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Helena e a sonsice

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E, assim, surgiu Helena...

(pra quem quiser ler outras estórias de Freud e Orravan: umdoistrêsquatrocinco, seis…)

Freud tinha uma obsessão: Helena de Troia. Em casa, tinha várias cópias de estátuas romanas da beleza encarnada, que já eram cópias de estátuas gregas. Gostava de cópias de cópias. Dizia que o autêntico era uma ficção. A origem não existia, bradava aos ventos. Para Sigmund, Helena era o simulacro de Afrodite. Como era impossível flagrar a Deusa no banho sem ficar cego, achava mais prudente olhar a representação de carne. Por isso, suas estátuas estavam constantemente na ducha. Freud olhava, olhava e saía satisfeito.

(como explicar essa mania de dar banho a estátuas ou, tecnicamente, a cópias? Freud queria distância da essência. O banho era uma mediação. Inventara a representação do nome — Helena, representação de Afrodite, por exemplo — já uma representação pálida do indizível. Ele murmurava a suas estátuas: “o nome, quando toca a coisa, desaparece imediatamente, sem deixar rastros, apenas possibilidades”. Mesmo assim, o nome podia causar tempestades, trazendo consigo o recalque. Nas sessões analíticas, um nome a mais ou a menos, e uma essência corria solta no divã. No fundo, Freud detestava as essências por pura covardia. Como fugia de si mesmo, “o meu lodo”, como afirmava, criava constantemente mecanismos de defesa. Seu mundo era uma representação. Achava o teatro de marionetes a imagem mais perfeita do psiquismo humano)

Sim, Freud adorava Helena. Ninguém sabe, mas suas bicicletas tinham o nome da filha de Leda. Parece que o assunto virou tabu. Não há, por exemplo, nenhuma referência a bicicletas na obra do biógrafo oficial de Freud, Ernest Jones. Na década de 60, Lacan afirmou, bem constrangido, que bicicleta era apenas um significante e, aparentemente, resolveu o caso. Talvez, por causa disso, nenhum psicanalista, mesmo um ortodoxo, não fale de bicicleta. Há lógica nesse silêncio. Se esse conjunto de tubos metálicos é um significante, ao chamá-lo de bicicleta, o significante adquire um significado. Dar um nome é um ato absolutamente arbitrário. No fundo, é uma violência. O significado de bicicleta é diferente do seu significante. É outra coisa. E sabemos que Freud detestava a Coisa, até porque torcia pelo Heilig Kreuz.

(Pergunte ao seu psi, num momento qualquer da sessão, o que é uma bicicleta. Não se surpreenda, ele ficará calado. Pode até apertar seu pescoço, desejo racalcado de todo psicanalisado, mas não dirá nada)

Tsé-Tsé, uma vez, num dia oleoso de calor, ofereceu uma explicação a Perrusi Filho:

_Freud gostava de rodas.
_Aaah… E daí?
_Bicicletas têm rodas, seu idiota!

Perrusi Filho não polemizou e preferiu o silêncio. Não queria leva uma bengalada do Reverendo.

Já Orravan não sabia andar de bicicleta e, portanto, não dava a mínima a esse assunto. Gostava era de Helena, mas empeiticava, depois de alguns goles de leite de gironda, com Freud e, como consequência, com a irmã de Castor e Pólux. Orravan detestava quando Freud inventava de falar sobre mulheres, pois achava que Sigmund não entendia patavinas, jamais entendera – no final da vida, confessou que Orravan tinha razão; realmente, não entendia nada da teoria do gênero.

Embriagado e irritado, Orravan dizia que Helena era sonsa. Freud não ficava especialmente ofendido com essa acusação; não, na verdade, até concordava. A questão era de nuance.

