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Matemática Teológica

3 comentários

Rascunho da primeira tentativa de calcular a raiz quadrada de Deus

 

(primeira parte)

Não sei por que, e para minha total frustração, as meninas não vieram ao banho da tarde. Apenas alguns meninos desinteressantes; pelo menos, para mim. Recebi novamente Quimzinho que estava menos agitado do que na tarde anterior.

─ Pois bem, Tsé. O modelo matemático de Beija-Flor, sugerido pelo Professor Erick Fyord, foi derivado das equações da Relatividade, em que energia e massa são equivalentes. Na verdade, cara e coroa da mesma moeda, embora ninguém saiba de qual moeda se trate.

─ Você já disse isso, Quimzinho, e não precisa repetir. Seja objetivo, por favor. ─ Adverti meu amigo, logo de saída.

─ O resultado do modelo, no entanto, é frustrante: raiz quadrada de infinito. A gente sabe o que é uma raiz quadrada. Mas o Infinito é outra coisa. Foi quando me lembrei de que você é Doutor em Teologia e Filosofia, especializado em assuntos diversos que não têm fim. ─ Concluiu o curandeiro.

─ É verdade, Quim. Estudei bastante o Infinito na Gregoriana, especialmente debaixo da Ponte Milvia. Acho que posso ajudar. Mas fico muito magoado com vocês. Não me falaram nada do que estava ocorrendo.

─ Desculpe, Tsé. Mas o segredo era importante dada a estranheza do troço. Além disso, ainda não havia surgido nenhum problema teológico ou filosófico significativo. Mas fico feliz com sua ajuda num momento tão crucial para nós. Vai tirar uma angústia sem tamanho do meu coração. ─ Exclamou Quimzinho.

E comecei didaticamente:

─ Como nós sabemos, a Teologia é a mãe de todas as ciências. O pai, que não era de nada, deu no pé e sumiu. Escondeu-se em lugar incerto e não sabido. Além disso, a Teologia é, também, a ciência em que todas as hipóteses são verdadeiras desde que ninguém, até hoje, provou que são falsas. E, segundo a melhor Lógica, o que não é falso, é verdadeiro, pois, pois…Além disso, pra todos os fins, qualquer Teologia serve.

─ Deixe de prosopopeia, Tsé. Quero e preciso de soluções. ─ Exclamou Quimzinho.

─ Veja bem! Há dois métodos para se chegar ao Infinito. Aprendi o primeiro com o Monsenhor Braguinha, meu pai. Quando tinha uns oito anos de idade, gostava de bagunçar a biblioteca dele à procura dos livros de Tarzan. Aí, ele me botava de castigo pra poder trabalhar em paz. Eu ficava sentado numa cadeira de balanço e ele me obrigava a contar de zero até o infinito. Mas, quando chegava aí por volta de quinhentos, eu caía no sono.

─ Bem feito! Bem feito, Tsé. O Monsenhor era um sábio e ajudou bastante nossa Comunidade. ─ Interrompeu-me o curandeiro.

─ Não me interrompa que o assunto é muito complicado. Meu pai contou-me que, por volta de 1252 E.C. (Era Comum), Frei Humberto de Alcázar fundou uma ordem religiosa só pra contar até o Infinito. Construiu seu mosteiro nas encostas da Sierra Blanca, a noroeste de Madri, onde tinha uma fazenda, e recrutou 60 monges para auxiliá-lo. Fora os ridículos parrapapás litúrgicos da ICR, a única regra da “Orden de los Contadores” era ficar contando, sem parar, de zero até o Infinito que nem meu pai queria me obrigar. Dois monges por dia ficavam contando, um revezando-se com o outro. À noite, outros dois ficavam de plantão fazendo a mesma coisa de tal forma que a contagem nunca parava. E isso durou mais de cem anos.

─ Que coisa estranha, Tsé! A brincadeira do seu pai era até engraçada porque botava você pra dormir. Mas gente inteligente como um monge entrar numa dessa dá pra desconfiar. ─ Interrompeu-me novamente Quimzinho.

─ Por favor, Quimzinho! A coisa é mais séria do que parece. O Mosteiro arrecadou uma fortuna enquanto os monges contavam. Foi aí, cento e vinte anos depois, que uma séria crise financeira abalou a ICR. Clemente VII, o Papa de plantão de origem espanhola, lembrou-se, então, do tal Mosteiro. Expediu uma Bula extinguindo a Ordem dos Contadores e se apropriou de todas as riquezas dos monges. Deu uma imensa festa em Roma, gastou tudo de uma vez só e morreu engasgado com uma espinha de peixe.

─ Foi pouco, foi pouco! ─ Exclamou o curandeiro.

─ Caluda, Quimzinho! Examinei o velho Livro dos Contadores quando era auxiliar da Biblioteca do Vaticano. Os monges já haviam chegado a cinco seistrilhões e já estavam mais perto do Infinito do que muita gente pensa. Aí, tiveram de parar a contagem. O que foi uma pena porque o método adotado, embora promissor, jamais ficou provado.

─ Nem ficaria, aliás, segundo minha modesta opinião. ─ Argumentou Quimzinho.

