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Paixão e Gostar

3 comentários

Na Polônia, em Patróvia, cidade a 200km de Cracóvia, existe a crença de que há dois sentimentos possíveis numa relação amorosa. O primeiro é baseado na paixão, o outro, no gostar. Minha finada avó, Wistuawa Szymborska Bianski, dizia que passou, inicialmente, pelo primeiro sentimento e, depois, mergulhou fundo no segundo, e se acostumou. Não sei se foi uma confissão. Só pensei nisso muito tempo depois quando já era tarde demais a procura de alguma resposta. Nesse dia, tão longe no tempo e na memória, minha avó me olhou e pousou a mão na minha testa. Alisou meu cabelo, como fazia sempre, e ficou calada.

_O amor, o que resta do amor? Perguntei.
_O que sobra, e não é pouco, é a Aliança.

Não perguntei o que era a aliança. Pensei que fosse o anel. Foi falha minha, claro. Mas não sei se deveria. E acho que sei o que seja, afinal, a aliança. Penso-a como uma profunda cumplicidade. A aliança só aparece após tempo e respeito. Não é resultado necessário do amor; talvez, uma fronteira, quem sabe. Outras leis vigoram, aqui. Não é preto no branco. Seria a arte de preservar?

A cumplicidade não é, nesse caso, um acordo ou uma consciência, adquirida por meio da reflexão. Parece ser mais um sentimento. Pois a cumplicidade não verga sob o peso da razão. Sua consciência aparece num momento raro, justamente quando dissemos para nós mesmos: ah, então é isso! E o outro sabe disso, porque sente a mesma coisa. A cumplicidade é sempre ao mesmo tempo. É uma inabalável certeza.

Mas não quero descrever um sentimento. Cada passo da descrição é feito de perda. Cria incerteza. A palavra pode estragar tudo, mesmo a poesia. Se o sentimento pode ser descrito, pra que sentir? “Não há devassidão maior do que o pensamento“. “Nada é sagrado“? Quem tem “o topete de chamar as coisas pelos nomes“?

É a defesa radical do silêncio. Ao pedí-lo, suprime-se a palavra e se encontra o sentimento.

O caso de minha avó é possível, mas não esgota as possibilidades. Ela, no seu relacionamento, e não sei se com meu avô ou com outra pessoa – sim, minha avó era complexa demais para ter amado apenas uma vez –, sentiu os dois sentimentos. Sentiu a paixão; depois, o gostar. A passagem da paixão ao gostar foi sob o jugo da continuidade. Não foi um rompimento; talvez, uma transmutação. A relação amorosa virou um companheirismo — convenhamos, não muda muito em relação ao casamento cristão.

Os poloneses não misturam, ou é isso ou é aquilo. Ou se vive um amor baseado na paixão ou no gostar. O amor da paixão é quando o sentimento arrebata e cola os dois corpos numa fusão nuclear (cruzes!). É foudroyant! Quanto dura esse sentimento, eis a questão. Porque, tudo indica, é contextual e não se prolonga no tempo — coincide inclusive com a insaciabilidade sexual. Reduzido ao instante, só resta a saudade desse momento mítico, o da paixão. Como manter a continuidade? Como manter a chama? Minha avó defendia que a única forma de manter a continuidade da relação amorosa, nesse caso, era fazer do amor uma paixão em movimento. O problema é o tempo e o desafio de sua renovação. A paixão pede desconhecimento. Ao ser conhecida, a paixão finda. A paixão está sob a coerção da novidade.

_É uma tirania.
_O quê?
_A paixão, seu abestalhado — minha avó não tinha muita paciência com incompreensões.

E a paixão é uma certeza, mas não cria segurança. Afinal, por que a paixão? É vestígio do quê? Sem dizer, o apaixonado sabe o que é a paixão; mas, se alguém lhe pergunta, deixa de saber. Essa situação paradoxal cria um cansaço: a necessidade de provas. Porque o preço da paixão é a certeza impossível da paixão do outro. Temos a compulsão em perguntar e reiterar.

Por isso, a função do “eu te amo”. Não se diz em vão. Quem diz não sendo, como se fosse paixão, conhece tudo sobre a hipocrisia – não é necessariamente hipócrita. Sabe que a paixão é entrega e, dizendo “eu te amo” sem sinceridade, revela uma generosidade sem risco.  Revela conformismo, mas é melhor do que nada. E possui uma premissa: sabe-se quanto vale e se fica satisfeito com seu valor. É o “eu te amo” do gostar. Porque “eu te amo” com entrega revela que a verdade do amor é a paixão. É uma verdade perigosa, porque não precisa ser assumida. Quem é temente ao mundo sabe que algumas verdades não podem ser ditas, talvez, precisem ser esquecidas. O maior sintoma da paixão é a temeridade.

