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A alegoria bíblica: uma interpretação.

29 de junho de 2008, às 12:00h

Refrescando a cuca, escreverei baboseiras. Nada como abobrinhas para esquecer o Santinha. Rimou!

Um pouco sobre a alegoria bíblica…

Como se sabe, os quatro personagens (Jeová, a Serpente, Adão e Eva) do “pecado original” orbitam em torno de um mesmo objeto: a maçã. Afinal, o que é a maçã?

O paraíso, pensando bem, é o reino das necessidades objetivas absolutamente satisfeitas. É um mundo antiliberal, por natureza. Não há notícias de Friedmans no Paraíso. Lá, as carências são satisfeitas imediatamente, não havendo a necessidade de trabalhar. Todo almoço é grátis. Adão, rei da preguiça — paradigma perfeito do “perrusi’s way of life” —, é um ser objetivamente satisfeito, com todas as suas necessidades biofísicas atendidas. Ele diz o que digo sempre quando olho a praia de Intermares: _O que eu quero mais na vida do que isto? Ele sabe que o paraíso foi uma dádiva e não uma conquista, mas não sente culpa da sua sorte. Acha a mentalidade empreendedora uma imbecilidade.

_Acho uma besteira! — diz aos coelhinhos em volta.

Adão identifica-se profundamente com esse modo de vida, pois adora a estabilidade, a abundância e a calmaria, rejeitando, portanto, a preocupação e a instabilidade. Não existe liberdade em tal ambiente, porque ela, simplesmente, não é necessária; além do mais, Adão é, com toda razão, um grande acomodado. Liberdade é, sem dúvida, incompatível com qualquer paraíso, visto representar necessariamente incerteza, pluralidade, escolha, etc. e tal. Ele sabe do preço que pagaria por ser livre e não dá a mínima à autonomia,  à democracia e à igualdade.

_Pra quê? — sempre pergunta aos girassóis ao seu redor.

Tais coisas nunca interessaram Adão. Acaso existisse sufrágio, sempre votaria em Jeová, feito um castrista que vota sempre em Fidel, ao ponto de ser completamente contra eleição no paraíso. Nosso antecessor é um vigoroso adepto do totalitarismo. Ele é a favor da ditadura da unanimidade, que representa a consciência absoluta da única determinação fundamental no Éden: as leis do Senhor.

Porém, nem tudo é paraíso no paraíso, pois existe uma força cósmica, um tanto indefinida, que se alimenta do acaso e do caos, protagonizando a desordem — não, não é a entropia — e se intrometendo na Criação. Algo que tem as suas próprias leis e que quer submeter as coisas a seus ditames, inquietando Jeová, com a sua ação subversiva. Tal força diabólica seria representada pela Maçã — inclusive, não se sabe como ela surgiu no paraíso, mas podemos, usando a hermenêutica, ler nas entrelinhas do Gênese que seu surgimento cronológico coincide com o aparecimento de Eva.

Ao mesmo tempo, o veículo de tal força seria a Serpente: entidade que tem a sedução como sua qualidade mais evidente e usa a linguagem de forma inovadora, sem conectá-la a imperativos de verdade, como faz Jeová e Adão. Estes não sabem mentir, ao contrário da Serpente, a primeira a utilizar a palavra como forma de poder. Foi tal criatura que convenceu Jeová a criar a Mulher com um aparato genital superior em quantidade e qualidade ao do Homem. Assim, as necessidades sexuais de Eva nunca serão supridas por Adão, o qual, aliás, não se interessava tanto por isso, gerando uma coisa, até então, inédita no Éden: a insatisfação. Devido à sua superioridade biológico-sexual, Eva nunca se saciará com Adão, tornando-se frustrada sexualmente e, portanto, trazendo dentro de si uma base arcaica para uma insatisfação geral e difusa com tudo e com todos — não, não tem nada a ver com TPM. Insatisfeita, Eva desejará.

Sim, Eva será possuída por essa força cósmica: o desejo.

Nesse sentido, a Maçã será a prova do desejo — pra que comê-la, se as nossas determinações vitais estão satisfeitas? Adão, por exemplo, nunca se preocupou com a Maçã, porque não tinha essa necessidade. Estava na sua, numa boa e não se inquietava com isso. Não existia nenhum motivo racional para comer o fruto proibido. Era preciso algo mais, algo transcendente para perverter uma vontade, como a de Adão, tão adequada às necessidades objetivamente saciadas. Assim, era necessária uma outra vontade — insaciável, insatisfeita, afirmando o que não existe ou o que não se tem — a vontade do desejo.

Além do mais, era proibido comer a Maçã. A ordem era evidente. Pra que desobedecer? O ato de comer a maçã, por estar ausente das determinações vitais de Adão, constituiria um ato de autonomia em relação a Jeová. Um ato que realizaria um desejo.

“A autonomia do desejo, justamente por escapar ao controle das leis objetivas do Senhor, é caracterizada pela alegoria bíblica como uma falsa autonomia, pois não seria imanente à criatura, mas implantada por uma pretensa força cósmica a-racional. Assim, o desejo seria fonte de escravização humana a uma força do Mal. Enquanto a conformidade com as leis objetivas do Senhor, essa sim, seria a fonte de uma liberdade adquirida pela redução de todo o Bem ao reino das necessidades objetivas satisfeitas” (Nélson Levy: “Desejo… o lugar da liberdade”).

Lembro que, na tradição greco-latina, desejo significa desiderare, que vem da palavra sidus, sideris, que quer dizer astro, estrela. Antigamente, os romanos recorriam, para perscrutar o seu futuro, aos adivinhos e aos arúspices, que liam as mensagens vindas dos astros, como fazem, inclusive, os nossos modernos astrólogos. Eles então consideravam — considerare —, isto é, levavam em consideração o que diziam os astros. Assim, desiderare significava desistir dos astros, representando uma situação na qual impera o pessimismo. Os romanos tinham, dessa forma, a certeza da ausência e da impossibilidade de realização do seu desejo; portanto, desistiam de olhar os astros e de especular sobre o futuro. O desejo foi, assim, considerado algo cuja determinação não possui nenhuma relação com os sistemas determinísticos usuais — sejam provenientes de uma razão divina ou de uma última instância qualquer. O desejo, na tradição cristã e no racionalismo, é uma não-determinação objetiva: “o lugar de uma liberdade perversa e destrutiva, quando não libertina e até mesmo liberticida“.

Adão caiu nessa, embora não mostre arrependimento. No mínimo, é ambíguo. Por isso, essa nova vida não o impede, desde a expulsão, de sentir saudade do Paraíso. Deseja muito Eva, é verdade, mas se pergunta, principalmente quando ela está dormindo, se tudo valeu a pena. Gosta de olhar Eva entregue ao sono. Lembra dos coelhinhos e dos girassóis do Paraíso. O motor do desejo parece um anjo — pensa. E, toda vez que a olha, reflete sobre um velho enigma que assola feito uma peste bubônica a sua mente.

Por que Eva fora tirada exatamente da sua costela, já que Deus podia ter usado um pedaço de madeira, uma pedra ou qualquer outra matéria? Aquela costela estava sobrando? Inclusive, ele vivia se apalpando procurando algum indício. Porém, se não estava sobrando costela alguma, por que então ele estaria sendo privado, por Deus, de parte essencial de seu corpo, dado não ser concebível que, desde o início, estivesse presente no corpo humano algo supérfluo. Ou ele tivera treze costelas de um lado e doze do outro? Fora uma espécie de monstro, como os homens que têm três mãos e três pés? (Robin Lane Fox: “A Bíblia, verdade e ficção”).

