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Caro Chico

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Chico rindo de uma piadinha infame de Tsé-Tsé.

Chico rindo de uma piadinha infame de Tsé-Tsé.

Conheci o padre Jorge no coquetel em minha homenagem no enorme e luxuoso apartamento do Monsenhor Lippi, meu padrinho.

O sucesso da minha tese chamara a atenção da Cúria romana e Jorge foi um dos que mais aplaudiram minhas descobertas sobre os alfinetes e os anjos. Ele era, na época, um padre jesuíta magro, de óculos, bonachão e já mancava um pouco do lado direito. Estava mais interessado nos alfinetes desde que um seu antepassado italiano havia sido alfaiate.

Contudo, sempre fora um aficionado pelos anjos, especialmente os que defendiam o seu time na Argentina. Ficamos amigos e ele traduziu para o espanhol minha tese, numa época em que todo mundo acreditava em anjos, especialmente os argentinos, encantados com Evita Peron. No entanto, menos de vinte exemplares foram vendidos e nada recebi.

Mas a amizade continuou e, vez por outra, trocávamos algumas missivas sobre futebol desde que seu assunto teológico predileto era muito complicado pra mim. Jorge, como bom jesuíta, gostava de precisão e queria saber se a túnica de Nosso Senhor havia sido mesmo comprada numa butique de Cesaréia, logo ali pertinho de Nazaré.

De minha parte, como sempre lhe disse, Jesus vestia uma grife de Magdala, presente de Maria Madalena no seu aniversário de trinta anos.

Acompanhei sua recente jornada no Rio e fiquei impressionado pela sua humildade em dormir num simples colchão de mola, seu café da manhã com frutas, bolinho de goma, tapioca e papa de aveia.

Seu constante sorriso encantou-me, embora não saiba onde ele aprendeu a sorrir, longe dos tempos em que estava preocupado com a Ditadura argentina. Seus passeios a carro aberto, italiano com certeza, mostraram sua coragem em defender o povo. Tive medo de que uma bala perdida atingisse meu amigo ou, pelo menos, de que um manifestante o confundisse com alguma vitrine de banco.

Mas, sem dúvida, Jorge adora beijar crianças, apertar as mãos sujas dos aflitos e dos fãs histéricos. E, sobretudo, falar. E como fala, meu amigo. Igualzinho a qualquer político populista argentino que sempre promete devolver as Malvinas à Espanha, desde que, quando a terra portenha tornou-se independente, os ingleses já estavam pelas ilhas há muito tempo.

No entanto, foi com surpresa que recebi sua carta convidando-me para participar da “Santa Comissão de Reforma da ICR” que se destinava a promover o retorno da Igreja aos verdadeiros ensinamentos de Nosso Senhor.

Segundo ele, nada melhor do que um sacerdote ateu confesso do que os “corrutos, hipócritas e invejosos” da Cúria Romana, segundo disse Bento em sua renúncia, para dar um sabor de pimenta à tais reformas.

Alíás, não sei por que o próprio Bento, como ex-chefe da Inquisição, não botou todo mundo na cadeia.

Na semana passada, o Monsenhor Bennetone, Panetone ou seria Bertoni, talvez por inveja, quem sabe, teria afirmado que o Vaticano estava cheio de abutres. É duvidoso se ele queria se referir aos jesuítas que andam sempre de preto, desde que acabara de ser demitido por um deles.

No dia seguinte, recebi nova carta da Itália. Misteriosa, decerto! De uma tal “Fraternidade do Voo Livre”, sediada na Toscana. Seria convidado de honra de um Festival comemorativo dos três mil anos da entidade e os contatos comigo seriam feitos durante meus trabalhos na Santa Comissão de Francisco. A carta vinha assinada por uma certa Gina Della Fiori, nome que me lembrava qualquer coisa indecisa e longínqua, perdida na memória.

Como sou muito curioso e atrevido, aceitei o convite e me concentrei no estudo de minhas propostas para a grande reforma da ICR que se avizinhava, esquecendo-me do voo livre. Quem sabe, uma das piadas de algum abutre do Vaticano.

