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Daniel e os sapos

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                   Wassily Kandinsky

Ezequiel de Brito Moreira. Seu Moreira, para todos da rua. Agente Brito, na Delegacia Auxiliar. Mas isso ninguém sabia, nem sua própria mulher, Dona Mocinha, irmã da Igreja Batista. De tanto acompanhá-la, também se fizera crente e, há muito tempo, por suas virtudes aparentes, fora consagrado diácono, gozando da estima de todos com seu ar bonachão de homem simples, vindo do interior.

Principalmente de Mestre Luca Salviani, italiano da Torre, que se havia convertido à nova seita desde os vinte anos, quando, num acesso de misticismo, seco e talvez misógino, renunciara ao catolicismo mariano da época, ligando-se aos batistas. Se Salviani já fora muito rígido como católico, mais ainda se tornara como crente, embora não pudesse renunciar a inúmeros hábitos adquiridos antes de sua conversão, como assistir a filmes italianos, meio irreverentes, que passavam no Art Palácio. Era a única coisa que fazia escondido na vida. Para ele, na verdade, meras sátiras inocentes.

Talvez, por isso, não se considerasse tão invulnerável ao ponto de postular o diaconato. Preferia o trabalho de tesoureiro da Igreja, ajudando no que podia, especialmente na manutenção da moralidade dos irmãos.

Quase todos os domingos, os dois casais iam, juntos, para a Igreja. Seu Moreira, quase mulato, encorpado, ria bastante com a imitação do sotaque italiano com que, de vez em quando, Mestre Luca tentava divertir os amigos da rua. Não deixava, por isso, de vigiá-lo um instante sequer. Era sua tarefa, seu trabalho, que levava com muito zelo. Além do salário, era preciso servir à Pátria. A guerra, embora bem longe do bairro, podia estragar o seu humor. Os alemães e os italianos tinham que ser tutelados cotidianamente. Eram as ordens. Na sua área, aqueles estrangeiros, ou aparentados, tinham que andar na linha.

Os dois batistas eram vizinhos e as duas famílias se davam como parentes verdadeiros. Nem o diácono se culpava por seus relatórios ao Delegado de Polícia, nem o Mestre percebia que existiam outros motivos para tanta amizade.

Além dos cinco filhos, Mestre Salviani ainda se ocupava com os alunos de marcenaria, com o curso noturno de  alfabetização da Igreja e, principalmente, com a conduta do pastor que apresentava muitas oscilações, a seu ver perigosas.

Na verdade, os dois amigos planejavam fundar uma nova Igreja justamente por divergências com o pastor, que era acusado de seduzir as moças, de beber um pouco e de fazer péssimos sermões. Além disso, segundo os cálculos do Mestre tesoureiro, havia dinheiro desviado das obras sociais. A coisa não fora tão fácil assim. Numa das Assembléias, de que participavam todos os irmãos batizados, apenas um terço concordara com as acusações.

Como de hábito, os descontentes saíam, filiando-se a outra Igreja ou fundando uma nova. Salvo, se as provas tivessem sido tão contundentes que a maioria da Assembléia se visse obrigada a demitir o pastor, o que não fora o caso. O próprio Salviani apenas levantara suspeitas e nada mais. Alisar os braços das meninas não era pecado, defendera-se o pastor. O diácono Moreira ouvira alguns rumores, fulano me disse, sicrano viu e ficou por aí. A contabilidade estava correta, se fossem acrescentados os vinte quilos de bombons comprados no Natal para as crianças da Igreja e as viagens do pastor à Congregação de Itamaracá. Despesas necessárias, porém não autorizadas pela Assembléia.

É verdade, também, que a Primeira Igreja ficava um pouco distante de onde moravam e não conheciam muito bem o cotidiano dos outros irmãos, o que enfraquecera a luta dos dois amigos. As regras do jogo, porém, eram implacáveis. Perderam a votação secreta e deviam procurar outra Igreja ou, então, fundar nova comunidade espiritual.

A princípio, as reuniões eram realizadas, aos domingos,  na casa de ambos. Derrubaram a cerca que dividia os dois quintais e improvisaram uma espécie de terreiro, coberto de lona. Todos traziam suas próprias cadeiras. Do terço dissidente, apenas uns trinta irmãos continuaram fiéis à orientação do marceneiro, ajudado pelos Moreira.

A rua onde viviam, aliás, não passava de um prolongamento de aterros que a Prefeitura fazia dos mangues que margeavam o rio. Há muito tempo, ninguém sabia por quê, todos pagavam um foro a Seu Euclides, o avarento que morava na primeira casa da rua. Por isso mesmo, a rua levava seu nome. Tuberculoso, misterioso, esquelético, nunca era visto por ninguém. Era sua mulher que, semanalmente, recebia o pagamento. Ninguém construía um barraco sequer naquela extensão de mangue aterrado sem que tivesse de pagar o respectivo foro.

Seu Euclides não deixou de notar a afluência domingueira na casa dos Salviani. Um dos seus filhos fora investigar e queria cobrar um pagamento extra pela utilização do quintal, alargado pela derrubada da cerca. Considerava o terreiro coberto como uma nova casa construída e, portanto, o pagamento era justificado.

As pressões do dono da rua, como era chamado o incógnito Seu Euclides, começavam a perturbar o culto aos domingos e raramente os sermões, meio improvisados, dos irmãos Moreira e Salviani deixavam de mencionar a necessidade de uma mudança para um prédio alugado ou, mesmo, à construção de um templo próprio. Mas a comunidade ainda era pequena; todos de profissão modesta, verdureiros, carroceiros, marceneiros, pintores de parede, carpinteiros, cobradores de bonde, pequenos funcionários públicos.

É verdade que havia um bom terreno, bem pertinho da Campina da Torre, que serviria para abrigar o novo templo. Era quase um sítio, com enorme área por detrás de uma casa antiga que poderia ser adaptada. Felizmente, bastaram alguns meses para começar uma transferência em massa dos irmãos da Primeira Igreja para a congregação da rua de Seu Euclides. Parecia que o antigo pastor havia exagerado nos chamegos com as meninas da Igreja e, pelo menos, uma engravidara. Já eram cem os crentes que não confiavam mais nele.

Com tantos irmãos dissidentes, então, a coisa não seria difícil como, de fato, não foi. A Missão americana financiou a compra do imóvel. O único problema era contratar um pastor honesto que satisfizesse os piedosos irmãos, o que foi conseguido no Seminário, ajudados pelo Diretor, também americano, que resolvera aderir aos dissidentes.

Estava tudo pronto para o início de uma nova etapa na evangelização do bairro da Torre, sob o comando moral dos Salviani e dos Moreira. O novo pastor, um alagoano baixinho e falador, tido entre os colegas como um erudito em latim, grego e hebraico,  logo percebeu que teria problemas com o marceneiro, que se considerava guardião da ortodoxia bíblica e mentor da moralidade dos irmãos, inclusive do próprio pastor. Mas achava que sua erudição resolveria aqueles problemas.

