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Blue-Moon

4 comentários

 

Depois do péssimo jantar na cantina comunitária, olhava o Capibaribe distraidamente. De binóculos, percebia duas jovens nadando sem roupa nas puríssimas águas do nosso rio. Todos os adolescentes faziam a mesma coisa. Uma das meninas era, certamente, a sobrinha do Dr. Quim Júnior, cientista e curandeiro. Talvez, o melhor do bairro da Torre.

Sob a Lua Azul iluminando o rio, Glorinha não deixava de ser um belíssimo exemplar de mamífero fêmea da espécie homo sapiens. De fato, Quimzinho formara uma enorme descendência, embora pouco ligasse para os resultados. Mergulhara de vez na pesquisa científica e o resto que se danasse. A menina, aliás, virava-se no meio do rio sob o resplandecente luar com bastante desenvoltura.

Vida desgraçada de velho carcomido pelas perebas, especialmente a enorme que nascera no dedão do meu pé esquerdo. Restavam-me as recordações dos tempos de herói da Comunidade e a companhia do velho rio. Agora, a vida se tornara monótona pela minha própria incapacidade de ficar alegre quando via surgir novas gerações saudáveis, fruto do meu incansável trabalho de Líder por mais de cinquenta anos.

E que pouco se importavam com minhas perebas!

Glorinha mergulhava, nadava e voltava a mergulhar!

Lembrei-me de Evangelina das Sagradas Chagas de Jesus, nadando graciosamente, e sem roupa nenhuma, na piscina do Palácio Barberini. Tratava-se de herança de sua família nobre, que ainda conservava, apesar do seu pesado trabalho de Supervisora das Obras Sociais do Convento do Sagrado Prepúcio do Menino Jesus.

Conheci-a quando ainda era auxiliar do Monsenhor Lippi, chefe da Biblioteca do Vaticano. Em trajes civis, embora recatados, e com uma pesada cruz de prata pendente do pescoço, pedira-me para consultar o “Tratado da Sagrada Anatomia”, do Frei Alberto della Fiuri, escrito em 1352 e seu ascendente direto.

Apesar de indicar-lhe obras mais modernas, preferiu o livro raro do seu parente. Levei-a para a sala de obras raras, passei uma flanela na mesa empoeirada e voltei para meu trabalho.

Duas horas depois, a irmã Evangelina me devolveu o livro:

─ Obrigada! Agora, já sei de tudo! ─ Exclamou sorridente.

─ Prego! ─ Respondi com certa indiferença.

Reencontrei-a na procissão em louvor das sagradas partes íntimas de Nosso Senhor, anualmente realizada na Província de Viterbo, a vinte quilômetros de Roma. Em sua catedral neogótica se encontra um dos doze exemplares do sagrado prepúcio do Menino Jesus que, segundo dizem, foram trazidos de Jerusalém pelo próprio Frei Alberto. Os outros onze estão espalhados por diversas capelas, conventos e catedrais italianas e francesas.

No meio de uma das inúmeras Cruzadas daquele século, Alberto comprara as relíquias de um comerciante sarraceno. De posse delas, sacara sua espada e com ela traspassara a barriga do pobre infiel. Retomou seu dinheiro e voltou para a Itália de consciência tranquila. Pelo menos é o que Alberto relata sobre a origem das sagradas relíquias.

Meu trabalho na Biblioteca do Vaticano era escorchante e mal percebera a forte presença de Evangelina, com seus faiscantes olhos verdes e cabelos ruivos enrolados em graciosas tranças.

De repente, lá estava ela perto de mim, cumprimentando-me respeitosamente.

─ Buono giorno, Padre! Não sabia que o senhor também venerava nossa sagrada relíquia.

─ Sou fanático por relíquias, Irmã, especialmente na companhia de tão ilustre nobre romana. Mas, não entendi o significado de sua frase de despedida na Biblioteca.

─ Não sabia ainda o significado de nossa maior relíquia. ─ Respondeu com simplicidade.

Na verdade, não adoro nem venero porra nenhuma. Estava em Viterbo atrás de um manuscrito raro a mando do meu chefe. Apenas cubava o ambiente no meio da procissão.

─ Também já li o livro do seu parente. O oitavo capítulo se refere à anatomia dos anjos, minha especialidade de Doutorado.

─ Quê lindo, Padre! Mas, o estranho é que Alberto trouxe do Oriente doze daquelas esplêndidas partes de Nosso Senhor. Pensei que os homens tivessem apenas uma. ─ Sorriu Angelina como se estivesse deliciada com a descoberta.

