Acompanhe o RSS: Artigos | Comentários | Email

De carros e calçadas

4 comentários

Gostava do Recife. Não sei se ainda gosto. Andava muito. Conhecia a cidade porque andava a pé, de bicicleta e pegava ônibus. Nunca foi uma cidade propriamente bonita. Falo do todo, pois algumas partes são realmente belas. Jamais foi uma cidade fácil de conhecer. Talvez, por isso, tenha seu charme. São seus cantos que vale a pena. E, para achá-los, tinha que andar muito. Mas havia calçadas, pelo menos. Hoje, não. Só tem carro. Convenhamos, posso repetir novamente: é muito carro. Recife foi capturada pela chamada cultura do automóvel. Ficou desumana.

Não consigo entender uma cidade que não tem calçadas — são a alma da Cidade. Como passear? E, não passeando, como desfrutá-la? Olhando os escombros, dá a impressão de que o recifense é um destruidor de cidades. O cérebro urbano do Recife sofre de Alzheimer. Não há memória urbana. O antigo sobrevive por seus vestígios. Recife é uma cidade sui generis: seu cheiro é de mijo.

O transporte público é uma desgraça. Antigamente, existia algum, mas jamais foi prioridade. Havia, de fato, ônibus elétricos. Eram divertidos, porém, desconfortáveis. O que existe, serei repetitivo, é muito carro. E, com isso, enormes congestionamentos. Mas carro é incompatível com calçadas? Aqui, parece que sim. Ocupam as ruas e as calçadas. Sinceramente, carro na calçada é o sintoma mais evidente de uma falência urbana. Há um efeito curioso na cidade: ao ter um carro, elimina-se a necessidade de andar e de usar a calçada. Uma das explicações mais banais seria a violência. No carro, há proteção, segurança e privacidade. A calçada é um mundo selvagem, onde está exposta publicamente nossa fragilidade.

Não nego a pertinência dessa explicação, mas acho que virou álibi. As péssimas condições do transporte público também são uma boa hipótese — pegar um ônibus pode ser um martírio. Atualmente, na cidade, qualquer forma de locomoção não vale a pena. Prefiro imaginar, da mesma forma, que há uma concepção disseminada do uso exclusivo do automóvel para a locomoção. Diria até que a cultura do automóvel, no Recife, reflete um individualismo de classe média. Seria como se o individualismo de massa chegasse à cidade, via classe média e a apologia do carro.

Explico, colocando-me como exemplo: passei a acreditar em possessão quando alguém notou o quanto mudava na direção de um carro. Fico diferente. Viro Legião. Ao dirigir, acho todos os outros motoristas inimigos mortais. O pedestre é um pária. Meu linguajar muda, o baixo calão comanda e todos se transformam em filhos da puta. Qualquer ação do outro, e não importa como, vira uma intrusão, uma violência à minha individualidade. Fico um indivíduo absolutamente isolado do mundo; aliás, o mundo é um perigo e, invariavelmente, conspira contra a minha liberdade. Realizo a máxima de Sartre: o Inferno são os outros. Sou um solipcista no volante.

Claro, quando saio do carro, paro de pensar e de ser assim. Sair e escutar a batida da porta funcionam como um sinal de hipnose. Posso voltar ao normal. Torno-me novamente aquele sujeito razoável e solidário. E se não parasse? E, se depois da batida da porta, continuasse o mesmo motorista demente de sempre? Afinal, como se expressaria esse meu ultraindividualismo automobilístico? Provavelmente, viraria hábito, concepção de mundo, enfim, ideologia. Tornar-me-ia, certamente, um ultraliberal na sua versão mais vulgar. E eu continuaria, claro, com a ojeriza ao outro — pronto, estou preparado, agora, para entrar imaginariamente no carro.

E o que personifica mais o outro? Ora, tudo que é público. O único lugar seguro é o meu mundo privado, santuário do meu self. É minha casa, minha família e meu… carro. E quem mais ajuda esse outro, até mesmo me prejudicando na vida e me extorquindo o tempo todo? O Estado, sem dúvida: a personificação do público, o inimigo externo que me ataca por todos os lados. Cacetada, virei um anarquista de classe média? Quem sabe… Aliás, pra que serviços públicos? Por que pago essa josta? Não preciso deles. Tudo deveria ser privado. Educação e saúde, por exemplo. Por que saúde é um direito, afinal de contas? Se o filho do vizinho está doente, o que tenho a ver com isso? Por que, por meio dos impostos, outra invasão estatal, devo pagar seu tratamento? Não sou responsável pela sua doença. Posso ajudá-lo por caridade, tudo bem, mas por que sou obrigado? A obrigação pública de ajudar as pessoas, principalmente os pobres, deixa os indivíduos preguiçosos. E saúde pública é um troço. Depender dela pode ser uma condenação mortal. E saúde pública é cara, justamente porque é do Estado, encarecida de forma estatal. E quem paga é meu bolso. Carga tributária alta, excesso de regulamentação, custo trabalhista alto, tudo isso encarece os serviços. E o cúmulo do desperdício: são oferecidos de graça à população. E pior: são pessimamente administrados e estimulam a corrupção. É evidente que, se a saúde fosse privada e regulada pelo mercado, os planos de saúde teriam facilidade, liberdade e necessidade em diferenciar os riscos. Assim, pessoas que fumam, bebem, possuem histórico de doença, pois bem, essas pessoas pagariam um diferencial em relação ao seu risco. Afinal, sou responsável pelo meu comportamento e pelos meus riscos – por que seria responsável pelos outros? Cada um que trabalhe, ganhe dinheiro e lute por uma vida melhor. Viver é uma oportunidade. Aproveite! Não sou babá de ninguém.