Toda noite pensa nisso, adormece com isso, mas nunca sonhou isso. Está cansado da sutileza das sensações inúteis e das paixões violentas por coisa nenhuma. Na próxima eleição, como sinal de protesto, Adão votará nulo…

Desabafo coprolálico

27 de junho de 2008, às 12:00h

:mrgreen: Acho que não estou muito bem. Meu humor está péssimo. Preciso desabafar. Não serei sutil. Não sei definir o que me atormenta, mas deve ser pesado. Para o bem ou para o mal, recorrerei ao blog. Ele não serve para expor publicamente as entranhas? Não é um diário? Um espaço de confissões? Bem, o problema é que as entranhas, convenhamos, são regressivas, infantis. Mesmo assim, decidi confessar um lado caché que só íntimos não desconhecem. Tornar público um pathos.

Bora lá: sou um grande entupidor de banheiros, o mestre da latrina entupida! Já perdi amizade por causa disso, o que acho injusto, pois não tenho culpa da minha natureza. A culpa é dos meus genes. A Veja já demonstrou que existe um gene cagatorium, localizado na décima hélice do nosso genoma. Tenho o que, tecnicamente, pode ser chamado de pulsão de excremento, que cheira bem mais do que a velha conhecida pulsão de morte, pelo menos imediatamente. Pode ser exibicionismo, mas é uma das poucas coisas que faço em abundância, com generosidade. Mas, paradoxalmente, nunca estive em harmonia com o ato de obrar; na verdade, sempre vivi nesse terreno movediço entre a constipação e a diarréia. Quando pequeno, tinha prisão de ventre; adulto, fluxo de ventre. É uma dialética um tanto desagradável e nem um pouco hegeliana.

Lembro-me de uma vez, era a época do ginásio, quando veraneei na casa de um colega ricaço e passei uns três dias sem cagar. Coisa típica da minha infância, na qual a minha timidez corporificava-se numa consistente prisão de ventre. Apesar da minha ciência psiquiátrica, esse fenômeno jamais teve desvelado o seu sentido oculto, talvez perdido para sempre nas profundezas de meu intestino grosso. Quem sabe devesse fazer terapia, como uma amiga, que resolveu o seu problema cagando, behavoristicamente, toda manhã, embora de maneira um tanto compulsiva. Dez anos de divã e sua histeria, hoje, é bosta matinal. Impeça-a de obrar e sua neurose brotará do seu inconsciente como uma caganeira emocional. Mas ela se sustenta e vai vivendo a vida. No fundo, eu a admiro.

Bem, no terceiro dia, como minha pele dava sinais verdes de alerta, decidi soltar, enfim, com fanfarrice, toda aquela inteligência acumulada. Acredito que caguei o mundo inteiro e, mais um pouco, ia ser o sistema solar. Emudeci, emocionado. Obra de um gênio, certamente. Olhei toda aquela soberba boiando e fiquei preocupado. Dei a primeira descarga, e nada! A segunda, e o mondrongo nem se mexeu! Fiquei, realmente, preocupado.

O que fazer? - como diria Lênin.

Estava na casa de membros do Ancien Régime recifense e não podia deixar como lembrança, justamente, um troço com um cheiro tão pouco aristocrático. Fiquei acocorado, algum tempo, junto à latrina, como a meditar sobre a minha desgraça, que fedia, aliás, horrores. Já fazia uma hora que estava trancado no banheiro. Tinha que dar alguma solução ao imbróglio fecal. Olhei ao redor e vi uma vassourinha, daquelas de limpar o vaso sanitário. Tive, então, a idéia fantástica de chocalhá-la na latrina, e ver se descia a merda. Meu raciocínio talvez fosse o seguinte: vassourinha + agitação = sumiço da titica. Pensei até mesmo em tirar, da minha lógica impecável, alguma lição moral ou fundar uma ontologia nunca dantes navegada. Porém, uma lógica impecável nem sempre tem uma relação necessária com a realidade. A bosta, contrariando Aristóteles, não desceu. E muito pior: a vassourinha ficou uma merda só.

Tinha agora não um, mas dois problemas: a latrina entupida e a vassourinha obrada.

Fiquei tão horrorizado com a situação, olhando a vassourinha emporcalhada na mão, que a deixei cair, de forma atrapalhada, na pia do banheiro. E, num ato reflexo, peguei a toalha de mão e tentei limpar a porcaria.

Tinha agora não dois, mas três problemas: a latrina entupida, a vassourinha obrada e a toalha de mão defecada.

Estava desesperado e já com lágrimas nos olhos. O cheiro estava de lascar. Ser sufocado pelo próprio excremento é um triste fim, pensei. Olhei, de novo, ao redor. O banheiro tinha uma janela que dava para os lados de um terreno baldio. Não vacilei: joguei a vassourinha e a toalha infecta no mato. E a latrina? Ela, eu forrei de papel higiênico pra disfarçar.

Saí com a cara mais lavada do mundo. A casa inteira ficou incensada de bosta; a família, em silêncio, diante do cagão hediondo. Mutismo de aristocrata, para manter as aparências. Senti-me estigmatizado. Preferia uma conduta compreensiva, quase terapêutica, do tipo: “Você entupiu o banheiro? Faz mal não, isso acontece, afinal, qual é o problema em ter um cheiro de merda na casa o dia inteiro?” Pelo contrário, recebi como solidariedade um silêncio constrangedor. Hoje, já adulto, talvez tentasse discutir com o pessoal, trabalhar o assunto, relativizá-lo, mostrando que a vida é muito melhor do que a gente pensa; _vocês já andaram junto ao Canal da Agamenon? Pois é…

Dormi acalentado pelo tchec-tchec do desentupidor. Durou uma eternidade. Coitado do pai de meu amigo. Creio que meu sentimento antiburguês nasceu desse evento. Generoso, porém ressentido. Eu era culpado, mas projetava a culpa no tipo ideal do burguês. É um mecanismo ideológico curioso: culpar os outros pelas nossas merdas. Enfim, posso dizer que muita qualidade moral teve sua origem nos bas-fonds de um sanitário.

No outro dia, de manhãzinha, a empregada pergunta pela toalha de mão.

Aguardei, até o fim, que ela perguntasse pela vassourinha…

Cinema é ilusão

25 de junho de 2008, às 12:00h

Confesso que sou viciado em filmes americanos, principalmente aqueles impecáveis na engenhosidade técnica e de agradável imbecilidade. E digo logo aos incautos que um filme desse tipo não é fácil de se fazer. É preciso competência para produzir prazeres simples e reproduzir voracidades. Sim, esses filmes são vorazes. É fácil de perceber. Talvez, traduzam uma sociedade glutona, ávida. Eu mesmo, meio sem querer, até por causa do meu vício, incorporo uma conduta um tanto quanto aditiva. Acho que é influência, sei lá. Toda vez, compro logo um balde de pipocas e muita coca-cola. O ato de comer pipoca durante um filme equivale a uma sessão de hipnose. Normalmente, saio empachado da sessão e, chegando em casa, tomo um luftal. E começo a peidar — talvez o filme, quem sabe. Será que é, por causa disso, que sempre me esqueço dos filmes?

Sempre fico encafifado quando penso na causa do meu vício por filmes americanos. Acho que tenho necessidade de aplacar apetites infantis. Sou uma criança freudiana! Daquelas educadas pelo liberalismo radical do construtivismo. Em suma: uma pequena peste vive dentro de mim! Fico pensando se o meu gosto estético por catástrofes provém desse infantilismo. Talvez, seja influência das pipocas. Há pesquisas mostrando a influência das pipocas na estética da violência.

