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Onde estamos, quem somos, para onde vamos?!

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Antoni Tàpies

Eu e Perrusi Pai estamos, agora, na cadeia. Não sei bem o motivo. Acho que foi delação premiada, mas não sei nem mesmo quem foi o delator, muito menos qual foi o objeto da delação. Parece que o gesto mais inocente, até mesmo o mero esquecimento, pode gerar as consequências mais terríveis. Acho que vivemos sob a verdadeira lei brasileira — a exceção é a regra. Perrusi Pai está mudo. Não fala comigo. Perguntei aos guardas sobre o motivo de nossa prisão, e ninguém sabe me informar. Teria que fazer um ofício ao delegado, informaram-me, mas os Perrusi são seres incompatíveis com a burocracia. Por orgulho de clã, não faço ofício algum, nem que represente minha liberdade. E detesto requerimentos e memos. Contra o sentido burocrático da vida, somos capazes de levar essa situação ao kafka ad absurdum. É até chique, convenhamos.

Quem nos visitou foi o Reverendo Tsé-Tsé. Parecia preocupado, mas estava vago e cheio de evasivas. Disse que tinha fiança pesada e que tentava trocá-la por títulos podres do FED americano.

_Como o senhor conseguiu títulos podres do FED? Eu disse, de forma absolutamente inocente.
_Você quer sair da prisão ou não, seu fedelho?

Fiquei calado. Perrusi Pai olhou-me com aquele olhar que cala até leão de Coliseu. Notei que cometera uma gafe. Tentei conversar alguma coisa.

_É verdade que os anjos têm sexo?
_Nunca disse isso! Vociferou o Reverendo.
_Mas sim, foi na sua tese de doutorado!
_DISSE, UMA OVA!
_Oxe, mas o senhor não tinha escrito…

O Reverendo e Perrusi Pai pularam, ao mesmo tempo, e tamparam minha boca. Fiquei, novamente, calado. Não entendia bem a reação. O que nos fizemos, afinal?! Que tipo de processo é esse? Por que estamos aqui?

Encostei-me num cantinho da cela. Será difícil dormir nesse lugar, pensei. Sentia-me como Papillon. Já, já comia uma barata. O Reverendo despediu-se e se mandou. Perrusi Pai, sempre calado, sentou-se do outro lado da cela. Meneava a cabeça. Começou a cantarolar o hino do Santinha. Finalmente, disse:

_Tente dormir. Amanhã, será outro dia.
_Morrer, dormir, talvez sonhar…
_Deixe de frescura e durma!

E se todo dia fosse eterna repetição? Ah, como era doce viver sem alma no regaço do cofre maternal, sombrio e cálido. Aliás, cadê ela? Não vinha nos libertar? Aquela cela revelava-me a nudez do mundo, a consciência do limite, o nervo exposto dos problemas. A cela revelava, também, quantidade apreciável de baratas. Uma delas aproximava-se perigosamente de mim. De repente, escutei uma voz grave, ressoando no meu cérebro com a força de sinos gigantes:

_Talvez, no Abismo, resida a Verdade.

Olhei interrogativo a barata. Escutei, novamente, a voz, que dizia:

_Não se pode procurar nem o que se conhece nem o que não se conhece: o que se conhece porque conhecendo-o, não se precisa procurá-lo, o que não se conhece porque nem sequer se sabe o que se há de procurar.
_Você é Sócrates ou outro grego? Perguntei à barata.

Ela deu um ziguezague e continuou na minha direção, mas sempre calada. De todo modo, ela tinha razão; afinal, eu nem sabia se sabia… não sabia sequer o que é saber.

_Quem explicará a explicação? Bradei ao vazio.
_Meu Deus… Dorme, rapaz!  Exclamou Perrusi Pai.

Olhava a barata. Era a minha única interlocutora. Naquela cela, no frigir dos ovos, encontrava-me comigo mesmo e, infelizmente, somente de mim dependia que fosse a mais amarga das minhas horas ou meu melhor momento. Baita responsabilidade. Como gostaria que aquela barata fosse Atena, gritando como uma garça invisível na noite, manifestando assim sua presença. Eu pronunciaria poucas palavras, despojadas e íntimas, menos da metade daquelas dirigidas por Diomede ou por Odisseu, não lhe prometando sacrifício, apenas companhia.

_Atena, ame-me sem limite! Disse à barata.

A barata deu um rodopio, uma recuada e parou. Suas antenas mexeram, e ela continuou seu eterno caminho na minha direção.

Foi aí que ouvi um estrondo. Era o barulho do peido de Perrusi Pai. Fazia isso quando a autoridade do argumento não me calava. Dizia que eu era o moto contínuo da logorreia. O peido era o argumento da autoridade. Segundo ele, técnica pedagógica eficaz. Minha mãe dava-me sustos e meu pai peidava. Por isso, desesperado, procurei a psiquiatria. Não funcionou e fui parar na sociologia. Piorou a situação, mas isso não vem ao caso. O que importa, aqui, é saber que meu pai, quando enchia o saco, peidava incontinente. O problema não era o barulho, claro, e sim o cheiro. Havia, certamente, alguns componentes sulfurados, com pitada de enxofre. Fiquei tonto e pensei em me matar. Eram os efeitos do peido paterno. Deduzi que ele comera, no café da manhã, ovo e repolho.

_Já acabei casamento com peido — dissera-me orgulhoso, uma vez.

Imaginei a quantidade de bactérias do seu intestino grosso. Tive calafrios. Nesse momento, escutei a voz no meu cérebro — gritava.

_Eloi, Eloi, lamá sabactani? Era a barata, coitada.

Carai, até a barata chiou, pensei. Mas, aos poucos, a arma de efeito moral foi se dissipando. Parecia que o peido era de um tiro só. Era insuficiente para me calar. E a barata continuava na minha direção. E voltei, para azar de meu companheiro de cela, a divagar.

Por que estou aqui?! De quem é a culpa?! Talvez, seja do tempo; mas, deste já sorvi uma talagada, por isso ardem-me as entranhas, retorço-me, dobro-me, sufoco, não grito, vejo apenas o fogo que se levanta. Ardo como devo, porque não tenho mais tempo. Preciso fazer alguma coisa…

Mais uma vez, a voz apareceu nas minhas orelhas:

Se a obscuridade de nossa falta de obje­tivos não é apenas a obscuridade da noite entre o crepúsculo de um Deus e a aurora de ou­tro? E por quê tanta segurança em encontrar aqui – no mundo trágico abandonado por todos os deuses – a razão final? Será que não há em nosso abandono um grito de dor e de nostal­gia para o Deus que vem? E neste caso, a luz ainda trêmula que nos aparece ao longe não é mais essencial que a claridade enganadora do fim da história?

A voz parou, subitamente. Não a escutei mais. Perrusi Pai acabara de esmagar a barata. Olhou-me colérico. Resolvi, enfim, dormir o sono dos justos.

Mas dormi embalado com o pensamento da barata.

InscritosEmPedra

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