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O penico marsupial

3 comentários

O recado de Tio Leó era breve e seco: “Venha com urgência ao sítio em São Lourenço. Coisas estranhas estão acontecendo”.

Mandei preparar minha Lambreta, modelo 1956, para começar a longa jornada logo ao amanhecer. Mesmo com o motor estourado, fazendo 20 Km/h e soltando uma fumaceira danada, chegaria no mínimo em três horas ao sítio. Cinco mil buracos, quatro atropelamentos de motociclistas, dois assassinatos em plena rua, cinco brigas de vizinhos, meia hora de engarrafamentos.

Tudo bem!

Quando cheguei à porteira do sítio, Tio Leocádio já me esperava. Eram proibidos veículos a motor entrar na propriedade, reserva natural particular, com um bom pedaço de mata atlântica preservada e um pequeno riacho de água mineral que corria em direção do Capibaribe.

Na varanda do bangalô, Tia Laurinha me esperava com um cafezinho e uns bolinhos de goma feitos em casa.

Depois dos cumprimentos habituais, ficamos a conversar bobagens e fiquei pensando que a urgência é um vício urbano.

Dr. Leocádio Braga era irmão mais moço, temporão, do Monsenhor Braguinha, meu pai. Da minha idade, praticamente, embora tenha me acostumado, por gozação, a chamá-lo de Tio. Era Engenheiro Agrônomo e, quando deixara a Universidade juntamente com a Dra. Laura Braga, Médica Clínica, fora exercitar sua preguiça em São Lourenço, pesquisando e admirando as obras do Todo Poderoso.

Tia Laura ainda clinicava para os habitantes do sítio e os dois praticamente não saíam de lá, salvo para se divertirem na feira do Troca-Troca de São Lourenço.

─ Enfim, Tio Leó! A que devo tanta urgência? ─ Perguntei.

─ Não sei! Na verdade, escrevi aquilo por impulso. Tava com saudade de você, Tsé. Trouxe o pacote de chá do mangue que Laurinha pediu? ─ Respondeu-me placidamente.

─ Tá na Lambreta, numa bolsa preta.

─ Ramirôôô! Ramirôôô! ─ Gritou Tio Leó.

Um rapaz fortudo com seus vinte e poucos anos se aproximou correndo, deixando o leirão de coentro e cebolinha abandonado. Estava com um short esfarrapado e sem camisa, suando em bicas.

─ Chamou, Dr. Leocádio?

Enquanto o rapaz ia buscar minha bolsa, notei duas cicatrizes enormes quase paralelas em suas costas. Fiquei calado. Tio Leó, finalmente, enquanto tomávamos um café da manhã ecológico, começou a contar o que ouvira na feira do Troca-Troca.

─ Pois é! Há um mês atrás, o ceguinho Aristeu, da Assembleia de Deus, tava pregando o fim do mundo como sempre faz e, no meio da gritaria, disse que estavam construindo um disco voador num banhado a uns dois quilômetros do meu sítio. Ri-me a beça da besteira do ceguinho. História de que o mundo ia se acabar no dia 21 de Dezembro.

─ Eu mesmo, tô morrendo de medo. ─ Interrompi Tio Leó, enquanto engolia um delicioso bolinho de couve orgânico.

─ Pode ser! Uma semana depois, Ramiro sumiu. Fiquei preocupado porque ele é meu afilhado e filho mais velho do nosso caseiro. Uma semana depois voltou com aquelas cicatrizes na lombada.

─ Fugi da construção. Todos são escravos e levam chicotadas por qualquer deslize. Queria fazer umas horas extras pra me casar com Rosa. ─ Disse Ramiro.

Entreguei o chá de mangue que o Dr. Quim mandara pra Tia Lalá e perguntei ao rapaz:

─ Que construção era essa?

─ Acho que se trata de um enorme penico pros ricos cagarem de helicóptero. ─ Respondeu o rapaz cheio de ingenuidade.

─ Aristeu diz que é um disco voador, segundo Tio Leó acaba de me dizer. ─ Insisti.

─ Pode ser! Mas nunca vi disco voador com arquibancadas de cimento, tijolo e ferro. Muito peso pra levantar voo. Além disso, sessenta mil timbus ficam sentados no penico olhando pro alto, esperando a merda cair do céu. ─ Terminou Ramiro.

─ Por que timbus? ─ Perguntei.

─ Deixa pra lá, Tsé. A maior população de timbus do mundo está concentrada em São Lourenço. Aqui mesmo no sítio, os cachorros pegam uns dez por dia. Especialmente, no meio do ano quando chove pra cacete. É por isso que chamam São Lourenço de Penico da Zona da Mata. ─ Intrometeu-se Tio Leó.