Ora, o americano é o ser humano que mais come pipoca do planeta. Há aí alguma correlação positiva, certamente. Posso deduzir que, sendo o cinema ianque produzido para saciar a voracidade infantil americana, não causa surpresa que nove entre dez filmes nos States tenham como tema algum desastre, alguma violência, algum terror, etc. e tal. A demanda social por condutas regressivas é o apanágio de sociedades glutonas. Vejam os carros americanos de polícia: todos espalhafatosos, com luzes piscando por todos os lados. Nunca vi, em lugar nenhum do mundo, carros de polícia tão amostrados!

Tudo bem, os americanos são vorazes, mas têm uma vantagem em relação aos brasileiros: podem ainda sublimar seus apetites infantis na ficção cinematográfica, enquanto nós pervertemos nossa fome regressiva na própria realidade. Convenhamos, somos piores.

(fico pensando nos filmes de terror. O que causa muitas vezes o terror não seria o fato de se impedir que o elemento tempo passe por algum processo de transformação? Explico: tempo é rotina, costume e hábito; tempo processado não gera medo. Passar dos 20 anos aos 80 em 60 anos não nos causa medo, mas passar esse intervalo em segundos é apavorante. Realmente, ficaria em pânico, se me visse envelhecendo de forma ultra-rápida, principalmente defronte a um espelho. Em suma, transformação menos tempo é igual a pavor)

Blog é insight, mesmo que seja incognoscível…

Uma experiência incontestável

24 de junho de 2008, às 8:14h

Confesso que faço experiências pedagógicas com meus alunos. Sou um cientista e vejo o mundo como um enorme laboratório. Não digo que eles apreciem; na verdade, esboçam até resistências.

_Não somos hamster! — dizem.
_Mas é em prol da ciência! — retruco.

E, longe de mim, percebê-los como roedores, pois acredito piamente que são, de fato, mamíferos superiores. E é dentro desse paradigma que concebo a experimentação.

Nalgumas experiências, utilizo uma variedade sortida de alunos: alunos criacionistas, alunos que negam a viagem do homem à Lua, alunos que crêem na Transubstanciação (preciosos, porque raríssimos), alunos que lêem a Veja; em suma, todos aqueles que projetam sua postura intencional em Deus e o Mundo. Todos são animistas, pois têm o impulso compulsivo em conferir agência às coisas e aos fatos, concebidos como agentes dotados de desejos e crenças. No fundo, tenho uma população enorme para escolher, porque todos os tementes a Deus, tecnicamente, são animistas, um pouco mais sofisticados, é verdade, do que os antigos animistas, embora não apresentem a beleza e a criatividade de antanho.

(Ah, belos tempos aqueles do animismo, e idiotas também: o desejo do rio correr ao mar e a intenção benigna ou maléfica das nuvens de chuva eram tomados ao pé da letra e tão seriamente que podiam tornar-se uma questão de vida ou morte — que o digam as virgens astecas — chutei, não sei se eram virgens…).

Inclusive, para ser franco, coloco até mesmo os agnósticos na amostragem, por pura pirraça contra sua covardia espiritual.

Teve um dia que estava com sorte. Chegara uma leva de alunos de uma disciplina sobre pós-modernidade, e estavam todos embriagados de relativismo cultural e epistemológico. Alguns defendiam a magia e a dança da chuva. Diante do meu riso positivista, vociferavam: etnocentrismo!

_Professor, você precisa se libertar do paradgima da ciência ocidental!

Ora, eles sabem que não consigo. Sou um cientificista inveterado. Tento explicar, mas não me escutam. Acho apenas que a tática de colocar intenção em tudo que é fenômeno do mundo pode levar a nada. Sinceramente, por mais que os nossos ancestrais adorassem prever o tempo, descobrindo o que ele, o tempo, queria e que crenças ele teria a seu respeito; bem… er.. a tática simplesmente não funcionou. Certo, muitas vezes pareceu funcionar; mas, convenhamos, as danças da chuva fracassaram de forma retumbante — não tanto, é verdade, como as teorias dos economistas, esses animistas do dinheiro, ou as previsões de certos ecologistas, neomalthusianos de esquerda, esses animistas das catástrofes.

Chamei alguns para participarem da experimentação pedagógica. Era uma experiência para medir o efeito da postura intencional num esquema aleatório de reforço. Era proibido falar ou utilizar qualquer forma de comunicação. De vez em quando, não importando o que o aluno estivesse fazendo na sala de aula, aparecia uma recompensa sob a forma de notas altas. Bastava esperar um apito e a nota aparecia de forma casual. Logo, logo, os alunos, diante desse esquema randômico, estavam fazendo gestos e “danças” elaboradas, sacudindo, torcendo e dobrando o corpo. Depois, tentando saber o motivo dessas pantomimas, recebi a seguinte resposta de um aluno:

_professor, na primeira vez que, sem motivo aparente, recebi a nota máxima, acabara de dar uma virada de perna e dobrado o pescoço. Pensei: vou tentar outra vez… (quem estava próximo, imitou-me). Mas não deu certo e não apareceu nota alguma. Achei que não girara o suficiente… Nada. Aí, sacudi meu corpo antes de girar e dobrar… Deu certo! Fiz de novo… Nada. Sacudi e dei três pulinhos, girei as pernas e dobrei o pescoço até doer. Nada. Aí pensei: e, agora, o que foi mesmo que acabei de fazer?…

Achei curioso o procedimento de pensar que, de alguma forma, os gestos e as atitudes poderiam influenciar o aparecimento (aleatório, repito) das notas, talvez até mesmo seu valor. Se, sem linguagem, o aluno projetava sentido o quanto podia ao reforço aleatório, imaginem utilizando ao máximo a postura intencional, turbinada pela ação comunicativa mediada linguisticamente. Fiz, assim, outra experiência, permitindo a interação e o uso da linguagem, e o resultado foi o seguinte: criaram a hipótese de que havia um criador — alguma coisa invisível que parece com uma pessoa — responsável pelas notas. Inicialmente, acusaram-me de ser o patife que dava as notas; depois, vendo-me afastado da sala, deduziram que o criador das notas fosse um agente oculto – com cabeça, olhos, braços e pernas (um aluno disse que o ser tinha um capacete espacial, pois acreditava que os deuses egípcios eram extraterrestres). Deram-lhe até um nome: Dieci, o deus da nota.

Bem, creio que descobri a fundação natural da postura intencional que gera a crença mística, esotérica ou religiosa. Sei que os crentes desse blog, principalmente o Reverendo Tsé-Tsé, julgarão minha conclusão um absurdo, mas a experiência prova que a religião é uma projeção ilusória da postura intencional, que teve alguma utilidade nos tempos das cavernas, mas agora só faz atrapalhar a transformação revolucionária da sociedade e produzir ilusionistas como Ratzinger. Lembro que a Revolução precisa de pessoas racionais e atéias. Logo, o papel dos professores será importante: nas suas salas de aula, precisam eliminar as ilusões de uma condição que necessita, justamente, de ilusões. Por isso, do ponto de vista científico, a projeção da postura intencional precisa ser historicamente determinada e direcionada, principalmente pelos cientistas sociais, aos verdadeiros inimigos da sociedade: os burgueses são os agentes responsáveis de todas as desgraças do mundo, principalmente os liberais, seus membros mais perigosos.

Ainda lembro que, no comunismo, não haverá a projeção ilusória da postura intencional, isto é, não haverá ópio (na versão marxista), nem neurose (na versão freudiana); em suma, não haverá religião. O dia comunista, libertado da religião e do trabalho alienado, será uma felicidade geral: de manhã, treparemos, à tarde, treparemos (provavelmente, sem camisinha, para júbilo dos católicos, afinal, é o comunismo, o fim da História) e, à noite, dormiremos profundamente, porque ninguém é de ferro.

