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Terapia Chinesa

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Uma vez, esquecendo que era estudante sério de medicina, apelei para a medicina alternativa. Naqueles dias, tinha constantes crises de amidalite. Depois de rodar por vários médicos, inferi que meu infortúnio, possivelmente, era da alçada dos profissionais da alma e fui parar num lacaniano, que interpretou meu problema na garganta como somatização de um bloqueio libidinal.

Durante  a consulta, o psi olhava fixamente o retrato de Freud. O retrato estava na parede, justamente atrás da poltrona onde me sentara. Ficava assim com a impressão desagradável de que o psi olhava alguém atrás de mim. Era inevitável que, algumas vezes, eu olhasse para trás e desse com olhar inquisidor de Sigmund. Se já não bastava o psi lacaniano, tinha que lidar também com Freud. Era muita psicanálise para dar conta de uma só vez.

_Por que você olha tanto para trás? Perguntou o especialista do inconsciente.
_Você olha o retrato de Freud e penso que tem alguém atrás de mim.
_Jamais olho Freud — disse.

E vi um leve tremular no seu lábio superior, juro que vi! Não sabia qual era o significado, mas fiquei com algum receio. Tudo tem sentido entre os psis.

_Você olha quem, então?
_Por que você está preocupado com meu olhar?

Seu lábio inferior tremeu. Deu-me vontade danada de olhar Freud e pedir socorro.

_É que penso que tem alguém atrás de mim, já disse.
_Por que você acha sempre que tem alguém atrás de você?

Já conhecia essa técnica maluca do espelho: receber sempre de volta a pergunta. Era melhor mudar de assunto ou ficar calado. Fiquei calado.

_Você já assistiu à Garganta Profunda?

Disse o psi, de repente, após alguns segundos de silêncio constrangedor.

_Hein?!
_Vou repetir: você assistiu ao filme Garganta Profunda?
_Sim, sim, mas o que isso…
_Só quero saber se você assistiu ou não. Você assistiu. Você sonha com falos?
_Hein?!
_Repito, novamente: você sonha com falos?
_Não, não…
_Ah, você recalca os sonhos. Todo mundo sonha com falos.
_Um carai que recalco os sonhos! Disse indignado.
_Um carai?! Ah, olha aí a volta do recalcado! E, se não recalca os sonhos, você se lembra de sonhar com falos. O que é uma introversão inconsciente do Falo no consciente.

Era uma lógica estranha, e me senti perdido e enredado.

_Mas o que Garganta Profunda tem a ver com minha amidalite?
_Pense na mensagem do filme. É um filme absolutamente freudiano. Mistura psicanálise com medicina somática.

Levantei da poltrona, agradeci ao lacaniano e menti, ao dizer que voltava, e fui embora, quase correndo. Passei dias querendo me matar. E fiquei com medo medonho de sonhar com falos. Desisti dos especialistas da alma e pensei na medicina alternativa. Procurei terapia chinesa. Olhei o catálogo telefônico e encontrei um nome. Fui crente pensando que encontraria um chinês. Que nada! Era daqui mesmo, com um nome belo feito o balido de uma ovelha: Erygeanny Fidelis Villar. Foi logo dizendo que, um dia, tivera uma catarse, quando visitou, num sonho, a Grande Muralha da China. No sonho, encontrara Confúcio, comendo um MacJúnior e sentado no pivô oeste da Muralha. Era um chamamento, compreendera. Acatou a missão. E estudou terapia chinesa. E virou o que virou. Escutei com parcimônia a estória. De fato, queria me matar. Estava no caminho certo.

Erygeanny contou ainda que aprendera tudo com um guru chinês de 120 anos de idade. Senti a morte aproximando-se a galope.

_Todos os meus remédios são chineses! – disse galunfante.
_Ah, que bom…
_ Sabe essa medicação aqui? Tem 4 mil anos!
_ Mas… já não está vencida, não? — disse, sem querer.

Não queria dizer aquilo. Não era politicamente correto. Devemos respeitar todas as crenças, como dizem minhas amigas antropólogas. Acho que ficou meio magoada, um tanto taciturna. Apontou-me uma maca preta com desenhos de dragão. Deitei-me. Sem aviso, espalhou bocado de pedras sobre meu corpo. Estavam quentes. Muito quentes. Gemi um ai. Erygeanny relinchou qualquer coisa e, por incrível que pareça, a quentura desapareceu. Olhei as pedras. Eram diferentes: quartzo rosa, esmeralda vermelha, pirita azul, todas bonitas. Quase perguntei se não eram bolas de gude, mas fiquei quieto. Pensei nas minhas amigas antropólogas, e fiquei quieto. Olhou-me fundo nos olhos e disse que minhas pernas eram tortas.

