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Täglichganzung

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Liza olhava-me fixamente. Havia pena nos seus olhos. Meneava a cabeça de um jeito meio impotente. Pousou o olhar na torradeira desmontada e perguntou:

_Você conseguirá montá-la, novamente?

Essa pergunta era a mesma coisa do que um bofete na minha cara, pois sabíamos qual era a resposta. Pra que perguntar, se já sabia o que seria dito?

_Não, não…

Era a terceira torradeira que desmontava em dois meses. Antes, fora a máquina de purificação de água. Ficara completamente hipnotizado pela sua forma, pela sua cor, pelo que significava. Não descansei até desmontá-la e, claro, quebrá-la. Houve até início de briga com Liza por causa de uma panificadora doméstica, comprada com muito zelo lá em Porto Alegre. Depois do terceiro pão, não agüentei e desmontei a máquina. Cheguei a montá-la novamente, mas cadê que conseguia fazer sequer um mísero pão francês?!

Sim, era duro viver comigo. Não tínhamos ar-condicionado, nem mesmo ventilador, quanto mais uma televisão. Eu não resistia e desmontava tudo, compulsivamente. Até os vários computadores foram vítimas da minha compulsão. Toda vez, avariava a carta-mãe. Trabalhei o tema na análise, pensando que era matricida em potencial. O psicanalista fez hum-hum e me pareceu que dizia que não tinha nada a ver. Aceitei sua posição. De fato, meu problema era outro e não tinha relação alguma com meu inconsciente ou com o complexo de Édipo.

Eu sou doente. Tenho uma doença muito esquisita. Por isso, entendia o desconforto de Liza, mais ainda de sua pena; afinal, sabia que eu sofria de Täglichganzung, doença descoberta pelo famoso médico J.B. Barnes, que significa “tropismo doentio por artefatos tecnológicos do cotidiano”. Barnes dissera, de forma enfática, que eu era o segundo caso registrado. O primeiro já morrera na década de 50 e era americano.

_Ele morreu?! Mas isso mata?

Barnes ficou calado. Depois, disse que o cabra levou choque quando tentava desmontar um secador de cabelos. Fiquei, claro, mais calmo, mas com pena do pobre coitado. Sentira empatia pelo desgraçado; afinal, sofrera do mal que me acometia. A dor gera comunhão, pensei, embora reconhecesse que sua morte fora ridícula. Morrer de forma patética é destino cruel. Com um secador de cabelos…

Eu tinha Täglichganzung desde pequeno. Lembro-me de minha fascinação por copos de vidro. Achava o vidro um verdadeiro mistério, invenção cabalística da humanidade. Mas os quebrava, toda vez que os colocava na boca. Por motivos misteriosos, segurava o copo com os dentes, talvez, para examiná-los de alguma forma. Na minha casa, assim, só havia copo de plástico. Nos restaurantes, para não repetir a vergonha de quebrar quatro copos consecutivos, o que levou, nesse dia, o garçom ao desespero, meus pais antecipavam-se e pediam logo copo de plástico para o coitado aqui.

Pensei muito no meu problema. Acho que tenho algum desequilíbrio no processamento mental das experiências do cotidiano. Acho que as controlo de forma estranha, daí meus problemas na formação da minha personalidade. Ficar seduzido por uma torradeira significa dificuldade de adaptação à multiplicidade de mudanças que ocorrem na minha vida cotidiana. Minha mãe, por exemplo, sofreu muito com isso. Ela simplesmente não me entendia. Meu pai, pelo menos, tentava contemporizar e, uma vez,  deu-me de presente um forno de microondas.  Confesso que tenho adoração por esse objeto absolutamente genial. Inclusive, do ponto de vista das relações de gênero, o microonda livrou-me da pressão feminina de me fazer crer que um homem só é sensível quando sabe cozinhar. Com essa máquina, abriu-se, diante de mim, o mundo infinito dos congelados. É a demonstração cabal  de que saber ou não cozinhar é questão tecnológica e não… ideológica!