Em todo esse tempo, o Agente Brito não tivera nenhum trabalho com o Mestre Luca, que nem sequer era italiano verdadeiro; apenas filho de italianos. Seus pais haviam morrido muito antes da guerra e, da Itália, sobrara apenas uma certa nostalgia por um país distante e desconhecido. Nada mais.

Na repartição, o Agente não precisava se explicar muito. Os problemas maiores eram os comunistas, mesmo com a URSS tida como aliada. E daí? Dizia o Delegado Mesquita. O problema era interno, a revolução. A Rússia ficava muito longe e, dificilmente, invadiria o Brasil. Ela já teria problemas demais quando começasse a reconstrução.  Mas seus adeptos internos tentavam sempre perturbar a cidade.

O medo, pois, era com a ordem interna. Por isso, também, o Agente Brito não precisava exagerar com os italianos, já considerados como  futuros aliados para depois da guerra. Além disso, eles não estavam fazendo nada mesmo lá pela Europa, deixando tudo para os alemães, com os quais Mesquita concordava quase inteiramente. Só não gostava de tanta propaganda, mas tinha que ceder às pressões dos americanos que estavam em todos os lugares. Tudo deve se fazer em silêncio. Pra que mostrar demais as coisas?

Assim, o Agente Brito podia, sem perigo de traição, continuar amigo dos Salviani e construir o novo templo sem nenhum drama de consciência. No entanto, seus precários relatórios mensais sobre sua pequena tarefa não lhe davam notoriedade na repartição e, por isso, há anos que não era promovido. Sentia-se apodrecer, emperrar no mesmo cargo de Agente Extra-numerário, fora do quadro, com o menor salário entre os colegas.

Mas não podia dizer nada dos italianos. O marceneiro parecia honesto, preocupado apenas com o trabalho, em fazer filhos e com a Igreja. De noite, por causa do calor, gostava de ficar  na calçada, de tamancos e sem camisa, se balançando numa cadeira gerdau bem antiga que ele próprio reformara. Afinal de contas, que perigo havia nisso?

A mulher de Mestre Luca era mais pacata ainda. Brasileira, filha de uma descendente de escravos, que se casara com um português, este desaparecido, segundo diziam. Dona Lice, além de enfermeira prática, era professora de Bíblia na Escola Dominical. Um casal piedoso, perfeito demais para qualquer delação maior. Os filhos eram muito pequenos. Silenciosos, respeitavam todo mundo, freqüentavam assiduamente a Igreja e nada poderia haver contra eles. Todos estudavam e eram muito queridos da vizinhança.

Que fazer, então, senão amargar um baixo salário? A amizade com os Salviani era sincera e doeria muito ao Agente Brito fazer qualquer relatório que implicasse os amigos em alguma confusão. Além disso, havia um fato a mais que dificultaria muito sua tarefa, se um dia quisesse ser desonesto. Um dos irmãos de Dona Lice era voluntário e se preparava para combater na Itália e a família, certamente, teria algum crédito junto às autoridades.

Melhor cuidar da organização da Igreja, agora que, com a chegada do novo pastor, não precisava mais se esforçar tanto na preparação dos sermões domingueiros. Apenas se encarregava, uma vez por mês, do pão e do suco de uva para a Ceia do Senhor. Tarefa pequena, desde que, junto com a posse do pastor, cinco novos diáconos foram consagrados. Mas ele ainda era o decano e dirigia todo o ritual.

O problema começou quando Dona Mocinha, que não conseguia engravidar, sentindo-se muito sozinha em casa, inventou de montar um ateliê de costura. O Agente Brito ganhava pouco como extra-numerário e não via como comprar os apetrechos, especialmente a máquina de costura Singer, a única que as lojas vendiam. Seu magro salário só dava para comprar as revistas de moldes prá mulher que, de repente, para seu espanto, começava a se tornar ambiciosa demais. Pior ainda. Começava a implicar com os italianos e a fazer uma certa oposição às normas moralizadoras que eles próprios ajudaram a criar quando fundaram a Segunda Igreja.

— Afinal de contas — dizia Dona Mocinha — o pastor da Primeira Igreja não era tão ruim assim. Por que as moças da Segunda Igreja não podiam se pintar, se a moda era essa em toda parte?

Detestava se vestir até os tornozelos, quando a própria missionária da Igreja vinha aos cultos com sapato alto e saia até o meio das pernas. Seu Moreira tomava conselhos com o Mestre Luca, que lhe pedia paciência. Isso passaria logo. Era por causa da máquina de costura que Dona Mocinha estava implicando com todo mundo. Por que ele não tomava um empréstimo e acabava logo com o problema?

Foi nessa época que Seu Moreira começou a ficar mais calado e tristonho, espaçando mais as visitas aos italianos. Sua mulher o desafiava e, muitas vezes, chegando da repartição, não a encontrava em casa. Seu humor começou a se alterar e até mesmo deixou de servir a Ceia do Senhor, pedindo dispensa ao pastor, alegando cansaço nas pernas. Sua obsessão era conseguir um extra no salário para poder comprar uma máquina de costura e, assim, fazer retornar a paz doméstica.

Se ao menos tivessem filhos! Talvez Dona Mocinha se aquietasse e não reclamasse tanto. Os preços da bodega da esquina estavam pela hora da morte. Vendia fiado, mas  cobrava no fim do mês uma conta enorme. Seu Moreira, desleixado, não anotava o que comprava. Sentia-se roubado por Seu Euclides, dono do único comércio da rua, embora nada pudesse provar. Ficava tudo anotado na caderneta da venda e Dona Mocinha, só para implicar, confirmava as despesas. Na verdade, comprava de tudo, fora os mantimentos, enchendo a casa com carretéis de linha, panos de cor, óleo Singer para a máquina inexistente, botões, agulhas e toda uma parafernália de costureira.

O pastor pedira ao Mestre Salviani para visitarem, juntos, Seu Moreira. Não que duvidasse de sua fé. Mas achava que eles poderiam animar o irmão, promovendo um culto na casa dele, mais como homenagem ao diácono e como manifestação pública na rua onde começara a própria história da Segunda Igreja. Mesmo honrado com o culto em sua casa, pouco mudou o mal estar entre o casal. Seu Moreira continuava macambúzio e Dona Mocinha pouco cooperativa.

A guerra não terminava e os aliados ainda não conseguiam vitórias decisivas. Tudo isso se refletia na repartição. O Delegado Mesquita, mesmo sem nada para fazer, prendia um ou dois comunistas notórios, para logo em seguida soltá-los. Se não agisse deste modo, nada teria que fazer na semana seguinte. O tédio era total no seu departamento, mesmo que a preocupação com os superiores aumentasse. Pediam-lhe mais ação numa cidade, considerada como vermelha, que, no entanto, ignorava a guerra.

