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A terrível estória do bicho-galo e do besouro-bosta

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Filho de amigo meu fez aniversário, e tive a ideia de escrever um conto infantil de ninar e oferecê-lo como presente. Não foi bom própósito. A estória saiu bastante estranha. Peguei certo conto antigo do Reverendo Tsé-Tsé, que minha mãe contava-me quando era pequeno, fiz algumas recauchutadas e saiu estória meio assustadora, muito esquisita. O problema é que o Reverendo acha que boa parte da educação infantil realiza-se por meio do Terror. Quanto mais terror, mais a criança torna-se dócil e preparada para a civilização. Ele disse-me que sua pedagogia baseava-se numa interpretação radical das teorias de Freud — só existe determinada forma de impor o Superego numa criança dominada pelo Id: causando medo. Quando uma criança acorda gritando madrugada adentro, sabe-se que se está no caminho certo.

Curiosamente, na minha casa, era minha mãe que adorava contar estórias de terror aos seus pequerruchos. Meu pai tem pena, esse sentimento incompatível com a boa pedagogia. Quantas vezes, ela me esperou escondida nalgum lugar da casa para me dar um baita susto — debaixo da mesa era seu lugar favorito. Ainda hoje, não fico à vontade numa mesa, pois espero a qualquer momento certo monstro saindo debaixo do móvel. Muitas vezes, como em pé, principalmente macarrão, por motivos que nem os anos de psicanálise desvendaram completamente.

Minha mãe passava semanas elaborando sustos. Acho que, com os sustos, ela compensava de alguma forma o trabalho inominável de ser mãe.

– Toda mãe tem fantasia de infanticídio! Diz até hoje.

Seus sustos, agora eu sei, eram a sublimação de algum desejo infanticida. Assim, escapei de boa. Quem me conhece sabe o quanto sou assustado por nada. Minha constante cara de pavor é reflexo de moderna concepção de educação. Faça bu! e desmorono.

Dessa forma, mandei um conto infantil ao meu amigo. Quis lhe oferecer um método educativo bastante eficiente. Sim, contando estórias de terror ao garotinho, aumentará a chance de torná-lo mais calmo e civilizado.

Lá vai:

A terrível estória do bicho-galo

Era uma vez uma princesa que morava num belo e magnífico castelo, no meio de um bosque espesso e inacessível. Ela vivia trancada no seu quarto por ordem do rei, seu pai, porque ele tinha medo de que algum aventureiro lançasse mão. Mas ela já estava na idade de casar, fazia fantasias e dançava ula-ula na cama, e o próprio rei estava ficando velho, precisando de herdeiros e de dinheiro. Diante disso, ele editou uma nova lei: “o homem que conseguisse soltar a princesa do castelo teria a sua mão e herdaria o trono“. Foram muitos os príncipes que vieram de todos os lugares para tentar a sorte, embora todos malograssem nos seus objetivos. Era triste escutar os lamentos chorosos da princesa em cada desfeita dos seus pretendentes. O rei continuava intransigente e não a liberava da sua prisão sequer um segundo.

Era uma coisa estranha o fato de que os valentes príncipes não conseguissem chegar nem mesmo perto do castelo – mas é que Imangaard, a princesa que dançava ula-ula, não sabia das condições impostas pelo rei. Para se chegar lá, somente havia dois caminhos permitidos. O primeiro passava pelo bosque que era protegido pelo pavoroso bicho-galo. Monstro bissexual, macho e fêmea ao mesmo tempo, era alumiado e sombrejado de uma vez só. Tinha três carreiras de peitos, cada uma com 35 bicos. Cada bico dava pra mamar 147 homens. Com a força de um peido, derrubava invariavelmente quem ousassem desafiá-l@. Pior do que isso era o castigo da derrota. Por ordem do rei, todo aquele que fosse derrotado pelo bicho-galo era posicionado de quatro pés, calças arriadas, de tal sorte que era, imediatamente, possuído pelo monstro, que penetrava os derrotados com seu membro longo e fino. El@ não errava uma estocada e parecia extrair muito prazer daquela atividade. Quem se desse ao trabalho de olhar, notaria um certo ar de riso malicioso em seu rosto. As sessões eram chamadas pelo rei de “o que é pior do que o empalamento” e eram assistidas somente pela aristocracia — à plebe só restava boatar.

O segundo caminho seguia por um profundo fosso, cheio de merda e baratas. Quem por ali passasse, teria que andar devagar, atolado de merda e barata até o pescoço. Assim mesmo, alguns corajosos tentaram, desistindo no meio do caminho, por não suportarem tanto sacrifício, ainda mais porque a travessia tinha de ser feita na escuridão e em plena meia-noite.

Parece que a princesa morreu de desgosto, embora existam outras versões relatando que ela engravidou de um pajem, com o seu rebento tornando-se depois Bastardus I, para o constrangimento do seu pai”.

Bem, diante da minha incredulidade, sempre fui assim, minha mãe arredondava a estória e dizia que a saga dessa família real não terminava por aqui, existindo outra história, um tanto constrangedora, que abalava os alicerces da realeza. Mamãe, antes de iniciar a estória, dava risota meio histérica, e eu sabia que era o sinal de que vinha alguma coisa que faria Allan Poe corar.

A terrível estória do besouro-bosta

Havia nas redondezas do castelo do rei um besouro-bosta que, de hábito, alimentava-se do cocô da rainha. Isso não seria grande problema, talvez apenas uma questão de ecologia, se não fosse a esquisitice desse besouro de só gostar de cocô fresco, precisando assim entrar nas tripas da rainha. O rei passava o tempo todo preocupado, tentando afugentar o besouro, o que raramente acontecia, para a total tristeza da rainha. O problema agravou-se a tal ponto que a nobre dama sempre ficava deitada, todas as manhãs, esperando o besouro, para que lhe fosse dado passar o resto do dia mais tranqüila.

Um dia, o rei teve que viajar e, preocupado com o estado de sua esposa, mandou chamar um remendão para pregar uma tábua no traseiro da rainha, vedando a passagem preferida do besouro. Acontece que o besouro, inconformado por ter sido privado do seu alimento predileto, havia feito, com muita arte, um buraquinho na madeira, continuando, pois, tranqüilamente, com os seus velhos hábitos. Dizem que a rainha matou-se e o besouro, desesperado com o fim do seu repasto, jogou-se direto na boca de uma lagartixa, o que lhe trouxe morte atroz. Contudo, outras versões contam que, no fundo, a rainha gostava do besouro e, principalmente, do que lhe fazia, bem como – pasmem caros leitores, porque esta informação é surpreendente – foi a própria rainha que fez o buraquinho na madeira!

Após pesquisas sobre foclore, descobri que a versão acima é bastante difundida entre o populacho. O que convenhamos não significa absolutamente nada, embora muitos freudo-marxistas (ler Bianski, Luvanor. Freud e o besouro bosta: a pernambucanidade desvelada. Recife: Joaquim Nabuco, 2006) tenham interpretado a figura simbólica do besouro como o povo entrando no forever da oligarquia. Acho, sinceramente, que é forçar demais…

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