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Memórias de um clássico

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pelé cercado por tricolores

Pelé, cercado de tricolores. Ali, Ramon. Junto do Rei — quem?

Texto publicado, originalmente, aqui.

(Primeiramente, fora Temer…!)

Antes desse clássico mundial entre o Santinha e o Santos, meu espírito é tomado por lembranças. É a vantagem de voltar à série A, pois assim vemos jogos que tem muita história. Cito, já como exemplo, nossa goleada espetacular contra o Cruzeiro. Ali, foi impossível não lembrar daquela partida de 75, mesmo que tenha sido uma derrota — há beleza na tragédia, os gregos sabiam disso, pois muda nossa alma para sempre. Faz história. Ainda me lembro de Palhinha, ajoelhado na minha frente, após aquele maldito gol no final do jogo, e eu, perguntando ao meu pai, se criança tinha enfarte.

(E lembro que a seleção da minha geração, a de 82, deve sua mitologia ao “Desastre de Sarriá”)

E o Santos…

Quando era pequeno, além do meu time de botão de chifre do Santinha, o invencível campeão de vários campeonatos de bairro, tinha dois presentes de galalite de meu avô materno: um time do Botafogo, com a linda estrela solitária, e um outro do Santos, com retrato e tudo dos jogadores, inclusive de Pelé. Meu avô era apaixonado e tentava me transmitir sua veneração pelo nosso futebol, principalmente, pela sua tradição e estilo, agora extintos depois da hecatombe de 2014. Para ele, o clássico universal do futebol era Botafogo x Santos.

Seria difícil explicar às novas gerações o peso que esses dois times tinham no imaginário de todo brasileiro amante do futebol. Era o clássico de dois timaços que tinham simplesmente os dois gênios do futebol tupiniquim: Pelé e Garrincha. Gênios universais e, ao mesmo tempo, incomparáveis. Os dois times simbolizavam o período mais fantástico do futebol mundial. Entre os anos de 53, com o surgimento de Garrincha, e de 70, com o tricampeonato, o Brasil foi a Grécia do futebol. Foi um período extraordinário, provavelmente inexplicável (como a própria Grécia Antiga), em que cada lugar desse país, em cada rincão, em cada clube surgiam gênios da bola. Sabem cogumelos em dias de chuva? Pois bem, era assim. O futebol brasileiro era fábrica fordista de craques! E parecia uma fonte inesgotável que não parava, que não parava…

Não causa surpresa que meu pai, outro apaixonado pelo futebol brasileiro, decidisse por método pedagógico relativamente simples. Era fundamental evitar que me tornasse um torcedor sem o mínimo gosto estético: além de tricolor, queria que eu amasse o futebol. Torcer implicaentusiasmo, logo, sentimento que envolve beleza. Queria que eu não sofresse da idiotia da objetividade ou que fosse adepto do futebol de resultados. Levou-me assim, em 1973, ao Mundão, para assistir à partida entre o Santa e o Santos. O suprassumo pedagógico: ver o Rei jogar! Sim, tive essa regalia. Vi o negão jogar e, com isso, compreendi que o futebol, antes de tudo, é arte. O objetivo era meu amadurecimento, permitindo-me a compreensão de que o jogo estava além da mera vitória. Futebol não é fliperama, disse meu pai – hoje, eu diria: futebol não é videogame, cuja busca do resultado é o alfa e o ômega do jogo.

E o amor pelo futebol era destino familiar.

Lembro-me de meu avô paterno, emigrante italiano e estranhamente protestante (só conheço italianos católicos); sim, o cabra era estranho, ainda mais porque tinha mania pela mitologia grega. Cultuava, escondido do pastor, a deusa Afrodite. Tinha até um pôster dela tomando banho. Conseguira tal raridade numa borracharia, dizia, ali junto da ponte da Torre. Tinha também espetacular coleção da Playboy, mas isso não vem ao caso. No fundo, era incorrigível pagão.