Comunistas por todos os lados, segundo as autoridades do Rio. Dois ou três por semana, sempre havia, ponderava o Delegado local. Mas, e a célebre quinta coluna, tão falada pelos jornais do Rio, que não aparecia no Recife?

Um dia, para seu próprio espanto, o Agente Brito foi chamado ao gabinete do Delegado. Acabara de entregar um relatório, falando da briga entre um italiano da Torre e os sapos que invadiam o seu quintal. O relatório, em si, era uma besteira. Dr. Mesquita não sabia se Brito estava a favor dos sapos ou do italiano. E, afinal de contas, quem era esse tal italiano? E os tais sapos? Seria ou não seria um treinamento militar subversivo e escondido da Polícia? Não que valesse a pena investigar a fundo os frouxos peninsulares. Se fossem, pelo menos, alemães, sua repartição seria um pouco mais prestigiada pelo Chefão, lá no Rio. Mas, italianos! Nem mesmo italianos de verdade. Apenas meio italianos, como, aliás, deveriam ser todos eles.

— Agente Brito, pode se sentar.

Diante do Doutor Mesquita, Seu Moreira se perdia em mesuras, sem saber o que dizer. Achava que ia levar o maior esporro da vida por causa do seu último relatório. Como sempre, não tinha nada a relatar dos seus vigiados da Torre. A única coisa que achava estranha era a briga com os sapos mas isso, coitados dos sapos, era um problema que não tinha nada a ver com a guerra. Na última vez que fora chamado, não pensara em nada, exceto, talvez, nalguma promoção pela sua assiduidade ao trabalho. Quem sabe entraria no quadro de funcionários, ganharia um pouco mais e, assim, poderia comprar a máquina pra Dona Mocinha? Mas fora apenas para não faltar no dia seguinte por causa da inspeção de um figurão do Rio.

— Ezequiel, você já tem dez anos de serviço e, até agora, sem nenhuma falta anotada — começou Dr. Mesquita, citando o nome de batismo do seu funcionário para dar um clima mais íntimo à conversa.

Na verdade, Mesquita achava Seu Moreira uma besta quadrada, burro, semi-analfabeto, embora bom discursador. Só entrara na repartição por causa do pedido do Prefeito de Sanharó, amigo dos de lá de cima. Num comício, em Casa Amarela, com a presença do Interventor do Estado, Ezequiel se saíra muito bem, apesar dos erros de português. Fora escolhido para discursar de propósito, aliás. Mesquita queria mostrar ao Chefão que seus funcionários eram homens do povo, patriotas, fiéis ao Dr. Getúlio e ao Estado Novo. Só não gostava da amizade de Ezequiel com os crentes. Ele próprio era Oficial da Irmandade do Carmo e se orgulhava muito de ser amigo do Arcebispo de Olinda e Recife.

De comunista, o Agente Brito não entendia nada. Além disso, não queria mandá-lo fazer nenhum serviço extra nas celas da repartição. Aliás, ele próprio não sabia de nada. Dizia apenas ao Chaves e a Diocleciano que, dali a dois dias, queria os presos em forma para soltá-los. Se havia alguma coisa, lá embaixo, não era culpa sua. Tampouco, ninguém se queixaria. Isso fazia parte da rotina e os subversivos já estavam acostumados.

Somente em 35, tivera que sujar as mãos por insistência do Interventor, que ficara assustado com a Intentona. Porém, de trinta presos, o mais que fizera fora dar uma surra de cipó num estudante de Direito mais afoito e arrancar uma ou duas unhas de um carvoeiro sujo e fedorento.

O resto ficava com os subordinados. Sua jurisdição continuava na mais perfeita ordem. Até mesmo a greve dos bondes só durara um dia, sem que a polícia precisasse intervir. A própria população se encarregara de acabar com a greve, depredando um ou dois bondes e quase linchando um motorneiro. O Agente Chaves foi suspenso porque se deixara fotografar jogando pedra num bonde.

Mas, agora, era seu cargo que estava em jogo. O Dr. Felinto, lá do Catete, exigia maior vigilância para proteger os americanos, que  estavam construindo uma base em Natal e um campo de prisioneiros em Aldeia. O diabo é que não havia nada a fazer.

Mandara, preventivamente, empastelar um jornal operário, confiscara uns panfletos, chamara o Diretor da Faculdade de Direito ao seu gabinete, ameaçando cercar a Praça Adolfo Cirne e ficara por aí. Duas ou três bombas explodiram nas vizinhanças dos sindicatos dos arrumadores e dos gráficos, o  que a polícia atribuiu, como sempre, aos anarquistas. Os conhecidos foram presos, levaram uma surra e foram soltos. Vicente Batata, seu especialista em bombas, fora mandado em missão no interior e a calma voltara à cidade.

O desespero de Mesquita começava a contagiar os subordinados. Merda de cidade que só pensava em brincar carnaval, acender fogueiras durante o São João e fazer procissões! Ninguém queria derrubar o governo! Ninguém se lembrava mais do passado meio rebelde da cidade!

No início da guerra, mandara fazer algumas ameaças a descendentes de alemães e italianos. Algumas vidraças quebradas, dois ou três empurrões. Uma prostituta que falava engrolado, parecendo de origem alemã_, fora presa, passara uma semana no porão divertindo seus agentes e pronto, missão cumprida. Quase todos os estrangeiros eram casados com brasileiras e tinham filhos nascidos aqui mesmo no Recife. Eram bons cidadãos para todos os efeitos.

Mas aquela história dos sapos da Torre era por demais estranha, mesmo relatada pelo mais idiota dos seus subordinados.

Uma semana antes de chamar Brito ao seu gabinete, botara seu chapéu Ramenzoni, vestira seu terno de linho irlandês, feito de um corte apreendido de um contrabandista, que lhe prometera outros de seda em troca do flagrante, e fora pegar o bonde 156 que passava na Torre.

Doutor Mesquita morava nos Aflitos, bairro de gente rica, mas conhecia bem a Torre, pois assistia às partidas de futebol no Esquadrão, logo depois de sair da missa com Dona Leó, sua esposa. Era lá onde, nas manhãs de domingo, conversava com os militares e sabia tudo o que se passava na guerra. Não entendia bem essa danada de guerra. Usava com muito gosto os produtos alemães, muito melhores do que os americanos. Sua navalha Sölingen, por exemplo, já durava mais de dez anos e continuava tão afiada quanto antes.

Perto da Sorveteria da Torre, na rua Conde de Irajá, tocou o sinal de parada. Errara em ter vindo com terno de linho. Caía uma chuva muito forte e a esquina com a rua José Bonifácio, ainda de barro, estava totalmente enlameada.