─ Não encontro nenhuma razão lógica pra sua afirmação. Se continuassem até hoje, quem sabe se não teriam conseguido? Pura cobiça e gula de Clemente VII. Nada mais! ─ Respondi meio carrancudo.

─ E o segundo método, Tsé? Não pode ser mais complicado do que o primeiro. ─ Insistiu o Dr. Quim Júnior.

─ De fato, mais fácil, embora de origem misteriosa. Mística, diria mesmo. Mais rápido e eficiente, também. O Padre La Chance, meu professor de Cosmologia na Gregoriana, dizia que o Infinito é Deus. E, com isso, Quimzinho, tá resolvido o problema de Beija-Flor. Basta extrair a raiz quadrada de Deus.

─ Você não passa de um embromador sacana, Tsé. Tô aqui preocupado com o futuro de nossa Comunidade e lá vem você com besteira. Como se pode extrair a raiz quadrada de uma divindade? ─ Rosnou Quimzinho.

─ Não precisa ofender meu caro irmão. Nada sei sobre raiz quadrada. O resto é problema seu. ─ Respondi à altura.

─ Desculpe, Tsé. É que estou nervoso. Mas o Dr. Quim Sênior, meu pai, acreditava que havia 52.345 deuses que protegiam a África, do Saara até o Cabo da Boa Esperança. Num cabe dentro de uma raiz quadrada. Qual o critério que vou usar? ─ Resmungou meu irmão adotivo e amigo de infância.

─ Por causa de tantos deuses é que a África não anda pra frente. Mas a segunda opção metodológica é mais fácil mesmo. Demais até, Quimzinho. Use a navalha de Occam e adote os deuses da ICR que são apenas três e mais ou menos um. ─ Respondi apiedado do embaraço intelectual de nosso curandeiro.

─ Três ainda vai. Mas nunca vi ninguém extrair raiz quadrada de “mais ou menos um”.

─ Veja bem, Quimzinho. Há o Pai (P), o Filho (F), o Espírito Santo (ES) e a Virgem Maria (VM), que é a Mãe de Deus e a Rainha do Céu e, portanto, legitimamente divina. Em homenagem ao Pastor da Assembleia, que não acredita na divindade de Maria, use novamente a tal navalha e corte o “mais ou menos” dela. E, assim, restam apenas os três primeiros que formam a Santíssima Trindade. Aliás, em vez de uma raiz quadrada, por que Beija-Flor não extrai uma raiz cúbica? Mais fácil do que pegar siri no mangue. ─ Terminei.

─ Não sei se a gente pode passar do quadrado para o cúbico assim tão facilmente. Talvez, seja preciso descobrir outro método. Vou falar com Beija-Flor.

─ Não entendo de Matemática, mas deve ficar assim: raíz quadrada ou cúbica de f(P), mais f(F) e mais f(ES). Nada mais do que isso. ─ Terminei com muita convicção.

─ E como vou extrair a raiz quadrada/cúbica de letras? ─ Insistiu meu amigo.

─ Ora, Quimzinho! A Matemática é apenas um capítulo da Lógica e os símbolos são intercambiáveis. Como você disse sobre energia e massa, lembra-se? Transforme as letras em números, usando a ordem numérica como aparecem no alfabeto. Mas tome cuidado com a nova reforma ortográfica que as letras mudaram de lugar.

─ Preciso ser doido pra acreditar em você, Tsé. De qualquer modo, vou entregar a Beija-Flor todos os seus dados pra ver se ele consegue alguma coisa.

Quimzinho já ia se levantando do banquinho de cipó, quando eu lhe disse:

─ Pera aí, meu irmão. A Matemática Teológica, ou a Teologia da Matemática, como você quiser chamar, não é tão simples assim. É preciso levar em conta os mistérios, inclusive o da Santíssima Trindade. Senão vai dar um bode desgraçado.

─ Assado ou guisado, Tsé? ─ Respondeu ironicamente o curandeiro.

─ Deixe de brincadeira que a coisa é séria. ─ Retruquei, não gostando da piada.

─ Tá bom! É melhor mesmo ficar calado que estou com o coração sangrando.

(continua)

DimasLins
  1. André Tricolor Virtual

    Reverendo,

    E a partícula de Deus (Bóson de Higgs) não foi levada em conta? A Teologia da matemática tem que ser exata ou apenas abstrata?

    As meninas tão migrando pras lajes da vida. As águas do rio andam poluídas.

    • Irmão André: Nem exata nem abstrata. Tudo depende ma maré baixa ou alta. E das meninas que vêm e somem. Minha bênção sem nenhum compromisso comexatidões.

  2. As meninas não foram tomar banho? Apareceram uns meninos? Garanto que foi coisa do Beija-Flor. A interrupção de Dr. Quim, dessa vez, veio a calhar.

    Embaixo da ponte Mílvia o senhor estudou o infinito triangular, certo? E não foi aquele do Pascal…

    Achei muito interessante a Matemática Teológica, ou Teologia Matemática. Não demora e R. Dawkins vai bater em Bel-okan.

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