Acompanhe o RSS: Artigos | Comentários | Email

Uma Gota de Chá

3 comentários

Quando olhei para Quimzinho, encolhido e tristonho no canto de minha varanda, pensei logo que se tratava de um caso muito sério de menino que descobre que o pai sumiu antes mesmo do seu próprio nascimento. Dentro da própria barriga materna. Desolação pura e simples. Complexo problema teológico que o ateu Freud tentou desvendar sem muito sucesso científico, salvo o financeiro. Para os Psicanalistas profissionais, é claro!

Mas, não desgrudei o olho do binóculo assistindo ao banho de lua de Glorinha, sobrinha do meu amigo e irmão adotivo. Nem deixei de pensar na piscina de água benta em que, outrora, a freirinha Evangelina experimentou pela primeira vez os prazeres do seu triângulo teológico.

Finalmente, dei-me conta de que Quimzinho precisava de um apoio amigo. Guardei meu binóculo numa caixa de papelão esfarrapado, feito de fibra de mangue, e tentei esquecer a trigonometria sagrada da nobre irmãzinha italiana.

─ Que foi dessa vez, Quimzinho? ─ Perguntei ainda perdido nas minhas lembranças da cidade eterna.

─ Um problema sério que envolve toda a Comunidade, Tsé. ─ Respondeu o afamado curandeiro.

─ Então conte logo e pare com essa cara de menino chorão.

─ Como você sabe, Tsé, vivemos uma crise financeira desgraçada desde que um tresloucado sapo barbudo resolveu fazer a Copa de 14 e as Olimpíadas de 16. Reflexo do Euro e do Mensalão, também. Afinal de contas, os meninos do PT são inocentes e não fizeram nada demais.

─ E a verba para substituir as estacas de madeira velha e podre por colunas de cimento armado de nossas palafitas? Quem roubou tudo isso? Ora Quimzinho, parece que você perdeu a memória. ─ Rosnei agressivamente.

─ Bobagem, Tsé! Se não fosse a quadrilha do PT, seria a do PMDB, do PSDB, do PSB, do Collor e de outros mais. Além disso, Dirceuzinho, Ingenuino e Danúbio Azul lutaram pela Democracia. Muito mais do que o chefe deles que nem sequer foi citado pelos velhinhos do Supremo. E nenhum dos condenados vive numa cobertura. ─ Respondeu na bucha nosso curandeiro.

─ Assunto controverso, Dr. Quim. Mas, voltemos ao nosso assunto. ─ Respondi sem querer criar polêmicas inúteis.

─ Pois bem! Como ia dizendo, a produção do nosso laboratório caiu em mais de 72% e somente uns gatos pingados aparecem para comprar nosso chá e nossas pomadas. ─ Começou Quimzinho.

─ Perda de eficiência, também. Minha pereba não sara nunca. ─ Comentei.

─ Não sara porque você vive o tempo todo coçando a bichinha. ─ Respondeu nosso eficiente médico.

─ Então, faça uma pomada pra coceira.

─ Deixe de frescura, Tsé. E ouça o que vou dizer. Senão, conto pra todo mundo sobre essa sua pedofilia, olhando adolescentes tomando banho de rio.

─ Mas elas estavam nuinhas, Quimzinho! ─ Argumentei deliciado.

─ Pois bem, olhe o que vou lhe contar.

E o que o Dr. Quim Júnior falou não deixou de arrepiar meus cabelos. Por isso mesmo, peço a máxima atenção dos leitores para o longo relato de nosso curandeiro.

─ Como você sabe, Dona Dilma disse na ONU que faremos a melhor Copa de 14 e as mais lindas Olimpíadas de 16 da História Universal. Mesmo sendo contra e não acreditando, nossa situação é tão crítica que resolvemos fabricar um chá diferente de todos os outros, em aroma, sabor e nuances coloridas. Foi uma ideia genial de Nininho Beija-Flor, físico, químico e matemático de gênio. Chá para os milhões de turistas estrangeiros que farão a maior bagunça em Bel-O-Kan.

─ Trata-se daquele rapaz bonitinho que anda de jeans bem apertado? ─ Perguntei com ironia.

