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Daniel, o exorcista

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                          Andrew Wyeth | Denver Art Museum

Doutor Mesquita andava meio deprimido. Depois da tal redemocratização, só fizera sofrer. Fora humilhado e o exilaram no bairro da Torre, no cargo de Comissário de Polícia, coisa que qualquer investigador iniciante podia ser. Não entendia por que falavam tanto na Constituição que permitia tudo e nada proibia.

Então, pra que polícia? Achava que era injusto. Tinha sido leal e honrado com o Interventor e, agora, depois daquilo tudo, o homem fora eleito Governador e ele, pobre coitado, fora rebaixado. Esqueceram os bons serviços de mais de dez anos como Delegado Auxiliar e só falavam em arbitrariedade, tortura e pancadaria, como se tudo isso não fosse por ordem do homem que, agora, posava de santo e herói.

Pra se vingar, aliás, bastaria que contasse aos jornais que, um dia, por ordem do mesmo Interventor, mandara Caveirinha ao Cine Art Palácio pegar no pau de um desafeto político do Governo, pra depois sair gritando que o cara era veado dos bons. O Interventor ficara satisfeito com a desmoralização do inimigo. Contudo, ao contrário do que havia prometido, não promovera Mesquita. Mandara dizer, apenas, que aquele ato patriótico seria inscrito na folha de serviços para futura promoção. De Caveirinha, coitado, que nem precisou! Morreu, logo depois, num tiroteio mal esclarecido no cais do porto.

Tudo bem, autoridade era autoridade! E seu esforço contra a quinta-coluna, durante a guerra? É certo que se enganara com os sapos do italiano da Torre, por culpa do Agente Brito, semi-analfabeto notório que, aliás, sabe Deus como, havia sido nomeado fiscal de rendas do Estado e dois anos depois morrera, ninguém sabia do quê, deixando uma gorda pensão para a mulher.

Mas, na Torre?! Ali só tinha ladrão de galinha, bêbedo de esquina, briga de rua e marido que apanhava da mulher. No começo, ainda tentou fechar as barracas que vendiam cachaça pra diminuir a confusão. Só não deu certo porque o vereador local foi contra aquela medida saneadora e todo mundo voltou ao antigo e perigoso comércio. Não que fosse ilegal, mesmo antes da Constituição! Achava apenas que, quem não tinha dinheiro pra comprar uísque, devia deixar de beber. Ele mesmo somente deixara por causa de Dona Leó, que virara espírita. Com o salário atual de Comissário, foi até melhor!

Logo que tomou posse, deu uma olhada no livro de ocorrências. Uma nulidade! O último assassinato ocorrera dez anos atrás e, assim mesmo, o criminoso se entregou antes que a polícia chegasse no local. Matara por amor e, como continuava apaixonado, pegaria cadeia também por amor. Pobre diabo! Nem matar sabia. Precisou de umas dez facadas pra que a traidora morresse!

Melhor foi o suicídio de Barbosinha, mas isso não contava. Nem precisava olhar a ocorrência porque sabia tudo de cor. Na ocasião, Mesquita estava em disponibilidade na Secretaria de Estado e Barbosinha era dono de um fiteiro na esquina do Cine Torre. Ninguém sabia, nem iria saber com certeza, o que ocorrera com o comerciante. O corpo apareceu boiando debaixo da ponte e só tinha umas mordidas de siri, afora uns avermelhados no pescoço. Suicídio mais do que claro, segundo os jornais.

Também, Barbosinha foi logo se meter numa fria, se enxerindo para Salustiana na quermesse da Matriz do Alto da Torre, não se incomodando nem sequer com a presença de Mesquita ao lado dela. O dono do fiteiro até que não era de se jogar fora! Aí pelos trinta anos, bigodinho fino, dentes branquinhos e bem cuidados. Mesquita achou que prevenir era melhor do que remediar e os siris fizeram logo o serviço.

Não adiantara muito por que, com a nova Constituição, fora transferido para a Torre, deixando sua bela casa dos Aflitos. Dona Leó, sua esposa, não largava mais do seu pé e ficou difícil continuar o romance com Salustiana, mesmo que ela morasse no Cordeiro, longe dali. Mas não se arrependia porque descobriram, depois, que Barbosinha estava vendendo maconha no fiteiro. Logo, o suicídio foi mais do que legal.

E que a Constituição fosse pro inferno!

Além do corno da Rua José Bonifácio e do suicídio de Barbosinha, nada existia, exceto nas últimas folhas do livro, onde constava o estranho desaparecimento de Duda, filho de família rica da Rua José de Holanda. Ninguém sabia onde ele se metera, já fazia mais de um mês, embora a queixa fosse recente. Diziam que, na última vez em que fora visto, estava tomando sorvete, ao lado do cinema, conversando com Pacífico, o garçom, talvez o popular mais querido do bairro, principalmente pelas crianças.

Como não tinha mesmo nada para fazer, Mesquita pensou em visitar a família de Eduardo que, além de rica, era nova seita da Igreja Batista. Nos seus primeiros meses de atuação no bairro, seria até de bom tom visitar uma família em desgraça. Depois, se tivesse tempo, iria conhecer Pacífico.

Era isso mesmo! Confirmou a família. Duda, apesar de freqüentar a Igreja, só vivia em más companhias. Fora expulso do Colégio Americano e somente o pastor ainda o agüentava, além de um menino chamado Daniel que gostava de jogar futebol na companhia do desaparecido.

