querendo dizer</p>
<p><a href="#_ftnref4">[4]</a> Com essa, entrarei na Academia de Letras da Paraíba</p>
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		<title>A alegoria bíblica: uma interpretação.</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Jun 2008 15:00:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antigo]]></category>

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		<description><![CDATA[
Refrescando a cuca, escreverei baboseiras. Nada como abobrinhas para esquecer o Santinha. Rimou!
Um pouco sobre a alegoria bíblica&#8230;
Como se sabe, os quatro personagens (Jeová, a Serpente, Adão e Eva) do &#8220;pecado original&#8221; orbitam em torno de um mesmo objeto: a maçã. Afinal, o que é a maçã?
O paraíso, pensando bem, é o reino das necessidades [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/eva.bmp"><img class="alignnone size-full wp-image-342" title="eva" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/eva.bmp" alt="" /></a></p>
<p>Refrescando a cuca, escreverei baboseiras. Nada como abobrinhas para esquecer o Santinha. Rimou!</p>
<p>Um pouco sobre a alegoria bíblica&#8230;</p>
<p>Como se sabe, os quatro personagens (Jeová, a Serpente, Adão e Eva) do &#8220;pecado original&#8221; orbitam em torno de um mesmo objeto: a maçã. Afinal, o que é a maçã?</p>
<p>O paraíso, pensando bem, é o reino das necessidades objetivas absolutamente satisfeitas. É um mundo antiliberal, por natureza. Não há notícias de Friedmans no Paraíso. Lá, as carências são satisfeitas imediatamente, não havendo a necessidade de trabalhar. Todo almoço é grátis. Adão, rei da preguiça — paradigma perfeito do &#8220;perrusi&#8217;s way of life&#8221; —, é um ser objetivamente satisfeito, com todas as suas necessidades biofísicas atendidas. Ele diz o que digo sempre quando olho a praia de Intermares: _<em>O que eu quero mais na vida do que isto</em>? Ele sabe que o paraíso foi uma dádiva e não uma conquista, mas não sente culpa da sua sorte. Acha a mentalidade empreendedora uma imbecilidade.</p>
<p>_Acho uma besteira! — diz aos coelhinhos em volta.</p>
<p>Adão identifica-se profundamente com esse modo de vida, pois adora a estabilidade, a abundância e a calmaria, rejeitando, portanto, a preocupação e a instabilidade. Não existe liberdade em tal ambiente, porque ela, simplesmente, não é necessária; além do mais, Adão é, com toda razão, um grande acomodado. Liberdade é, sem dúvida, incompatível com qualquer paraíso, visto representar necessariamente incerteza, pluralidade, escolha, etc. e tal. Ele sabe do preço que pagaria por ser livre e não dá a mínima à autonomia,  à democracia e à igualdade.</p>
<p>_Pra quê? — sempre pergunta aos girassóis ao seu redor.</p>
<p>Tais coisas nunca interessaram Adão. Acaso existisse sufrágio, sempre votaria em Jeová, feito um castrista que vota sempre em Fidel, ao ponto de ser completamente contra eleição no paraíso. Nosso antecessor é um vigoroso adepto do totalitarismo. Ele é a favor da ditadura da unanimidade, que representa a consciência absoluta da única determinação fundamental no Éden: as leis do Senhor.</p>
<p>Porém, nem tudo é paraíso no paraíso, pois existe uma força cósmica, um tanto indefinida, que se alimenta do acaso e do caos, protagonizando a desordem — não, não é a entropia — e se intrometendo na Criação. Algo que tem as suas próprias leis e que quer submeter as coisas a seus ditames, inquietando Jeová, com a sua ação subversiva. Tal força diabólica seria representada pela Maçã — inclusive, não se sabe como ela surgiu no paraíso, mas podemos, usando a hermenêutica, ler nas entrelinhas do Gênese que seu surgimento cronológico coincide com o aparecimento de Eva.</p>
<p>Ao mesmo tempo, o veículo de tal força seria a Serpente: entidade que tem a sedução como sua qualidade mais evidente e usa a linguagem de forma inovadora, sem conectá-la a imperativos de verdade, como faz Jeová e Adão. Estes não sabem mentir, ao contrário da Serpente, a primeira a utilizar a palavra como forma de poder. Foi tal criatura que convenceu Jeová a criar a Mulher com um aparato genital superior em quantidade e qualidade ao do Homem. Assim, as necessidades sexuais de Eva nunca serão supridas por Adão, o qual, aliás, não se interessava tanto por isso, gerando uma coisa, até então, inédita no Éden: a insatisfação. Devido à sua superioridade biológico-sexual, Eva nunca se saciará com Adão, tornando-se frustrada sexualmente e, portanto, trazendo dentro de si uma base arcaica para uma insatisfação geral e difusa com tudo e com todos — não, não tem nada a ver com TPM. Insatisfeita, Eva desejará.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/adaoeva.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-343" title="adaoeva" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/adaoeva.jpg" alt="" width="330" height="300" /></a></p>
<p>Sim, Eva será possuída por essa força cósmica: o desejo.</p>
<p>Nesse sentido, a Maçã será a prova do desejo &#8212; pra que comê-la, se as nossas determinações vitais estão satisfeitas? Adão, por exemplo, nunca se preocupou com a Maçã, porque não tinha essa necessidade. Estava na sua, numa boa e não se inquietava com isso. Não existia nenhum motivo racional para comer o fruto proibido. Era preciso algo mais, algo transcendente para perverter uma vontade, como a de Adão, tão adequada às necessidades objetivamente saciadas. Assim, era necessária uma outra vontade — insaciável, insatisfeita, afirmando o que não existe ou o que não se tem — a vontade do desejo.</p>
<p>Além do mais, era proibido comer a Maçã. A ordem era evidente. Pra que desobedecer? O ato de comer a maçã, por estar ausente das determinações vitais de Adão, constituiria um ato de autonomia em relação a Jeová. Um ato que realizaria um desejo.</p>
<blockquote><p>&#8220;A autonomia do desejo, justamente por escapar ao controle das leis objetivas do Senhor, é caracterizada pela alegoria bíblica como uma falsa autonomia, pois não seria imanente à criatura, mas implantada por uma pretensa força cósmica a-racional. Assim, o desejo seria fonte de escravização humana a uma força do Mal. Enquanto a conformidade com as leis objetivas do Senhor, essa sim, seria a fonte de uma liberdade adquirida pela redução de todo o Bem ao reino das necessidades objetivas satisfeitas&#8221; (Nélson Levy: &#8220;Desejo&#8230; o lugar da liberdade&#8221;).</p></blockquote>
