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A primeira morte

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Bateram forte na porta. Acordei sobressaltado. Eram três da matina. Horário cruel e premonitório; afinal, num hospital psiquiátrico, depois da meia-noite, tudo pode acontecer, toda desgraça, possível.

— O que seria? Pensei.

Um enfarte? Um edema agudo do pulmão? Um parto? Um internamento complicado? Morria de medo de parto. Sempre tive dificuldade em excluir, de forma conveniente, o feto, a placenta e as membranas fetais do aparelho reprodutor materno, principalmente fora de uma maternidade. O último parto fora quase na rua, no alpendre do hospital.

_Se for isso, tô lascado. Ruminei, preocupado.

Abri a porta, lentamente. A enfermeira estava apreensiva.

_É parto?
_Não é nascimento, doutor, acho que é morte.
_Morte?!
_É Maria das Dores, doutor.

Não conhecia essa paciente. Será uma parada cardíaca? Era bom na massagem; assim, podia salvá-la, pelo menos temporariamente. Faria como sempre fizera: massagem e ressuscitação; machucaria um pouco, é verdade, mas era inevitável; ressuscitá-la-ia e a levaria de ambulância; eu dirigindo, é claro, pois não há motorista, e médico faz tudo num asilo; deixá-la-ia na emergência e voltaria correndo, esperando que nada de assombroso, durante minha ausência, tivesse ocorrido no hospital. Era isso: simples e factível.

Corri ao pavilhão feminino, onde estava a moribunda. Várias pacientes cercavam o corpo de Maria das Dores. Estava sentada numa cadeira larga de palha. Era gordíssima, gigantescamente gorda. Na hora do enfarte, tomava banho, sentada na cadeira. Fazia isso, comumente, já que não agüentava mais o peso. Estava nua, com os braços pendentes, os olhos vidrados e a boca meio aberta – jeito de morta, mortinha da silva. Do chuveiro, caia um pingo d’água no seu olho esquerdo. Foi minha primeira preocupação: fechar completamente o chuveiro. Aquele pingo incomodava-me profundamente. Era o tempo tanatológico, um tiquetaque sinistro.

Passei algum tempo, juntamente com a enfermeira, tentando tirar a paciente da cadeira para deitá-la no chão. Não foi fácil. O piso era escorregadio, com muito lodo. Tivemos que derrubar a paciente da cadeira para, depois, empurrá-la até um lugar adequado. Pedi, em vão, que as pacientes se afastassem do lugar. Ficaram só um pouco mais longe. Pedi silêncio, com rispidez, e fui parcialmente atendido.

Meu Deus, como faria massagem cardíaca naquele corpanzil? Não fiz propriamente massagem: eu bati, esmurrei com toda a força o tórax da paciente. Não houve reação alguma. Ansioso, juntei as duas mãos, dobrando meu “punho”, e novamente tentei. Eram pancadas secas e ritmadas. Eu já transpirava muito. O calor era infernal. Os pingos de suor caiam por todos os lados, e notei um despencando milimetricamente no olho direito da paciente. Aquilo era assustador. Queria implorar por uma toalha.

Parei tudo, já que os atos e as manobras não adiantavam, mas não queria assumir meu fracasso. No fundo, sabia que estava morta, porém não me conformava. O medo de que faltasse um sopro derradeiro nalguma brasa restante impelia-me a continuar naquele trabalho de Sísifo.

De repente, aproxima-se uma paciente. Era Jacilene, há pouco internada e completamente doida. Evitei seu olhar, mas escutei sua voz:

_Ela tá viva, doutor!
_Viva?!
_O que era para haver, se houvesse, mas que não houve. Tire a morte, doutor.

Só me faltava essa: uma louca cheia de veredas. Olhei para a enfermeira, querendo alguma cumplicidade. Recebi risinho fácil. Olhei a  imensidão no chão. Não agüentei a ansiedade e retomei a massagem. Esmurrei, esmurrei, até não agüentar mais. Parei.