Enfim, peço desculpas, não quero ofender ninguém, mas os crentes são, objetivamente, opiômanos e neuróticos. As provas podem cansar as crenças, mas fazem parte da realidade. Não posso mudar o que existe — só Deus.

(a crônica é uma paródia de trechos do livro de Daniel Dennett: “quebrando o encanto”)

A fundação do mundo

17 de maio de 2008, às 21:40h

 

Vendo a série C aproximar-se e, deus me livre, a D, também, voltei-me a Freud, aquele do charuto ambíguo. Li tanto o cabra que, agora, faço interpretações a torto e a direito. Tá na minha frente?! Interpreto na hora. E digo logo: o problema é tua mãe! Aprendi isso lá na Biblioteca Central da UFPB, cercado de livros freudianos, olhando aterrorizado para aqueles funcionários horripilantes. Ali, com o dedo em riste, apontava o problema e gerava pulsões matricidas. Tudo bem que os mondrongos não me compreendiam, mais ainda que essa discussão não era mesmo lá muito importante. O fato fundamental foi que encontrei alguns manuscritos — na realidade, anotações — desconhecidos do público que modificam a nossa visão tradicional do método freudiano.

Não sei bem qual será a opinião dos leitores e espero, sinceramente, que as informações não lhes causem nenhum constrangimento. Bem, o bolero é o seguinte: as anotações encontradas modificam a nossa opinião usual da obra  Totem e Tabu, cuja exegese tradicional, aliás, sempre me pareceu insuficiente. Ora, aparentemente, tal livro seria uma pálida ficção da gênese social, quando comparado com Hobbes e outros jusnaturalistas — a violência fundando a cultura é um tema repetido há muito pelos filósofos. Inclusive, Freud não deixa de ser, no fundo, um repetidor das hipóteses do jusnaturalismo, embora seja original em imaginar uma cena primitiva e fundadora tão mórbida como um parricídio. Não acredito que Sigmund tenha tido apenas a intenção de nos demonstrar uma hipotética fundação social, mas sim ir além disso; isto é, existe outra hipótese bem mais poderosa e importante, recalcada na história parricida. Na verdade, seria menos uma hipótese do que uma estória, justamente aquela que Freud escreveu e que quero publicar.

Lá vai:

“Desde o início fora assim, como se fosse uma coisa imutável, um direito eterno e inquestionável. Orravan — segundo Freud, nome absurdamente primitivo, talvez o fonema essencial tão procurado pelos lingüistas —, pai da horda primitiva, logo de todos, tinha o poder monopolista, quase divino, de possuir todas as fêmeas do bando. Nunca que isso tivesse realmente chateado os filhos machos, principalmente no começo, quando todos eram ainda crianças. Além disso, o pai era bem grande e tinha uma carranca de meter medo — sem dúvida, parecia que a força, a agressividade e a violência detinham uma natural superioridade nessa cripto-sociedade. Mesmo assim, o grande divisor proto-moral da horda que dissuadia os filhos machos, diminuindo as suas vontades, era o Falo de Orravan, ereto e onisciente, cuja incomensurabilidade afastava qualquer possibilidade de competição — na verdade, pelos padrões modernos, o negócio não era tão grande assim e precisaria de uma pinça para a sua manipulação; mas, estamos na pré-história, época dos tamanhos liliputianos.

Com o tempo, a testosterona foi fazendo os seus efeitos, moldando a forma do mundo, dando vigor e atiçando o desejo dos filhos. O hormônio fez com que a representação da coisa se tornasse a do nome, permitindo que a semântica fosse inscrita na necessidade fisiológica e pudesse, aos poucos, insinuar-se como uma palavra, ainda arcaica, é verdade, embora a sua significação já contivesse todo o seu sentido civilizador supremo: sexo! Assim, os filhos passaram a interpretar a cena primitiva via princípio da realidade, ultrapassando o princípio do prazer, o que acarretou um desagrado geral na horda. Ora, o desgosto era compreensível, já que, segundo Freud, a cena primitiva era o pai arcaico possuindo a mãe ancestral, cujos urros de prazer ainda reverberam na evolução humana, constituindo aquele nojo ontológico que sentimos, quando criança, ao flagrar nosso pai (…) a nossa mamãezinha querida. Talvez o problema fosse a insistência de Orravan em demonstrar a sua potência sexual na frente de todos, visto que os rapazes estavam, por um processo desconhecido, desenvolvendo os primeiros rudimentos da privacidade e do pudor público.

O pai arcaico, aparentemente, desconhecia isso ou, simplesmente, era mal acostumado. Ele tinha o costume de deixar a mãe ancestral, as tias primordiais, as irmãs primícias e as primas primitivas de jejum forçado, distribuindo-lhes penitências que iam de três dúzias de ave-ppgs (uma espécie de ave-maria dos inícios ) até pisas de tabica no lombo e rezas sem fim. Terminava o ritual exatamente ao meio-dia, quando liberava todas dos entreveiros e se punha a copular com cada uma, meticulosamente, no primeiro banco de palha da antropologia humana. A última a ser acasalada era geralmente a mais nova (cobiçada por todos da horda) que encenava o ppgs e era depois malhada até sangrar. Orravan lambia o sangue com a sua língua de boi e ria para os seus filhos. Depois, imitava uma cabra e balia de forma estridente (o cúmulo da conduta blasé). No final, todos, inclusive os filhos, iam se banhar no rio sagrado Sanha Hoá, onde o Fornicador Alfa continuava a se amostrar, mostrando o membro desonesto e deixando o resto dos machos abufelados e avexados.

A situação explodiu quando um dia, sem motivo aparente, na hora do ritual de ppgs, enquanto corria atrás da mais nova do bando, Orravan proferiu as primeiras palavras chulas da história: Arreda, Ppgs! Vou fazer tu te mijar todinha. Ah! minha Santa Agonia, hoje eu arrebento essas pregas. Toma no caiçuma, filha de ninguém. Fica de quatro. Tu vai penar que nem Santa Terezinha, diaba dos quintos!

(Completamente misteriosa essa alusão a Santa Terezinha. Bosquímano, estudioso profundo da psicanálise, insinua que Freud, aqui, projeta do fundo do seu inconsciente o nome da sua professora do primário, Terezinha Milchkuh — Ver Gil, Inveja do Pênis, aprenda agora! - Jampa, Manufatura, 2007).

A raiva e a indignação alastraram-se como fogo na Califórnia. O mais forte dos filhos lançou-se, feito um alucinado, contra Orravan e, logo imediatamente, foi seguido por todos. As fêmeas da horda foram as mais cruéis e suas pantomimas não se diferenciaram muito daquelas feitas durante a fornicação sagrada. Elas, num só gesto, fizeram os extremos se tocarem: Eros e Thanatos, num rodopio ardente que seria repetido milhares de anos depois pelas bacantes. O pai da horda primitiva foi literalmente massacrado e seus restos ficaram boiando numa pocilga que, com tanto sangue, parecia uma pequena corredeira, indo desaguar no rio Sanha Hoá e o tornando completamente rubro. Inebriados, os machos comeram os restos de Orravan para adquirir a sua força e virilidade; no entanto, deixaram o seu Falo intacto, transformando-o no primeiro totem miniatura existente e, depois, tomaram uma cachaça para esquecerem o festim e o menu.