<p>Lembro que, na tradição greco-latina, desejo significa <em>desiderare</em>, que vem da palavra <em>sidus</em>, <em>sideris</em>, que quer dizer astro, estrela. Antigamente, os romanos recorriam, para perscrutar o seu futuro, aos adivinhos e aos arúspices, que liam as mensagens vindas dos astros, como fazem, inclusive, os nossos modernos astrólogos. Eles então consideravam — <em>considerare </em>—, isto é, levavam em consideração o que diziam os astros. Assim, <em>desiderare </em>significava desistir dos astros, representando uma situação na qual impera o pessimismo. Os romanos tinham, dessa forma, a certeza da ausência e da impossibilidade de realização do seu desejo; portanto, desistiam de olhar os astros e de especular sobre o futuro. O desejo foi, assim, considerado algo cuja determinação não possui nenhuma relação com os sistemas determinísticos usuais — sejam provenientes de uma razão divina ou de uma última instância qualquer. O desejo, na tradição cristã e no racionalismo, é uma não-determinação objetiva: &#8220;<em>o lugar de uma liberdade perversa e destrutiva, quando não libertina e até mesmo liberticida</em>&#8220;.</p>
<p>Adão caiu nessa, embora não mostre arrependimento. No mínimo, é ambíguo. Por isso, essa nova vida não o impede, desde a expulsão, de sentir saudade do Paraíso. Deseja muito Eva, é verdade, mas se pergunta, principalmente quando ela está dormindo, se tudo valeu a pena. Gosta de olhar Eva entregue ao sono. Lembra dos coelhinhos e dos girassóis do Paraíso. O motor do desejo parece um anjo — pensa. E, toda vez que a olha, reflete sobre um velho enigma que assola feito uma peste bubônica a sua mente.</p>
<p>Por que Eva fora tirada exatamente da sua costela, já que Deus podia ter usado um pedaço de madeira, uma pedra ou qualquer outra matéria? Aquela costela estava sobrando? Inclusive, ele vivia se apalpando procurando algum indício. Porém, se não estava sobrando costela alguma, por que então ele estaria sendo privado, por Deus, de parte essencial de seu corpo, dado não ser concebível que, desde o início, estivesse presente no corpo humano algo supérfluo. Ou ele tivera treze costelas de um lado e doze do outro? Fora uma espécie de monstro, como os homens que têm três mãos e três pés? (Robin Lane Fox: &#8220;A Bíblia, verdade e ficção&#8221;).</p>
<p>Toda noite pensa nisso, adormece com isso, mas nunca sonhou isso. Está cansado da sutileza das sensações inúteis e das paixões violentas por coisa nenhuma. Na próxima eleição, como sinal de protesto, Adão votará nulo&#8230;</p>
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		<title>Desabafo coprolálico</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Jun 2008 15:00:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antigo]]></category>

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		<description><![CDATA[   Acho que não estou muito bem. Meu humor está péssimo. Preciso desabafar. Não serei sutil. Não sei definir o que me atormenta, mas deve ser pesado. Para o bem ou para o mal, recorrerei ao blog. Ele não serve para expor publicamente as entranhas? Não é um diário? Um espaço de confissões? [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> <img src='http://www.blogdosperrusi.com/wp-includes/images/smilies/icon_mrgreen.gif' alt=':mrgreen:' class='wp-smiley' />  Acho que não estou muito bem. Meu humor está péssimo. Preciso desabafar. Não serei sutil. Não sei definir o que me atormenta, mas deve ser pesado. Para o bem ou para o mal, recorrerei ao blog. Ele não serve para expor publicamente as entranhas? Não é um diário? Um espaço de confissões? Bem,  o problema é que as entranhas, convenhamos, são regressivas, infantis. Mesmo assim, decidi confessar um lado <em>caché </em>que só íntimos não desconhecem. Tornar público um <em>pathos</em>.</p>
<p>Bora lá: sou um grande entupidor de banheiros, o mestre da latrina entupida! Já perdi amizade por causa disso, o que acho injusto, pois não tenho culpa da minha natureza. A culpa é dos meus genes. A <em>Veja </em>já demonstrou que existe um gene <em>cagatorium</em>, localizado na décima hélice do nosso genoma. Tenho o que, tecnicamente, pode ser chamado de <em>pulsão de excremento</em>, que cheira bem mais do que a velha conhecida <em>pulsão de morte</em>, pelo menos imediatamente. Pode ser exibicionismo, mas é uma das poucas coisas que faço em abundância, com generosidade. Mas, paradoxalmente, nunca estive em harmonia com o ato de obrar; na verdade, sempre vivi nesse terreno movediço entre a constipação e a diarréia. Quando pequeno, tinha prisão de ventre; adulto, fluxo de ventre.  É uma dialética um tanto desagradável e nem um pouco hegeliana.</p>
<p>Lembro-me de uma vez, era a época do ginásio, quando veraneei na casa de um colega ricaço e passei uns três dias sem cagar. Coisa típica da minha infância, na qual a minha timidez corporificava-se numa consistente prisão de ventre. Apesar da minha ciência psiquiátrica, esse fenômeno jamais teve desvelado o seu sentido oculto, talvez perdido para sempre nas profundezas de meu intestino grosso. Quem sabe devesse fazer terapia, como uma amiga, que resolveu o seu problema cagando, behavoristicamente, toda manhã, embora de maneira um tanto compulsiva. Dez anos de divã e sua histeria, hoje, é bosta matinal. Impeça-a de obrar e sua neurose brotará do seu inconsciente como uma caganeira emocional. Mas ela se sustenta e vai vivendo a vida. No fundo, eu a admiro.</p>
<p>Bem, no terceiro dia, como minha pele dava sinais verdes de alerta, decidi soltar, enfim, com fanfarrice, toda aquela inteligência acumulada. Acredito que caguei o mundo inteiro e, mais um pouco, ia ser o sistema solar. Emudeci, emocionado. Obra de um gênio, certamente. Olhei toda aquela soberba boiando e fiquei preocupado. Dei a primeira descarga, e nada! A segunda, e o mondrongo nem se mexeu! Fiquei, realmente, preocupado.</p>
<p>O que  fazer? &#8211; como diria Lênin.</p>
<p>Estava na casa de membros do Ancien Régime recifense e não podia deixar como lembrança, justamente, um troço com um cheiro tão pouco aristocrático. Fiquei acocorado, algum tempo, junto à latrina, como a meditar sobre a minha desgraça, que fedia, aliás, horrores. Já fazia uma hora que estava trancado no banheiro. Tinha que dar alguma solução ao imbróglio fecal. Olhei ao redor e vi uma vassourinha, daquelas de limpar o vaso sanitário. Tive, então, a idéia fantástica de chocalhá-la na latrina, e ver se descia a merda. Meu raciocínio talvez fosse o seguinte: vassourinha + agitação = sumiço da titica. Pensei até mesmo em tirar, da minha lógica impecável, alguma lição moral ou fundar uma ontologia nunca dantes navegada. Porém, uma lógica impecável nem sempre tem uma relação necessária com a realidade. A bosta, contrariando Aristóteles, não desceu. E muito pior: a vassourinha ficou uma merda só.</p>
