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O que fazer?

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aroeira pmdb

Foi derrota acachapante. Confesso que tinha esperança. Escutava ali, lia aqui e achava que era factível impedir a oposição de obter 342 votos. Conseguiram mais: 367 votos. Espanto-me com meu engano, mas fico mais ainda com os jornalistas e os políticos que tinham a certeza de que não passaria o impeachment. E, agora, muitos aparecem com a cantilena de que não passará no senado. Tudo é possível? Sim, tudo é possível para os golpistas nesse país. Prefiro agora pensar que o poço é fundo e a queda, longa. E o pior é que o pior ainda vai piorar (foi mal, sei que os leitores não mereciam essa frase, mas depois de domingo…).

(Não discutirei o circo de horrores do congresso. É só ver, escutar e se chocar. Servirá muito, como instrumento pedagógico, para assustar as criancinhas. Não tomou a sopa? Mostrarei Bolsonaro para você! O medo educa, podem crer)

Não nego meu espanto, mas agora fico é espantado com a espetacular incompetência do governo. Dilma tem à mão todos os instrumentos de poder, com 32 ministérios, com cargos e verbas… e perde? Que monumental incapacidade. Tudo bem, são canalhas, os deputados, mas perder quase toda a base aliada? Foi traição com conhecimento de causa. Os caras traíram também por causa da inaptidão política total do governo. E tal inabilidade não começa nessa conjuntura, vem de longe. É de subestimação em subestimação. É alheamento extraordinário em relação ao que acontecia no congresso. É o “republicanismo” tecnocrático, típico da gestão de Dilma. É de lascar.

A “governabilidade” virou dogma. Esqueceram-se que era fundada menos na política do que no dinheiro; na verdade, fundada na distribuição de cargos, cuja função é dar acesso justamente ao dinheiro. “Governabilidade” significa apenas reprodução ampliada da plutocracia. Os compromissos, com propostas ou programas políticos, são simplesmente… são o quê, mesmo? A lealdade passa a ser contabilizada pela grana. José Dirceu tinha razão quanto aos nossos deputados: são putas. Mas são traiçoeiros quando o vil metal torna-se escasso. E, sem dinnheiro, as lealdades migram para outro mecenas ou então tornam-se sensíveis aos apelos de Deus e da família.

Isso é óbvio. Tiveram 12 anos para fazer um tico de reforma política; uma mínima, cujo objetivo seria diminuir o poder do dinheiro. Mas tomaram gosto pela “governabilidade”. Era caminho mais fácil do que fazer política. Na antessala do domingo, a “política” para reverter o golpe continuava como sempre, com a promessa de cargos (logo, de dinheiro). Ora, do outro lado, estavam mestres da privatização do público, do Estado, do escambau, ainda mais com ajuda da Fiesp et caterva. Perderam feio.

E o pessoal ainda acredita que será possível impedir o impeachment no senado? Quem acredita nisso acredita em tudo. É acreditar, por exemplo, que Moro lançará vazamentos contra Temer. Ou que os senadores do PMDB são mais probos do que seus deputados no congresso. Ou que o STF interferirá no processo de impeachment – se não tirou um bandido da presidência do congresso, como esperar outra conduta dos maiores pusilânimes desse mundo, quiçá, do universo?

Se imoral e canalha, a vitória da oposição foi política. Só tem terra arrasada pela frente. Passarão fácil e sem resistência. Ela, a resistência, está noutros lugares. O governo perdeu completamente o congresso. Agora, é território de predadores selvagens. Os donos têm nomes: Cunha e Temer. Como negociar com esses troços? Impossível. E, mesmo no caso de vitória democrática no senado, como governar? Por meio de decretos? Ligação direta com as massas? Como, se Dilma jamais, em tempo algum, cogitou assumir política econômica que não confunda ajuste fiscal com arrocho do povão? É tarde demais. Os financistas já assumiram o comando da economia — produto da tal “governabilidade” petista. Tirá-los de lá, só na porrada.

A vitória do golpe no congresso tornou a luta política da resistência democrática mais complexa e difícil. Além da luta pela legalidade, isto é, contra o impeachment, será preciso impedir a chegada de Temer e Cunha na presidência. São lutas complementares, mas nem tanto. Se a vitória do impeachment no senado é muito provável, a manutenção de Dilma no governo desconecta-se da luta contra Temer e Cunha. Por quê? Porque o impeachment implica os dois canalhas na presidência. Afora a luta contra o impeachment, qual seria outra bandeira de luta que eliminasse essa possibilidade desastrosa? Só vejo uma: lutar por novas eleições presidenciais. E só, porque intuo que eleições gerais sejam impossíveis. A explicação é prosaica. Como, com esse congresso?

Vejam, o golpe já foi dado. Estamos em pleno golpe. E, contra o golpe no golpe, a melhor posição, além da luta contra o impeachment, é a defesa de novas eleições. Pelo menos, teríamos eleição. O mínimo da soberania, o voto, voltaria ao povo. E nada garante que uma eleição presidencial, nesse momento, seria fácil para a direita – justamente o contrário: a direita não quer eleições. Ao mesmo tempo, nova eleição presidencial permitiria, talvez, algum pacto com setores políticos, mesmo à esquerda da direita brasileira, como os tucanos, que não estão completamente satisfeitos com a chapa Temer/Cunha. Afora que eleições presidenciais, nesse momento, seria importante, pois nada garante que teremos eleições em 2018 (sim, por que não? O golpe já foi dado. Tudo é possível).

Em suma, deveríamos juntar à luta contra o impeachment a bandeira de eleições presidenciais (nova versão de diretas-já). No plano da representação política, a articulação por eleições poderia ocorrer no senado, enquanto acontece o processo de impeachment. Será questão de sintonia fina entre as duas bandeiras de luta – não nego o desafio e a dificuldade.

Enfim…

Não subestimo Temer na presidência. O PMDB sabe sobreviver.  Não creio em popularidade, mas estabilidade a partir de propaganda intensa da mídia e de alguma ajuda empresarial. E não subestimo o apelo desse congresso em parte considerável da população brasileira. Aviso aos navegantes, mas Nova Descoberta fez festa no domingo. Cunha, apesar de tudo, virou herói para parte da população. Quando a canalhice gruda na alma de multidões, sai de baixo.

Dedico essa postagem à cusparada de Jean Wyllys em Bolsonaro. O cuspe, sim, o cuspe como resistência democrática contra o fascismo. Proponho campeonatos de cusparadas entre os democratas desse país.

InscritosEmPedra

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