Na aurora do primeiro dia sem pai e, do ponto de vista conceitual, do primeiro da civilização, os filhos refestelados, ainda preguiçosos da barbaria passada, olharam-se uns aos outros, cada qual com a sua mancha de sangue, cada qual com fiapos da carne do Pai entre os dentes, e tiveram um medo pavoroso: e se fizessem aquilo tudo novamente entre si? Afinal, as fêmeas estavam lá, e todas com aquele jeito meio zonzo, sem função. Havia o perigo da disputa e do monopólio. Havia o perigo da guerra eterna. Os olhares, então, tornaram-se acordo e surgiu o pacto dos pactos: todos deviam renunciar aos frutos da vitória, evitando com isso uma auto-carnificina. Surgira, assim, a primeira conquista cultural baseada no consenso: o contrato social do incesto. Todos interiorizaram rapidamente a proibição, através de uma instância nova que estava surgindo, o superego, e deixaram em paz as mulheres do grupo.

Contudo, não deu uma semana e o onanismo, inventado pelo mais tarado dos machos do grupo, Samid, floresceu a ponto de causar calos nas mãos.

(Neste ponto, vale assinalar que Freud foi radicalmente contra as teses marxistas de que o calo na mão surgiu da praxis do trabalho. Assim, como o mesmo disse: “o onanismo, enquanto praxis, realiza a autonomia transcendental do homem vis-à-vis do arquétipo feminino”).

Nosso amigo, insatisfeito com a sua invenção — de fato, o cabra era mesmo um tarado —, ficou desconfiado de que, mais dia menos dia, os machos do grupo poderiam, sem sexo feminino, imitar aquele animal bizarro chamado de paca.

(Freud sempre se interessou pelo tema da paca, certamente influenciado pelos estudos naturalistas de Darwin que, em Galápagos, ficara intrigado com os hábitos alvirrosas deste animal).

Teve, assim, outra brilhante idéia: por que não atacar o acampamento de Aduf — outro nome absurdamente primitivo de que nos fala Freud — e roubar as suas mulheres? Afinal, o Outro Bando tinha muitas mulheres — certo, todas cabeludas e androfóbicas, mas ainda assim seres femininos… Além do mais, Aduf já estava senil e balofo na sua vidinha sedentária e não ofereceria uma grande resistência. Dito e feito, aprovada a idéia, foram todos amolar as pedras de sílex, munirem-se de cordas, redes, lanças, etc, preparando-se para a grande empreitada. O caminho era longo, pois o lugar de moradia do Outro Bando era meio longe, lá pelos lados de Apmaj — região terrível, habitada por dragões, ganos e sapuris, onde era inevitável o suicídio masculino. _ Passe lá quatro meses e você se mata! - já dizia Yrret, um velho celta, o doido ancestral.

O ataque pegou o Outro Bando completamente de surpresa. Muitos homens, paralisados de medo, morreram ali mesmo, não oferecendo qualquer resistência. Nesse ínterim, o mais bonito e o mais esperto da ex-horda, chamado de Per Usi, entretia-se com algumas gatinhas, fornicando com enxerimento e, nesse rústico movimento, inventando novas posições sexuais que contagiaram de prazer e de alegria as intumescidas fêmeas.

(Há indícios de que Per Usi foi o inventor do Candelabro Italiano, do Minueto Alemão, da Clava Javanesa, da Mazurca Polonesa, do Torno Polinésio e da Mamadeira Búlgara. Freud escreverá no seu caderninho de notas: “Não existiu legado mais importante do que o de Per Usi”).

Nunca que tivessem visto um macho como ele, tão carinhoso e tão homem, tão doce e tão furioso! O malandro rapaz sabia instintivamente que era apenas uma questão de saber explorar a riqueza interior com que a natureza houvera por bem presentear a cada filho. A infelicidade consistia em não saber fazer esta exploração. Macho e fêmea se complementavam, e tanto mais seriam felizes quanto mais se explorassem e usassem mutuamente seus corpos e seus espíritos. Aduf ficou invocado e arretado com a cena, principalmente com os gritinhos de prazer das mulheres (ultraje dos ultrajes), partindo furioso na direção de Per Rusi, que não teve dúvida e meteu-lhe o sarrafo, arrancando a sua cabeça num só golpe. Durante um segundo, que pareceu uma eternidade, um silêncio de morte tombou no campo de batalha e os filhos de Aduf constataram com estupor a morte do seu chefe/pai, ficando imóveis e petrificados diante do horror daquela cena dantesca: a cachola venerada rolando ensangüentada pelo chão.

Quando Per Usi aproximou-se da cachimônia e ensaiou de pegá-la, a paralisia do Outro Bando, como por encanto, acabou e todos se lançaram para reaver a sede da razão de Aduf. Se tinham perdido o Pai, dariam a vida para, pelo menos, manterem-se com o seu bestunto. Per Usi, acossado pelo instante e não tendo tempo para apanhar a cabeça com as mãos, resolveu de improviso sair chutando o quengo e levá-lo a um lugar seguro. Ele passou pelo primeiro, driblou o segundo, deu uma saia no terceiro, lançou Ramde, que corria pela lateral do acampamento; este deu um traço num que se aproximava, deu um banho noutro e mandou de volta o crânio para Per Usi, que estava numa espécie de área retangular, onde tinha um tipo de guardião (um eunuco chamado de Andes) protegendo duas árvores paralelas, julgadas sagradas pelo Outro Bando e unidas por uma delicada rede de seda, e que fora feita especialmente pelas mulheres de Aduf. Nesse exato momento, os irmãos de Per Usi já estavam esperando-o do Outro Lado com as fêmeas seqüestradas. Ele somente precisava passar a cabeça entre as árvores, sem que o guardião a apanhasse, e os seus parentes a pegariam definitivamente. Houve um grande momento de suspense, o tempo gelou, os pássaros pararam de cantar, os papagaios de falar, os coelhos de trepar, os petistas de… bem… er…; então, Per Usi, quase em câmara lenta, encheu o pé, dando um chute de trivela no juízo de Aduf que, feito um foguete, furou a rede de seda — o guardião, de tão atordoado, nem viu a cabeça passar. Nosso rapaz saiu correndo bêbado de alegria, dando pulos e socando o ar, enquanto os seus irmãos e, praticamente, o mundo inteiro, davam um grito ancestral, guardado há muito na noite dos tempos: gooooool!

(…)

Era noite e era festa no acampamento dos nossos antepassados, todos bebiam e fornicavam, inclusive as próprias mulheres da antiga horda, pois lhes trouxeram alguns prisioneiros que não se incomodaram de participar da geléia geral. Per Usi tinha recebido como prêmio a língua e os miolos do coco de Aduf. Estava satisfeito e saciado. Olhava a Lua, afastado de todos, meio pensativo e distraído, enquanto uma fêmea procurava piolhos e fazia cafuné nos seus longos cabelos encaracolados. Sabia de algum modo que o mundo tinha mudado, sendo impossível um retorno ao que era antes; a ponte que ligava o homem às suas origens estava irremediavelmente destruída; novas aventuras aguardavam a sua espécie, novas descobertas e também novos mistérios. Um horizonte praticamente infinito se descortinava na sua frente.

Contudo, uma leve inquietação, como uma brisa suave, insinuou-se no seu espírito: e se essa consciência de si, que o homem tinha conquistado, fosse um cataclismo, uma separação de nós mesmos em que teríamos de suportar pesadas conseqüências? Será que sermos nós mesmos implica assumirmos nossa existência, esse álter fundamental, não coincidência de si, que é próprio do seres auto-realizados no tempo? Per Usi não sabia, mas o homem tinha, assim, inventado o tempo indicativo do presente e a… frescura. As ligações entre os pensamentos de Per Usi, bêbado e sonilundo, com o existencialismo sartreano são, convenhamos, mais do que evidentes.