─ Deixe de ser preconceituoso, Tsé. De fato, Beija-Flor pertence ao Clã da Diversidade, criado, aliás, por você mesmo quando ainda era Nosso Líder. ─ Respondeu Quimzinho.

─ Ora, ora, Dr. Quim Júnior. Criei o tal clã pra acabar com tanta sem-vergonhice no meio do mangue. Muito melhor fazer dentro de casa. Mero oportunismo desse rapaz! ─ Respondi com a mesma dignidade democrático-telemista de quando liderava a Comunidade.

─ Pouco me importa! Beija-Flor é um gênio e é o que me interessa. E, pra seu governo, tá namorando o seu netinho predileto. E deixe de ser homofóbico, Tsé! ─ Respondeu o curandeiro.

─ Detesto discriminação, Quimzinho. E quanto ao meu parente, está se mudando. Não sei para onde vai. Nem me interessa. É melhor continuar sua história. ─ Respondi indiferente.

─ Pois bem! Para preparar um bom chá, eu mesmo percorri o manguezal durante dias procurando algo de novo até que, no finalzinho, vi um bloco de pé de mangue esquisito. Aproximei-me. Era uma dúzia de caules vermelhos, com folhas azuis e flores e brotos coloridos. Quase desmaiei de susto. Imediatamente, chamei Beija-Flor. Depois de um exame cuidadoso, perguntou-me quantos anos tinha aquele mangue. Pelos meus cálculos botânicos, era de 1987, um pouco mais, um pouco menos.

─ Então, não há mais dúvida. Trata-se, Dr. Quim, de uma mutação genética provocada pelos raios cósmicos da supernova que explodiu na Nuvem de Magalhães naquele ano. ─ Concluiu Beija-Flor.

─ Mentira desse tal de Nininho! A estrela não podia ter uma pontaria tão certeira. Tava tudo colorido porque, talvez, as crianças estivessem colorindo os pés de mangue durante o recreio. ─ Respondi sem muita convicção.

─ Fique calado, Senhor Reverendo que a coisa é séria. Cuidadosamente, Beija-Flor raspou uma substância viscosa do caule, eu cortei uma dúzia de folhas e colhi uns brotos já bem desenvolvidos. Levamos tudo para o laboratório.

─ E daí? ─ Perguntei com mais curiosidade.

─ Sem nenhuma dúvida, tratava-se de mangue. Talvez, uma nova espécie. Realizamos todos os procedimentos normais, fazendo uma espécie de caldo com os elementos colhidos. Preparamos quimicamente uma casquinha de siri de modo a erradicar qualquer resíduo orgânico.

─ Preciosismo exagerado! ─ Exclamei.

─ Mas houve uma novidade. Beija-Flor terminara sua pesquisa sobre o grafeno, aperfeiçoando os pequenos blocos invisíveis de carbono, com a modificação de pelo menos seis estruturas atômicas. Segundo ele, acabara de produzir uma nova substância a que dera o nome de grafenite, mais eficaz e, praticamente, indestrutível. Salpicou um pozinho do troço no fundo da casquinha e Neuzinha, nossa estatística, jogou uma gotinha do suco da nova espécie dentro dela, munida de um conta-gotas eletrônico que a Fundação Ford nos presenteara.

─ Adoro Neuzinha. Minha Nossa! Que balanço quando desce pra tomar banho no rio! ─ Exclamei desinteressado pelo chato relato do curandeiro.

─ Lembre-se de que ela é Presidente do Clã das Feministas. Meta-se com ela e leva uma bolachada na cara. ─ Respondeu o Dr. Quim, indignado com mais uma interrupção de minha parte.

─ E daí? Por acaso, elas também não se reproduzem? Enfim, vai terminar ou vai continuar com essa historinha sem fim? Estou morrendo de sono. ─ Disse pra disfarçar meu interesse pelo traseiro de Neuzinha.

─ Colocamos tudo no refrigerador e voltamos às nossas atividades normais de pesquisa, especialmente uma pomada anti-coceira pra acabar com as queixas de um tal de Reverendo Tsé-Tsé.

─ E daí? Não vejo nenhuma novidade nem motivo pra vocês ficarem trancados no laboratório por tanto tempo. ─ Interrompi Quimzinho.