_Não tinha como Heleninha não ser sonsa num ambiente masculino daquele.
_Heleninha?! Exclamou Orravan, furibundo. Odiava essa falsa intimidade.
_Não tinha como Helena não ser sonsa num ambiente de dominação masculina.
_Sonsice, como empoderamento? É essa a besteira que você defende?
_Sim, justamente.
_Sonsice é uma forma de manipulação.
_Numa situação de dominação masculina, a sonsice é uma forma de resistência.
_Resistência?! Ela dava pra todo mundo!
_Ela não deu. E se desse, e daí? Ela permitiu dedos e línguas.
_Dedos e línguas? E Teseu? A menina foi raptada!
_”Raptada” é uma forma de dizer. Os dois se apaixonaram. Teseu respeitou a virgindade de Helena e só usou a língua e os dedos.
_Que espécie de língua tinha Teseu? Uma língua que sodomizou Helena? Você está usando um eufemismo.
_Foi um pequeno preço para manter a virgindade.
_Certo, mudarei a frase: ela dava o cu pra todo mundo!
_Não seja vulgar. Helena chegou com o hímen intacto a Menelau. Ela sabia que precisava chegar assim; do contrário, perdia literalmente a cabeça – seria morta, entendeu? Helena é o símbolo da beleza. E a beleza da carne é a beleza do prazer. Desse jeito, para manter seu “direito” ao prazer, Helena precisava de um baita instinto de sobrevivência.
_Essa foi boa: o canalha do Teseu preservando a virgindade de Helena…
_Helena foi disputada por quase todos os reis e príncipes da Grécia. Na dominação masculina grega, nenhum nobre faria isso sem a certeza de que o hímen estava preservado. Helena, na sua sonsice, fazia um jogo perigoso, mas eficaz.
_A sonsice da sonsa implicava uma lógica sexual que era fundamento, justamente, da dominação masculina.  Essa tal resistência não rompeu com as bases da dominação.
_Não, não, a sonsice de Helena colocava a seu favor a lógica sexual da dominação masculina.
_Mas não adiantou muito, pois virou o objeto de Menelau.

Orravan falou bem devagar: Me-ne-lau. Sabia que Freud detestava o rei da Lacedemónia.

_Melhor ser objeto do que asceta! E Menelau era um homem – tinha dedos, língua e pau. Para Helena, era só uma questão de fechar os olhos e pensar em Diomedes. Pronto, seu prazer estava garantido. Certo, ser sonsa não significou o rompimento com a dominação. Não havia condições objetivas para isso, pelo menos na situação de Helena. Mas resistir é um rompimento com a servidão voluntária, com a submissão pura e simples. Sua sonsice foi-lhe suficiente para sobreviver, preservar uma posição social (afinal, virou rainha e objeto de adoração de Menelau) e esperar alguma reviravolta do Destino. Não nego que essa espera, essa esperança em relação ao Destino, fosse ambígua. A resistência de Helena é bem diferente da de Prometeu, fundada no desespero – aliás, toda resistência prometeica é uma esperança baseada no desespero. Com sua sonsice, Helena ainda jogava com o Destino. É uma resistência baseada num jogo bem arriscado. Afinal, sendo sonsa, ela permanecia no núcleo duro da dominação masculina — o monopólio do prazer do corpo. Ao jogar, ao sentir prazer, de alguma forma, resistia…
_Não entendo como isso pode ser “resistência”.
_Helena recusou a “tecelagem”, como lhe aconselhou Penélope. “Tecer”, para Helena, era assumir de vez o papel de “mulherzinha”. Mas não podia escapar da dominação masculina…
_Podia ter virado uma “amazona”…
_Sim, mas abdicaria do seu maior prazer: os homens.
_Foi a Messalina grega, então…
_Não, não, Messalina é outro caso de figura. Ninfomania é uma tapa de luva contra a misoginia. O imperador Cláudio era um misógino. E Tácito e Suetônio, dois romanos bem machistas, foram injustos com Messalina.
_Outra sonsa, isto sim!
_Veja outra resistente, Xica da Silva. Estava numa situação pior do que a de Helena, pois era escrava. Ela utilizou o sexo e a sedução, instrumentos de dominação masculina, contra o próprio poder e conquistou a liberdade.

Houve um momento de silêncio e, depois, um pipoco.

_Xica da Silva?!

Orravan arregalou os olhos. Estava estupefato.

_Que porra tem a ver Xica da Silva com Helena de Tróia?

Perdia a cabeça quando Freud aparecia com essas sandices. O cabra adorava viajar na maionese e o deixava furioso. Ele merece uma surra, pensou Orravan. Sim, sim, uma surra… Bebeu mais um gole de leite de gironda. Decidiu esperar um pouco. Estava sem vontade de bater em Freud. Preferiu mudar o argumento… por enquanto.

_Menelau era um idiota.
_Sim, claro, era mesmo um idiota. Mas Xica da Silva…

Freud, diante do olhar rútilo de Orravan, desistiu de argumentar. Um dia, pensou, voltaria a essa incrível associação entre escravidão, sexo, Xica da Silva e liberdade.

