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Safadeza no Laboratório

4 comentários

Laboratório de Dr. Quim, financiado pela Fundação Jesus Quântico (FJQ)

─ Tudo bem, Quimzinho! Você não é santo porra nenhuma. Nem merece, aliás, com a zorra do seu clã, onde tudo acontece. ─ Soltei a calúnia para encobrir o meu embaraço.

─ Cuidado com o que está dizendo, Tsé. ─ Respondeu Quimzinho agressivamente.

─ E digo mais! Já estão reclamando que você fala demais; é prolixo, confuso e impreciso. Para um cientista, isso é um pecado mortal. Além disso, chegou aqui falando de um tal de “modelo matemático”, sabendo que nem a tabuada eu consegui decorar na escola primária.

─ Pode ser! Mas, dessa vez, vou dizer em três palavras; ou melhor contando três sustos que levamos no Laboratório.

─ Diga logo, antes de sua canonização São Joaquim das Palafitas. ─ Respondi ironicamente.

─ Um mês atrás, Beija-flor desapareceu misteriosamente. Nem o Clã da Diversidade sabia onde ele se metera. Dois dias depois, ouvimos a maior zoeira no Biotério, cujo chefe é Nando Caça-Rato, seu afilhado predileto, Tsé, e um dos rapazes mais honestos da Comunidade. Fomos ver. Os ratos davam pulos enormes e corriam como uns condenados na antiga caixa d’água comunitária, coberta por uma grade de arame. Depois se acalmaram. ─ Começou o Dr. Quim.

─ Ainda bem! ─ Exclamei.

─ Aí, veio o pior. Os ratinhos pularam em cima das ratinhas e começaram a fazer aquilo, mesmo contra a vontade delas.

─ Aquilo o quê? ─ Perguntei pedindo mais precisão ao cientista.

─ O que todo mundo faz, ora vejam só. No Laboratório, pra não chocar as meninas, chamamos “aquilo” de “incursão vaginal”. Neuzinha, nossa contadora, sempre precisa e atenta, contou mais de dez “incursões” por rato em apenas vinte minutos.

─ E os outros ratinhos machos? ─ Perguntei sem querer.

─ Também! Os agressores, dez ratinhos pra ser mais preciso, atacaram-nos também, estabelecendo uma verdadeira Sodoma dentro do Biotério. Depois de uns vinte minutos se acalmaram, exaustos. Um deles, pelo menos, caiu morto de cansaço.

Aproveitamos pra fazer uma necropsia. Os tecidos musculares estavam atrofiados e a taxa hormonal acima de qualquer índice imaginável.

─ Maravilha! Quero provar uma dessas pílulas. ─ Disse sem querer.

─ Pois bem! No estômago do ratinho, encontramos uma bolinha azul. Limpinha, brilhante e com o mesmo suave aroma de Channel 5 das outras. Demos um laxante para os outros agressores e recuperamos as bolinhas restantes. Resultado, pra não ser mais prolixo: todas as ratinhas ficaram grávidas e cada uma deu à luz a mais de dez ratinhos azulados. Era tanto filhote que mandei Nando jogá-los no mangue, bem perto do jacaré de papo amarelo que defende nossas fronteiras.

─ E os ratinhos machos agredidos e sodomizados?

─ Ora, Tsé! Não ficaram grávidos, é claro. Você sabe muito bem que a natureza não deixa. ─ Respondeu Quimzinho meio envergonhado.

─ É por isso que o Clã da Diversidade não aumenta. ─ Exclamei.

─ Boato seu! Aumenta por acreção. Seu sobrinho predileto que o diga.

─ Não me interessa, já lhe disse. ─ Respondi, deixando o curandeiro continuar sua história.

─ Pois bem! Finalmente, Nando Caça-Ratos se acusou, sob o pretexto de que ninguém fazia nada e as cobaias estavam ali pra isso. Levou uma advertência verbal e, na reincidência, seria expulso o que mancharia para sempre sua belíssima reputação. Mas, o segundo susto foi bem pior. No Laboratório, todas as experiências com humanos são proibidas. Norma geral, jamais desrespeitada. Paulinha, nossa excelente provadora, do Clã das Virgens Indecisas, está gordinha e havia-lhe recomendado uma andada, ida e volta, até a Matriz, todas as manhãs, antes do expediente.