De repente, um grito de alegria despertou-o dos seus devaneios, era Samid, completamente embriagado, que o chamava de volta ao acampamento. Ele desvincilhou-se da fêmea, esqueceu-se dos seus sonhos, antecipações e medos, e retornou correndo para o seu povo”.

Aqui, terminam as anotações de Freud. Mais do que o parricídio ou a fundação da cultura, o homem feito humanidade tinha descoberto o Ludopédio. E, como vocês sabem muito bem, tal esporte não mudou muito desde essa época, exceto por uma regra: hoje, não se come mais a bola.

Tenho dito.

Ataque

18 de abril de 2008, às 15:00h

 barata.jpg

Confesso uma coisa; afinal, um blog é um confessionário. Tenho medo de insetos voadores. Baratas aladas, são exemplos dessas abominações. Freud disse, uma vez, quando estava completamente bêbado de tanto tomar leite de gironda, vale frisar, que medo de barata é medo de vulva. Assim, tecnicamente, eu teria medo de vulvas voadoras? Fiz tal questionamento a alguns psi, mas não recebi resposta, apenas incredulidade. Já sonhei com vaginas dentadas e vaginas cheias de serpentes, mas estava tranquilo no sonho, já que não eram voadoras. Depois, descobri que há mitos apaches e indus a respeito dessas entidades horrorosas. Em suma, sonhei com arquétipos.

Falando nisso, lembrei-me de um fato que aconteceu comigo: uma noite, um baratossauro invadiu a sala de aula e, no seu vôo absolutamente histérico, foi parar no meu ombro. Sim, as baratas têm, quando voam, uma falta de controle absoluto sobre seus atos e emoções. Aquele ziguezague só significa apenas uma realidade: ela vem sempre na nossa direção!

Olhando-a no meu ombro, inferi que um acontecimento desse naipe só podia ocorrer na Paraíba, estado-onde-tudo-pode-acontecer. Estava sentado na mesa e, diante do ataque, comecei a bater desesperado na criatura antidiluviana. Não caí, mas dei diversos pulinhos de equilíbrio, enquanto escutava as gargalhadas dos malditos alunos, até que consegui dar uma tapa forte no bicho. O problema foi que o optóptero abominável saiu direto do meu ombro até o rosto de uma aluna. A coitada, enlouquecida, começou a bater na própria face, esmagando a barata e fazendo-a espirrar seu suco marrom, que ficou escorrendo entre o nariz e a boca. Ela teve uma crise nervosa, e eu uma crise convulsiva de riso. Tive que respirar fundo, mas fundo mesmo, e atuar de forma profissional. Duas alunas ajudaram-me e retiramos a aluna da sala, que não parava de chorar.

Lá fora, junto da porta, a menina deitou-se e começou a tremer. Tudo indicava que ela engolira, sem querer, a gosma da barata, que é, como todo mundo sabe, extremamente venenosa. Começou a apresentar salivação excessiva, lacrimejamento, secreção nasal, aumento dos sons respiratórios por broncoconstricção, dificuldade respiratória, edema pulmonar, diarréia, diminuição dos batimentos cardíacos, constricção da pupila, tosse, vômito, micção freqüente, incoordenação motora. Depois apareceram tremores musculares, espasmos, hiperatividade.

Falando friamente para vocês, mas entre médicos, de uma maneira calorosa, parece que a morte se deu por insuficiência respiratória e asfixia (paralisia dos músculos respiratórios). Enfim, foi uma morte dolorosa.

Ela era uma ex-evangélica. Era a primeira vez que usava uma calça jeans, disse-me uma aluna, acreditando que era uma vingança divina.

Há coisas que só acontecem numa sala de aula.

Velhice e adaptação

17 de abril de 2008, às 23:55h

Cada vez mais darwinista, pensando em adaptação, adaptação… encontrei uma frase de Steven Pinker – Como a mente funciona – que diz muito do meu estado de espírito:

“A veneração dos ancestrais deve ser uma idéia atraente para aqueles que estão prestes a se tornar ancestrais”

Ou, ainda, devemos ser mais prosaicos: meu avelhantamento explica minhas simpatias e meu futuro.

Mas penso nessa frase… Imagino o futuro ancestral que sairá de mim, depois de me escafeder e do serviço implacável dos vermes, único trabalho que, aliás, elimina as diferenças de classe. Pelo menos, sigo o destino dos Perrusi: quanto mais velho, mais impaciente e mais hedonista. Carpe diem, pessoal, carpe diem. Espero entregar-me a Thánatos quando meu corpo tiver exaurido a última chama de vida — não ficará nem uma última brasa de desejo. O safado ficará apenas com a carne putrefata; quem sabe, somente pó e nada mais. O hedonismo, claro, não vence a morte, mas lhe deixa uma vantagem mínima: o que adianta ficar com um corpo que, em vida, roeu até a moela todo o prazer de viver o mundo?

Certo, no final das contas, a morte é a única certeza que resta de uma biografia; mas, para que esperá-la e, até mesmo, pensá-la como redenção? Defendo que a melhor conduta diante de Thánatos é desprezá-lo até o fim, e de forma insolente: alegre e rindo sempre! Sim, é isso: o hedonismo é a arte do desprezo pela morte. Por isso, agora, comerei algo bem gorduroso e abarrotado de colesterol. Não seguirei o conselho das amigas defensoras de dietas espartanas e apologistas da ascese alimentar — viva o Bacon, o único deus materialista!

Por que os coiotes uivam?

13 de abril de 2008, às 20:55h

Post antigo…


Um coiote uivando no bosque de Intermares.

Muitas vezes, não é fácil minha relação com os paraibanos; talvez, porque insistam em desmerecer minhas afirmações. Eu digo algo e não me dão crédito. Quando falo e explico alguma coisa, na maior parte do tempo, ficam calados; mas, não posso reclamar de um fato: eles me escutam. Darei um exemplo: ontem, tive uma conversa com um amigo sobre a presença de coiotes em Intermares.

_Não há coiotes por aqui, Artur - disse meu amigo, dando aquele suspiro abominável, que significa, entre os paraibanos, descrença.
_Há, sim. Eles estão surgindo e uivando macabramente nas noites de chuva.
_Devem ser cachorros. Os cães também uivam.
_Nunca escutei cão uivar. Por que uivariam?
_Por que os coiotes uivam?
_Perguntei primeiro, carai. Pra que virar um espelho e refletir as perguntas que faço? Você é lacaniano? Só temos, aqui, uma certeza: os coiotes uivam. Duvido que tenha fé sobre o uivo dos cães.
_Rapaz, parti da seguinte premissa: não há coiotes em Intermares; logo, quem uiva são os cães. Ou tem lobisomem em Cabedelo?
_Lobisomem uiva?
_Que eu saiba, sim. Em todo filme americano, o lobisomem uiva.
_Mas não há lobisomens em Intermares…
_Assim como não há coiotes…


Um coiote mal-humorado no inverno de Intermares.

Percebam, leitores, como é difícil a conversa com um paraibano. Eles são teimosos e inseguros, ao mesmo tempo. É uma combinação explosiva. Duvidam de um ponto, insistem nele, duvidam novamente, voltam a insistir, num círculo retórico infernal.

