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A renúncia de Bento, segundo Tsé-Tsé

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 bento16

No ano passado, um cronista meio idiota fez uma gozação, quando Frei Leonardo Boff afirmara que Bento XVI deveria renunciar ao Papado por razões de saúde.

Naquela época, Boff já sabia o caminho das pedras.

Os fiéis católicos, sempre os últimos a saberem as coisas de sua própria Igreja, ficaram estupefatos. Até o robô Curiosity, atualmente pesquisando petróleo em Marte para os americanos, mandou uma mensagem de pesar. Encontrara o diabo nas pedras marcianas, menos vida e, claro… Deus.

De minha parte, nenhuma surpresa. Ano passado, a convite de Bento, fora a Roma assistir à inauguração das latrinas de ouro do Vaticano, obra máxima do Papa renunciante. Queria também pedir um empréstimo ao Banco do Vaticano, mas a situação estava meio complicada.

Passamos um dia inteiro conversando sobre as coisas do mundo, como diria Paulinho da Viola, tomando um saboroso chá de flor do mangue que lhe presenteara. Foi nessa ocasião que Bento me falou de coisas emblemáticas, pedindo-me reserva absoluta, pelo menos até o anúncio oficial.

Comunicou-me então que renunciaria dali a um ano.

─ Por que, Bento? Nem dez anos de Papado e você já está desistindo? ─ Exclamei surpreso.

─ Num guento mais, Tsé. Eu me matando aqui de tanto pensar em Nossa Senhora e tudo o que é padre, bispo, arcebispo e cardeal só pensando em encher a pança com filé, caviar e vinhos de primeira qualidade.

─ Eu também quero, Bento. ─ Não deixei de exclamar num verdadeiro ato falho.

O Santo Padre, no entanto, nem ligou ao meu desejo de gula. E continuou:

─ Hipócritas! Sepulcros caiados por fora, como dizia Nosso Senhor. Só pensam no poder! Nas coisas deste mundo corrupto! E vivem conspirando, conspirando e conspirando contra mim. Verdadeiros Judas, disfarçados de sacerdotes. Nada mais! Não quero ter a mesma sorte do santíssimo João Paulo I. ─ Respondeu Bento.

─ Ora, meu querido! Obrigue todo mundo a comer capim orgânico. Depois, chame o Dr. Gurgel, lá de Brasília. E pronto! É o que eles merecem. ─ Respondi para animar o amigo pontifical.

Na verdade, todo mundo tá dizendo que Bento tem um marca-passo no coração e já teve um AVC bem recente. Estaria cansado, o coitado, e não suportava mais rezar tanta missa pelo mundo a fora.

Não acredito nessas tolices! Bento está acostumado a marcar passo, desde os tempos da JN. E, como me falou, AVC não passa de letrinhas, igual à mania alemã de abreviar tudo em siglas.

─ Como nos belos tempos do grande Líder da Nação Alemã; tais como NSDAP, OKW, SA, SS, IG, AEG, VW, ICR, FDR, HT, JS e tantas outras. ─ Acrescentou o Santo Padre, pleno de ardor nacionalista.

─ Bobagem Bento! No Brasil também é assim: PC, PT, PMDB, PSD, PV, INSS, IPTU, IPVA, IR. Tudo igual.

─ É diferente, Tsé. ─ Resmungou Bento.

─ Tudo bem, mas são siglas, né?!

─ Sim, siglas! Mas, nesse caso, inocentes. Eu mesmo, Tsé, já escrevi milhares de letrinhas como no meu recente best-seller sobre a vida de Nosso Senhor. Vendeu mais de cinquenta exemplares, somente aqui no Vaticano. ─ Vangloriou-se Bento.

─ Então, mais uma vez lhe pergunto: Por quê? ─ Disse comovido.

─ Porque já não aguento mais ver tanto padre na minha frente. Lobos, disfarçados com peles de cordeiros. Na verdade, foi um erro da minha parte. Como Chefe do Santo Ofício, a coisa era muito legal. Censurei padre, bispo, cardeal, homossexuais, pedófilos, feministas, a pílula e a camisinha. Agora, tá todo mundo contra mim. Ninguém mais me obedece e os alemães nasceram para mandar e mandar.

─ Não é verdade, Bento. Alguns, talvez, protestem. Como aquelas sem vergonha da Ucrânia ou as sapecas menininhas francesas em frente da Notre Dame de Paris. ─ Disse pra consolar o irascível e inconsolável velhinho alemão.

