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A mentira e a guerra

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Escultura - Mozart Guerra

Parece que se aproxima outra guerra, dessa vez contra o Irã. Há a tentativa de se repetir a mesma estratégia que foi feita contra o Iraque. Repete-se uma possibilidade, uso aqui um eufemismo, como se fosse um fato comprovado. No Iraque, as tais armas de destruição em massa ou ADM (armas de destruição maciça); no Irã, bombas nucleares. Até hoje, fico impressionado, no caso iraquiano, como se pôde inventar uma mentira tão escandalosa e se ficar por isso mesmo. Não é mais um pretexto que legitima uma guerra (por exemplo, Helena foi “rapatada” por Páris), e sim uma mentira explicitamente colocada como… mentira. O impressionante, assim, é o uso da mentira como mentira. Geralmente, quando minto, tento fingir, pelo menos, que minha mentira é uma verdade. Agora, não se precisa do fingimento, pois basta que seja explícita e escandalosa — minto, logo faço.

O Irã tem uma bomba nuclear e a jogará em Israel. Os americanos estão repetindo isso o tempo todo, tornando uma ilação, uso um eufemismo, um fato. É a preparação para a guerra. E o papel da mídia é fundamental. Não digo para legitimar a guerra, mas sim para, simplesmente, repetir a mentira milhares de vezes. A repetição não transforma a mentira numa verdade, porém a insere no mundo e a torna cotidiana. Ela não mais desaparece quando confrontada com a verdade. Na verdade, como continua a repetição, ela permanece inteira e inequivocadamente mentirosa. Repito: não se repete mais uma mentira com o objetivo de torná-la uma verdade. Repete-se para mantê-la permanente. O assustador seria justamente isso: a permanência torna a mentira incontestável. Desmenti-la não tem efeito algum, nem mesmo gera reações ou comoções.

_O Iraque não tinha armas de destruição em massa? E daí?

Estamos num mundo onde a crítica perdeu a função. Ela pode ser tão explícita e repetitiva quanto a mentira, mas não tem efeito algum — pelo menos, em relação à mentira. Não é a censura ou mesmo a própria mentira que mata a crítica. É a indiferença. Tanto faz, tanto fez.

Quando enfim se faz a guerra, a mentira continua ali, ainda viva, como quem não quer nada. Só não tem mais tanto valor assim, pois seu uso passou e não há mais necessidade de repeti-la. Os fatos precisam de outras mentiras. Se antes a contestação não adiantava, agora, tornou-se também supérflua.

_E daí?

PS: fico pensando sobre a bomba iraniana. Os iranianos vão jogá-la e, depois, haverá a retaliação de Israel, que tem muito mais bombas, e o Irã desaparecerá do mapa. É uma tática bem curiosa. Os aiatolás são niilistas, dizem. Querem a bomba para cometer suicídio em massa, como disse Mark Weisbrot na Folha.

De todo modo, segundo esse jornalista, guerra somente após as eleições presidenciais americanas, pois a mentira tem, claro, calendário.

Sementeiras

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