_Não é possível…
_Tá viva, doutor! Ela tem ainda muito etcétera para viver.

Olhei para cima, e lá estava Jacilene, com seus olhos doidos de muita certeza. Seus olhos… Havia uma segurança absoluta ali no seu olhar. Ela me encarava de forma imperativa. Afrontei-a e me perdi, mergulhando numa dúvida atroz. Retomei novamente a massagem. Minutos depois, parei tudo. Estava completamente extenuado. Olhei desesperado para Jacilene. Dessa vez, não disse nada, fez apenas leve movimento na cabeça e continuou com aquele olhar absoluto. Já retomava a massagem quando uma mão firme no meu ombro interrompeu meu movimento. Era a enfermeira.

_Pare, doutor, não adianta mais.
_É?…
_É, sim, e faz tempo.

Entre o olhar louco, puro de certeza, e o cartesiano, cheio de saber-poder, qual deveria escolher? Era médico, por isso escolhi o segundo. Assim, mandei a enfermeira chamar alguns ajudantes para colocar a paciente na pedra. Já estava de saída da enfermaria quando não resisti e olhei Jacilene. Ela deu um sorriso triste e seu olhar jogou-me numa culpa cavalar. Seus olhos estavam incandescentes. Quase voltava e aplicava mais massagens. Fiz pior: passei a madrugada inteira indo na pedra para tirar a pressão de Maria das Dores – tudo zero, claro. Eu ia e voltava. Já amanhecendo, quando passava na frente das enfermeiras, brincavam com minha dúvida:

_Ela já tá roxa, dotô! E todas caíam na risada.

Sim, na verdade, sempre esteve, e fazia tempo.

Passei alguns dias ruminando o acontecimento. Queria encontrar algum sentido naquilo tudo. Minha busca era prosaica; afinal, encontraria novamente Jacilene e não estava preparado para enfrentar seu olhar. Antes do encontro, tinha que me convencer de alguma coisa, podendo enfim encarar seus olhos.

O dia chegou, e eu estava ainda repleto de incertezas. Tinha medo de não ter feito o suficiente. Movia-me nesses futuros que já se foram — será que matei a possibilidade? O encontro foi tenso. Jacilene me agrediu. Com toda a força, meteu a mão na minha cara. Estava agitadíssima. Não consegui sequer fitar seus olhos. Gritava pela sua mãe. Não entendi nada. Não consegui contato algum. Simplesmente, ela não parava de gritar. Não teve consulta.

Tempos depois, volto ao pavilhão para nova consulta e descubro que Jacilene não se encontrava mais no hospital. Não sabia de nada e fiquei perplexo com a notícia. Segundo a enfermeira, Jacilene estava, agora, no Rio de Janeiro e internada numa clínica. Nunca mais a vi.

Mas não fora tal notícia que me abalara de jeito. Fora outra, muito esquisita: no mesmo instante da morte de Maria das Dores, morria a mãe de Jacilene, após longa enfermidade.

Compreendia agora a sua ira. Sei que ela jamais me perdoou. A partir da morte de sua mãe, única âncora na realidade, entrou em colapso e deu adeus definitivo ao tempo. Simbolicamente, naquela ressuscitação, o que estava em jogo era outra vida – a sua vida. E, de fato, eu não dei conta do recado. Fui distraído em relação a algo que era de suma importância naquele momento. Talvez, algumas massagens a mais salvassem nossa relação, além de toda culpabilização e aquém de toda projeção. Como sempre, desisti rápido demais. Era possível recuar e transformar o delírio em necessidade. Eu poderia ter feito isso.

Depois desse evento, perdi a oportunidade de encontrar a sabedoria; por isso, jamais pude achar um acordo entre minhas escolhas e minha vontade. Naquela época, tive a nítida impressão de que a sabedoria era uma mistura de felicidade e tristeza. Ser feliz e triste ao mesmo tempo, eis a questão.

Foram minhas primeiras mortes.

DimasLins
  1. Triste. Mas, bonito.

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