<p>Tinha agora não um, mas dois problemas: a latrina entupida e a vassourinha obrada.</p>
<p>Fiquei tão horrorizado com a situação, olhando a vassourinha emporcalhada na mão, que a deixei cair, de forma atrapalhada, na pia do banheiro. E, num ato reflexo, peguei a toalha de mão e tentei limpar a porcaria.</p>
<p>Tinha agora não dois, mas três problemas: a latrina entupida, a vassourinha obrada e a toalha de mão defecada.</p>
<p>Estava desesperado e já com lágrimas nos olhos. O cheiro estava de lascar. Ser sufocado pelo próprio excremento é um triste fim, pensei. Olhei, de novo, ao redor. O banheiro tinha uma janela que dava para os lados de um terreno baldio. Não vacilei: joguei a vassourinha e a toalha infecta no mato. E a latrina? Ela, eu forrei de papel higiênico pra disfarçar.</p>
<p>Saí com a cara mais lavada do mundo. A casa inteira ficou incensada de bosta; a família, em silêncio, diante do cagão hediondo. Mutismo de aristocrata, para manter as aparências. Senti-me estigmatizado. Preferia uma conduta compreensiva, quase terapêutica, do tipo: &#8220;Você entupiu o banheiro? Faz mal não, isso acontece, afinal, qual é o problema em ter um cheiro de merda na casa o dia inteiro?&#8221; Pelo contrário, recebi como solidariedade um silêncio constrangedor. Hoje, já adulto, talvez tentasse discutir com o pessoal, trabalhar o assunto, relativizá-lo, mostrando que a vida é muito melhor do que a gente pensa;  _vocês já andaram junto ao Canal da Agamenon? Pois é&#8230;</p>
<p>Dormi acalentado pelo tchec-tchec do desentupidor. Durou uma eternidade. Coitado do pai de meu amigo. Creio que meu sentimento antiburguês nasceu desse evento. Generoso, porém ressentido. Eu era culpado, mas projetava a culpa no tipo ideal do burguês. É um mecanismo ideológico curioso: culpar os outros pelas nossas merdas. Enfim, posso dizer que muita qualidade moral teve sua origem nos <em>bas-fonds </em>de um sanitário.</p>
<p>No outro dia, de manhãzinha, a empregada pergunta pela toalha de mão.</p>
<p>Aguardei, até o fim, que ela perguntasse pela vassourinha&#8230;</p>
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		<title>Cinema é ilusão</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Jun 2008 15:00:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antigo]]></category>

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		<description><![CDATA[Confesso que sou viciado em filmes americanos, principalmente aqueles impecáveis na engenhosidade técnica e de agradável imbecilidade. E digo logo aos incautos que um filme desse tipo não é fácil de se fazer. É preciso competência para produzir prazeres simples e reproduzir voracidades. Sim, esses filmes são vorazes. É fácil de perceber. Talvez, traduzam uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/cinema.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-338" title="cinema" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/cinema-262x300.jpg" alt="" width="262" height="300" /></a>Confesso que sou viciado em filmes americanos, principalmente aqueles impecáveis na engenhosidade técnica e de agradável imbecilidade. E digo logo aos incautos que um filme desse tipo não é fácil de se fazer. É preciso competência para produzir prazeres simples e reproduzir voracidades. Sim, esses filmes são vorazes. É fácil de perceber. Talvez, traduzam uma sociedade glutona, ávida. Eu mesmo, meio sem querer, até por causa do meu vício, incorporo uma conduta um tanto quanto aditiva. Acho que é influência, sei lá. Toda vez, compro logo um balde de pipocas e muita coca-cola. O ato de comer pipoca durante um filme equivale a uma sessão de hipnose. Normalmente, saio empachado da sessão e, chegando em casa, tomo um luftal. E começo a peidar — talvez o filme, quem sabe. Será que é, por causa disso, que sempre me esqueço dos filmes?</p>
<p>Sempre fico encafifado quando penso na causa do meu vício por filmes americanos. Acho que tenho necessidade de aplacar apetites infantis. Sou uma criança freudiana! Daquelas educadas pelo liberalismo radical do construtivismo. Em suma: uma pequena peste vive dentro de mim! Fico pensando se o meu gosto estético por catástrofes provém desse infantilismo. Talvez, seja influência das pipocas. Há pesquisas mostrando a influência das pipocas na estética da violência.</p>
<p>Ora, o americano é o ser humano que mais come pipoca do planeta. Há aí alguma correlação positiva, certamente. Posso deduzir que, sendo o cinema ianque produzido para saciar a voracidade infantil americana, não causa surpresa que nove entre dez filmes nos States tenham como tema algum desastre, alguma violência, algum terror, etc. e tal. A demanda social por condutas regressivas é o apanágio de sociedades glutonas. Vejam os carros americanos de polícia: todos espalhafatosos, com luzes piscando por todos os lados. Nunca vi, em lugar nenhum do mundo, carros de polícia tão amostrados!</p>
<p>Tudo bem, os americanos são vorazes, mas têm uma vantagem em relação aos brasileiros: podem ainda sublimar seus apetites infantis na ficção cinematográfica, enquanto nós pervertemos nossa fome regressiva na própria realidade. Convenhamos, somos piores.</p>
<p>(fico pensando nos filmes de terror. O que causa muitas vezes o terror não seria o fato de se impedir que o elemento tempo passe por algum processo de transformação? Explico: tempo é rotina, costume e hábito; tempo processado não gera medo. Passar dos 20 anos aos 80 em 60 anos não nos causa medo, mas passar esse intervalo em segundos é apavorante. Realmente, ficaria em pânico, se me visse envelhecendo de forma ultra-rápida, principalmente defronte a um espelho. Em suma, transformação menos tempo é igual a pavor)</p>
<p>Blog é insight, mesmo que seja incognoscível&#8230;</p>
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		<title>Uma experiência incontestável</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Jun 2008 11:14:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antigo]]></category>

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		<description><![CDATA[
Confesso que faço experiências pedagógicas com meus alunos. Sou um cientista e vejo o mundo como um enorme laboratório. Não digo que eles apreciem; na verdade, esboçam até resistências. 
