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Alá, meu bom Alá!

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Ayaan Hirsi Ali

Hirsi Ali, Ayaan – HEREGE (Por que o Islã precisa de uma reforma urgente) – São Paulo, Companhia das Letras, 2015.

Por Gadiel Perrusi, Professor aposentado da Pós-Graduação em Sociologia da UFPE.

A inocente e brejeira marchinha do carnaval carioca dos anos de 1950, “Alá, meu bom Alá”, por si só, se fosse entoada entre muçulmanos atuais, seria considerada uma grave ofensa ao Islã e a Maomé, o seu Profeta. Islãmofobia, seria o mínimo; a pena capital não seria desconsiderada como punição a tal blasfêmia.

Todos nós sabemos quem é Alá (uma espécie de “genérico” do Jeová judaico-cristão?); quem foi Maomé, o que é o Corão (livro sagrado revelado pelo anjo Gabriel ao Profeta). Sabemos, também, o que é o Islã ou Islamismo e que seus um bilhão e meio de fiéis são chamados de islamitas, maometanos ou muçulmanos.

Ouvimos, também, falar do conflito árabe-israelense, dos atentados na Europa, no Oriente e na África; dos homens, mulheres e crianças bomba e, especialmente, da destruição das torres gêmeas em Nova Yorque e do assassinato dos redatores do jornal francês Charlie Hebdo.

A Jihad, ou guerra santa aos “infiéis”.

Sabemos, sabemos, sabemos…

Sabemos mesmo? De verdade? Por que milhares de pessoas são assassinadas no mundo inteiro em nome de Alá?

Não! Não sabemos!

Ayaan Hirsi Ali nasceu na Somália e é a filha mais velha de um importante chefe de clã somali, já falecido. Viveu a infância e a adolescência no exílio, em países de maioria mulçumana, em função das atividades políticas de oposição do pai.

Em sua autobiografia, intitulada Infiel (São Paulo, Companhia das Letras, 2012), já em segunda edição, ela nos conta sua vida de tormentos, de intenso sofrimento feminino, como criança, adolescente e como jovem de vinte anos de idade, sob o Islã. Sem dúvida, um pungente testemunho da situação da mulher sob a submissão (significado literal da palavra Islã) ao Corão e ao Hadith, ditados do Profeta, considerados como “escritura sagrada”. Submissão irrestrita sem nenhum direito a crítica, resmungo ou omissão.

Ayaan, contudo, aproveitando-se de um casamento, imposto pelo pai, com um desconhecido primo que morava no Canadá, conseguiu fugir no meio da viagem, através da Alemanha até a Holanda, onde obteve a cidadania local e, depois, foi eleita deputada do Parlamento.

Ayaan tornou-se personalidade mundial (indicada entre as cem pessoas mais influentes do mundo pela revista Time) por causa dos seus escritos e livros em defesa dos direitos da mulher maometana. Esteve, inclusive, como palestrante, no Brasil.

Ainda como deputada holandesa, realizou um curta, intitulado Submissão, sob a direção de Theo Van Gogh, em que mostra a opressão da mulher muçulmana na Europa, nos Estados Unidos e, especialmente, nos próprios países islâmicos — da prisão à Sharia, o severo código religioso, redigido a partir do Século VII (EC), a que todos os muçulmanos estão escravizados.

Apesar das ameaças à sua vida, Van Gogh não foi suficientemente protegido e foi assassinado por um jovem marroquino muçulmano. Um tiro pelas costas. Um punhal cravado em seu peito com um bilhete ameaçador à própria deputada holandesa.

Daí em diante, Ayaan, como parlamentar, viveu cercada de guarda-costas oficiais, embora continuasse sua luta pelos direitos da mulher mulçumana. Vida insuportável, mudando-se com frequência quase diária de um endereço a outro, num pequeno e pacífico país europeu. Ayaan terminou imigrando para os Estados Unidos, onde, ainda cercada de guarda-costas, leciona na Universidade de Harvard.

Rebelde é um rigoroso exame do Islã, através dos seus textos e de sua prática. Contra os mitos que o cercam como religião pacífica; por conveniências políticas, os governos e os bem-pensantes teimam em classifica-lo como uma religião que prega a paz, o amor e a amizade; os assassinos não passam de extremistas, é claro.

Contudo, ao contrário de Sam Harris que, em seu magnífico “A Morte da Fé”, dedica quase um terço do livro a uma verdadeira diatribe emocional contra o Islã, influenciada, de certo, pelo atentado às Torres Gêmeas de Nova Yorque, Hirsi Ali, em Rebelde, analisa o Islamismo de dentro para fora, isto é, a partir de sua própria experiência.

