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Soutine

11 comentários

Aqui, em Acapulco, faz sol no Pacífico, embora suas águas sejam geladas. Talvez, seja uma questão poética enfim compreender a diferença entre o frio das águas e o calor dos ares. Não sendo poeta, reduzo o problema às marés, ao clima e a mais-não-sei-o-quê. Estou num hotel ultraluxoso e estava receoso de me aventurar na praia, pois sou friorento. Percorria apenas seus eventos. Escutei, por exemplo, a ópera Carmem de Bizet, com a mezzo-soprano espanhola  Nancy Fabíola. Era uma produção pós-moderna. Pelo menos, interpretei assim, pois a Carmem era… loira.

Porém, nada me chamou mais atenção e perplexidade do que visitar a pequena exposição de Chaïm Soutine. As obras estavam expostas num salão subterrâneo, feito de quartzo azulado. Estava debaixo do mar, pois a 100 metros da praia. Era transparente, e se podia ver a água, os peixes e os corais. Não era tão iluminado assim, embora a luz difusa ajudasse a sobressair os quadros. Era uma proeza arquitetônica dos mexicanos, embora projetada por americanos. Era o lugar perfeito para as pinturas de Soutine.

Saí mudo da exposição, coloquei um calção de banho e fui tomar banho de mar gelado. Quarenta minutos depois, era salvo pelo salva-vidas. Eu nadara até o meu último fôlego. Formou-se um pequeno grupo em torno de mim, e me foi indagado o óbvio: por quê?!

_Foi Soutine — respondi, ainda melancólico com o realismo impressionista do pintor judeu russo do Sul.

Todo mundo entendeu. Inclusive, era o terceiro salvamento do salva-vidas. Quando levantei e me senti bem, procurei o meu salvador. Fiquei estupefacto. Era Carmem! Quero dizer, era Nancy Fabíola, a mezzo-soprano loira e espanhola. Ela me disse que salvar vidas era seu hobby. Só cantava em hoteis perto do mar, estando no seu contrato o trabalho como salva-vidas.

Ela disse que compreendia meu gesto.

_Não queria morrer. Só queria nadar. Não contava com meu cansaço e o gelo da água.

Ela disse que me compreendia mais ainda. Era filha da amante de Soutine.

_Aaah…

Desde pequena, sua mãe lhe ensinara a nadar, independentemente do fôlego e da temperatura da água. Nadar era o sinal de um lirismo desesperado.

Sim, era isso. Foi isso que senti na exposição. Lirismo e desespero. Aquelas pinturas, ainda mais naquele salão debaixo d’água, não se exerciam, por íncrível que pareça, no espaço e sim no tempo. São pinturas que saem da sombra e explodem nas luzes de cores incríveis. Era difícil descrever as cores dos quadros de Soutine. Elas gritavam, batiam na minha face. Elas sofriam. Levaram-me bem longe; talvez, por isso, a vontade de sair nadando. Acho que Soutine punia o sofrimento, daí seu estranho realismo. Há corpos de animais esquartejados. Há abominações de abominações.

Diante de Soutine, era impossível não pensar noutro terrível pintor, Francis Bacon.

Soutine era o sofrimento de um subjetivismo exaltado.

Agradeci, novamente, a mezzo-soprano e fui beber uma tequila. Estava precisando. Pensei em Soutine e nos seus quadros. Por causa da sua pintura, eu era uma mistura de amor, revolta e resignação.

Depois, voltei a ser um Perrusi e fui dormir.

Olhei muito esse quadro. E, mesmo abalado, cormi carne no jantar.

_Você é um especista inveterado — acusou-me a vegan que jantava comigo.
_Adoro carcaças — disse, sem muita convicção.

Essas casas gritando… Angústia foi pouco. Casas gritando. Nunca pensei nisso. É aterrorizante.

Era Soutine. Mas foi impossível não imaginar que não fossem todas as minhas desventuras. Foi aí que decidi nadar pelo Pacífico até o Peru. Sim, fiquei doido pra carai. Mas a culpa era do quadro. Não posso ser responsável por todas as minhas ações. Nessas horas, a responsabilidade é a pior das prisões. É pior do que uma promessa.

Enfim, não nego a maluquice das minhas ações suicidas, apenas não as assumo. E agradeço a Nancy Fabíola pela minha vida. Ser salvo por uma Carmem loira e salva-vidas é, decididamente, chique. Tudo isso anuncia um 2013 enigmático, pensei e sonhei.

Sementeiras
  1. Não conhecia Soutine. Me deixou chapado.

    A comparação com Francis Bacon é bem oportuna; gosto muito da obra de Bacon e até comprei um pequeno livro a respeito.

    Essas casas lembram “O Grito” de Edvard Munch, ou estou viajando?

    Esse site é bem legal e as imagens mostram que considerar uma certa proximidade estética entre Bacon e Soutine não é totalmente disparatado :

    http://www.juncha.net/francis-bacon/

  2. Aqui, a Nancy Fabíola cantando a “Seguidille”:

    http://www.youtube.com/watch?v=HiT73kUr3CU

    Acapulco não é meio nostalgia, meio Elvis? Se bem que não dá para fazer uma crônica usando Cancún. Soa meio ilha de Caras, point…

  3. André Tricolor Virtual

    As imagens parecem distorcidas ao fundo de um espelho quebrado … ñ conhecia também Soutine, e muito pouco do filósofo Francis Bacon.

    E que tal a próxima cronica ter como pano de fundo o Lago Vostok. Eita, acho que não vai dar certo, já que nosso amigo Artur é friorento, literalmente vai congelar, embora sua mente ferva de sabedoria e boas ideias para nos contar.

    “A pior solidão é não ter amizades verdadeiras.” – Francis Bacon

    • Não é o filósofo, não, doido. É o pintor. Vi uma exposição formidável do cabra. Vá no endereço da Enciclopédia Ducaldo, agora também da pintura.

      • André Tricolor Virtual

        (rsrsrsrs),

        Putz Artur, todo mundo penso que é filósofo… Desculpa Francis, seu pintor doido e fabuloso!

        Vou seguir a Enciclopédia Ducaldiana do nobre pintor.

  4. Artur,
    Veja a coincidência: logo depois de ler seu post desesperado sobre Soutine fui a Paris e, na primeira estação de metro que entro, dou de cara com um cartaz sobre uma exposição de obras do próprio, no museu de l’Orangerie. Fui vê-la em homenagem a seu post – embora com medo de cair na tentação de nadar no Sena em pleno inverno, como você no Pacífico. Pois bem, os quadros (principalmente as casas, mas também alguns retratos) deixaram-me alegre, exultante, doida pra tomar champagne e comer uma daube à la provençale. Será que sou mais doida do que você ou se trata apenas de uma doidice diferente?, pensei. Agora, de volta a Marselha e relendo seu post, descobri uma frase sua que talvez explique nossas reações opostas: “Acho que Soutine punia o sofrimento”. Pois é, aqueles objetos e seres deformados por forças que não se sabe se são naturais ou extranaturais, aquelas cores vibrantes e exageradas, parecem mais do que punir o sofrimento: parecem mangar dele, desafiá-lo alegremente misturando-se ao seu movimento. Assim fui salva do gelo do rio Sena (ainda bem, porque acho que nem ficaria comovida com uma salva-vidas loira que encena Carmem nas horas vagas). Seja como for, obrigada por sua dica involuntária: Soutine vale a pena. Abraço.

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