Sempre se enganava com as chuvas de verão do Recife. Do lado esquerdo do rio, onde morava, estava um sol bonito e forte. Na Torre, lado direito, começara a chover. Mas era o jeito. Precisava tirar a limpo aquela história dos sapos e não confiava na inteligência do agente extra-numerário. O assunto era sério demais. Não os sapos, nem o tal italiano, muito menos a tal igreja nova seita de que tanto o Agente Brito falava.

Queria saber se aquilo poderia se transformar num caso de polícia política. Assim, mataria dois coelhos com uma só cajadada: o Dr. Felinto não encheria mais o seu saco e, quem sabe, o Interventor o promoveria a Delegado Geral da Capital.

A rua Seu Euclides, segundo Barbosinha, o rapaz do fiteiro, onde Mesquita acabara de comprar um charuto, de má qualidade, por sinal, ficava logo adiante, a primeira à esquerda na direção da Madalena. Uns dez minutos a pé. Preferiu esperar na sorveteria que a chuva passasse.

Pediu um sorvete de mangaba, fruta de verão, que ele apreciava bastante. Um dia, traria Salustiana, sua amante de mais de dez anos, para tomar sorvete na Torre. Dona Leó jamais se atreveria a passear por aquelas bandas, com tantos terreiros e mucambos pregados na lama do rio, beirando a pista principal. Ao lado da sorveteria, o Cine Torre passava um filme de Clark Gable, o ator preferido de sua mulher. Anotou o fato para impedir que ela soubesse.

A chuva não demorou, voltando o céu a brilhar. Sentiu-se bem no seu terno de linho. Seu mocassim preto, italiano, resistiria à lama da rua. Na volta, antes de pegar o bonde, sentaria na cadeira de engraxate, defronte ao cinema. Aproveitaria o tempo para pensar no que pretendia investigar.

A rua Seu Euclides não passava de um monstrengo. Era um beco, largo e entortado, cheio de mucambos e de casas mal construídas, algumas de alvenaria. O cano de esgoto, que ia dar no rio, estava à mostra e um grande bueiro redondo servia de praça onde meninos sujos e desdentados brincavam de esconde-esconde. A carroça do lixo não devia ter passado por ali, há uns bons meses.

Em direção ao rio, as casas da esquerda eram melhores, todas muradas, embora algumas dessem porta e janelas para a rua. À direita, a coisa mudava. Não passava de um amontoado de mucambos, com uma ou duas casas de taipa, a maioria coberta de palhas de coqueiro. Mas, o Delegado notara uma coisa interessante. O lado direito parecia não ter fim por detrás das casas, contíguas à Campina da Torre, onde, ainda jovem, jogara como center-half do Torre Esporte Club, senão o primeiro, pelo menos um dos primeiros times de futebol do Recife.

Era quase meio dia, sol a pino. Bateu no número 62, pintado na parede de taipa. Sabia que o vizinho do lado esquerdo era o Agente Brito mas tomara o cuidado de prendê-lo na repartição, num plantão improvisado. Havia ameaça de greve dos comerciários e todos os agentes deviam manter contato, de hora em hora, com a Delegacia. Ele próprio não precisava. Sabia que a greve ia abortar, segundo lhe comunicara o Agente Marinaldo, infiltrado no sindicato.

Dona Lice apareceu na janela e deu Bom Dia!, acrescentando Paz no Senhor. Mesquita resmungou de volta na mesma moeda, embora desconfiasse que a paz estava longe de chegar. Perguntou pelo Mestre marceneiro. Precisava fazer uns móveis numa casa comprada ali perto, logo depois da Rua José Bonifácio, num trecho onde se construíam casas modernas de estilo neoclássico. Tinha dado nos jornais. Segundo Brito, os Salviani eram letrados e, além da Bíblia, todos os domingos liam o Jornal do Commercio.

— Não está! — Respondeu a dona da casa, empurrada por uma porção de cabeças de meninos.
— Ele almoça na Escola — continuou — e só chega de noite.

Por essa o Dr. Mesquita não esperava. O bosta do Brito não dissera nada nos relatórios e esse negócio de almoçar fora de casa e só voltar à noite era mais do que suspeito.

— E onde fica essa Escola, Dona? Preciso falar com o Mestre com urgência.
— Uai, todo mundo sabe! Ali, na Encruzilhada, num colégio novo que o Governo construiu.

Apesar de saber do que se tratava, Mesquita anotou o fato para esculhambar com Brito. Afinal de contas, o italiano era marceneiro, mas não dava pra saber que havia sido contratado como Mestre de Marcenaria numa escola oficial, recém inaugurada, para acolher parte dos meninos pobres da cidade.

Fora, aliás, convidado pelo Secretário de Estado para a inauguração. Bonito demais, a seu ver. Mas, dentro da política do Governo, planejava-se treinar mão-de-obra especializada. Começava a ficar difícil encontrar bons marceneiros, carpinteiros, mecânicos, serralheiros e pintores de anúncios. Para Dr. Mesquita, aquela gente precisava era aprender a ter menos filhos e, não, de colégio novo.

— Mas Dona, que pena! Volto outro dia. Venha cá! Por que tem tanto sapo nesta rua? Tentava desconversar o Delegado para obter, pelo menos, alguma informação.
— Ouvi até dizer que o Mestre se dá muito bem com eles! Acrescentou, enquanto apontava para o oitão da casa.
— Sapos? É! Tem muito sapo na Campina. — Respondeu a mulher, fazendo a maior cara de espanto que Mesquita já vira na Delegacia ou fora dela.
— Mas a gente não come não — continuou. — Só as jias da cacimba quando chove no inverno. Mas, nesse ano, não apareceu nenhuma não. Choveu pouco.

Dr. Mesquita quase ria com a resposta de Dona Lice. No entanto, era insistente. Se não encontrara o Mestre em casa, pelo menos gostaria de dar uma olhadinha no quintal onde, segundo Brito, se travava a guerrilha com os sapos. Que diabo eram esses sapos que Brito tanto valorizava a ponto de colocar no seu relatório mensal?

Mesquita sempre se gabara de ter faro de perdigueiro. Os dois vizinhos eram amigos e crentes da mesma Igreja. Brito devia assistir a qualquer coisa estranha e perigosa, mas não queria delatar o italiano, inventando esse negócio de briga com os sapos da campina.

Resolveu arriscar. Além de querer contratar o marceneiro, disse à dona da casa que era também fiscal da Prefeitura e precisava olhar o terreiro no quintal que, segundo constava, era uma puxada ilegal, não autorizada. Dona Lice começou a se apavorar, pensando logo em alguma intriga de Seu Euclides. Felizmente, já haviam derrubado o terreiro por causa da construção da nova Igreja.