Em suma, a paixão é frágil, afinal de contas. Tem uma “boa reserva de unhas e dentes, mas ossos frágeis e juntas alongáveis e doloridas“.

E o amor baseado no gostar?

Segundo a crença, o gostar desloca a verdade da relação amorosa para outros atributos, desde os filhos, a instituição da família, o cuidado do outro. Há sexo, mas sem necessidade. Há entrega? Sim, só que de forma diferente. Qual é a diferença? A entrega da paixão não tem garantias, pois se oferece o que não se tem – a generosidade perpétua. O gostar oferece o que se tem e o que se pode — é a entrega racionalizada. Sua generosidade é determinada pelo limite do afeto e do interesse.  O gostar é um amor pragmático.  Ao contrário, o amor, como paixão em movimento, é uma generosidade especial, até mesmo radical: é uma promessa aberta. Logo, não se realizará nunca; mas, ao perdê-la de vista, se a promessa desaparecer do horizonte afetivo, perde-se tudo, justamente o substrato da paixão. Convenhamos, é perigosíssimo, pois é uma promessa baseada no nada – para entender esse perigo, saiba que, ao “pronunciar a palavra nada, cria-se algo que não cabe em nenhum ser”. Só que não se promete nada sem correr imensos riscos.

Tenho medo desse tipo de promessa. O compromisso pode ser impossível.

O gostar cria segurança. E, se o amor, no fundo, é sofrimento, o gostar oferece-lhe sentido. E, se o amor, na verdade, é felicidade, o gostar permite olhar o passado com alguma alegria — uma felicidade baseada em momentos de alegria. Não é ainda felicidade, eu sei; porém, quantas almas não seriam vendidas por essa soma de pequenas alegrias? O gostar é um amor profundamente conservador. Quando se pronuncia a palavra futuro, já se faz, de sua primeira sílaba, passado. Não há ilusões e se assume, como destino, todas as pequenas desventuras de uma relação amorosa. É de um realismo romanticida. Não se espera constantes redenções, como se faz na paixão, preferindo-se uma pequena admissão trágica – o já assinalado: ah, então é isso! Enfim, amor sem risco, a promessa do que já existe.

Entendo agora o sentido da frase de minha avó:

_O gostar é o melhor remédio contra a solidão. Combater a solidão é combater a morte.

Não sei o alcance da frase. É polonesa? Aplica-se no Brasil? Minha estadia aqui mudou muito minhas concepções sobre a vida. Combater a solidão e, por causa disso, também a morte? Sim, concordo. Mas preciso casar? Pois aprendi com meus amigos petistas que há outras formas de se combater a solidão e, consequentemente, a morte — ganhar dinheiro, por exemplo.

(Sim, acabei agora com toda a reflexão anterior. Sujei-a, terminando o texto assim. Dinheiro, afinal, é merda. E, no fundo, nunca gostei de minha avó. Sempre precisou de provas. E as provas cansam a verdade. Ao buscá-las, foi uma apaixonada. Pergunto-me, até hoje, se seu gostar não foi produto de uma renúncia. Quem coloca a renúncia, como núcleo de sua biografia, não dará valor ao mundo. Quiçá, por isso,  detestasse tanto o dinheiro. Daí, provavelmente, minha incapacidade pecuniária. Virou uma herança maldita)

Com dinheiro, o foco do gostar e da paixão não é o outro, homem ou mulher, e sim o mundo. Tenho a nítida impressão de que, se ganhasse muito dinheiro e não vivesse às custas de Tsé-Tsé, amaria profundamente o mundo. Com esse solvente universal, ao dissolver minhas relações, ao relativizar meus vínculos, seria enfim feliz. Porque a felicidade teria seu preço, e eu a compraria sem culpa.

Sem dinheiro, só saberei se fui feliz ou não lá no leito de morte. Nessa hora, terei muito medo de olhar para trás. E, talvez, não olhe…

DimasLins
  1. André Tricolor Virtual

    No fundo somos cada vez mais miseráveis na medida que nos distanciamos dos sentimentos que nos fazem viver o amor pleno. A paixão, o gostar são etapas do pequeno grande mundo dos casais ou solitários que procuram palpitar seus corações com um pouco mais de emoção.

    E o dinheiro ajuda no marcapasso e a casa no campo das ilusões.

    Abraços.

  2. Quem diria que a história do naufrágio das paixões ideológicas poderia ser contada assim…

    Mas ainda há quem acredite no Psol de raios fúlgidos ou na tribo dos Numerianos.

    Ou não entendi nada e viajei. Mesmo assim fica valendo, pois em texto publicado quem manda é o leitor. Hehehehe!

  3. Acho que Luvanor estragou tudo quando enveredou pelo lado pecuniário — polonês, vai ver, é assim mesmo. Imagino-o fazendo uma DR…

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