Doutor Mesquita teve um arrepio ao ouvir o nome do menino. Podia ser o mesmo que lhe contara histórias de sapo da Campina. A Igreja era a mesma, o pastor não mudara, mas já se haviam passado uns quatro anos do fim da guerra. Se o menino tivesse uns doze anos, seria muito azar de Mesquita, que não podia mais recuar da investigação. A família ficara agradecida pelo seu interesse e todos os dias telefonava para saber se havia novidades sobre Duda. O jeito, pois, era visitar o pastor e, em seguida, chamar Daniel novamente, com sapo, sem sapo, que Deus o protegesse!

O pastor parecia transitar, com muita rapidez, entre uma credulidade meio ingênua e uma erudição de frases e citações que confundiam o Delegado. Não sabia de nada. Achava que Duda devia ter viajado sem falar com ninguém. Já fizera isso, antes, apesar dos seus conselhos. Especialista em expulsar demônios, não sabia ainda que tipo de auxiliar do Coisa Ruim habitava o rapaz e já falara com o Mestre Luca para, na primeira oportunidade, os dois investigarem. O irmão Eduardo era uma flor de pessoa, mas o Altíssimo também escolhia os bons para prová-los. Por isso é que ele brigava tanto, bebia e, às vezes, tirava um sumiço. Que o Comissário sossegasse que o rapaz, em breve, voltaria.

É! Pensou Mesquita. Também diziam que Jesus voltaria em breve.  Quase dois mil anos e nada, todo mundo esperando e perdendo uma porção de coisa boa na vida. O jeito era enfrentar Daniel de novo. Mesquita não duvidava mais. O menino era o mesmo dos sapos. Tomara que falasse menos e informasse mais.

— Pastor! — Disse o Delegado, já se despedindo. — Pelo que o senhor fala, tem muito diabo solto na Torre. Eu até pensava que o local era calmo e sem muita confusão.

— Isso é porque o senhor é novo por aqui. — Respondeu o pastor, mais do que depressa. — Ninguém quer acreditar. Só eu, Mestre Luca e Daniel é que sabemos o quanto é difícil descobrir os demônios deste bairro. O senhor pensa que eles estão soltos, mas isso não passa de um equívoco. Por natureza, segundo as Sagradas Escrituras, todo demônio vive acorrentado, senão já estaríamos no inferno há muito tempo. Mas, de vez em quando, o Senhor precisa nos provar e solta um com a condição de que ele grude em alguém. É por isso que continuam presos. Lá no inferno ou, então, dentro da gente. Felizmente, — terminou o pastor — Daniel tem sido de grande ajuda ao nosso trabalho.

Mesquita não se conteve. Perguntou se o Mestre Luca era o marceneiro italiano e se Daniel era filho dele.

— Mas claro! — Respondeu o santo homem. — Se não fossem os dois, meu trabalho seria quase inútil. O irmão Salviani descobriu uma técnica infalível para descobrir demônios. Ele me falou, em confissão, que seu próprio pai, do sul da Itália, era feiticeiro e lhe ensinara umas dicas. Depois, sua sogra, que faz parte do terreiro Zanzibar, aqui mesmo na Torre, completara sua educação de exorcista. Ele mesmo só fazia recitar os versículos apropriados da Bíblia e a oração final.

— E Daniel? — Perguntou Mesquita, mais interessado no desaparecimento de Duda do que mesmo nos tais demônios.

— Esse menino é uma verdadeira bênção de Deus. A ciência do exorcismo pode expulsar os demônios, mas no meio do ritual é preciso distraí-los, enganá-los, tomar o tempo deles. Senão, eles se viram contra nós e somente com muita fé a gente pode se salvar de suas garras afiadas.

— E Daniel? — Repetiu Mesquita.

— Como estava lhe dizendo, uma verdadeira bênção. Nós entramos, primeiro, na casa do endemoninhado. Daniel fica no portão pra não deixar ninguém ver. Depois, se for demônio mesmo, a gente chama o menino. Somente ele sabe identificar a que Legião o bicho pertence. Então, começamos a orar, de joelhos e com os olhos bem fechados, chamando à nossa presença o chefe do demônio. Quer dizer, não à nossa presença mesmo, porque somos apenas os enviados de Jesus Cristo. Depois que ele chega, nós já sabemos tudo sobre as funções, o grau de hierarquia e o que ele está fazendo aqui na terra. Isso é Daniel que descobre e nos passa, falando línguas estrangeiras. Depois disso, Mestre Luca aplica o exorcismo que aprendeu com o pai e com a sogra, ex-escrava do engenho Ipojuca. Enquanto isso, leio a Bíblia e completamos o serviço. Mas…

— Desculpe, pastor. — Interrompeu, novamente, Mesquita, agora mais interessado por tais cerimônias. — O senhor disse que os demônios só podem viver presos, não foi?

— Claro! — Respondeu o pastor.

— Como o senhor sabe, eu sou especialista em prender. Gente, é claro! — Emendou Mesquita, apressado. — Queria saber pra onde vão os demônios depois que vocês os soltam, pois nossa cadeia está à disposição da Igreja.

— Aí é que está! Ninguém solta ninguém. A gente só faz transferir. É por isso que a gente chama Daniel. Nunca vi um menino saber tanto de lugar ruim. Nomes que nem conheço, apesar de falar latim, grego e hebraico. Pense direitinho, Dr. Mesquita! Se o demônio volta para o inferno, está certo! Ninguém tem nada com isso! Ficamos mais santificados ainda no nome do Senhor. Mas se, por acaso, ele se solta de uma pessoa e se acorrenta noutra, como é que vai ser? O senhor sabe que a nova Constituição diz que todos somos iguais e não seria justo transferir um demônio de uma pessoa pra outra.

Mesquita não gostou nada da última coisa. Que diabo! Já não bastava ter sido rebaixado pela Constituição? E se, ainda por cima, os demônios estivessem metidos no negócio? Perguntaria a Dona Leó quando chegasse em casa. Agora, ela dera pra freqüentar a Tenda Fraternidade, dos espíritas da Torre.

