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As cobrinhas da Toscana – I

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 Quando voltei de São Lourenço, onde constatei mais de vinte e três rachaduras embaixo da tribuna de honra da Arena Timbu, fiquei muito feliz ao saber do sucesso da lua de mel de Paulinha e Nando, meu afilhado. Ambos se transferiram para meu clã, onde foram muito bem acolhidos apesar da lotação quase esgotada.

Contudo, saíra da confissão da menina um pouco abalado pelas recordações, há muito tempo esmaecidas, do último mês que passara em Roma depois do meu Doutorado. Confissões, cobrinhas e emoções trouxeram-me ao vivo o lindo rosto da Irmãzinha Emília, cuja história de vida assombrosa quase me fizera desistir da profissão de sacerdote da ICR.

Na varanda de minha palafita, a rede de cipó do mangue balançava levando e trazendo meu coração do sonho à realidade como um pêndulo doloroso do fracasso de um pedaço de minha vida.

A Irmãzinha Emília era filha de um descendente dos feiticeiros da Itália do Norte, chamados na Idade Média de benandanti ou de “andarilhos do bem”. Saíam à noite, voando em suas vassouras, abençoando ou maldizendo as plantações vizinhas, logo antes da colheita. Muitos morreram nas fogueiras da Inquisição; outros escaparam, escondendo-se nas montanhas vizinhas, na região da Toscana.

Luigi Scalabrini, pai de Emília, tivera seu bisavô processado pelo Santo Ofício, embora houvesse sido absolvido por falta de provas. Esmiuçaram toda a sua propriedade, um vinhedo bastante próspero, e não encontraram nenhuma vassoura.

Mas a tradição familiar continuara ao longo dos anos e Luigi ainda se orgulhava dos seus antepassados. Nos céus modernos ninguém mais se atreve a voar de vassoura por causa dos jatos que cruzam a Itália. Porém, a feitiçaria, real ou inventada, nasceu com a humanidade e morrerá, sem dúvida, com ela.

Na verdade, o próprio Cristianismo nasceu de um ato semelhante. Espalhou-se pela Judéia a notícia de que um crucificado voltara à vida depois de três dias morto e enterrado. Logo depois, subira aos céus sob o olhar de alguns amigos saudosos. Ainda hoje, dois mil anos depois, milhões de pessoas acreditam em tal fantasia maravilhosa.

Luigi casara-se com a donzela mais bela e desejada dos arredores de Chianti, na Toscana, e tivera, logo cedo, a desventura de perdê-la na hora do parto de Emília. Depois do enterro, inconsolável, fizera o voto de dedicar sua filha virgem à ICR.

Foi por isso que Emília viveu sua infância e adolescência cercada de serviçais femininas que a guardavam dia e noite. Aos treze anos, na sua primeira menstruação, Luigi, bom administrador de vinhedos e ótimo artesão, tatuara na filha três cobrinhas.

Duas, ao redor dos seios ainda incipientes da menina e a terceira, descendo do umbigo até seus pelos pubianos quase inexistentes. Esta última cobrinha mostrava agressivamente os dentes e uma gota de veneno letal caía de sua boca.

Tudo, na ótica do pai-feiticeiro, para proteger sua virgindade!

Ninguém, nem sequer as serviçais, sabiam do fato. Emília, por ordem expressa do pai, sempre tomava banho vestida e trocava de roupa sem a presença de ninguém. Um mistério como parte do feitiço, sem dúvida.

Aos dezoito anos, Emília foi internada num Convento de Roma. Através das generosas doações pecuniárias do seu pai, ela gozava de alguns privilégios como, e principalmente, ter uma suíte para seu uso exclusivo. Dessa forma, suas misteriosas tatuagens continuariam secretas. No entanto, sua fulgurante inteligência e sensibilidade, levaram-na a fazer, na Gregoriana, um Doutorado em Teologia das Serpentes. Sua tese, como seria de esperar, versou sobre a cobrinha do Éden e das consequências advindas para o gênero feminino.

Com seu Doutorado, tornou-se Supervisora dos Serviços Sociais do Convento e tinha a liberdade de sair todas as sextas feiras para visitar os doentes assistidos pela sua instituição religiosa. Em trajes civis, muitas vezes tinha que dormir junto a doentes terminais, com o aval, é claro, da Madre Superiora.

A irmã Emília via o mundo, o que lhe fora negado na infância e adolescência. Logo depois de sua consagração como freira, seu pai morrera e lhe deixara como herança um vinhedo próspero e bem administrado por um dos seus primos. As doações continuaram bem como seus privilégios dentro do Convento.

No entanto, a angústia e o desalento da Irmã Emília se agravavam cada vez mais.

Enquanto isso e terminado meu Doutorado com sucesso, fui convidado para fazer inúmeras palestras e participar de outros tantos seminários nos meios católicos da Itália. Sentia-me esgotado e já perdera muitos quilos de tanto trabalho. Os católicos romanos adoram ouvir e discutir bobagens. Nada melhor, portanto, do que discutir a relação teológica entre anjos e alfinetes.

Foi quando o Monsenhor Lippi, meu padrinho e chefe da Biblioteca do Vaticano, chamou-me ao seu luxuoso apartamento em Roma:

─ Tsé! Assim, não dá. Vai terminar tuberculoso de tanto esforço. Estou saindo de férias para visitar minha filha Constança, bióloga de Oxford, como você bem sabe. Ficarei por lá durante mais de um mês e você vai se hospedar aqui, no meu apartamento, assistido pela minha velha governanta, a irmã Genoveva. Moradia, comida e roupa lavada de graça. E descanso! Genoveva recolhe-se ao seu convento às seis da noite, mas sempre deixa um jantarzinho pronto. É só esquentá-lo.