Para fins de convencimento, decidi mostrar ao meu amigo as gravações, que fiz, dos uivos dos coiotes. Eram lamentos impressionantes. Davam calafrios, mas também tristeza. Parecia o anúncio do fim do mundo ou do tsunami que destruirá Intermares, segundo o cientista cearense Vancarder, após a explosão de um vulcão nas Ilhas Canárias.  Porém, o paraibano não se convenceu e insistiu na tecla dos uivos de cachorros. Diante de mais uma incredulidade, decidi levá-lo à praia de Intermares. Queria encontrar pegadas de coiote e, com isso, acabar com a polêmica.

Encontrei logo pegadas de coiote. Achei a descoberta uma obviedade, pois estava na cara que Intermares está repleta dessa espécie de lobo. Mas meu amigo duvidou e perguntou:

_Qual é a diferença entre pegadas de coiotes na areia e pegadas de seus primos, os cães?

Ele se abaixou e ficou olhando de perto a pegada. Meneou a cabeça e afirmou que aquilo ali era uma pegada de cachorro. Confesso que fiquei um tanto irritado; afinal, tive o trabalho de levá-lo até a praia e mostrar uma autêntica pegada de coiote. Mas não, o cabra insistia que era uma de cão.

_Veja, essa pegada não tem marcas de garras. As garras dos cães tendem a ser mais longas, já que eles passam pouco tempo cavando.
_Isso não prova nada. A elite paraibana corta as unhas de seus cães!
_ Como assim?! - só faltava essa: uma afirmação sociológica sobre os hábitos da elite paraibana que desmentia minha prova factual.
_A elite paraibana copia a elite carioca e gaúcha. Todos cortam as unhas de seus cachorros. Sei, sei, é um costume ridículo, mas (o que podemos fazer?) os cariocas e os gaúchos são muito esquisitos.

Fiquei calado, pensando. Então, tive uma bela de uma intuição. Levei meu amigo para um lugar mais alto. De lá, dava para ver não apenas uma pegada, mas várias, uma trilha de pegadas, mais precisamente.

_Veja, olhe a trilha. As pegadas seguem uma extraordinária linha reta e estão em fila única. Um cão não deixa uma trilha assim. Olhe as patas traseiras alinhadas de forma perfeita com as patas dianteiras. A trilha de um cachorro é, geralmente, desordenada, já que o cachorro, feito um alesado, corre pra lá e pra cá. O cachorro é bem alimentado, o coiote não. Economia de calorias, meu caro.
_E um vira-lata?
_Mesmo um vira-lata não deixaria esse alinhamento tão perfeito. Além do mais, eles são bem alimentados; têm as latas de lixo. Você já viu um vira-lata numa praia? A elite paraibana não deixa — tentei ironizar.


Um coiote pronto para atacar uma tartaruga de Intermares!

Desta vez, quem ficou calado foi meu amigo. Ele parecia mais ou menos convencido da existência de coiotes em Intermares. Mas, como todo paraibano, precisava contestar alguma coisa:

_Mas… o que explica o uivo do coiote?
_Não sei… eu…
_Não gasta energia?
_De fato, gasta um bocado. O uivo não seria um chamado geral para a trepação entre coiotes? — eu disse, tentando salvar a ciência, a racionalidade e a evolução.
_Não há qualquer indício disso nas pesquisas sobre coiotes. O seu uivo é um mistério - disse meu amigo, agora um especialista em coiotes.
_Não sei…
_Acho o uivo um comportamento sem relação alguma com a adaptação, logo, não seria antidarwiniano? O uivo do coiote não demonstra que a teoria da evolução está errada? Não é a prova de que Deus existe?
_O uivo?!
_É, o uivo.
_Assim, sem mais, nem menos?
_É, o uivo.

Não retruquei, apenas dei meia-volta e abandonei as provas cabais da existência do Canis latrans. Provei a um paraibano que existiam coiotes em Intermares, mas perdera a discussão por causa de uma simples questão metafísica. Não esperava por aquilo. O uivo dos coiotes cravou incertezas na minha alma. Como ser ateu e tolerar o uivo do coiote?

Voltamos calados e calados ficamos

Pensamentos (absolutamente) obscuros

13 de abril de 2008, às 20:44h


Chove em Intermares e não é nenhum golpe de Estado!

Chove pra carai, aqui, em Cabedelo. Não sei mais o que fazer. É de lascar. É o dilúvio. O fim do mundo — não deixa de ser irônico — começa justamente em Intermares?!

Só me resta pensar. E penso de forma sombria, fria e chuvosa… Acho que estou com dor de cabeça, também.

Estia um pouco, mas aproximam-se rapidamente nuvens negras. Vejo lá embaixo, pastando e cagando no gramado, várias vacas e bois . Percebo que já existem alguns cogumelos nas bostas dos ruminantes. Cogumelos? Achei a cura para minha dor de cabeça! Produza uma vasodilatação cerebral e terá um efeito analgésico imediato. Claro, há alguns efeitos colaterais e… deixa pra lá! Boto a capa, pego o guarda-chuva, desço até o gramado, colho os cogumelos, subo, faço um chá, sento na varanda, olho a chuva, tomo a infusão e começo a pensar…


Baseando-me nalgum filósofo, cujo nome esqueci completamente, absolutamente, diria que, sem mais nem menos, aconteceu uma revolução a partir de 1870, na Europa e na Rússia, em que a linguagem separou-se de vez do referente. Seus protagonistas seriam, fundamentalmente, Mallarmé e Rimbaud: o primeiro defendeu uma “ausência real”, e fez desaparecer qualquer ligação entre a palavra e o mundo exterior, apenas existindo o mundo interior da linguagem; o segundo operou uma desconstrução da primeira pessoa do singular, explodindo o ego numa pluralidade sem limites: “je est un autre”.


Qual é o filósofo? Mais um golinho de chá…

Vale frisar que, mesmo o ceticismo antigo, tipo Hume e Montaigne, mantinha uma fidelidade à linguagem, escapando assim de um completo niilismo ontológico. Não há, aqui, uma dúvida autêntica que colocasse em xeque a utlização do aparato linguístico para colocar em evidência as incertezas, os limites, as ilusões; em suma, não se coloca em dúvida o comércio discursivo do homem com aquilo que ele considera como fatos. A linguagem, no caso, é usada ainda como um instrumento de verdade. Com o ceticismo moderno, a verdade da palavra é a ausência do mundo.


Recalquei o nome do filósofo. Efeito do chá? Mais um golinho…

Existe um mistério que seria o da recepção estética. De Platão a Freud, a especulação ocidental se baseou na intuição do re-conhecimento, do déjà-vu, do déjà-entendu. Uma sensação de novo re-encontro.

A arte é anterior ao mito? O mito não teria suas raízes e sua eficácia na gramática e na linguagem? Já a arte não teria suas raízes profundas no começo e nas origens do homem, num mundo ainda pré-gramatical, onde a música  iniciava o processo de construção de uma identidade de si?


Enquanto o chá traz a analgesia, embora um dos seus efeitos colaterais seja o esquecimento, penso nas instigantes questões de Robin Lane Fox no seu livro “Bíblia - verdade e ficção”:

“1) Qual seria exatamente a posição da primeira mulher como ajudante do homem: era ela uma igual ou uma subordinada, antes que os dois desobedecessem a Deus?
2) Como devemos imaginar as primeiras horas de nossos primeiros ancestrais?
3) Estavam nus, mas eram imortais, contanto que permanecessem inocentes: seriam talvez semelhantes a crianças, como hoje tendemos inicialmente a imaginá-los, até descobrirem os fatos da vida e serem lançados na vida adulta? Ou seriam mortais desde o início, e desde sempre sexualmente ativos em seu primeiro jardim das delícias, como tantos rabinos judeus e John Milton os apresentaram?”