— Assim, — continuou o pastor — Daniel bebe um copo bem grande de água abençoada na Igreja, bota pra falar, distraindo o demônio, pega uma varinha, que foi presente de sua avó, e começa a balançar pra lá e pra cá. Aí, depois, ele cospe na ponta da vara. Pra onde o cuspe de Daniel for, o demônio está por lá. Um dia, tive o maior susto do mundo quando um pingo de cuspe quase me pegou. Só não fugi porque a Bíblia nos ensina que não devemos temer os nossos inimigos. Jeová estará conosco e, se tivermos fé, ele não nos abandonará. Está no Salmo 116, combinado com Números 2:55. Foi repetido pelo Apóstolo na carta aos gentios e…

— Desculpe, pastor! Eu nunca li direito a Bíblia, mas o senhor não acha que isso é um exagero? Esse negócio de varinha, de cuspe de menino, de diabo viver passeando pra lá e pra cá?

— Não, não acho! E ainda tem mais. Se o senhor quiser, nós vamos na Delegacia expulsar os demônios de todos os presos, porque Deus Nosso Senhor fez o homem à sua imagem e semelhança e o crime é obra do diabo.

— Nem precisa! — Cortou Mesquita. — Infelizmente, não precisa! Há dois meses que não prendo ninguém. Minha esperança é que houvesse uns demônios soltos por aí. Mas, o senhor já falou…

— Que pena! Que pena! — Lamentou o pastor. — E digo isso porque Daniel está mudando de voz, o senhor sabe, aquela fase de adolescente que ora fala fino, ora fala grosso e isso está dificultando nosso trabalho. Não sei mesmo onde vamos arranjar outro menino daquele!

— Pastor! Voltando ao desaparecido Eduardo. Preciso falar com Daniel. Será que eles ainda moram na rua do Seu Euclides, ou se mudaram?

— Estão por lá mesmo. — Confirmou o pastor.

Doutor Mesquita se despediu e saiu resmungando contra sua má sorte. Se pelo menos os Salviani tivessem se mudado de bairro, não haveria por que chamar o menino. Mas, agora, tudo se tornava mais difícil. Segundo a maldita Constituição, seria obrigado a chamar, primeiro, o pai e, depois, se ele concordasse, o filho menor. Acabou-se o que era doce de interrogar todo mundo quando e como quisesse. Paciência! Quem mandou ele se meter com desaparecimento de gente rica?

Daniel havia crescido muito, embora ainda fosse magrinho e de olhos brilhantes. Foi à Delegacia junto com o pai que, agora, estava mais tranqüilo com o término da guerra. Deixara de matar sapo no quintal. No entanto, entristecera muito com a morte do irmão Moreira, que se fora de uma gripe muito forte. Um dos fundadores da Igreja Batista, seu amigo e vizinho! Quando dirigia as orações, não deixava de relembrar o saudoso irmão e, até, propusera colocar o nome dele numa das salas da Escola Dominical.

— Bom dia Mestre! Bom dia Daniel! — Falou Mesquita.

— O senhor desculpe, — foi logo adiantando Daniel, ao reconhecer Mesquita — mas acabou tudo quanto era sapo. Se o senhor não sabe, estão aterrando a campina e, agora, só tem formiga e urubu.

— Bom dia, Delegado! Desculpe aí meu filho mas ele tem mania de falar quando não deve. Eu sempre repito o pastor quando ele diz que pauca et bonna, embora ele mesmo pregue cada sermão do tamanho de um bonde.

— Espera aí, papai! — Interrompeu Daniel. — O pastor gosta de falar muito, mas não adianta porque todo mundo da Igreja bota pra dormir, inclusive o senhor. Esse negócio de pauca et bonna, aliás, está no livro de latim lá do Colégio que é o professor José dos Anjos que ensina. Ele está bem velhinho e a classe aproveita pra dormir também. Eu mesmo prefiro o Tiranossaurus Rex, que é como a gente chama o Diretor. De latim, aliás, o pastor só sabe isso mesmo, porque, uma vez, eu o vi perguntar a um padre se em Roma ainda se falava  latim. Santa ignorância, meu Deus!

— Muito bem, Mestre Salviani! — Tentou se meter o Delegado. — Será que eu podia perguntar algumas coisas ao menino?

— Claro, o que o senhor quiser. No dia em que Daniel não responder a uma pergunta, pode desconfiar que ele perdeu a língua. É por isso que ele nos acompanha no exorcismo.

— Muito obrigado! — Sentiu-se Mesquita no dever de responder. O diabo é que não sabia o que perguntar, se primeiro sobre Duda ou sobre a varinha e o cuspe de Daniel. Não podia era deixar que os dois convidados continuassem a falar de coisas que não interessavam.

— E então, Daniel! Pelo visto, você ainda se lembra de mim. Hoje, é diferente! Me disseram que você gostava de jogar futebol com Duda e ele desapareceu sem deixar pista.

— E eu com isso, Dr. mesquita? Eu era só goleiro e Duda, ponta esquerda. Ele ficava tão longe da barra que eu não vi quando ele desapareceu. Mas, se o senhor quiser…

— Não, Daniel! Eu não quero! Talvez, depois, eu queira. — Porra! Que menino chato! Pensou Mesquita. — Diga aí, quando foi a última vez que você viu Duda?

