Acompanhe o RSS: Artigos | Comentários | Email

Conversando com o Diabo

Sem Comentários

Pollock

Andava ali perto do Caneca Fina. Voltava de farra do Mercado da Madalena. Comera petiscos ininteligíveis, por isso certa dor de barriga. Acho que eram petiscos vivos, embora fossem bolinhos de bacalhau. Pelo menos, moviam-se no prato. Ou era a bebedeira? Pensava nisso e achava tudo muito profundo. Tirava lições imediatas sobre a vida, que seriam imediatamente esquecidas, o que sempre foi uma pena.

Era noite e começou a chover. A rua, deserta, e não via nada, de tanta água. A Madalena é bairro estranho. Dizem que fora construída em cima de cemitério indígena. Procurei uma árvore, para me abrigar. Não adiantava, era muita chuva. Foi quando me vi na frente de uma casinha. Estava aberta e tinha luz lá dentro. Decidi entrar, até para me abrigar do temporal. Entrei e achei tudo muito estranho. A casinha parecia muito maior por dentro do que por fora. Não consegui olhar direito o ambiente, pois uma espécie de fog obscurecia a visão. Lá longe, vi algo encostado numa parede. Aproximei-me e estaquei, perplexo. Encostado na parede, estava Cunha ou, pelo menos, algo que parecia o presidente da câmara. Bem, estava bêbado e me sentia bastante tonto, e só posso supor que aquele troço empalhado era o dito-cujo. Ou há dor de barriga que causa delírios? Além do mais, estava numa casinha de coxinha ou de evangélico?

Cunha, o empalhado, estava sentado sobre longos quadris cuneiformes. Uma pessoa que se pusesse naquela posição poderia apoiar o queixo nos joelhos, mas suas pernas estavam demasiadamente compridas para isso. Os joelhos erguiam-se acima de sua cabeça, ultrapassando os ombros – inclusive, dando a impressão grotesca de se tratarem de duas orelhas monstruosas. A cabeça, situada mais abaixo, assentava o queixo num tórax protuberante. O presidente da câmara era criatura de filme de terror, pensei. A luz, dentro do casebre, estava tênue, mas percebi, mesmo assim, que seu corpo parecia todo revestido, até os quadris, de uma substância macia que refletia um pouco a parca luminosidade. A parte inferior das pernas, que se encontrava mais próxima de mim, pareceu-me coberta por uma espécie de revestimento natural – pareciam penas! O rosto empalhado era de tal modo bizarro que era preciso algum tempo para se habituar. Era demasiado comprido, circunspecto e pálido, e seus olhos eram de grandes proporções – pareceu-me grandes olhos de cavalo. No fundo, achei que empalharam muito mal Cunha. Coisas do Demo, pensei.

De repente, escutei um “oi”. Fiquei assustado, pois parecia vir do empalhado. Eu estava paralisado. Escutei, novamente, um “oi” e tive a certeza de que era o troço empalhado que falava comigo. Ele disse:

_Artur?
_Que é?
_Nada!

Olhei-o assustado. Senti um cheiro de enxofre. Seus olhos estavam esquisitos, avermelhados.

_Artur?
_Sim?
_Nada!

Uma brincadeira infantil e, portanto, profundamente má. Decidi não entrar no jogo.

_Artur?
_…
_Artur?

Silêncio.

Eu estava ganhando!

_Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur?Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur?Artur? Artur?Artur?Artur? Artur?Artur? Artur?Artur? Artur? Artur? Artur?Artur? Artur?Artur? Artur? Artur? Artur?Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur? Artur?

_O que é, porra!?
_Nada!

Fiquei nervoso. Não estava ganhando, e sim perdendo. Além do mais, eu estava bêbado e não tinha muita certeza da realidade da situação. Ele era incansável na brincadeira enervante, e eu não tinha como competir com esse Cunha empalhado. Decidi, então, perguntar ao invés de ser indagado.

_Por que tudo isso?
_Por quê? Ora, por nada. Pelo prazer de te chatear. Suprema ambrosia, o poder de te chatear, psiquiatrazinho de merda.

Estava me ofendendo, o sacana. Tentei contra-atacar.

_Você é monstruoso! Não tem culpa alguma?
_A culpa é um lobo que come o presente depois de ter devorado o passado.
_Meu Deus! — disse desesperado.
_Deus não é a questão, nem a resposta, pequeno verme. A verdadeira questão é saber por que Eva foi tirada exatamente da costela de Adão, já que Deus podia usar um pedaço de madeira, uma pedra ou qualquer outra matéria? Aquela costela estava sobrando? Se não estava, então Adão estaria sendo privado, por Deus, de parte essencial de seu corpo, dado não ser concebível que, desde o início, estivesse presente no corpo humano algo supérfluo. Ou Adão tinha treze costelas de um lado e doze do outro? Era uma espécie de monstro, como os homens que têm três mãos e três pés?

Cacetada, Cunha já era louco, empalhado então, ficara pior!

_Onde é a saída dessa casa? Não agüento mais! A saída, por favor… — disse quase soluçando.
_A saída é ali naquela entrada.

A pequena entrada dava num banheiro. Fui lá e vi uma latrina.

_A saída é a latrina. Mergulhe e sairá daqui!

Olhei-o sem entender. Fitei a latrina fétida e pensei: não é possível, não é possível! Ele olhou-me de forma feroz. Caiu a ficha e compreendi imediatamente que, se não mergulhasse, seria morto. Mas, antes de me decidir a qualquer ação, perguntou-me:

_Artur?
_Sim?
_NADA!!!

Mergulhei, tinha que mergulhar — estava apavorado. Não sei como entrei no buraco da latrina, mas entrei. A gargalhada infernal ainda me acompanhava, enquanto nadava e nadava. E, quando estava já quase inconsciente, saí num esgoto, na beira do rio Capibaribe. Estava imundo. Tinha, de fato, saído de uma latrina. Sentia-me vomitado. Mas estava sóbrio. Tudo aquilo me deixara de cara, careta feito uma porta.

E tinha certeza de um fato: Cunha virara um ser empalhado e monstruoso. Eu tinha visto. Eu vi. Certo, meio pra lá de Bagdá, mas não estava delirando. Afinal, sou um psiquiatra. Somos sádicos, paranóicos, etc e tal, nunca delirantes!

Estamos lascados.

Cheguei em casa, tomei banho e abri uma garrafa de cana. Queria continuar a beber e esquecer a história.

Eu quero esquecer… Pelos deuses, preciso esquecer.

DimasLins

Deixe um comentário