Trata-se, talvez, da melhor e mais serena, embora rigorosa, crítica ao Islã. Sobretudo à condição de escravas em que vivem as mulheres. Situação por situação, fato por fato, texto por texto.

Mais ainda! Ayaan sabe muito bem que há uma guerra entre ideologias iluministas e outra forjada no século VII (EC). Não omite nem esquece o colonialismo europeu e americano sobre o Oriente Médio, a Ásia e a África. Nem tampouco desconhece e minimiza o primitivismo dos outros dois monoteísmos. O Judaísmo já fora domado pela reforma rabínica do século II (EC), logo após a destruição do Templo de Jerusalém pelos romanos. O Cristianismo, especialmente sob a égide da Igreja Romana, sofreu heresias e cismas desde o seu começo, mas a intolerância e as guerras por ele promovidas somente foram domesticadas pelo alvorecer das cidades modernas, pelo Renascimento, pela Reforma Protestante e, sobretudo, pelo ativismo dos “livres pensadores” e pelo seu amor pela razão, pelo conhecimento e pela ciência. Uma luta prolongada, sem dúvida.

Como repete Ayaan, o Islã ainda precisa do seu Voltaire. E é, nesse ponto, que a Autora se distingue da crítica tradicional. Ela não prega a destruição do Islamismo e considera as bombas ocidentais que caem sobre territórios islâmicos nada mais do que um equívoco.

Ao contrário, a Autora prega uma reforma urgente e necessária dos textos e da prática islâmicas, baseada em alguns pontos fundamentais, para alcançar o que ela chama de Modernidade. Uma reforma por dentro e, não, vinda de fora.

Com efeito, segundo Ayaan, “há cinco conceitos centrais no Islã que são fundamentalmente incompatíveis com a modernidade:

1º) O status do Corão como a palavra última e imutável de Deus e a infalibilidade de Maomé como o último mensageiro divinamente inspirado;

2°) A ênfase do Islã na vida após a morte com primazia sobre o aqui e o agora;

3º) As declarações da sharia de ser um sistema abrangente de leis que rege ambos os reinos, o espiritual e o secular;

4º) A obrigação dos muçulmanos comuns de ordenar o certo e proibir o errado;

5º) O conceito de jihad, ou guerra santa”. (pag. 235)

Contudo, a Autora, apesar do rigor implacável da crítica, é cheia de generosidade e afeto pelos seus ex-parceiros de Fé, acreditando que a Reforma do Islã já começou, citando escritores leigos e clérigos reformistas, vivendo ora no Ocidente, ora, perigosamente, nos próprios países islâmicos.

Além disso, trata-se de uma grande escritora, não apenas pela clareza do texto, mas, principalmente, pelo estilo leve e agradável. É difícil descrever horrores sem descambar para o ódio.

Sou pouco afeito a reconhecer genialidades. Admiro e amo os gênios. Não os invejo nem, tampouco, necessariamente os sigo.

Contudo, a Autora de Infiel, de Nômade e, especialmente, de Herege, certamente é um gênio da espécie humana.

Sementeiras
  1. Professor Perrusi Pai,

    Uma resenha de tal qualidade faz despertar ou aumentar o interesse pela leitura dos livros da autora. Começarei por HEREGE (que por sorte ganhei de presente), mas, principalmente, porque acredito na urgência dessa reforma para o Islã.
    Parabéns, Professor!

    Um grande abraço,
    Erínia

  2. Obrigado Erínia.
    Quem lhe presenteou com Herege deve ser um herdeiro do Iluminismo. Talvez, um Livre Pensador que considere os Jeovás e os Alás da vida como fósseis do pensamento humano. Contudo, o desejo do resenhista é de

  3. Obrigado Erínia.
    Quem lhe presenteou com Herege deve ser um herdeiro do Iluminismo. Talvez, um Livre Pensador que considere os Jeovás e os Alás da vida como fósseis do pensamento humano. Contudo, o desejo maior do resenhista é de que Herege seja lido e divulgado o máximo possível.
    Perrusi, Pai.

  4. Muito bom texto, parabéns. Me remeteu à leitura de um outro “As Cruzadas Vistas pelos Árabes”, que mostra onde tudo começou. Uma civilização que convivia em paz com cristãos, judeus e outras religiões que foi invadida por hordas fundamentalistas de cristãos europeus – francos principalmente – e que, ao longo de 200 ou 300 anos desenvolveu um sentimento de ódio e um espírito de guerra santa que sobrevive até hoje.

  5. O autor: Amin Maalouf.

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