— No culto de oração, um mês atrás. Estava jogando bolinha de papel na irmã Tereza, prima do pastor que, aliás, vai ao cinema antes do culto sem ninguém saber. O próprio pastor jura que ela é uma santa, mas eu não acredito. Se fosse, não estaria se esfregando com o irmão Joab enquanto todo mundo fica de olho fechado na oração. E tem mais…

— Devagar, devagar. Piano, piano, se va lontano. — Falou Mesquita para agradar o Mestre Luca, quase lhe suplicando que contivesse a língua do filho. — Eu quero saber o seguinte. Você sabe que fim levou Eduardo? Viajou, casou, morreu, que diabo aconteceu com ele?

— Eu acho que o senhor falou certo, aí pelo fim. — Respondeu Daniel. — Se viajou, ninguém sabe, mas eu já li O Peregrino, que a missionária me emprestou, e lá o livro diz que a vida é uma viagem. Se casou, não sei com quem, pois lá na Igreja as meninas sempre tiveram medo dele. Só se foi com gente de fora, mas não convidou ninguém. Se morreu, acho que o senhor devia perguntar ao garçom da sorveteria, porque estão dizendo que foi ele quem deu uma facada em Duda, depois de uma briga. Briga feia, aliás! Queria que o senhor visse! Duda foi entrando meio bêbedo, empurrou uns meninos que tomavam sorvete e foi logo dizendo que Pacífico era fresco. Eu mesmo não sei dizer o que é isso, mas o mencionado fresco ficou danado da vida. Aí, ele foi lá dentro e todo mundo pensou que tinha ido buscar um sorvete. Quê nada! Voltou com a mão no bolso e perguntou a Duda quem era fresco. O pessoal tinha até esquecido, porque Duda estava quase dormindo de tão bêbedo. É por que o senhor não sabe, mas Duda era valente de verdade! Não teve jeito! Disse de novo que Pacífico era fresco mesmo. Pois é, em vez de um sorvete, Pacífico tirou do bolso um canivete e furou a barriga de Duda. Eu achei que era uma besteira ficar com raiva por causa de uma palavra que a gente nem sabia o que significava. E foi aí que o time da Igreja perdeu o melhor ponta esquerda de sua história! O cara arriou mesmo! Estava dormindo e continuou dormindo. Somente que ninguém conseguia mais acordá-lo. Só depois…

— Calma, calma, Daniel! — Mesquita e o Mestre Luca falaram ao mesmo tempo, assombrados com tudo aquilo.

— Você pode repetir tudo isso, direitinho e devagar? — Perguntou o Delegado, quase sem acreditar.

— Claro! Mas acho que estou perdendo tempo porque o senhor, para comprovar, basta abrir a geladeira da sorveteria pra ver que Duda continua lá, inteirinho. Todo dia, Pacífico chama a gente pra ver. Menos eu  – fazendo uma crítica velada ao pai – , que não posso tomar sorvete porque não tenho dinheiro. E as meninas, porque Pacífico achou melhor tirar a roupa de Duda  que está virando sorvete nuzinho da silva. Se o senhor quiser, a gente vai agora mesmo na sorveteria e pede a Pacífico, que ele mostra. Domingo passado, mesmo, me disseram na Igreja que o sorvete, agora, é servido com calda de morango, mas ninguém acredita. Dizem que Pacífico, todo dia, tira um pouquinho de sangue de Duda, fingindo que é morango. Infelizmente, eu não sei por que, como já falei…

Interrompendo Daniel com um gesto, o Delegado se levantou e ofereceu um copo d’água ao pai e ao filho. Curiosamente, somente Daniel aceitou, pedindo, logo em seguida, para ir ao banheiro, dizendo que estava sentindo um cheiro muito esquisito na Delegacia. Cheiro de demônio, apesar de Mesquita ter garantido que não havia, por enquanto, nenhum preso por ali. Mesmo assim, o menino disse que ia cuspir um pouco para prevenir. Se houvesse problemas que o Delegado avisasse ao pastor.

Mesquita dispensou os dois e prometeu investigar a história de Daniel sobre o desaparecimento de Duda. Desta vez, jurou, não faria papel de besta, principalmente agora, que trabalhava no bairro. O negócio era tão esquisito que até o próprio pai do menino ficara assustado. Acreditar em demônio era uma coisa; em sorvete de defunto, já era outra muito diferente.

Para se distrair um pouco, depois que os dois saíram, Mesquita começou a pensar em alternativas de investigação em torno do sorveteiro. Poderia reunir, no Grupo Escolar, todas as crianças do bairro, exceto as meninas, seguindo a teoria de Daniel. O pretexto poderia ser uma aula de defesa pessoal contra ladrões de crianças. Corriam boatos que a família Amorim estava mandando pegar crianças pra tirar o fígado, santo remédio, segundo diziam, para um dos seus membros que era morfético. Distribuiria confeito e começaria, aqui e ali, a fazer perguntas. Daniel, é claro, estaria proibido de comparecer à festa. Segundo sua própria versão, parecia não ter assistido ao crime.

Ou então, quem sabe, iria tomar sorvete com Dona Leó e, se Pacífico insistisse na calda de morango, daria voz de prisão imediata. Achou isso meio ridículo. Talvez fosse melhor pedir à defesa sanitária uma inspeção de rotina na sorveteria, quando então, certamente, a geladeira seria aberta. Como proteção aos inspetores, Mesquita estaria presente, e se Duda estivesse lá dentro, o caso estaria resolvido. Prenderia o criminoso em flagrante.

Que bairrozinho safado aquele da Torre! Acreditar, não acreditava, mas por que não fingir que não sabia e tomar um sorvete com calda de morango, à la sangre de Duda, como faziam as crianças, segundo Daniel? Parece que ninguém tinha morrido por isso e já completara um mês que o rapaz desaparecera. Teria que pensar em alguma coisa. Mas, desta vez, Daniel não ia escapar assim tão fácil. Iria chamá-lo, depois, para esclarecer o caso dos demônios da Torre.

