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O sentido de nada

Sem Comentários

Atolado de pensamentos sombrios, foi inevitável produzir associações — sim, todas sem “noção”, tão ligados? Fui ler, e piorou a situação. A leitura gera associações, ainda mais ao se ler um conto que parece perfeito para estabelecer relações funcionais entre estado existencial e atividade psíquica: “Loteria em Babilônia” de Jorge Luis Borges (para quem quiser ler o conto, aí vão a tradução em português e a versão original em espanhol). Bem, não tenho o costume de analisar produções literárias. Não é fácil. Quando leio ficção, tenho a tendência a fazer associações um tanto obscuras, muitas delas completamente fora do contexto. E a leitura do conto levou-me longe, bem longe, inclusive para fora da fronteira temática do próprio conto. Além disso, acho Borges, muitas vezes, incognoscível, por isso, passível  das mais variadas interpretações.

Ao ler o conto, lembrei-me imediatamente do romance “Loteria Solar” de Philip K. Dick. A temática é parecida. Esse romance é o primeiro publicado por Dick, em 1955, quando tinha 27 anos. O conto de Borges, segundo me parece, é de 1941. Contudo, pelo que percebi, as referências literárias de Dick são outros escritores de ficção científica como Van Vogt, Alfred Bester e Robert Sheckley.

O conto de Borges fala de uma sociedade tomada completamente pelo jogo lotérico e dominada pela companhia responsável pela loteria.  Tudo vira loteria, e a companhia passa a controlar o arbitrário e a contingência da vida cotidiana. Vira uma sorte de Estado Ideal Totalitário ou uma espécie de deus. Poderia insisitir nesse tema e nessa associação, mas embrenhei-me, para o bem ou para o mal, num caminho diferente e fiquei matutando sobre a loteria. Na verdade, fugi do conto. Fiz algumas associações e me lembrei de algumas análises de Daniel Dennett sobre adivinhações. E fiquei pensando… De certa forma, a loteria decide nosso destino; não precisamos tomar mais algumas decisões na vida, pois a loteria já “decidiu” por nós. Igualmente, a adivinhação serve para resolver diversos problemas, “tomando” uma decisão que seria, normalmente, de nossa estrita responsabilidade.

Dennett diz que é difícil tomar decisões na vida, e que uma das formas mais fáceis de decidir é apelar para a adivinhação. Pego o emprego ou não, peço o divórcio ou não, entrego meu coração ou não, faço isso ou faço aquilo. Sim, a decisão não é fácil e, até mesmo, envolve “cálculo” mais ou menos complexo, com muitas variáveis, inclusive diversas do tipo não-racional. Qualquer coisa que alivie o fardo decisório é interessante. Há vários exemplares no mercado do aleatório: cara ou coroa, por exemplo. Esse procedimento gera uma certa paz espiritual, pois deslocamos, com isso, a nossa responsabilidade para algo exterior, independente de nossa vontade.

Como, atualmente, sou chefe interino, e a interinidade é a base de toda traição, como sabemos, tento implementar o modus operandi lotérico no departamento de sociologia da UFPE, alegando que a Morte do Sujeito, tão defendida pelos pós-pós da academia, livrar-nos-ia (opa! óia aí a mesóclise, o resgate fundamental do poeta Temer) das tomadas de decisão. Afinal, sem sujeito, não há escolha, logo, não há propriamente responsabilidade. Fiz ver aos meus pares que poderíamos deslocar nossa vontade para outras estruturas de escolha, principalmente as aleatórias, e que seríamos apenas vetores dessa estrutura, o que corroboraria algumas teorias estruturalistas e pós-estruturalistas, mas fui voto vencido, infelizmente.