O efeito do chá vai passando. O mundo recobra, aos poucos, seu enfado. As cores desaparecem e tudo fica cinza. Ao longe, escuto o ruflar de tambores celestiais. É a alma do céu que geme de dor. E o mundo começa a chorar. É o inverno sobre as casas.

O sentido de nada

13 de abril de 2008, às 12:56h

sacerdotisa.jpgA leitura gera associações, ainda mais ao se ler um conto que parece perfeito para estabelecer relações funcionais entre estados e atividades psíquicas: “Loteria em Babilônia” de Jorge Luis Borges (para quem quiser ler o conto, aí vão a tradução em português e a versão original em espanhol). Bem, não tenho o costume de analisar produções literárias. Não é fácil. Quando leio ficção, tenho a tendência a fazer associações um tanto obscuras, muitas delas completamente fora do contexto. E a leitura do conto levou-me longe, bem longe, inclusive para fora da fronteira temática do próprio conto. Além disso, acho Borges, muitas vezes, incognoscível, por isso, passível  das mais variadas interpretações.

O conto fala de uma sociedade tomada completamente pelo jogo lotérico e dominada pela companhia responsável pela loteria. Tudo vira loteria e a companhia passa a controlar o arbitrário e a contingência da vida cotidiana. Vira uma sorte de Estado Ideal Totalitário ou uma espécie de deus. Poderia insisitir nesse tema e nessa associação, mas, para o bem ou para o mal, embrenhei-me num caminho diferente e fiquei matutando sobre a loteria. Na verdade, fugi do conto. Fiz algumas associações e me lembrei de algumas análises de meu filósofo favorito, Daniel Dennett, sobre adivinhações. E fiquei pensando… De uma certa forma, a loteria decide nosso destino; não precisamos tomar mais algumas decisões na vida, pois a loteria já “decidiu” por nós. Igualmente, a adivinhação serve para resolver diversos problemas, “tomando” uma decisão que seria, normalmente, de nossa estrita responsabilidade.

Dennett diz que é difícil tomar decisões na vida, e que uma das formas mais fáceis de decidir é apelar para a adivinhação. Pego o emprego ou não, peço o divórcio ou não, entrego meu coração ou não, faço isso ou faço aquilo. Sim, a decisão não é fácil e, até mesmo, envolve um “cálculo” mais ou menos complexo, com muitas variáveis, inclusive diversas do tipo não-racional. Qualquer coisa que alivie o fardo decisório é interessante. Há vários exemplares no mercado do aleatório: cara ou coroa, por exemplo. Esse procedimento gera uma certa paz espiritual, pois deslocamos, com isso, a nossa responsabilidade para algo exterior, independente de nossa vontade.

Tentei implementá-lo no departamento de ciências sociais da UFPB, alegando que a Morte do Sujeito, tão defendida pelos pós-pós da academia, livrava-nos das tomadas de decisão; afinal, sem sujeito, não há escolha, logo, não há propriamente responsabilidade. Fiz ver aos meus pares que poderíamos deslocar nossa vontade para outras estruturas de escolha, principalmente as aleatórias, e que seríamos apenas vetores dessa estrutura, o que corroboraria algumas teorias estruturalistas e pós-estruturalistas, mas fui voto vencido, infelizmente.

No fundo, até concordo com a decisão dos meus colegas, pois ”cara ou coroa” é muito simples e rudimentar. Para decisões difíceis, tipo “façamos mais uma greve e desmoralizemos de vez a universidade pública”, esse artifício é insuficiente. Como diz Dennett, a escolha precisa de um bom motivo. E, depois do resultado do “cara ou coroa”, tem-se que aceitar a decisão – ou não?! Eis o problema. Por isso, precisamos de algo mais forte. Se possível, algum procedimento com grandes cerimoniais e que envolva entidades além de nossa compreensão. Se temos a necessidade de deslocarmos a responsabilidade das decisões para algum processo externo à nossa vontade, que seja um que tenha uma certa “intencionalidade”, isto é, que assuma, justamente, alguma responsabilidade. A cerimônia é importante, pois solidifica o deslocamento da responsabilidade e “encarna” o procedimento randômico, valorizando-o simbolicamente. Com tudo isso, caso a decisão não dê certo, pelo menos temos um culpado ao alcance de nossas projeções. Outra vantagem: não precisamos compreender como funciona o processo. Aliás, o desconhecimento é vital e ajuda a fortalecer a legitimidade do deslocamento.

Cá entre nós, isso é muito reconfortante.

(como ateu, tenho uma incapacidade muito grande de deslocar minhas responsabilidades. Por isso, vivo culpado. O jeito é sempre acusar o capitalismo e a burguesia das decisões equivocadas que pululam nesse mundo velho e enfadado)

Pensando nisso, sugeri aos meus colegas (claro, não desisti de convencê-los da minha empreitada, pois a responsabilidade envelhece-me a cada dia) uma série de exteriorizações de responsabilidades. Uma antropóloga poderia jogar flechas ao léu (belomancia); um cientista político, bastões (rabdomancia); uma bruxa do departamento, ossos ou cartas (sortilégios); um sociólogo poderia interpretar folhas de chá (tasseografia); eu mesmo poderia examinar algum fígado de animal (hepatoscopia), exceto o de pequenos cachorros (por causa de Ideafix), ou alguma outra víscera (haruspicia); tenho um amigo psicólogo e behaviorista que poderia facilmente interpretar o comportamento dos roedores (miomancia) e outro, dessa vez filósofo, o comportamento das nuvens (nefomancia)…

Bem… er… mais uma vez fui voto vencido.

Minha derrota, talvez, tenha uma explicação — um tanto paradoxal, convenhamos: os cientistas sociais não gostam da sorte e do aleatório. Não suspeitam que alguns eventos podem ser aleatórios. Acham, com uma certa razão, que tudo tem significado — boa parte da atração da psicanálise, por exemplo, é baseada nessa premissa. Antigamente, na Babilônia, tudo tinha sentido, porque o significado existia e vinha, necessariamente, do além-mundo; meus colegas acham que, agora, tudo tem sentido nesse mundo, porque tudo ao redor pulula de significado. O pensamento determinístico só mudou de mundo, mas não de procedimento.

(muitos combatentes por um mundo melhor, os CMMs, sofrem do mal do determinismo. Percebem, de forma compulsiva, relações de dominação em tudo que é banalidade. _Nada do que é banal me é indiferente, dizem. O banal, assim, vira relevância, e a vida torna-se mais triste. Não saber o que tem sentido e o que não tem ou a diferença entre o que é importante e o que é trivial leva, inevitavelmente, à falta de humor e outras coisitas mais. Sou da opinião de que, se não há ninguém que faça rir esse pessoal, estamos perdidos)

Além disso, meus colegas confundem acaso com contingência. Posso até admitir que a idéia de acaso, num sentido absoluto, é uma noção metafísica. Acho apenas que relativizar o acaso já é postular a contingência, que não é acaso. A contingência é o encontro casual de séries causais. E pensar que tudo tem sentido impede o raciocínio probabilístico e a apreensão dos processos contingentes.

Acho que meus colegas não compreendem que 

“a opção deliberada por uma opção sem sentido, apenas para se fazer uma escolha qualquer para poder seguir com a vida, provavelmente é uma sofisticação muito posterior, embora seja o motivo fundamental para explicar por que ela é mesmo útil às pessoas” (Dennett).

Não, a gente tem que discutir, discutir, achar motivos, razões e sentidos em tudo e em todos. Ainda prefiro o “cara e coroa”.

Enfim, li o conto de Borges, não entendi nada e findei brigando com meu departamento.

Depois da análise sociológica, o que mais detesto é a análise literária.