Eduardo reapareceu um mês depois e Dr. Mesquita arquivou o caso, sem precisar interrogar Pacífico.

Segundo a família, ele teria ido a Vitória de Santo Antão atrás de um rabo de saia. Não dera certo porque a moça queria casar e Duda fingiu que era pai de família, depois de se aproveitar um pouco da menina. Voltou fugido do interior, ameaçado de morte pelo pai, senhor de engenho, com certa reputação de violência quando se tratava de pretendentes da filha.

Doutor Mesquita sossegou porque conseguira, também, prender, só num mês, três ladrões de quintal, devolvendo dois perus e cinco galinhas aos legítimos donos. Prendera um bêbedo que insultara um auxiliar da Delegacia, mandara surrar um marido queixoso e escrevera no livro de ocorrências mais uma ou duas coisinhas sem importância. Além disso, parece que, finalmente, se lembraram dele lá no Palácio das Princesas e seria nomeado Catedrático de Português do Estado, já que era formado em Direito.

No outro mês, quase encerrada sua Comissão na Torre, acompanhava Dona Leó até à Fraternidade e lá estava o pastor, acompanhado pelo Mestre Luca e por Daniel.

Como se queixara à mulher de tal surpresa, Dona Leó explicou que haviam chamado os três pra falarem sobre expulsão de maus espíritos porque o Presidente queria discutir a existência ou não de demônios.

— Segundo o espiritismo, — explicava Dona Leó — o inferno e o diabo foram invenções bem intencionadas dos cristãos primitivos. Somente existiam espíritos e todos eram bons. Na verdade, era o inverso do que diziam. Os espíritos tendiam a entrar nas pessoas para fazer o bem  e, quando elas não prestavam, eles se viam aprisionados em verdadeiras armadilhas. Por isso é que faziam tanto barulho. A tarefa do espiritismo, como ensinara Alan Kardek, era induzir as pessoas a fazerem o bem, para que os espíritos realizassem sua tarefa de iluminar o mundo. Somente depois é que se libertavam. No final, somente haveria espíritos de luz.

O convite interessava de perto o pastor por que achava que poderia converter alguns espíritas, trazendo-os para sua Igreja. Só por isso! Para ele, já estava mais do que provado que o diabo existia. Caso contrário, teria que admitir que Jesus Cristo, Nosso Senhor, era um grande mentiroso quando transferira alguns demônios para uma vara de porcos em Gadara, segundo o Evangelho.

Depois, como dizia o irmão Jacó Benjamim, que nascera por perto, ainda existia o barranco de onde os porcos se jogaram no mar. Discutiria uma hora, no máximo, com os membros da Fraternidade e, depois, começaria sua própria evangelização.

Levara Mestre Luca e Daniel, de propósito, pra ilustrar seus argumentos. É verdade que, ultimamente, estava ficando com medo do menino por causa da mudança de voz. Se ele começasse a falar fino e grosso ao mesmo tempo, os espíritas poderiam desconfiar de alguma trapaça, desde que ninguém ainda sabia, nem mesmo Daniel, se os demônios eram machos ou fêmeas. Segundo as Escrituras, pelo menos, só tinha nome de demônio masculino, mas isso poderia ser má tradução do hebraico, segundo o irmão Jacó.

Talvez Daniel não precisasse falar, o que encurtaria a discussão porque ele era boquirroto demais. Tão dócil e inteligente, o bom menino, mas com aquele horrível defeito! Às vezes, nem ele próprio agüentava.

Mas o pai negava tudo. Daniel sempre fora calado dentro de casa. Quando dizia Bom dia!, levava logo uns cascudos que era para aprender a fazer economia. Se não estava chovendo, pra que dizer Bom Dia? Se chovia, estava mentindo, e era pecado. O cascudo, portanto, resolvia a questão de vez e, segundo Salviani, o menino nunca reclamava. Devia ter cabeça de ferro ou, então, não passava de um grande cínico.

O pastor não acreditava nisso. Daniel era líder dos Juniores da Igreja e era o que mais ajudava Dona Carmita, sua mulher, na preparação do culto. Quando visitava a Congregação de Itamaracá, ele e sua filha Priscila faziam sempre questão de acompanhá-lo, só para ajudar. Era tão generoso que, apesar da pouca idade e do desconforto, preferia ir na carroceria da caminhonete da Igreja com Priscila. Achava que Mestre Luca estava sendo severo demais com os filhos e Daniel era sua principal vítima. Tudo bem! Não podia era se meter tanto assim na intimidade dos irmãos.

A Fraternidade da Torre era considerada como uma entidade irmã da Igreja Batista. Só faziam o bem, embora isso não bastasse, segundo o Evangelho. As boas obras, às vezes, eram desculpas esfarrapadas pra encobrir os pecados das pessoas. Coisa de católico romano! Mas os espíritas eram diferentes. Aceitavam tudo com boa vontade e resignação e, por isso, eram mais fáceis de serem conquistados. No entanto, entre os convertidos da Igreja, sempre havia ex-espíritas beirando alguma heresia, como o irmão Jessé, cego de nascença.

O Presidente da Fraternidade, Raphael de Oliveira, era dono da única alfaiataria do bairro e, junto com Seu Levino, sapateiro dos bons, fundava quase todo o mês uma Associação Beneficente de alguma coisa.

Segundo Mesquita, que tomara gosto pela sessão daquela noite, havia de tudo cadastrado na Delegacia, inclusive uma Beneficente dos Cegos da Torre, passível de investigação, aliás, porque o onipresente Daniel constava como Secretário Executivo. Pelo que sabia, o menino não tinha nenhum defeito na vista. Mas era melhor prestar atenção aos debates pra não chatear Dona Leó. Estava tinindo e não queria deixar a mulher fugir de novo da cama.