_Não somos hamster! &#8212; dizem.
_Mas é em prol da ciência! &#8212; retruco.
 
E, longe de mim, percebê-los como roedores, pois acredito piamente que são, de fato, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/ratolabirinto.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-333" title="ratolabirinto" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/06/ratolabirinto-300x204.jpg" alt="" width="300" height="204" /></a></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Confesso que faço experiências pedagógicas com meus alunos. Sou um cientista e vejo o mundo como um enorme laboratório. Não digo que eles apreciem; na verdade, esboçam até resistências. </span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">_Não somos hamster! &#8212; dizem.<br />
_Mas é em prol da ciência! &#8212; retruco.<em></em></span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;"><em></em> </span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">E, longe de mim, percebê-los como roedores, pois acredito piamente que são, de fato, mamíferos superiores. E é dentro desse paradigma que concebo a experimentação.</span> </span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Nalgumas experiências, utilizo uma variedade sortida de alunos: alunos criacionistas, alunos que negam a viagem do homem à Lua, alunos que crêem na Transubstanciação (preciosos, porque raríssimos), alunos que lêem a Veja; em suma, todos aqueles que projetam sua postura intencional em Deus e o Mundo. Todos são animistas, pois têm o impulso compulsivo em conferir agência às coisas e aos fatos, concebidos como agentes dotados de desejos e crenças. No fundo, tenho uma população enorme para escolher, porque todos os tementes a Deus, tecnicamente, são animistas, um pouco mais sofisticados, é verdade, do que os antigos animistas, embora não apresentem a beleza e a criatividade de antanho. </span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">(Ah, belos tempos aqueles do animismo, e idiotas também: o <em>desejo</em> do rio correr ao mar e a <em>intenção</em> benigna ou maléfica das nuvens de chuva eram tomados ao pé da letra e tão seriamente que podiam tornar-se uma questão de vida ou morte &#8212; que o digam as virgens astecas &#8212; chutei, não sei se eram virgens&#8230;).</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Inclusive, para ser franco, coloco até mesmo os agnósticos na amostragem, por pura pirraça contra sua covardia espiritual.</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Teve um dia que estava com sorte. Chegara uma leva de alunos de uma disciplina sobre pós-modernidade, e estavam todos embriagados de relativismo cultural e epistemológico. Alguns defendiam a magia e a dança da chuva. Diante do meu riso positivista, vociferavam: etnocentrismo!</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;">_Professor, você precisa se libertar do paradgima da ciência ocidental!</span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Ora, eles sabem que não consigo. Sou um cientificista inveterado. Tento explicar, mas não me escutam. Acho apenas que a tática de colocar intenção em tudo que é fenômeno do mundo pode levar a nada. Sinceramente, por mais que os nossos ancestrais adorassem prever o tempo, descobrindo o que <em>ele</em>, o tempo, <em>queria</em> e que crenças <em>ele teria</em> a seu respeito; bem&#8230; er.. a tática simplesmente não funcionou. Certo, muitas vezes <em>pareceu</em> funcionar; mas, convenhamos, as danças da chuva fracassaram de forma retumbante &#8212; não tanto, é verdade, como as teorias dos economistas, esses animistas do dinheiro, ou as previsões de certos ecologistas, neomalthusianos de esquerda, esses animistas das catástrofes.</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Chamei alguns para participarem da experimentação pedagógica. Era uma experiência para medir o efeito da postura intencional num esquema aleatório de reforço. Era proibido falar ou utilizar qualquer forma de comunicação. De vez em quando, não importando o que o aluno estivesse fazendo na sala de aula, aparecia uma recompensa sob a forma de notas altas. Bastava esperar um apito e a nota aparecia de forma casual. Logo, logo, os alunos, diante desse esquema randômico, estavam fazendo gestos e &#8220;danças&#8221; elaboradas, sacudindo, torcendo e dobrando o corpo. Depois, tentando saber o motivo dessas pantomimas, recebi a seguinte resposta de um aluno: </span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">_professor, na primeira vez que, sem motivo aparente, recebi a nota máxima, acabara de dar uma virada de perna e dobrado o pescoço. Pensei: vou tentar outra vez&#8230; (quem estava próximo, imitou-me). Mas não deu certo e não apareceu nota alguma. Achei que não girara o suficiente&#8230; Nada. Aí, sacudi meu corpo antes de girar e dobrar&#8230; Deu certo! Fiz de novo&#8230; Nada. Sacudi e dei três pulinhos, girei as pernas e dobrei o pescoço até doer. Nada. Aí pensei: e, agora, o que foi mesmo que acabei de fazer?&#8230;</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Achei curioso o procedimento de pensar que, de alguma forma, os gestos e as atitudes poderiam influenciar o aparecimento (aleatório, repito) das notas, talvez até mesmo seu valor. Se, sem linguagem, o aluno projetava sentido o quanto podia ao reforço aleatório, imaginem utilizando ao máximo a postura intencional, turbinada pela ação comunicativa mediada linguisticamente. Fiz, assim, outra experiência, permitindo a interação e o uso da linguagem, e o resultado foi o seguinte: criaram a hipótese de que havia um criador &#8212; alguma coisa <em>invisível</em> que <em>parece</em> com uma pessoa &#8212; responsável pelas notas. Inicialmente, acusaram-me de ser o patife que dava as notas; depois, vendo-me afastado da sala, deduziram que </span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">o criador das notas </span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">fosse um agente oculto </span></span><span style="font-size: small;"></span><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">&#8211; com cabeça, olhos, braços e pernas (um aluno disse que o ser tinha um capacete espacial, pois acreditava que os deuses egípcios eram extraterrestres). Deram-lhe até um nome: <em>Dieci</em>, o deus da nota.