─ Não mereço tal presente, Monsenhor Lippi. ─ Respondi.

─ De fato, não merece mesmo. Teimoso demais. O Cardeal Fierrugi, seu ex-Orientador, já obteve uma licença pra você e faça-me o favor de chegar amanhã cedinho com suas coisas. Nada de trabalho! E pernas pro ar. Mas tem um favorzinho de que preciso. Você vai me substituir como Confessor do Convento das Sagradas Partes Íntimas de Jesus. Trabalho bobo. Três vezes por semana de duas às seis da tarde. As freiras de lá são muito santas e não há muitos pecados a perdoar. Nada mais. Leve o último sucesso de Pitigrilli de que você tanto gosta. Para se distrair um pouco no confessionário.

Não tive opção e recusei todos os convites que continuavam a chegar. De fato, o Monsenhor Lippi tinta toda a razão. Precisava voltar em forma para assumir a Liderança de minha Comunidade, para a qual fora eleito, logo depois dos funerais do Dr. Quim Sênior.

Fui apresentado por Lippi à Madre Superiora do Convento, uma simpática velhota que impunha uma disciplina rígida às freiras e noviças sob um sorriso mais do que irônico. As mais velhas eram mais relaxadas, as de meia idade conformavam-se a uma rotina sem muitos atrativos, embora suportável. Contudo, as mais novas, especialmente as noviças, não passavam de escravas do fanatismo religioso do Convento, um dos mais rigorosos da Itália.

Na primeira semana não tive muito trabalho. Pecadilhos como cuspir no chão, esquecer-se de escovar os dentes, chegar na missa matinal com atraso, dormir durante as rezas, não cumprimentar as colegas e coisas que tais. Somente na primeira sexta feira, já no final do meu expediente, é que apareceram dois pecados mais cabeludos.

Uma freira de mais de quarenta anos confessou-se tentada pelo Demônio e todas as noites era obrigada por ele a tocar uma siririca, o que lhe provocava a maior angústia. Resistia até onde podia, mas o Demo a subjugava com suas garras de fogo.

─ Madre! A senhora gosta? ─ Perguntei-lhe sem querer.

─ Não sei! Mas tenho orgasmos forçados e pecaminosos, o que viola meus votos de castidade. Já estou até pensando no suicídio. O que devo fazer Santo Reverendo?

─ Madre! Agora mesmo, estou recebendo uma mensagem do Alto libertando-a desse Pai da Mentira. Mas, se já está habituada, continue com o vício em intervalos maiores até esquecer seus lugares íntimos. Talvez, o vício não seja tão demoníaco assim. Depois, com a penitência prescrita pelo Código Canônico, a senhora voltará à sua normalidade de freira. ─ Respondi, cumprindo meu papel de Confessor.

A última freira da fila ajoelhou-se e foi logo dizendo:

─ Reverendo! Eu, pecadora, quero me confessar sobre um infame pecado.

─ Estou escutando, Irmã.

─ Ontem, aconselhada pelo diabo, beijei na boca uma das noviças. Só depois, me dei conta da enormidade do meu pecado.

─ E a noviça gostou, irmã? ─ Perguntei curioso.

─ Deve ter gostado porque, à noite, queria dormir na minha cama. ─ Respondeu a penitente de meia idade.

─ E a irmã deixou?

─ Pra não provocar nenhum escândalo, foi o jeito. Como fazia muito frio, dormimos agarradinhas, mas não sei o que se passou. O diabo não quis me contar quando lhe perguntei na manhã seguinte. ─ Respondeu a Irmã Georgina, uma italiana do sul bastante desfrutável.

─ Foi sua primeira vez, irmã?

─ Juro que foi.

─ Antes de tudo, gostaria que a irmã fizesse um teste teológico. Procure discretamente a tal noviça e veja se sente vontade de beijá-la novamente. Em caso positivo, no meio do beijo, procure saber se está dominada pelo Coisa Ruim ou se o gosto vem mesmo de dentro do seu coração. Volte depois pra me contar pra saber se se trata de pecado verdadeiro ou não. Não se preocupe porque essas coisas acontecem até mesmo no Paraíso Celeste.

E despachei a irmã mais do que lésbica ao encontro de sua parceira noviça.

No entanto, foi exatamente no final da segunda semana quando tudo começou com a Irmã Emília do Sagrado Tornozelo de Jesus Cristo de quem falava no começo dessa historinha.

─ Reverendo! Eu, pecadora, desejo me confessar. Estou angustiada e desesperada e soube que o senhor sabe ouvir e aconselhar. Não aguento mais essa cruz que carrego, mais pesada do que a de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Era uma tarde chuvosa de sexta feira. Emília era a única penitente e faltava pouco tempo para meu expediente terminar. Uma voz celestial, um rosto mais do que angelical. Uma vontade louca de quebrar o ritual da Confissão e convidar a jovem irmãzinha para tomar uma cerveja quente num boteco ao lado do Convento. Meu coração bateu forte. Resisti. Mas deveria ter fugido para não ter vivido uma história de paixões desabridas, revelações exóticas e um final melancólico.

E foi assim que tudo começou!

                          (continua)

Sementeiras
  1. Nada como começar a semana com um tri-campeonato e texto novo do Reverendo.

    Quero ver no que vai dar essa história com a irmã tri-tatuada.

  2. A bênção, Reverendo.
    Como é bom voltar e perceber que tudo continua igual…como me fez falta ler teus escritos.

    Beijos

  3. Prezado Reverendo, depois de quinta-feira nós, os atleticanos, podemos dizer com toda a certeza desse mundo: Deus existe. E revoguem-se as disposições em contrário.

  4. Reverendo, você arrasa.
    Aguardo ansiosamente a parte II dessas cobrinhas envolventes.

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