Os espíritos de luz eram belíssimos, segundo Raphael, o primeiro a falar. Filhos do sol e das estrelas, mandados pelo Ente Supremo para ensinar na terra. Somente depois, os homens subiam de posição, de querubim para serafim, até se virar enviado do Alto, quando, então, poderiam se reencarnar ou, quando não queriam, por humildade ou por outra virtude qualquer, podiam operar milagres, fazer curas, predizer o futuro, embora somente o fizessem de noite, depois do pôr do sol, ou de madrugada, antes dele nascer. Durante o dia, segundo Kardek, somente os espíritos de luz, superiores aos homens, podiam se manifestar e, assim mesmo, não podiam ser vistos por causa da ofuscante luz de nosso Astro Rei.

Apesar do respeito que cultivava por Dona Leó, exemplar mãe de família, Mesquita quase ria do discurso do alfaiate. Assim, pensou, era muito fácil. De noite, era escuro e ninguém podia ver mesmo. De dia, por causa do sol, tampouco. Quando chegasse em casa, depois de um alisado na mulher, iria insistir para a Fraternidade se reunir no próximo eclipse do sol, dali a uns dois meses. Com isso, talvez, pudesse prender em flagrante os tais espíritos da luz, quem sabe!

Mas o que lhe interessava, de verdade, era ouvir o trio da Igreja Batista, especialmente Daniel, mesmo que tivesse de agüentar a cachoeira verbal do menino.

Chegada a hora, o pastor não tinha muita coisa a comentar, citando uns vinte versículos da Bíblia que pareciam ser contra a tese do Presidente. Depois dos vinte, Mesquita deixou de contar porque percebeu, por sua experiência de interrogatório, que o pastor estava repetindo tudo o que dizia desde o início, embora misturasse todos os versículos anteriores noutra ordem, senão misteriosa, pelo menos sem lógica nenhuma.

O desastre final, que iria estragar os planos de Mesquita para o fim de noite com Dona Leó, chegou sem avisar, quando o pastor chamou Daniel, depois do testemunho de Salviani. Na verdade, o menino se recusou a falar e Mesquita somente viu  do que se tratava porque estava bem colado na primeira fila da sala, defronte dos três, e pôde ouvir o que estavam cochichando.

Primeiro, Daniel disse bem alto que estava rouco e não podia falar. Como levou um beliscão do Mestre Luca, porque não estava rouco nem nada, falou que, se contasse o que sabia, algum demônio podia ouvir pela janela. Como Seu Levino se apressou em fechar a janela, Daniel disse que não adiantava de nada porque, quanto mais calor, mais demônios entrariam na sala pelas goteiras do telhado, olhando pra cima e certificando-se de que a sala não era forrada.

Depois, desistiu de encontrar desculpas e virou-se para o pastor dizendo que o próprio Diabo tinha lhe roubado as cordas vocais e, dali em diante, não diria mais nada.

Foi aí que começou o cochicho dos três irmãos, que os ouvidos treinados de Mesquita conseguiram perceber.

— Irmão Luca! Faça alguma coisa pra esse menino falar.

— Não adianta, pastor. — Respondeu Mestre Luca. — Quando ele emperra, não tem ninguém que consiga.

— Então peça, pelo menos, que ele mostre a varinha. — Suplicou o pastor.

— Não trouxe. — Intrometeu-se Daniel. — Vó Biu disse que a varinha estava muito cansada e fininha demais porque pertencera ao seu bisavô, no tempo da escravidão. Guardou no baú, trancou e jogou fora a chave.

— Mestre Luca, dê uns cascudos nesse menino que num instante ele bota pra falar. — Disse o pastor.

— Não posso. — Replicou Salviani. — Só hoje, já dei sete, e é pecado ultrapassar o número sagrado da Bíblia.

— Acho que o irmão se enganou. — Insistiu o pastor. — O número sagrado é doze. Ainda faltam cinco.

— Mas pastor! O senhor não vê que assim é minha mão que não agüenta? — Irritou-se, baixinho, Mestre Luca, para alívio de Daniel.

— Quem sabe, então, se pelo menos o cuspe sagrado do menino não resolveria o problema? — Argumentou, ainda, o pastor.

— Não adianta! — Foi a vez de Daniel falar. — Fecharam a porta e as janelas e, sem vento, o cuspe não funciona.

— Está bem! — Respondeu o pastor, virando-se para Daniel. — Vou começar minha pregação assim mesmo, mas você nunca mais viaja com minha filha na carroceria da caminhonete.

— Espere aí, pastor! — Disse Daniel, assustado. — Não precisa exagerar. Eu e Priscila não fazemos nada demais lá atrás. A gente fica o tempo todo bem quietinho. Somente quando a caminhonete balança é que não tem jeito.

Parece que o menino se deu conta de que, naquele momento,  falara demais, porque o pastor quase deu um pulo da cadeira.

— Pois bem, seu safado! Falando ou não falando, Priscila, agora, só viaja na boléia, e você que vá pra Itamaracá na bicicleta roubada dos cegos!

— Calma, calma! Eu falo tudo. — Apressou-se Daniel em apaziguar o pastor. — Agora, não posso garantir é se, com tanto espírito aqui da Fraternidade assistindo e com tanto demônio que já deve ter entrado pelas goteiras do prédio, sou eu ou o Diabo quem vai dizer as coisas. Depois, não reclame!