</span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Bem, creio que descobri a fundação natural da postura intencional que gera a crença mística, esotérica ou religiosa. Sei que os crentes desse blog, principalmente o Reverendo Tsé-Tsé, julgarão minha conclusão um absurdo, mas a experiência prova que a religião é uma projeção ilusória da postura intencional, que teve alguma utilidade nos tempos das cavernas, mas agora só faz atrapalhar a transformação revolucionária da sociedade e produzir ilusionistas como Ratzinger. Lembro que a Revolução precisa de pessoas racionais e atéias. Logo, o papel dos professores será importante: nas suas salas de aula, precisam eliminar as ilusões de uma condição que necessita, justamente, de ilusões. Por isso, do ponto de vista científico, a projeção da postura intencional precisa ser historicamente determinada e direcionada, principalmente pelos cientistas sociais, aos verdadeiros inimigos da sociedade: </span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">os burgueses são </span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">os agentes responsáveis de todas as desgraças do mundo, principalmente os liberais, seus membros mais perigosos. </span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Ainda lembro que, no comunismo, não haverá a projeção ilusória da postura intencional, isto é, não haverá ópio (na versão marxista), nem neurose (na versão freudiana); em suma, não haverá religião. O dia comunista, libertado da religião e do trabalho alienado, será uma felicidade geral: de manhã, treparemos, à tarde, treparemos (provavelmente, sem camisinha, para júbilo dos católicos, afinal, é o comunismo, o fim da História) e, à noite, dormiremos profundamente, porque ninguém é de ferro. </span></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><span style="font-size: small;">Enfim, peço desculpas, não quero ofender ninguém, mas os crentes são, objetivamente, opiômanos e neuróticos. As provas podem cansar as crenças, mas fazem parte da realidade. Não posso mudar o que existe &#8212; só Deus.</span></span></p>
<p><span style="font-size: x-small;">(a crônica é uma paródia de trechos do livro de Daniel Dennett: &#8220;quebrando o encanto&#8221;)</span></p>
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		<title>A fundação do mundo</title>
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		<pubDate>Sun, 18 May 2008 00:40:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antigo]]></category>

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Vendo a série C aproximar-se e, deus me livre, a D, também, voltei-me a Freud, aquele do charuto ambíguo. Li tanto o cabra que, agora, faço interpretações a torto e a direito. Tá na minha frente?! Interpreto na hora. E digo logo: o problema é tua mãe! Aprendi isso lá na Biblioteca Central da UFPB, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 6pt 0cm; TEXT-ALIGN: center"><a href="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/05/jogobola.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-318" title="jogobola" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/05/jogobola.jpg" alt="" width="325" height="324" /></a></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"> </p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial;"><span style="font-size: medium;">Vendo a série C aproximar-se e, deus me livre, a D, também, voltei-me a Freud, aquele do charuto ambíguo. Li tanto o cabra que, agora, faço interpretações a torto e a direito. Tá na minha frente?! Interpreto na hora. E digo logo: o problema é tua mãe! Aprendi isso lá na Biblioteca Central da UFPB, cercado de livros freudianos, olhando aterrorizado para aqueles funcionários horripilantes. Ali, com o dedo em riste, apontava o problema e gerava pulsões matricidas. Tudo bem que os mondrongos não me compreendiam, mais ainda que essa discussão não era mesmo lá muito importante. O fato fundamental foi que encontrei alguns manuscritos — na realidade, anotações — desconhecidos do público que modificam a nossa visão tradicional do método freudiano. </span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial; mso-ansi-language: PT-BR;"><span style="font-size: medium;">Não sei bem qual será a opinião dos leitores e espero, sinceramente, que as informações não lhes causem nenhum constrangimento. Bem, o bolero é o seguinte: as anotações encontradas modificam a nossa opinião usual da obra <em style="mso-bidi-font-style: normal"><span style="mso-spacerun: yes"> </span>Totem e Tabu,</em> cuja exegese tradicional, aliás, sempre me pareceu insuficiente. Ora, aparentemente, tal livro seria uma pálida ficção da gênese social, quando comparado com Hobbes e outros jusnaturalistas — a violência fundando a cultura é um tema repetido há muito pelos filósofos. Inclusive, Freud não deixa de ser, no fundo, um repetidor das hipóteses do jusnaturalismo, embora seja original em imaginar uma cena primitiva e fundadora tão mórbida como um parricídio. Não acredito que Sigmund tenha tido apenas a intenção de nos demonstrar uma hipotética fundação social, mas sim ir além disso; isto é, existe outra hipótese bem mais poderosa e importante, recalcada na história parricida. Na verdade, seria menos uma hipótese do que uma estória, justamente aquela que Freud escreveu e que quero publicar.</span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial; mso-ansi-language: PT-BR;"><span style="font-size: medium;">Lá vai:</span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial; mso-ansi-language: PT-BR;"><span style="font-size: medium; color: #ff6600;"><strong>&#8220;Desde o início fora assim, como se fosse uma coisa imutável, um direito eterno e inquestionável. Orravan — segundo Freud, nome absurdamente primitivo, talvez o fonema essencial tão procurado pelos lingüistas —, pai da horda primitiva, logo de todos, tinha o poder monopolista, quase divino, de possuir todas as fêmeas do bando. Nunca que isso tivesse realmente chateado os filhos machos, principalmente no começo, quando todos eram ainda crianças. Além disso, o pai era bem grande e tinha uma carranca de meter medo — sem dúvida, parecia que a força, a agressividade e a violência detinham uma natural superioridade nessa cripto-sociedade. Mesmo assim, o grande divisor proto-moral da horda que dissuadia os filhos machos, diminuindo as suas vontades, era o Falo de Orravan, ereto e onisciente, cuja incomensurabilidade afastava qualquer possibilidade de competição — na verdade, pelos padrões modernos, o negócio não era tão grande assim e precisaria de uma pinça para a sua manipulação; mas, estamos na pré-história, época dos tamanhos liliputianos.</strong></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial; mso-ansi-language: PT-BR;"><span style="font-size: medium; color: #ff6600;"><strong>Com o tempo, a testosterona foi fazendo os seus efeitos, moldando a forma do mundo, dando vigor e atiçando o desejo dos filhos. O hormônio fez com que a representação da coisa se tornasse a do nome, permitindo que a semântica fosse inscrita na necessidade fisiológica e pudesse, aos poucos, insinuar-se como uma palavra, ainda arcaica, é verdade, embora a sua significação já contivesse todo o seu sentido civilizador supremo: sexo! Assim, os filhos passaram a interpretar a cena primitiva via princípio da realidade, ultrapassando o princípio do prazer, o que acarretou um desagrado geral na horda. Ora, o desgosto era compreensível, já que, segundo Freud, a cena primitiva era o pai arcaico possuindo a mãe ancestral, cujos urros de prazer ainda reverberam na evolução humana, constituindo aquele nojo ontológico que sentimos, quando criança, ao flagrar nosso pai (&#8230;) a nossa mamãezinha querida. Talvez o problema fosse a insistência de Orravan em demonstrar a sua potência sexual na frente de todos, visto que os rapazes estavam, por um processo desconhecido, desenvolvendo os primeiros rudimentos da privacidade e do pudor público.