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As confissões de Paulinha – II

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miró

Até antes de engolir a bolinha azul do Dr. Beija-Flor, vinda do Multiverso, Paulinha era a menina mais pacata, gentil e recatada da Comunidade. Inteligente, com inegável vocação para o estudo das ciências, especialmente as biológicas, tornara-se assistente do nosso Laboratório por inegável mérito. Além disso, com os exercícios recomendados pelo Dr. Quim Júnior, emagrecera tornando-se uma jovem bonita, elegante e com umas pernas de fazer inveja a qualquer atriz de cinema.

Na verdade, todos os rapazes a desejavam, principalmente Nando Lacraia, ex Caça Rato, chefe do biotério e um dos rapazes mais promissores de nossa pequena República Telemista. Além, é claro, de ser meu afilhado predileto.

Contudo, a partir da bolinha azul, a conduta de Paulinha mudara. A princípio, sutilmente. Com o tempo, mais afoita, usando minissaias, decotes generosos e, vez por outra, era vista em nossa praça aos beijos e abraços com o Dr. Quim de quem se dizia apaixonada. Com outros rapazes, também, principalmente com Nando, outra de suas paixões. Nada demais! Em nossa Comunidade, o amor é livre.

Contudo, a virgindade indecisa da menina parecia estar, aceleradamente, indo pro brejo.

Para a alegria de todos, na verdade!

Deitada na enfermaria, no entanto, continuava a chorar e a soluçar durante a confissão que ela própria me pedira. Agi com paciência e fiquei calado, esperando. Mas, de repente, perguntei-lhe:

─ Paulinha! Você gosta de cobras?

A menina parou de chorar e me disse:

─ Adoro, Reverendo! Sou eu quem as caço no matagal para o biotério. Alimento-as com os ratos que Nando pega, faço-as dormir e, até mesmo, hipnotizo-as como fiz com a coral no meu pescoço.

─ E por que você saiu nua pela praça? ─ Perguntei-lhe, achando que ela começaria a contar seus pecados.

─ Como protesto pelo machismo da Comunidade. ─ Respondeu.

─ E não adiantou nada, minha filha. Todo mundo só olhava para a cobra enrolada no seu pescoço. ─ Acrescentei, ironicamente.

─ Dr. Quim, Dr. Quim! Buá, buá, buá… ─ Recomeçou o chororô.

─ Deixe Quimzinho de lado, Paulinha. Conte tudinho que eu adoro ouvir os pecados dos outros.

Mas, não adiantou. Como sofrem os sacerdotes diante de meninas histéricas! E como se aproveitam delas! Paulinha parou de chorar, embora permanecesse no mais absoluto silêncio. De repente, começou a falar:

─ Reverendo! Lembra-se daquele domingo em que a cantina serviu um xerém com coco velado no café da manhã?

─ Claro, menina! Um show do Olodum o dia inteiro dentro da Comunidade. Coloquei algodão nos ouvidos e no nariz e fui dormir. ─ Respondi.

─ Pois bem! Rosinha Boca Livre, da Comunidade vizinha, me convidara para assistir a uma missa na Matriz, dizendo-me que tudo era uma festa em homenagem a Jesus Cristo. O padre Tinoco se fantasiava com cores berrantes, havia cantoria, incenso e todos se beijavam. Depois, os meninos e as meninas ficavam conversando de mãos dadas no quintal da Igreja. Achei legal!

─ E você foi?

─ Fui! Botei uma minissaia de chita, como a gente anda por aqui, uma blusa tomara-que-caia, comprada no Mercado da Madalena, e uma flor branca do mangue nos cabelos que Nando havia colhido pra mim. Ia fazer o maior sucesso na festa da missa. Mas, quando comecei a subir a escadaria, senti um ventinho frio por baixo da minissaia. Foi aí que percebi que havia me esquecido de vestir minha calcinha.

─ Que horror! Mas não se preocupe Paulinha. Eva nunca usou calcinha e Adão num tava nem aí. ─ Disse à minha penitente para aliviar seus temores.

─ Não disse nada a Rosinha e nos sentamos na primeira fila, pertinho da mesa com uma toalha branca, cheia de troços, onde o padre dizia umas coisas que eu não entendia e perguntava à minha amiga. Achei que o padre, enquanto andava pra lá e pra cá, fazendo uns trejeitos meio idiotas, ficava olhando pra minhas pernas o tempo todo. E aí, aconteceu o pior. ─ Começou Paulinha.

─ Que pior, minha filha? ─ Perguntei interessado.

─ Foi quando ele pegou um tareco branco e disse que ia comer aquilo que era o verdadeiro corpo de Jesus. Todo mundo ficou em silêncio e eu disse bem alto: Canibal! E cruzei minhas pernas fazendo a minissaia subir mais um pouco. O padre Tinoco comia o tareco, mas só olhava pra minhas pernas. Aí, engasgou-se e botou pra espirrar tareco. Depois que se acalmou, o coroinha encheu uma taça de vinho e o padre disse que ia beber o verdadeiro sangue de Jesus. Não me contive e disse pra Rosinha que, além de canibal, esse padre não passava de um vampiro e cruzei novamente as pernas. Foi sangue de Jesus pra todo lado saindo da boca do padre e sujando a toalha branca da mesa.

─ Foi pouco, Paulinha! Tinoco é um safado que vive correndo atrás dos meninos da paróquia o tempo todo.

─ Mas o pior veio depois. ─ Disse a menina.

─ Acho que você devia se chamar Paulinha do Pió. ─ Resmunguei e deixei que ela continuasse a confissão.