─ Não, Tsé! Você não conhece bem os nossos subterrâneos. É todo mundo conspirando e gastando o dinheiro do povo. Vão terminar me assassinando. Você me conhece desde nosso Doutorado e sabe muito bem que doei toda a minha fortuna aos pobres. Vivia lendo e escrevendo. E censurando, uma atividade lúdica que me enchia de prazer; coisinha boba que não incomodava ninguém. Aí, inventei esse negócio de ser Papa. Não aguento mais! Vou dar no pé, embora não saiba pra onde ir. ─ Falou meu santo amigo.

─ Não seja por isso, Bento. Hospedo você pra vida toda, se lhe resta alguma, em nossa Comunidade. Minha palafita é ampla e gostosa e dá de frente pro rio. Assistência médica, comida e dormida grátis. Além disso, você assiste ao banho de rio das meninas. Todas sem roupa, Bento. Uma delícia!  ─ Ofereci tudo ao amigo.

Mas, por honestidade, acrescentei um detalhe:

─ Terei de mandar embora Luvanor Bianski.

─ Luvanor, o polonês?! ─ Exclamou Bento cheio de terror.

─ Sim, ele mesmo. Infelizmente, é meu auto-hóspede! ─ Confirmei.

─ Você hospeda aquela peste?!

─ Contraí dívidas com ele. Uma nota preta, aliás. Contudo, por você, posso mandá-lo para Intermares, lá em Cabedelo. ─ Disse para aliviar a angústia do Santo Padre.

─ Para a casa do maldito psiquiatra? Eles bem que se merecem! Mas, e o meu novo livro? Estou escrevendo a biografia de São José das Botas, aquele que levou a Sagrada Família até o Egito e ninguém sabe se voltou. Onde vou encontrar a documentação, Tsé? ─ Perguntou Bento, interessado.

─ Sem problema. Temos a maior biblioteca das Américas do Sul e Central, na Matriz da Torre. Fácil, fácil! Será o melhor livro que você vai escrever. Talvez, o último, quem sabe. ─ Respondi.

─ Vou pensar, Tsé. Parece uma boa oferta.

─ Vai ser, Bento. Lá, você terá aulas de democracia e convivência com a diversidade. Vai gostar do Clã das Virgens Indecisas, embora nem tanto do Clã dos Florzinhas. Mas garanto que ninguém é de ninguém e ninguém incomoda ninguém. Não chatear para não ser chateado. Haverá, claro, algumas divergências. Saudáveis, é verdade. Mas você termina por se acostumar. ─ Acrescentei.

─ Não chatear para não ser chateado. Belo brasão! ─ Disse filosoficamente o futuro renunciante.

─ É o brasão dos Perrusi, Bento. ─ Respondi.

─ Mas, se Perrusi Sênior estiver por lá, não vou. Ele é pior do que Luvanor.

─ A gente dá um jeito. ─ Tentei amenizar as coisas.

─ Deixa eu pensar… ─ Repetiu o Papa a frase mais comum em seu Pontificado.

─ E aquele empréstimo?! ─ Perguntei ansioso.

─ Falarei com Tedeschi, mas o rapaz está pra cair. ─ Respondeu Bento com um ar pesaroso.

Na verdade, jamais consegui o empréstimo. Queria pagar meu dentista, um sabido que sempre me cobra os tubos por cirurgias imaginárias, e saldar minha dívida com Luvanor, o chantagista polonês.

Dias depois da conversa, Ettore Gotti Tedeschi, o presidente do Banco do Vaticano, perdeu o cargo. Estava sendo investigado por lavagem de dinheiro e era suspeito de vazar informações confidenciais para favorecer interesses pessoais.

Com todo o respeito, nunca uma renúncia veio tão a calhar.

DimasLins
  1. Taí um duelo que gostaria de ver – Luvanor X Bento XVI. UFC perde.

    Confesso não ter muito interesse quanto ao que acontece na cúpula da ICR; se colocassem um cone no trono eu não notaria a diferença.

    Mas, se merece um texto seu, Reverendo, olharei com mais cuidado.

  2. S.S. Bento poderia abrir uma lojinha na comunidade. Minha sugestão:
    “Kramer & Sprenger Caffé.”

  3. Pois é, providencial!

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