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Conversas atuais — dois velhos

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Ali, perto do Mundão do Arruda, dois velhos se encontraram. Não queriam sambinha, nem pagode, e sim apenas conversar. Falaram um pouco sobre o Renascimento do Clube do Santo Nome, do fim do Reino da Coisa e outras coisitas mais — como vemos, no início, papearam sobre religião. Mas queriam abordar outro assunto; uma vetusta discussão, tão antiga quanto suas idades.

O velho perguntou:

_Alguma ilusão nalgum sujeito revolucionário, nalguma entidade mais ou menos transparente que nos conduzirá à revolução, ao fim da exploração e da alienação?

O mais velho respondeu:

_Nenhuma ilusão. Talvez tenha existido algo assim. Agora, não existe mais.

Continuaram a conversar.

_Tenho esperança no anonimato, na forma pela qual a sociedade adquire silenciosamente consciência.
_Consciência?! Consciência é um modelo transparente — não existe. Apague os modelos de tua mente. Apenas lute. A dignidade de lutar e de resistir.
_Nenhuma esperança?
_Nenhuma. Esperança é desespero.
_Sinto-me numa prisão.
_Você tem esperança, por isso sofre e está aprisionado. Aposte na vontade, na potência de agir. Apenas agir. Ação direta. Vontade de criação é ação.
_Você, no fundo, quer dissolver o “eu”.
_”No fundo”, não, eu quero mesmo.
_Querer é autoria.
_De forma alguma, querer é chegar a um ponto no qual não se tem mais “eu”. É ser ajudado, aspirado e multiplicado.
_Não entendo como apostar na vontade não seja arriscar-se na subjetividade.
_Não confunda subjetividade com individualidade.
_Então, não as separe! De diferença em diferença, cada vez mais singulares, você chegará novamente a um “eu”, a última mônada. Você defende um pensamento que não pensa, que se torna outra coisa, um vôo de bruxa. Você quer ser um marqueteiro político!
_Não exatamente… E não sustento monadologias. E marketing virou sinônimo de cadeia. Eu defendo um acontecimento.
_… que nunca acontece…
_… acontece todo dia… Afinal, o poder, mesmo o mais totalitário, cria rachaduras, fendas, brechas, lacunas…
_Essa política dispersiva não leva a canto algum. É lamento de uma vontade, de uma potência. O que adianta? Poder, no momento que se realiza, centraliza-se, foca a ação.
_Pensar num centro, isto é, num “eu” é trocar a vontade por um princípio ordenador. Não se conhece a vontade sem anulá-la. Não impeça a luta impondo um conhecimento da vontade. Você pergunta o que adianta, mas retruco: o que adianta repetir o mesmo? O mesmo tipo de poder que repete a mesma ordenação infinitamente? Esse teu pensamento não age, não é prática. Fique calado ou procure palavras silenciosas que não atrapalhem a ação. Quanto mais silenciosas, mais as palavras causarão tempestades.
_Irrita esse teu desejo de caos. Você não quer transformar coisíssima nenhuma; você quer é se amostrar com essa ideologia rastaqüera da esquerda acadêmica…
_Eu te digo: existe ainda caos dentro de ti!
_Existe é irritação. Não vejo utilidade política nessa defesa da dispersão absoluta.
_Você é mal-amado. Ame a vida. Há loucura no amor. Pense politicamente na amizade; afinal, só sobrou isso. Existe sim alguma razão no caos, mas você só percebe isso parando de pensar e de falar. Chega de blablablá. Mexa, balance, dance. Tenho pena de você: precisa sempre de um empurrão para sair do lugar.
_Enquanto você mexe e dança, o mundo passa na tua frente. A direita agradece. A ideologia venceu, pois acreditamos agora que não existe mais centro na política. Da dispersão sairá apenas fragmentação. Dos escombros sairá apenas escombros. Você é um niilista.
_Eu sou lúcido.
_Eu sou cético.

(…)

_Você é um anarquista de merda!
_E você, um bolchevique de bosta!

Como não tinha mais absinto, acenderam um charo e tentaram fazer as pazes.

(“a esperança está na plebe” — isso está escrito em “1984”. Lascou. Talvez, a esperança esteja também na juventude. Bora ver. Em suma, a geração dos velhos, nossa geração, foi pro ralo)

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