─ Talvez a Irmã se engane. Em nota de pé de página, escrita em sânscrito, o Frei indica que a mais rosada era do Menino Jesus. As onze restantes pertenciam aos apóstolos. Salvo a de Judas, é claro, que, segundo a verdadeira doutrina da ICR, o gato comeu. Na verdade, tratava-se do Demônio que miava como se fosse um felino.

─ Felizmente! Então, mantemos ainda o monopólio sagrado. Bem que o Santo Padre disse que o povão acredita em tudo o que a ICR inventa. ─ Respondeu Evangelina, fazendo o sinal da Cruz.

Por acaso nos perdemos da procissão. Convidou-me, então, para um banho sagrado na piscina do seu Palazzo, em Roma, durante a próxima Lua Azul, ritual secular de sua família.

Nua, Evangelina boiava de costas, exibindo o triângulo mais famoso e lindo que a natureza já inventara. Minúsculas trancinhas douradas, feitas de última hora pela irmãzinha, davam um ar de graça à sacrossanta figura geométrica.

Como se a freirinha quisesse aperfeiçoar a própria perfeição.

─ Vem, Tsé! Nossa piscina é de água benta. Um pouco de sal beatificado afasta todos os pecados.

Não me lembro de mais nada, salvo que provei à Angelina, por várias vezes, a verdadeira anatomia masculina; numa piscina, a coisa ficara mais difícil.

Nos intervalos, ela apenas sussurrava:

─ Então, é isso Tsé? Quê sagrada bobagem! Mas, é gostoso!

Naquela altura dos meus felizes pensamentos, fui interrompido pelos passos de Quimzinho, que subia a escada de minha varanda. Estranho! Falava-se que ele estava trancado no Laboratório por mais de um mês. E, agora, de repente, aparecia para uma visita.

Quimzinho demorou a falar e ficou sentado, encolhido num banquinho de cordas no canto da varanda. Ar cansado, rosto ansioso.

─ Que foi, Quimzinho? Tô ocupado demais pra ouvir besteira.

─ Desculpe Tsé. Preciso resolver o mistério de um modelo matemático. Há dois dias que não durmo por causa de uma equação que não dá certo. ─ Disse o Dr. Quim Júnior.

─ Por isso mesmo! Quero ler meu Gibi e tá faltando luz. ─ Respondi, sem muita pressa.

─ Felizmente, a Matemática não precisa de luz. É questão de massa cinzenta. Apenas isso. Mas, você devia saber que cortaram a luz por falta de pagamento. E não é a primeira vez. Culpa do sacana que você indicou para ser nosso líder.

─ Equívoco seu, Quimzinho. Estava, aqui, olhando sua sobrinha tomando banho sem roupa no rio e me lembrei da Irmã Evangelina do Convento do Sagrado Prepúcio do Menino Jesus. Elas nadam com a mesma graça e leveza. Um mistério da natureza, sem dúvida.

─ Deixe minha sobrinha de lado, Tsé. Esqueça suas safadezas romanas e preste atenção no que vou lhe contar.

─ Conte logo, Quimzinho. Estou doido para fazer mais uma experiência mental.

Sementeiras
  1. Alvíssaras!

    Eis que o blog dos Perrusi volta à vida; e com uma cônica arretada do Reverendo.

    Reverendo, o senhor é corajoso. Eu é que não entraria em um convento com esse nome,e menos ainda acompanharia uma procissão em louvor das pudendas do filho do todo poderoso.

    Mas, o que não se faz por um triângulo… ainda mais de trancinhas douradas.

    • Irmão Ducaldo: fico feliz em saber de sua fidelidade ao nosso Blog. Que não merece, aliás, pela malígna preguiça que nos persegue. Mas, tudo começou com o triângulo. Pitágoras, por exemplo, inspirou-se na sua linda amante fenícia para bolar seu famoso teorema, talvez o mais brilhante de toda a Matemática. Não é por acaso que descobriram o gene da trigonometria nos cromossosmos masculinos. O que ameniza, em parte, o fervor da argumentação feminista. Enfim, ai dde nós, se não fossem os triângulos delas. Minha benção do Evangelho Triangular.

  2. André Tricolor Virtual

    Reverendo,

    Quanta coragem. E sendo um triângulo francês, nada melhor que uma alfazema para afastar os maus espíritos da fedentima.

    Abraços e que volta triunfante!

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