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A República Evagélica do Brasil

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Lucifer

A irmã Berenice chegou morta de cansada no sábado à noite, depois de uma intensa faxina na casa de uma dondoca de Ipanema. Tomou um banho frio e comeu cuscuz com leite e uma xícara de café morno. Viu a novela das oito e dormiu, profundamente.

Uma luz cor de rosa banhou levemente sua cama e a irmã acordou assustada.

─ Não temas, irmã Beré! ─ Disse uma voz diretamente à sua cabeça.

─ Quem sois? Uma entidade divina, por acaso?

─ Mais do que isso, irmã. Sou a Terceira Pessoa da Trindade e tenho uma Anunciação importante, embora sem nenhum efeito reprodutivo, apesar de a irmã ser tão virgem como a primeira de dois mil anos atrás. Ouça, grave a mensagem, como se fosse num CD e transmita o conteúdo a quem Eu lhe indicar. ─ Disse a voz.

─ Estou pronta Senhor. Já sou batizada no Espírito Santo e apenas cumpro ordens. ─ Respondeu humildemente Berenice.

─ Serei curto e grosso porque tenho ainda muito o que fazer nesta imensa eternidade. Resolvemos que, finalmente, o Filho do Homem descerá cercado de nuvens entre os anos de 2020 e 2030 para julgar todos os povos e nações do mundo. Escolhemos o seu país, onde todos são felizes e alegres, para sede da Parusia; o ano, o mês, a hora e os minutos precisos ainda estão em aberto. Um homem digno, sob o qual não paira nenhuma suspeita de pecado, deverá fazer um Projeto político-espiritual que extermine a idolatria, a corrupção, a miséria e o pecado. Dessa forma, o povo brasileiro ficará à direita do Filho do Homem na hora final do Grande Julgamento. Amanhã, logo depois do culto da Assembleia, a única Igreja depositária dos verdadeiros ensinamentos divinos, a irmã procure o Pastor Cuião, nosso escolhido, transmita-lhe esta Mensagem e lhe fale da urgência de sua missão. Volte a dormir em paz, Irmã Berenice. Aleluia, Amém! ─ Terminou a voz dentro da cabeça de nossa irmã.

─ E o irmão Cuinha tá acreditando nisso? ─ Perguntei-lhe, espantado.

─ Por que não, Reverendo? Segundo meu falecido pai, a Terceira Pessoa da Trindade conversa bastante com a humanidade. E a irmã Beré é uma missionária bastante respeitada.

E continuou o seu relato:

O Pastor Cuião começou a trabalhar, intensamente, com a ajuda da Irmã Marinex Seringueiras, especialista em florestas e matagais, com o Pastor Felicci Anus, especialista em hábitos sexuais, com o Deputado Bolsocaro, especialista em amenidades e, finalmente, com o Deputado Cajado, especialista em quase tudo.

Daí, surgiu a ideia da exportação de carne enlatada, cujos dólares são administrados pelas nossas coirmãs suíças. Como crente da Assembleia, portanto, o Pastor Cuião não mentiu; não tem, de fato, nenhuma conta nos bancos suíços.

─ Mas que diabos, irmão Cuinha! E o tal do Projeto? ─ Perguntei, impaciente.

─ Calma, Reverendo! Muita calma! Como já somos maioria na população brasileira, vamos trabalhar para eleger oitenta por cento do Congresso Nacional, além do Pastor Cuião como Presidente e a irmã Marinex, como Vice. Financiados pelos nossos dólares da Suíça, é claro. ─ Respondeu Cuinha.

─ Até aí, tudo bem! Se for tudo de acordo com a Constituição e as leis vigentes do país, nada a reclamar. Mas passarei à oposição.