Sim, é isso mesmo, se levasse minha possessão individualista para fora do carro, viraria um taxista malufista de São Paulo! E, ao meu individualismo, pois sou recifense, acrescentaria um profundo preconceito de classe. Afinal, público é coisa de pobre. SUS, escola publica, ônibus – tudo coisa de pobre. Aliás, calçada é coisa de pobre. Ter carro é um sinal de distinção de classe. É sinal de sucesso na vida. Por isso, tanto carro novo, tanto carro gigantesco e caro. Carro caro e grande, eis um projeto de vida. Junte cultura do automóvel, individualismo e preconceito de classe, e teremos a apologia de um tipo de cidade, aquela baseada no Xópi Center. Quer passear, quer andar, quer fazer tudo, ora, vá ao Xópi! Tem tudo lá, e com uma vantagem: não se vê muito pobre. Se, para tudo, uso carro, por que diabos me preocuparei com calçadas, ruas, bicicletas e transporte público? Já tenho o Xópi. Não foi sempre assim? Ah, não?! E daí? O mundo agora é assim. É o meu mundo. E é o que importa.

Paro por aqui. O raciocínio impregna o espírito. Quem escreve acima, sou eu ou o artúnculo individualista e ultraliberal que acabou de sair do carro? Estou até com medo de voltar a dirigir. Mas, cá entre nós, a maioria pensa assim. É a atual hegemonia. Quando vejo um prefeito, dito de esquerda, com um baita sorriso no rosto, inaugurando uma alça, sei-lá-o-quê, inclusive sem calçadas, para um novo e big Xópi Center, vejo como fui absolutamente ultrapassado pelo tempo. Sou um dinossauro, em suma, extinto por um meteoro de metal que parece, juro, com um HB 20.

Pois é…

Minha cidade morreu. Existe outra no lugar. Não me reconheço na Nova Recife. Problema meu? Sim, problema meu. Ou me adapto, tomando um psicofármaco para melhorar a minha socialização, ou não saio de casa. O que fazer?

(tlec, tlec, tlec, tlec, tlec, tlec, tlec, tlec… Isso sou eu, teclando e procurando uma saída. Começo a vacilar. Acho que devo me conformar e me reconciliar com o Real. Preciso me adaptar, ao contrário do que dizia a música dos Titãs)

E me adaptei, confesso. Tomei um remedinho, tornando-me um adepto da felicidade química, e saí enfim de casa. Estou saindo, agora. Peguei o carro, vesti minha identidade de motorista recifense e até, durante o caminho, já xinguei vários outros. Xingar é uma terapia. Aaah, lava a alma. Entendo, nesse sentido, sua função. Irei a um restaurante e assistirei a um filme lá no Xópi Recife. Quem sabe, dou uma voltinha, olho as lojas e, com isso, eu passeio. O que quero mais, afinal de contas?

Ah, sim, farei tudo para conhecer o novo Xópi Riomar. Dizem que é lindo e o maior da América do Sul. É minha Cidade. Orgulho de ser recifense.

Sementeiras
  1. André Tricolor Virtual

    Pois é Artur,

    Alguém deve ter dito que uma nação rica se mede pela quantidade de carros na rua. Ledo engano! E o povo devido as facilidades compram carro como nunca e hoje devem como nunca.

    Teve um levantamento recentimente e foi constatado que realmente as calçadas (as que existem ainda), são péssimas e para uma Copa que se aproxima será um ponto extremamente negativo para a cidade do Recife.

  2. A cidade migrou para dentro dos carros e centros de compra, com a ajuda luxuosa do poder público ineficiente.

    Ainda gosto de andar no centro do Recife, mesmo com todos os percalços; é mais interessante do que andar naquela pasmaceira padronizada dos shoppings.

    Vale lembrar que não vejo os shoppings como um mal em si. O problema é, por causas várias, não termos alternativas a eles.

    Não sei se é assim nas outra capitais, aqui carro é tratado como membro da família e, meu deus, símbolo de status. Você só será considerado um homem realizado se comprar um automóvel – luxuoso, de preferência.

    Ao revelar que não tenho carro, e nem ao menos sei dirigir,sempre percebo alguns olhares de desdém e desconfiança; às vezes até de pena. Não me importo e mentalmente mando todo mundo tomar na jaca. Que me deixem cá com minha deficiência.

    E essa coisa da transformação é a pura verdade. É inacreditável a mudança de comportamento. Ou será que os motoristas apenas se sentem seguros o suficiente para mostrar sua verdadeira personalidade?

    Já vi cenas inacreditáveis por causa de carros – de xingamentos a roca de tabefes, e até tiros.

    E o troço é antigo. Olha só esse vídeo da Disney:

    http://www.youtube.com/watch?v=2pUBH8zmg8w

  3. Passado mais de um ano, a reflexão segue tão atual… Mas talvez o pior seja identificar-se com o monstro individualista ao entrar no carro. Neste caso, parece que a questão de gênero não importa e o princípio da alteridade fica, no melhor dos casos, com o carona. Confesso que ler o texto termina trazendo certo conforto para amenizar a culpa da animalidade revelada entre quatro “paredes” (carro tem parede?). Afinal, se o outro também é assim, já tendo me admitido parte do inferno, ao menos não estou sozinha.
    Ainda assim, deixo os Xopis para outros culpados. Porque nesses “Nós”, eles se tornam Eles e eu reduzo minha pena.
    No fim, mesmo condenada e sem efeitos de remédios (ao menos até este minuto), continuo achando Recife linda.
    E ai de quem diga o contrário!

Deixe um comentário