_E Helena casou com um idiota – continuou, Orravan.
_E quantas mulheres não são casadas com idiotas? Helena não tinha escolha. Menelau foi uma imposição. Além disso, ela se vingou de alguma forma, pois meteu na cabeça de Menelau um gigantesco par de chifres.
_Pra quê?! Pra ficar com outro idiota — Páris! Um narcisista e, ainda mais, arrogante. Um despolitizado por completo.
_Páris não era um idiota como Menelau, mas sim, concordo, ele era despolitizado.
_Helena era uma idiota que escolheu um idiota.
_Foi por paixão. E foi uma escolha. Um ato de consciência e de liberdade. Deixou Menelau, seu reino, seus filhos…

Orravan olhou Freud com desprezo. Essa estória de paixão… Imagine, paixão!

_Dois irresponsáveis! Por causa desse “ato de consciência e de liberdade”, causaram uma guerra.
_Rapaz, você sabe muito bem que Helena foi um pretexto. Tróia proibira os mercadores gregos de passarem pelo Helesponto. Os gregos não tinham mais como obter estanho, sem pagar caríssimo. Sem estanho, não havia como transformar o cobre em bronze. A guerra foi por causa do estanho, do cobre, do alargamento das vias mercantis e da livre passagem pelo Helesponto. E os gregos tinham interesse em colonizar o litoral da Ásia Menor. Não foram os chifres, a causa da Guerra de Tróia!

Freud, nesse ponto, revidava os argumentos de Orravan e passava, ao mesmo tempo, ao ataque. O que estava em jogo, agora, não era pouco. Freud investia contra a tese, tão cara a Orravan, de que os Chifres, postos na cabeça de Menelau, foram fundamentais na construção da Cultura Ocidental (aqui).

Orravan respirou fundo. Subestimara Freud. Estava meio tonto com o revide. A ideia de uma surra era cada vez mais aprazível.

_Ser um pretexto para uma guerra já é grave – disse, sem muita convicção.
_Pretexto não é causa…

Orravan não deixou Freud terminar o raciocínio.

_Por causa de Helena, todos os heróis gregos e troianos tomaram na jaca! Por causa de uma maldita vagina! Assassina de heróis! E dizem que a sonsa estava com Páris, em Alexandria, durante a guerra!

Orravan estava aos berros. Freud, por experiência própria, sabia que os gritos eram a ante-sala de uma surra. Tinha que acalmá-lo de alguma maneira.

_Calma, Orravan, calma…

Orravan não escutava. Só via sangue. Mas, por milagre, ainda não queria dar uma surra em Freud. Apelaria, sim, mas sem utilizar a força física. Nessa discussão, sabia afinal qual era o ponto fraco de Sigmund.

_Você e suas teorias. Você não entende nada das mulheres!

Freud sustou a respiração. Intuía a argumentação de Orravan e sentiu um reboliço no estômago.

_Me diga, Freud, me diga mesmo, o que é que as mulheres querem?
_Er… bem… as mulheres são incompreensíveis…

Orravan segurou Freud pelo ombro. O frouxo já escapulia.

_Não fuja da questão, Freud. A psicanálise não explica tudo? Então me diga, o que elas querem?
_Elas são incompreensíveis… Murmurava Freud, já completamente derrotado – afetivamente, elas são incompreensíveis…
_Aaah, assim o grande Freud não sabe o que querem as mulheres. Se não sabe, não as entende, meu chapa. Não me venha então falar de Helena pra mim!

Freud estava vermelho. Quem olhasse, parecia inchado. Seus olhos não tinham direção. Mas Orravan estava num dia excepcional. Queria conversar. Ofereceu um copo de leite de gironda a Freud.

_Vamos deixar de lado essa estória de sonsice e chifres. Juro que esquecerei esse papo de Xica da Silva.

E, fazendo seu sorriso mais meigo, Orravan finalizou:

_Como está aquela porcaria, o tal Clube do Santo Nome?

DimasLins
  1. Perai, perai. Quer dizer que Helena é bicicleta? Pois fico meio constrangida, mas tenho que admitir: Luvanor fez-me descobrir que sou freudiana: adoro Helenas.

    • Segundo J.B Barnes, no seu livro “As misteriosas bicicletas de Freud”, pela Pallimard, livro censurado pela Internacional Psicanalítica, a bicicleta favorita de Freud chamava-se Helène de Bagnolet, em homenagem a uma paciente histerifóbica, prima do “Homem dos Ratos”.

  2. Ah, assim eu fico tranquila, Artur. Não posso ser freudiana: minhas Helenas têm parentesco é com o “Homem dos Gatos”.

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