Como tenho muito medo de abutres, corrutos, hipócritas e invejosos, resolvi escrever as propostas numa carta ao próprio Santo Padre. Assim, gastaria meu tempo em Roma revisitando meus queridos lugares, especialmente o cais da Ponte Mílvia, sem dúvida, o melhor deles todos. Nada de vãs e eternas discussões teológicas, pois, pois…

“Meu Caro Chico:

Agradeço seu honroso convite, certamente inspirado no meu clássico “História Crítica do Cristianismo”. Para não perder tempo com o blá-blá-blá costumeiro dos teólogos oficiais, enuncio, abaixo, os principais pontos da Reforma que proponho como objeto de discussão da Santa Comissão.

I – Reformas Gerais:

1 – Diretas Já! Como o amigo sabe muito bem, o Papa não passa de um Grande Ditador. A democracia é um bem universal e, a partir de agora, todos os Papas, Cardeais, Arcebispos, Bispos e sacerdotes paroquiais deverão ser eleitos pelos fiéis, bastando, para o voto livre e secreto, a apresentação da Certidão de Batismo. Todos estarão sujeitos ao impeachment. Como teria sido entre os cristãos primitivos. O mandato de todos será de quatro anos, admitindo-se a reeleição por mais quatro.

2 – Igualdade total e irrestrita de gênero. Os padres e as freiras serão chamados de sacerdotes e sacerdotisas. As mulheres poderão exercer qualquer função na ICR, inclusive serem eleitas para o Papado. As Missas, por exemplo, ficarão muito mais charmosas sob a direção delas. A medida, aliás, é uma velha reivindicação do Movimento Feminista Devocional da ICR, baseada nas Epístolas do Apóstolo Paulo.

3− Fim do preconceito contra a homossexualidade, em geral, estabelecendo-se uma “cota” para os padres e as freiras homossexuais, inclusive no Colégio de Cardeais. Segundo a OMS, dezesseis por cento da humanidade pratica a homossexualidade. Em suma, uma minoria significativa. Contanto, é claro, que eles “estejam à procura de Deus”, segundo suas próprias palavras, meu caro Chico. Mesmo se for na cama, lugar nobre da espécie humana. Fica a critério da Santa Comissão o problema dos Trans.

4− Abolição imediata do celibato entre padres e freiras, inclusive do Sumo Pontífice. Assim, novas vocações surgirão sem necessidade de tanta propaganda enganosa. Os filhos, em geral, gostam de seguir a profissão dos pais.

5 – Aceitação imediata do livre aborto, cabendo, exclusivamente, às mulheres as decisões sobre seu próprio corpo. Tal medida diminuiria bastante a hipocrisia de que tanto Bento reclamava do clero, desde que o aborto livre transformou-se numa questão de saúde pública.

II – Reformas Econômicas:

1− Venda, no prazo máximo e improrrogável de cinco anos, de todas as propriedades fundiárias da ICR para a formação de um Fundo, gerido pela UNESCO. Oitenta por cento serão destinados às aposentadorias e pensões dos sacerdotes e sacerdotisas. Os restantes vinte por cento serão destinados a FAO, para matar a fome dos pobres.

2 – Doação à UNESCO, em regime de Comodato, de todas as Catedrais tombadas pelo Patrimônio Artístico de cada país, incluindo as obras artísticas nelas contidas. Devem ser consideradas como patrimônio universal da Humanidade e sujeitas à visitação pública como qualquer museu.

3 – Os mosteiros, conventos e escolas confessionais católicas serão administradas por instituições laicas, supervisionadas pela UNESCO, abolindo-se qualquer tipo de educação religiosa.

III – Reformas Doutrinais

1 – Revogação de todos os dogmas absurdos e irracionais como, por exemplo, a Infalibilidade Papal, a Transubstanciação e a Imaculada Conceição, esta última jamais aceita pelos Apóstolos de Nosso Senhor e ignorada pelo próprio salvador da humanidade bem como e, principalmente, por José, seu pai biológico.