─ Foi aí que se formou uma enorme fila pra comer o tareco branco. Rosinha me levou também pra virar canibal. Fui por curiosidade, mas fui. Só tinha velhinhas, Reverendo. Todas estavam vestidas de mangas compridas e saias até os tornozelos. Só eu de minissaia e Rosinha de jeans. Comecei a arrotar coco velado, mas não me importei. Fechava a boca e ninguém ouvia. A gente estava bem na frente da fila e foi aí que se deu o pior. O coco velado desceu, desceu e estourou. Foram três estrondos: PUM, PUM, PUM!

─ Minha nossa! Taí o mistério esclarecido. A gente achou que o sino da Matriz estava desgovernado. Foram exatamente três badaladas fora de hora. Aqui, na Comunidade, ninguém aguentava tanto fedor de coco velado. ─ Exclamei.

─ Nem na Matriz, Reverendo. Foi tudo quanto era velhinha correndo em direção da porta de saída e a fila se acabou. Rosinha me agarrou pelo braço e fomos para o quintal pela porta lateral da Matriz. Ainda tenho o braço roxo do aperto que ela me deu. Depois disso, nunca mais falou comigo.

Paulinha começou novamente a chorar pensando que havia cometido três pecados graves de uma só vez. E fedorentos! Consolei-a como pude. Afinal de contas, ela pertencia ao terreiro de Mãe das Coisas e não tinha nada a ver com a ICR.

─ Bobagem, minha filha! Apenas um pecadilho ecológico. Nada mais!

Esperei mais um pouco e ela parou de chorar e, quase gritando, falou:

─ Dr. Quim! Dr. Quim! Pequei novamente.

─ Que foi dessa vez, Paulinha?

─ Ontem, pela manhã, no Laboratório, peguei na cobrinha dele. ─ Disse aos soluços.

─ Uai! Não sabia que Quimzinho tinha uma cobra de estimação. ─ Respondi.

─ Não foi isso, não foi a de estimação. Foi na cobrinha de verdade. De nascença, segundo ele.

─ Que safado, esse Quimzinho! Ele fez mal a você, minha filha? Se fez, vou lhe dar uma surra de cipó de mangue. ─ Disse revoltado com o amigo de infância.

─ Não, Reverendo! A cobrinha dele só queria saber de dormir. Nem se mexeu. Mas houve o pior. Fiquei sozinha de novo com Nando e não resisti. Peguei na cobrinha dele e morri de medo.

─ E por quê, minha filha?

─ Tava vivinha da silva e queria me pegar. Corri pra casa e só depois saí nua pela praça.

─ E você gostou de pegar na cobrinha de Nando?

─ Gostei! Toda noite pensava nisso. Nando é um rapaz muito bonito, mas a cobrinha dele é maior do que a coral do meu pescoço.

─ Ora, Paulinha! Se você gostou, não é pecado nenhum. Pegue de novo e deixe a cobrinha de Nando fazer a festa. ─ Disse quase rindo pra minha penitente.

─ Que festa, Reverendo?

─Olhe aqui, Paulinha. Você parece que está no ponto de sair daquele maldito Clã das Virgens Indecisas. Amanhã, que é sábado, vou a São Lourenço visitar Tio Leó no sítio dele. Vou olhar as novas rachaduras da tal Arena Timbu e só volto na segunda. Vocês dois vão passar o fim de semana na minha palafita e Nando vai ensinar a você como é o maior e melhor divertimento do mundo. E não é pecado nenhum. E, por favor, deixe o Dr. Quim em paz. Garanto a você que a cobrinha de Nando é mais competente do que a do meu amigo Quimzinho.

─ E onde é que a cobrinha de Nando vai se esconder, Reverendo? ─ Observou Paulinha ingenuamente.

─ Onde você caça as cobras do Laboratório, minha filha? ─ Perguntei.

─ Ora, Reverendo! Já lhe disse. No matagal lá de baixo.

─ Pois bem! Deixe a cobrinha de Nando se esconder no matagal aí de baixo que você própria mostrou na missa pro Padre Tinoco. E basta de confissão. Não há nenhum pecado a perdoar, terminei.

─ Em nome dos Três, Amém.

InscritosEmPedra
  1. Gostei! Paulinha é meio sonsa com aquela “inocência” que engana o gênero masculino desde o tempo das cavernas. Seria uma força da natureza que acaba com a estabilidade de qualquer coração.

  2. Paulinha me lembra muito uma menina que tem o mesmo nome que ela. Só que a Paulinha que eu conheço, ao invés de procurar o Reverendo pra se confessar, ela pagava caras consultas com uma psicanalista. Saudades suas, Reverendo. E obrigada por mais um magnífico texto.

  3. Bolinha azul; pois sim! Essa bolinha era placebo e Paulinha fazia parte do grupo de controle.

    Acho que Paulinha estava querendo era um pretexto brincar com outro tipo de cobra…

    Nada como um texto do Reverendo depois de uma vitória do Santa.

    PS: o que danado é Coco Velado?

    • Estimado irmão Ducaldo: “Diz-se (velado) do coco quando tem a amêndoa inteiramente solta da casca” (V. Aurélio). Em nsuma, um coco quase apodrecido, mas nem tanto. Provoca gazes insuportáveis quando digerido, especialmente quando misturado com o milho do xerém. Não mata, é claro. Minha bênção velada, no bom sentido, se há algum.

  4. Dizem que quem é vivo sempre aparece. Após uma longa (longuissima diga-se de passagem) pausa eis-me aqui. Será que o Reverendo lembra da pobre Floz de Liz?

  5. Pois é, meu caro Artur, voltei…e voltei pra ficar! Rs
    Obrigada pelas boas vindas!

    Beijos

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