</strong></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial;"><span style="font-size: medium; color: #ff6600;"><strong>O pai arcaico, aparentemente, desconhecia isso ou, simplesmente, era mal acostumado. Ele tinha o costume de deixar a mãe ancestral, as tias primordiais, as irmãs primícias e as primas primitivas de jejum forçado, distribuindo-lhes penitências que iam de três dúzias de ave-ppgs (uma espécie de ave-maria dos inícios ) até pisas de tabica no lombo e rezas sem fim. Terminava o ritual exatamente ao meio-dia, quando liberava todas dos entreveiros e se punha a copular com cada uma, meticulosamente, no primeiro banco de palha da antropologia humana. A última a ser acasalada era geralmente a mais nova (cobiçada por todos da horda) que encenava o ppgs e era depois malhada até sangrar. Orravan lambia o sangue com a sua língua de boi e ria para os seus filhos. Depois, imitava uma cabra e balia de forma estridente (o cúmulo da conduta blasé). No final, todos, inclusive os filhos, iam se banhar no rio sagrado Sanha Hoá, onde o Fornicador Alfa continuava a se amostrar, mostrando o membro desonesto e deixando o resto dos machos abufelados e avexados.</strong></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial; mso-ansi-language: PT-BR;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #ff6600;"><strong>A situação explodiu quando um dia, sem motivo aparente, na hora do ritual de ppgs, enquanto corria atrás da mais nova do bando, Orravan proferiu as primeiras palavras chulas da história: <em style="mso-bidi-font-style: normal">Arreda, Ppgs! Vou fazer tu te mijar todinha. Ah! minha Santa Agonia, hoje eu arrebento essas pregas. Toma no caiçuma, filha de ninguém. Fica de quatro. Tu vai penar que nem Santa Terezinha, diaba dos quintos! </em></strong></span></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #ff6600;"><strong><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial;">(</span><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial; mso-ansi-language: PT-BR;">Completamente misteriosa essa alusão a Santa Terezinha. Bosquímano, estudioso profundo da psicanálise, insinua que Freud, aqui, projeta do fundo do seu inconsciente o nome da sua professora do primário, Terezinha Milchkuh — Ver Gil, Inveja do Pênis, aprenda agora! &#8211; Jampa, Manufatura, 2007).</span></strong></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial; mso-ansi-language: PT-BR;"><span style="font-size: medium; color: #ff6600;"><strong>A raiva e a indignação alastraram-se como fogo na Califórnia. O mais forte dos filhos lançou-se, feito um alucinado, contra Orravan e, logo imediatamente, foi seguido por todos. As fêmeas da horda foram as mais cruéis e suas pantomimas não se diferenciaram muito daquelas feitas durante a fornicação sagrada. Elas, num só gesto, fizeram os extremos se tocarem: Eros e Thanatos, num rodopio ardente que seria repetido milhares de anos depois pelas bacantes. O pai da horda primitiva foi literalmente massacrado e seus restos ficaram boiando numa pocilga que, com tanto sangue, parecia uma pequena corredeira, indo desaguar no rio Sanha Hoá e o tornando completamente rubro. Inebriados, os machos comeram os restos de Orravan para adquirir a sua força e virilidade; no entanto, deixaram o seu Falo intacto, transformando-o no primeiro totem miniatura existente e, depois, tomaram uma cachaça para esquecerem o festim e o menu.</strong></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial;"><span style="font-size: medium; color: #ff6600;"><strong>Na aurora do primeiro dia sem pai e, do ponto de vista conceitual, do primeiro da civilização, os filhos refestelados, ainda preguiçosos da barbaria passada, olharam-se uns aos outros, cada qual com a sua mancha de sangue, cada qual com fiapos da carne do Pai entre os dentes, e tiveram um medo pavoroso: e se fizessem aquilo tudo novamente entre si? Afinal, as fêmeas estavam lá, e todas com aquele jeito meio zonzo, sem função. Havia o perigo da disputa e do monopólio. Havia o perigo da guerra eterna. Os olhares, então, tornaram-se acordo e surgiu o pacto dos pactos: todos deviam renunciar aos frutos da vitória, evitando com isso uma auto-carnificina. Surgira, assim, a primeira conquista cultural baseada no consenso: o contrato social do incesto. Todos interiorizaram rapidamente a proibição, através de uma instância nova que estava surgindo, o superego, e deixaram em paz as mulheres do grupo.</strong></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial;"><span style="font-size: medium; color: #ff6600;"><strong>Contudo, não deu uma semana e o onanismo, inventado pelo mais tarado dos machos do grupo, Samid, floresceu a ponto de causar calos nas mãos. </strong></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #ff6600;"><strong><span style="font-size: small;">(Neste ponto, vale assinalar que Freud foi radicalmente contra as teses marxistas de que o calo na mão surgiu da praxis do trabalho. Assim, como o mesmo disse: &#8220;o onanismo, enquanto praxis, realiza a autonomia transcendental do homem vis-à-vis do arquétipo feminino&#8221;).</span> </strong></span></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial;"><span style="font-size: medium; color: #ff6600;"><strong>Nosso amigo, insatisfeito com a sua invenção — de fato, o cabra era mesmo um tarado —, ficou desconfiado de que, mais dia menos dia, os machos do grupo poderiam, sem sexo feminino, imitar aquele animal bizarro chamado de paca. </strong></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial;"><span style="font-size: small; color: #ff6600;"><strong>(Freud sempre se interessou pelo tema da paca, certamente influenciado pelos estudos naturalistas de Darwin que, em Galápagos, ficara intrigado com os hábitos alvirrosas deste animal). </strong></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial;"><span style="font-size: medium; color: #ff6600;"><strong>Teve, assim, outra brilhante idéia: por que não atacar o acampamento de Aduf — outro nome absurdamente primitivo de que nos fala Freud — e roubar as suas mulheres? Afinal, o Outro Bando tinha muitas mulheres — certo, todas cabeludas e androfóbicas, mas ainda assim seres femininos&#8230; Além do mais, Aduf já estava senil e balofo na sua vidinha sedentária e não ofereceria uma grande resistência. Dito e feito, aprovada a idéia, foram todos amolar as pedras de sílex, munirem-se de cordas, redes, lanças, etc, preparando-se para a grande empreitada. O caminho era longo, pois o lugar de moradia do Outro Bando era meio longe, lá pelos lados de Apmaj — região terrível, habitada por dragões, ganos e sapuris, onde era inevitável o suicídio masculino. _ Passe lá quatro meses e você se mata! &#8211; já dizia Yrret, um velho celta, o doido ancestral.