Acompanhe o RSS: Artigos | Comentários | Email

Vete a tomar por culo!

Sem Comentários

Meus amigos e amigas, apresento-lhes nova atitude, novo comportamento: a contrassexualidade. Percebendo que o blog é moderninho e antenado com as mudanças na mundanidade, decidi ajudar os amigos e amigas que ainda têm dúvidas sobre o verdadeiro significado da vida e outras coisitas mais.

Claro, não me responsabilizo pelas consequências. Seria demais, além do que respeito a autonomia moral de cada um. Mas acho que as considerações abaixo ajudarão alguns a assumir suas mais viscerais aptidões. Não somos ocos, podem ter certeza. Temos vísceras, isto sim! E, como tais, indicam caminho que vai até ao…

Não, não quero me adiantar. Suspense é feito vinhozinho gaulês, é bom e só faz bem. Assim, antes de tudo, leiam abaixo parte fundamental do “Manifesto contrasexual”:

El ano presenta tres características fundamentales que lo convierten en el centro transitorio de un trabajo de deconstrucción contrasexual. Uno: el ano es un centro erógeno universal situado más allá de los límites anatómicos impuestos por la diferencia sexual, donde los roles y los registros aparecen como universalmente reversibles (; quién no tiene ano?). Dos: el ano es una zona de pasividad primordial, un centro de producción de excitación y de placer que no figura en la lista de puntos prescritos como orgásmicos. Tres: el ano constituye un espacio de trabajo tecnológico; es una fábrica de reelaboración del cuerpo contrasexual poshumano. El trabajo del ano no apunta a la reproducción ni se funda en el establecimiento de un nexo romántico. Genera beneficios que no pueden medir-se dentro de una economía heterocentrada. Por el ano, el sistema tradicional de la representación sexo/género se caga.

O “Manifesto contrasexual” foi escrito por Beatriz Preciado. É filósofa e ativista queer. Ensina história política do corpo e teoria queer em Paris VIII. É autora de Terror anal e Pornotopía: Arquitectura y sexualidad em “Playboy” durante La guerra fria.

Foi um amigo antropólogo que me emprestou o livro. Ah, a antropologia, espaço da liberdade de pensamento, ao contrário da sociologia, que voltou aos tempos de Comte. Não existe nada mais reacionário, atualmente, do que a sociologia nas ciências sociais, até mais do que a ciência política, essa ciência lombrosiana, dos gordinhos de cinto, calça de linho, camisa encasacada e sapato social — tudo combinando, claro. Curiosamente, meu amigo tem diarreias constantes. Acusa os vermes, os protozoários e os rotavírus. Talvez seja acusação injusta. Seguindo Preciado, pode ser recalque, o protesto anal de um cu não assumido como vontade de poder. O cu líquido, como diria Bauman.

Dois pontos fundamentais dessa discussão. O primeiro é a afirmação de longo alcance: quem não tem cu? Sim, você que está lendo agora, pergunto na bucha: você tem ou é tapado do cu e, consequentemente, do entendimento? Claro, você pode ter hemorroidas, logo, incapaz de assumir atitude contrassexual, sofrendo assim de exclusão social. Mas, prescindindo de dores anais, você pode assumir completamente o cu como valor universal. Pois é, seria esse o grande argumento filosófico do trecho acima. E, convenhamos, a argumentação é implacável. O cu está aquém e além do pênis ou da vagina, produtos atávicos da evolução. Todos o têm, inclusive, mamíferos e outros animais — até protozoários têm sistema excretor, logo, conceitualmente cu, mostrando sua anterioridade ontológica em relação a todos os orifícios da vida.

O cu é, paradoxalmente, tapa de luva em todos os pós-estruturalistas e pós-modernos, inimigos do Universal. Seria a volta recalcada do Iluminismo? Certo, os iluministas não o assumiram como universal, preferindo outros valores, o que foi um erro anal de grandes consequências filosóficas, cá entre nós. O cu estava ali embaixo o tempo todo —  sempre. Funcionava no dia a dia, exceto quando acometido de prisão de ventre — depois do suicídio, o problema filosófico mais instigante. Era óbvia sua presença, mas a banalidade será sempre invisível à reflexão. O verdadeiro mistério é o visível e não o invisível, dizia Oscar Wilde. A consciência anal foi presa fácil da ideologia, sendo reprimida e excluída do pensamento ocidental. Sade foi uma exceção na filosofia, e deu no que deu. O flato (versão política do peido) pode ser, assim, interpretado como a luta anal pelo reconhecimento e pela visibilidade político-cultural.

O segundo ponto é muito importante —  o cu como tecnologia e  fábrica. O capitalismo não reconhece a produção anal. É produção complexa, envolvendo tecnologia ainda não reproduzível pela ciência contemporânea. Será que estamos diante dos limites do fetiche da mercadoria?! A merda, como tal, não teria valor de troca? O efeito corrosivo da mercantilização não a diluiria? Nem tudo, assim, que é sólido desmanchar-se-ia no ar? Talvez, estejamos diante de crítica implacável ao capitalismo. O cu, como produtor, não faria parte da acumulação primitiva, nem da acumulação ampliada do Capital; ao contrário, negá-lo-ia, sendo o cúmulo da produção anticapitalista. É uma cagada geral.

Nesse exato instante, compreendo o grito de guerra da antiga LibeLu (Liberdade & Luta, organização trotskista) nos congressos estudantis de minha época: “Coito Anal! Derruba o Capital!”. Estavam à frente do tempo, e eu não sabia…

Enfim, por tudo isso, caros amigos e amigas, em vossa homenagem, posso tranquilamente, sem culpa e sem pena, mandar todos vocês tomarem no cu!

Sementeiras

Deixe um comentário