Conta a lenda familiar que, no final da década de 20, diante da feiura do futebol inglês e do italiano, meu avô baixou a deusa. Estava arretado da vida com o futebol de resultado. Gostava de futebol e não apenas de torcer — era seu dito espirituoso. Segundo seu testemunho, Afrodite pirou com o Brasil. Deu mais do que chuchu em pé de serra, adorou os negões e gerou uma quantidade maior de craques do que de filósofos na Antiga Grécia: Leônidas, Zizinho, Domingos da Guia, Didi, Garrincha, Pelé, Tostão, Zico, Mazinho (o Deus de Ébano), Givanildo, Ramon e, claro, Caça-Rato (apenas um pequeno anacronismo histórico — hehe)! Sim, para o meu avô, o futebol brasileiro nascera para desbancar a mesmice do futebol inglês e a retranca do italiano. Foi a missão histórica dada pelos deuses da bola ao nosso ludopédio. Hoje, é tradição esquecida.

Pois bem, vi Pelé jogar. E o vi numa partida histórica. Como criança, não entendia bem o que estava acontecendo; na verdade, estava hipnotizado pelo Arruda (isso foi antes da última ampliação) e pelo espetáculo. Mas via meu pai um tanto nervoso. Estava 3×0 (dois de Ramon e um de Luciano), e ele continuava nervoso. Foi quando um jogador do Santa (Givanildo? Paulo Ricardo?) cometeu a asneira de tentar dar um chapéu no Rei. Meu pai levantou-se completamente apoplético e gritou:

— Não provoca o negão, não! Não provoca o negão!

Foi tarde demais. Pelé interceptou, com as mãos, a bola e interrompeu a jogada humilhante. Olhou, de forma desafiadora, o jogador blasfemo. Talvez, por causa da provocação, o Santos começou a jogar, fez dois gols (um deles do Rei) e, se não fosse o tempo, teria empatado ou até mesmo virado o jogo.

(na verdade, vi dois gols de Pelé. O outro foi na vitória do Santos contra o Náutico, 3×0, também no Arruda, num gol de falta, um tiro seco e inapelável)

Eu pirei. Produza alegria numa criança e garanta seu futuro. Meu pai cumprira seu dever. O projeto pedagógico tinha se realizado. Foi um sucesso. Ali, no Mundão, o amor pelo Santinha fundira-se ao amor pelo futebol. Certo, nunca tive alma, sempre fui um oco espiritual e, no meu interior, só existem vísceras; porém, tinha uma paixão pela vida inteira. O importante é amar e ser amado, dizia meu avô, piscando o olho e apontando para o pôster de Afrodite.

A paternidade tem, como maior desafio, persuadir a filharada a escolher um clube para torcer (nalguns casos, a violência, o suplício ou mesmo a tortura podem ser as melhores opções). Não existe meta pedagógica mais importante. Quem negar esse fato fundamental da existência é tolo, temerário (opa!) ou algo pior. Está em questão, justamente, a descendência. Sem estirpe, não há futuro. Rebentos traíras revelam educação fraca e pusilânime; revelam fracasso paterno. Filhos trânsfugas são, decididamente, uma vergonha. No caso, é preferível abdicar da condição paterna ou, simplesmente, banir e renegar os filhos malditos e amaldiçoados. Bastardos inglórios!

Machado de Assis teria escrito: “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria, justamente porque sou fraco e tive medo de que torcessem pela Coisa” (TC é cultura).

Pois é…

(claro, antes que alguém reclame: a maternidade tem também seus desafios pedagógicos no futebol. Mas mãe tem coração mole. Verá com doçura o processo de escolha de um clube. Não verá como tragédia ou traição. Contemporizará por amor — peço desculpas às mães, mas engulhei. Como disse o irlandês Bill Shankly, antigo técnico e manager do Liverpool: “futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante do que isso”)

Enfim… Futebol na série A, para nós, é Carpe Diem, pessoal. Vamos aproveitar e bem. Domingo, repetiremos nossa tradição e daremos mais uma lapada no ex-time de Pelé.

“Nascemos sem pedir; morreremos sem querer. Devemos aproveitar o intervalo”. E tal e cousa e lousa e maripousa.

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