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Santinha, espaço e tempo da resistência do povo

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MURALISMO MEXICANO - 008

(Texto publicado originalmente no Torcedor Coral)

Pensei que desapareceríamos. Sério. Foram seis anos, pensando o pior. Sempre no limite, sempre por um triz. E o poço não tinha fundo; a queda, sem fim, e as letras das malditas divisões inferiores do futebol brasileiro, tampouco — alfabeto interminável. E o cansaço chegando, ninguém aguentava mais.

O Santinha acabou? Cadê minha história? Fico sem. Sou eu que acabo também. É uma vida no Arruda. Tô lá direto desde antes de nascer. Não era apenas o clube que acabaria, era um mundo inteiro — meu mundo. Todo tricolor sentiu isso na pele. Seríamos zumbis sem história pra contar.

Guardar tudo na memória e ficar, feito uma máquina mnemônica, lembrando o passado glorioso? Nunca! Apagaria a lembrança, se preciso fosse. Prefiro o conformismo do esquecimento. Lembrar para sofrer? Porque o presente não existe mais?

Jamais! Mil vezes a amnésia!

Com a morte do Santinha, não faria luto e viraria um melancólico. Como substituir a perda? Por que e por quem? Não, não, mudaria de nome e de cidade. E, claro, de bar; talvez, de bebida. Virava black bloc e quebrava a CBF, a máfia dos 13, o escambau.

Pensei que não fôssemos eternos. Sei, sei, confesso. O que podia fazer? Pensei nisso mesmo. Não minto. Vamos morrer — e disse essa frase maldita num bar, depois da queda à série D. Uma mesa de deprimidos e de desolados, de malditos e de fantasmas. Ali, só via cemitério, túmulos, passado e… muita saudade. Curioso, era uma saudade imensa de um ente querido. Sufocava meu coração.

Nunca foi falta. Não era bile que azedava a vida. Nada de vazio. Perda? Sim, senti logo no início; depois, outros sentimentos. O que fui sentindo ainda era um mistério. Foi mesmo saudade. O sentimento me acompanhou em toda nossa saga. Sentia, mas não sabia defini-lo. Não tinha ainda nome — sabia que tinha lirismo, nostalgia e ausência, tudo misturado como se fosse uma feijoada poética. Descobri finalmente do que se tratava no gol de Caça-Rato quando olhei um senhor de idade em lágrimas ao meu lado.

— Aaah, era saudade, falei, já olhando o passado — todo nosso sofrimento, com aquele gol, tinha virado história e pretérito. E olhava o velhinho chorando miúdo, choro calmo, sem escândalo, choro sábio. Eu não chorei, só meus olhos. Somente a saudade torna presente a ausência — a mais forte, a mais irredutível, a mais fiel das presenças. Talvez, tenha sido uma forma de parar o tempo, pois, como disse o poeta, “só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo…” (Quintana).

Pois a Torcida parou o tempo, eis minha crença. Parou para o clube respirar. Pensem um pouco, congelamos seis anos. Deixamos a história e ficamos no campo dos mitos. Hoje, somos um clube que tem uma mitologia (estórias trágicas e milagrosas, uma briga entre o Bem e o Mal, com seus deuses, heróis, traidores e vilões — a mitologia da resistência). Mito não tem tempo. E gruda na alma feito cola. Solidifica-se no ar. Fabricar mitologia é forjar destino, caros amigos.

E resistimos. Personificamos a resistência do povo da terra dos altos coqueiros. Nós somos povo (da comerciária, passando pelo pedreiro e pela juventude da periferia, até a turma do pagode e do hip-hop). A Torcida virou o ópio do Povo. Parecíamos virtuosos, resistimos foi no vício. E no cotidiano, pois precisávamos sobreviver. Foi na raça, na gana, na pulsão de vida. Dane-se a morte! Podemos sofrer, em tempo algum morrer. No fundo do poço, redescobrimos que somos eternos.