Nessa altura do cochicho, Mesquita achou que Dona Leó estava muito inquieta. Tentou acalmá-la, pois ainda tinha esperança de uma boa noitada quando chegassem em casa. Não adiantou. Ela tremia cada vez mais forte, começou a suar e uma voz meio estranha saiu de sua garganta. Levantou-se, foi em direção a Daniel e ficou se balançando diante do menino. Com uma voz bem grossa, começou a falar em língua estrangeira que ninguém conseguia entender.

— Daniel! Daniel! Sai da cova dos leões, desce da fornalha e me enfrenta! Nem sequer me reconheceste quando escrevia, na parede do Rei, o dia de tua condenação. Sempre foste um grande mentiroso. Aqueles leões pertenciam ao circo que dava espetáculos no templo de Marduk, nosso Glorioso Senhor da Guerra. Sabes que foi a Rainha, tua amante, quem contratou os bichos que eram domesticados e inofensivos. Sabes, também, que o padeiro real havia apagado o forno, dois dias antes, por ordem do Primeiro Conselheiro, também amante da Rainha. Sabes, muito bem, que a escrita da parede era apenas um poema de meu colega Belzebu e que não tinha nada a ver com os pecados do Rei.

— Daniel, Oh Daniel! — Continuava Dona Leó, transfigurada. — Aquele que julgou, teu verdadeiro nome, jamais expulsou ninguém de ninguém. Foi Ele mesmo que nos mandou e tu, metido a merda, ficas aí enganando nossos espíritos de luz. Fala a verdade, se tens coragem! Que fazias na carroceria da caminhonete com a filha do pastor, outro idiota que aprendeu hebraico com o mascate da Igreja que fala complicado pra dizer que é filho de árabe? Fala, se tens coragem, diante de nós, Legião Belashaar, todos presentes e prontos para defender o Santíssimo, injustamente expulso lá de cima.

Dona Leó havia desmaiado na frente da mesa e Mesquita, sem entender o que ela dizia, preferiu, assim mesmo, socorrer a esposa. Sabia que perdera mais uma noite. Não adiantara ter sido bonzinho em acompanhar a mulher naquela reunião de gente maluca. Desde que se mudaram para a Torre, há quase um ano, Dona Leó não queria mais nada com ele. Ah, se ainda tivesse Salustiana, suspirou o Delegado, com a esposa já respirando melhor e quase acordada. Jurou que Daniel não lhe escaparia daquela vez.

E ainda havia aquele negócio do roubo da bicicleta dos cegos que somente ele ouvira dizer, durante o cochicho do pastor. Era só esperar!

Depois que todo mundo se acalmou, Raphael, aquele que fala, Presidente da Fraternidade, perguntou se devia continuar com a sessão. O pastor foi o primeiro a dizer que não tinha problema. Não podia perder a ocasião, mesmo com o fiasco de Daniel. Até mesmo Dona Leó, já inteiramente recuperada e sem lembrar do que acontecera, pediu para continuar. Estava muito interessada nas palavras do menino.

Daniel, então, se levantou e disse que falaria, sob a inspiração do Espírito Santo, na mesma língua de Belial, que armara toda aquela confusão, encarnado na esposa do Delegado Mesquita, ali presente. Pediu desculpas porque esquecera sua varinha em casa, mas que, depois, a Fraternidade podia invocar de novo Belial para traduzir o que ele ia dizer.

Não falaria em português para não dar satisfação ao demônio que o chamara de covarde e mentiroso. Era na língua dele mesmo que ia falar, como desafio. Disse, também, que o irmão Jacó, da Igreja Batista, lhe explicara que, nas Escrituras, os discípulos de Jesus jamais falaram línguas estrangeiras. Era má tradução do hebraico, que ele aprendera, quando criança, com seu pai Simão que viera do Líbano.

Na verdade, continuou Daniel, fazendo uma certa pose de orador, nos Atos 23:17, se dizia no original, traduzido para o grego e para o português por um judeu holandês, chamado João de Almeida, que os discípulos receberam línguas de fogo do céu e começaram a falar línguas estranhas, e não estrangeiras. Por isso, nem mesmo João de Almeida, que era holandês, pôde traduzir o que eles disseram. Do mesmo jeito que ninguém entendeu o que Belial acabara de dizer através de Dona Leó. Ele mesmo, Daniel, só conseguira porque estava habituado com tudo que era demônio e coisa ruim.

Para completar sua introdução, o menino virou-se para o Delegado, olhando-o fixamente, como se quisesse fazer um acordo, e disse bem alto para o auditório que tomava o Doutor Mesquita, ilustre representante oficial do Governador do Estado, como testemunha da verdade do que haveria de dizer.

Depois, mandou que todo mundo fechasse bem os olhos; que os espiritualistas ficassem pensando na reencarnação e que os crentes, no mistério da Santíssima Trindade, caso contrário sua conversa com o Demônio não ia dar certo.

— Daniel, Aquele que julgou, assim se dirige à Legião, chefiada por Belial, aqui presente. — Continuou o menino, sem olhar para ninguém, embora, de vez em quando, piscasse o olho para o Delegado.

— Jurei ao Senhor dizer a verdade. Como está escrito, em Isaias 56:41, aquele que mente levará uma surra do rabo de Alcazir, chefe da guarda de Lucifer. Portanto, eis aí a verdade nua e crua. Não tenho medo de, agora, enfrentar o demônio, pois sem-vergonha com sem-vergonha jamais deixaram de se entender.

Mas repito a Belial tudo aquilo que aprendi com meu pai, com o pastor e com o irmão Moreira, nosso vizinho, além de minha Vó Biu que, hoje, não pôde vir porque tem uma sessão aí atrás, no terreiro, e ela não podia perder.

Não sou culpado, nem Cristo, nem as Sagradas Escrituras de que o pastor batista não entenda patavina de língua estrangeira, muito menos das estranhas que falo agora.

