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A agenda do golpe continua

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O golpe continua e acelera. Tem agenda a cumprir, independentemente das resistências. Temos vários indícios disso.

  1. Senado? Acreditam no senado? O PMDB está na presidência da comissão do impeachment e o PSDB, na sua relatoria. O senado terá apenas a utilidade de oferecer um verniz “civilizado” ao impeachment. Alguns senadores ja estão treinando, diante do espelho, um “sim” sem deus e sem família.
  2. O STF não é propriamente golpista, mas não impedirá o golpe, o que não é o mesmo, mas é igual. Preza a forma, antes de tudo. Moralmente, está respaldado por exemplo milenar, a ética de Pilatos. Dois ministros já deram o tom e o recado: o impeachment é constitucional. Os ritos estão corretos, dizem. A afirmação é clara: bandidos podem dirigir legalmente um processo da importância do impeachment. Não há contradição. É só manter a maldita forma jurídica. Ao mesmo tempo, os ministram não julgam Cunha, pois isso representaria interferência no legislativo, mas interferem no executivo, ao impedir a nomeação de Lula por Dilma — a retórica é mais cínica, pois não foi “impedimento” e sim “adiamento” do julgamento. A falta de coerência é flagrante. Na verdade, a coerência é impressionante, do ponto de vista da agenda do golpe. E lembro que haverá sempre o recurso à retórica jurídica, aquela forma vetusta de defender o status quo. E não nego a criatividade do STF: “domínio do fato”, “estado flagrante”, “jurisdição nacional para primeira instância”, “grampo da presidência”… E o STF tem outra arma poderosa, o controle seletivo do tempo. Pode ser moroso com alguns; célere, com outros.
  3. Se, por um milagre, não ocorrer o impeachment, há o julgamento do STE. É só imaginar um tribunal, dominado por Gilmar Mendes e seu adotado, Toffoli, o menino de berço do STF, e pensar o quanto estamos lascados. E, mais um sinal foi dado, quando da descarada decisão em separar Temer de Dilma no julgamento da chapa da eleição de 2014. Foi mais um casuísmo, dentre tantos. O milagre da divisão do caixa único eleitoral. O STE defende que, financeiramente, os recursos da chapa podem ser divididos de forma maniqueista: a propina, responsabilidade de Dilma; a doação legal, do probo Temer. Está dado o verniz jurídico para legitimar qualquer sacanagem. O objetivo é claro: julgar apenas Dilma, legitimando a permanência de Temer no governo.
  4. Nesse momento, a luta contra o corporativismo de elite do aparato judirídico-policial é a mais difícil de todas. Foi completamente subestimada pelas esquerdas. E a luta contra o corporativismo não tem eficácia nas ruas. Passaria, muito mais, por uma reforma do Estado, tão subestimada pelos petistas; somente outro governo mais à esquerda conseguiria tal objetivo. Em suma, a espera será grande e trará, como toda grande esperança, fincada na improbabilidade, muito desespero. Enquanto isso, muita injustiça rolará em nome da justiça seletiva.
  5. Ao receber o senador golpista Aloysio Nunes, Thomas Shannon, em nome do Departamento de Estado dos EUA, deu o apoio americano ao golpe. Não havia a mínima necessidade de receber Aloysio Nunes nas atuais circunstâncias, e logo depois da votação no Congresso. Os EUA repetem a conduta que teve no golpe hondurenho. Aceitou o golpe e falou do respeito à democracia. Quando o Império defende as instituições democráticas, sai de baixo, porque é justamente o contrário, isto é, apenas o sinal inequívoco de que podem “seguir com o planejado”. E reparo, finalmente, que Janot foi, pela milésima vez, aos EUA. Gosta muito de conversar e receber informações dos americanos, nosso PGR.
  6. A Lava-Jato estava calada? Pois agora pode voltar aos seus vazamentos. Já ocorreu a vitória e o importante, nesse momento, é limpar o terreno. Lula, por exemplo. Falta eliminá-lo definitivamente do cenário político. O Estadão já está vazando boatos nesse sentido. A possibilidade da prisão de Lula, doravante, voltou a ser notícia. Com o adiamento sine die do STF sobre sua nomeação como ministro, Moro pode pegá-lo. Tem tempo, pois anunciou que a Lava-Jato vai até dezembro.
  7. O único porém do golpe é simbólico. A mídia, principalmente a Globo, e a oposição fracassaram e não conseguiram, até neste instante, impor sua narrativa como a única possível. Tentam, é verdade, mas malograram em desgrudar o impeachment da pecha de golpe. Não contavam com a reação unânime da imprensa internacional e a resistência da rede social. A perda simbólica da narrativa impedirá o golpe? Poderá, sim, mas apenas no caso de a narrativa dos democratas transformar-se em movimento de massa. Contudo, o povão ainda está distante da rua. Fora desse contexto, as lutas pelas narrativas só terão efeitos no futuro. “E, a longo prazo, todos estaremos mortos”. Convenhamos, estou pouco me lixando se a História julgará os bandidos como bandidos. No Brasil? Ora, não ouviram Bolsonaro elogiar Ustra? Além do mais, se dependermos de nossa História, desconfio que a Globo seja eterna. Por isso, nosso presente é fundamental. Sua importância é absoluta. Se a derrota é iminente, precisamos amenizá-la de qualquer maneira. Por isso, a defesa de eleições torna-se importante, agora. Recuperar o voto, nesse momento, evitando a dobradinha Temer/Cunha no poder, é uma vitória dentro da derrota.
  8. Enfim… o governo. Acho o governo parecido com lemingues, aqueles pequenos roedores, encontrados geralmente no bioma ártico da tundra, que se jogam, pulando de precipícios, ao mar e se afogam em seguida. As lendas diziam que aquilo era suicídio coletivo. Hoje, sabemos que não é bem isso (aqui). Infelizmente, existem lemingues suicidas e todos fazem parte do governo.
Torcedor

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