Resistência cultural e popular. Não causa surpresa essa simpatia planetária por nossa Torcida. Somos símbolos. Foi o exemplo da resistência popular tricolor que fez, provavelmente, o TC, apesar de tudo, não parar de escrever. Não tinha como.

Os seis anos precisam ser lembrados sempre,
para sempre.

No futuro Museu dos Tempos Sombrios ou da “Bexiga Lixa dos Seis Anos Desgraçados de Ruim”, as criancinhas tricolores visitarão, coladas aos seus pais, admiradas e tementes aos fatos e às imagens. Ficarão orgulhosas e aprenderão com a Resistência.

Voltar nunca; esquecer jamais!

E aconteceu algo que os filósofos discutirão durante séculos. A Torcida, para sobreviver, logo, para manter o clube, focou nela mesma. A Torcida virou objeto de si — um gigantesco umbigo. Criou uma redoma, entrou e ficou. Torcida pela Torcida. Tornou-se a mais narcisística do mundo. Vide o cântico, o mais original de nosso repertório, inexistente no planeta, o cúmulo do narciso, o “ai, ai, ai, que torcida do carai!” — é sério.

Não importava a tragédia, a realidade, os outros. A Torcida não ia ao Arruda ver clube, time, dirigentes, futebol, pois não existia mais nada — ia se ver. E se via, e vivia. Reação especular que continuava a vida. E, quando um tricolor olhava a Massa, via a si mesmo, personificado na Multidão. A Torcida fazia o tricolor sentir-se o mais altivo e apaixonado dos torcedores. Estávamos na série D e não perdíamos o orgulho. Até mudança de gramado virou ritual, procissão, algo sagrado. Como pudemos?!

Fomos muito além. Não perdemos o humor — aqui, estamos no campo do incompreensível. Somente num clube trágico e cômico, ao mesmo tempo, surgiria um jogador como Caça-Rato (que nome!). Seria a comédia humana jogando futebol. Quando levávamos de forma sisuda demais nossa miséria, surgia o grande Caça a nos lembrar de que torcer sem alegria não vale a pena. Como bem disse um comerciante do Mercado de São José, já senhor de idade, Seu Lúcio, ao mostrar a feijoada que fez na comemoração do Tri:

_Eu tô esperando Caça-Rato chegar, pra ele comer um pouquinho. Pois tô aqui com essa idade… e eu nunca vi rato fazer gol!

Pois é…

E, afinal, aconteceu o milagre: a Torcida tornou-se uma mística. Pensem nisso. O Arruda virou um lugar sagrado de encontro. Naquela união fraterna, o Santinha sobrevivia, e cada tricolor repartia o pedaço de pão que nutria de luz o Clube do Santo Nome. Até eu, pessoal, logo eu, ímpio e materialista vulgar. Ali, com toda a desgraça, havia felicidade, e procurávamos uma linguagem para traduzi-la e dividi-la com cada um. Havia uma embriaguês de quem provou a compaixão.

A Torcida ressuscitou o clube. Demos de presente um bonde (VLT) e uma história.

Por favor, dirigentes, não estraguem tudo. Façam crescer orelhas nesses crânios moucos — escutem-nos! Coloquem a Torcida dentro do clube (não, seus surdos, não falo de representantes ou dissidentes da Inferno Coral). Deixem a cobiça de lado. Não desmanchem novamente os trilhos.

Peguem o bonde (VLT). Com nossa história, vamos ao encontro do futuro.

PS: dedico essa crônica à cobra coral que apareceu numa festa de arromba na casa mais tricolor do Recife, o lar de Santana Moura, a matriarca do TC. Numa anunciação, mais verdadeira do que a da Besta Fubana, enquanto bebíamos e festejávamos, apareceu a personificação terrestre e profana de nosso mascote. Foi uma epifania. Ali, tive certeza de tudo. Meu muito obrigado!

 

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