_Mas minhas pernas sempre foram tortas! — disse.
_Não eram tortas quando você entrou…
_Mas meu problema são minhas amídalas!…

E começou a bater as pedras nos meus joelhos, recitando o mantra de Yancun, o eritematoso: AUN! Pelo menos, foi isso que descobri depois. Fiquei petrificado de medo. Meus joelhos doíam muito. Será que ela vai bater essas pedras na minha cabeça? — pensei. Minha cabeça não é torta… Não, aí não, aí me arreto e acabo com essa palhaçada.

Ela parou, enfim, de bater e disse:

_Não estão mais tortas!
_Como?! Estão tortas como sempre foram!

Ela ficou calada. A mesma cara amuada, de mágoa chinesa.

Ela me mandou sentar e começou a esfregar um chifre de boi nas minhas pernas. Causava uma cócega louca. Esfregou com mais força, muita força, a maior força do mundo. E me disse, quase sussurrando:

_O chifre, que não é de boi, faz o ácido lático subir e virar bolhas na pele…
_Qual é a relação entre ácido lático e minhas pernas tortas? Ai, tá queimando! — gritei.
_ Olha aí as bolhas…

Claro, minha pele está queimada… pensei. Quero morrer, agora, concluí. Foi então que Erygeanny pegou umas agulhas e começou a furar as bolhas.

_Olha aí, seu medroso, o ácido lático saindo…
_Heh… mas isso não é ácido lático… É verde!
_Deixa de ser mole. Ácido lático, mais tensão emocional, fica verde!
_O quê?!

Não me escutou mais. Ficou furando as bolhas. Minhas pernas estavam completamente verdes. Comecei a enjoar. Foi aí que ela parou e disse:

_Teu pescoço está muito tenso!

Pegou um chifre menor, de bode, e começou a passá-lo no meu pescoço.

_Esse chifre, que não é de bode, vai tirar tua aura — tá tensa demais…
_Minha aura?

O que sou sem minha aura, pensei. Vou precisar ler muito Walter Benjamim para recuperá-la. Sem aura, achei que encarnaria o demônio a qualquer momento. E encarnei mesmo, pois ela usou, logo em seguida, uma caneta que dava choques. No começo, nada ocorria. De repente, senti que o meu olho esquerdo mudava de lugar a cada aplicação e o meu braço pulava, que nem reflexo de martelinho no joelho. Foi com esse esfregado de chifre e choque no cangote que veio o demo. Comecei a ficar frio e mole. Tive que interromper e deitar na maca para não apagar. Melhorei, levantei, ela veio de novo com a canetinha e o demo voltava. Ficava frio, o lábio ficava branco e eu tinha que deitar.

_Eita aura tensa danada! — disse Erygeanny, em chinês.
_O que está acontecendo? — gemi.
_Você está com os fluxos dos meridianos invertidos. O que deveria subir está descendo e o que tinha que descer está subindo. Com a saída da aura, pude notar isso.

Ela me deu uma tapa na cara, outra e mais outra, e o torpor se foi. Deu um largo sorriso e me deu um pó branco.

_Pó de pérolas — disse.
_Parece outra coisa…
_Tome durante uma semana para manter a reversão dos meridianos e reaver sua aura.
_E minha amidalite crônica?
_Que amidalite?
_Deixe pra lá…

Era tubinho de vidro, com pozinho branco e uma colher quase microscópica, toda trabalhada. O desenho parecia um dragão. Pensei, imediatamente, na polícia militar. Se me pega sem aura e com pó branco, tô lascado. Até que explicasse que aquilo era um remédio chinês de mais de mil anos, já teria tomado umas boas lapadas no lombo. Pelo menos, confessaria quem era o fornecedor. Não agüento tortura. Delato logo.

Pois é…

Tentei cheirar o pó branco, mas só deu dor de cabeça. Findei jogando tudo fora. Sou aditivo. Se não der barato, jogo no lixo. Depois de alguns meses, acho que recuperei minha aura. Continua tensa, imagino, e minhas pernas, tortas, com certeza. Minhas amídalas melhoraram com o tempo.

Atualmente, sou um fanático da alopatia.

Soube que ampicilina sódica com manga dá barato.

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