Não sou culpado de que os crentes fechem os olhos quando começam a orar na Igreja ou fora dela. Como diz o Padre Cabral, meu professor de Português no Ginásio Pernambucano, eles fecham os olhos pra não ver a sacanagem, mão na mão, mão naquilo, aquilo naquilo, que todo mundo faz durante o culto.

Tampouco sou culpado de meu querido pai, marceneiro da Torre e filho de feiticeiro italiano, aqui presente, só acreditar em demônio e dizer que eles só vivem soltos pela rua e pelo mundo, proibindo que os filhos brinquem fora de casa com os amigos.

Pois bem, Senhor Belial! Aprendi com minha Vó Biu que, mesmo de olhos abertos, não adiantou nada pro seu bisavô, o escravo Mundum, rezar pra não apanhar do Senhor de Engenho de Ipojuca. Por causa disso, um dia, ele cortou uma vara no riacho, afiou a ponta e matou o Major Câmara de cujo corpo saiu o demônio em forma de fumaça. Minha Vó guardou a vara que, depois, ficou varinha e me deu de presente.

Foi aí que eu tive a idéia de usar a relíquia pra expulsar demônios com meu pai e o pastor. Pelo menos, podia sair de casa e me distrair um pouco pelo bairro. Depois, inventei que era preciso cuspir na ponta e soprar para ver que lado dava o cuspe. Mas, nem o pastor nem meu pai podiam ver o que eu fazia. Por isso, disse que a condição era que só cuspia durante uma oração de olhos bem fechados e que ninguém podia olhar.

Quando eles fechavam os olhos, eu começava a falar besteira, tudo que era porcaria que ouvia no Colégio, declinação de latim, equação de matemática do Professor Ribeiro, todos os afluentes da margem direita e esquerda do Amazonas e do São Francisco e, com essas línguas estranhas, já ganhava uns dez minutos.

Depois, tomava um copo d’água bem cheio, que o pastor abençoava na Igreja, que era pra ficar com a bexiga quase estourando. Quando todo mundo estava distraído na oração, botava pra mijar na varinha, balançando pra tudo quanto é lado e só parava quando saía todo o mijo que tinha. Um dia, me distrai e quase mijava no pastor, que queria fugir, pensando que um demônio estava entrando nele.

Finalmente, quero dizer ao Senhor Belial que vá prá puta que o pariu, porque eu nunca acreditei nem vou acreditar nessas besteiras. Além do mais, o senhor não tem nada que ver com minhas brincadeiras com a filha do pastor, na caminhonete, porque, primeiro, ela deixa e gosta, depois, o senhor deve estar lembrado que, quando fomos expulsos do Paraíso, o Criador mandou a gente se reproduzir aqui na terra, e não quando morrer, lá no céu ou no inferno, conforme o caso.

Pra terminar, Senhor Belial, — disse Daniel, olhando de novo para o Doutor Mesquita — a Sorveteria da Torre nunca teve geladeira tão grande que coubesse um desaparecido dentro dela e que, se alguém quer desaparecer, ninguém tem nada com isso.

Depois do discurso, Daniel afinal sentou-se e, num  português claro e vagaroso, pediu que todos abrissem os olhos e não tivessem medo porque a Legião já tinha fugido da sala.

Terminada a reunião, ninguém chegou a um acordo sobre a língua utilizada por Daniel. Uns diziam que parecia língua de índio. Outros, mais eruditos, que, possivelmente, era latim ou grego antigo. O próprio pastor achava que se tratava de aramaico, a língua do próprio Cristo.

Na saída da Fraternidade, já na calçada, Mesquita abraçou Daniel e elogiou sua boa gramática.

— Não sei se você sabia, Daniel, mas acabei de ser nomeado Catedrático de Português no mesmo Colégio do Mestre Salviani, seu pai.

— É claro que sabia. — Respondeu Daniel. — Papai só fala nisso, que um tal de Mesquita é o novo Mestre do Colégio.

— Agora, — continuou o menino — eu vou dizer uma coisa pro senhor, Doutor Mesquita, antigo Delegado Auxiliar, segundo o irmão Moreira, ou Agente Brito conforme o senhor queira. Ele me confessou tudo, antes de morrer. Se o senhor falar de novo em sapos, se o senhor entender, antes de deixar a Delegacia da Torre, de ir falar com o sorveteiro e abrir aquela geladeira, se o senhor investigar o desaparecimento de uma certa bicicleta… Eu juro, Doutor Mesquita, juro por Deus e por Belzebu, que vou contar a Dona Leó aquela história de toda a tarde o senhor ir se encontrar com alguém no Cordeiro.

— E tem mais! — Continuou Daniel — Quando faltava o beque esquerdo do time da Igreja, a gente chamava Barbosinha do fiteiro pra ir jogar contra os irmãos do Cordeiro. Nem precisava ir buscá-lo, porque todo sábado ele vivia por lá, onde morava uma certa balzaquiana que, talvez, o senhor saiba quem era. Posso lhe dizer, também, que estava pescando na ponte quando encontraram o corpo dele, enganchado numa rede. Todo mundo disse que era mordida de siri, mas eu nunca vi siri em maré alta. Duda, que desapareceu e o senhor não foi capaz de encontrar, me disse que aquilo era picada de canivete importado, igualzinho a esse com que o senhor limpava as unhas na reunião.

O Delegado demissionário da Torre ouviu tudo calado. Pensativo, foi saindo de mansinho, dizendo para Dona Leó que, apesar de não ter entendido nada das línguas estranhas do discurso de Daniel, um abençoado de Deus, segundo o próprio pastor, dali por diante só não virava espírito de luz, feito vaga-lume, se Deus Nosso Senhor e o Doutor Agamemnon não quisessem.

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