─ Coitada! É uma ladeira desgraçada, além do desperdício de tanta indecisão. ─ Resmunguei.

─ Na volta de sua caminhada, estávamos recontando as bolinhas. Ela sentou-se para nos ajudar quando, de repente, engoliu uma pílula com um pouco de chá.

─ E daí, Dr. Quim? Estou ficando interessado. ─ Não deixei de falar.

─ Paulinha saiu pela porta do Laboratório na maior correria, saltou a porteira bem alta da Comunidade e sumiu. Voltou depois de duas horas, com um cronômetro no pulso, dizendo que havia batido todos os recordes de salto em altura, corrida de cem, duzentos, quinhentos e mil e quinhentos metros. Suada e orgulhosa, olhou maliciosamente para Nando Caça-Rato e lhe perguntou:

─ Amorzinho! Não quer fazer uma “incursão vaginal” comigo?

─ Ratos e homens são parecidos, Tsé. Basta olhar para o Mensalão. Segundo os paleontólogos, temos um ancestral comum, um ratinho chamado de mussaranho. Por isso mesmo, saltei em cima dela, prendi-lhe os braços nas costas enquanto Neuzinha amarrava suas pernas. Gritava como uma desesperada e Nando grudou-lhe um esparadrapo na boca. Colocamos Paulinha na cama no quarto ao lado e ela ficou esperneando muito agitada. Meia hora depois, voltou à calma. Um rosto sereno com duas lágrimas rolando nas faces. Já desamarrada e sem esparadrapo, falou mansamente:

─ Tô morrendo de sono. Exausta!

─ Dormiu cerca de quatro horas sob a vigilância de Neuzinha. Fiquei morrendo de medo. Um dos ratos havia morrido por muito menos. Nossa Provadora acordou e sentou-se perto da mesa.

─ Tô morrendo de vergonha! Vi o que ocorreu com os ratos e, assim mesmo, deu-me uma vontade louca de experimentar. Essas bolinhas azuis são diabólicas.  ─ Confessou Paulinha.

─ Tadinha! Teria de mudar de Clã. ─ Exclamei, interrompendo Quimzinho.

─ Mas foi justamente naquele momento que Beija-Flor reapareceu. Todo barbado e sujo com os olhos injetados como se não tivesse dormido quase nada. ─ Continuou o curandeiro.

─ Boa tarde, gente! Desculpem meu desaparecimento. Meu Clã está puto comigo, mas foi o jeito. Não existe mais nenhum mistério. Vou contar em resumo o que ocorreu. Acordei às quatro da amanhã com uma lembrança imprecisa, sobre uma revista que havia lido, cerca de dez anos atrás. Nem esperei o amanhecer e sai apressado para a Biblioteca da Casa Paroquial que o Reverendo herdou do pai dele. Desarrumei tudo até que, três dias depois, encontrei o número 548 da revista Science, de Fevereiro de 1992. Tava lá! O Professor Erick Fyord, da Universidade de Helsinque, descrevia um caso exatamente igual ao nosso. ─ Disse Beija-Flor.

─ E daí? ─ Perguntamos ansiosos, contando-lhe o que havia ocorrido com os ratos e com Paulinha.

─ Não deviam ter feito isso na minha ausência. Perigoso demais! Telefonei pra Dr. Fyord, já que nos correspondíamos de vez em quando. Ficou interessadíssimo. Ele é especialista na teoria da gravitação quântica in loop, a coisa mais moderna que existe sobre a origem do Universo, e que implica na existência do Multiverso ou, melhor, na existência de vários Universos a que eles chamam de branas. Uma delas, pelo menos, é nossa vizinha. Ocorre que a explosão da supernova de 1987 foi uma das mais fortes de todos os tempos. Tão forte que rompeu por frações de segundo a tessitura do espaço-tempo. Por tal brecha minúscula, fragmentos de branas do Universo gêmeo penetraram no nosso. O Professor finlandês havia descoberto os primeiros e meu relato confirmava sua hipótese.

