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As confissões de Paulinha – I

3 comentários

 MariaMadalena2

Luvanor, o grande amigo do Dr. Artur, pode ser um ótimo escritor. Inteligente, culto e interessado por quase tudo. No entanto, não passa de um chato além de ser feio pra cacete. Está hospedado aqui, na minha casa, porque sou devedor. Quando pagar minhas dívidas, denunciarei a chantagem. Por enquanto…

Parece com um espeto de mangue, como observara o Dr. Quim Júnior. Magérrimo porque só come grama integral, além de ter apenas três dentes na arcada inferior e uma dentadura artificial desajustada em cima. Quando a retira da boca, seu rosto fica mais chupado do que a caveira de Hamlet.

Mas, devo confessar, Luvanor tem um ótimo papo. Infelizmente, como polonês fugitivo, esquece as vogais de nosso belo idioma. Fala estenograficamente, à la polonesa, e fico com dor de cabeça para entender o que ele diz, tentando recolocar as vogais das palavras de que me lembro quando vou dormir. Tarde da noite, aliás, porque o senhor Luvanor é um boquirroto de fazer inveja.

Ele aparece e desaparece sem dizer pra ninguém de onde veio e para onde vai. Paranoia da pior espécie. Costuma se hospedar, também, em Intermares quando trava intermináveis tertúlias com o Dr. Artur (não sei como aquele doutor aguenta) e, mais ainda, hospeda-se na minha palafita sem nenhum convite de minha parte.

Auto-hospedagem, portanto. Morro de medo quando chego cansado de minhas aulas de Ética Cristã e o encontro deitado no jirau da sala com a mochila no chão. Levanta-se imediatamente e começa a falar. Parece que me reconhece pelo cheiro.

O desgraçado do polonês passa os dias na Biblioteca “Monsenhor Braguinha”, nome em homenagem ao meu falecido pai, e que fica na Casa Paroquial que me pertence por herança. Foi alugada à Matriz da Torre por uma merreca porque tantos livros e revistas não cabiam na minha pobre palafita.

Contudo, de vez em quando, saem pérolas de sua boca murcha. Aconselhou-me, dias desses, a rever os escritos de Santa Tereza D’Ávila, que já conhecia desde os tempos de seminarista. Segundo o polonês careca, a Santa é a maior escritora erótica da Espanha e seu misticismo é pura invenção da ICR. Não concordei. Sempre admirei os escritos de Teresa, especialmente seus poemas e sua interpretação dos Cânticos dos Cânticos.

Mas, para dizer a verdade, os textos da Santa sempre foram motivo para intensas bronhas dos ingênuos colegas de Seminário.

Contudo, Luvanor insistia comigo de que ignorância, falso misticismo, virgindade e abstinência sexual sempre foram os principais pilares de qualquer religião e, mais acentuadamente, da ICR.

De fato, ao ler o último artigo do polonês, rendi-me às evidências. Reli as obras de Santa Teresa e não tive mais dúvidas. Tratava-se de uma grande escritora do Século XVI, especializada em erotismo e de grande mérito literário. Não pornográfica, propriamente. Beirando, talvez; uma intensa mistura entre a carne e o espírito. Mais carne do que espírito, sem dúvida.

Vivia descalça o tempo todo e nem o Bispo nem os bichos-de-pé eram suficientes para conter seus ataques místicos, que interpreto, agora, como uma consequência de sua beleza virgem, reprimida e aristocrática.

Ou, quem sabe, do Bispo e dos bichos-de-pé!

Uma virgindade, sem dúvida, digna de nosso Clã das Virgens Indecisas, cuja chefe, Dona Julinha, mulher belíssima por sinal, às vezes atormenta minhas noites brancas.

Luvanor, repetindo um autor inglês, já mandou dizer àquele Clã que a virgindade é a maior perversão sexual inventada pela humanidade, recusando um convite para uma palestra sobre a Polônia. Acrescentou que não sabe o que veio primeiro; se a virgindade ou a ideia da existência de Deus.

E eu concordo!