— Pois não, Doutor, qual é a sua graça? A casa está às ordens.

Mesquita não se deu ao trabalho de responder. Preferia não ter que inventar outro nome e foi entrando pelo oitão até chegar no quintal. Precisava cubar o ambiente, desde que os tais combates descritos por Brito se davam de manhã cedo. Queria saber quais as posições estratégicas mais favoráveis para plantar uns dois ou três agentes, qualquer dia desses.

O quintal se limitava com os vizinhos por duas cercas laterais de palha. Nos fundos, a cerca era de ripas, com um portão improvisado que dava para um matagal, começo da Campina da Torre. Dali, pelo menos, a visão era boa. Duas ou três mangueiras, seguramente uma goiabeira, um abacateiro, uma pequena roça de legumes, um pé de pimenta, um galinheiro bem estreito aproveitando uma das paredes da cozinha, uma cacimba e um banheiro mais distante quase contíguo à cerca dos fundos. Olhou para dentro da casinha mal construída que servia de banheiro, onde havia um tonel cheio d’água, um vaso sanitário sujo e um pequeno espaço ao lado, provavelmente para se tomar banho. Sem janela, muito escuro, mesmo ao sol do meio dia. Do lado de fora, a uns dois ou três metros, ficava a fossa mal cheirosa de onde saíam algumas baratas. E era só!

Dr. Mesquita calculou a altura das mangueiras e a distância do matagal que beirava a Campina. Achou que, com um certo cuidado, três homens poderiam se esconder; um, numa das mangueiras bastante copada, os outros, agachados no mato e levando máquinas fotográficas para documentar a briga. Queria tudo bem testemunhado, documentado e fotografado para o pessoal do Rio não colocar em dúvida sua eficiência.

Deu-se por satisfeito e falou para Dona Lice que não se preocupasse porque a denúncia tinha sido falsa. Estava tudo em ordem com a fiscalização. Aceitou um copo d’água e se despediu com amabilidade, prometendo voltar depois para falar com o Mestre Luca sobre a encomenda dos móveis.

Mesquita estava decepcionado com a visita. Tudo devia ser invenção de Brito. Afora os sapos, naturalmente! De fato, a Campina era um verdadeiro paraíso de tudo quanto era sapo, lagartixa, rato, muriçoca, vaga-lume, cobra e muito bandido que se escondia por lá. Lembrava-se muito bem de quando jogava pelo Torre. Antes de começar o jogo, tanto o time da casa quanto os visitantes tinham, primeiro, que afugentar os bichos. Havia de tudo, inclusive urubu à procura de carniça.

No entanto, uma coisa era certa. O enorme terreno da Campina, contando com o matagal, ia até à beira do rio e havia lugar bastante para qualquer tipo de treinamento militar ou, até mesmo, para esconder armamento. O diabo era acreditar que um italiano fodido da vida pudesse fazer alguma coisa importante contra a segurança nacional. Teria que dar um jeito para enganar o Dr. Felinto!

Mas, como é que um italiano podia ser crente se lhe diziam que na terra do Papa não podia haver protestantes? Isso já era um ponto a favor do seu plano. Nova seita, em Roma, ou era preso ou morria de fome, como acreditava o Delegado. E a tal briga com os sapos? Eram mesmo sapos?

Ouvira dizer que, no norte da Itália, os feiticeiros saíam voando de manhãzinha pelos campos para matar as colheitas. Talvez o caso se tratasse mais de feitiçaria, em que muita gente acreditava, do que mesmo algum ato subversivo. Mas diziam também que os feiticeiros eram tidos como subversivos e queimados na fogueira. Por que, forçando um pouco a barra, a coisa não poderia se repetir ali na Torre?

Aliás, as informações de Brito batiam com aquela hipótese. Dona Biu, a sogra do marceneiro, filha de ex-escrava, devia lá ter suas crendices herdadas dos africanos e os sapos, segundo falavam, eram ingredientes necessários a certos rituais. O Mestre Luca, filho de camponês italiano, devia também ter seus mistérios. Juntando tudo, o que estava ali escondido poderia não passar de inocentes atos de magia, como nos terreiros locais ou nos de Beberibe, onde a concentração de descendentes de escravos era maior. A polícia sabia de tudo isso, mas a ordem era tolerar. Melhor tocar tambor do que aprender a atirar com revólver de verdade. Nesse caso, o protestantismo de Mestre Luca não passaria de um bom disfarce.

Mas, se ele era capaz de fingir com tanta perfeição, fundar uma nova Igreja, ser amigo de missionários americanos, enganar o Agente Brito, embora isso não fosse tão difícil assim, tornar-se professor do Estado, etc. etc., bem que podia ser um elemento perigoso. Na dúvida, Mesquita achou que a investigação devia ir até o fim. Seu plano podia ser até melhor do que pensara. Pegar de verdade um quinta coluna com a mão na massa, em vez de mera simulação para enganar o Chefão do Rio.

— Muito bem, Ezequiel! Gostei do seu último relatório. — Continuou a conversa com o subordinado no seu gabinete. — Descreva aí tudo que viu no quintal do italiano porque sua letra é uma verdadeira desgraça. Nem os americanos poderiam decifrar tudo que você escreveu.

O Agente Brito sentiu o sangue gelar. Pensara que seu relatório iria direto para o arquivo sem ninguém ler. Fechou os olhos e começou a orar baixinho, pedindo a ajuda divina. O negócio dos sapos não sabia se existia ou não. Fora um dos filhos do amigo marceneiro que lhe contara a mania que o pai tinha de matar os sapos do seu quintal. Ele mesmo acordava mais tarde e, quando saía para a repartição, o Mestre Luca já tinha ido para o trabalho. E que história de sapo podia inventar para um homem tão inteligente e poderoso como o Delegado Mesquita? Lembrou-se de seus votos de diácono da Igreja, de sua fé em Cristo. Não podia mentir, mas também não podia perder o emprego. Nem mesmo uma suspensão podia arriscar. Dona Mocinha era capaz de ir embora de vez.

— Ainda não ouvi nada, Agente Brito! — Falou alto e mais seco o Delegado. — Ou a briga existe ou não existe. Ou o italiano é perigoso ou você é um idiota. Se o homem é subversivo, a gente tem que investigar e, talvez, prendê-lo. Se você é um idiota, mando fazer exame na Tamarineira e você fica internado por lá uns dois ou três meses.

— Dr. Mesquita! Os sapos existem, o Mestre Luca existe, o filho dele existe. Deus existe. Foi Ele que fez todo mundo existir. Não sei por que meu amigo mata os sapos mas, se o senhor quiser, peço a ele pra deixar de fazer isso.

— Que história é essa de todo mundo existir assim e que mania é essa de falar em Deus a toda hora? E que diabo de filho do marceneiro é esse que não está no relatório? Quero saber por que e como o italiano mata os tais sapos e que sapos são esses. Tá tudo escrito no seu relatório, Ezequiel. Disso, você não pode fugir.