</strong></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial;"><span style="font-size: medium; color: #ff6600;"><strong>O ataque pegou o Outro Bando completamente de surpresa. Muitos homens, paralisados de medo, morreram ali mesmo, não oferecendo qualquer resistência. Nesse ínterim, o mais bonito e o mais esperto da ex-horda, chamado de Per Usi, entretia-se com algumas gatinhas, fornicando com enxerimento e, nesse rústico movimento, inventando novas posições sexuais que contagiaram de prazer e de alegria as intumescidas fêmeas.</strong></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial; mso-ansi-language: PT-BR;"><span style="font-size: small; color: #ff6600;"><strong>(Há indícios de que Per Usi foi o inventor do Candelabro Italiano, do Minueto Alemão, da Clava Javanesa, da Mazurca Polonesa, do Torno Polinésio e da Mamadeira Búlgara. Freud escreverá no seu caderninho de notas: &#8220;Não existiu legado mais importante do que o de Per Usi&#8221;). </strong></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial;"><span style="font-size: medium; color: #ff6600;"><strong>Nunca que tivessem visto um macho como ele, tão carinhoso e tão homem, tão doce e tão furioso! O malandro rapaz sabia instintivamente que era apenas uma questão de saber explorar a riqueza interior com que a natureza houvera por bem presentear a cada filho. A infelicidade consistia em não saber fazer esta exploração. Macho e fêmea se complementavam, e tanto mais seriam felizes quanto mais se explorassem e usassem mutuamente seus corpos e seus espíritos. Aduf ficou invocado e arretado com a cena, principalmente com os gritinhos de prazer das mulheres (ultraje dos ultrajes), partindo furioso na direção de Per Rusi, que não teve dúvida e meteu-lhe o sarrafo, arrancando a sua cabeça num só golpe. Durante um segundo, que pareceu uma eternidade, um silêncio de morte tombou no campo de batalha e os filhos de Aduf constataram com estupor a morte do seu chefe/pai, ficando imóveis e petrificados diante do horror daquela cena dantesca: a cachola venerada rolando ensangüentada pelo chão.</strong></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial;"><span style="font-size: medium; color: #ff6600;"><strong>Quando Per Usi aproximou-se da cachimônia e ensaiou de pegá-la, a paralisia do Outro Bando, como por encanto, acabou e todos se lançaram para reaver a sede da razão de Aduf. Se tinham perdido o Pai, dariam a vida para, pelo menos, manterem-se com o seu bestunto. Per Usi, acossado pelo instante e não tendo tempo para apanhar a cabeça com as mãos, resolveu de improviso sair chutando o quengo e levá-lo a um lugar seguro. Ele passou pelo primeiro, driblou o segundo, deu uma saia no terceiro, lançou Ramde, que corria pela lateral do acampamento; este deu um traço num que se aproximava, deu um banho noutro e mandou de volta o crânio para Per Usi, que estava numa espécie de área retangular, onde tinha um tipo de guardião (um eunuco chamado de Andes) protegendo duas árvores paralelas, julgadas sagradas pelo Outro Bando e unidas por uma delicada rede de seda, e que fora feita especialmente pelas mulheres de Aduf. Nesse exato momento, os irmãos de Per Usi já estavam esperando-o do Outro Lado com as fêmeas seqüestradas. Ele somente precisava passar a cabeça entre as árvores, sem que o guardião a apanhasse, e os seus parentes a pegariam definitivamente. Houve um grande momento de suspense, o tempo gelou, os pássaros pararam de cantar, os papagaios de falar, os coelhos de trepar, os petistas de&#8230; bem&#8230; er&#8230;; então, Per Usi, quase em câmara lenta, encheu o pé, dando um chute de trivela no juízo de Aduf que, feito um foguete, furou a rede de seda — o guardião, de tão atordoado, nem viu a cabeça passar. Nosso rapaz saiu correndo bêbado de alegria, dando pulos e socando o ar, enquanto os seus irmãos e, praticamente, o mundo inteiro, davam um grito ancestral, guardado há muito na noite dos tempos: gooooool!</strong></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: center"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial;"><span style="font-size: medium; color: #ff6600;"><strong>(&#8230;)</strong></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial; mso-ansi-language: PT-BR;"><span style="font-size: medium; color: #ff6600;"><strong>Era noite e era festa no acampamento dos nossos antepassados, todos bebiam e fornicavam, inclusive as próprias mulheres da antiga horda, pois lhes trouxeram alguns prisioneiros que não se incomodaram de participar da geléia geral. Per Usi tinha recebido como prêmio a língua e os miolos do coco de Aduf. Estava satisfeito e saciado. Olhava a Lua, afastado de todos, meio pensativo e distraído, enquanto uma fêmea procurava piolhos e fazia cafuné nos seus longos cabelos encaracolados. Sabia de algum modo que o mundo tinha mudado, sendo impossível um retorno ao que era antes; a ponte que ligava o homem às suas origens estava irremediavelmente destruída; novas aventuras aguardavam a sua espécie, novas descobertas e também novos mistérios. Um horizonte praticamente infinito se descortinava na sua frente. </strong></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial; mso-ansi-language: PT-BR;"><span style="font-size: medium; color: #ff6600;"><strong>Contudo, uma leve inquietação, como uma brisa suave, insinuou-se no seu espírito: e se essa consciência de si, que o homem tinha conquistado, fosse um cataclismo, uma separação de nós mesmos em que teríamos de suportar pesadas conseqüências? Será que sermos nós mesmos implica assumirmos nossa <em style="mso-bidi-font-style: normal">existência</em>, esse álter fundamental, não coincidência de si, que é próprio do seres auto-realizados no tempo? Per Usi não sabia, mas o homem tinha, assim, inventado o tempo indicativo do presente e a&#8230; frescura. As ligações entre os pensamentos de Per Usi, bêbado e sonilundo, com o existencialismo sartreano são, convenhamos, mais do que evidentes. </strong></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial; mso-ansi-language: PT-BR;"><span style="font-size: medium; color: #ff6600;"><strong>De repente, um grito de alegria despertou-o dos seus devaneios, era Samid, completamente embriagado, que o chamava de volta ao acampamento. Ele desvincilhou-se da fêmea, esqueceu-se dos seus sonhos, antecipações e medos, e retornou correndo para o seu povo&#8221;.</strong></span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial; mso-ansi-language: PT-BR;"><span style="font-size: medium;">Aqui, terminam as anotações de Freud. Mais do que o parricídio ou a fundação da cultura, o homem feito humanidade tinha descoberto o Ludopédio. E, como vocês sabem muito bem, tal esporte não mudou muito desde essa época, exceto por uma regra: hoje, não se come mais a bola.</span></span></p>