─ Não se precipite, Reverendo! Haverá uma nova Constituição, assim que todos tomarem posse. O nome do país será mudado para REPÚBLICA EVAGÉLICA DO BRASIL, refletindo nossa maioria. O mandato do Pastor Cuião será ampliado para dez anos, com o direito à reeleição, tempo suficiente para que os tempos se cumpram e, por mero patriotismo, sejamos o povo testemunha do Julgamento Final.

─ Desculpe, irmão Cuinha! O senhor endoidou de vez. ─ Disse horrorizado.

─ Bobagem, Reverendo! Nessa vida, tudo é possível e nosso Senhor prometeu voltar cheio de Glória, Amém! ─ Insistiu Cuinha.

─ E o golpe em cima de Dona Dilma, Pastor?

─ Impeachment, Reverendo! Impeachment! Como manda nossa frágil Constituição atual. Mero acidente de percurso que apenas facilitará o acesso da Assembleia ao Poder. Com o Pastor Cuião na Presidência, nosso Projeto andará mais rápido. Nada mais!

E continuou Cuinha, vigésimo quinto primo do Pastor Cuião:

─ A nova Constituição será curta e grossa com apenas vinte artigos e centenas de Leis complementares. O terceiro artigo, por exemplo, banirá todo o tipo de corrupção, libidinagem e hipocrisia política, tudo a cargo dos Ministros, obedecendo as Sagradas Escrituras, base obrigatória do ensino oficial do país. O quarto, finalmente, concretizará a tão sonhada Harmonia entre os Três poderes do Estado. O Presidente da Nova República será, ao mesmo tempo, Presidente do Congresso e do Poder Judiciário, embora todos eles tenham autonomia para decidir o que bem quiserem, segundo os preceitos das Escrituras.

─ Mas isso não passa de uma ditadura, Cuinha! O Supremo Tribunal anulará tudo isso. ─ Argumentei.

─ Engano seu, Reverendo! Pelo artigo quinto, todos os atuais Ministros serão aposentados compulsoriamente e o Pastor Cuião nomeará um Conselho de onze Pastores, dos mais cultos do país, para zelar pela Nova Constituição. Além disso, a irmã Marinex acumulará as funções de Ministra para os cultos e orações, convertendo todos os idólatras romanos aos preceitos da Assembleia.

─ E a Economia do país? ─ Exclamei exasperado.

─ Segundo nosso Conselheiro Cajado, quem quiser produzir, que produza; quem quiser consumir, que consuma. E, seguindo os conselhos de um grande político pernambucano, quem não puder viver, morra. Mas todos os crentes da Assembleia terão um auxílio família, mais um atrativo para chegarmos à conversão dos cem por cento da população. Teremos com isso um Estado Democrático de Direito, com liberdade de pensamento e de expressão, dentro, é claro, dos ensinamentos do verdadeiro Evangelho do Nosso Senhor Jesus Cristo, pregados e ensinados na Assembleia.

─ Sejam eles quais forem! E o Carnaval, e o São João, e o Futebol, e a bossa nova, e o roque e o samba e a bandidagem? ─ Exclamei.

─ Tudo pensado e equacionado, Reverendo! Pouco a pouco, o Pastor Cuião, nosso grande líder, juntamente com a irmã Marinex, convencerá os brasileiros de que a única coisa digna na vida é o louvor ao Senhor, Aleluia, Amém! E o povo esquecerá e abominará as festas pecaminosas, indecentes e os crimes que ferem os olhos do Senhor.

─ Em suma, irmão Cuinha, tô fodido de vez. Pena de morte, na certa. ─ Disse assustado mais ainda.

─ Não haverá pena de morte no país, Reverendo, exceto para o crime de blasfêmia que se estenderá à figura do Chefe da Nação.

Depois de várias tentativas pelo celular, consegui, finalmente, contatar meu antigo desafeto, o Psiquiatra de Intermares (atualmente, mais conhecido como o Psi da Madalena).

Rapidamente, ele chegou à Comunidade e ordenou a internação imediata do Pastor Cuinha.

DimasLins

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