─ Tudo muito bom, tudo muito bem. Mas você me chamar pra ver timbu de madrugada não faz o menor sentido. ─ Disse, em resposta a Leocádio.

─ Faz, sim! Fabriquei uma escada de corda até o alto da maçarandubeira, ali do lado, e olhei com o binóculo lá de cima. Pareceu-me um bolo de noiva, confeitado de branco por fora e pintado de geleia de morango por dentro.

─ De fato, muito estranho. Um disco voador, um penico e um bolo de noiva. Uma Santíssima Trindade perfeita! ─ Exclamei.

─ Por isso mesmo, Tsé. Achei que se tratava de um misterioso problema teológico. Cada um vê e pensa de um jeito. Quero sua opinião. Se for um óvni, tô lascado. Quando voar, arranca todo o meu sítio. Se for um penico, tô lascado também, porque vai ser o maior fedor na redondeza. E se for um bolo de noiva, como eu penso, quem será o doido que mandou construir? ─ Terminou Leocádio.

─ É um ET de olho verde e cara de bunda.  Vi duas vezes quando estava por lá.─ Interrompeu-nos Ramiro.

─ Mais respeito pelas autoridades, Ramiro. ─ Observou a Dra Laura Braga.

─ Pior! Uma mistura desgraçada. ─ Exclamou Tio Leó, preocupado.

─ E meu papel em tudo isso? ─ Perguntei intrigado.

─ Quero que você suba na árvore pra olhar de binóculo. Eu mesmo tô ficando cego e não vi direito. ─ Respondeu Leocádio.

─ Tá doido! Não tenho mais idade pra isso.

─ Além disso, a corda da esquerda tá ficando podre. ─ Acrescentou Tia Lalá.

─ Ora Laurinha! Tanto faz a esquerda como a direita. Se uma quebrar, a gente se agarra na outra. ─ Disse Tio Leó.

Subi e nenhuma corda e se quebrou, graças a Nossa Senhora das Subidas e das Descidas Perigosas. Quando voltei, já sabia do que se tratava.

Estavam construindo um gigantesco Penico Marsupial.

─ Em suma, Tio Leó. Trata-se da tal Arena Timbu. E com dinheiro público, isto é, da maioria da população que é tricolor. O que não deixa de ser um absurdo. ─ Falei para Leocádio.

─ Também acho. Todo mundo, aqui no sítio, é do Santinha. E o ET vai dar o penico de presente para os barbies. Não admito. Vou mandar derrubar tudinho. ─ Disse indignado o Dr. Leocádio Braga, ecologista internacionalmente famoso.

─ Não pode, Leó. Vamos agir com meios legais. Faremos uma petição ao Dr. Joaquim, que manda prender até deputado, pra interromper a construção do Penico. Depois, o ET vai ter que devolver o dinheiro de todos os tricolores.

─ E quem é esse tal de Dr. Joaquim? ─ Perguntou Tio Leó.

─ Sei lá! Me disseram que ele vem do povo e faz tudo que o povo quer.

InscritosEmPedra
  1. Grande Tsé, você arrasou! Texto excelente!
    Acho que o perigo está no povo passar a fazer tudo o que Dr. Joaquim quer…Há muitos casos na história…
    P.S. E tem gosto de que, esse bolinho de couve orgânica?

  2. André Tricolor Virtual

    Reverendo,

    Muito bom mesmo.

    Tem até duas receitinhas:

    – O bolinho de couve orgânico fica fantástico com molho de tomate californiano com pedaças de hortelã;

    – E o chá de mangue para tia Lalá fica uma beleza com frevo cola batida no liquidificador ambulante.

    Enfim, o tal pinico milionário bem que poderia ser a Arca de Noel para levar ao inferno os animais corruptos, selvagens e domésticos que assombram o país. E que levem juntos os timbus.

  3. Os timbus saíram no lucro – além do enorme e luxuoso penico, ainda vão ganhar hotel no centro de treinamento e uma merreca sobre o que for construído no terreno do antigo peniquinho.

    Sem contar que se livrarão da dívida com o INSS, pois quem for explorar o terreno terá que que pagá-la, eliminando a penhora que pesa sobre o patrimônio timbu.

    PS: Reverendo, Ramiro delirou ou é um torcedor da barbie enrustido – O número máximo de timbus nunca passa de vinte mil, se o time estiver bem.

    Eles vão fazer eco no penico marsupial.

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