─ Difícil de acreditar ─ disse o pragmático Nando Caça-Rato

─ Mas é a pura verdade. Ninguém conseguiu identificar a substância dos fragmentos. Aliás, nem mesmo nosso Laboratório superequipado. Outro Universo, outras leis físicas.

─ Tamos lascados, então! ─ Disparou novamente Nando.

─ Mas há uma solução. Dr. Fyord descobriu que os fragmentos vão se evaporando pouco a pouco dependendo do número do que ele chama de cissiparização e, nós, de meiose.

Em suma, esquizogênese, processo mais do que conhecido em Botânica. ─ Acrescentou o curandeiro.

─ Exatamente, Dr. Quim. A evaporação dos fragmentos de brana ocorre na proporção direta do número de meioses e na indireta da umidade ambiente. Por causa, talvez, da excessiva acidez de nosso Universo, segundo a hipótese do Professor Erick. Ditou-me sua equação, derivada da equivalência entre massa e energia, de Einstein. Bastava recontar o número de meioses ocorridas, medir o nível de umidade de nosso mangue e substituir tais variáveis em sua equação. No seu Laboratório, em dois anos, tudo se evaporou sem deixar nenhum resíduo. No fim, pediu-me um relatório detalhado para publicarmos, em colaboração, um artigo para Science.

─ Minha Nossa! Quer dizer que tá tudo resolvido? ─ Exclamou o curandeiro.

─ Ainda não, Dr. Quim. É preciso recontar as bolinhas e medir a umidade do mangue. Depois, eu terei ainda que trabalhar num modelo matemático adequado. Vou começar no meu quarto, enquanto vocês fazem o resto. ─ Respondeu Beija-Flor.

─ Mas o processo de meiose já terminou, Beija-Flor. Estacionou em 666, cerca de quinze dias atrás. Havia me esquecido de dizer. ─ Disse Neuzinha.

─ A Besta! O número da Besta do Apocalipse! Coisa do Maligno! ─ Gritei apavorado com os braços apontados para o céu.

─ Deixe de frescura, Tsé! Somos cientistas e só acreditamos em fatos objetivos, e não em superstições da ICR. 666 é um número como outro qualquer. Trata-se de mera coincidência. ─ Respondeu o Dr. Quim.

─ Felizmente ainda existem cientistas ateus como vocês. ─ Respondi mais calmo.

─ E foi, então, que deu o maior bode. O modelo matemático final de Beija-Flor deu uma equação mais do que estranha. Ininteligível! E é por isso, Tsé, que vim lhe visitar. ─ Acrescentou Quimzinho

─ É urgente, urgentíssimo, Quimzinho? Estou morto de sono e suponho que precise pensar bastante. Que tal você voltar amanhã. Depois do banho das meninas, por favor.  ─ Respondi ao amigo e irmão que concordou com minha proposta mais do que sensata.

Torcedor
  1. Incursão vaginal? Isso é pior do que o nome mais vulgar “daquilo”. Dr. Quim merece uns cascudos para eixar de ser tão puritano.

    Que os ratos, de duas e de quatro patas, são uns bichos escrotos todo mundo sabe, mas essa da rataria se comendo sem distinção de sexo foi um espanto.

    Será que os roedores do mensalão não tomaram algumas dessas pílulas, e por isso foram com muita sede aos cofres?

    Não seria o caso de levar alguns deles para o laboratório do Dr. Quimzinho?

    Um pedido: Arrume outro nome para Fernando. Caça-rato é uma triste lembrança.

    • Dr. Quim derrapou nas suas descrições. Estava de lombra, certamente. E que ratos fornicadores são esses? Serão os famosos ratos trobriandeses?

      E o pior é que Caça-Rato não é uma triste lembrança; na verdade, é uma sombria realidade, pois estará conosco em 2013.

      • Irmãos Ducaldo e Dr. Artur: Em princípio, Nando recusou trocar de nome, tadição de sua família. No entanto, face à situação do tricolor, ele concordou em se chamar Nando Lacraia. Minha bênção raticida.

  2. André Tricolor Virtual

    Em Israel foi desenvolvido um mecanismo para treinar os ratos para detectar explosivos, principalmente nos aeroportos. Pensem que lá os ratos são tão metidos quanto os do Dr.Quim.

    Pelo menos lá Caça Rato não é bem vindo.

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