─ Deixe-me continuar, por favor. Esquecemos a casquinha de siri por uma semana. Foi Neuzinha quem se lembrou. Tiramos a casquinha e quase desmaiávamos de susto.

─ Porra! Novamente! No mangue e no laboratório? Por que não me chamou? Teria consolado Neuzinha do seu desmaio.

─ Pois é! Em vez de uma gota, lá estavam duas. ─ Acrescentou Quimzinho.

─ Que bobagem! Fácil, fácil! O tal conta-gotas eletrônico não funcionou. Coisa de americano, nada mais. Neuzinha botou duas gotas sem perceber. Que há de assustador nisso? ─ Perguntei já um pouco entediado com a história do meu amigo curandeiro.

─ Filmamos todos os nossos procedimentos, Tsé. Honestidade e precisão acima de tudo. Passamos o filme inteirinho. Neuzinha só botou uma gota na casquinha. Em suma, segundo Beija-Flor, a gotinha havia se autorreplicado.

─ Não acredito! Esse rapaz, ou seja lá o que for, não é confiável. Prefiro ficar olhando as meninas tomando banho de rio. Mas, tudo bem, continue com sua história de Trancoso. ─ Exclamei com enfado e reprovação.

─ Uma semana depois, havia quatro gotinhas. Na seguinte, oito. Depois, dezesseis, trinta e duas, sessenta e quatro e assim por diante, com o mesmo algoritmo. ─ Continuou Quimzinho.

─ Meiose, como vocês chamam isso? ─ Perguntei, mais atento.

─ Exatamente! Ou quase! As gotinhas, feito umas bolinhas de geleia do tamanho das antigas pílulas do Dr. Ross, dividiam-se sem parar. Variavam de um azul profundo a um suave, que nem uma água marinha, dependendo do nível de claridade dentro do Laboratório.

Um estranho sentimento começou a me invadir. Uma forte coceira na pereba do dedão, invadindo a unha. Foi subindo e atingiu meu braço esquerdo numa forte vibração, apertando meu coração. Quase sem fôlego e perto de um infarto, gritei:

─ Mas, isso é vida, Quimzinho! Você recriou a vida, Quimzinho!

Não me contive. Saltei da cadeira de balanço, ajoelhei-me diante do grande cientista, beijei-lhe a mão direita e lhe disse, emocionado:

─ São Joaquim M’Gabe Júnior. Aleluia, Aleluia! Ave, Ave! Miracolo, Miracolo! Exultati, Jubilati! Roga pro nobis, nobis pecatoribus! Temos, enfim, o primeiro santo negro brasileiro.

Assustado e nervoso com minha reação, o curandeiro disse secamente:

─ Deixe de ser ridículo, Tsé! Não criei porra nenhuma. Deixe de lamber minha mão e volte pra sua cadeira. Ainda tenho muito pra contar.

Torcedor
  1. André Tricolor Virtual

    Reverendo,

    As palafitas vão seguindo seu ritmo. Algumas tão recebendo tubos de pvc para substituir as vigas de madeira. Pobres estacas de madeira.

    Outra lá no Pina de Copacabana, ganhou até um Shop. Mas seus moradores não poderam ir a sua inauguração. E nem vão chegar perto. Foram mandados embora com suas madeiras velhas e tudo.

    E as pobres donzelas que se refrescam na beira do rio também são outras, não são mais as mesmas. Perderam a inocência e tudo mais.

    Vamos aguardar o reconhecimento do primeiro nobre Santo Negro e Brasileiro. Uxalá! Axé carangueijus!

    Abraços!

  2. Reverendo, eu teria dado uns tabefes em Quimzinho.

    Ele não teria outra hora para contar uma história tão comprida? E com uma defesa do PT no meio?

    Certo que a história conseguiu atiçar minha curiosidade. Mas teria dado com binóculo na testa dele assim mesmo.

    Certas coisas (epa)não devem ser interrompidas.

    • Irmão Ducaldo: Não foi interrompida. A história continua com mais dois capítulos, o último tratando sobre a aplicação da Matemática à Teologia. É só esperar. Minha bênção binocular.

Deixe um comentário