— Eu sei, Dr. Mesquita! Mas não fui eu que inventei essa história. Foi o filho do irmão Luca. Ele só tem oito anos. Eu estava perguntando por que o irmão acordava tão cedo e ele me disse que era para matar os sapos. Somente isso. Não posso jurar porque é pecado. Crente não jura porque Jesus Cristo proibiu. Mas posso garantir de verdade que o menino me contou isso.

— É assim mesmo! O Brasil em guerra, os comunistas querendo derrubar o governo, os americanos enchendo o saco, o Dr. Felinto exigindo que eu prenda todo mundo e você aí, como um palerma, contando história de um menino de oito anos. E isso tá certo, Seu Ezequiel? Depois, sou eu que vai ser demitido e não o senhor. Imagine só, eu escrevendo para o Rio dizendo que tem uns sapos que estão invadindo o Brasil e o agente encarregado do caso não fez nada.

— Mas, Doutor, os sapos só estão invadindo o quintal do irmão Luca. Acho que é por isso que ele vive matando os bichos.

— E o quintal desse italiano, onde fica, Seu Ezequiel?

— Na Torre, Doutor!

— Sua besta, isso eu já sei! Fui lá e falei com a mulher do italiano. E onde fica a Torre, Seu Ezequiel? Pois já estou perdendo a paciência com o Senhor.

— Uai, Dr. Mesquita! O Sr. está querendo brincar comigo? A Torre fica logo depois daquela ponte de madeira que a cheia derrubou. Mas já construíram outra e os bondes já podem passar. Eu mesmo atravessava de barco, mas agora, graças ao Interventor que mandou construir outra ponte, já posso vir de bicicleta para o trabalho.

O Agente Brito não sabia mais o que dizer. Começou a falar como fazia nos sermões antes de contratarem o novo pastor. Dizia o que chegava na boca, intercalando, de vez em quando, um versículo da Bíblia que sabia de cor.

— Responda direito! — Interrompeu de novo o Delegado, agora menos irritado e se divertindo um pouco com o embaraço do Agente.

— A ponte nova — continuou — todo mundo sabe. Deu no Jornal e eu estava lá na inauguração. Agora, o senhor andar de bicicleta é outro caso. E se precisar de perseguir algum bandido, como é que vai fazer? Mas, me responda primeiro. Sei que o senhor não tem nem sequer o curso primário. Veio de Sanharó num caminhão e nem sabia o nome da capital de nosso Estado. Tudo bem! Mas diga se a Torre fica ou não fica no Brasil?

— Bom, Dr. Mesquita! Me disseram que o Brasil era prás bandas do sul. Mas, se o senhor quiser me ensinar, eu aprendo. Lá mesmo na Escola Dominical, o missionário falou que eles queriam o Brasil para Cristo. E todo domingo eu digo na Igreja que precisamos conquistar o Brasil…

— Onde fica a Torre, onde fica o Brasil? — Começou a gritar o Delegado, novamente irritado com Ezequiel.

— Acho, Doutor, que o Brasil fica na Torre. — Arriscou timidamente o Agente Brito, já totalmente transtornado com o comportamento agressivo do Delegado.

— Está bem! — Disse Dr. Mesquita, mais calmo. — Se o Brasil fica na Torre e se os sapos estão invadindo a Torre, o senhor não acha que eles estão também invadindo o Brasil? E quem invade o Brasil não é inimigo do Brasil? E nosso trabalho não é prender todo mundo que invade o Brasil?

— Já entendi, Doutor!

O Agente Brito ficou mais sossegado. Afinal de contas, o irmão Luca estava prestando um serviço à pátria, matando os inimigos que estavam invadindo o seu quintal que ficava na Torre, que ficava no Brasil. Ou era o contrário? O Brasil que ficava na Torre que ficava no quintal do seu vizinho? De qualquer forma, matar era muito melhor. Se fosse prender, onde ia caber tanto sapo, como dizia Daniel, o filho do italiano?

— Agente Brito! Chamei o senhor aqui porque vou mandá-lo para uma missão especial na sua terra. Você vai a Sanharó. Fica lá uma semana e me traz os nomes de todos os estrangeiros de lá. Passe na tesouraria pra pegar a passagem e as diárias. Se não souber escrever os nomes direito, peça ajuda ao Prefeito. Pode ir agora.

Era melhor assim, pensou Dr. Mesquita. Botar aquele idiota bem longe da Torre pra não estragar a investigação. Mandou passar um telegrama para o Prefeito de Sanharó, pedindo que ele ajudasse Brito numa missão secreta, não deixando que ele voltasse antes de quinze dias.

Mais tarde, chamou Vicente, o dinamiteiro do departamento, Marinaldo, que sabia tirar fotografia, e Gonçalves, que era bem magrinho, para poder subir na mangueira do quintal do italiano. Marcaram o encontro para as quatro da manhã, perto da sede do Torre Futebol Club. Atravessariam a Campina, ainda no escuro. Gonçalves pularia a cerca de ripa do quintal e subiria na mangueira copada. Os outros dois ficariam escondidos no matagal. Ele, defronte do clube, esperando o resultado dentro do carro do departamento que só era usado em missões especiais.

Meia noite, começou a chover. Tempestade com trovão e raio. Mesquita pensou que devia cancelar a diligência no quintal do italiano, mas os agentes já tinham ido para casa. Dos que ficaram, sem contar com o carcereiro, um era o plantonista e o outro, por ordem expressa do Secretário, fora prá zona vigiar uns marinheiros espanhóis de um navio que atracara no porto à tarde. O jeito era rezar pra que a chuva passasse.

Às quatro da manhã, ainda chovia. Na Rua José Bonifácio, defronte do Torre, estacionou o carro junto de uma poça de lama. Os três auxiliares já estavam a postos, tiritando de frio. Explicou tudo direitinho  e começou a ler um gibi. Se tivesse mandado os caras embora, pensou, podia ser interpretado como frouxo. Guerra é guerra, a chuva que se dane. Como dizia o Major Ferreira, seu amigo do Esquadrão, o soldado é superior ao tempo. Por que não, também, seus agentes?

Duas horas depois, os três homens estavam de volta. Ensopados! Gonçalves vinha carregado pelos outros. Escorregara da mangueira, quebrando uma perna. O dinamiteiro havia levado uma mordida de cobra no matagal e sangrava no tornozelo. Marinaldo, quase chorando, dissera que as fotografias não prestavam porque tinha entrado chuva na máquina. Um desastre completo! Só podia ser coisa da contra-espionagem! Ainda mais, teve que sujar o carro para levar os dois feridos ao Pronto Socorro. A perna quebrada de Gonçalves ainda podia esperar, mas a mordida em Vicente podia ser de  cobra coral.