Quebrei todos os microondas da minha vida, é claro, e confesso que foi divertido, embora a repetição de minha patologia sempre me deixasse um pouco cabisbaixo. Afinal, a veneração por artefatos tecnológicos do cotidiano diz muito da minha incapacidade de mudar meu entorno. Seria como se ficasse prisioneiro do dia-a-dia da vida. Não consigo escapar da compulsão de ficar refletindo, detalhadamente, sobre as minúcias do ambiente, principalmente dos objetos que surgem rotineiramente na minha frente.

Pois é…

Mas, por uma incrível coincidência, nesse exato momento, acabo de ler uma passagem do romance The Mezzanine, de Nicholson Baker, no livro de Anthony Giddens (aqui)  “Em defesa da sociologia”. Fiquei pasmo, pois estava diante de autêntico Täglichganzung! O texto refere-se à fôrma de gelo… Faz uma análise minuciosa de uma fôrma de gelo! Pessoa que escreve assim, que produz narrativa tão detalhada de um objeto tecnológico do cotidiano; ah, essa pessoa compreende perfeitamente o que acontece nas minhas entranhas. Ela sabe quem eu sou…

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Lá vai:

“a fôrma de fazer gelo merece uma nota histórica. No início eram fôrmas de alumínio com uma grade de lâminas ligadas a uma alavanca, como um freio de mão — uma solução ruim; a gente tinha que passar a grade sob a água morna para que o gelo conseguisse se desprender do metal. Recordo-me de vê-las sendo usadas, mas eu mesmo nunca as usei. Depois, de repente, eram “bandejas” de plástico e de borracha, realmente moldes, com vários formatos — alguns produzindo cubos bem pequenos, outros produzindo cubos grandes e cubos de diferentes formatos. havia sutilezas que  com o tempo a gente acabava compreendendo; por exemplo, as pequenas fendas entalhadas nas paredes internas que separavam uma célula da outra permitiam que o nível da água se igualasse: isto significa que poderíamos encher a bandeja passando as células rapidamente sob a torneira, como se estivéssemos tocando harmônica, ou poderíamos abri-la só um pouquinho, de forma que um filete de água silencioso caísse como uma linha da torneira e, segurando a bandeja em um determinado ângulo, permitindo que a água entrasse em uma única célula e daí fosse passando para as células vizinhas, uma a uma, pouco a pouco enchendo toda a bandeja. As fendas intercelulares também eram úteis depois que a bandeja estava congelada; quando a torcíamos para forçar os cubos, podíamos seletivamente puxar um cubo de cada vez, enfiando a unha sob a projeção congelada que havia se formado em uma fenda. Se não conseguíssemos pegar a beirada de um toco da fenda, porque a célula não havia se enchido até acima do nível da fenda, poderíamos cobrir com as mãos todos os cubos, menos um, e virar a bandeja, para que o único cubo de que precisávamos saísse da bandeja. Ou podíamos liberar todos os cubos ao mesmo tempo e, depois, como se a bandeja fosse uma frigideira e estivéssemos virando uma panqueca, lançá-los ao ar. Os cubos pulavam simultaneamente dos seus espaços individuais, elevando-se cerca  de meio centímetro, e a maioria voltava de novo para o seu lugar; mas alguns, aqueles que estivessem mais soltos, pulavam mais alto e freqüentemente caíam de maneira irregular, deixando alguma ponta saliente por onde podiam ser apanhados – estes nós usávamos na nossa bebida.

Escrevi carta a Baker, falando do meu mal. Espero que responda. Se sabe tão bem sobre o assunto, talvez tenha alguma solução.

Bem… er… enquanto espero, vou procurar a fôrma de gelo. Meu reino pela fôrma de gelo…

Cadê a fôrma de gelo!?

DimasLins

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