Estava, pois, copiando alguns dos poemas erótico-místicos de Santa Teresa, para leitura obrigatória dos adolescentes da Comunidade, quando ouço os gritos de Netinha no quintal da Casa Paroquial:

─ Reverendô! Reverendo Tsé-Tsé!

Fecho o livro, reponho-o na estante e saio para atender a menina.

─ Que berreiro é esse, Netinha?

─ Tão chamando o senhor com urgência na Comunidade.

─ Incêndio ou enchente, menina? ─ Perguntei assustado.

─ Pior! Muito pior! Paulinha surtou. Saiu correndo sem roupa pela praça com uma cobra coral enrolada no pescoço, gritando que o Santa Cruz é campeão.

─ Bobagem, menina! Ainda falta muito para o campeonato terminar. Deixa Paulinha surtar. O Dr. Quim que cuide das picadas da cobra. E, se puder, da virgindade de Paulinha.

─ Não pode, Reverendo. Foi enrolada num lençol e amarraram as mãos e os pés dela. Tá na enfermaria chorando e chamando pelo senhor. ─ Retrucou Netinha.

─ Se foi picada por uma coral, mesmo com o apelo do Santinha, tá lascada. ─ Disse para a menina.

A virgindade é foda, segundo Luvanor. Fui me arrastando atrás de Netinha, não sabendo se a outra ainda estaria viva. Talvez um caso de extrema unção, quem sabe. Quando cheguei à enfermaria, Quimzinho estava de plantão, assistindo à sua auxiliar de pesquisa no Laboratório.

─ Então, Quimzinho? Quantas mordidas? Duvido que exista antídoto para esse tipo de picada.

─ Não houve mordidas nem picadas, Tsé. Desenrolei a coral do pescoço da menina e a levei de volta para o serpentário. Estava hipnotizada.

─ Quem estava hipnotizada, Quimzinho?

─ A coral, Tsé! A cobrinha de três cores. Nunca vi uma coisa dessas. Paulinha é a chefe do serpentário e gosta de brincar com as cobras de lá. Nunca pensei que ela fosse capaz de um ato tão tresloucado.

─ Culpa da virgindade, Quimzinho. Precisamos dar um jeito naquele clã. ─ Respondi ao irmão e amigo.

─ Tá lá aos soluços chamando por você.

─ Mas, eu não posso fazer nada, Quimzinho. Não tenho mais idade para tirar a virgindade de ninguém. ─ Respondi sem pensar.

Entrei na enfermaria, desamarrei a corda dos punhos e dos tornozelos da menina e me sentei num banquinho encostado na parede de tábua rachada. Esperando, apenas. Dez minutos depois, não me contive e lhe perguntei:

─ Paulinha! Por que me chamou?

─ Quero me confessar, Reverendo. ─ Respondeu entre um soluço e outro. Estava mais calma, no entanto.

─ Ora, Paulinha, você é uma menina pura e sem pecado. Pra que essa bosta de confissão se não adianta de nada? ─ Respondi.

Ela voltou a soluçar e, para não aperrear mais a menina, disse as palavras rituais para começar a Confissão:

─ Em nome do Primeiro, do Segundo e do Terceiro, Amém! Confesse tudo, minha filha, mas, depois, não se arrependa de outra besteira que vai fazer.

─ Pequei, Reverendo! Sou uma virgem pecadora!

─ Desembucha logo, menina, que ainda tenho minhas aulas noturnas. ─ Disse para apressar a penitente.

─ Buááá! Buááá! Buááá! ─ Soluçava Paulinha.

Fiquei esperando. Era o jeito.

                      (continua)

InscritosEmPedra
  1. Mas o texto acaba na melhor parte…
    Conte-nos logo a confissão da Paulinha, Reverendo.

  2. Paulinha não surtou: Teve uma visão de mais um título do Santa Cruz e resolveu comemorar.

    Se existe outro motivo para a lúdica demonstração de amor ao Santa, só a confissão poderá esclarecer.

    PS: Tremenda sacanagem nos deixar aguardando a confissão.

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