No caminho, Marinaldo, o único que podia falar, contou que não vira nada por causa do aguaceiro. Lá pelas cinco horas, percebera uma sombra sair da casa e entrar no banheiro. Depois, o homem jogou qualquer coisa para o alto e, rapidamente, sumiu de vez. Foi só!

No seu Gabinete, Mesquita mandou trazer uma média e um sanduíche. Já era o terceiro daquele dia que nem bem começara. Se continuasse a comer daquele jeito, terminaria gordo e balofo como Brito, que já devia estar em Sanharó. Com a mulher dentro de casa, tudo bem! Mas Salustiana não gostava de sua barriga que começava a crescer. Dizia que, com tanta gordura, era difícil achar o pinto de Mesquita, que ia terminar desaparecendo. Não queria ficar sem Salustiana somente porque comia mal na repartição. Fez um sinal da cruz e amaldiçoou os nova seita da Torre. Falaria sobre o assunto com o Arcebispo. Precisavam fazer alguma coisa com esses hereges, logo agora que o Congresso Eucarístico ia ser no Recife.

Lembrou-se de que, no mês anterior, tinha havido um incidente na Torre. Mas, onde? Chamou o arquivista e perguntou. No mês passado, interrogara uma tal de Dona Elvira, diretora do Grupo Escolar do Alto da Torre, porque ela defendia um professor. A ficha dizia que o tal professorzinho estava ensinando que os aliados só iam ganhar a guerra por que a Rússia estava resistindo aos alemães. Quase esquecera! O Interventor demitira o mentiroso, mas a Diretora do Grupo Escolar era afilhada do Secretário e levou apenas um esporro.

Precisava interrogar o filho do italiano, que contara a história dos sapos da Campina ao Agente Brito, e estudava no Grupo Escolar de Dona Elvira. Achava que era por ali. Não se atrevia mais a fazer nenhuma diligência no quintal do homem. Sabia que fora derrotado pela chuva, pela mangueira e pela cobra. E pela imbecilidade dos auxiliares! Quando jovem, jamais caíra de um pé de árvore e, logo agora, numa diligência oficial, a besta do Gonçalves não se segurara.

Marcou com Dona Elvira, mais dócil depois do carão do Secretário, pra chamar o menino durante o recreio para não dar na vista. O menino era magrinho, calado e com uns olhos brilhantes que pareciam rir de todo mundo. Dona Elvira classificava-o como o melhor aluno do Grupo. Não brigava com ninguém. Só falava quando lhe faziam alguma pergunta.

Aí, então, era o dilúvio! Parecia que todo o silêncio do menino era como um açude. Bastava uma pergunta e o açude começava a sangrar por todos os lados. Ele abria o verbo, citando todo mundo, respondendo certo e errado, com uma obsessão pelo Tesouro da Juventude. Sabia o Novo Testamento e o Guarani de cor e salteado. A professora da segunda série tinha muito cuidado com Daniel. Às vezes, precisava tapar a boca do menino com a mão e até com esparadrapo. Só lhe perguntava quando ninguém da classe sabia responder. Mas ele tirava dez em tudo, inclusive em comportamento.

Mesquita achou que não poderia ser melhor. Era só fazer as perguntas certas para botar o menino pra falar. Aliás, com menino e comunista, ele sabia lidar. Bombons e porrada e tudo dava certo. Às vezes, invertia a coisa dentro de casa. A palmatória funcionava toda a semana e, da meia dúzia de filhos, apenas o mais novo ainda não havia experimentado. Afinal de contas, acabara de chegar da maternidade!

Daniel não se mostrava nada intimidado na sala da Diretora. Ela própria, solteirona já passada, gostava de vez em quando de botá-lo no colo. Menino de ouro! O único defeito era ser nova seita, mas adorava os cachinhos de Daniel e o Mestre Luca consertara de graça os móveis da escola. Apresentou Dr. Mesquita como um professor de bichinhos, tipo sapo e lagartixa. Queria ouvir as histórias de sapos que Daniel contava no recreio.

— Oi, Daniel! Tava brincando no recreio? — Começou, sem jeito, Mesquita.

— Não! Estava lendo a história de Daniel na cova dos leões. Aí, o rei sonhou que…

— Tá bem! — Interrompeu Mesquita, lembrando-se do vício falador do menino. — Já sei de tudo isso. Daniel ia ser assado como um pãozinho, mas Deus o libertou. Foi ou não foi?

— Acho que não! — Recomeçou o menino, logo interrompido por outra pergunta de Mesquita. Tinha que ter cuidado com as perguntas. O menino era uma verdadeira matraca.

— Mas eu quero é ouvir as histórias dos sapos!

— Qual delas? Tem muito sapo por aí que nem é sapo. Minha Vó, o Senhor conhece?, Dona Biu, enfermeira de Seu Euclides, sabe tudo que é sapo e diz que o pessoal da rua vive mentindo, matando cururu que não é cururu, papo amarelo que é marrom, girino que é peixinho, somente por que não quer estudar. Foi ela quem me deu um livro onde só tem sapo. O Senhor tem outro bombom? Eu gosto daquele que tem mel de uva por dentro.

Dr. Mesquita percebeu, de imediato, que a entrevista ia ser longa e pediu a Dona Elvira que dispensasse Daniel das outras aulas por que não tinha tempo de voltar noutro dia. Deu um confeito de morango ao menino. Os de uva eram para Salustiana, que morava no Cordeiro, logo depois do Alto da Torre. O sol estava bonito e queria aproveitar melhor o resto do dia.

Enquanto o menino desembrulhava o confeito, Mesquita atacou de novo.

— Não sei nada dos sapos de sua Vó. Queria saber dos sapos da Campina.

— Mas o senhor não sabe que já não tem muito por lá? É por isso que minha Vó me ensinou a criar sapos. Todo domingo, quando vou chamar meu irmão Paulo para o almoço, eles matam tudo e não fica nenhum. Antes do jogo, é uma tristeza! Todo mundo matando sapo.

— Ainda matam os sapos da Campina? — Não se conteve Mesquita, relembrando seus tempos de jogador do Torre Futebol Club.

— É! Devia ser proibido. Ainda mais no tempo da cheia. Os meninos pegam os girinos para criar pensando que são peixinhos. Toda vez, eu digo a eles, mas não adianta. Depois, eles matam os sapinhos. É por isso que minha Vó, Dona Biu, enfermeira de Seu Euclides, o senhor conhece, não é?, me ensinou. Lá no meio do matagal, fiz uma poça enorme pra guardar meus sapos. O problema é que os cururus também querem ficar no buraco e aí eu fico com medo de mexer com eles. Num sei se o senhor sabe, mas tem dois sapos ruins. Um nem é sapo mesmo e se pegar direitinho a gente pode até comer. Vive na cacimba, mas só quando chove. Ontem mesmo, ela cantou a noite inteira, mas eu só vou ver mesmo hoje de noite porque durante o dia ela se esconde. Vovó Biu me disse que a jia pimenta era preta de boca vermelha e bastava apontar uma luz pra ela que a gente via a boca. Aí, é só pegar de jeito, porque, se deixar, ela dá uma mordida que num cura nunca mais.