<p class="MsoBodyTextIndent" style="MARGIN: 6pt 0cm 0pt"><span style="font-size: 11pt; font-family: Arial;"><span style="font-size: medium;">Tenho dito.</span></span></p>
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		<title>Ataque</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Apr 2008 18:00:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ 
Confesso uma coisa; afinal, um blog é um confessionário. Tenho medo de insetos voadores. Baratas aladas, são exemplos dessas abominações. Freud disse, uma vez, quando estava completamente bêbado de tanto tomar leite de gironda, vale frisar, que medo de barata é medo de vulva. Assim, tecnicamente, eu teria medo de vulvas voadoras? Fiz tal questionamento [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="left"> <img width="350" src="http://www.blogdosperrusi.com/wp-content/uploads/2008/04/barata.jpg" alt="barata.jpg" height="320" style="width: 350px; height: 320px" /></p>
<p align="left">Confesso uma coisa; afinal, um blog é um confessionário. Tenho medo de insetos voadores. Baratas aladas, são exemplos dessas abominações. Freud disse, uma vez, quando estava completamente bêbado de tanto tomar leite de gironda, vale frisar, que medo de barata é medo de vulva. Assim, tecnicamente, eu teria medo de vulvas voadoras? Fiz tal questionamento a alguns psi, mas não recebi resposta, apenas incredulidade. Já sonhei com vaginas dentadas e vaginas cheias de serpentes, mas estava tranquilo no sonho, já que não eram voadoras. Depois, descobri que há mitos apaches e indus a respeito dessas entidades horrorosas. Em suma, sonhei com arquétipos.</p>
<p align="left">Falando nisso, lembrei-me de um fato que aconteceu comigo: uma noite, um baratossauro invadiu a sala de aula e, no seu vôo absolutamente histérico, foi parar no meu ombro. Sim, as baratas têm, quando voam, uma falta de controle absoluto sobre seus atos e emoções. Aquele ziguezague só significa apenas uma realidade: ela vem sempre na nossa direção!</p>
<p align="left">Olhando-a no meu ombro, inferi que um acontecimento desse naipe só podia ocorrer na Paraíba, estado-onde-tudo-pode-acontecer. Estava sentado na mesa e, diante do ataque, comecei a bater desesperado na criatura antidiluviana. Não caí, mas dei diversos pulinhos de equilíbrio, enquanto escutava as gargalhadas dos malditos alunos, até que consegui dar uma tapa forte no bicho. O problema foi que o optóptero abominável saiu direto do meu ombro até o rosto de uma aluna. A coitada, enlouquecida, começou a bater na própria face, esmagando a barata e fazendo-a espirrar seu suco marrom, que ficou escorrendo entre o nariz e a boca. Ela teve uma crise nervosa, e eu uma crise convulsiva de riso. Tive que respirar fundo, mas fundo mesmo, e atuar de forma profissional. Duas alunas ajudaram-me e retiramos a aluna da sala, que não parava de chorar.</p>
<p align="left">Lá fora, junto da porta, a menina deitou-se e começou a tremer. Tudo indicava que ela engolira, sem querer, a gosma da barata, que é, como todo mundo sabe, extremamente venenosa. Começou a apresentar salivação excessiva, lacrimejamento, secreção nasal, aumento dos sons respiratórios por broncoconstricção, dificuldade respiratória, edema pulmonar, diarréia, diminuição dos batimentos cardíacos, constricção da pupila, tosse, vômito, micção freqüente, incoordenação motora. Depois apareceram tremores musculares, espasmos, hiperatividade.</p>
<p align="left">Falando friamente para vocês, mas entre médicos, de uma maneira calorosa, parece que a morte se deu por insuficiência respiratória e asfixia (paralisia dos músculos respiratórios). Enfim, foi uma morte dolorosa.</p>
<p align="left">Ela era uma ex-evangélica. Era a primeira vez que usava uma calça jeans, disse-me uma aluna, acreditando que era uma vingança divina.</p>
<p align="left">Há coisas que só acontecem numa sala de aula.</p>
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		<title>Velhice e adaptação</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Apr 2008 02:55:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Artur Perrusi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antigo]]></category>

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		<description><![CDATA[Cada vez mais darwinista, pensando em adaptação, adaptação&#8230; encontrei uma frase de Steven Pinker &#8211; Como a mente funciona &#8211; que diz muito do meu estado de espírito:
&#8220;A veneração dos ancestrais deve ser uma idéia atraente para aqueles que estão prestes a se tornar ancestrais&#8221;
Ou, ainda, devemos ser mais prosaicos: meu avelhantamento explica minhas simpatias e meu futuro.
Mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cada vez mais darwinista, pensando em adaptação, adaptação&#8230; encontrei uma frase de <a target="_blank" href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=240858&amp;sid=1897157491048286279982167&amp;k5=91E37E7&amp;uid="><strong>Steven Pinker</strong></a> &#8211; <em>Como a mente funciona &#8211;</em> que diz muito do meu estado de espírito:</p>
<blockquote><p>&#8220;A veneração dos ancestrais deve ser uma idéia atraente para aqueles que estão prestes a se tornar ancestrais&#8221;</p></blockquote>
<p>Ou, ainda, devemos ser mais prosaicos: meu avelhantamento explica minhas simpatias e meu futuro.</p>
<p>Mas penso nessa frase&#8230; Imagino o futuro ancestral que sairá de mim, depois de me escafeder e do serviço implacável dos vermes, único trabalho que, aliás, elimina as diferenças de classe. Pelo menos, sigo o destino dos Perrusi: quanto mais velho, mais impaciente e mais hedonista. <em>Carpe diem</em>, pessoal, <em>carpe diem.</em> Espero entregar-me a <em>Thánato</em>s quando meu corpo tiver exaurido a última chama de vida &#8212; não ficará nem uma última brasa de desejo. O safado ficará apenas com a carne putrefata; quem sabe, somente pó e nada mais. O hedonismo, claro, não vence a morte, mas lhe deixa uma vantagem mínima: o que adianta ficar com um corpo que, em vida, roeu até a moela todo o prazer de viver o mundo?</p>
<p>Certo, no final das contas, a morte é a única certeza que resta de uma biografia; mas, para que esperá-la e, até mesmo, pensá-la como redenção? Defendo que a melhor conduta diante de <em>Thánato</em>s é desprezá-lo até o fim, e de forma insolente: alegre e rindo sempre! Sim, é isso: o hedonismo é a arte do desprezo pela morte. Por isso, agora, comerei algo bem gorduroso e abarrotado de colesterol. Não seguirei o conselho das amigas defensoras de dietas espartanas e apologistas da ascese alimentar &#8212; viva o Bacon, o único deus materialista!</p>
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