No fundo, até concordo com a decisão dos meus colegas, pois “cara ou coroa” é muito simples e rudimentar. Para decisões difíceis, tipo “quem dará aula no curso de contabilidade sexta-feira à noite”, esse artifício é insuficiente. Como diz Dennett, a escolha precisa de um bom motivo. E, depois do resultado do “cara ou coroa”, tem-se que aceitar a decisão — ou não?! Eis o problema. Por isso, precisamos de algo mais forte. Se possível, algum procedimento com grandes cerimoniais e que envolva entidades além de nossa compreensão. Se temos a necessidade de deslocarmos a responsabilidade das decisões para algum processo externo à nossa vontade, que seja um que tenha certa “intencionalidade”, isto é, que assuma, justamente, alguma responsabilidade. A cerimônia é importante, pois solidifica o deslocamento da responsabilidade e “encarna” o procedimento randômico, valorizando-o simbolicamente. Com tudo isso, caso a decisão não dê certo, pelo menos temos um culpado ao alcance de nossas projeções. Outra vantagem: não precisamos compreender como funciona o processo. Aliás, o desconhecimento é vital e ajuda a fortalecer a legitimidade do deslocamento.

Cá entre nós, isso é muito reconfortante.

(como ateu, tenho incapacidade muito grande de deslocar minhas responsabilidades. Por isso, vivo culpado. O jeito é sempre acusar o capitalismo e os liberias financistas das decisões equivocadas que pululam nesse mundo velho e enfadado)

Pensando nisso, sugeri aos meus colegas (claro, não desisti de convencê-los da minha empreitada, pois a responsabilidade envelhece-me a cada dia) uma série de exteriorizações de responsabilidades. Uma colega, especializada em gênero, poderia jogar flechas ao léu (belomancia); outro, de sociologia política, bastões (rabdomancia); o seguinte, experto em violência, ossos ou cartas (sortilégios); os mais jovens poderiam interpretar folhas de chá (tasseografia); eu mesmo poderia examinar algum fígado de animal (hepatoscopia), exceto o de pequenos cachorros (por causa de Ideafix), ou alguma outra víscera (haruspicia); tenho um amigo psicólogo e behaviorista que poderia facilmente interpretar o comportamento dos roedores (miomancia) e outro, dessa vez filósofo, o comportamento das nuvens (nefomancia)…

Ofereci meu melhor sorriso e ainda disse que as reuniões departamentais ficariam bem mais divertidas.

Bem… er… mais uma vez, fui voto vencido.

Minha derrota, talvez, tenha explicação — um tanto paradoxal, convenhamos: os sociólogos, na sua maioria, não gostam da sorte e do aleatório. Não suspeitam que alguns eventos podem ser aleatórios. Acham, com certa razão, que tudo tem significado — boa parte da atração da psicanálise, por exemplo, é baseada nessa premissa. Antigamente, na Babilônia, tudo tinha sentido, porque o significado existia e vinha, necessariamente, do além-mundo; muitos sociólogos acham que, agora, tudo tem sentido nesse mundo, porque tudo ao redor pulula de significado. O pensamento determinístico só mudou de mundo, mas não de procedimento.

Tente dar algum significado a Temer. Impossível.

(no meu próprio campo ideológico, muitos combatentes por um mundo melhor, os CMMs, sofrem do mal do determinismo. Percebem, de forma compulsiva, relações de dominação em tudo que é banalidade. _Nada do que é banal me é indiferente, dizem. O banal, assim, vira relevância, e a vida torna-se mais triste. Não saber o que tem sentido e o que não tem ou a diferença entre o que é importante e o que é trivial leva, inevitavelmente, à falta de humor e outras coisitas mais. Sou da opinião de que, se não há ninguém que faça rir esse pessoal, estamos perdidos. Sem riso, vencerá Temer)

Além disso, alguns sociólogos confundem acaso com contingência. Posso até admitir que a idéia de acaso, num sentido absoluto, é noção metafísica. Acho apenas que relativizar o acaso já é postular a contingência, que não é acaso. A contingência é o encontro casual de séries causais. E pensar que tudo tem sentido impede o raciocínio probabilístico e a apreensão dos processos contingentes.

Acho que certos sociólogos não compreendem que

“a opção deliberada por uma opção sem sentido, apenas para se fazer uma escolha qualquer para poder seguir com a vida, provavelmente é uma sofisticação muito posterior, embora seja o motivo fundamental para explicar por que ela é mesmo útil às pessoas” (Dennett).

Não, a gente tem que discutir, discutir, achar motivos, razões e sentidos em tudo e em todos. Ainda prefiro o “cara e coroa”.

Enfim, li o conto de Borges, não entendi nada e findei brigando com meu departamento.

Depois da análise sociológica, o que mais detesto é a análise literária.

Sementeiras

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