— Mas eu quero saber é de sapo, Daniel. — Interrompeu de novo Dr. Mesquita.

— O senhor tem outro confeito? Esse de morango é meio azedo. Eu gosto do de laranja, também.

Mesquita não sabia como um comedor de confeito tão voraz podia ser tão magrinho. Só tinha de mel de uva. Salustiana que se contentasse com os de morango, pois.

— O senhor quer saber do cururu ou dos outros? O senhor sabe que sapo só vive sentado, né, mas o cururu, de vez em quando, se levanta e fica em pezinho, apoiando as mãos na lama. Mas isso eu nunca vi não. Quem me disse foi o irmão Aristeu, um ceguinho lá da Igreja. É por causa do mijo dele que é pra trás e é venenoso. Aristeu ficou cego porque um cururu mijou nele, num dia que foi pegar vaga-lume na Campina. Pensou que fosse um sapo comum e pum!, o bicho mijou no olho dele. Cegou na hora e ficou gritando até que foram buscar ele na Campina. Por isso é que minha Vó Biu, o senhor conhece?, me falou pra deixar o cururu em paz. Mas não tem jeito! Todo dia, de manhãzinha, tem cururu no meu viveiro.

— Mas e os sapos que seu pai vive matando, Daniel? — Perguntou Mesquita, já um pouco impaciente com tanta aula de sapo.

— Uai! E como é que o senhor sabe? Meu pai só mata um sapo por dia. De manhãzinha, eu acordo primeiro do que ele, vou no viveiro, pego um sapo mais velho, bem velhão, e boto no banheiro quando meu pai vai tomar banho. É por isso que ele mata sapo. É até bom! O sapo velho ia morrer mesmo de velhice e o buraco já está ficando pequeno. Mas meu pai não é culpado não! Ele pensa que os sapos invadem o banheiro, mas sou eu que faço o serviço todo. Só num gosto do jeito dele matar meus sapos! Mas se eu disser, ele é capaz de me bater com a palmatória. Um dia desses, até contei pro irmão Moreira, nosso vizinho, crente de lá da Igreja também, mas ele disse que não podia fazer nada porque acordava muito tarde e detestava sapo.

Dr. Mesquita, de repente, ficou mais alerta com a menção do nome do Agente Brito, aquele pilantra que ganhava do governo para escutar as crianças da rua.

— Pois é! — Continuou Daniel — Depois de botar o sapo no banheiro, eu voltava prá cama e fingia que estava dormindo. Uma vez, minha Vó Biu, enfermeira do Seu Euclides, morfético e tuberculoso, num sei se o senhor sabia, me disse que isso não tava direito, mas eu não podia fazer nada, senão meu pai me dava uns cascudos. Aí, ela me ensinou como os pais dela faziam pra matar sapos e ia ensinar ao meu pai. Depois, ela me deu um pedacinho de pau pra enterrar no meio do quintal, mandou amarrar uma linha no pau e fazer um círculo, como Dona Terezinha ensinou a gente aqui no Grupo. Num sei não pra que servia a roda no chão, mas minha Vó Biu disse que deixasse com ela porque as almas dos sapos tinham pedido. Só sei que, um dia, vi meu pai conversando com minha Vó sobre os sapos. Aí, foi que eu fiquei cismado! De manhã, depois do meu sapo entrar no banheiro, invés de voltar prá cama, subi na mangueira rosa, lá de casa, e esperei.

Devia ser a mesma da qual o desgraçado do Gonçalves escorregou. Pensou rapidamente Mesquita.

— Aí, — continuou Daniel — meu pai saiu de casa de cueca, com uma toalha no ombro. Entrou no banheiro e demorou tanto que pensei que meu sapo tinha fugido. Depois, meu pai saiu com o sapo na mão. Segurava o pobrezinho pelos quadris, aí eu tive uma pena danada, e deixou o bicho mijar primeiro. Acho que ele podia pensar que era um cururu! Num sei não! A gente mija de frente. As meninas eu nunca vi. Mas porque os sapos mijam pra trás? Uma vez, eu perguntei a Dona Terezinha e ela quase me botou de castigo.

— Aí… o senhor tem outro bombom? — Pediu Daniel, fazendo ligeira pausa.

— Então, — continuou — meu pai foi até o portão da cerca do quintal e correu até a roda do chão e jogou meu bichinho bem pro alto. Meu pobre sapão! Era o mais velho do viveiro e nem falou nada! Se esborrachou bem no meio da roda de cal branco. Foi o único dia que faltei à escola, num foi Dona Elvira?, a senhora se lembra? Minha mãe que dá injeção no Seu Euclides, aquele lazarento da esquina da rua, veio aqui dizer que eu estava doente. Mas eu fiquei foi chorando o dia inteiro e ainda tive que limpar o quintal todinho porque tinha sangue de todo lado. Eu gosto muito de meu pai mas, qualquer dia desses, eu vou botar um morcego no banheiro pra ele ver o que é bom matar sapo daquele jeito. O coitadinho nem sabia voar! Se fosse um morcego, ele levava era uma mordida! Depois, eu deixei de botar sapo no banheiro. Prefiro que a cobra coral que tem lá na Campina faça umas visitinhas no meu viveiro de vez em quando. Mas tem outro sapo de papo amarelo que gosta de cantar…

— Tá bom, Daniel! — Interrompeu Dr. Mesquita, horrorizado e encantado, ao mesmo tempo, com aquilo. Aquele menino podia não gostar de matar sapos, mas bem que sabia induzir os outros a fazê-lo. E aquele negócio de trocar sapo por morcego pra morder o pai? Quando crescesse, poderia dar um bom Delegado ou, pior, um perigoso comunista! De qualquer forma, precisava ficar de olho naqueles italianos.

Deu mais um confeito de uva a Daniel e se despediu de Dona Elvira, que ficara em verdadeiro transe com a história dos sapos.

Enfim, o mistério estava resolvido. O problema era outro. Se fossem morcegos em vez de sapos, poderia botar no relatório que o italiano mandava mensagens para os alemães através de pombos-correio. Pintados de piche, é verdade! Mas, quem é que ia saber?

Telefonou do Grupo para a repartição, avisando que chegaria tarde de uma diligência. Pegou o bonde da Várzea para ir se encontrar com Salustiana no Cordeiro. Desse jeito,  pensou com tristeza, jamais seria Delegado Geral da Capital.

DimasLins

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