2 – Fim do mistério da Santíssima Trindade com a aceitação de que o Cristianismo é, de fato, uma religião politeísta. Dessa forma, Deus Pai, Deus Filho e o Espírito Santo terão mais liberdade de atuação sobre os fiéis sem muita complicação teológica.

3 – Abolição do título de Sumo Pontífice que pertencia aos Imperadores de Roma. Na verdade, trata-se de um verdadeiro insulto à memória de Nosso Senhor, crucificado exatamente pelo Império Romano. O Papa será chamado, simples e humildemente, de Chefe da ICR.

4− Extinção imediata do Estado do Vaticano, excrescência política do fascismo de Mussolini e do Papa Pio IX. O Vaticano será apenas a sede administrativa e moradia do Chefe eleito da ICR.

IV – Reforma Final

Artigo Único: Autodissolução da ICR no prazo máximo e improrrogável de 50 anos.

Do seu amigo e admirador,

Reverendo Ambrósio Tsé-Tsé.

Sementeiras
  1. Eita!
    Habemus texto.

    Reverendo,o homem realmente fala pelos cotovelos, mas, havemos de admitir que o discurso é mais agradável que o do seu antecessor, e a prática também (populismo? opção mercadológica? Ou podemos esperar alguma seriedade?).

    Andei pesquisando a vida do atual chefe da ICR, e me parece ser uma figura aceitável em relação S.S Bento* e considerando os padrões da ICR.

    Não chegará, é obvio, ao ponto de aceitar sua revolucionaria proposta de reforma da ICR, mas acho que dá para esperar mais flexibilidade.

    Ele lembra muito, até mesmo fisicamente, o Papa João Paulo I, o sorridente, e deveria tratar de criar o cargo de provador oficial, para não ter o mesmo fim.

    *Antes que algum católico empedernido venha me encher o saco, “S.S.” é Sua Santidade (hehehe).

    • Irmão Ducaldo: Tem toda a razão. Exagerei! Dr. Quin Júnior, contabilista dos melhores, avisou-me de que, em cinco anos, seria impossível a ICR vender seu imenso patrimônio fundiário, talvez o maior do mundo. Aconselhou-me a dilatar o prazo de venda para cinco anos e dois meses. Quanto a Autodissolução da ICR, também concordei com nosso cientista: aumentei o prazo para cinquenta e dois anos e seis meses. Minha bênção sem prazos definidos.

  2. Meu caro Reverendo Tsé-Tsé:
    Como sua fã,festejo sua volta com esses assuntos intrigantes, principalmente no que se refere à ICR.
    Tenho curiosidade em em ter mais informações sobre
    essa “Fraternidade do Vôo Livre”. Deve ser mesmo muito misteriosa e secreta porque apesar de conhecer razoavelmente a Toscana, nunca ouvi falar em tal entidade. Além disso, convite partindo de uma tal Gina Della Fiori (parece mais nome de dona de bordel) deveria deixar o Reverendo desconfiado, pois pode ser uma arapuca.
    Achei seu projeto de mudança muito radical. Merece uma leitura mais concentrada. Não acredito que nosso Chico vá aceitá-lo. Por exemplo, pegue mais leve com os dogmas, do contrário não vai sobrar nada.
    Receba, prezado Reverendo, as minhas respeitosas saudações.

    • Irmâzinha: Você saberá sobre a Fraternidade do Voo Livre no próximo texto. Coisa séria, aliás. A Dra.Gina é médica pediátrica e Diretora do maior hospital para crianças e adolescentes de Florença. Ainda não a conheço, mas seus trabalhos estão em Science e em Nature, as duas maiores revistas científicas do mundo. Quanto aos dogmas, a irmã tem razão. A Infalibilidade Papal é necessária a implementação das Reformas na ICR. Troco-a pela chata Semana Santa, especialmente a Sexta Feira da Paixão.
      Minha bênção infalível.

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